Capítulo 3
Sem Balanço

- Como ela está?

- Mal se aguentando. Não sabem se ela passa dessa noite.

- Você acha que Shikamaru já chegou a Suna?

- Provavelmente. Se ele se apressou.

- Eu odeio isso. Odeio até pensar nisso. Imagine-o correndo o mais rápido que puder quando é aquilo que o espera.

- Agora você sabe porque eu não disse nada.

X X X

Shikamaru não tinha muita certeza do que estava esperando. As roupas tradicionais, o sake, nada parecia muito provável num casamento de emergência em Suna às duas da manhã. As circunstancias pediam uma cerimônia mais sucinta, talvez realizada ali mesmo no escritório do Kazekage mesmo. Então ele estava, de alguma maneira, preparado para o casamento equivalente a um 'pá-pum-obrigado'.

Apesar disso, ele ainda estava com a cabeça girando. A parte mais longa da "cerimônia" foi tentar encontrar os objetos necessários no meio dos detritos.

- Você fez isso? – ele perguntou a Temari enquanto eles reviravam as pilhas de objetos. Ela não levantou os olhos para ele, mas balançou a cabeça firmemente.

- Parei quando não havia mais nada para quebrar.

Felizmente, levou apenas alguns minutos para que encontrassem o que precisavam: um prato de prata, uma pequena faca que também parecia ser de prata, e o certificado de casamento. Shikamaru percebeu que este já estava preenchido com seu nome e o de Temari. Que gentil da parte deles.

E parecia que Gaara ia realizar a cerimônia, o que era lógico. Estava muito tarde para tentar encontrar alguma outra autoridade, de qualquer maneira.

Ele começou colocando Shikamaru e Temari frente a frente perto da lateral de sua mesa. Colocou o prato em cima da mesa ao lado deles e deu a faca à irmã. Então ele disse para Shikamaru estender a mão para ela.

Sem aviso a faca brilhou, cortando seu dedão e fazendo-o pular.

- Ow! – Shikamaru exclamou. O sangue surgiu do corte e começou a escorrer por sua mão, pingando de seu braço.

- Você cortou fundo demais, Temari – Gaara observou – Ele vai precisar levar pontos.

Mas ninguém se importou em dar a ele qualquer coisa que estancasse o sangramento, então ele se viu obrigado a enrolar rapidamente a manga da camiseta com a outra mão e deixar o sangue pingar de seu cotovelo no chão de madeira. Seu dedo latejava.

- Dentro do prato – Gaara instruiu.

- Oh – o Nara segurou o dedo sobre o prato para que o sangue pingasse lá.

O Kazekage deu a Shikamaru algumas palavras para dizer.

- Eu ofereço meu sangue, minha dor e minhas lágrimas como símbolos da minha lealdade, minha compaixão e meu amor. Servirei a você sempre.

- Minhas lágrimas? – Shikamaru perguntou.

- Você não acabou de ouvir que era simbólico? – Temari respondeu.

- Eu pensei que...

- Se realmente quer chorar, posso te cortar de novo.

Um sentimento de horror começou a se apoderar dele. Muito rápido. Estava acontecendo muito rápido, Temari estava sendo desprezível e vingativa e aquilo não poderia ser um bom prenúncio do futuro que eles teriam juntos. Esse foi o mais fundo que suas preocupações foram, com tanto sono, mas elas eram consideráveis, de qualquer maneira.

Shikamaru disse as palavras e Temari estendeu sua mão. O Nara se viu com a complicada tarefa de descobrir como manusear a faca com a mão ferida e encharcada de sangue. Eventualmente desistiu e segurou o objeto com a mão esquerda.

- Isso não é simbólico para sofrimento eterno ou coisa do tipo, é? – ele perguntou. Soou como uma piada, mas ele estava muito sério.

- Não – Kankurou disse, gargalhando – É simbólico para fertilidade. Você está dizendo que prefere ter muitos filhos a ter muito dinheiro.

