III. Noite do Vinho II

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Suigetsu sentiu a sensação de déjà vu quando bateu três vezes na porta e esperou por alguns segundos que alguém a atendesse naquele sábado à noite.

"A fada azul diz que você precisa se divertir mais...", fora a mensagem que recebera naquela noite. Não diferia muita da mensagem que recebera da mesma pessoa há duas semanas: as duas falavam de coisas completamente absurdas, considerando o fato de que fada azul e unicórnios alados que soltam rastro de arco-íris são criaturas que só existem em um mundo fantasioso.

Como não tivera resposta para as batidas, abriu a porta com a chave que ainda estava em sua posse e se deparou com Karin jogada no sofá, olhando pensativamente para o teto.

- Olá. - Cumprimentou sentando-se no sofá sem receber qualquer resposta. - Qual o problema da vez?

- Nenhum em especial. - Ela deu de ombros.

- Então por conta de "nenhum problema em especial" prefere se embriagar de vez em quando durante toda a sua vida? Isso parece realmente promissor. - Falou com um sorriso irônico no rosto, pensando em quão absurda era aquela hipótese.

- Até seria... sabe, eu não comecei a me embriagar hoje e há duas semanas por querer... - Displicentemente ela comentou, mas ela queria deixar isso bem claro.

- Ah, é? E com base em que você pode dizer algo desse tipo? Você é só uma garota ruiva e bêbada.

- Tch. Com base em mim mesma. Da outra vez eu só estava chateada com aquele lance da reunião e triste... E me sentindo sozinha. - Ela sorriu de si mesma ao lembrar-se da situação.

- Certo, e então?

- Eu não conseguia dormir e achei que vinho fosse uma boa saída.

- Você só pode estar brincando. - Suigetsu riu sem acreditar no que ela dizia. Ela só podia ter algum tipo de problema na cabeça se embriagava-se daquele modo apenas por não conseguir dormir.

- Não estou, não. A minha mãe bebia vinho antes de dormir e dizia que isso ajudava. Então eu bebi vinho, oras. - Era tão óbvio para ela a conexão entre aquilo tudo.

- E não conseguiu parar depois do primeiro gole ou o quê? Isso é coisa de alcoólatra.

- Eu não senti que já estivesse com sono e pensei que se bebesse mais poderia ajudar. Tudo culpa do vinho, como pode constatar. Não que eu seja realmente alcoólatra. - Explicou-se aproveitando para deixar claro que ela não tinha problema com bebida. Se ele falasse sobre problemas de insônia, certamente seria o caso dela, mas com álcool?

Não.

- Sei. E dessa vez? Problemas para dormir de novo?

- Isso.

- Mas antes disso deve ter tido alguma coisa que não a deixava dormir...

- É.

- E como se sente com relação a isso? - Ele revirou os olhos imaginando-se como algum tipo de psicólogo mal pago e com sérios problemas para sair da condição em que está. - Sério, Karin, eu não vou ficar aqui a noite toda se quer saber, e não quero bancar o seu psicólogo.

- Mas não vai embora porque quer conversar comigo enquanto estou bêbada.

- É uma opção. Não para saber o que você sente com relação a determinadas coisas, mas para aproveitar que você não está tão rabugenta.

- Como sabe que não estou tão rabugenta?

- A bebida da outra vez a deixou mais alegre. Parecia até que alienígenas invadiram a Terra e te trocaram por uma versão mais moderna, com dispositivo de simpatia e felicidade. É a mesma coisa hoje. - Ele via o sorriso que ela tinha estampado no rosto de forma quase permanente e sentia como se não a conhecesse, mesmo que gostasse de vê-la sorrir.

- E quem disse que eu não sou simpática e feliz?

- Você não é, encare os fatos.

- Ok, senhor-sabe-tudo. Mas eu ainda digo que sou feliz.

- Tudo bem se você quer insistir nisso, eu não sou ninguém para negar. - Acomodou-se melhor no sofá e deixou milhares de coisas não ditas no ar. Principalmente o fato de que ela acabara de dizer que se sentia sozinha (e ele entendia que alguém que bebe porque se sente só, provavelmente não é por felicidade).

- E você? - Ela perguntou com algum interesse, observando-o de soslaio curiosa para saber a resposta.

- O quê? - Suigetsu perguntou com o cenho franzido, sem entender a que ela se referia, mas tendo uma vaga noção do que ela queria saber.

- É feliz? E só para constar, você não é simpático. - Karin falou irritada por ver o modo rude como ele perguntara.

