Capítulo 4

Draco não lembrava quando tinha sido a última vez em que ficara realmente nervoso com a idéia de sair com uma garota. Talvez, a razão daquilo fosse ela ter ligado três dias depois de uma festa da qual ele não lembrava nada.

Mas ela parecia lembrar. Dava para perceber isso no jeito como ela lhe perguntou se ele tinha planos para aquela noite, com um ar de naturalidade que o deixou um pouco confuso. O que tinha acontecido com a auto-confiança e a superioridade que eram tão típicos?

Parou o carro a duas quadras do Starbucks perto da faculdade, onde haviam combinado de se encontrar, e foi andando até o café. Ela já estava lá, sentada numa das mesas, parecendo muito concentrada no livro que estava lendo. Ele se aproximou e pousou as duas mãos sobre seus ombros, o que a fez estremecer, assustada.

- Olá, Ginny - ele a cumprimentou, sentando-se na cadeira à sua frente.

Ela lhe lançou aquele olhar, que dizia com todas as letras que queria que ele, no mínimo, elogiasse suas roupas. Lembrava-se de ter dito algo semelhante na festa, então, por que não?

- Você está bonita hoje.

Ela sorriu, guardando o livro dentro da bolsa.

- Obrigada, eu acho. Quer ir comprar alguma coisa pra beber? Eu estou esperando já tem um tempo, então... - indicou o copo de frappuccino pela metade em cima da mesa. Ele se perguntou por que ela tinha chegado tão mais cedo, mas não falou nada.

- Não. Depois, talvez. Agora, eu só quero saber por que você me ligou.

- Porque você mandou - ela respondeu, divertida. - Você me disse pra te ligar na segunda, quando eu estava saindo da sua casa. Aparentemente, era o tempo necessário para você melhorar da ressaca ou algo assim.

- Ah, sim. Eu fiz alguma coisa mortalmente embaraçosa que precise ser mencionada?

- Depende dos seus parâmetros, mas eu acho que Astoria Greengrass quer me ver morta.

Draco encarou a ruiva, confuso a princípio, mas depois a compreensão inundou sua expressão. A cena parecia confusa, desconexa, mas, sem dúvida, envolvia ter beijado Ginny na frente de Astoria. Nada bom. Com certeza, nada bom.

- Ela sempre achou que ia ter uma chance depois da Pansy - ele respondeu, com ar blasé. - Então, me conte, o que aconteceu depois disso?

Com uma naturalidade que ela jamais havia previsto, Ginny contou para ele sobre como tinham ido para o sofá, e sobre como Blaise havia sugerido que eles fossem para o quarto. Ela não precisou contar detalhes para que ele entendesse o que aconteceu depois, apesar de ter certeza de que ele gostaria de saber o que e como tinham feito.

Quando ela terminou de dizer tudo o que sabia, Draco ficou quieto por um tempo, parecendo digerir a idéia. Então, era por isso que ela tinha agido de um jeito diferente naquela manhã. Com muito esforço, ele até conseguia se lembrar de algumas coisas, mas vários momentos eram confusos demais para tudo fazer sentido de verdade.

- Bom, pelo menos eu não fiz nada muito terrível - ele disse, com um sorriso, dissolvendo a expressão ansiosa dela. Ginny assentiu. - Mas agora você descobriu que eu sou legal.

- É, mais nada de senhor Advogado pra cima de mim. Não vou mais acreditar nisso.

Ele riu, dizendo que iria comprar uma água. Perguntou se ela queria alguma coisa, e ela fez que não, e então ele a deixou sozinha na mesa. Quando voltou, ela continuava olhando fixamente para um ponto na mesa, parecendo um tanto quanto confusa.

- Tá tudo bem?

Ela o fitou e suspirou, pronta para dizer que sim. Mas, em vez disso, ela perguntou:

- E agora? Quer dizer... eu.. eu nunca fiz isso assim antes, eu... o Harry e eu éramos... eu nem conheço você direito... e eu.. eu não devia ter feito aquilo... eu sabia que eu ia me arrepender, mas... não vai acontecer de novo, e, mesmo que aconteça... vai ser estranho de qualquer jeito... não vai?

Ele esperou alguns segundos, para ter certeza de que ela tinha acabado. Ginny sentiu sua ansiedade crescer. Era realmente muito estúpida. Mal o conhecia, e já estava contando a ele todas as suas inseguranças. Ele provavelmente a acharia uma criança, incapaz de lidar com relacionamentos, e esse não era exatamente um bom jeito de começar um relacionamento.