Ótimo. Shikamaru considerou trocar de mão no último minuto, mas desistiu. Ele não achava que a mão que estava usando teria algum tipo de influência sobre seu futuro, mas estava consciente das impressões que Temari estava tendo do negócio todo. E não pôde deixar de notar a expressão dura nos olhos verdes quando Knakurou mencionou "filhos".

Ele queria que ela pensasse que estava ansioso para começar seu papel nos procedimentos para reprodução? Ou queria que ela pensasse que estava cauteloso quanto àquilo? Ele não podia ganhar, então preferiu segurar a faca com a mão que menos doía.

Cortou o dedo da kunoichi rapidamente, tentando feri-la superficialmente. Algumas gotas de sangue apareceram no dedo da loira e ela estendeu a mão para o prato, apertando o dedo para que pingasse. O sangue dela caiu sobre o de Shikamaru, fundindo-se instantaneamente.

Ela ficou em silêncio por um momento, a expressão impassível. Outro momento se passou e Gaara limpou sua garganta para encorajá-la.

- Já entendi, Gaara. Só me dê um segundo. Por favor.

O tom dela era sem emoção. Shikamaru estava tendo dificuldades em entender os próprios sentimentos à respeito da coisa toda, mas pelo modo com que ela havia falado podia dizer que Temari não tinha os mesmos problemas. Ela estava odiando tudo aquilo.

Finalmente ela respirou fundo, expirou audivelmente e olhou dentro dos olhos dele. Shikamaru pôde ver... resignação.

E alguma umidade em seus cílios.

- Eu ofereço meu sangue, minha dor e minhas lágrimas como símbolos da minha lealdade, minha compaixão e meu amor. Vou servir a você sempre.

Ela segurou a mão dele e fez com que ambos mergulhassem os dedos feridos no sangue que estava no prato, depois pressionam-nos no certificado de casamento, cada um no espaço sob seu nome.

- Sua digital, minha digital, nosso DNA – ela explicou enquanto enxugava as lágrimas com as costas da mão limpa – Para que ninguém possa contestar o que aconteceu aqui hoje.

Shikamaru pressionou seu dedo no papel. O de Temari era tão menor que o dele. Mais limpo.

Temari levantou a mão e lambeu o sangue do dedo. O shinobi hesitou, não porque tinha nojo, mas porque aquilo o lembrava de Hidan... e Asuma. Mas também ergueu sua mão e lambeu o sangue. Não era nojento de maneira alguma. Era mais sangue dele, de qualquer maneira, e parecia que ele tinha simplesmente mordido a língua.

- E agora? – perguntou.

- Era isso – Temari disse com um suspiro – Estamos casados.

- O que? Era isso?

- Aham.

- Mas o Gaara nem fez nada!

- E o que era para ele fazer? Não era ele quem estava se casando.

- Mas... – Sua mente rodou novamente. Ele estava casado. Com Temari – Mas em Konoha...

- Gaara só estava aqui por duas razões - ela explicou – Para ser a testemunha oficial e ter certeza que nenhum de nós estava aqui coagido contra nossa vontade. – ela virou o olhar para o irmão, frio e acusador – Certo?

O ruivo balançou a cabeça.

- É a tradição. E, nesse caso, vou selar o documento com chakra, para que a data possa ser alterada caso o Danzou escolha contestar o casamento.

Casado. Ele estava casado. Sem namoro, sem cortejá-la, só a súbita conjunção aleatória da vida dele e de Temari. Sem aviso, sem tempo para que ele aceitasse, sem nenhuma razão para que fosse ele ao invés de meia dúzia de outros homens em Konoha.

Casado.

- Então era isso. – Temari tirou-o de seus devaneios – Me dê um minuto para que eu arrume algumas coisas e estarei pronta para ir.

- Ir onde? - ele perguntou.

- Com você – a loira replicou e ele quase pode ouvir o "idiota" que ela não disse no final da frase – Sou sua mulher agora, lembra?

- Sim, eu me lembro – ele resmungou. Como poderia esquecer? - Mas ainda, ir onde? Eu vou ficar no hotel, e meu quarto vai estar preparado para uma pessoa só.

