N/A: Com uns dois milênios de atraso, eu sei, mas aqui a está a fic pessoas :)
James Potter
Bem quando Lily achou que não conseguiria aguentar nem mais um segundo da pressão, James Potter chegou.
A temperatura escaldante e a pesada quantidade de umidade que impregnava o ar naquele dia traziam consigo uma essência quase palpável de preguiça, que parecia contaminar todas as criaturas vivas da cidade, esvaziando ruas, comércios e praças públicas e confinando todos as sombras das árvores e dos próprio tetos.
Pessoalmente, Lily não podia pensar em nada melhor para fazer além de procurar um piso gelado em uma sombra qualquer e passar o dia todo estirada nele, conversando com Severus e tomando mais sorvete do que seria aconselhável para uma semana inteira.
E era o que ela planejava fazer; ela praticamente se arrastou até a casa do amigo e perguntou por ele para uma das empregadas da casa, que lhe respondeu por cima do ombro que ele havia saído e que o avisaria que ela esteve ali quando voltasse. Razoavelmente satisfeita com a resposta, a moça se encaminhou até o pequeno mercado da região, brincando com a pequena quantidade de moedas no bolso.
Enquanto esperava o velho comerciante voltar da parte de trás do estabelecimento, onde havia se enfiado para procurar no estoque algumas castanhas que Lily havia pedido em nome da mãe, a moça sentiu o pescoço formigar desconfortavelmente com a sensação de que estava sendo vigiada. Ela se virou para analisar a rua e seus olhos pousaram em uma figura masculina parada não muito longe dali, sentada num banco de jardim da casa do outro lado da rua.
O garoto, pelo que ela podia distinguir, não devia ser muito mais velho que ela, talvez um ano a mais ou a menos; sua pele era amorenada, embora alguns tons mais clara que a que era comumente vista na comunidade nativa da cidade, e contrastava de um jeito suave com a túnica marfim que cobria seu peito. Seu corpo era magro, apenas discretamente delineado por músculos na parte superior dos braços, e seu rosto era fino, com um queixo ligeiramente saliente e maçãs do rosto altas e avermelhadas pelo calor.
Seu cabelo era negro e se dividia em mechas rebeldes que apontavam confusamente para direções variadas e balançavam incontrolavelmente na brisa suave que agora tocava as ruas. Sob as mechas da franja que contornava sua testa, os olhos estavam escondidos por trás de lentes redondas que cintilavam em tons alaranjadas sob o sol do meio dia.
E ele olhava diretamente para ela.
Desacostumada a ser tão intensamente olhada por um completo estranho, Lily desviou os olhos para o interior da loja novamente, tamborilando os dedos sob o balcão e se perguntando onde diabos estava aquele vendedor com aquelas malditas castanhas.
Lily voltou a olhar para trás, mais discretamente dessa vez, e viu que ele agora lhe oferecia um sorriso torto, sem se deixar enganar por sua tentativa de passar despercebida. Ela voltou a olhar para frente, bufando. Quem ele pensava que era para sorrir de forma tão íntima, como se fossem amigos de longa data?
Não era direito que um moço sorrisse para uma moça daquela forma, tão insinuante, como se a convidasse a chegar mais perto, a se esforçar para parecer bela perante seus olhos, a se acomodar entre seus braços e a fazer coisas que uma moça descente não faria. Não, isso não era nada certo, ela não era uma dessas moças que pertenciam às ruas, que não tinham família nem tradições a serem seguidas e acabavam sendo mal faladas pelos mercados.
Ela não ia corresponder seu sorriso, não ia nem mesmo olhar novamente, iria simplesmente ignorar aquele estranho que se achava no direito de tentar seduzi-la até que ele desistisse.
E, no entanto, lá estavam seus olhos traidores novamente, girando em suas órbitas sem autorização para ter outro vislumbre daquele estúpido estranho com seu estúpido sorriso charmoso e suas estúpidas mechas bagunçadas, por onde agora deslizavam os dedos de sua estúpida mão direita. Maldito fosse ele e o calor que ele fazia subir até suas bochechas simplesmente com o olhar.
Felizmente, naquele momento as formas familiares de Nana bloquearam a figura indecentemente sedutora a qual Lily se via incapaz de desviar os olhos, fazendo com que a moça voltasse os olhos para a superfície lisa do balcão, corando ainda mais.
Pelo canto dos olhos, a moça a viu analisar seu rosto com cuidado e amaldiçoou mentalmente, sabendo que Nana saberia ler sua expressão como se olhasse para um livro aberto e que depois lhe faria escutar um longo discurso sobre as coisas que uma moça descente deveria ou não fazer. E, pensou ela sarcasticamente, olhar para garotos com sorrisos estupidamente sedutores na rua provavelmente não se encaixa nas coisas que eu deveria fazer.
Como esperado, a mulher de meia idade bufou baixinho e olhou afiadamente em direção a rua, procurando pelo moço que havia atraído sua atenção, e então arfou. Um pouco confusa por sua reação, os olhos da moça passaram por sua expressão surpresa rapidamente antes de se dirigirem de volta ao estranho, que agora conversava distraidamente com um homem encostado casualmente no portão.
Nana voltou os olhos arregalados de susto para ela e agarrou seu braço afobadamente, arrastando-a para fora do estabelecimento.
- Nana, o que você está fazendo? Sayin Kaaian foi para dentro procurar as castanhas que a mommy pediu, eu estava só esperando ele voltar e...
