Capítulo 1
...
Acordara estranhamente suada e ofegante. Relacionando seu estado com os costumeiros pesadelos que a assombravam, esgueirou-se até a pequena bacia com uma mísera quantia de água, o suficiente apenas para lavar o rosto e espantar os vestígios de sono. Fez um rápido bochecho com as sobras do recipiente e dirigiu-se ao outro lado do pequeno aposento abandonado a fim de recolher seu véu e apanhar um pedaço de pão velho que conseguira na vila anterior. Comeu vagarosamente e, enquanto isso, deixou sua mente vagar.
Ora, era uma hospedeira.
Sua mãe lhe dissera uma vez que quando havia nascido seu coração não batia, castigo dos deuses às mulheres que fugiam dos maridos, diziam, mas todos sabem que uma mãe desesperada fazqualquercoisa para preservar o filho. A senhora Nakayama então, com coragem e amor sobre-humanos iniciou um ritual proibido, passado à sua família por gerações. O ritual da ressurreição.
A jovem mãe invocou um youkai de alto nível e barganhou com o demônio, propondo uma troca. - Que sua filha pudesse viver por algum tempo. Assim, a alma da jovem pertenceria àquele misterioso ser quando atingisse a maioridade - O youkai sorriu desdenhoso e acabou por ceder à proposta. O resultado final poderia ser divertido. " Eu aceito seu pedido,humana" cuspia as palavras desdenhosamente "Mas não se esqueça..." seu sorriso escarnecedor aumentava a cada palavra "Daqui a dezoito anos eu voltarei para buscar minha recompensa." E tão breve como apareceu, sumiu em meio a uma densa fumaça escura, com um embriagante aroma amadeirado.
Piscou várias vezes a fim de espantar os fantasmas do passado.
"Não é hora de recordar memórias de anos atrás! Pense no presente, Rin! P-r-e-s-e-n-t-e! Hoje é seu aniversário de 18 anos, anime-se!"Dizia a si mesma a jovem morena, sem muita convicção.
Começou a andar em meio a construções abandonadas e pedregulhos, resultado das constantes tempestades de areia causadas pela chegada da estação seca à região. Tomando cuidado para não tropeçar nas pedras menores, parou em frente a um pequeno lago para examinar sua aparência – Ora, não era tão ruim assim! Seus finos cabelos castanhos cascateavam longos e soltos pelas costas, formando pequenos cachos nas pontas. Algumas mechas insistentes caiam-lhe à face, encobrindo seus grandes e penetrantes olhos amendoados que irradiavam vida e calor. Nunca gostou muito de seu nariz, achava-o muito arrebitado, fora os problemas de respiração causados pelo tempo seco de seu país. Seu sorriso, Ah! O sorriso, seu maior orgulho. Kaede-sama dissera uma vez que possuía o mesmo sorriso sincero e gentil de sua mãe, e que sempre exibia-o aos quatro ventos, sem razão aparente. Sorriu com a lembrança.
Pôs-se a analisar seu corpo. Mirrado, pequeno e sem curvas. Como queria ter peitos maiores! "Como os das dançarinas da cidade!"Pensou ela, inconscientemente levando suas mãos à altura do peito, desviando o olhar para aquelamarca.
Na altura de seu coração, uma cicatriz semelhante à lua crescente marcava sua pele. Este era o sinal que simbolizava o acordo entre um humano e um youkai, marcando-o como seu escravo, ou alimento,pelo resto da vida. Este era o porquê de viver solitária. Sempre que chegava a um vilarejo, não demorava para que boatos se espalhassem, e logo a morena era afugentada por aldeões furiosos, cegos pelo medo, com estacas e cruzes em mãos.
Já estava acostumada com tais infortúnios. Não sentia mágoa dos aldeões, entendia o medo deles. As pessoas temem o que desconhecem, pensava. Também não tinha rancor algum pelo youkai que lhe ofereceu uma chance de viver, pelo contrário, era muito grata, e toda sua caminhada até hoje teve como propósito apenas uma coisa: encontrar o paradeiro de seu salvador.
"Certo, mais uma vila para procurar!"a menina pensava consigo mesma. Respirando fundo, passou a ajeitar suas vestes e seu véu, para que não houvesse chance de reconhecerem-na. Recolhendo sua velha bolsa e seu alaúde, dirigiu-se finalmente, para a entrada do novo vilarejo, e sentiu, por alguns segundos, uma estranha sensação, como se alguém estivesse observando-a de longe, com olhares penetrantes. Ignorou imediatamente a sensação, que passou rápida como um flash, e adentrou a vila.
