Respirar & Suspirar
Por - Buba-chan
Abriu os olhos lentamente ao sentir algo gelado pousar sobre seu rosto. Estava com a visão embaçada e seu corpo todo latejava de dor. Fitava o céu cinzento a cima de si, e sentia o sacolejar suave do local em que estava deitada junto com o barulho de cascos contra o chão. Levou sua mão direita ao rosto, acariciando-o e sentindo o frio de suas bochechas, suspirou.
Ainda estava vivo. Ferido, mas vivo, mas não sabia ao certo se estar vivo era uma dádiva; já que não conseguiu proteger Hinata, sua missão fracassou. Para piorar a situação, Neji não estava em condições de lutar e, provavelmente, o reino já estaria todo destruído há essa hora. A única coisa que restou da tragédia da noite passada – Contando com a destruição do reino, o seqüestro da princesa herdeira e a traição de Orochimaru- ficaria na história. Sabia disso mais do que qualquer um.
Suspirou e viu sua respiração se tornar a costumeira fumaça branca dos dias de neve e camuflar, por alguns segundos, os flocos brancos que caiam. Surpreendeu-se quando seu corpo perdeu o contato com a superfície que lhe sustentava e fechou os olhos, esperando um impacto violento. Mas se surpreendeu quando sentiu sua cabeça chocar-se contra algo macio e quente. Abriu os olhos e viu que, acima de si, um par de olhos castanhos o fitavam preocupados, sem deixar a curiosidade ser camuflada pela preocupação.
- Você está bem? – Ao ouvir a voz feminina, por instinto procurou sua espada, mas não a encontrando e tendo que se levantar repentinamente em procura de algo que fosse afiado. Uma dor infernal lhe fisgou o abdômen, levando Neji contra o chão em segundos, gemendo de dor e segurando o local com força. – Calminho ai! –Sentiu uma mão lhe levantando a cabeça e pousando-a sobre algo macio novamente. Algo gelado pousou sobre a dor, amenizando-a e ao mesmo tempo fazendo-a arder. Com um pequeno protesto tentou levar a mão ao local, mas sendo impedido, resmungando algo que nem ele mesmo entendeu. - Se você saltar daquele jeito de novo seu ferimento vai abrir e serei obrigada a amarrá-lo.
Os olhos perolados se focaram na menina que limpava seu ferimento. Usava roupas de camponesa, meio amareladas, e os cabelos eram presos em dois coques, cada um de um lado da cabeça. Como era esperado, a respiração da moça também virava fumaça branca e seus dedos estavam gelados contra o ferimento, a única coisa que a diferenciava era uma tornozeleira dourada muito chamativa sobre seu pé direito.
- Me chamo Tenten. – Comentou inocente, terminando de limpar o ferimento de seu suposto paciente e esperando alguma resposta. Passando alguns minutos, sem resposta, Tenten olhou para ele, que permanecia calado, olhando o céu cinzento. Suspirou e abraçou os próprios joelhos. – Sei que o que aconteceu com você deve ter algo haver com o massacre do castelo Hyuuga... – Ao sentir o olhar frio sobre si, arrepiou-se, e continuou. – Olha, se você quer ajuda, preciso pel-...
- Não quero sua ajuda. – A voz fria a rouca soou pela primeira vez no ambiente. Os olhos perolados se fecharam. – Você não pode me ajudar. – Ouviu um fungado vindo da direção da garota, ouviu também uma pequena risada e por ultimo ouviu alguém deitando ao seu lado. – Pelo jeito você não quer saber se pode ou não me ajudar, certo? – Abriu os olhos e virou a cabeça para o lado, vendo-a olhando o céu com um grande sorriso no rosto.
- Certo. – Disse Tenten animada. – E quem disse que eu não posso lhe ajudar? – O sorriso sumiu da face feminina, dando lugar para a seriedade. – Analisando a situação em que se encontra; sem dinheiro, ferido, perdido e com seu reino destruído, acho que não conseguira algo melhor do que eu para te ajudar. E olha que eu sei usar adagas, fazer curativos e cozinhar! – Ele tinha que admitir; essa camponesa não era nada ingênua. Muito pelo contrario! Esperta demais para uma mulher, além de muito util. Já ela não ligava para o que seu paciente temporário e futuro sócio pensava a seu respeito; esperou a resposta de sua pergunta inacabada... Sabia que ele responderia.