- Ótimo, falta simpatia para nós dois. E o Sasuke? Pensei que sua felicidade girava em torno dele. - Ela não precisava que ele tocasse no nome do Sasuke, ela não queria saber dele e Suigetsu deveria saber disso. Era sempre assim, essa peste (como chamava-o às vezes) fazia de tudo para provocá-la, irritá-la e ela caía sempre, mesmo que estivesse bêbada. Mas ele não respondera à pergunta dela, o que dava algum caminho para ela conduzir a conversa e que não seguisse a direção "Sasuke".

- Ei! Você não respondeu minha pergunta!

- Eu te fiz uma pergunta também e você está fugindo do assunto. - Como se ele tivesse algum direito! Ela perguntara primeiro!

Olhou para ele com reprovação e cruzou os braços, esperando uma resposta, contudo o que conseguira fora um sorriso sardônico vindo de Suigetsu e um desconforto que ela queria que fosse embora.

- Minha vida não gira em torno do Sasuke. Pelo menos acho que não mais. - Pronto. Estava dito. Externalizado. O pensamento que ela tanto remoera em sua mente, desejando que fosse real, agora era até palpável.

- Já achou outra pessoa para colocar na sua vida?

- Eu ainda tenho uma pergunta que você não respondeu... - Ela sorriu vitoriosa. Não pensava com precisão e não queria pensar no que Suigetsu perguntara, ela não queria deixar-se levar por qualquer sentimento de vazio. E responder àquela pergunta seria admitir que ela tinha um espaço que deveria preencher.

- E por que você está insistindo nela?

- Porque você está fugindo do assunto e não custa nada respondê-la.

Ele se encararam por um tempo. Karin ainda tinha um sorriso nos lábios, feliz por tê-lo contra a parede, embora não entendesse a relutância dele em responder a uma simples pergunta sobre felicidade. Bastava dizer um "não" ou um "sim" e tudo estaria acabado. Não que ela soubesse o que fazer depois, mas ter uma resposta já seria alguma coisa.

- Eu sou feliz. - Ele falou e olhou contrariado para qualquer outro lugar que não o resto dela.

- Você parece um garotinho emburrado depois que a mãe dá um sermão. - Gargalhou, divertindo-se com o que uma pergunta poderia fazer na expressão facial de alguém.

- Bela comparação. - Ele suspirou sem encará-la.

Agora seria deixado em paz? Ele desejava que sim, que a conversa prosseguisse por assuntos menos pessoais e mais divertidos. Karin poderia ser simpática quando bebia, mas daquela vez ela parecia um pouco mais esperta.

- Eu sei, eu sou boa nisso. - Cruzou os braços e sorriu como quem se acha importante, parando para observar com atenção o rosto do amigo que agora olhava para um porta-retratos. - Suigetsu?

- O quê? - Ele virou-se para encará-la e já não encontrou o mesmo sorriso de antes. Os olhos tinham algo de preocupação e Suigetsu não entendia a que se devia aquela mudança tão repentina.

- Algo te preocupa e eu sei bem disso. Posso ver com perfeição.

- Sei, e eu sou realmente um psicólogo. - Suigetsu revirou os olhos e sorriu, como se quisesse convencê-la de que ela estava errada, enxergando demais ou imaginando coisas por conta da bebida (o que ela deveria pensar não importava, na verdade, e sim a finalidade do gesto).

- Vamos lá, conte o que aconteceu! - Ela insistiu. - Só eu sei o quanto preciso de uma fofoca. - Comentou mais para si mesma que para Suigetsu, murmurando as palavras, mas ele a ouvira.

- Fala sério, Karin, você não acha que tem algo mais importante para fazer, não? Como viver a sua vida por exemplo.

Ela podia sentir que ele já estava ficando irritado e aquilo era bom. Sempre fora divertido fazê-lo perder a paciência, algo de que ela gostava e que não a fazia sentir um ódio mortal por ele, afinal, se ela o irritava, ele também não era lá uma flor de gentileza e bondade. E devolver na mesma moeda era uma filosofia que ela dotava em certos casos mais precisamente com Suigetsu e alguns pequenos detalhes que exisitiam naquela amizade).

- Saber dos problemas dos outros às vezes ajuda a você ver que sua vida não é uma merda completa. - Respondeu como se aquela fosse a resposta ideal para a situação.

- Mas você acabou de dizer que era feliz. - Ele rebateu adiando um pouco mais o momento fatídico. Se ele desse sorte, ela o esqueceria completamente em pouco tempo.