- Não importa, eu vou. Levarei meu futon.

- Mas...

Mas era tarde demais. Temari já havia saído do escritório, indo fazer qualquer coisa. E ele ficou se perguntando porque a pressa. Ela estava certa, eles estavam casados. Considerando-se que Tsunade ainda estivesse viva, eles haviam criado um laço oficial e indiscutível entre as Vilas. Haviam completado a missão. Então não havia motivo para que Temari de forçasse a passar a noite com ele, a não ser que...

- Não me diga – ele se ouviu dizer para ninguém em particular – Não é que... Nós não temos que... – Ele não pôde terminar. Certamente a cerimônia e o documento, certamente seriam suficientes.

- Não – Kankurou respondeu – E não coloque esse tipo de pensamentos na minha cabeça. Até onde sei, vocês dois nunca vão fazer aquilo. Nunca.

Ele ficou aliviado. Então Temari só estava sendo uma mulher. Impossível de se entender.

O Nara voltou a se sentar na cadeira e descansou a cabeça na mesa de Gaara. Era muita coisa para digerir. A maratona para Suna, o casamento, era mais do que seu cérebro privado de sono podia aguentar, e ele havia se rendido. Suas pálpebras perderam a batalha para se manterem abertas e em segundos ele havia adormecido.

X X X

- Quanto disso tudo você acha que ele vai absorver?

- Difícil dizer. Eu não tenho certeza se ele estave acordado durante tudo. É possível dormir de pé?

- Já fiz isso.

- Digo sem o bijuu para te controlar enquanto você dorme.

- Eu sei. Era uma piada.

- Oh. Ah sim, agora que você explicou eu entendi.

X X X

Temari poderia ter levado o tempo que precisasse para juntar suas roupas. Mas não. Ela poderia ter ficado em casa e obrigado o Nara a voltar para o hotel. Mas não faria aquilo. Ela poderia ficar em casa e exigir que o Nara ficasse lá com ela. Mas então ele teria que ir até o hotel para pegar suas coisas. Ele já estava cansado o suficiente.

Temari poderia ter feito muitas coisas. Ela queria fazer várias coisas. Quase tudo menos o que tinha feito. O que faria. Obedecer. Cooperar. Submeter-se.

Murmurou as palavras em silêncio, repetidas vezes enquanto lavava o rosto e cuidava do ferimento que adquiriu quando conseguiu acertar uma pequena estátua contra a própria cabeça. Depois arrumou suas coisas. Obedecer. Cooperar. Submeter-se. Eram palavras suaves, de verdade. Fáceis. Mas cada uma parecia destroçada e dolorosa em sua boca. Depois de um tempo, ela mudou o conjunto de palavras, mas essas eram ainda piores.

Lealdade. Compaixão. Amor. Servir.

As palavras de seu voto de casamento.

Havia as dito para o Nara com seus irmãos como testemunhas, e foi sincera em cada uma delas. Ou pelo menos quis ser sincera, o que era bem parecido. Ela faria de tudo para honrar seus votos, por mais que não os quisesse. E não faria aquilo por Suna. Havia se casado com Shikamaru por Suna. Havia obedecido e cooperado com os desejos de Gaara e submeteu-se a suas ordens por Suna. Mas agora ela seria leal, misericordiosa e amorosa por si mesma. Por que não suportaria ser o tipo de pessoa que mente. E mentir era tudo o que podia fazer no caso contrário.

Ela havia ouvido dúzias de pessoas dizerem seus votos de casamento durante sua vida. Como filha, e agora irmã do Kazekage, havia ido a mais casamentos do que podia contar. E nunca havia falhado. Não importava quanto o casal estava apaixonado, e apesar dos votos serem terrivelmente sérios, sempre lhe parecera que eram ditos de maneira impensada. Mecânica. Como se fossem empecilhos que precisavam ser superados para que o dois amantes pudesse ficar junto.