- Agora não dá, depois eu volto para buscar. – Ela retrucou sem olhar para trás, ainda arrastando-a da loja. A moça tropeçou pela rua, voltando o olhar para o moço uma última vez só para vê-lo sorrindo de um jeito irritante, como se estivesse vendo um número de circo.
- Nana, você pode... Esperar um minuto? – Protestou a moça, arrancando seu antebraço do aperto da outra – O que está acontecendo?
A mulher balançou a cabeça energeticamente, fazendo com que o véu saísse ligeiramente do lugar.
- Agora não temos tempo, eu tenho que avisar a sua mãe que eles já chegaram. Ah, eu sabia que nós não devíamos ter cedido à preguiça hoje! O profeta condena a preguiça por um motivo, sabe? Ah, e o seu quarto e o da sua irmã! Parecem dois ninhos de cobra!
Apressando o passo para seguir o andar frenético da mulher a sua frente, Lily agarrou-a pelo braço para tirá-la de seus devaneios.
- Quem era aquele homem, Nana? Você o conhecia?
Ela se virou surpresa para olhá-la.
- Você não o reconheceu? Ah, claro, você era muito nova quando ele se mudou daqui com o pai depois que a mãe morreu. Aquele era seu futuro marido, minha menina, James Potter.
-X-
A histeria se instalou tão rapidamente na casa quanto fogo em pólvora.
Assim que a velha criada passou pelo portão, arfando com afobação e arrastando consigo a filha mais nova dos donos da casa, e anunciou que o futuro noivo de Lily se encontrava não muito longe dali e que estaria passando por aquela porta até o final daquele dia, cada habitante da casa foi prontamente recrutado para fazer a casa digna de um sultão.
Todos com exceção de Lily, que fora rapidamente jogada para dentro do quarto com a missão de pôr sua melhor roupa, enrolar o cabelo em seu lenço mais bonito e se enfeitar com suas melhores jóias. Quando terminou, a moça analisou seu reflexo no espelho distraidamente, pensando no homem que ela havia visto no mercado mais cedo.
Será que ele sabia que aquela mocinha evasiva dentro do comércio era aquela que ele havia vindo desposar? Ela duvidava. Por outro lado, Nana havia dito que eles haviam tido contato quando eram crianças, ele podia tê-la reconhecido? Também parecia bastante improvável. No entanto, um homem de respeito não cortejaria moças desconhecidas tão abertamente assim - ainda mais no mesmo dia em que vinha conhecer a futura esposa - e seu baba não entregaria sua mão a um homem sem caráter, certo?
Uma batida suave em sua porta cortou seus devaneios e ela mandou entrar, só para encontrar o rosto sorridente do baba refletido no espelho. Ela lhe ofereceu um meio sorriso hesitante em resposta e se aproximou dela vagarosamente, praticamente despencando na cadeira ao lado dela e forçando ar em seus pulmões ruins em arquejos rápidos e superficiais demais.
- Você está bem, baba? – ela perguntou preocupada, se inclinando em seu assento para limpar a pequena quantidade de suor que havia se formado em sua testa. Ela balançou a cabeça reprovadoramente quando ele estendeu a mão, pedindo-a para esperar um momento, ainda arfando desesperadamente – Você devia ter escutado a mommy e ter ficado deitado. Você não precisava ter ajudado hoje. Por Allah, você não devia ter ajudado!
- E perder... Isso? – ele perguntou, pousando uma das palmas em sua bochecha e sorrindo suavemente. – Eu jamais... Perderia isso só por... Uma doença estúpida, minha princesa.
- Você sabe o que eu quero dizer, baba. O médico disse que você precisava descansar.
- Ora, e o médico lá sabe de alguma coisa? – Ele perguntou de brincadeira, ressuscitando a velha frase que Petúnia havia proferido quando criança tentando convencer a mãe a deixá-la sair para brincar na rua quando estava gripada e que havia se transformado em uma espécie de piada interna da família. – Não foi nada demais, Lils, de verdade.
Ela analisou sua fisionomia tristemente, notando com desânimo a quantidade abusiva de força que aquela maldita doença já havia lhe custado em um período tão curto de tempo; seu corpo estava se tornando mais e mais debilitado a cada segundo que passava e roubava avidamente sua força física e sua energia, como se numa última tentativa de conseguir subjugar o parasita que ele próprio havia construído e que o consumia em uma velocidade alarmante. Seu rosto estava mais magro, sua pele descolorida e o homem que antes podia carregar caixas o dia todo sem se cansar havia se convertido a olhos nus em um ser frágil, que precisava parar para recuperar o fôlego depois de subir um lance de escadas.
- Hey, não me olhe desse jeito. – ele pediu, sorrindo de um modo que disse a Lily que ele sabia exatamente o que ela estava pensando – Não quero que você pense em coisas tristes hoje.
- Eu tenho medo, baba. – ela murmurou, agarrando-se a mão que ele mantinha em seu rosto que como se fosse a coisa mais preciosa de todo o planeta.
- Eu também, minha princesa – murmurou, tão baixo que poderia ter dito aquilo a si mesmo, e depois olhou-a nos olhos e sorriu com uma tranquilidade que ela estava certa que ele não sentia – Vai ficar tudo bem, Lils. De um jeito ou de outro, nós todos vamos ficar bem, eu tenho certeza.
Ele limpou a garganta e antes que Lily pudesse responder, sorriu gentilmente e segurou uma de suas mãos.
- Então, está ansiosa pra conhecer seu noivo? – ele perguntou, em uma óbvia tentativa de mudar de assunto.
