II. Arrependimento
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Karin acordou no dia seguinte, como era de se esperar, com a cabeça pesada e doendo, o estômago embrulhado e com a horrível sensação de que não deveria voltar a beber. Nunca mais, se possível.
Naquele dia, se ela pudesse, nem saía da cama.
Abriu os olhos com algum esforço e procurou os óculos na mesa de cabeceira, olhando em volta quando estava devidamente equipada a procura do relógio mais próximo. Precisava desesperadamente saber que horas eram por receio de ter dormido mais que vinte e quatro horas seguidas, mesmo que aquela necessidade não tivesse qualquer lógica.
Avistou o celular largado no chão da sala enquanto procurava cambaleante pelo apartamento.
Domingo. Dez horas da manhã.
Suspirou. Tinha sorte de ainda ser final de semana, já que, caso contrário, teria que assistir a algumas aulas monótonas e fingir que prestava atenção a cada uma delas, quando tudo o que ela queria era ficar em casa e dormir. E depois teria que ir a um emprego de meio-período em que ela teria que fingir simpatia, quando queria que todos explodissem com suas perguntas idiotas e seus olhares irritantemente pervertidos.
Um ícone na tela do celular chamou a sua atenção, anunciando que havia uma mensagem nova e não lida.
"Bom dia! Se a ressaca estiver muito ruim, você pode comer melancia. Isso vai ajudar.
S."
Karin revirou os olhos e apagou a mensagem. Aquele idiota! Quem raios iria comer melancia com um estômago naquele estado? Aliás, quem iria comer qualquer coisa?
Ela andou até a cozinha e se forçou a tomar um copo com água apesar de achar que iria colocar tudo para fora em pouco tempo. Não se lembrava de ressacas anteriores, mas tinha certeza de que aquela era a pior.
Talvez, se álcool não fosse tão ofensivo ao estômago a ponto de irritá-lo daquela maneira, ela tinha certeza de que beberia mais. No entanto, aquilo era o inferno na Terra e ela se dedicaria - em um dia qualquer - a amaldiçoar o infeliz que um dia inventara esse veneno mortal.
Sentou-se no sofá em seguida e não pode deixar de notar os dois copos parcialmente preenchidos com vinho que estava na mesa de centro.
Dois copos?
Ela tinha certeza de ter bebido em um deles, mas o outro ela não lembrava exatamente de como fora parar ali.
E, agora que parava para pensar em acontecimentos estranhos, como Suigetsu sabia que ela estaria com uma ressaca mortal naquele dia. Justo naquela manhã de domingo?
Karin fechou os olhos e repetiu inúmeras vezes a frase "não pode ter sido" como um mantra. Talvez achasse que se repetisse em quantidade suficiente tudo não passasse de uma simples ilusão de sua cabeça.
Mas ela sabia que não era verdade e, quando parou de repetir seu mantra por um instante, tentou lembrar-se do que havia acontecido, curiosa.
Lembrava-se de ter bebido vinho, de ter desejado que alguém estivesse ali com ela, de ter enviado uma mensagem altamente confusa para Suigetsu (mas ela não lembrava o conteúdo exato), de algo parecido com uma discussão. Até que lembrava-se de muita coisa, mas ela tinha certeza de que ainda havia mais.
E se tinha um momento no qual ela deveria se arrepender com certeza aquele momento era agora, porque ela sabia que bêbados poderiam ser estúpidos e Suigetsu iria rir dela quando o encontrasse de novo seria uma realidade muito em breve. Por que sua "genial mente" inventara de beber para começo de conversa?
Quer dizer, havia muitos motivos para se beber, ela bem sabia. Já presenciara muitos porres alheios e seus respectivos motivos (muitos tão estranhos que ela tinha dúvidas se aquilo poderia ser considerado realmente um motivo). Mas quem se embebedava por conta de uma correspondência? Um convite?
Estaremos reunindo toda a turma do colegial no endereço que está no verso deste cartão. Favor responder.
Contamos com a sua presença.
Quando vira o nome do remetente ela soubera do que se tratava o envelope azul que a esperava. Quando leu as palavras escritas, sentiu um nó se formar na garganta e as memórias da última vez em que vira Sasuke voltavam e a faziam reviver aquele momento. Não adiantava afastar as imagens pensando no quanto certas coisas poderiam ter mudado na aparência e no modo de pensar de cada um dos que convivera com ela. Aquele momento que ela renegara e afastara para o recôndito mais escondido de seu subconsciente parecia criar vida e atormentá-la.
