Aile Reisi

Lily tinha para si que seu pai soube desde o começo que estava morrendo.

Sendo o cientista experiente que era, como não saberia? Como não saberia interpretar o tom pesaroso com que aquele médico de meia idade pronunciou ''câncer em estado avançado''? Como não compreenderia o potencial escondido, desproporcional, que aquela humilde manchinha branca continha? Como ignorar, já tendo visto com os próprios olhos, o que aquela hastalik de nome curto lhe reservava para o futuro?

Ainda havia tempo, dissera o médico. Não cura.

Havia analgésicos, tratamentos caros, esperanças infundadas e a interminável espera por um milagre que nunca viria. E havia a dor.

Naquele dia, no entanto, Lily ainda não sabia nada sobre a proeminente morte do pai, por isso sequer desconfiava do motivo que a fez ser chamada até seu escritório no meio da tarde.

- Baba, posso entrar? – Perguntou, abrindo a porta devagar. Seu pai tinha as mãos juntas sobre a mesa e o olhar perdido em algum ponto entre a janela e o tempo-espaço.

- Hm? Ah, claro. – murmurou vagamente, piscando para voltar à realidade. Ele examinou o rosto delicado da filha por um momento antes de pedir para que se sentasse.

- O que o senhor queria comigo, baba? – questionou.

- Lily, você se lembra de Khaled? Ele vinha nos visitar sempre quando você e Petúnia eram pequenas.

- Mais ou menos – respondeu, franzindo as sobrancelhas. A memória estava no canto mais bagunçado e empoeirado de sua mente e não passava de um único instante entre seu baba e o homem sentados à mesa tomando chá juntos. - Por que?

- Você se lembra do filho dele, James? Ele tem a sua idade.

- Não, dele não, mas... Baba, por que o senhor está me perguntando isso?

Ele hesitou e passou a língua pelos lábios lentamente, como se estivesse escolhendo as palavras seguintes com cuidado. Abaixou os olhos.

- Ele estava procurando uma noiva.

Lily sentiu aquela frase, aquele tempo verbal inocentemente colocado ali, acertá-la como uma martelada no estômago. Seu pai tinha prometido, certo? Tinha prometido que jamais a venderia para se casar com um completo estranho. Tinha prometido a ela que a deixaria estudar antes de se casar com um homem que ela escolhesse.

- E daí? – Murmurou com a boca seca.

Se pai suspirou pesadamente e levantou os olhos para ela.

- Lily, eu não vou estar aqui para sempre. Você precisa de alguém que possa tomar conta de você depois da minha morte.

- Eu posso tomar conta de mim mesma. – Rebateu.

- Pode? Lily, você já viu a quantidade de roussi na rua?

A moça se encolheu um pouco à menção dos russos. Cada vez mais fortes e mais dominantes, os russos tinham tomado o poder em seu país quando Lily era criança e continuavam firmes até agora.

- Os roussi não têm motivo para nos atacar.

- Hoje, enquanto eu ainda estou vivo. Lily, você não entende? Depois que eu morrer, vocês serão apenas três mulheres morando sozinhas em uma casa fora da cidade.

- Por que não Petúnia? Ela é a mais velha. – Lily teve que se controlar para não derramar naquela frase todo o alivio que estava sentindo. Petúnia jamais se importaria de ser usada como um bibelô para a casa e resolveria o problema de todos eles; baba teria seu guarda costas, James Potter teria sua noiva e Lily teria sua liberdade. Era perfeito.

Seu pai, entretanto, suspirou e voltou a encarar as mãos, não parecendo achar o plano tão genial assim.

- Eu falei com Petúnia de manhã. Ela já tem um noivo.

- Mas, baba– Lily sentiu o estômago afundando – Se Petúnia já tem um noivo, por que eu também preciso ter?

- Eu preciso garantir a segurança de vocês duas. O marido da sua irmã é responsável só por ela. Ele não é obrigado a cuidar de você se não quiser e eu não posso arriscar te deixar desamparada.

