Capítulo 2
Sem Foco
- Você não pode estar falando sério!
- Não grite comigo, Yoshino. Eu estou cansado.
- Então você está desistindo? Vai jogar seu filho para os cachorros?
- A irmã do Kazekage não é um cachorro. E não é uma questão de desistir. Existem vários motivos pelos quais eu apoio o que vai acontecer.
- Posso dizer todas as razões pelas quais eu não aprovo?
- Posso te parar?
- Ele é seu filho, Shikaku, o que você está fazendo com ele é uma barbárie. Você pode imaginar ter 16 anos e não ter escolha num assunto como esse? E não é só com ele que estou preocupada, essa garota... não sabemos nada sobre ela! Como ela é, se eles vão se dar bem, coisas assim. E se ela fizer da vida dele um inferno?
- Eu considerei tudo isso, acredite em mim. Não estou dizendo que vai ser fácil. Mas você sabe o quão tênue está nossa aliança com Suna nesse momento. Danzou tem sede de sangue. Precisamos de um laço adicional entre nossas Vilas, algo que ele não pode negar facilmente.
- Você sabe o que isso vai parecer, não sabe?
- Não não posso me dar ao luxo de me importar.
- Você está começando uma guerra civil e jogando seu filho no meio dela. Me dê uma razão para eu deixar você dormir na minha cama de novo.
- Seus pés doem quando você fica com frio?
- Não me provoque, Shikaku. Ainda não concordei com você.
- Eu sinto muito.
- E não diga que não importa se eu concordar ou não.
- Eu não ia fazer isso.
- Mas é verdade.
- Você não pode me punir pelo que está acontecendo, Yoshino. Eu não faço as regras.
- Não, mas você as usa quando são favoráveis a sua causa.
- ...
- Diga alguma coisa!
- Eu te amo.
- Você não vai se safar com isso! Pensa que eu não sei quando você está tentando fugir de algum assunto?
- O que você fez para o jantar? Cheira bem.
- Você pelo menos o avisou?
- É aquele negócio de atum, não é?
- Covarde.
X X X
Shikamaru chegou a Suna em tempo recorde. Depois de arrumar suas coisas já estava na estrada em onze minutos, e ao cair da noite já estava na metade do caminho para Kawa. Nunca ninguém tinha feito nada parecido, ou pelo menos ele nunca tinha ouvido falar. Mas estava correndo contra a morte e a morte tinha seus meios de trapacear. Então se movia o mais rápido que podia, só parando para descansar quando fosse absolutamente necessário, pequenas paradas para comer e quando percebia que a exaustão poderia se apoderar dele, tirava breves cochilos.
Depois de dois dias correndo, ele entrou em Suna perto da meia noite. Estava desesperado para ir direto para o hotel, tomar um banho e dormir até que seu estômago o acordasse. Mas tinha que ver Gaara antes. Nem podia ter certeza se Tsunade havia sobrevivido aos dois dias de viagem que havia gasto para chegar a Suna, então não havia tempo a perder. Se Gaara achasse que a reunião poderia esperar até o outro dia, seria decisão dele.
Depois de dizer o que havia ido fazer lá para um sentinela desconfiado, foi forçado a se sentar no chão poeirento e esperar por quase uma hora. Mas foi um tempo bem aproveitado e ele dormiu recostado no portão até que sentiu as sandálias pesadas do guarda chutando-o nas costelas. Depois o homem o levou até a mansão e por escadas quase intermináveis até o escritório do Kazekage. Depois de conferir se Gaara estava pronto para receber o visitante, deixou Shikamaru entrar.
A primeira coisa que Shikamaru percebeu é que parecia que um tornado havia passado pelo escritório. Literalmente. Nada estava no lugar, as coisas se espalhavam pelo chão. No meio da pilha de livros e objetos quebrados havia muitas folhas de papel soltas, como se os livros houvessem sido rasgados. O chão do centro do aposento, onde ficava a mesa do Gaara, estava limpo.
A segunda coisa que ele percebeu foi Temari. Ela estava de pé ao lado da mesa, tão rígida que o Nara se perguntou momentaneamente se ela era real. Os lábios estavam apertados numa linha dura, brancos nas bordas. Seus olhos estavam frios e duros, e sangue escorria por sua face vindo de um ferimento na cabeça. Ela não fez nenhum movimento para limpá-lo. O leque estava ao lado dela, totalmente aberto e por cima de alguns livros, como se houvesse sido jogado no chão furiosamente.