Temari havia prometido a si mesma que nunca os diria de maneira leviana, caso se casasse. Mas nunca pensou que cumpriria sua promessa, sempre se imaginou como um tipo de mulher que não precisava se casar para ser feliz. Ela já era feliz. Completa consigo mesma. E muito teimosa para se dar bem com algum homem durante muito tempo, de qualquer maneira.

Mas sua hora havia chegado, estando preparada ou não. E disse seus votos. E agora ela os honraria, se pudesse. Ela se recusava a ser uma mentirosa.

Lealdade, compaixão e amor.

Servidão.

Ela o odiava. Não podia evitar. Odiava os dois. Gaara, por usá-la como ferramenta política, por ser tão bom em manipulá-la para que ela fosse complacente. Era uma das coisas que ele tinha em comum com o pai deles: a habilidade de dizer as coisas de um jeito que dava a impressão de que você mesmo teria aquela idéia, se fosse tão esperto quanto ele. Ou tão abnegado.

E Nara. Ela o odiava por razões que lhe eram menos claras. Talvez fosse porque, não importa o que Gaara disesse, ele era o homem errado para ela em quase todas os sentidos. Ou talvez por ele ter sido tão cavalheiro sobre o casamento todo. Desinteressado. Aquilo era o que mais a incomodava: a maneira com que ele se deitava e esperava que a vida acontecesse. Ela não tinha nenhum desejo de motivá-lo, ou paciência para esperá-lo. Acabaria fazendo tudo sozinha ou invés de discutir. E acabaria o ressentindo-o por aquele motivo.

Mas faria tudo o que pudesse para cumprir seus votos. Mesmo que uns fossem mais difíceis de cumprir que outros.

Havia preparado bagagem para apenas uma noite, já que não havia razão para que eles ficassem mais que isso no hotel. Amanhã à noite ela o traria para cá, para o lar dela.

Depois disso... Não tinha idéia.

Pegou suas coisas e voltou para o escritório do irmão. Gaara e Kankurou não estavam mais lá, e Shikamaru estava dormindo sentado à mesa.

Irritação e pena de enfrentaram dentro dela, lutando por dominância. Ele estava cansado, ela sabia; mas ainda assim, dormir tão facilmente num dia como aquele... ela teve inveja.

Foi até onde ele estava e o cutucou no ombro.

- Ei, Nara – disse não muito gentilmente – Acorde.

Ele estava instantaneamente acordado e se sentando, ela tinha que admitir. Mas apenas por tempo suficiente para descobrir que ela não era uma ameaça. Em alguns segundos ele estava esfregando os olhos e bocejando.

- Vamos. – ela disse e começou a andar, sem esperar por ele.

Não ouviu passos até que chegou à porta. Só então ele se levantou para segui-la.

A pequena jornada até o hotel foi feita em silêncio. Quando entraram no quarto ela viu que a cama do Nara estava preparada, e ele não perdeu tempo se arrastando até ela. Ele nem se importou em escovar os dentes ou trocar de roupa, simplesmente se livrou da mochila, tirou as sandálias, o colete, as armas, e caiu na cama. De novo, Temari sentiu a estranha mistura de frustração e inveja dentro de si. De sua parte, não esperava dormir bem naquela noite.

Ela levou mais tempo ficando pronta. Gastou vários minutos decidindo onde colocaria seu futon, e enquanto isso realizou seu ritual de antes de dormir. No final das contas, decidiu que não importava, ele não acordaria para perceber o que ela estava fazendo. Então engoliu seu orgulho e colocou sua cama ao lado da dele. Afinal de contas, ele era seu marido, ao lado dele era onde ela deveria estar.

Mas enquanto estava deitada, tentando em vão ignorar o som do ronco dele, se revoltou por estar sendo tão dócil. Como uma vaca. Ela não deveria estar ali. Deveria estar em sua própria cama, e aquela desculpa patética de homem não deveria estar perto dela. Na verdade, ele deveria ser preso por tentar.

