Aproveitando que escrevi dois capítulos nessa semana, já estou postando mais um! Este está um pouco mais comprido do que os outros, mas por enquanto foi o que mais gostei. Ao longo da leitura compreenderão o porquê ^^
Capítulo Três
- Então, minha mãe e o pai de Hakudoushi foram criados juntos, dividiram a infância? – A jovenzinha repousava uma das mãos sobre o queixo e tornava a fitar a cabeceira da cama onde estava sentada vez ou outra até que seu olhar retornasse à direção do rosto da ama.
- Senhorita Linton, o verdadeiro Naraku nasceu em Wuthering Heights, consideramos como sua origem... O que se deu de sua vida nos anos anteriores até hoje é considerado um mistério...
Enquanto as duas mantinham o diálogo como única forma de passar o tempo até o amanhecer, ainda deitado sobre o jazigo da mulher amada permanecia o imponente Heathcliff, sua capa negra já tornava-se cinzenta devido à fina camada de gelo que se formava por sobre o tecido esfarrapado, já não mais novo. Suas mãos cavavam pequenos buracos revelando a terra negra por baixo da baixa relva e nela se afundavam. Fazia algum tempo que praticava esse ritual à noite.
- Sinto o seu toque gentil, Kikyou... É macio e frio como essa terra que me acolhe. O destino foi cruel ao me dar saúde para ter uma vida duradoura. Gostaria de estar no lugar de seu viúvo Linton agora, contando as poucas horas que restam ...
E após os sussurros de lamentação, o homem fechava os olhos e afundava parte do rosto naquela terra úmida.
- Posso lembrar-me de tudo... Sim... Como se fosse ontem.
- Está aí novamente? O procurei por toda a charneca! – A voz suave como os ventos que se cruzavam no topo do morro soou aos seus ouvidos, despertando-o de suas divagações.
Estava sentado sobre uma rocha, apreciando a visão do horizonte que somente Wuthering Heights proporcionava. Aproveitava a sombra de uma árvore alta e larga, cujas folhas verdes escuras cobriam a fraca luz do sol. Virou o rosto, avistou a imagem que sempre lhe felicitava. Estava ela sempre com os negros e lisos cabelos soltos, esvoaçados, bailando ao toque do ar gelado. Eram os mesmos olhos negros de cílios longos e a pele alva e pálida da infância, mas o corpo amadurecera com os anos e era o que o fazia refletir em como ela transcendera de menina para mulher. Estava a usar um vestido da cor do céu nublado, luvas negras de lã nas mãos e um delicado cachecol azul claro envolta do pescoço. Simples, porém perfeita.
Abriu um curto sorriso, e antes que pudesse levantar para cumprimenta-la, a jovem se adiantara e o alcançara, passando os braços por cima de seus ombros, abraçando-o pelas costas.
- Por que me abandonou hoje? Sabe que gosto de passar o dia em sua companhia, Kaede já está passada do ponto, está demasiadamente velha para dialogar comigo, acabamos por discutir quando tentamos! – Tal comentário sobre a ama fora seguido de um breve riso.
- Você é terrível Kikyou! – Ele a repreendeu em tom de brincadeira – Aprecio sua companhia, mas hoje quis ficar um pouco só, e assim aproveitar melhor o tempo frio, o vento gelado...
- E por acaso a minha companhia tornaria o vento frio menos apreciável ? – Deixou de abraça-lo e foi para frente dele, permanecendo de pé e colocando as mãos na cintura, encarando-o imponente.
- Não foi o que quis dizer. – Ele fechou o sorriso, fitando-a diante de si tão superior. – Você não gosta de privacidade de vez em quando?
- Ah, então agora estou invadindo a sua privacidade, Naraku Heathcliff? – Arqueou uma das sobrancelhas, alterando o tom de voz .
- Kikyou, não comece! – Virou o rosto, desdenhando da seriedade que a jovem transpassava e inclinando-se mais sobre a pedra.
- Pois bem, aproveite a sua solidão! – Emburrada com a indiferença como fora tratada, arrancou o cachecol do pescoço e atirou-o em cheio na face do homem, querendo provoca-lo de alguma forma.