- Ah, claro. – Ela respondeu vagamente, sabendo bem que ela não poderia se importar menos se ele nunca aparecesse.
- Sabe, escolhê-lo para você foi uma decisão difícil. – confessou de olhos baixos, brincando distraidamente com seus dedos. – Havia outros, claro, que estariam mais que satisfeitos de lhe ter como esposa, mas eles pareciam tão... Errados para você. Eu conheço as filhas que eu criei, Lils, e eu sabia que você enlouqueceria se eu te condenasse a viver para sempre com alguém que tirasse sua liberdade. – ele olhou para ela cansadamente e então suspirou – Eu sei que você não está feliz com isso e sei que eu posso ter me enganado e escolhido alguém que talvez não te faça tão feliz quanto eu sonho que você seja, mas eu precisava que você tivesse alguém. Nosso país está abandonado ao acaso agora, minha princesa. Eu vejo as pessoas comentando sobre a guerra, pessoas estudadas, que sabem do que estão falando, e as coisas lá fora não andam boas. Dizem por aí que os roussi vão acabar caindo, o que eu não duvido, e então nosso país vai ser controlado por quem quer que o conquiste, seja quem for. – ele a olhou seriamente – Por isso, Lils, eu quero que me prometa que se as coisas algum dia ficarem piores, você vai fugir. Não importa quem você não consiga levar com você, quero que me prometa que vai se manter a salvo.
- Baba, eu... – Lily voltou a fitar o olhar decidido do homem a sua frente e seu argumento morreu em sua garganta. Sem ter muita certeza sobre o que estava fazendo, ela assentiu suavemente. – Eu prometo.
- Bom. – ele sorriu distraidamente – Esse talvez tenha sido o principal motivo pela qual eu escolhi James para você. A mãe dele, Nadia, nasceu na Inglaterra. – ela levantou uma sobrancelha para ele, prestes a questioná-lo sobre o que queria dizer, quando ele levantou a palma para ela, com um sorriso misterioso – Khaled a conheceu em uma viajem e acabou convenceu-a a se mudar para cá quando se casaram, mas acho que estava escrito que o pequeno James nascesse lá. Estavam lá visitando a mãe de Nadia e iam voltar no dia seguinte, veja só, quando ela entrou em trabalho de parto. De qualquer modo, o que eu quero dizer é que se as coisas ficarem ruins por aqui, você terá um lugar seguro para onde ir. James pode te tirar daqui se for preciso.
Lily assentiu seriamente e se aproveitou do momento de silêncio para perguntar algo que queria saber desde que voltara para casa naquela tarde.
- Baba, Nana disse que eles moravam aqui quando eu era mais nova.
- Ah, sim. – ele sorriu distraidamente, como se estivesse visitando velhas lembranças felizes naquele momento. – Me pergunto se você o reconheceria se o visse novamente.
- Bom, eu o vi no mercado hoje e não saberia que algum dia nós já nos conhecemos se Nana não tivesse dito nada.
- É, achei que não. – ele comentou vagamente, ainda com um ar distintamente sonhador.
- Baba, o que aconteceu exatamente? Quer dizer, nós éramos amigos ou... Algo assim?
- Ah, sim, vocês dois não se desgrudavam nunca quando eram menores. Onde um estava, lá estava o outro também.
- Severus ficava conosco também? – ela perguntou, se lembrando do que o amigo comentara certa vez.
- Não, eu acredito que não. – ele respondeu, franzindo o cenho – Você dois eram amigos, mas ele e James pareciam ter algum tipo de richa ou uma mágoa qualquer que nenhum de nós nunca entendeu completamente. – ele deu de ombros - Ou talvez simplesmente não estivesse no destino dos dois se tornarem amigos, quem sabe. Acredito que até mesmo a sua relação com ele só tenha se desenvolvido de verdade depois que James se mudou daqui.
- Você se lembra da época em que eles estavam aqui?
- Ah, sim, como se fosse ontem. - ele sorriu distraidamente, visualizando lembranças de tempos passados. – Foram bons dias aqueles. Vivíamos na casa uns dos outros, sempre conversando e comendo juntos, como se fossemos uma família de verdade. Os dois viveram aqui por tanto tempo, Khaled e Nadia, e eu me lembro como se fosse hoje de sentar com meu velho amigo para comer enquanto você e James implicavam um com o outro no jardim. – ele riu baixinho, deixando Lily curiosa para saber o que ele estava vendo em suas lembranças. Então seu rosto perdeu o sorriso e ele voltou a fitar suas mãos, novamente perdido em pensamentos. – Sim, eram dias bons. Quando você tinha uns sete anos se eu não me engano, Nadia ficou grávida de novo. Não era exatamente a melhor das situações, você deve entender, ela já estava mais velha e, para dizer a verdade, não andava tão forte assim da saúde desde que teve James. Quando a criança veio, outro menino, exigiu mais do corpo dela do que ele podia dar e ela não resistiu ao parto.- ele pausou e a olhou seriamente – O que eu vou te contar agora não deve nunca ser repetido, Lily. São lembranças ruins que passaram tempo demais tentando ser esquecidas.
- Tudo bem. – assentiu ela.