- Mas... Mas – Lily não queria casar com um completo estranho antes dos vinte, não mesmo – Eu não posso esperar? Quer dizer, eu não preciso casar agora, certo?

- Sim, Lily, você precisa – Ela arregalou os olhos, surpresa com o endurecimento repentino na expressão de seu baba. – Eu não sei quanto tempo eu ainda vou estar aqui. Hoje, na verdade, eu te chamei aqui para perguntar se James Potter lhe serviria como marido, não para perguntar se você queriaum marido.

- Mas, baba...

- Não – interrompeu o homem, levantando a palma impacientemente – É uma pergunta simples, serve ou não?

- Baba, talvez se eu...

- Lily. – Ele a silenciou. Seus olhos tinham um brilho perigoso, a qual Lily aprendera desde muito cedo a não contestar.

A pressão aumentou em seu peito, como se o ar tivesse repentinamente ficado mais denso, e seus olhos começaram a queimar com lágrimas de frustração. A sensação de derrota se mesclou com o medo e a mágoa em um denso furacão que pareceu espalhar fogo e destruição por todo o coração de Lily.

- Faça como quiser – Murmurou quase inaudivelmente antes de dar as costas para o pai e correr para fora da sala.

-X-

- Você vai... Casar? – Ecoou Severus em choque.

Depois de receber a notícia de que estava noiva, Lily praticamente invadiu a casa de seu melhor amigo e se jogou em seus braços, pronta para passar a tarde inteira soluçando com o rosto enfiada em seu peito.

Severus fez exatamente o que ela esperava que fizesse: abraçou-a com força até estancar suas lágrimas e só então perguntou, num tom baixo e sutil, o que estava acontecendo.

E agora lá estava ela, sentada com os joelhos apertados contra o peito esperando que o amigo dissesse algo que lhe oferecesse pelo menos um pouco de conforto.

O que ela ignorava, no entanto, era que ele próprio estava sentindo os efeitos corrosivos do desespero em suas veias. Como poderia ter deixado isso acontecer? Se o pai dela já reprovava a quantidade de tempo que eles, ''um homem e uma mulher que não são casados'', passavam juntos, o que um marido faria?

Ele a perderia para sempre. Talvez não como amiga, mas... Bem, como algo mais que uma amiga.

Teria que suportar vê-la sendo tocada, amada, por outro homem. Teria que vê-los passeando juntos pelas ruas, rindo e conversando como se já se conhecessem há muitos milênios. Teria que vê-lo parando em um comércio qualquer para comprar um agrado para ela, e vê-la agradecer com um sorriso exageradamente satisfeito.
Teria que vê-la grávida, com as costas curvadas por causa do peso da barriga, recebendo sorrisos, parabenizações e comemorações dos outros que saudavam a nova vida que viria. Depois teria que se limitar a olhar de longe enquanto ela levava um bebê no colo, o fruto de seu amor por seu marido.

E ela pareceria feliz com seu marido e com sua família.

E isso, é claro, contando que seu futuro marido fosse um homem bom, que conseguisse conquistá-la e fazê-la feliz.

Aquela era sua punição por ter sido fraco, por não ter conseguido reproduzir aquela frase ridiculamente curta, aquelas duas míseras palavras. Casa comigo.Por que ele não tinha conseguido dizê-la antes? E agora era tarde demais e ele seria obrigado a assistir tudo o que o acaso tivesse reservado para Lily.

- Sev, você está me ouvindo?

- Quê? Claro. – Mentiu. – Eu estava só pensando.

Ela suspirou impacientemente, retomando o que quer que estivesse dizendo antes.

- O que eu vou fazer se ele não for um bom marido, Sev? Quer dizer, tudo é possível, não é? Ele pode ser grosso, porco, machista, hipócrita ou...