"Eu nunca prometi nada. Você precisa parar de ler aqueles romances irritantes."
E todas as situações que ela vivera até então pareceram uma grande humilhação. Todas as tentativas de ser amável, todos os sorrisos, todas as coisas que ela fizera de boa vontade e também as que foram feitas a contragosto, tudo para agradar a ele. Em vão.
Karin prometera a si mesma que não iria mais chorar ou remoer o passado, mas naquele sábado à noite, quando descobrira o envelope, estava sendo particularmente difícil.
Então ela lembrara-se das ocasiões em que, quando ela era criança, a mãe bebia uma taça de vinho alegando que aquele era um bom sonífero. Karin só queria dormir e esquecer, porém as coisas saíram do controle quando o primeiro, o segundo e o terceiro copos não a deixaram, um pouco sequer, sonolenta.
Ela suspirou e decidiu aceitar que não poderia fazer nada para esquecer o passado (qualquer momento dele). Ademais, tinha problemas maiores com que se preocupar. Esticou-se e adormeceu no sofá, desejando que cabeça explodisse de uma vez para que pudesse parar de doer.
X
"Então esse inferno continua...", ela pensou assim que acordou, uma hora e meia depois. A cabeça ainda doía e o estômago estava pior do que nunca.
Karin levantou-se sentindo que estava acabada. Precisava de alguma coisa - qualquer coisa - que pudesse fazer aquilo parar.
Procurou por um remédio para dor de cabeça em um dos armários, mas sua caixinha de remédios limitava-se a conter apenas um antiácido vencido há seis meses. Suspirou largando a caixa em algum lugar. Era aquele o preço a se pagar pelo desleixo.
Abriu a geladeira para pegar mais um pouco de água e observou o pedaço de melancia que parecia um pouco esquecido em sua geladeira. Analisou por alguns segundos os prós e os contras de seguir a orientação daquele idiota, mas a verdade é que ela não tinha nada a perder e, se é que poderia colocar nesses termos, ela sentia um pouco de fome camuflada atrás daquela sensação incomoda no estômago.
Sentou-se no chão da sala, com as costas apoiadas no sofá. A garrafa com água ficara na mesa de centro, no lugar que antes os copos de vinho ocupavam. O pedaço de melancia estava em suas mãos. A primeira mordida não demorou a vir. Mas foi temerosa, lenta, forçada.
A fruta desceu pelo seu esôfago dando-lhe algum alívio e, ao sentir que a melancia caíra em seu estômago, ela notou o quanto estava com fome. Os pedaços seguintes da fruta vieram de maneira mais fácil, um tanto quanto ávida, aliviando aos poucos o interior irritado pelo álcool.
Não que ela tenha sido curada absolutamente, porque sua cabeça ainda doía e seu estômago ainda não estava completamente recuperado, mas já era alguma coisa.
Reconhecia que aquele bastardo infeliz estava certo e sabia que teria que agradecê-lo em algum momento, mas tentou adiar aquilo o máximo possível. Não iria admitir para ele que seguira um de seus conselhos idiotas (bem, não tão idiota assim). Seria como admitir que ele tinha alguma inteligência e conhecimento a mais, quase o mesmo que admitir uma derrota. E ela não admitiria.
Organizou o pequeno apartamento, assistiu a programas aleatórios na televisão, sem ter qualquer real interesse em ver o que passava. E quando a noite enfim chegou, quando Karin estava prestes a ir dormir, ela pegou o celular e digitou um simples "obrigada".
Ela quase enviou a mensagem, mas desistiu de última hora. Não queria admitir ainda.
X
Suigetsu sempre fora um idiota sarcástico e aparentemente sem coração, que adorava atormentá-la por motivos completamente obscuros, fazendo-a até acreditar certa vez que fazia tudo aquilo por ciúmes de Sasuke.
Karin e Suigetsu discutiram por incontáveis vezes desde que se conheceram, pelos mais diversos motivos, indo desde uma discussão porque ele estava trapaceando em uma aposta boba para ver quem comia mais doces até discussões por ele ter tentado arruinar todo o trabalho que ela tivera em preparar uma festa de aniversário legal para si mesma, colocando entre os seus presentes uma caixa contendo várias borboletas. E ele sabia do medo irracional que ela tinha por borboletas.