- As coisas ficaram um tanto caóticas depois daquilo. Khaled sempre foi um homem forte, entenda, mas Nadia... Era ela quem sempre o mantinha em pé. A perda dela foi um completo desastre para aquele homem. Ele se perdeu completamente, Lils, se transformou em alguém que eu quase não podia reconhecer. Começou a desenvolver vícios, vários deles, a negligenciar responsabilidades. – a expressão do homem se transformou em uma de desgosto. – Perdi as contas de quantas vezes eu fui até a casa dele e encontrei-o bêbado em algum canto com as crianças chorando de fome. De qualquer modo, um dia eu e ele tivemos uma conversa séria, de homem para homem, e eu disse a ele que eu o apoiaria se quisesse concertar sua vida, mas que do contrário eu faria tudo que estivesse em meu poder para tirar as crianças de sua responsabilidade. – ele fez uma careta – Não era algo que me dava prazer em fazer, entenda, eu sabia que apesar de tudo ele amava os meninos mais que a própria vida, mas não era justo que eles tivessem que crescer convivendo com aquela loucura. Eram apenas crianças, afinal de contas. Então uma noite ele veio até a nossa porta, bêbado e chorando como um bebê, e disse que tinha feito uma loucura. – Lily arregalou ligeiramente os olhos, se perguntando como aquela história iria terminar. – Eu me assustei, é claro, pensando que ele podia ter machucado alguém ou feito alguma coisa para os meninos, mas quando eu cheguei a casa dele, James estava dormindo profundamente no quarto, mas o bebê... O bebê não estava em lugar nenhum. Khaled só voltou a si o suficiente para nos explicar o que tinha acontecido quando estava perto do amanhecer e disse que... Que tinha abandonado a criança em um orfanato. Disse que tinha pensado em tudo o que eu havia dito para ele, sobre ele não estar sendo um bom pai para os meninos, e que não tinha condições de cuidar de um bebê de um ano, que ainda era tão dependente dele, e sabia que um orfanato lhe ofereceria condições melhores até que ele estivesse recuperado e pudesse voltar para pegá-lo. Naquela noite mesmo decidiu voltar para a Inglaterra com James. Disse-nos que não podia continuar ali, onde tudo lhe lembrava de seu passado e todos o lembrariam de tudo o que já havia feito de ruim, que queria outro lugar para recomeçar. E foi. Eu me correspondia sempre com ele para ter certeza que estava tudo bem, que ele estava se recuperando e que estava tudo bem com o menino. Uns dois ou três anos depois ele voltou para nossa terra e foi até o orfanato onde havia deixado o menino, mas não o encontrou lá.
- Alguém já o havia adotado. – Adivinhou Lily.
- Sim, um casal o havia levado dali a menos de um ano. – ele suspirou. – Acredito que isso o assombre até hoje. – um sorriso suave envergou seu rosto cansado.
– No entanto, não sei dizer com certeza se ele teria acolhido o jovem Sirius em sua casa com o coração tão aberto se ele não visse nele a chance de se redimir por seus erros.
- Sirius?
- Sim, um garoto que James conheceu na escola em que estudava na Inglaterra e que acabou se tornando mais intimo dele do que um irmão de sangue seria. O menino tinha problemas com a família, não sei dizer exatamente quais, e fugiu de casa quando tinha doze anos e pediu abrigo na casa de Khaled. Acredito que quando ele viu aquele garoto parado no batente da porta, assustado e desesperado por uma família que o aceitasse, pensou que Alláh havia lhe dado uma oportunidade de pagar por seu pecado de abandonar o próprio filho ao acaso e acolheu Sirius de braços abertos.
- E ele ainda está lá? Sirius?
- Ah, sim, ele mora com eles até hoje. Depois de uma semana em que ele estava lá, Khaled ligou para os pais dele e para dizer que ele estava a salvo em sua casa e sabe o que eles lhe disseram? Que o garoto não era mais problema deles. Que havia feito suas próprias escolhas e precisava aprender a lidar com elas.
- Parece que ele realmente tinha problemas de família. – Brincou Lily, fazendo o homem rir.
- É o que parece.
Quando a risada do homem morreu, os dois caíram em um silêncio confortável. Lily olhou hesitante para o baba, tentando se decidir entre perguntar o que estivera atolado em sua garganta desde que descobrira que estava noiva ou manter seu orgulho intacto. O homem levantou os olhos para ela e sorriu levemente, lendo sua expressão.
- Pode perguntar o que quiser para mim, minha princesa.
- Como ele é, baba? – ela perguntou depois de um último momento de hesitação. – James.
- É um homem de valor, Lils. Inteligente, trabalhador e gentil com as criaturas no geral. O tipo de pessoa que defende o que é certo e que faz o possível para proteger quem precisa de proteção.
Lily assentiu, baixando os olhos para o colo.
- Quando eu terei que descer para conhecê-lo?
- Logo. – respondeu o homem pensativamente. – Quando eles chegarem, eu vou me sentar com eles para assinar o contrato de casamento e depois você poderá descer para conhecê-lo.
A moça suspirou cansadamente e virou os olhos para a janela, onde tons de alaranjado agora manchavam o azul limpo que havia estado ali durante o dia inteiro.
Uma mão segurou gentilmente seu queixo e virou seu rosto para frente novamente.
- Tenha fé, Lily. James é um bom rapaz que pode lhe fazer feliz se você lhe der uma chance. Não desperdice toda a sua energia tentando afastá-lo antes de conhecê-lo. Ao menos lhe dê uma oportunidade de conquistar seu afeto.
Lily assentiu novamente, sem realmente pensar no que estava concordando.
O homem se inclinou para beijar sua testa suavemente e então se levantou.