Kankurou estava atrás de Temari, segurando-a pelos ombros. Estava quase tão rígido quanto a irmã. E Gaara estava sentado à mesa, com a expressão impassível de sempre. Se aquilo pudesse ser chamado de expressão.
Obviamente nada parecia normal, a não ser Gaara. Mas Shikamaru estava tão cansado que seu cérebro não registrou como se fosse uma situação possivelmente perigosa, mais como um sonho perturbador. O vermelho intenso do sangue escorrendo pelo rosto pálido de Temari parecia dramático e surreal. O leque, a bagunça... a imagem toda fazia-o sentir falta da sua casa e da sua cama, onde ele geralmente dormia tão bem que não se lembrava de sonhos como aquele.
- Entre - a voz de Gaara tirou-o do devaneio. O ruivo se levantou e esperou que Shikamaru se aproximasse, pisando numa pilha de coisas irreconhecíveis.
- Kazekage-sama. - Shikamaru disse enquanto se curvava. Na maioria das vezes era só "Gaara", mas quando estava numa missão se obrigava a reconhecer a posição superior do outro shinobi. E a atmosfera estava tão tensa que ele ficaria mais confortável sendo formal. - Está tudo bem?
Os três irmãos ficaram em silêncio por um longo e desconfortável momento, até que Gaara fez um gesto para que o guarda fosse embora e a porta se fechou com um clique.
A falta de respostas o incomodou.
- Desculpe por aparecer tão tarde, - continuou – mas meu pai me disse que essa missão tem um limite de tempo restrito.
Um pigarreio debochado escapou de Temari. Shikamaru se virou para olhá-la, mas ela parecia a mesma e seu rosto não dava nenhuma indicação de que ela o havia ouvido. Mas obviamente ouvira.
- O que? - ele perguntou.
A loira apertou a mandíbula e balançou a cabeça bem devagar, de um lado para o outro. Seus olhos continuaram focados à sua frente. Em Gaara.
- Seu pai tem razão – Gaara disse – sobre o fato de estarmos trabalhando com um curto limite de tempo. Posso assumir que ele não te contou quais são suas ordens?
- Ele disse que você faria essa parte.
O ruivo concordou.
- Você parece exausto – ele acenou e indicou sua própria cadeira – Sinta-se à vontade para sentar. Em breve você estará de pé novamente.
Shikamaru olhou longamente para a cadeira, mas sabia que sentar seria um erro. Se não fosse pelo fato de que toda a atenção dele estava dirigida para o ato de se manter de pé e não cair de cara no chão de madeira, já estaria dormindo.
- Estou bem.
- Vou me desculpar antecipadamente. – Gaara comentou – Tem muita coisa para ser tratada num curto período de tempo, e eu não sei do que você já sabe. Essencialmente, a aliança de Suna e Konoha está em perigo. Danzo tornou notória a sua insatisfação com a aliança e temos certeza de que ele não vai renovar o tratado depois que Tsunade morrer. Acho que não preciso explicar o quão importante é ter Konoha como amiga ao invés de inimiga.
Shikamaru balançou a cabeça, concordando. Ele suspeitou que sua missão tivesse algo a ver com a segurança da aliança, devido ao curto tempo, e durante a viagem pensou em vários planos para apresentar ao Kazekage caso sua opinião tática fosse pedida. Mas nenhum deles era muito prático e todos tinham risco de perda de vidas de civis. Estava esperando que Gaara tivesse mais informações que o ajudassem a pensar em algo mais efetivo e mais seguro.
- As informações que vou compartilhar com você são classificadas como Alta Prioridade. É meu dever te avisar que compartilhá-las com qualquer outra pessoa, ninja, civil, não humana, implica em pena de morte.
Shikamaru conteve um bocejo. Já ouvira aquilo tantas vezes que agora soava como uma canção de ninar.
- Entendido.
- Uma parcela de Konoha se opõe fortemente à Danzo. Há dois meses como Hokage ele já tomou uma série de decisões que eles entendem não ter interesse no bem estar dos cidadãos.
Essa informação teve o poder de acordar Shikamaru, ainda que um pouco. Claro que ele sabia que existia uma parcela de pessoas que se opunham a Danzo, mas Gaara fez com que parecesse que eles eram organizados.
- Francamente, – Gaara interrompeu seus pensamentos – eles estão mais preocupados com o fato de que Danzo pode usar a Raiz como um exército pessoal. É altamente suspeito, uma vez que ele tem todos os ninjas de Konoha sob seu comando.
- Certo.