- Sou Neji, Hyuuga Neji. – Disse seriamente, selando finalmente seu contrato com aquela camponesa estranha. E ouvindo o barulho de pequenos guizos enferrujados, deixou-se relaxar. Deliberadamente comentou, sem pensar muito nas palavras certas para usar. – Me pergunto o que uma camponesa que, além de saber usar adagas, sabe fazer curativos e cozinhar está fazendo sozinha em uma estrada completamente vazia como essa? – Tudo isso que acabara de comentar, querendo ou não, era suspeito demais. Ao ouvir uma risada marota vindo de Tenten, entendeu que havia comentado algo errado, então apenas esperou a correção vinda da garota.
- Primeiro, eu não estou sozinha; meu amigo Rock Lee é quem está conduzindo a carroça. Ele é meio esquisito, mas pode ser bem útil às vezes! – Acrescentou ela, inocente. – Segundo, quem disse que eu sou camponesa?
- Não é? – Foi inevitável não abrir os olhos e mirar o perfil feminino acima de si.
- Na verdade, sou filha de uma cigana com um membro da elite de algum reino por ai. – Esclareceu ao sentir os olhos perolados sobre seu rosto. Se seriam sócios a partir daquele dia, havia muitas coisas para comentar com Neji. Muitas coisas mesmo. – Sinto que essa parceria será bastante interessante.
Estava a caminho de seu destino o mais rápido que suas pernas conseguiam correr. Carregava a princesa inconsciente nas costas, enrolada por sua capa preta para amenizar o aroma de sangue que ela emanava fortemente. A pele, a camisola e os cabelos, antes perfumados com a fragrância de mil rosas desabrochando, agora tinham o cheiro de sangue fresco e quente. Não fazia idéia da real condição que havia deixado a Hyuuga, mas não estava em seus planos fazê-la ficar em tal situação; tão lastimável a ponto de quase morte. E o pior era que, por algum motivo totalmente desconhecido, o sangue que banhava quase todo o corpo pálido da garota em suas costas, o enlouquecia!
Não se lembrava da ultima vez que tivera tanta sede pelo sangue de alguém daquela maneira. Mas o que não entendia era o porquê dessa sua doença voltar átona assim; tão misteriosamente quanto havia aparecido pela primeira vez em sua infância. Sim, ele era doente. Porem sua doença não tinha nome – apelidada carinhosamente de "vampirismo"-, cura ou remédio que pudesse amenizar seus efeitos colaterais, restando apenas sua mente sã; que por todo esse tempo, dominou a doença bravamente.
A mente domina a matéria. Lembrou-se da frase que o motivou a enfrentar a loucura. Tais palavras haviam vindo de um sábio cliente, que mandou assassinar a própria esposa. Era um senhor já de idade, com calvície e cheio de vícios, tais como o fumo e o álcool.
Despertou de suas lembranças ao sentir a princesa mexendo-se desconfortavelmente, ameaçando despertar no meio do caminho. O que faria se ela acordasse? Não poderia agredi-la; já estava acabada. Não poderia amarrá-la; já havia usado a corda para amarrar os guardas na noite anterior. Sabia muito bem que sua missão era apenas capturá-la, mas provavelmente teria reclamações sobre o trabalho. Fraturas, ferimentos e cortes seriam descontados do pagamento final, e isso não o agradava nem um pouco. Por sorte, seu destino não estava tão longe; apenas 10 quilômetros separavam Sasuke do castelo de Orochimaru.
Muito bem observado; 10 quilômetros separavam.
Foi obrigado a recuar com um grande salto, ao ouvir algo sendo atirado em sua direção. Desviou facilmente, lógico. Fácil demais. Mal conseguiu reagir quando algo o acertou pelas costas, tão rapidamente quanto um raio, e em um piscar de olhos pode apenas sentir um forte chute em seu estomago, que o jogou para longe. Longe o bastante para cair no chão e ralar seu rosto pálido. Um grito de dor surgiu abafado, atrás de si, fazendo-o perceber que o corpo da princesa amortecera o impacto.
Merda! Praguejou mentalmente, soltando a princesa e a colocando deitada sobre a grama verde do local em que estava. Viu o corpo pequeno se contorcer de dor e os braços finos da Hyuuga abraçarem o próprio tronco, buscando conforto ou pelo menos amenizar a dor que sentia. A única coisa que conseguia dizer, ou melhor, sussurrar era; "itai..." varias e varias vezes, seguidas da respiração acelerada e de um pequeno choro vindo de Hinata.