Naraku respirou fundo, tirando o pano de seu rosto e apertando-o com a mão. Avistou-a se afastar naquele andar imponente, autoritário que tinha . Era certo que era uma jovem linda, inteligente e agradável, mas também sabia ser insuportável quando queria. Ela sabia o quanto Naraku ficava irritado quando fazia cenas como essa, e por isso as fazia de propósito no intuito de chamar sua atenção.
- Espera que eu a siga, realmente? – Falou em tom alto o suficiente para que a moça pudesse ouvi-lo enquanto se afastava de mal humor. – Por que não pede, já que quer tanto atenção? – Era óbvio o seu tom de deboche.
- Não insistirei em sua companhia visto que até a pedra é mais interessante do que eu! Só não me procure depois quando a pedra lhe cansar! – Parou os passos e gritou.
Ele se levantou, deixou que o cachecol escapasse de sua mão, flutuasse com o vento até ficar preso em um galho da árvore. Durante certo tempo, o homem permaneceu parado, ainda olhando a vista de costas para a temperamental companheira. Kikyou, por um momento, fitou-o de canto de onde estava, mas logo tornou a afastar-se para dar continuidade ao charminho que jogava. Não demorou a sentir a mão firme envolver seu braço e num giro repentino virá-la e puxá-la de encontro a ele, de modo que pudesse encará-la. Os olhos esbarraram-se em exatidão de momento e a distância entre ambos era como uma fina linha quase imperceptível.
- Acha que suas cenas de menina mimada surtem efeito sobre mim como em seu pai? – A voz grave apesar de baixa, soava firme. Os olhos dele ardiam como um fogaréu atingindo o topo do morro e estendendo-se pelo resto da paisagem.
- Atrevido! – Retrucou, ainda nervosa. – Meu pai? Seu também! E... Como ousa chamar-me de menina mimada? Acaso pensa que ainda sou a criança que conheceu quando chegou a minha casa?
"Minha casa" – Na forma como falava ficava claro para Naraku como a jovem apreciava esbanjar sua superioridade e essa característica criava dentro dele um turbilhão de emoções difusas entre querer bem e desejar estrangula-la certas vezes.
- Sempre será a garota mimada que conheci ao ser acolhido por nosso pai, Kikyou. – Falou, frio. Aos poucos diminuindo a intensidade como apertava o braço dela.
Rangeu os dentes, imensamente irritada com a forma como ele a tratava. Era incrível como Naraku conseguia reverter as coisas, ao invés de ser a vítima da provocação, acabava por provocar mais do que ser provocado. Enfurecida, esmurrou o ombro dele com a mão que estava livre, arrancando do homem um breve riso. Atendendo aos apelos agressivos (ou provocando ainda mais) soltou o braço feminino e deu suas costas, tornando a andar calmamente de encontro à rocha onde antes sentava.
- Então é isso que sou para você, uma criança? – A voz dela já não soava alta, mas ainda séria. – Mesmo tendo convivido comigo diariamente, todos os dias, como meu único amigo, não notou minhas diferenças? É assim que somos próximos? – Acompanhava-o logo atrás.
- Justamente por conhecê-la tão bem pela convivência, afirmo: Criança. Eterna criança. – De costas para ela, falava naturalmente.
- Ora, Naraku, seu insuportável! Ao menos olhe para mim quando falo com você! – Estavam próximos à grande árvore quando ela perdera a pouca paciência que lhe restara e ao segurá-lo pelos ombros por trás, em um puxão jogou-o de encontro à árvore, onde batera as costas. Em seguida, colocou-se enfrente a ele, com os braços esticados e as mãos apoiadas no tronco, encurralando-o. – Olhe-me a sério, veja a minha fisionomia e diga se sou criança!