- Lily – interrompeu Severus, apertando seu ombro com a mão. Ele suspirou antes de dizer a frase seguinte. Ela doeria. – Não sofra por antecipação, ele pode não ser tão ruim assim também.

- Mas nós não temos como saber! – Guinchou. – É isso que me mata. De todas as pessoas que babapoderia ter escolhido, ele tinha que escolher um completo estranho.

- Ele te disse pelo menos o nome dele?

- James Potter.

- James Potter? – Repetiu o rapaz, em dúvida. Lily olhou-o interessada.

- Você o conhece?

- Eu... Não sei, eu conheço esse nome de algum lugar. – Suas sobrancelhas se uniram acima do nariz. Era como se os registros referentes àquele nome estivessem enterrados na parte mais empoeirada de sua mente, mas, como se feitos de metal, brilhassem ao menor sinal de luz. Incessíveis, sim, mas brutalmente presentes.

- Baba disse que ele vinha sempre na nossa casa quando eu era criança. – instigou Lily.

Ele balançou a cabeça devagar.

- Eu não consigo lembrar.

- LILY, O BABA ESTÁ CHAMANDO – os dois levantaram a cabeça assustados e viram Petúnia acenando do outro lado da rua, uma ponta solta de seu véu prateado balançando com o gesto.

- Eu... Preciso ir. Tente se lembrar – Pediu ela, se levantando.

E Severus não estava certo se lembrar do rosto do noivo da mulher que amava era bom ou ruim.

-X-

- O baba já te falou? – perguntou Petúnia agarrando o braço de Lily assim que esta passou pela porta.

- Falou o que?

- Sobre os nossos damak, nossos noivos? – Ela soava tão excitada que Lily teve que conter uma careta de nojo.

- Isso não é bom, Petúnia, é uma tragédia. Não sei quem ele escolheu para você, mas eu mal sei o nome do homem com quem eu vou me casar.

- Ah, quem se importa? Baba vai saber escolher um homem digno para nós duas. – Petúnia descartou aquilo com um aceno de mão – Ah! Será tão güzel, tão lindo, o nosso casamento! Vamos chamar centenas de convidados e teremos muita comida, bebida e...

Lily a olhou incomodada. A felicidade excessiva de Petúnia soava exatamente como uma risada escandalosa em um velório.

- Eu vou ver o que o baba quer. – Murmurou como desculpa para se afastar dela, mesmo que seu babafosse a última pessoa que Lily quisesse ver.

- Ah, não, ele não está te chamando. Era só para te trazer para dentro.

- O quê? Por que?

- Porque agora você está noiva e seu noivo pode cancelar o casamento se ouvir boatos sobre você não ser mais pura.

- Humph, como se eu me importasse – bufou Lily e subiu para o seu quarto batendo os pés.

Ela se jogou na cama e escondeu o rosto em seu travesseiro, esperando um dia acordar e perceber que. tudo, desde a doença de babaaté seu casamento arranjado, tivesse sido só um sonho ruim


Dicionário Turco-Português:

- Aile Reisi: o ''homem da casa''
- Hastalik: doença
- Roussi: russo
- damak: noivos
- güzel: lindo

O Não Furo da Trama
Se o marido só é responsável pela esposa, por que o Sr. Evans não está preocupado com a própria esposa? Primeiro, porque seria meio mórbido procurar um marido para a própria esposa. Segundo porque quando alguém se junta a uma família (casando), os pais da noiva/noivo passam a ser considerados como os próprios pais, ou seja, a Sra. Evans vai ser cuidada pelo James e pelo Vernon ;)

Situação histórica:

Segundo a Wikipédia: As primeiras tropas soviéticas a entrar no Afeganistão chegaram em 25 de dezembro de 1979. A retirada final começou em 15 de maio de 1988 e foi concluída em 15 de fevereiro de 1989.
A fic se passa lá pelo fim de 87/ começo de 88, porque eu ainda quero abordar o período da ocupação do Talibã no Afeganistão.