- Esse grupo estava relutante em agir, obviamente. Nenhum ninja quer ter traição em suas mentes ou em seus registros. Mas recentemente, as mortes coincidentes de Utatane Koharu e Mitokado Homura fizeram com que reconsiderassem.
- Espere um minuto. – Shikamaru interrompeu – Você está falando em golpe de Estado?
- Eles preferem usar o termo "reivindicação".
Shikamaru gemeu. Inacreditável. Já havia pensado naquilo inúmeras vezes e chegou à mesma conclusão sempre: um golpe não funcionaria. Não era tão simples assim. Não tinham que lutar apenas contra Danzo, ou Danzo e a ANBU Raiz. Não era uma trama de assassinatos e simples troca de liderança.
Infelizmente, Danzo havia conseguido conquistar apoio de alguns dos moradores da Vila, incluindo o daimyo. Ele havia conseguido convencer muitas pessoas de que os Hokages anteriores eram os responsáveis por todos os problemas de Konoha pelas últimas duas gerações, e ele próprio era uma espécie de messias que poderia protegê-los de qualquer problema. Era estúpido, principalmente porque a maioria das pessoas não enxerga além da ponta de seu nariz em se tratando se política, e Danzo havia usado aquilo a seu favor como um manipulador experiente.
- Quem foi o idiota que bolou esse plano?
- O idiota seria seu pai.
Shikamaru arregalou os olhos.
- O que?
- Quando ele esteve aqui semana passada, me explicou seu plano. Ele está bem confiante de que consegue colocar Kakashi no lugar de Danzou em pouco tempo, e com pouco derramamento de sangue. Julgando pela sua reação, você não sabia que seu pai era o líder do grupo anti-Danzo?
O aposento girou ao seu redor, mas o Nara piscou para tentar manter o foco. Estava surpreso. Há quanto tempo o Velho estava metido naquilo? E tinha conseguido mantê-lo completamente alheio. Como? E por que?
- Tem certeza de que ele não estava bêbado quando falou com você?
- Se estava não importa. Eu estava perfeitamente lúcido. E achei que o plano dele era brilhante.
Ao ouvir isso, Temari deixou escapar outro som de frustração. Shikamaru olhou para ela; podia sentir chakra irradiando dela. O ar estralava com eletricidade ao redor da loira e Kankuro, atrás da irmã, fez uma careta como se estivesse com dor.
- Pode me machucar o quanto quiser – Kankuro disse para ela – Não vou te soltar até ter certeza de que você não vai matá-lo.
Ela não respondeu, como se nem tivesse ouvido. O rosto de Kankurou se contorceu um pouco mais.
- Ai..
Shikamaru teve um impulso incontrolável de ir para longe dela, o que ele fez indo de maneira disfarçada mais para perto do Gaara, e assim não teriam que conversar através da mesa.
- Tudo bem, me dê o plano – começou enquanto esfregava o rosto tentando se concentrar – Eu farei meu melhor para ficar com a mente aberta.
- Os planos do seu pai são centrados em ter o apoio direto de Suna, e eu falo no sentido militar.
- Espere, espere. – Shikamaru só tinha ouvido uma frase e já havia descoberto a falha fatal. Seu pai deveria estar perdendo a mão. – Ter o apoio de Suna não vai fazer com que o grupo anti-Danzo conquiste a simpatia dos civis, muito pelo contrário. Muitos deles ainda são desconfiados... Faz só três anos que vocês nos traíram. Não os culpo, mas os outros não tem a mesma perspectiva. E é por esse motivo que a aliança era tão instável em primeiro lugar.
- A mente tão aberta... – Kankuro comentou - Ai, Temari!
- Só estou sendo realista.
- Mas você ainda não sabe de tudo. – Gaara interrompeu - Existem meios legítimos para criar esse sentimento de "simpatia" nos cidadãos de Konoha, e aí aí que você entra.
- Okay...
Gaara fez uma pausa, e por um momento ele pareceu efetivamente humano. Shikamaru pôde ver um pouco de incerteza nos olhos verdes do Kazekage, e a sensação de que o ruivo estava pisando em terreno que não lhe era familiar.
- Até agora, todos nós pensamos de maneira lógica. Seu pai gastou semanas tentando encontrar uma maneira de ganhar as pessoas que são simpáticas ao Danzo, tentando fazê-las usar a razão. Mas ele percebeu que apelar para a lógica humana não é fácil, especialmente em tempos de crise como a que Konoha está passando. A recente invasão, a morte iminente da Godaime, a reconstrução, tudo isso faz com que as pessoas fiquem na defensiva. Faz com que eles prefiram uma mão forte à um coração misericordioso.