Com uma das sobrancelhas erguidas e um meio sorriso estampado nos lábios debochados, fitou-a de cima a baixo, no fundo concordava que a anatomia de seu corpo há muito abandonara a infância. Mas para que daria esse gosto a ela? Divertia-o aquela implicância, tira-la do sério, colocar um freio à sua auto segurança demasiada. Nada disse, diante a atitude selvagem da jovem tão intensa e explosiva, ficou a esperar seu próximo passo. Seu único gesto fora dar de ombros, como se não se importasse nem um pouco com a cena que ela fazia.
Esperava ter alguns maços de cabelo arrancados, murros ou até arranhões, de certo pragas, xingamentos, como durante a infância vivera bastante nos momentos em que se desentendiam. Às vezes era até doloroso, pois apesar da aparência delicada, Kikyou realmente sabia brigar como um menino, mas ainda assim era grande motivo para risadas à noite quando passava o tempo a lembrar dos ataques de fúria de sua irmã de consideração.
Porém, nada do que esperara ocorreu. Fora algo inédito, uma atitude impensada da jovem que despertou nele uma tormenta de sensações exóticas que jamais houvera experimentado. Kikyou segurou o seu rosto firmemente com as duas mãos. Sentiu o tecido macio de lã roçar em sua pele e no mesmo instante arregalou os olhos rubros mergulhados na face ainda raivosa da moça. Os dedos finos entrelaçaram nos cabelos negros e ondulados da nuca, puxando-os levemente. Kikyou colocou-se na ponta dos pés para alcançar melhor o seu objetivo: Os lábios de Naraku. Cerrou firmemente os olhos e avançou (não antes de puxar o ar para dentro dos pulmões com toda a intensidade que pudesse), colou sua boca à dele, encaixando-as, apertando uma contra a outra, ainda fechadas. Fora o beijo mais desajeitado que pudera dar. Mas desde quando primeiros beijos não são assim?
Ele pareceu tentar murmurar alguma coisa, mas o toque violento dos lábios o impediu. Segurou os braços dela, mas não no intuito de afastá-la. Suas mãos subiram até os ombros da jovem, foi quando seus olhos se permitiram fechar, ainda que a surpresa não tivesse se desfeito.
- Ainda me considera... – Ela começou a sussurrar quando apartou-se levemente do beijo.
- Cale a boca. – Em tom autoritário, respondeu de imediato e antes que a jovem pudesse protestar o modo como falara, invadiu seus lábios com a língua, aprofundando o beijo que ela começara.
Enquanto o vento fazia com que o cachecol azul se desgarrasse do galho e o levava para longe, as mãos de Naraku percorriam as costas de Kikyou . Ambos suspiravam juntos, enquanto suas línguas trocavam carícias. As mãos que repousavam à nuca desciam passando as extremidades dos dedos pelo pescoço e logo encontravam os ombros largos onde por um tempo ficavam. Sentindo o toque suave instigando-o a prosseguir, puxava-a pela cintura mais para perto de si e dessa forma inclinava o corpo da jovem um pouco para trás. Sugava o lábio inferior de sua companheira com volúpia e ela não resistia, mas o provocava mais quando escorregava uma das mãos delicadas até o peito dele.
- Senhorita Earnshaw! Heathcliff! – Uma voz conhecida para ambos soava ao longe, o trotar do cavalo era audível.
Era Kaede. A voz da ama fora como o alarme para que de imediato o casal se apartasse com a mesma violência que houvera se agarrado. Ofegantes, apesar de não tão próximos, ficaram a se encarar. Naraku pôde notar perfeitamente o meio sorriso nos lábios de Kikyou e uma discreta chama em seu olhar. Era como se aqueles beijos fossem a redenção do homem, como se com aqueles gestos ele tivesse finalmente afirmado que já não a via como uma criança. Ela vencera a batalha.
- Estamos aqui Kaede! – Disse em alta voz, ainda fitando o outro sem desviar os olhos para outra direção momento sequer.
Naraku nada falou, mas da mesma forma com que ela o encarava, sutilmente desafiadora, ele a fitava. Não mostrava sorriso em seu rosto, mas sim uma chama dourada em seus olhos que refletiam o brilho solar. Estava ainda tentando compreender o que acontecera. Até o dia anterior Kikyou era como uma irmã para ele (certamente a olhava, reparava no quanto a jovem era bela e talvez em seus sonhos mais íntimos tivesse a desejado de forma parecida, mas até agora não teria imaginado concretizar qualquer fantasia que tivesse)...
