Capítulo 2
Draco fechou o caderno de prova e o levou até a mesa do professor. Pegou a mochila e saiu da sala, abrindo o primeiro botão da camisa. Sorriu, seguro de si, para um dos colegas de turma, que estava encostado na parede do outro lado do corredor. Ninguém precisava saber que ele não tinha conseguido responder a primeira pergunta.
- Vai pro bar com a gente depois que todo mundo acabar? - o rapaz perguntou, parecendo genuinamente interessado. Draco sabia que, na verdade, ele estava interessado. E, se não fosse contra seus princípios, talvez até considerasse dar a ele uma chance.
Mas era. Qualquer cara da faculdade estava fora de cogitação, ponto final.
- Vou tomar um café primeiro - Draco respondeu. - Eu virei a noite estudando. Vou acabar dormindo enquanto espero todo mundo sair. Mas eu pa sso por lá.
O rapaz abriu um sorriso satisfeito, e Draco seguiu seu caminho. Queria, sim, passar no bar, para comemorar o fim de mais um ano de faculdade. Mas tinha passado a semana inteira ocupado demais para ter tempo para sua dose semanal de Starbucks.
Ou, melhor dizendo, sua dose semanal de Stella, a barista gostosa que ele adorava cantar - mas jamais levaria para a cama.
Aquela tarde pedia por um cappuccino e um muffin de blueberry, ele decidiu, ao entrar na "pequena e acolhedora" loja. Fez seu pedido e encostou no balcão, esperando que a bebida ficasse pronta.
Estava tão distraído observando Stella que não reparou na garota a seu lado até que ela falasse.
- Muffin de blueberry, Draco?
Ele não precisou virar para saber quem era a dona daquele tom debochado, mas, mesmo assim, olhou para ela.
- Algum problema nisso, Ginny?
A barista chamou o nome do rapaz, que estendeu a mão para pegar o copo antes que ela pudesse confirmar o pedido. Mas, para sua frustração, seu reflexo demorou dois segundos a mais do que devia. Ginny riu.
- Muffin de blueberry e cappuccino. Não dava pra ser mais gay, dava?
- Me diga você. É você que estuda com uma maioria absoluta de gays, não eu.
Ela suspirou. Claro, não era uma afirmação de todo errada. Mas estava longe de corresponder à realidade.
- É, até dava. Se você não estivesse comendo a barista com os olhos.
- Inveja, professorinha?
Ginny revirou os olhos e estendeu a mão para pegar o copo de frappuccino em que seu nome estava escrito.
- Ah, claro. Estou morrendo de inveja porque você quer comer ela, e não eu. Acorda, Draco. Eu não quero você.
Ela deu as costas para ele e começou a andar na direção da porta. Draco a seguiu.
- Aonde você pensa que está indo? - ele exigiu saber. Ela se virou para ele, exasperada.
- O que foi agora? - perguntou, impaciente. A verdade era que estava indo para a livraria ali perto quando o viu sair do carro, e decidiu segui-lo para provocá-lo sobre o fim da discussão da semana anterior.
- Dividir uma mesa comigo vai te matar?
- Eu não tenho nada melhor para fazer - replicou, com ar entediado, seguindo-o até uma mesa do lado de fora. Colocou os óculos de sol, e ele franziu o cenho. Aquela garota de óculos de sol Ray Ban, cabelos cacheados e unhas pintadas de vermelho estava mais para diva do que para hippie. Isso era incompreensível para ele. - Sabe, Draco... Eu fazer Letras não quer dizer que eu não tenha dinheiro.
- Eu não disse isso - ele protestou. Ela não precisou dizer nada para que ele desistisse de tentar convencê-la de que isso não era exatamente o que ele tinha pensado.
- Então... o que leva o senhor Doutor Advogado a resolver perder o tempo precioso dele comigo?
- Porque estar sozinho numa mesa do Starbucks num dia lindo como esse passa uma imagem que eu não exatamente aprecio. É melhor estar acompanhado de uma garota bonita, ainda que ela seja só uma futura professorinha.
- Isso é o mais próximo que você vai conseguir chegar de fazer elogios a alguém que não seja seu reflexo no espelho, não é?
- E você é tão vaidosa que não consegue aceitar que alguém te elogie sem que a pessoa te diga que você é a mulher mais linda do mundo. Lamento ser o portador de más notícias, mas essa é a Natalie Portman. Você perderia a graça careca.
Ela suspirou, balançando a cabeça e tomando um grande gole de seu frappuccino. Ele era inacreditavelmente arrogante e egocêntrico, mas, ainda assim, algo nele fazia com que ela não tivesse vontade de ir embora. Talvez, como ele tinha apontado, fosse o fato de que eles tinham mais em comum do que ela gostaria de admitir.
- Obrigada pelo elogio - ela replicou, se rendendo. - Se só a Natalie Portman é mais bonita que eu, então eu devo ser realmente imperdível.
- Menos, Ginny. Bem menos. Quase nada.
Riram. Ela bebeu um gole de seu frappuccino, desviando os olhos para as mãos dele, que brincavam com um guardanapo. O muffin continuava intocado no prato.
- Então, quais são seus planos para as férias? - ele perguntou, quebrando o silêncio. Ela mal conseguiu acreditar que ele tivesse feito uma pergunta interessada de verdade, sem tentar agir superior. - Praia em Ibiza? Compras em Paris? - completou, em tom de deboche. Ela revirou os olhos. Sabia que algo assim estava por vir.
- Ficar em Londres, pelo menos até o fim do mês - admitiu. - Por quê?
- Eu vou dar uma festa daqui a duas semanas.
- E precisa de mulheres bonitas?
- Sempre.
- Natalie Portman não está disponível?
- Você está?
Ela hesitou, se inclinando na direção dele. Abriu um sorriso malicioso quando viu que os olhos dele imediatamente desceram para o seu decote, e esperou até que ele voltasse a olhar para seu rosto antes de responder:
- Talvez esteja.
- E quando você vai ter certeza?
- Provavelmente, cinco minutos antes de sair, se eu não tiver nada melhor pra fazer.
- E o que seria algo melhor pra fazer? Ler Hamlet?
- Shakespeare é um excelente autor, mas, não. Edgar Allan Poe.
- Edgar Allan Poe, em vez de álcool, música e sexo? - ele parecia incrédulo. - Bom, como preferir.
- E se eu não tiver nada melhor pra fazer?
Foi a vez de Draco abrir um sorriso malicioso. Abriu a carteira e tirou de dentro dela um cartão de visitas.
- Você me liga, cinco minutos antes de sair, e eu te dou o endereço.
- Parece razoável - ela guardou o cartão dentro da bolsa, conferindo a hora no celular. - Olha, eu realmente preciso ir agora. Acho que você já foi visto na companhia de uma mulher bonita por tempo suficiente.
- Sim, acho que sim. Sábado, nove horas. Eu espero você lá. E, prometo, você não vai se arrepender de abrir mão de Edgar Allan Poe por isso.