Pela primeira vez em muito tempo, Shikamaru estava se sentido completamente perdido. Ele compreendia o sentido das palavras de Gaara, mas ainda não entendia como elas se aplicavam à ele.
- Então...
- Eles estão agindo baseados em emoções, Shikamaru. É aí que temos que influenciá-los.
Gaara olhou para ele como se ele fosse capaz de descobrir o resto por conta própria, mas ele ainda estava confuso.
- Eu não...
De repente, a voz de Temari sobrepôs- se às outras, dura e fria.
- Eles vão nos casar! Esse é o ponto, ok? Eles vão nos casar. Gaara, você é péssimo nisso!
Shikamaru olhou para Temari. O rosto dela não estava mais pálido, mas intensamente vermelho, de um jeito que contrastava com o cabelo loiro. Parecia que a fúria não era uma possibilidade, era inevitável. Mas o que ela havia dito... não fazia sentido. Uma palavra... colocada na frase... para a qual ele não tinha capacidade de compreensão. Algo sem relação nenhuma com assuntos mlitares.
Ele repetiu a palavra estranha, desenhando sua forma com seus lábios.
- Casar? – Um verbo... relacionado à união de um homem e uma mulher, claramente algo que não era uma estratégia de guerra. – Casar quem?
- Nós. - ela respondeu, sua voz falhando.
- Eu e você?
- Sim.
O cérebro dele lutou para entender mas continuou fazendo perguntas, esperando que as respostas trouxessem alguma claridade.
- Com quem?
Temari tremeu, mal contendo as próprias emoções.
- Um com o outro, Nara. Você está acordado?
Ele foi dominado pela frustração. Frustração por sua própria exaustão, frustração pelo tom sarcástico da Temari. Respondeu nervoso.
- Não. Eu tive um total de nove... - parou de falar, lembrando-se do cochilo no portão. - Não, dez horas de sono nos últimos três dias. O que esperava?
- Muito, eu acho. - ela rebateu.
Kankurou riu com aquilo, mas Shikamaru mal ouviu. Ele estava começando a entender as coisas agora.
- Eles querem que a gente se case?
Foi a vez de Temari rir, mas enquanto a risada do Kankurou havia sido genuína, a dela era ácida.
- Não. – ela respondeu – Isso insinuaria que teríamos escolha.
- É uma ordem. – ele completou.
A Sabaku não disse nada. Aparente ela havia chegado ao limite.
Shikamaru sentiu que talvez ele também houvesse chegado ao dele. Não havia nenhuma chance de adormecer acidentalmente, mas agora que toda a sua energia estava focada nas informações novas, sentiu que seu joelhos estavam um pouco fracos, então ele aceitou a cadeira que fora oferecida por Gaara. Então ele se recostou, descansou sua cabeça no encosto e esticou as pernas para que não suportasse nenhum peso do próprio corpo. Ele precisava de toda a sua energia para pensar.
Entendia agora o que Gaara queria dizer com apelar à emoção dos cidadãos. Um tratado normal com Suna seria facilmente negado por aqueles que não o escreveram, e Danzo não apoiaria um tratado de maneira alguma. Mas um casamento tinha um ar de, na falta de palavra melhor para usar, realidade. Era uma maneira de criar laços indestrutíveis entre famílias, e no caso dele e Temari, poderia criar esses laços entre vilas. Os cidadãos de Konoha teriam uma razão muito melhor para acreditar em Suna, se eles deixaram Temari casar com um dos, o que, homens comuns de Konoha?
Não, não um homem comum. O filho do homem que estava liderando a rebelião contra Danzo. Aquilo transformaria os Nara em algo pertencente à classe aristrocática. Não que os Nara não fossem um Clã influente bem respeitado, mas apenas por sua inteligência e poder de julgamento, além das contribuições na área da medicina. Eles nunca quiseram poder, deixando essa tarefa para os Clãs mais ambiciosos, aqueles com força física e motivação.
Mas agora seu pai estava usando aquela influência e a posição que tinha no Conselho para criar algo em que Konoha pudesse se espelhar. Dar a eles algo além de Danzo para se focar. Tudo para ajudar seu candidato a Hokage favorito, Kakashi. Tudo para proteger aqueles mesmos cidadãos de Danzo. E conseqüentemente, assegurar o apoio militar de Suna para seu lado. De maneira alguma Suna permitiria que Danzo ou qualquer outra pessoa ameaçasse Temari, seu marido, ou até mesmo a família de seu marido. Adicione a isso o fato de que Gaara já apoiava o herói da última batalha e pupilo de Kakashi, Naruto. A lealdade de Suna seria inabalável. Konoha não poderia questioná-la. Danzo não poderia questioná-la.