- O senhor Earnshaw não se sente bem, acordou indisposto essa manhã! – Enfim, a ama surgira diante dos dois montando um cavalo cor de avelã – Naraku, vá até Gimmerton chamar o doutor Suikotsu enquanto eu e senhorita Kikyou retornamos à casa, por favor. – Desceu do cavalo para que o rapaz o montasse.
Sem pestanejar, imediatamente Naraku montou , e apressou o cavalo que saiu a trotar com rapidez. Sequer despediu-se, deixou apenas o seu silêncio para atormentar sua querida "irmã" fazendo-a indagar sobre como seria o reencontro, como ele reagiria em sua presença. Era delicioso imaginar o quão nervosa ela deveria estar, e o quão mais iria ficar. Apenas não achou graça por estar preocupado com a saúde do homem que o acolhera.
Enquanto isso, abraçadas de lado e em passos largos, as duas mulheres caminhavam até o lar. A jovem Earnshaw dividia-se em pensamentos sobre o pai e o irmão de consideração que possivelmente estaria mudando de posto depois do ocorrido. Ao alcançar a enorme porta de entrada, abriu-a com violência e adentrou o recinto a pisar com força no piso de madeira. Visto que seu pai não estava na sala lendo como de costume, subiu apressadamente os degraus da larga escada. No corredor, deparou-se com a porta do quarto de seu pai escancarada (era o último dos quartos), invadiu o cômodo sem pedir licença, deparou-se com a figura masculina branda, sentada em uma poltrona verde escura enfrente a enorme janela, simplesmente apreciando a visão da propriedade por uma fresta entre as brancas cortinas.
- Papai? – Aproximou-se devagar, até alcançar a poltrona e repousar as mãos sobre os ombros de seu pai – O que aconteceu?
- Nada demais, querida – O homem sorriu – É a idade que chega depressa... Kaede que deveria ser menos afoita.
- Mas o senhor estava curvado sobre o balcão da cozinha tossindo sem quase conseguir parar para respirar! – A ama se manifestou da porta do quarto.
- Kaede mandou que Naraku buscasse o médico de Gimmerton, Suikotsu Kenneth, para vir vê-lo. Acho que ela está certa, o senhor anda muito descuidado da saúde! – Kikyou o repreendeu – Isso é resultado da chuva que pegou quando foi comprar aquele pangaré incorrigível que só Naraku consegue montar!
-... E que você ficou morrendo de ciúmes, porque não comprei um para você também – O senhor falou entre risos – Mas dei-lhe uma bela lembrança, que por sinal não está usando, não é mesmo?
- Aquele colar? Sim, eu gostei muito, tanto que estou guardando para usar apenas em ocasiões especiais! A pedra circular cor-de-rosa é linda... –Kikyou dizia aquilo mais para agradar o pai, a verdade era que não havia apreciado tanto o presente. Seu coração era por demais selvagem, preferiria mil vezes um cavalo que pudesse montar e correr pelos morros. Não se importava tanto com vaidades, talvez por não ter tido uma presença materna que a incentivasse (sua mãe morrera de febre quando a jovem ainda era muito pequena, tanto que mal lembrava da fisionomia da mulher que a colocara no mundo).
O senhor Earnshaw pegou um lenço de seda branca que estava dobrado em seu colo e passou pelo rosto que suava pelos cantos. Sua face amanhecera ligeiramente pálida e ainda estava, apesar de menos. Tossiu umas duas vezes, a tosse era carregada, possuía um som esquisito, mas não estava tão forte. Kikyou e Kaede entreolharam-se, mas nada falaram ,guardaram suas preocupações consigo.