Ele sempre fora cínico também. Era simplesmente odioso ver o modo como sorria quando uma de suas pequenas armações era descoberta, como quando ela descobrira que ele estava envolvido no incidente das borboletas e o dito cujo (como se referira a ele durante a investigação do caso) simplesmente dera de ombros, alegando que achava que ela iria gostar de ver as cores que aquelas em especial possuíam.
E era um tanto quanto impossível esquecer todas aquelas coisas, Karin sabia. Ela nunca esqueceria todas as coisas relacionadas a ele por um único motivo: parecia que ele sempre estava por perto para fazê-la lembrar.
Mas não era de se surpreender que ele tivesse aparecido justamente quando ela decidira que iria embora sem nem entrar naquele lugar.
- Olá. - Ele a cumprimentou. - Sentiu minha falta?
Ela se voltou para olhá-lo e o sorriso cínico de sempre estava lá, anunciando que sempre a estaria perturbando - mesmo que parecesse "presunção" de sua parte acreditar que ele sempre a irritaria, como se a perseguisse.
- Não me diga que está indo embora com o rabinho entre as pernas! Eu pensei que você gostaria de rever Sasuke-kun. - Ela revirou os olhos diante do tom usado para pronunciar o nome do Uchiha.
Karin pensara no convite que recebera durante toda a semana. Ela até pensara que poderia esquecer esse pequeno detalhe enquanto dedicava-se exclusivamente a trabalhar e estudar, mas a verdade é que ela não conseguira, usava os intervalos que deveriam ser dedicados a sua alimentação para ponderar sobre a situação.
Não confirmara a presença, porque não cogitava mesmo aparecer naquele lugar, mas seguiu um impulso de ir até lá, decisão de última hora.
Suas pernas se moviam para o local indicado no cartão de forma quase automática. Sua mente pensara e repensara, procurando motivos que pudessem ser fortes o suficiente para que ela continuasse seguindo em frente, no entanto ela não achara nenhum e suas pernas continuavam andando e andando, sem tencionar voltar.
Ficara parada na frente do hotel e, quando por fim decidira ir embora, ele aparecera.
- Eu só estava de passagem, não estava interessada nessa reunião inútil mesmo... - Respondera virando-se e voltando a andar.
- Estava indo para casa? - Ela notou que ele a seguia e não respondeu. - É impressão minha ou você está me evitando? Porque, se for, essa definitivamente não é você.
Karin quase parou de andar quando ouviu as palavras dele. Queria gritar para que ele a deixasse em paz, que não tinha problema nenhum em evitá-lo, principalmente quando ela sequer sabia o que dissera para ele quando estivera bêbada, e que não era da conta dele se ela não queria vê-lo. Mas a vontade para fazer o que pensava não existia e talvez, se ela só tentasse parecer indiferente, ele a deixasse em paz.
- Por que eu me daria ao trabalho de fazer isso? Você é tão insignificante que sequer tem qualquer influência na minha vida e acha que eu vou me dignar a evitá-lo? Até parece...
Ele estava do lado dela agora. E ficou em silêncio por um tempo, durante o qual Karin sentiu-se satisfeita consigo mesma.
- A melancia funcionou? - Suigetsu perguntou, subitamente. E a lembrança da melancia a fez relembrar do fim de semana anterior.
- Tch.
- Um "obrigada pela dica" seria muito bem-vindo. Se formos considerar as condições em que você estava, provavelmente você não conseguiu levantar sua cabeça do travesseiro de tão pesada e seu estômago devia estar uma maravilha. - Sorriu tentando imaginar o quanto ela deveria ter se sentido mal. Talvez ela aprendesse a não fazer coisas (e a não exagerar) com as quais não estava acostumada.
- Não é da sua conta.
- Definitivamente.
- E foi tudo culpa do vinho... - Karin murmurou, como se aquelas palavras resolvessem todos os problemas e pudessem acabar com o arrependimento que a corroera na última semana.
- Não que eu ache que você deva fazer esse tipo de coisas mais vezes, mas até que você fica simpática quando está ébria. - Sorriu.