Mas que tipo de relacionamento exatamente ela achava que teria com ele? Draco provavelmente não dormia com ninguém desde o fim do namoro com Pansy, e essa era a razão por que ele a tinha levado para a cama. Ou, talvez, ela tivesse sido só uma garota que ele tinha tanta certeza de que tinha ganho que não admitiria perdê-la. Seria estúpido esperar algo além disso.

- Não precisa ser estranho - ele respondeu. A esperança dela ressurgiu, e ele pôde notar isso na forma como a expressão dela passou de desolada para ansiosa. - Harry é seu ex, suponho? - perguntou. Ela assentiu. - E, antes dele, você não teve nenhum amigo com quem você fosse pra cama de vez em quando? - ela fez que não.

- Além disso, não é como se nós fôssemos amigos nem nada assim.

- Nada nos impede de sermos.

- Você não está falando sério.

- Eu não pretendo passar o resto das férias do mesmo jeito que passei o último mês - ele respondeu, como se aquilo fosse um argumento fundamental para ela também.

- E isso é da minha conta porque... - ela fez uma cara pensativa por um tempo, antes de abrir um sorriso radiante. - Ah, sim. Não é. Diz isso pra Astoria, Draco. Ela vai adorar ajudar.

- E qual é a graça da Astoria, Ginny? Se eu quisesse, eu já tinha ficado com ela há anos.

Ginny fez aquela expressão irritada novamente, e ele riu, sarcástico.

- Não me diga que todo o seu problema comigo está no fato de que eu dormiria com você outra vez.

Ginny baixou os olhos, sem responder. Ele estava certo, mas ela não sentia a menor vontade de admitir isso com todas as letras. Tinha medo de, mais uma vez, falar demais.

Tinha terminado o namoro de um ano e meio com Harry pouco antes da festa em que conhecera Draco, e aquela tinha sido a razão por que suas amigas tinham insistido tanto na aposta. Jamais teria previsto que o loiro faria com que ela se sentisse, nas suas próprias palavras, idiota. Idiota a ponto de ir para a cama com ele, mesmo sendo tão fortemente contra a idéia.

E, pior ainda, idiota a ponto de se sentir ansiosa à simples menção da chance de fazer isso de novo.

- Ou será que o problema é que você quer também?

- Eu não vou fazer isso de novo, Draco - ela respondeu, ficando de pé. - Se quiser, chame a Astoria. Não eu.

E, colocando a bolsa no ombro com ar decidido, saiu do café.

.x.

Ela se sentou na cama, enrolando o lençol em seus ombros, seus olhos fixos num ponto aleatório da parede verde-militar. Quando foi que "eu não vou fazer isso" virou "só se for agora"?

A resposta para essa pergunta era bastante óbvia: tinha sido quando ele lhe ofereceu uma carona até a estação onde ela pegaria o metrô para voltar para casa. Era possível sentir a tensão entre eles, e ela não conseguiu evitar sentir certo alívio ao ver que estavam a apenas duas quadras de onde ele a deixaria. E, então, quando foram se despedir, ele a beijara.

E agora ela estava ali, olhando para a parede do quarto dele, esperando que ele voltasse do banho para que ela pudesse ir se arrumar para, enfim, voltar para casa. Não que aquele pequeno desvio de percurso fosse uma coisa ruim. Na verdade, tinha sido melhor que na sexta-feira anterior. Mas ela não queria pensar nisso dessa forma.

- Mudou de idéia, Ginny? – ele perguntou, entrando no quarto e sentando ao lado dela na cama. Ela se voltou para ele.

- Eu acho que ainda prefiro quando me levam para jantar antes e tudo mais.

- É, eu imagino que deva ser meio estranho não ter... um relacionamento. Mas, sendo bem franco, isso é tudo o que eu não quero agora.

Ela suspirou, pegando as roupas que estavam empilhadas ao seu lado.

- Eu entendo. Você acabou um namoro tem pouco tempo. Ainda está traumatizado por toda a exigência e comprometimento necessários para fazer um relacionamento dar certo, e agora, deixe-me adivinhar, você sequer está no clima pra sair com uma garota, mesmo que isso seja a única coisa que ela realmente exige de você se você quiser ir pra cama com ela de novo.

Ginny jogou o lençol na cama e saiu do quarto. Draco a seguiu.

- Eu posso te levar para sair. Só não conte com isso virar um relacionamento de verdade. Porque não vai.

- Então não se dê o trabalho de me chamar pra sair. Porque, se você não sabe, isso costuma resultar em relacionamentos. Agora, com licença. Eu preciso me arrumar.

E, dizendo isso, ela entrou no banheiro e se trancou lá dentro antes que ele pudesse pensar em entrar junto com ela. Draco ficou encarando a porta, frustrado.

Se, ao menos, a ruiva fosse menos temperamental...

Tudo seria bem mais simples.