Diante das palavras de Suigetsu, Karin procurou disfarçar o quanto pode. Gargalhou, sorriu nervosamente, murmurou palavras que ele não entendeu - provavelmente explicações esfarrapadas, maldições irredimíveis, pedidos a kami-sama para que a tirasse dessa, ele não sabia - mas logo ela estava com um brilho nos olhos e uma saída na ponta da língua.

- Não me lembro de nada disso.

Suigetsu revirou os olhos mais uma vez, aparentando impaciência e mau-humor. Sabia que Karin podia ser uma dissimulada, mas aquela não era um bom momento - pelo menos para ele - para tanta dissimulação.

- Oh, claro, a bebida já está fazendo seu efeito amnésico, como sempre. - Ela sorria para ele.

- E então? Vai me contar? - Ela estava ansiosa. Ele não lembrava de vê-la assim nos últimos tempos.

- Não.

- Você fez algo de errado, certo?

- N-não é da sua conta.

- Você gaguejou, eu não acredito! - Ela sorriu e bateu palmas. As coisas ficavam cada vez mais divertidas, decidiu. - Quando eu ia imaginar que o Suigetsu-coisinha-à-toa ia gaguejar! E na minha frente. - Ela fez pose de quem se acha um pouco (muito) superior, como se fosse a experiente e Suigetsu um adolescente precisando de conselhos.

- Ora, cale-se.

- E então? Tem relação com alguma garota, estou certa? Ela te deu um pé na bunda? - Na mente dela só podia significar aquilo, porque, se era sobre qualquer outra coisa, ele não hesitava tanto em contar.

- Não exatamente. - Não exatamente. Como pode isso? Ele por acaso estava querendo dizer que era gay? Ou será que se referia ao pé na bunda?

Ele levara mesmo um pé na bunda?

- Oh, mas ela deveria ter deixado isso bem claro, que não queria mais te ver, eu quero dizer... - Frisou o "ela", tentando ver se aquilo causava alguma reação estranha que pudesse significar a presença de um ele em vez de ela.

- Ela não pôde. - Bom, não era um "ele", pelo menos aparentemente. E, ok, aquilo estava parecendo um pouco confuso. O que ele fizera? Por acaso a atacara e ela desmaiara ou algo assim? Ou ele a tinha matado? Sua mente especulava de uma forma que ela poderia considerar absurda.

Se não estivesse levemente embriagada.

- Por quê?

- Porque ela estava bêbada e dormiu assim que... - Deteve-se por um momento, pensando se deveria ou não continuar. Mas no momento em que se calara, vira-se incapaz de acrescentar qualquer outra coisa à informação inacabada que ele dera a ela.

- Assim que...? - Procurou estimulá-lo a contar, satisfeita pelo início. Quer dizer, ele pelo menos começara a se abrir com ela sobre aquele assunto tão secreto. Já era alguma coisa.

- Esquece.

- Mas é terrivelmente difícil... Sabe? É como colocar uma música para tocar e interrompê-la bem no meio. Você vai ficar com ela na sua cabeça por horas. - Lembrou-se do que assistira na televisão um dia e do teste que realizara (em pouco tempo a música escolhida já a deixava irritada).

- Eu não vou te contar. Não adianta. E eu tenho que ir. - Levantou-se e andou em direção à porta.

- Ah, não, logo agora que eu posso conseguir uma boa história da qual eu vou poder rir quando você estiver me chateando? - Segurou-o pelo braço, impedindo que ele fosse embora sem terminar de revelar tudo o que o perturbava, falando com um tom de voz que chegava bem próximo ao tom que usava quando queria fazer algúem acreditar que elea estava choramingando.

- Você não vai rir se souber a verdade. - Ele falou aborrecido pela insistência com que ela tratava o assunto, querendo sempre saber mais e mais, independente do que ele sentia (porque ele não se sentia bem sobre isso).

- Mas é claro que sim! É até a oportunidade perfeita: o tão convencido Suigetsu com problemas amorosos. Uma garota que deu um pé na bunda dele, porque ele fez algo errado, e então ele passa semanas e semanas depressivo... Cômico.

Karin tinha um sorriso divertido no rosto. Talvez ela realmente estivesse rindo - e disposta a rir futuramente - da expressão de palhaço que ele deveria ter na face, ou talvez ela procurava ajudá-lo - do jeito dela, quem sabe? - a rir de uma situação ruim do passado. Mas aquilo não importou para Suigetsu naquele momento. Ele já estava irritado o suficiente para não medir mais as consequências de seus atos. Foi então que ele acabou revelando tudo.