Demorou duas horas e alguns minutos para que Naraku enfim chegasse com o doutor. Suikotsu, homem cuja serenidade passava confiança para seus pacientes, era o melhor médico das redondezas. Quando adentrou o quarto, pediu para que o patriarca da família Earnshaw se deitasse para examiná-lo. Pediu também para que os outros deixassem o quarto, provavelmente para evitar que a ama ou a filha ficassem impressionadas à toa. Sempre preferia ficar a sós com o doente.
Kikyou desceu as escadas e foi até a cozinha, onde encontrou Naraku sentado em um banco, pensativo. Pensou em todo um discurso com palavras pomposas, enfeitadas, até mesmo nas poses que poderia fazer em determinados momentos, mas o mal estar de seu pai quebrara o seu espírito de brincadeiras. Tudo o que fez foi sentar-se ao lado do outro em silêncio, e quando já estava acomodada, repousou as mãos sobre a mesa de madeira que estava enfrente a seus assentos, tal como ele também fazia.
Esperava que possivelmente ele tomasse a iniciativa de falar algo para acalma-la, mas não era do feitio do Naraku tal atitude. Do jeito que estava, permanecera, sem ao menos piscar quando a mulher que lhe roubara um beijo mais cedo sentou ao seu lado. Parecia em um transe na verdade, era indecifrável o que poderia estar se passando pela cabeça dele.
A senhorita fechou as mãos ainda sobre a mesa, e fez com que o devaneio do homem se rompesse no instante em que encostou o rosto no ombro dele e fechou os olhos. Não sentiu a menor cerimônia ao envolver o braço dele com os seus, e por fim suspirou, procurando um abrigo em seu companheiro de longa data.
- Você acha que o que o papai tem é grave? – Perguntou, em baixo tom.
-... Logo saberemos. – Ele demorou um tanto para dar a resposta.
Não a censurou pela proximidade, mas também não lhe deu afago. Ficou parado enquanto ela buscava consolo em seu largo ombro. Nada mais disseram, do jeito que estavam permaneceram até ouvir a voz de Kaede anunciando que o médico havia deixado o quarto, foi quando os dois se levantaram e foram até a sala, onde estava o doutor de pé, apenas esperando-os ao lado da ama.
- E então, senhor Suikotsu? – Kikyou aproximou-se, apressada.
- Senhorita, primeiramente devo dizer que seu pai é um homem muito resistente – A voz era suave, porém o tom sério – Mas deve estar sempre em observação, o que tem é uma febre, mas não tão alta ou preocupante. No entanto, o senhor Earnshaw deve ser cuidadoso, se em duas semanas essa febre não se curar, devem me procurar novamente. Por enquanto façam compressas em água morna, mantenham-no aquecido e bem alimentado. Não será necessária a sangria, ainda.
Todos ouviram com atenção as coordenadas que deveriam ser tomadas. Kaede, principalmente. Enquanto isso o doente se encontrava de repouso em sua cama, deveras entediado.
Depois daquele dia, parece que Wuthering Heights passara por uma mudança completa, não somente pela chegada da fina camada de gelo que passava a cobrir a relva com seu tapete branco e também as árvores. Estranho era esse granizo surgir ainda no final do verão, nem mesmo era outono e as folhas sequer abandonaram as árvores, mas era algo tão belo de se ver que jamais alguém parara para pensar nos porquês das mudanças insanas do tempo, ou se elas poderiam ser algum tipo de presságio...
Mas o clima não era o único responsável, as relações entre aqueles que ali habitavam também já não eram mais as mesmas. Havia um estado de tensão naquela casa, ama já não se entendia com a sua senhorita, e essa senhorita por sua vez desentendia-se com o pai por motivos rasos. Talvez fosse a irritação de vê-lo sendo tolo ao não cumprir à risca as coordenadas do médico, mas esse pequeno motivo se desencadeava para outros e acabava que à noite, antes de dormir, quando a jovem se arrependia e vinha ao quarto do pai para desculpar-se pelas discussões e pedir um beijo de boa noite, o velho, afetado pela febre, mandava-a embora alegando não poder perdoá-la por seu mau gênio. E assim, a pobrezinha ia correndo ao quarto aos prantos se perguntando o porquê de estar sofrendo tamanha injustiça.