- Você será a noiva mais linda que esse planeta já viu, minha princesa. – ele sorriu e acariciou sua bochecha carinhosamente uma última vez antes de partir.
-X-
Mal seu baba havia saído, Petúnia entrou e começou a retocar os últimos detalhes de sua maquiagem com uma precisão de mestre, prontamente ignorando os resmungos de Lily. Quando ela finalmente se deu por satisfeita e deixou Lily escapar de suas garras, a moça desceu alguns degraus da escada antes de parar ao se deparar com... Severus.
Ela arregalou os olhos, se perguntando o que diabos ele estava fazendo ali, até que se lembrou que antes de todo aquele caos ter início, ela havia passado na casa dele e deixado um recado pedindo que ele viesse até a casa dela quando voltasse.
- Pelo Profeta, o que você está fazendo aqui? – perguntou Petúnia atrás dela, num tom de voz escandalizado.
- Lily pediu para que eu viesse. – ele respondeu com uma carranca. Ele voltou os olhos para ela e a analisou de cima a baixo, com uma expressão maravilhada. – Por Allah, Lily, você está tão...
- Você o que? – cortou Petúnia, virando-se para Lily – Você perdeu o juízo, Lily? Por que, por Allah, você o chamaria aqui?
Lily rapidamente desceu as escadas e agarrou o braço de um muito confuso Severus e começou a arrastá-lo para a porta.
- Você tem que ir embora, Severus, agora. Meu noivo já está na cidade e pode chegar a qualquer...
O som da campainha cortou suas explicações e ela parou abruptamente, arfando.
- Droga. Droga. Droga. – ela amaldiçou enquanto passos se aproximavam da cozinha. Sem saber direito o que estava fazendo, Lily puxou Severus para trás de uma cortina e entrou logo atrás dele, bem a tempo antes que seu baba passasse pela sala e abrisse a porta.
- O que...? – ele começou a perguntar, mas Lily tapou sua boca rapidamente, se encolhendo ao lado dele.
Como esperado, cumprimentos altos foram ouvidos e quatro perfis masculinos passaram na frente da cortina conversando em vozes altas e cheias de entusiasmo e, para o completo desespero de Lily, se acomodaram nos sofás da sala.
Segundos depois, sua mommy apareceu e apertou a mão de um dos homens com um enorme sorriso.
- Khaled! Que prazer tê-lo conosco novamente. Como tem estado, meu amigo?
- Muito bem, muito bem – ele respondeu simpaticamente – Como você tem estado? As meninas?
- Muito bem. – respondeu baba, sorrindo também. Ele se virou para o homem parado ao lado de Khaled e esticou a mão para cumprimentá-lo também. – Por Allah, James, como você está crescido! Da última vez que o vi você ainda brincava na rua. Ainda se lembra de como se fala a nossa língua? – ele perguntou de brincadeira, fazendo o homem rir.
- A maioria, sayin Evans. – ele respondeu com um sotaque acentuado que Lily não soube reconhecer.
- E esse jovem aqui deve ser Sirius, estou certo? – Continuou baba, estendendo a mão para o terceiro homem. Lily o viu hesitantemente apertar a mão de que seu pai lhe estendia em completo silêncio.
- Perdoe a falta de simpatia do meu amigo aqui, sayin Evans, mas ele quase não fala a nossa língua. – James interveio rapidamente então cutucou as costelas do amigo e sorriu – Acredite, de outro modo ele não calaria a boca.
Os outros na sala riram e o garoto chamado Sirius se inclinou em direção a James e os dois trocaram algumas palavras em uma língua que Lily não entendeu, logo antes de Sirius rir e imitar o gesto que James havia feito, de cutucar suas costelas com o cotovelo. Era uma dinâmica bastante estranha, pensou Lily.
- Vamos conversar lá na cozinha, vou preparar um chá para vocês. – ofereceu-se a mommy de Lily e eles se levantaram e a seguiram em direção à cozinha.
Com um suspiro de alívio, Lily cautelosamente se moveu para longe da cortina, arrastando Severus com ela pelo pulso. Eles já estavam há poucos passos da porta quando Lily ouviu passos voltando para sala e um leve arfar de surpresa. Com o coração acelerando algumas batidas, a moça se virou devagar e seus olhos se encontraram com grandes orbes acinzentadas.
O homem a sua frente, que Lily supôs ser o tal Sirius, tinha cabelos tão negros quanto os de James, embora os seus caíssem ordenadamente até a altura dos ombros, e sua pele era vários tons mais clara que a dela, deixando claro que ele vinha de uma um solo mais frio que o solo afegão. Seu rosto tinha traços finos, quase aristocráticos, e seu corpo era mais forte e ligeiramente mais alto que o de James. Por fim, seus olhos eram de um tom de cinza que Lily nunca havia visto antes, contornados por uma espessa camada de cílios.
Eles se encararam cheios de tensão por um segundo e então Sirius apontou para o sofá e disse alguma coisa que Lily não conseguiu entender, mesmo com o tom alto e exageradamente pausado do outro. Ela fez uma careta de confusão para ele e olhou rapidamente para a direção que ele apontava e viu um pequeno livro de bolso pousado no assento. Ela voltou para olhar para ele, ainda segurando o pulso de Severus nervosamente, só para vê-lo murmurar mais alguma coisa e rapidamente pegar o livro e enfiá-lo de volta no bolso.
