Capítulo 5
Jantar. Nós dois. Minha casa. Sete horas. Que tal?
E se eu tivesse planos?
Você tem?
Sua casa não conta como sair.
Você tinha pedido um jantar, não um encontro.
Ok, eu vou refletir sobre isso.
E então?
Jantar. Só isso.
Só isso. Você vem?
Acho que sim.
Ginny fechou o celular e o jogou sobre a cama. Vestiu sua jeans preferida, junto com a primeira camisa que encontrou no armário. Jogou o celular e a carteira na bolsa, calçou um par de sapatilhas e saiu de casa, deixando um bilhete para seus pais que dizia que iria passar a noite na casa de uma amiga - só por via das dúvidas, apesar de não pretender dormir com Draco. Nem naquela noite nem nunca, disse a si mesma, tentando se lembrar de que estava apenas sendo realista.
Terminou de arrumar a maquiagem no metrô, sem dar a mínima para o jeito surpreso como o homem sentado a seu lado a olhou quando ela tirou o lápis de olho e o espelho de dentro da bolsa. Estava tão acostumada a fazer isso, por causa da faculdade, que já nem se importava mais com as outras pessoas.
Já estou no metrô.
Quer que eu vá te pegar na estação?
Não precisa.
Tem certeza? Não é muito seguro ficar andando por aí sozinha. Burberry?
Não. Nada de Burberry hoje. Não precisa me pegar. Sério.
E se eu disser que eu quero ir?
Ela ficou olhando para a tela por quase um minuto inteiro, antes de olhar para o mapa da linha, afixado sobre a porta.
Você tem dez minutos.
.x.
Draco parou o carro na frente da estação do metrô onde iria encontrá-la e pegou o celular no painel, conferindo a hora. Não queria ficar parado ali por muito tempo. O que era irônico, já que os dez minutos que ela tinha dito que demoraria ainda não tinham passado.
E ele insistia em dizer que não estava ansioso.
Ele a viu se afastar da multidão que seguia na outra direção. Sim, ele tinha certeza absoluta de que era ela, apesar de já estar ficando escuro. Havia algo na postura dela que era inconfundível. Para não falar nos cabelos ruivos, naquela noite caindo em ondas até o meio das costas dela.
- Boa noite, Draco - ela murmurou, num tom um tanto formal, entrando no carro. Ele respondeu da mesma forma, apesar de não entender o porquê daquela frieza. Ginny fechou a porta e se virou pra ele, e ele aproveitou a oportunidade para se inclinar e beijá-la.
Ela continuava um pouco chocada quando ele se afastou e ligou o carro mais uma vez. Virou o rosto, vendo a rua pela janela, sem dizer mais nada. Draco se perguntou se tinha cruzado um daqueles limites que as pessoas costumam colocar em relacionamentos sem avisar aos outros envolvidos. E ele acabou concluindo que, sim, tinha cruzado um limite. Que ele próprio havia estabelecido.
Porque aquela demonstraçãozinha de afeto idiota era exatamente o tipo de coisa que acontecia em relacionamentos como o que ele estava tentando evitar.
- Então, foi muito difícil remarcar os planos para hoje? - perguntou, seu tom variando entre sarcástico e superior com uma naturalidade quase surpreendente. Ela o encarou e abriu um meio-sorriso.
- Não, na verdade não.
- Com quem era o encontro hoje? Poe de novo?
- Virginia Woolf - ela respondeu, imitando o ar de superioridade dele com uma precisão impressionante. - É bom variar, às vezes.
- Eu te entendo perfeitamente - ele lhe lançou um olhar significativo, e ela pareceu desnorteada pela naturalidade com que ele tinha dito aquilo. - Tudo bem falar nisso, Ginny. É quem eu sou, certo? Era de se esperar que você estivesse acostumada com isso, a essa altura.
- Geralmente os caras que me dizem isso não são os mesmos que me chamam pra jantar e tudo mais - ela murmurou, embaraçada. Draco riu.
