N/A: Com menos demora dessa vez, como prometido :) É curtinho comparado com o anterior, mas espero que vocês gostem!


Dudaklar

O tempo pareceu verdadeiramente voar depois daquela noite.

Lily se viu entrando em uma rotina bastante diferente, então, que incluía longas caminhadas a uma vasta variedade de comércios e bazares para a organização do casamento, a presença constante de James Potter, que vinha visitá-la todos os dias durante a tarde e ia embora pouco antes do jantar, e o silêncio opressor de Severus, que se manteve firme à sua palavra e se recusou a falar com ela todas as vezes que ela foi procurá-lo.

Ainda que um pouco surpresa consigo mesma, Lily se viu aceitando – mesmo que relutante - as investidas do noivo em ocupar aquela enorme lacuna dolorosamente latejante que Severus havia deixando para trás, o qual havia sabiamente empenhado todo seu esforço em tentar fazê-la se sentir amada mesmo sem a presença do melhor amigo.

Mesmo que sua racionalidade gritasse que parte do afeto que ela relutantemente nutria pelo homem se devia a carência da presença de Severus e à solidão que ela subitamente passou a sentir, uma vozinha que se parecia suspeitamente com a de Petúnia argumentava que ela simplesmente havia aprendido a apreciar a presença confortável de James pela beleza de tê-lo como amigo, sem levar em conta a massa embaraçada de sentimentos contraditórios que havia se formado dentro dela.

E no fundo, ela sabia, a amizade que crescia entre os dois se devia a ambos os motivos.

James não era uma má pessoa para se passar o tempo, ela tinha que admitir; o sorriso gentil, o modo natural do qual ele se utilizava para fazê-la sorrir, o toque casual de sua mão na dela, tudo somado a ausência de Severus e Lily se pegou esperando por suas visitas com crescente agitação, tão logo o azul vibrante que cobria o céu de verão se desbotava para um tom mais claro.

Nos dias que passaram na companhia um do outro, Lily passou a registrar também os detalhes que caracterizavam James e somente ele, como a incessante guerra que parecia ser travada entre o verde e o castanho em seus olhos toda vez que estes eram expostos ao sol, o modo agitado com que ele estralava os dedos, várias vezes seguidas, quando não conseguia se lembrar de uma palavra em sua língua natal ou sua mania irritante de passar a mão no cabelo. E se pegou irracionalmente satisfeita por conhecê-lo bem o bastante para ter acesso a tais detalhes.

Mas talvez suas melhores visitas ainda fossem aquelas em que Sirius o acompanhava; Lily simplesmente não conseguia se impedir de rir do jeito atrapalhado com que o homem regia suas ações, sempre tropeçando em seus pés ou em suas palavras. Seus conhecimentos de inglês ainda eram rasos demais para que ela conseguisse entender pouco mais do que algumas palavras soltas em cada uma de suas frases – a despeito das incansáveis tentativas de James de ensiná-la algumas coisas do idioma -, mas Sirius de algum modo conseguia se fazer entender por gestos ou pelas traduções rápidas que James oferecia quando estava com um humor particularmente bom.

Mas mesmo com o espaço cada vez maior que James ocupava em seu coração, a moça não conseguia se impedir de lamentar a perda de Severus em sua vida; era para os braços dele que ela tinha vontade de correr quando se sentia solitária ou deprimida – mesmo que, naquele momento, essas emoções fossem causadas por ele – e da tranquiliadade que parecia emanar dele toda vez que eles estavam juntos que ela sentia mais falta.

Mais de um milhão de vezes, ela lamentou o que havia acontecido na noite que conheceu James.

Assim que o relógio anunciou o meio dia, no dia seguinte ao acontecimento, Lily correu até a casa do amigo com uma conversa pendente em baixo do braço e plena confiança que ele a escutaria agora que estava mais calmo, só para ganhar como resposta um olhar ofendido, algumas palavras grosseiras e uma ordem para que fosse embora e não voltasse nunca mais.

Mas sendo Lily a pessoa teimosa que era, ela voltou a casa do amigo todos os dias no mesmo horário durante um mês quase inteiro, antes de finalmente se dar por vencida e se limitar a apenas criar ilusões coloridas em que ele vinha pedindo desculpas por ter sido tão teimoso e lhe dizendo que ela tinha seu perdão.

No entanto, mesmo a meras duas semanas de distância do casamento, Severus não havia lhe oferecido nem mesmo um olhar que não estivesse carregado de veneno, ainda mais um sinal de redenção.

Ela suspirou e começou a brincar com uma ponta solta do véu, se perguntando por que diabos a vida não podia ser menos complicada que isso, e sentiu dedos preguiçosamente se entrelaçando nos seus. Ela olhou para o lado um pouco assustada, tendo quase se esquecido que James estava ali, esticado no chão logo ao lado dela.

- Hey, pra que abusar da massa cinzenta, moça? – ele perguntou com um sorriso brincalhão.