Era impossível olhar a imagem da garota deitada sobre a verde grama e não notar o contraste que ali havia. Vermelho vivo e verde musgo; as duas cores predominantes em tal situação, um tanto problemática. Entre os lábios secos de Hinata um suspiro dolorido escapou, deixando o assassino mais preocupado ainda. Sua missão era entregá-la com vida, mas agora, toda a vida que restava para ela, era usada para tentar sobreviver. Suas costas e costelas doíam, seu corpo ardia devido a alguns cortes e não conseguia puxar ar o suficiente sem que uma fisgada terrível lhe interrompesse; somente restava esperar a dor se amenizar com o tempo.
Repentinamente teve seus braços separados de seu corpo por duas mãos ásperas. Não resistiu e abriu os olhos, procurando o responsável por tal ação desnecessária. Chocou-se ao ver o homem que quase a matou com a face preocupada, enquanto deslizava as mãos sobre os ossos de suas costelas; involuntariamente todos os pelos de seu corpo se arrepiaram com o toque do assassino, e um tom rosado apareceu sobre suas bochechas, dando-lhe um ar mais vivido. Sasuke estava concentrado demais em sentir os ossos das costelas pequenas para perceber que a princesa lhe olhava fascinada, talvez com sua preocupação, ou não. Graças aos céus todos os ossos estavam inteiros. Talvez o impacto causou a dor que ela sentia, mas logo passaria, e isso o alegrou sem perceber.
Mais a alegria durou pouco.
Por reflexo, pegou e desembainhou a katana e virou-se rapidamente ao sentir uma presença atrás de si, bloqueando uma lamina muito familiar. Os olhos de Sasuke se arregalaram inconscientemente ao ver que, quem o atacava era nada mais, nada menos que Itachi. O que ele estava fazendo? Por acaso estava louco? Atacando o próprio irmão daquela maneira covarde, enquanto tentava cumprir a missão em que ambos estavam trabalhando.
- Itachi, o que pensa que está fazendo? – Falou seriamente o Uchiha mais novo, ainda bloqueando o ataque do irmão.
- Eu que pergunto. – Disse o mais velho, após uma longa pausa. – A situação dela é lastimável, Sasuke. – Comentou enquanto pousava os olhos negros sobre a figura deitada na grama. – Está quase morta. – Concluiu, vendo a respiração irregular de Hinata e os vários ferimentos espalhados pelo corpo pálido.
- Cala boca Itachi! – Irritou-se involuntariamente com os comentários maldosos do irmão. Como se ele não soubesse o estado em que havia deixado a garota! Que estupidez era aquela que estava acontecendo? – Porque esta me atacando baka?
- Não se culpe Sasuke. É apenas mais uma missão. – Comentou calmamente e logo após sumiu da visão do irmão mais novo, reaparecendo próximo da princesa. Puxou os cabelos escuros e compridos, levantando o corpo machucado da grama por eles. E ao visualizar todos aqueles cortes, arranhões e ferimentos ensangüentados, entendeu tudo o que havia acontecido; Sasuke teve uma crise de vampirismo no meio de uma missão. – Então você teve uma crise, huh?- Não era a primeira vez que isso acontecia. Mas havia tanto tempo que as crises não reapareciam que Itachi pensou que o irmão estava curado. – Orochimaru não vai gostar nada disso.
Talvez não precisasse comentar tal coisa. Viu os olhos de Sasuke tornarem-se vermelhos e furiosos, enquanto caminhava em passos lentos em sua direção. Isso era um mau sinal; todas as vezes que as crises começavam, os olhos de Sasuke mudavam do preto profundo para o vermelho sangue. Mas não entendeu direito o porquê de uma crise começar assim do nada, já que não havia sangue sendo escorrido no momento. Pensou melhor e apertou os cabelos sedosos contra os dedos, viu que além da camisola de seda real ser vermelha, o estado em que a Hyuuga se encontrava era propicio àquilo. Cheirava a sangue e sabia que Sasuke conseguiria sentir aquele aroma a quilômetros de distância, principalmente em meio de uma crise.
Droga! Sabia que não tinha chances contra Sasuke, pelo menos enquanto estava naquele estado doentio. Nem todo dinheiro do mundo o incentivaria a lutar até a morte em uma situação como aquela; no mínimo precisaria da ajuda de alguém, para servir de isca, enquanto ele atacaria de surpresa. Mas tendo somente ele ali, segurando o "objeto precioso" do irmão, isso não iria prestar. Não tem jeito. Concluiu, soltando os cabelos da princesa e desaparecendo o mais rápido que conseguiria; de esguelha pode ver o irmão corre e segurar o corpo da princesa antes que ele tocasse no chão novamente, e olhá-la faminto.
Já que a primeira etapa de sua missão não fora cumprida, partiria para a segunda parte; Matar Orochimaru.
