Sweet little words made for silence, not talk

Young heart for love, not heartache

Dark hair for catching the wind

Not to veil the sight of a cold world

Nightwish – While your lips are still red


...

Acordo Vital

Capítulo 2

O sol despontou no horizonte, iluminando tudo ao redor com seus raios mornos e acolhedores. O mundo, com ele, despertou, dando boas vindas à nova manhã. Aldeões abriam suas janelas, os maridos saíam para armar as barracas da feira, esposas ficavam em casa tomando conta das crianças. Sons; vários deles marcavam sua presença, como uma envolvente trilha sonora que mescla ruídos de carroças com os encantadores pios dos pássaros, conversas e... Música. Uma doce melodia destacava-se em meio à multidão, fazendo passos apressados estancarem, suavizando suas feições fechadas em carrancas.

Ali estava ela, a gentil menina, tocando seu alaúde¹com primor; seus dedos percorriam as cordas tão graciosamente quanto um carinho materno, e a voz que acompanhava as notas era de um timbre angelical. À sua frente, um pequeno saco de estopa aberto receptivamente que, de quando em quando, engolia alguns pares de moedas nos intervalos entre uma música e outra. Ao fim do extenso repertório, a morena decidiu cessar as apresentações; seguida de aplausos e elogios, caminhou até seu saco de moedas e deu um suspiro de alivio ao constatar que teria dinheiro o suficiente para comer algo decente e se hospedar em uma pensão. Agarrou seus pertences e correu em direção a uma construção simples de dois andares com uma placa deveras chamativa: "Pensão Taijiya" estava cravado lá, em grandes e desiguais garranchos.

Adentrou o recinto, observando minuciosamente o lugar, mas não havia ninguém na sala de recepção, apenas um sofá encardido em um canto da sala, e na outra extremidade, um balcão com vários pergaminhos organizados, um pequeno sino e penas de escrita em cima. Rin então, como a menina serelepe que era, começou a balançar impacientemente o pobre sino – Ó de casaaa! Oláá, tem gente aqui embaixo esperando para ser atendida! - a morena começava a ficar aborrecida com a demora, e já preparava-se para dormir na rua, quando ouviu um baque, uma maldição e passos rápidos. – Ah! Temos clientes, que maravilha! Kohaku-kun, vá preparar um quarto!- Uma jovem de cabelos longos e castanhos – mais claros que os de Rin – apareceu na ponta da escada, com um sorriso na boca e um galo na cabeça. Apesar do estado da moça, Rin pôde perceber que ela era muito bonita e simpática, esta última era uma qualidade que apreciava muito. – Ah, olá dona...- ia começar seu discurso, mas foi cortada pela anfitriã – Ora, por favor! Meu nome é Sango Taijiya! Desculpe-me pela demora em atendê-la, mas estava guardando algumas bugigangas, preciso dar um jeito neste lugar! - a Taijiya comentava, com uma gota na cabeça.

- T- tudo bem, Sango-san, eu realmente não pretendia atrapalhar você, apenas queria arranjar um lugar para dormir esta noite e acabei me equivocando – justificava-se uma acanhada Rin.

- Esqueça isto, por favor! Bem, bem vamos ver...Este aqui – Sango dirigiu-se ao balcão e começou a revirar as folhas – Kohaku! Ande logo menino, não tenho o dia todo! – Encontrou um rolo escurecido, e entregou uma espécie de pergaminho para a menina – Prontinho, apenas assine seu nome aqui, o resto ajeitamos depois! –

- Mana! Está tudo pronto, a cliente já pode subir – Um garoto com aparência jovial, descia as escadas suado e afobado. Cabelos médios, presos em um rabo, kimono cinza e simples...Rin tinha certeza de que já o tinha visto em algum lugar antes

– Ahh! Ei, você – o menino interrompeu seus pensamentos – Você não era aquela garota que estava tocando hoje de manhã na feira? Cara, como você é boa nisso! Qual o seu nome? – o pequeno disparou a perguntar, forçando a jovem moça a encará-lo com uma gota na testa

– B-bem, meu nome é Rin, Rin Nakayama, e sim, era eu quem estava tocando na feira...Fico grata com os elogios – A tímida garota agradecia a tudo, achando graça da situação. Era a primeira vez que era tratada com tanto carinho, mas estava realmente faminta, e precisava descansar – Com licença, Sango- san, Kohaku- san, mas será que eu poderia subir agora? –

- Mas é claro Rin-san! Venha, siga-me, eu te levo para o quarto, enquanto minha irmã prepara algo para você comer, imagino que esteja faminta...- Kohaku-san realmente pareceu ler seus pensamentos, mas não fez nenhum comentário a respeito, estava poupando suas forças. Depois de subir dois lances de escada, Rin esperou o menino destrancar a porta do primeiro quarto à esquerda, e ao fazê-lo, estendeu uma das mãos num gesto de cavalheirismo, indicando passagem à moça. – Deixarei que você descanse um pouco agora, Rin-san, logo Sango-chan aparecerá para entregar a comida. Ah! Hum...Amanhã... você irá tocar de novo? – Kohaku começara a falar mais que a boca, novamente.

– Ah, Kokaku-san, me chame apenas de Rin, por favor! E sim, pretendo tocar amanhã de novo, música é a minha vida...-

-Então me chame apenas de Kohaku também, p-por favor!- cortou-a, corado – Então, estarei lá amanhã também, R-rin! Boa noite! – E com isso, saiu apressado.

