Damat
Os dias que se seguiram passaram rápido demais para o gosto de Lily. Ela gastou seu tempo principalmente na casa de Severus, aproveitando com ele suas últimas horas de liberdade e fugindo da excitação excessiva que Petúnia nutria por aquela proeminente fatalidade.
Não que sua irmã estivesse de acordo, é claro. Na verdade, Lily não se lembrava de nenhuma época em que ela fizesse tanta questão de sua presença, nem quando eram mais jovens e compartilhavam um relacionamento de verdade.
Mal Lily saía de casa, lá estava Petúnia atrás dela, inventando qualquer tipo de desculpa fajuta para arrastá-la de volta para dentro de casa, longe ''das influências negativas daquele garoto Snape'' e dos olhos das ''pessoas invejosas que adorariam encher os ouvidos do noivo de boatos.''
No começo, Lily se limitava a mandá-la arrumar algo melhor para fazer, mas depois Petúnia teve a brilhante idéia de mandar um dos empregados da casa segui-la toda vez que ia à casa dos Snape, e a ruiva, envergonhada demais por sempre trazer um desconhecido para a casa do amigo, desistiu de tentar sair e passou a curtir sua frustração em silêncio.
E o pior é que nem assim Petúnia a deixava em paz!
Não importava o quanto Lily fugia ou o quão claro ela deixava seus sentimentos, Petúnia insistia em persegui-la pela casa fofocando sobre seu futuro marido ou monologando longamente sobre o comportamento que ela e Lily deveriam assumir depois de casadas.
Foi em uma dessas sessões diárias de tortura que Petúnia deu a Lily a grande notícia: James Potter estava a caminho de Cabul, para se encontrar com o patriarca dos Evans e fechar o acordo de casamento. Segundo Petúnia ouvira, ele deveria chegar em dois dias, talvez até menos.
Lily não pôde se impedir de ficar curiosa. Como, afinal, seria James Potter?
A grande verdade é que o orgulho de Lily não havia permitido que ela pedisse sequer uma mísera informação sobre seu futuro marido para qualquer pessoa naquela casa. Que idade teria? Que cor teriam seus olhos, seu cabelo, sua pele? O que o faria sorrir? O que lhe seria intolerante?
Por outro lado, Lily se recriminava por esse tipo de pensamento. Aquele casamento fora planejado sem qualquer consentimento da parte dela, com um estranho que, voluntariamente, aceitara se unir a ela no sagrado matrimonio sem nem ao menos conhecê-la e sem se preocupar em saber se ela estava ou não de acordo com isso.
Ela não deveria sentir curiosidade por ele, nenhuma mesmo, mas era inevitável. Talvez estivesse passando tempo demais com Petúnia, afinal.
Sem esperar a irmã terminar o que quer que estivesse dizendo, a ruiva correu até sua mommy e praticamente implorou que ela a autorizasse a sair de casa sem ninguém atrás dela, para desfrutar daquele último dia de liberdade na companhia de seu melhor amigo.
Sua mommy nem sequer se deu ao trabalho de olhar para ela antes de concordar e Lily, mal conseguindo acreditar em sua sorte, saiu correndo antes que ela tivesse tempo de mudar de idéia.
Mal sabia ela, no entanto, que naquele dia sua mommy estava preocupada demais com o sangue que havia repentinamente brotado nos lábios do marido depois de uma crise de tosse para pensar em futilidades como aquela.
-X-
- Já? – Perguntou Severus surpreso quando Lily lhe deu a grande notícia. – Nós temos só mais dois dias?
- Talvez menos. – Completou, assentindo tristemente. – Petúnia disse que se eu tiver sorte ele estará aqui amanhã de manhã.
Severus sentiu o estômago afundar. Aquilo era pior, muito pior, do que ele havia previsto.
- Não é como se nós não fossemos mais nos ver – emendou Lily rapidamente ao ver a expressão do amigo - Eu vou continuar a vir aqui, com ou sem a autorização dele. Você não precisa se preocupar com isso.
Ele lançou-lhe um olhar perplexo.
- Lily, você não entende? – ao ver o olhar interrogativo da ruiva, Severus se inclinou para mais perto dela e agarrou seus ombros – Lily, ele está vindo de algum lugar a dois dias de distância. James Potter não mora aqui.
Ela arregalou os olhos, finalmente acompanhando a linha de raciocínio de Severus.
- Ele vai te levar com ele. – Completou por fim, largando os ombros da garota com um olhar assombrado preenchendo os olhos cor de ébano. – Depois do casamento.
Lily balançou a cabeça lentamente, sem ter muita certeza sobre o que estava negando. Como eles ousavam obrigá-la a se casar sabendo que ela seria levada para longe? Em uma semana, talvez menos que isso, ela estaria carregando suas malas para longe de sua família, de seus amigos e de tudo que lhe era familiar e reconfortante para acompanhar um marido que ela mal conhecia. Ela deixou a cabeça pender sobre as mãos, tentando entender, mesmo que só um pouco, os motivos de seu baba para eleger, entre tantos outros, um noivo tão cheio de defeitos como James Potter.