Mas aquilo ainda criaria uma divisão. Haveriam aqueles que veriam a manobra de seu pai como uma maneira para chegar ao poder. E não estariam inteiramente errados. Colocaria Shikaku sob fogo cruzado e o manteria lá, pelo menos até que ele conseguisse colocar Kakashi como Hokage. E até lá sempre haveria alguém que pensaria que ele queria a posição para si mesmo. Ou talvez para seu filho. Era de dar risada.
Um casamento. Uma maneira permanente de ligar Suna a Konoha que nem Danzou poderia contestar. Uma maneira de tornar Suna bem quista por Konoha. De dar credibilidade à 'campanha' do Kakashi.
Ele sentou-se melhor na cadeira e olhou para Temari. Nem ela ou os irmãos tinham falado, dando a ele a oportunidade de absorver as coisas no tempo que precisasse. Mas agora ela o encarava com expressão quase predatória e olhos estreitos.
- Faz sentido. - Shikamaru a ela.
Num segundo os grandes olhos verdes se arregalaram, lenvando a expressão dela de predatória para incrédula.
- O que?
- Faz. – Shikamaru reafirmou, cansado demais para tentar imprimir convicção na própria voz – Nunca tinha considerado essa possibilidade, mas pode ser que seja a única coisa que realmente funcione. - Ele se virou para Gaara, que estava tão indiferente quanto Temari estava passional. - O único problema que eu vejo no plano é que faria mais sentido se ela se casasse com o Kakashi, ou talvez com o Naruto. Acredito que eu seja uma boa terceira escolha, mas eles são visivelmente melhores.
Algo aconteceu, então. Algo que fez com que os cabelos da nuca de Shikamaru se arrepiassem. Gaara ficou bravo. Foi sutil, mas absolutamente aterrador, e por um segundo o Nara temeu por sua vida.
- A oferta não foi feita para o Naruto ou o Kakashi – Gaara disse – Minha irmã não está à venda para quem pagar mais.
- Não foi o que eu quis dizer – Shikamaru se apressou em esclarecer, se perguntando porque se importava. Não podia ver qual era a diferença, a não ser que a própria Temari houvesse expressado algum interesse nele. Usou cada fragmento de coragem que possuía para dar as costas ao ruivo e se virar para ela.
- Isso quer dizer que você foi incluída no processo de escolha?
Outra risada melancólica.
- Descobri sobre esse plano um pouco antes de você.
Ele ficou mais confuso que antes, mas pelo menos aquilo explicava o estado do escritório.
- Eu não posso acreditar nisso. Parece algum tipo de conspiração machista. Ninguém percebe o quão errado é esse plano? – Temari exclamou.
- Meu objetivo nunca foi direcionar a sua vida, Temari – Gaara se dirigiu à irmã – Mas era uma decisão muito importante para deixar nas mãos de vocês dois.
Shikamaru sentiu aquilo de novo, a onda de chakra vindo de Temari. Kankurou gritou, finalmente soltando os ombros da loira, e ela atravessou o escritório para ficar cara a cara com Gaara.
- Não seja tão idiota - ela rosnou – Eu também amo Suna e sou leal a ela. Se eu realmente pensasse que era a única saída, claro que teria concordado. Mas quando você me ordena, me faz ter vontade de lutar contra você porque é uma injustiça. Você não entende?
Gaara sustentou o olhar, braços cruzados, contemplando. Finalmente concordou com a cabeça.
- Tudo bem.
- Tudo bem o que?
- A decisão é sua.
Temari o encarou desacreditada.
- Está falando sério?
- Sim, a escolha é sua. Confio em você para que tome a melhor decisão.
Ela apontou com a cabeça para Shikamaru.
- E quanto a ele?
O Nara estava no meio de um bocejo, mas conseguiu responder.
- Minhas ordens não foram dadas pelo Gaara. Infelizmente.
- Não acredito no quão indiferente você está sendo a tudo isso. Não fez nenhum comentário sexista de repúdio à mulheres. Você nem disse que era problemático!
- Oh, é problemático - ele respondeu. – Mas não acho que vá cair minha ficha até eu acordar amanhã. Depois que eu tiver tempo para ruminar toda a problemática da situação. Asseguro que vou te insultar quando discutirmos tudo isso novamente.