- Nada. – ela respondeu distraidamente. – Eu estou só pensando em algumas coisas.

Ele analisou seu rosto com um olhar pensativo por um momento e então se ergueu em um dos cotovelos, franzindo a testa levemente.

- Alguma coisa errada? – ele perguntou.

- Não, não é nada. – vendo que sua atenção não deixou seu rosto, ela se ergueu do chão, se equilibrando sobre a bacia e abraçando os joelhos contra o peito. – Você não entenderia.

- Tente. – ele pediu gentilmente, copiando seus movimentos e sentando-se ao seu lado.

- Não é nada, de verdade. – ela murmurou, desviando os olhos para o chão. A verdade é que não importava o quão compreensivo e paciente James pudesse ter se mostrado até aquele momento, ela tinha plena certeza que sua intolerância seria açulada assim que o nome de Severus fosse mencionado.

- Hey. – um dedo fino escorregou até seu queixo e puxou seu rosto para o lado. – Eu sei que nós nos conhecemos há muito pouco tempo e que nós... Não tivemos tempo o bastante para confiar muito um no outro. Eu respeito isso, Lily, de verdade, e por isso eu não vou te pressionar para me contar as coisas antes do tempo, mas apenas saiba que... Eu vou estar aqui, ok? Se algum dia você quiser conversar, sobre o que quer que seja, você pode ter certeza que eu vou te escutar, ok? Eu não vou te... Julgar se você não quiser, quero dizer, vou tentar ou... É isso.

Lily não pode pensar em mais nada a fazer além de genialmente olhá-lo de boca aberta enquanto ela tropeçava em suas palavras. Seus olhos estavam endurecidos por uma seriedade incomum dele, enfatizando cada uma de suas palavras e exaltando-as como verdadeiras. Percebendo que ela não tinha respondido a suas palavras e que seu silêncio estava fazendo sangue subir até a face do noivo, manchando-a de um delicado tom de vermelho, Lily limpou sua garganta e murmurou em concordância.

Sem realmente pensar no que estava fazendo, Lily distraidamente puxou a mão que James mantinha em seu rosto para baixo e a envolveu com ambas as mãos, deixando seus olhos repousarem sobre seus dedos unidos e se apagarem de qualquer sinal de atenção.

Eles se sentaram em um silêncio confortável por um minuto, cada um perdido em seu próprio universo, encarando suas mãos com olhos desfocados.

James era... Diferente. Por mais que tentasse, Lily não conseguia reconhecer o tipo de sentimento torto que havia brotado e crescido dentro dela naquele mês que passaram juntos. Era um sentimento parecido com o que ela sentia por Severus, no entanto não era exatamente... Igual.

Era tão estranho! Lily sabia que era amizade, isso ela tinha certeza, mas era um tipo torcido e adulterado do sentimento com o qual ela havia aprendido a conviver desde muito cedo. Ela não sabia dizer se era a pressão que o noivado trazia ao relacionamento ou se as coisas apenas caminharam para um desenvolvimento diferente, mas alguma das ações mais espontâneas de James, como seu toque contra a pele dela ou seu sorriso simples lhe arrancavam reações que outros dos seus amigos não conseguiam despertar.

Diabos, Lily nem mesmo sabia descrevê-las! Era simplesmente... Diferente.

Um leve roçar do lado esquerdo do seu queixo chamou sua atenção e ela levantou os olhos para o noivo, vendo que ele tocava seu rosto com as pontas dos dedos da mão livre, tão levemente que o toque parecia ser quase completamente privado de pressão, e seus olhos analisavam seu rosto com uma expressão quase vidrada.

Seus olhos se encontraram, então, e Lily sentiu um ligeiro foco de calor se formar em algum ponto abaixo de seu estômago e se espalhar por seu corpo, como se minúsculas faíscas estivessem viajando por seu organismo naquele exato momento. O verde estava ganhando do castanho naquela tarde, ela pensou vagamente.

Seus dedos subiram lentamente por seu rosto, vindo finalmente pousar em sua bochecha, ainda com o mesmo toque leve de antes e, quando seus olhos baixaram discretamente até sua boca, Lily notou que seus rostos estavam bem mais perto do que há um minuto. Mas naquele exato momento, a moça percebeu que seu cérebro estava entorpecido demais pelo cheiro amadeirado que emanava dele e por sua proximidade anormal para reagir ao que ela agora sabia que estava por vir.

E, com toda certeza, no momento seguinte seus lábios roçaram nos dela com delicadeza, como se pedindo uma autorização para ir além daquele limite. Sem pesar as consequências de seu consentimento, sem nem mesmo raciocinar, Lily libertou uma das mãos que mantinha entrelaçada a de James em seu colo e a levantou até tocar seu maxilar, enroscando os dedos ao redor de sua nuca, e pressionando seus lábios aos dele com um pouco mais de força.

Aquele pareceu ser todo o consentimento que ele precisava, já que em um movimento fluído ele encurtou a distância entre seus corpos e aprofundou o beijo, forçando entrada por entre os lábios da noiva.