Em um momento como esses, quando seu coração parecia estar partido em vários pequeninos pedaços, foi ao lugar onde tinha certeza de que encontraria a pessoa a qual desejava a companhia. Ele havia se distanciado desde o dia em que ela o "atacara", não por isso, mas por afogar-se em preocupações com o velho que o acolhera. Por vezes, passava o dia todo no quarto com o senhor Earnshaw, até mesmo madrugadas, saía de lá quando Kaede praticamente o expulsava dizendo que o seu pai de criação enjoaria de demasiada companhia. Então, revoltado por ser escorraçado, ia procurar consolo em seu pangaré branco de crina alaranjada, como naquele momento fazia.
Escovando as enormes mechas quase vermelhas daquele pelo brilhante, ouviu passos sobre o feno, atrás de si. Parou imediatamente o que estava fazendo para virar-se e fita-la: Sempre com os enormes cabelos soltos, vestido cinza simples sem muitos detalhes, as mesmas luvas negras e botinas de camurça marrom.
- Naraku... –Ela sussurrou, parando os passos e mantendo uma posição um pouco distante.
Ficaram de frente um para o outro. Os olhos vermelhos repararam a tamanha apreensão nos olhos noturnos. O que poderia dizer a ela? Fazia um tempo que não se falavam por conta da preocupação maior que abatera a casa. Largou a escova deixando-a cair no chão, o barulho do objeto caindo pareceu a brecha para que Kikyou em dois pulos fosse até ele e se jogasse em seus braços. Abraçou-a, sentindo sua camisa branca e esfarrapada umedecer por conta das lágrimas que encharcavam os longos cílios negros da jovem afundados em seu peito. As mãos dela apertavam-lhe as costas, estavam trêmulas.
- Kikyou, tente se acalmar! – Ele tocou os ombros frágeis com firmeza, sacudindo-a de leve – Nosso pai não ficará nada contente em vê-la agir como uma menina mimada que chora por terem lhe negado um doce!
- Não seja tão duro comigo! Estou magoada, só vim procura-lo porque pensei que pudesse me consolar! –Desapertou o abraço e desencostou o rosto do peito dele, mostrando-o marcado pelas lágrimas – Papai já tem sido rígido o suficiente, ao menos você poderia ser mais terno!
Aquela manha dela o tirava do sério. Quem disse que ele não gostaria de um pouco de consolo também? Se fosse em um outro dia, provavelmente teria arrumado uma forma de provoca-la como sempre fazia, mas naquele momento tudo o que fez foi abraça-la mais forte, afagar seus cabelos sedosos ,enfim, cedeu aos seus caprichos. Ao curvar um pouco as costas, encaixou o queixo no ombro dela. Era essa a única forma que conhecia de consolo, não sabia adivinhar as palavras brandas que uma garota chorosa gostaria de ouvir, jamais fora ensinado.
Mas daquele modo silencioso, duro e simples, ela conseguia obter tudo o que precisava: A companhia dele.
- O que sente quando está ao meu lado, Naraku? – Perguntou em voz baixa – A minha presença lhe é tão essencial quanto a sua é para mim?
- Tão essencial quanto o ar que respiro, Kikyou. – Respondeu de imediato, como se aquela resposta fosse tão óbvia que era um sacrilégio a jovem não ter ciência.
Dentro do abraço, apesar de ainda triste pelo estado e tratamento do pai, abriu um pequeno sorriso. Fora a primeira vez que ouvira algo suave soar dos lábios carrancudos de Naraku Heathcliff, e não que tivesse dúvidas antes, mas essa era primeira vez que tinha certeza concreta de que o seu sentimento não era apenas de uma via.
- Você ainda me vê como sua irmã mais nova? – Perguntou, mesmo já podendo concluir a resposta. Ergueu o rosto querendo fita-lo nos olhos, ao agitar o ombro fê-lo tirar o rosto de lá e erguê-lo, assim podendo o homem encontrar os olhos negros que tanto lhe chamavam a atenção.