- Você não vai rir da minha cara, sua idiota, porque a garota era você, droga! - Retirou o braço das mãos que ainda o seguravam e amaldiçoou-se por ceder tão fácil. Mas ela já o estava irritando a tanto tempo...

Péssima ideia ter ido ali naquele dia.

- O que você está falando? - Ela estava confusa. Não sabia de nada daquilo do que ele falava.

- Que você me beijou e por algum distúrbio nessa minha cabeça oca, como você costuma dizer, eu correspondi. E eu me arrependo disso! - Praticamente cuspiu as palavras na direção dela com desprezo.

Karin sentiu o estômago revirar um pouco e desejou que o Suigetsu que ela sempre conhecera estivesse ali, do lado dela. Sera pedir demais que o Suigetsu sarcástico, brincalhão e idiota de sempre estivesse ali?

- Eu não acredito nisso. Eu? Eu o beijei? E você correspondeu, mas se arrepende? Ok, onde está a risada e as pessoas gritando que isso é uma pegadinha? - Ele não a encarou ou respondeu. Deixou que o silêncio fosse o suficiente para assinalar a confirmação da informação que ele acabara de soltar.

Ela esperou pacientemente por uma confirmação expressa, uma explicação, um pedido de desculpas - provavelmente isso não aconteceria, mas não custava sonhar - ou o que quer que fosse que acabasse com aquela situação constrangedora e estranha.

Contudo a sua risada morreu no momento em que percebeu que nada do que ela esperava viria. Ela só conseguia pensar que seu estômago devia parar de reclamar - e que ela deveria parar de beber também. Além disso, certas implicações começaram a passar por sua mente. Isso a estava deixando aborrecida.

- Ah, não! E eu nem sei pelo quê exatamente eu fico furiosa! Se é por eu ter beijado você, se por você ter correspondido mesmo sabendo que eu estava bêbada, ou se é por você estar arrependido... Isso faz eu me sentir rejeitada de novo e usada e... Eu não queria que as coisas acabassem assim entre a gente, porque você é meu amigo, caramba! É você é a pessoa que recebe minhas mensagens bêbadas, porque eu não tenho para quem mais enviá-las...

Então Suigetsu respirou lentamente. E sorriu das palavras que ela disse.

- Você acha que está realmente furiosa por eu estar arrependido? Interessante...

- Vá se danar! - Ela andava de um lado para o outro, mordendo a unha do polegar sem realmente roê-la, enquanto pensava.

Ele realmente queria ter ido embora, mas já que agora era Karin quem estava possessa, talvez não fosse má ideia acalmá-la um pouco. Só para o caso de ela querer fazer alguma loucura.

- Veja pelo lado bom, talvez você não se lembre disso amanhã. - Ela parou para encará-lo com uma das mãos sobre a cintura e ódio no olhar. - E o Sasuke é um gay sem coração. Além disso, eu vou continuar recebendo suas mensagens bêbadas se você ainda quiser enviá-las para mim, porque não é o fim do mundo, embora eu saiba que a sua mente costuma exagerar as coisas... - E embora ele estivesse arrependido, ele quis dizer, mas achou que não devia mais comentar sobre aquilo.

- É sempre assim, não é? - Ela suspirou, achando divertido o fato de ele ter dito que Sasuke era um gay sem coração só para fazê-la se sentir melhor (ou talvez estivesse falando a verdade) - Você pode ter sido incrivelmente estúpido comigo, mas em algum momento você vai me dizer algo que vai me fazer sentir melhor. E eu odeio isso em você, seu bastardo! Aliás, eu realmente te odeio!

- Eu sei. É por isso que somos pessoas tão maduras e com uma amizade tão... "comum". Também odeio você, garota tola... - Ele sorriu. - E não beba mais, por favor.

Não fazia a menor ideia de como as coisas iriam acabar, mas pelo menos ali, naquele momento, nada parecia mais tão ruim.


N/A.: É. O. Seguinte. Vou pedir, mais uma vez, mil desculpas pela demora. É que com as provas, com as viagens da Semana Santa e uma viagem que eu fiz para um Congresso meu tempo ficou tão reduzido que eu mal tive tempo de continuar essa fic (e de ver Reborn, e de ver Kyo Kara Maou, e ler One Piece e tudo o mais que eu normalmente faço). O que tive tempo de fazer foi escrever umas ficlets à mão, acho, quando tinha um tempo livre. Revisar essa fic que era bom, nada.

Mas eu etou aqui õ/

Então, espero que o capítulo tenha sido legalzinho, pelo menos. ;_;

O último capítulo será o último, então eu acho que vocês não vão ter que me aturar por muito mais tempo.

Até lá, então.