- Você não deveria estar naquela reunião em vez de estar me atormentando? - Mudou de assunto, tentando ignorar o comentário de Suigetsu sobre o seu humor e dando-se conta de que bêbados são patéticos.
- Oh, uma reunião de um bando de pessoas que eu não quero ver com certeza não é o melhor lugar para eu estar agora. - Ele fingiu uma importância que absolutamente não tinha e Karin sorriu.
- E me acompanhar é algo mais digno de sua dedicação, monsieur? - Ela brincou tentando usar um falso e exagerado sotaque francês.
- Oui, mademoiselle! Eu não poderia deixar uma dama ir embora sozinha, mesmo que essa dama esteja mais para um cara durão na maioria das vezes. - Foi socado no braço por seu comentário maldoso.
- Não seja idiota, seu idiota!
- Uh, muito ameaçador a repetição dos termos na sua sentença, indicando sua total falta de criatividade. Parabéns.
- Não enche. - Bufou, nitidamente irritada pelos comentários sarcásticos.
- Você está fugindo não está?
- Eu realmente não sei do que você está falando. - Tentou por um fim naquela conversa que já a estava cansando.
- Você não é de fugir, e isso é inegável, mas dessa vez você está fazendo. Você não veio até aqui por estar realmente só de passagem. E o vinho não vai te ajudar, nem qualquer outra bebida alcoólica. Então, só encare os fatos e tente dar um passo por vez, certo?
- Você está me dando medo. - Brincou. - Desde quando você liga?
- Pode não parecer, mas eu sempre ligo. - Ele comentou, dando de ombros, como se não fosse nada de mais se preocupar com alguém que ele sempre procurava irritar.
- Sei. E eu sou uma ruiva de farmácia. - Karin riu.
- Você está destruindo os sonhos daquelas suas colegas de trabalho que juram que você é uma piranha que quer ser ruiva de qualquer jeito. - Suigetsu retribuiu o sorriso, mas Karin viu que ele estivera falando sério, apesar do tom brincalhão de seu comentário. - Vejo você depois. Cuide-se, garota tola! - Despediu-se quando já não era possível acompanhá-la, devido aos diferentes caminhos que conduziam às suas respectivas moradias.
A garota suspirou quando ficara sozinha.
Eles continuavam os mesmos de sempre. O chato Suigetsu, a rude Karin e uma relação tortuosa de amizade.
Porque Suigetsu poderia ser inconveniente, impossível, irônico, irritante, estúpido, mas ele se importava com ela, do modo dele. Afinal, eles ainda eram amigos.
E aquilo fazia o coração de Karin se comprimir um pouco. Desde sempre.
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N/A.: Ae, apareci com o capítulo dois! Era para eu tê-lo publicado semana passada, mas estive doente que não conseguia nem passar meia hora no computador. E isso é torturante para alguém que, quando pode, passa horas. As atualizações vão ser mais rápidas agora (porque, enfim, eu tenho o capítulo três até a metade e o quarto esquematizado, embora não consiga me decidir como fazer o desfecho)...
Sobre o capítulo. Espero que esteja explicado o lance da embriaguez. E a melancia foi totalmente acidental, porque eu sei que acabou virando um clichê colocar melancia e tals... (O que aconteceu foi que eu estive procurando bons remédios naturais para ressaca e acabei encontrando isso em um site e decidi colocar na fic. Só me dei conta do que estava acontecendo quando já era tarde demais, então eu deixei).
Faz tempo que não escrevo com esses dois, então espero que não tenha ficado OOC demais (de novo).
Agradeço aos comentários. Fizeram meu dia mais feliz e blá blá blá. E não, eu não estou banalizando comentários nem nada, mas isso é uma coisa que todo mundo já sabe, que reviews deixam autores felizes e saltitantes -q. 8D
Respondendo algumas coisas: espero que a bebedeira esteja explicada (tenho a impressão de já ter dito antes, enfim...) e não exatamente um porre de bebida diferente por capítulo, porque eu quero trabalhar também os depois (o melhor de tudo é ter que arcar com as consequências da bebida hahahah - ou não). E adooro cara de pau feelings. Vamos ver se as coisas continuam assim até o final. xD (brincadeira).
É isso. E eu estou com (muito) sono, então nem vou ler que abobrinhas eu escrevi nessa nota.