Temari piscou.
- Nossa, você está realmente cansado.
- O que?
- Essa 'missão' é sensível ao tempo - ela explicou calmamente, como se estivesse falando com uma criança de dois anos – A Hokage pode morrer a qualquer momento. Por que você acha que Gaara aceitou te receber à uma da manhã?
Então ele se deu conta. A missão era para ser cumprida agora. Não era para sentar e falar sobre potencialmente se casar com Temari. Era para casar com ela.
- Hoje? - sua voz falhou, mas ele estava longe de se sentir envergonhado – Por favor me digam que isso é uma brincadeira.
Kankurou começou a rir novamente e Temari virou-se para encarar o irmão com ódio.
- Desculpe! – ele disse, balançando as mãos – Mas nunca o vi tão burro!
- Não é uma brincadeira. – Gaara afirmou.
- Mas... – Shikamaru buscou mentalmente por alguma coisa... qualquer coisa, puxando as rédeas e tentando fazer com que o cavalo fosse mais devagar antes que despencasse de um penhasco – Mas um noivado não seria suficiente? Pelo menos para hoje?
- Da maneira com que eu entendo a lei de Konoha, - Gaara disse – noivados podem ser contestados pelo Hokage. Casamento, não. Mas casamento com um membro de uma Vila inimiga não seria aceito, e esse será nosso status assim que Tsunade morrer e Danzo der suas primeiras ordens. Na última transmissão nos informaram que ela ainda está viva, mas nosso tempo está se esgotando.
Shikamaru teria que acreditar no ruivo. Nunca em sua vida teve que estudar as leis de casamento de Konoha.
Afundou-se na cadeira novamente.
- Então, o que vai fazer, Temari? – Gaara se virou para a irmã.
Ela suspirou.
- Isso não é uma escolha, você sabe. Posso escolher me casar com ele ou posso escolher colocar minhas necessidades pessoais na frente da Vila e dos seus desejos.
O Kazekage concordou.
- Então você vê que nunca foi uma escolha. Porque você é uma boa cidadã e uma boa irmã. Mas acho que você precisava acreditar que se tratava de uma escolha.
A kunoichi se curvou e pegou seu leque, fechando-o cuidadosamente.
- Ainda te odeio por fazer isso comigo.
Gaara não respondeu nada.
- Vocês todos estão me tratando como uma propriedade. Até o "Faz-sentido" Shikamaru ali. E por quê? Por que sou mulher?
- Por um lado, sim. – Gaara começou – Suna...
- Ah, não precisa se importar! Você não precisa me explicar. Suna precisa se preocupar comigo. Konoha tem que me aceitar facilmente. Eu já entendi. Eu sou frágil e indefesa.
- Não sei sobre isso – Gaara retorquiu – Mas você está certa na parte de que Konoha te aceitaria mais facilmente do que Kankurou, por exemplo. Eles vão sentir que você está sendo confiada a eles. Veriam Knakurou mais como ameaça do que presente.
- Um presente!– Temari exclamou – Vocês são porcos. Cada um de vocês.
- Você é preciosa para mim, Temari. Dar você a Konoha... sim, é o maior presente que eu poderia oferecer.
A conversa era apenas um monte de ruídos para Shikamaru, por ele estar tão entorpecido, mas o silêncio súbito e pesado chamou sua atenção. Ele observou os irmãos. Temari e Kankurou encaravam Gaara com algo como surpresa nos rostos enquanto Gaara desviava o olhar para outro lugar.
Um minuto inteiro se passou antes que Temari recobrasse o controle sobre si mesma.
- Ta bem. Só... ande logo e faça. Vamos terminar logo com isso para podermos dormir.
Gaara concordou.
- Shikamaru, você está pronto?
Oh. Estavam falando com ele. Estava acontecendo, o que quer que fosse, e sua participação era necessária.
Um casamento seria considerado válido quando uma pessoa estava obviamente incapacitada mentalmente?
- Isso não foi tempo suficiente para me preparar.
- Eu sei. Me desculpe – Gaara respondeu – Pensei que seu pai tivesse te preparado.
- Como você me preparou? – Temari perguntou.
O ruivo não respondeu e voltou a falar com Shikamaru.
- Então, está pronto?
- Não – ele se levantou e esfregou um de seus ombros tensionados – O que temos que fazer?
N/T: Eu sei que existem muitas fics de casamento arranjado por aí, mas essa é diferente, garanto. Até o próximo capítulo :)