Tempo pareceu se torcer de um modo confuso demais para ser seguido, então, de modo que Lily não sabia mais dizer se haviam se passado dois minutos ou dois anos enquanto eles estavam ali, inconscientes ao mundo que os cercava. Naquele ponto, a parte racional da mente de Lily parecia ter sido completamente envolta em uma maciça camada de inércia, que puxava seus pensamentos para direções opostas e os engolia, empurrando seus instintos mais primitivos para o comando das ações de seu corpo.

Naquele momento uma alta exclamação de choque soou, trazendo Lily de volta à Terra com um baque. Ela separou seu rosto do de James e arregalou os olhos para o portão, só então notando que eles estavam se agarrando no quintal de sua casa, onde qualquer vizinho poderia ver e deixar escapar para seu baba que sua filha e o noivo estavam agindo indecentemente e contra os ensinamentos do livro sagrado.

Sorte a dela que, de todas as pessoas, era Severus quem estava parado na frente de seu portão, encarando-a com uma expressão que se mesclava entre choque, raiva e nojo.

Corando violentamente, Lily percebeu que seus dois antebraços estavam enroscados ao redor dos ombros de James e que a distância entre seus corpos, naquele momento, era praticamente nula. O homem tinha ambas as mãos pressionadas contra suas costas e olhava Severus com confusão e um pouco de raiva.

Em um movimento ágil, Lily desceu as mãos até o peito do noivo e o empurrou para longe, o obrigando a libertá-la hesitantemente, gemendo baixinho em decepção. Com o rosto ardendo de vergonha, Lily se afastou de James o máximo que conseguia e abraçou os joelhos contra o peito, olhando para o chão.

- Pelo Profeta, o que você está fazendo aqui? – James perguntou azedamente para o intruso. Lily arriscou uma olhadela para ele e percebeu por sua expressão que, por algum motivo, ele desconhecia a regra que os impedia de se tocarem desse jeito antes de estarem devidamente unidos em matrimônio.

Severus, por sua vez, se limitou a balançar a cabeça devagar, olhando-os com uma expressão perturbada.

- Vocês são nojentos. – Ele anunciou por fim, antes de virar as costas para ele e voltar pelo caminho pelo qual tinha acabado de vir.

James bufou em impaciência, revirando os olhos para o outro garoto.

- Nojento por beijar uma garota, francamente. – murmurou sarcasticamente, balançando a cabeça com exasperação.

Lily sentiu seus olhos pousarem nela e hesitantemente ergueu os olhos para ele, tentando esconder a dor aguda que as palavras cheias de repulsa de Severus haviam infligido a ela. E foi então que ela notou.

- James, seus lábios estão cheios de batom. – ela comentou baixinho, com um sorriso tímido lentamente envergando seus lábios. Uma enorme mancha avermelhada se espalhava irregularmente ao redor de seus lábios, em lugares que Lily nem se lembrava de ter alcançado.

Ele tocou os próprios lábios rapidamente e então sorriu de um modo que, Lily percebeu, mostrava muito menos tensão que ela, envergando todos os músculos do rosto e mostrando todos os dentes.

- É o preço de beijar uma garota bonita. – Ele comentou alegremente, esfregando os lábios.

- Nós não devíamos... Você sabe... Ter feito isso antes do casamento. – Ela comentou, levantando uma sobrancelha.

- Não? – ele perguntou confusamente. – A parte de não se tocar antes do casamento não se refere à... Coisas mais desenvolvidas?

- Se refere a tudo que você que você não pode fazer na frente dos seus pais. – Ela recitou calmamente, citando as palavras que Nana havia repetido incansavelmente quando passou os ensinamentos do livro sagrado a ela e à irmã, quando as duas ainda eram crianças.

- Ah, desculpe. – Ele murmurou passando a mão pelo cabelo, embora Lily não pudesse detectar nem um pingo de arrependimento em sua voz.

- Você mente muito mal, James. – Ela comentou com um sorriso. O sorriso do homem se alargou, como uma criança que foi pega fazendo algo errado.

- Nessa você me pegou. – Ele admitiu dando de ombros. – Vamos agradecer à Allah que foi o seu amigo babaca que nos pegou e não seu pai, então.

Lily assentindo distraidamente, tentando entender por que seu cérebro estava se recusando a funcionar corretamente naquele momento.

- Pois é. – ela comentou sem pensar.

James suspirou e se ergueu, batendo a poeira de suas roupas, e então se virou e sorriu largamente para ela, erguendo-lhe a mão direita.

- O que me diz de um sorvete? Dessa vez é por minha conta.

- Fechado. – Lily disse, retornando o sorriso. Ela agarrou sua mão estendida e a usou de suporte para se erguer do chão.

Suas mãos não voltaram a se separar por todo o caminho até o armazém, enquanto os dois andavam lado a lado, aproveitando os últimos raios do sol na companhia um do outro.