- Não. – Resposta mais do que previsível, seguida de um ataque voraz de uma fera a um cordeiro. Como o abraço que a aranha dá em sua presa com suas oito longas patas ele uniu o corpo da jovem ao seu, e segurando-a pela nuca, quase asfixiou-a com um beijo sedento. Guiou-a dando passos à frente, forçando-a a andar para trás, até encurralá-la em uma fina pilastra de madeira.
Abandonou os lábios dela para provar a pele sensível do pescoço, notou o quão havia acertado o ponto fraco quando de imediato ouvia-a suspirar e sussurrar seu nome. Estava indo com muita sede ao pote, todavia tamanho era o descontrole que não parara para pensar se a assustaria.
Não assustou. Era tão igual a ele no que sentia, que se o próprio não tivesse tomado essa atitude ela mesma teria o feito. Suas mãos apertavam a camisa dele, fazendo com que o pano descesse esticado para baixo e o início das costas dele se mostrasse, assim tocava a pele rija dele, passando a superfície da lã de sua luva pelos pontos sensíveis, surrupiando arrepios. Como resposta ele lhe apertava a cintura e prensava-a contra a pilastra.
Poderiam continuar aquela brincadeira a noite inteira, se não houvessem escutado o chamado de Kaede para o jantar. Separaram os corpos e seguiram à grande casa.
O senhor Earnshaw, apesar de abatido, mostrara força de vontade para sentar-se à mesa com todos. A doença afetava seu humor, ora estava alegre esbanjando sorrisos e ora estava um grosseiro, perdido em uma irritação sem limites.
Os dias foram passando, o velho parecia melhorar, a febre não o atormentava todos os dias, ia e vinha. Todos naquela casa o importunavam a todo o tempo para seguir todas as recomendações do médico e ele parecia aos poucos ficar quase bom, mas não se curava de fato.
Enquanto o tempo passava, o rapaz e a senhorita daquela casa cada dia mais próximos ficavam. Não havia um dia que ela não o procurasse no estábulo, encontrava-o a escovar o pelo dos cavalos e aproveitava a deixa para convidá-lo a cavalgar pelos morros. Assim faziam, montavam juntos e corriam pelos campos até encontrarem as rochas cinzentas no topo. No início seus passeios resumiam-se à propriedade de Wuthering Heights, mas com a empolgação da juventude logo a região se tornara pequena diante da sede em conhecer novos horizontes, então, à surdina, de vez em quando, adentravam a propriedade vizinha e passavam o dia todo por suas bandas sem que os proprietários desconfiassem. O sabor do escondido era sedutor para os dois, e talvez os inspirassem.
Deitavam-se na grama esverdeada, observavam as formas que as nuvens formavam no céu, conversavam sobre todo o universo no qual viviam, às vezes filosofavam e os diálogos perdiam o sentido, mas ainda assim os distraiam. E quando queriam mais intimidade, retornavam à Wuthering Heights e assistiam o pôr do sol embaixo da grande árvore enquanto trocavam carícias e beijos que pareciam não ter fim. Os dois guardavam cada momento em suas memórias para acalentar a velhice um dia. Certamente envelheceriam juntos, era impossível verem-se distantes um do outro. Era para sempre...
- Para sempre, Kikyou. – Ele murmurou enquanto abriu os olhos enfim , e num profundo respirar, apoiando um joelho depois do outro, levantou-se devagar do jazigo no qual divagara por aqueles instantes e retomou seu aspecto frio de sempre.
Passou um dos braços pela face, limpando-a superficialmente da terra escura e após pegar a sua lamparina caminhou de volta à propriedade. Ao entrar pelos enormes portões, atravessou o grande pátio que trazia tantas lembranças, manteve o olhar fixo na janela central da grande casa, havia luz vindo de dentro (era o quarto onde Sango e Kaede estavam trancadas),apesar de não haver alguém fitando através do vidro a paisagem, os olhos dele viam o semblante de uma mulher a tocar nas cortinas. Se houvesse outra pessoa ao seu lado provavelmente nada enxergaria e afirmaria que Naraku estava perdendo a sanidade.
... E talvez estivesse perdendo mesmo.
Continua ...