Ele apontou para o lugar e levantou os ombros com um sorriso, tentando comunicar alguma coisa que Lily não entendeu. Ela se virou para olhar para Severus e viu sua confusão espelhada na expressão do amigo. Sirius então deu um passo a frente e limpou a garganta, antes de pousar a palma no próprio peito e dizer algumas palavras em inglês seguidas de seu nome.
Achando que ele estava tentando se apresentar, Lily imitou seu gesto e disse seu nome em uma voz clara. Ela olhou para Severus, esperando que ele se apresentasse também, mas ele apenas olhou a interação entre os dois em confusão. Com um suspiro de impaciência, ela pressionou a palma contra o peito do amigo e disse seu nome também.
Sirius sorriu estranhamente e então tentou novamente falar alguma coisa, apontando para ela, ao redor da sala e então para o chão e ganhando como resposta outra expressão confusa. Ele suspirou e estava prestes a repetir os gestos quando outra pessoa se aproximou atrás dele, perguntando alguma coisa em inglês.
Ele se virou para a figura e apontou para Lily e Severus, comentando alguma coisa na mesma língua. Lily amaldiçou em voz baixa, analisando suas chances de sucesso se ela corresse até a porta e jogasse Severus para fora antes que a outra pessoa, quem quer que fosse, vencesse a distância até Sirius.
E, no entanto, lá estava James Potter ao lado de Sirius antes mesmo que ela pudesse se decidir. Ele a olhou surpreso, obviamente reconhecendo-a do mercado e sua mão voou novamente para suas mechas.
- Ah, oi. – ele murmurou, sorrindo timidamente para ela. Sem esperar resposta, ele estendeu a mão para ela – Eu sou James.
- Lily. – ela respondeu, analisando os detalhes que a distância havia apagado de seu rosto da primeira vez que ela o viu.
Seus olhos, protegidos por óculos de armação redonda, eram castanho-esverdeados e tinham um quê de gentileza que parecia estar ali há tanto tempo que já havia se tornado parte de sua fisionomia, e eram levemente contornados por marcas de riso. Suas maçãs do rosto faziam uma curva delicada abaixo de seus olhos e sobre elas jaziam várias manchinhas que começavam em um dos lados de seu rosto, passavam por boa parte da extensão do nariz e terminavam do outro lado. Logo abaixo do nariz, seus lábios cheios e avermelhados sorriam gentilmente para ela, criando covinhas nos pontos em que tocavam as extremidades de suas bochechas.
Ela sentiu seu rosto formigar suavemente e percebeu que ele analisava seu rosto com tanta voracidade quanto ela analisava o seu.
- Você... Eu conheço você! – exclamou Severus ao seu lado e Lily se virou para ele surpresa. Ele encarava o homem a sua frente com uma mescla de surpresa e indignação. James, por sua vez, o olhava tão surpreso quanto Lily.
- O que?
- Você é James Potter! – James trocou um olhar surpreso com Sirius e se voltou para olhar para Severus com olhos largos.
- Nós nos conhecemos?
- Não me diga que você não se lembra de mim. – recrutou Severus parecendo um tanto ultrajado. Quando a resposta de James se tornou clara por sua expressão, Severus bufou. – Muito bem, deixe eu te lembrar então: Quando você ainda morava aqui e me mandou ficar longe dela e ainda juntou seu bando de amigos idiotas para bater em mim para frisar a ordem.
Se possível, os olhos de James pareceram ficar ainda maiores e ele olhou para ela e para Severus com descrença visível em cada centímetro do seu rosto.
- Eu fiz isso?
- Não se faça de desentendido, Potter, eu sei que foi você. – ele se virou para olhar para Lily com uma ponta de fúria nos olhos. – Eu sabia, sabia que conhecia esse nome de algum lugar.
- Olha, eu não me lembro de nada disso. – ele disse desconfortavelmente – Mas se eu fiz isso mesmo, eu peço desculpas.
- Desculpas. – Desdenhou Severus. – Agora eu me lembro de você. Aquele bando de idiotas que te seguia por todo lugar sempre me ameaçavam quando eu era criança, por ordem sua. Sim, é isso mesmo, eu me lembro agora, você os mandava atrás de mim porque tinha ciúmes de mim.
Sua expressão tornou-se indignada e ele exclamou algo em inglês que fez Sirius, que parecia mais e mais interessado na discussão a cada segundo que passava, olhá-lo curiosamente.
- Como é? O que te faz pensar que eu teria ciúmes de você? – ele perguntou, novamente na língua deles.
- Você tinha. – Severus respondeu com uma expressão presunçosa. – Porque além de ser mais amigo dela do que você, eu ainda tinha um pai e uma mãe que gostavam de mim.
Aquela pareceu ser a gota d'água para James, que fechou sua expressão em uma carranca e se adiantou até Severus de punhos cerrados. Sirius o agarrou pelos ombros rapidamente e exclamou alguma coisa em inglês a qual James respondeu ainda de olhos fixos em Severus.
Lily se virou e agarrou Severus pelos ombros, chacoalhando-o para chamar sua atenção.
- O que você pensa que está fazendo, Severus? Saia daqui, agora. – ela comandou, empurrando-o em direção a porta. Ela não achava que as ações de James - se ele era realmente o garoto das memórias de Severus - estavam certas, de maneira alguma, mas achava que aquela discussão já tinha gerado calor demais por uma ofensa tão antiga e, com todo sinceridade, que o último argumento que Severus havia usado tinha sido um tanto ofensivo demais.
Ele a agarrou pelos pulsos firmemente, encontrando seus olhos com uma intensidade espantosa.