Severus a observou silenciosamente, sentindo a adrenalina viajar solta por suas veias com o simples pensamento de vê-la partir por tempo indeterminado para uma terra longínqua onde ele não poderia vê-la, escutar sua voz ou protegê-la do acaso que acolheria sua vida quando aquele homem chegasse à casa dos Evans.
Mas talvez se ele pudesse... Não, aquilo era loucura.
Severus arriscou outro olhar para Lily e viu que sua visão parecia ter se perdido em algum ponto do solo, deixando as íris verdes vazias e sem qualquer sinal de foco.
Ela não queria isso. Não mais que ele.
Severus mordeu o lábio inferior, tentando acumular coragem suficiente para verbalizar as duas palavras que estavam dolorosamente presas em sua garganta desde que Lily lhe dissera que estava noiva.
- Você conseguiu se lembrar dele? – Perguntou a moça, assustando Severus e quebrando sua concentração.
- Q-quê? – Ele engasgou.
- Meu noivo – Suspirou Lily, se endireitando – Naquele dia, quando eu vim te dizer que ia me casar você disse que o nome dele era familiar para você.
- Ah, não eu... Não consegui lembrar de nada – Murmurou em resposta. Começou a remexer na grama rala que circundava a estrada, com o coração aos saltos. Ele ia dizer a ela e ia fazer isso agora, antes que perdesse a coragem de novo.
- Eu vou passar em casa para conversar sobre isso com o baba e depois eu volto. – Anunciou ela rapidamente, levantando e espanando a poeira para longe de suas roupas. Ela lhe ofereceu um sorriso cansando - Tchau, Sev.
Severus sentiu o ímpeto de agarrá-la pela mão, de fazê-la se sentar novamente e escutar até o fim o que ele tinha a dizer, mas cada centímetro dos seus membros parecia repentinamente congelado, não permitindo que um músculo sequer se contraísse.
E ele, mais uma vez, a viu sumir pela multidão que lotava a rua em completo silêncio.
-X-
- Onde, pelo Profeta, você se meteu, Lily? – Exigiu Petúnia agarrando seu braço no instante que a ruiva passou pelo portão.
- Não é da sua conta – Resmungou rapidamente, sem parar de andar.
- Não é da minha conta? Você é minha irmã, é claro que é da minha conta – Lily revirou os olhos para o tom ensaiadamente fraternal que a voz de Petúnia assumiu com aquela última frase. Seus dedos reforçaram o aperto no braço de Lily, obrigando-a a parar. – Você estava com ele, não estava? Com aquele garoto Snape.
Lily levantou o queixo em desafio.
- Estava.
- Você perdeu completamente o juízo? Lily, você sabe o que vai acontecer se seu noivo sequer desconfiar que você está envolvida com esse menino?
- Não vejo como isso possa ser problema seu. – resmungou secamente.
- Ah, você não vê? Então abra seus olhos! – Nesse ponto a voz de Petúnia se elevou até praticamente se transformar em um grito, todas as suas tentaivas de mascarar suas ações repentinamente carinhosas, esquecidas. – Quando o baba morrer alguém vai ter que ser responsável por você. Quem você acha que vai ter que te aturar se você não tiver um marido? Você acha que não é problema meu que se você espantar o noivo que o baba escolheu para você é na minha casa que eu vou ter que te acolher? Acha mesmo?
- Eu nunca te pedi para me acolher na sua casa! – Gritou Lily no mesmo volume.
- Pelo Profeta, Lily, você não pensa? A mommy vai vir morar comigo! Você acha que ela vai me deixar em paz se você estiver na rua, sem ninguém que cuide de você?
- A mommy vai morar com você depois que o baba morrer. Não fale como se ele fosse morrer amanhã, Petúnia!
Repentinamente Petúnia olhou por cima da cabeça de Lily e sua expressão mudou para uma carranca de desaprovação. A ruiva seguiu o olhar da irmã e notou os três empregados parados a uma pequena distância delas, obviamente atraídos pela gritaria.
- Como você sabe que não? – sibilou Petúnia, com a voz consideravelmente mais baixa. – Se você conseguisse parar de agir como uma criancinha mimada só por um segundo você ia perceber que não existe uma média de vida para essa doença que o baba tem.
As duas caíram em um silêncio duro, sem desviar os olhos uma da outra.
- Eu não te pediria ajuda nem que eu precisasse, Petúnia – Disse Lily por fim em um tom frio, começando a andar em direção ao interior da casa de novo – Não se preocupe com isso.
Com isso ela deu as costas para a irmã e sumiu através dos cômodos interiores, deixando para trás Petúnia ainda encarando com raiva o ponto onde ela havia estado e três empregados saindo discretamente do lugar, fofocando em voz baixa.
E aí, o que acharam? :)
Eu ia colocar a chegada do James e as primeiras impressões que ele e a Lily tem um do outro, mas acabei achando que o capítulo ia ficar muito grande. Mas não se preocupem, no próximo eu juro que eu coloco!