Alguns segundos passaram, até que a jovem pudesse ter certeza de que Kohaku havia partido.

- Finalmente, só! – a morena deu um suspiro de alívio, e enfim pode analisar atentamente o quarto em que estava hospedada. Móveis rústicos, mas com um ar aconchegante. Havia uma cama de solteiro, com lençóis dobrados e um travesseiro de aparência fofa; ao lado, um criado-mudo com uma moringa² de barro e um copo que tampava o recipiente em cima. Sem perder tempo, correu para a cama, jogando-se satisfeita, podendo finalmente relaxar os músculos e dormir; mas foi impedida imediatamente por um lapso que a lembrou do estranho ocorrido de mais cedo. Apesar de toda sua felicidade, algo realmente chamou sua atenção naquela manhã. Aquela sensação de ser observada voltara ao longo do dia, e permanecera até que entrasse na pensão. Rin não era de se assustar com qualquer coisa, mas esse evento realmente estava a deixando acanhada. Fechou os olhos com força e sacudiu a cabeça para espantar os maus pensamentos, era tudo obra de sua imaginação, e obrigou-se, então a descansar um pouco.


Um par de horas mais tarde, o suficiente para que a morena descansasse, Sango apareceu com um prato generoso de comida, iniciando uma conversa gostosa enquanto a garota comia avidamente. Descobriu que o banheiro ficava na porta à frente de seu quarto, e deu por si realmente precisando de um banho. Separou sua única troca de roupa e despediu-se de Sango, que a puxou para um abraço caloroso e ofereceu-se para ajudá-la a preparar o banho.

Enquanto Sango misturava folhas secas e algumas flores exóticas à agua aquecida, Rin despia-se lentamente em um canto, de costas para a Taijiya, enrolando-se em uma toalha branca logo depois para entrar desajeitadamente na banheira.

A sensação de relaxamento foi imediada. Rin sentiu cada músculo do seu corpo sucumbir à agradável temperatura da água. Sentiu-se leve como uma das plumas dos travesseiros da pensão, e fechou os olhos em conforto quando Sango esfregou suas costas. O suave aroma das folhas e flores secas na água impregnavam sua pele e seus cabelos, embriagando-na com satisfação. A última visão que teve foi a de uma toalha branca indo ao encontro de seu rosto, secando-a com uma gentileza excessiva.


A lua pendia baixa no céu. Seu brilho prateado dispersava-se pela noite, conferindo um ar misterioso ao vilarejo; uma agradável brisa soprava suavemente seguindo seu longo percurso em direção ao mar. Uma típica noite de verão.

Em meio à bela paisagem, uma exótica criatura pousou perfeitamente na ponta do telhado da casa mais alta do local. Seus cabelos, agitados pelo vento, dançavam belamente em seu rosto; dependendo do ângulo, algumas mechas mesclavam-se com a enorme lua, tão alva sua cor. Entre os fios travessos, dois pontos do mais puro âmbar brilhavam intensamente, como se quisessem competir com o brilho das tochas noturnas.

Opondo-se à sua incontestável beleza, uma assustadora aura maligna irradiava da criatura.

Retraiu as garras e abaixou sua mão direita, repousando-a ao lado do quadril. Ergueu o rosto vagarosamente, farejando o ar com atenção.

- Está aqui - murmurou para si mesmo, seus olhos tomando um tom levemente avermelhado.

- Vamos, Jaken – suas palavras foram tomadas por um rosnado, seguido por um fino sorriso de desdém.

- H-hai, Ssseshoumaru-sama – O pequeno youkai de voz arrastada se pronunciou, assustado.

E assim como surgiram, desapareceram deixando apenas uma névoa densa e uma essência capitosa.


Rin acordara subitamente, uma dor lancinante queimava seu peito. Com o susto, acabou caindo da cama, machucando os cotovelos no processo. Mas como diabos foi que acabou chegando à cama? A última lembrança que tinha era de estar completamente relaxada na banheira da pensão, com a Taijiya esfregando suas costas.

"Deuses! Não tenho tempo para me preocupar com isso"pensou a garota.

Esperneou-se para perto da cama e encostou-se ali, sua concentração agora estava focada em manter a respiração regulada, mas cada fôlego que tomava rasgava seu pulmão como milhares de facas quentes. Inconscientemente levou as mãos abaixo do peito."Quente",constatou. Estranho, sua cicatriz nunca havia lhe causado problemas, bem, apenas com as outras pessoas, mas dores físicas?Alguma lacuna não estava preenchida na história, alguma lembrança de que não se conseguia recordar, talvez?

A noite passou dessa forma para a morena, vez ou outra com algumas pontadas de vertigem, até o começo da madrugada, quando inexplicavelmente qualquer vestígio de dor que havia sentido anteriormente se extinguiu. Estava quase embarcando no mundo dos sonhos novamente, olhos semicerrados, respiração pesada.

Antes de apagar completamente, um vislumbre.

Olhos âmbar encaravam-na em um misto de frieza e desejo feroz.


Glossário:

Alaúde: antigo instrumento de corda. sua caixa possui um formato de meia pêra.

Moringa: recipiente de barro, ou outros materiais, usado para armazenar líquidos.

Repostando os capítulos com algumas mudanças, obrigada pela paciência! ^^v