- Casa comigo, Lily. – Ela olhou-o completamente surpresa e ele puxou-a para mais perto. – Você não precisa casar com ele se não quiser, eu posso te fazer muito mais feliz do que ele te faria. Eu te amo, sempre amei. Case comigo, Lils.
Ela olhou para ele em completo choque, se perguntando de onde diabos aquilo havia saído, quando ela ouviu exclamações vindas de algum ponto atrás dela e percebeu que eles haviam estado gritando. Ela imaginou a cena que seus pais e seu futuro sogro estavam vendo agora, um dos noivos sendo impedido por um amigo de descer os punhos sobre o rosto de um amigo da noiva, que agora segurava seus pulsos e a olhava de um jeito assustador.
- O que está acontecendo aqui? – Exclamou seu baba surpreso. – Severus, o que você faz aqui?
Lily olhou para eles, analisando cada uma de suas expressões com cuidado; Petúnia a olhava com um desgosto que beirava ao desprezo, seus pais com expressões quase idênticas de surpresa e confusão, mas o outro, Khaled... Ele entendia o que estava acontecendo. Ela podia ver pela expressão grave que se formava em seu rosto enquanto seus olhos passavam do filho para ela e depois para Severus.
Lily voltou a olhar para o baba e seu rosto esquentou em frustração quando pensou no que Severus estava fazendo; na vergonha que ele estava praticamente implorando para que ela fizesse a própria família passar, que ela trouxesse para si mesma, bem ali na frente de um amigo de longa data do baba. Recusar um noivo depois que tudo já havia sido acertado, que sua família já tinha se comprometido, era altamente ofensivo.
Com um movimento brusco, Lily se soltou do aperto do amigo e tropeçou alguns passos para trás, longe dele.
- Saia, Severus. Agora. – ela comandou entre os dentes cerrados.
Ele a olhou com surpresa e um toque de mágoa no olhar. Ela sabia que devia tratar seus sentimentos com cuidado, ainda mais em uma situação tão crítica, mas aquela simplesmente não era nem a hora e nem o lugar certo para se ter aquela conversa. Ela consertaria as coisas com ele depois, mas agora precisava salvar sua família de ter o nome jogado na lama.
- Se você escolher se casar com ele, – ele apontou para trás dela, para James, que agora assistia a interação dos dois com os braços cruzados firmemente no peito – então você pode me esquecer. Se o preço para te ver é ter que olhar em silêncio enquanto fica nos braços desse daí, então é um preço alto demais. Escolha, Lily, ou minha companhia ou a dele.
Lily olhou para ele sem acreditar que ele realmente estivesse fazendo isso. Aquele não era o garoto que Lily conhecia, era uma versão distorcida e cheia de raiva e impulsos com os quais ela não sabia lidar. Era isso, ele estava com raiva agora. Quando estivesse mais calmo ele reconsideraria, ela tinha certeza.
- Não, Severus, eu já fiz minha escolha. – ela murmurou, dando um passo para trás. Ele analisou seu rosto por um momento e então assentiu, desviando os olhos dela.
- Se é o que você quer, – ele murmurou, com a expressão se torcendo em dor, mágoa e humilhação. – então é o que você vai ter.
Ele deu as costas para a sala e encaminhou-se uns poucos passos em direção a porta, antes de parar abruptamente e se virar novamente e olhar para James. Lily seguiu seus olhos para ver o noivo oferecer um sorriso presunçoso e levantar uma sobrancelha para Severus. Ela bufou baixinho, como se ela o estivesse escolhendo em favor do melhor amigo.
E então tudo aconteceu rápido demais; num segundo os dois estavam devidamente separados e no próximo o punho de Severus fazia contato com o rosto de James, num soco que quase o jogou no chão e quebrou o silêncio opressivo que tinha se formado na sala.
A reação foi imediata; Sirius entrou na frente de James e exclamou algo em um tom indignado para Severus, que se limitou a olhá-lo com desdém. Khaled puxou James pelo braço quando este fez menção de retribuir o soco, e o segurou pelos ombros, olhando para Severus com uma expressão bizarramente similar a do filho, e seu baba rapidamente se adiantou até Severus para pedir num tom calculadamente educado que se retirasse.
Quando ele se foi, batendo a porta com um estampido alto atrás de si, a sala toda mergulhou em um silêncio extremamente desconfortável. Lily olhou para os próprios pés, tentando furiosamente afastar as lágrimas de frustração e mágoa que teimavam em se juntar sobre seus olhos.
Aquilo era tudo culpa dela; ela não devia ter chamado Severus. Devia ter se lembrado que ele viria até ali e desmarcado tudo quando soube que James Potter estava na cidade. Devia tê-lo escondido em um lugar melhor, onde ele não teria contato nenhum com ninguém.
E então talvez eles ainda estivessem conversando alegremente na cozinha e a primeira impressão que seu noivo fosse ter dela fosse de uma moça respeitável, não uma vadia que tinha relacionamentos amorosos com o melhor amigo mesmo estando prestes a se casar com outro. E pela primeira vez ela entendeu plenamente o que Petúnia queria dizer.
- Talvez seja melhor voltarmos outro dia. – Sentenciou Khaled solenemente, por fim quebrando o silêncio.
Timidamente, Lily levantou os olhos para James, vendo que como ela ele tinha os olhos baixos e que um discreto fio de sangue descia de um pequeno corte em sua bochecha, provavelmente no lugar onde o anel de Severus havia ferido sua pele.