- O meu caso é o contrário. Mas não vamos falar nisso, certo? Tenho a impressão de que algumas mulheres acham... deselegante falar de outros relacionamentos quando você tá com...-
- Uma mulher em que você está interessado?
- Sim - parou na frente do prédio em que morava e destravou as portas. - Ainda dá tempo de fugir.
- É o que você espera que eu faça?
- Uma parte de mim deseja isso, sim.
Ginny congelou no meio do movimento de abrir a porta. Não sabia se o que mais a surpreendera tinha sido a honestidade da forma com que ele disse que queria que ela sequer tivesse aparecido ou o fato de que havia uma parte dele que realmente queria que ela ficasse.
- Por que você me chamou pra vir se você não queria que eu viesse?
- Você disse que queria que eu te levasse para jantar. Eu entendi o recado.
Saíram do carro e pararam diante do portão de ferro.
- E qual é o problema disso?
- A última vez que eu cozinhei foi pra Pansy.
Eles se olharam e Draco fez sinal para que ela entrasse primeiro. Entraram no elevador ainda em silêncio, ele se sentindo um idiota por aquela franqueza desnecessária, ela sem saber o que dizer.
- Você ainda gosta dela, não? - ela perguntou, quando ele destrancou a porta do apartamento. Draco a olhou, pego de surpresa por aquela pergunta. - Você fala nela o tempo todo.
- Ela me ligava a cada vinte minutos quando eu saía com meus amigos, me mandava umas quinze mensagens por dia e fazia questão de passar pelo menos o sábado ou o domingo comigo. Além disso, ela era ruim na cama. Assim, só uma boneca inflável era pior, sabe?
Ginny se controlou para não rir. A franqueza como ele disse isso a fez notar que Draco estava falando sério. Ele não estava menosprezando a tal ex só por hábito. Ele o fazia porque ela merecia.
- Vocês passaram quanto tempo juntos?
- Mais de seis meses. Isso te diz alguma coisa sobre o que eu sentia por ela?
- Então, todo aquele discurso sobre "eu não quero um relacionamento" era bobagem?
- Não, não era. Pode me ajudar aqui? - ele inclinou a cabeça na direção da porta da cozinha. Ginny suspirou, exasperada. - Eu não tô fugindo do assunto. Só gostaria de ajuda - jurou. Ela jogou a bolsa sobre o sofá da sala e o seguiu até a cozinha. - Pega as taças no armário em cima da mesa? Ginny, eu realmente não quero nada daquela bobagem de ter que ligar no dia seguinte a uma transa especialmente boa, ligações sem propósito, mensagens pra dizer bom dia, não poder olhar pra outras mulheres, discutir a relação, não poder nem pensar em homens... Eu agüentei isso com a Pansy porque eu realmente gostava dela. Mas eu não suportaria isso por nem um segundo com você.
- Porque você não gosta de mim.
- Porque eu ainda gosto dela. O que é mais uma razão pra eu não querer que você espere alguma coisa séria entre a gente.
- No fundo, você não é o carinha desalmado que eu achei que fosse.
- É, mas eu tenho uma imagem a manter - abriu um sorriso sarcástico e os dois sentaram à mesa,
- Eu não sou ela, Draco.
- Eu preciso descobrir isso por mim mesmo. E é pra isso que você está aqui.
- Eu achei que fosse porque você sabia que não ia me levar pra cama outra vez sem nem jantar comigo antes.
- Se essa fosse a minha única intenção, eu ligaria para a Astoria. Ou para o Blaise. Duvido que um dos dois fosse se importar. Mas eu não vejo como isso me ajudaria a te conhecer melhor.
- Eu achei que você não estivesse interessado nisso.
- Que parte de "nós podemos ser amigos" você não entendeu?
Ela olhou dele para a taça de cristal, cheia até a metade com vinho branco, e então sorriu. Sabia que ele só estava fazendo aquilo para fazê-la ceder.
Mas, concluiu, não se importava nem um pouco com isso.