- Sim, talvez seja... O melhor – balbuciou seu baba com a voz boiando em constrangimento. – Talvez um outro dia quando as coisas estiverem mais calmas.
- Espere, eu... – ela murmurou, atraindo a atenção de todos na sala. Ela olhou nervosamente para James, mantendo os olhos afastados de todos os outros. – Deixe-me cuidar disso. – pediu apontando para sua bochecha ferida.
Ele tocou o lugar que ela indicou com uma ponta de surpresa, como se mal tivesse notado que a pele havia sido rompida.
- Sim, claro. – ele murmurou hesitantemente como resposta e a seguiu para fora da sala, voltando para a cozinha da qual nunca devia ter saído.
- Espere aqui um momento, eu já volto. – ela comandou sem encontrar seus olhos e saiu à procura de água e gaze para limpar e proteger a ferida.
Quando voltou ao aposento, depois de um longo tempo em que ela se moveu com lentidão exagerada e formou várias desculpas para não voltar à cozinha, Lily se sentou na frente dele e molhou o pano em silêncio antes de gentilmente tocar a área ferida. Ele fez uma careta de dor quando a água entrou em contato com a carne exposta, mas do contrário não apresentou outra reação.
- Desculpe. – Disse Lily automaticamente. Ele lhe ofereceu novamente aquele sorriso gentil e tirou sua mão de seu rosto com delicadeza, interrompendo a tarefa. Lily esperou que ele soltasse sua mão, mas ele a manteve entre seus dedos, distraidamente desenhando círculos nas costas de sua mão.
– Quanto ao que aconteceu lá trás... – ele apertou sua mão com delicadeza quando a sentiu estremecer. – Não se culpe por isso, não foi culpa sua.
- Foi sim. – ela respondeu antes que pudesse se impedir. – Ele não estaria aqui se eu não o tivesse ido até a casa dele para convidá-lo antes de ir ao mercado e... Você sabe.
Bizarramente, seu sorriso se aprofundou.
- Bom, acredito que você não tenha pedido para o idiota vir até aqui para tirar satisfações comigo por algo que eu nem me lembro de ter feito, ou declarado seu amor por você na frente de toda a sua família, ou me dado um soco para descontar a frustração dele. Ou será que eu estou errado e existe uma mente maligna atrás desse rosto bonito? – Ele perguntou de brincadeira, escorregando um dos dedos por baixo do seu queixo para levantar seu rosto suavemente. Ela retribuiu seu sorriso, embora com uma ponta de tristeza.
- Não, eu não pedi isso.
- Então não foi culpa sua. – ele sentenciou por fim, finalmente liberando sua mão e permitindo que ela continuasse seu trabalho em seu rosto.
Ela trabalhou em silêncio por um momento e então viu seus traços repentinamente se torcerem em indecisão, como se tentasse se decidir entre falar o que estava pensando ou não. Lily suspirou, tendo uma idéia bastante plausível sobre o que ele queria dizer.
- Nós nunca tivemos nada. – ela respondeu antes que ele pudesse perguntar, arrancando dele um olhar surpreso. – Eu e Severus. Nós somos só amigos.
- Ah, tudo bem. – ele murmurou, corando um pouco por ter sido tão facilmente lido por ela. – Eu não achei que tivessem alguma coisa.
- Não?
- Não. Eu sei dizer quando relacionamentos brotam e quando eles já tiveram a chance de crescer. – ele voltou a sorrir. Lily não pode se impedir de pensar que seu rosto parecia se enfeitar naturalmente quando ele sorria daquele jeito. – E, para dizer a verdade, sua expressão é bastante óbvia.
- É o que todos dizem. – Ela riu.
Lily pousou a toalha na mesa e fixou a gaze sob a ferida no rosto do noivo em silêncio.
- Acabei. – disse, abaixando as mãos, razoavelmente satisfeita com o trabalho.
James tocou o local cautelosamente e depois sorriu para ela.
- Obrigado.
- Não foi nada. – ela respondeu, retribuindo o sorriso.
Ele se inclinou para beijar uma de suas mãos, fixando nela um olhar indecifrável.
- Foi um prazer conhecê-la, Lily.
- O prazer foi meu. – ela murmurou distraidamente, concentrada na sensação exótica que ele havia deixado em sua mão quando seus lábios a tocaram.
Ele se virou e se dirigiu em direção à sala, mas então parou no batente da porta, pousando as palmas nas duas paredes que o circundavam e se virou para ela de novo, levando uma mão ao cabelo.
- Lily, sobre o mercado hoje... – ela levantou uma sobrancelha para ele – Eu não estava realmente flertando com você eu só... As garotas daqui são diferentes das com quem eu convivi na Inglaterra. Aqui elas são tão mais, eu não sei, fechadas, me parece. Já faz um longo tempo que eu não venho a Cabul e... Bom, eu acabei me desacostumando. Eu não pretendia fazer nada no mercado hoje mais cedo, eu estava só brincando, na verdade.
- Brincando? – ela perguntou surpresa.
- É, eu estava só te provocando para ver como você reagia. – Ele disse timidamente. – Sorte a minha que eu escolha fazer isso bem com a única mulher a quem eu devo satisfações, certo?
Um sorriso pequeno se formou no rosto de Lily e ela assentiu.
- Não tem problema.
Ele piscou um olho para ela e saiu do cômodo, deixando Lily olhando para o ponto onde ele havia desaparecido com um sorriso sonhador e orbes perdidas em algum ponto entre seu sorriso estupidamente encantador.