Ela se virou e o encarou, observando-o dormir na luz pálida da lua. Ouviu isso? Você não tem utilidade para mim. Não preciso de um marido, especialmente um que não me dê valor. Eu estaria melhor com um cachorro. E você não tem o direito de dormir perto assim de mim. Você é o idiota mais sortudo do mundo, e nem se importa com isso.

A única resposta dele foi um longo ronco baixo.

Temari queria bater nele. Pegar seu travesseiro e segurar sobre a cabeça dele até que ele parasse de roncar, de se mexer, de... respirar.

Suspirou e voltou a encarar o teto. Ela não podia. Ela era leal a ele. Você não assassina o homem a quem jurou lealdade. E a compaixão dela dizia que a morte pelas mãos de sua esposa seria dolorosa e cruel.

Então ela não o matou.

X X X

- Hey.

- Oi.

-Não esperava que você estivesse acordada.

- ...nem eu.

- Mas é bom que esteja. Preciso falar com você.

- Você vai tentar me convencer a morrer? Todo mundo já tentou.

- Nah. Só vim dizer que ele conseguiu. Ele se casou com a garota de Suna.

- Pobre criança.

- Qual deles?

- Os dois.

- Me desculpe. Sei que você detestou a idéia. Eu também detestei. Mas foi... necessário. As coisas então se movendo agora, e construímos algo mais forte que tínhamos antes. Então foi uma boa coisa.

- Foi... difícil.

- O que?

- Deixar que as pessoas precisassem de mim novamente. Mais ainda quando você percebe que elas não precisam. Não mais.

- Você está falando muito.

- Não me encha sobre não falar. Estou cansada de ouvir isso.

- Não tinha intenção de fazer isso. Quero te ouvir falar.

- Você está segurando alguma coisa?

- Ah.. sim. É sake.

- Levante para que eu possa ver. É aquele da garrafa de plástico?

- Esperava que reconhecesse.

- Acho que me lembro, agora. Você era tão duro naquela época.

- Não sei do que está falando. E eu continuo duro. Que acha de me dar um aumento?

- Farei isso amanhã.

- Está me enganando.

- Anda logo e me dê o sake, Nara. Estou seca há dois meses.

- Escute... Não quero que se preocupe com a Vila. Farei tudo o que puder para cuidar deles por você. Mesmo que tenha que desistir dos meus domingos. Mesmo que tenha que me tornar visível.

- Você está chorando?

- De jeito nenhum. Estou rindo por imaginar a cara que Jiraiya-sama vai fazer quando você bater nele por ter enfrentado Pein sozinho.

- Claro que está.

- Deixe-me ajudá-la para que você possa beber comigo.

- O que, não tem canudo?

- Sabia que tinha esquecido alguma coisa.

- Você não faz idéia do quanto eu queria sair dessa cama e matar Danzou.

- Como está o sake?

- Terrível.

- Os dias de Danzou estão contados. E a maneira com que ele tem se comportado nos ensinou como não dirigir a vila. O governo de Konoha ainda é muito jovem, existem tantas coisas em que nunca pensamos até agora, como fazer o governo ficar melhor e mais efetivo. Então temos que agradecê-lo por isso, senão por mais nada.

- Eles estão mortos, Shikaku.

- Eu sei.

- Mas se conseguir fazer com que ele não mate mais ninguém, é tudo o que eu posso pedir.

- Quer dizer que você está... Pronta para descansar agora?

- Sim. Acho que estou pronta.

- Quero que saiba que foi um prazer trabalhar sob suas ordens.

- Lá vamos nós. Você já está se despedindo.

- Teria que me despedir, eventualmente.

- Bem, eu me recuso. Não pude me despedir de nenhuma pessoa que perdi, então porque quebrar a tradição?

- Vou ficar com você até o final.

- Não vai demorar muito. Nem consigo me importar com o Danzou agora.

- Isso é bom. É como deve ser. Deixe o resto de nós nos importarmos com ele.

- Ok. Acho que posso fazer isso.

- Então...

- O que?

- Se não posso dizer adeus, o que posso dizer?

- Você pode dizer o-tsukaresama deshita.

- Tudo bem.

- E acho que... agora seria um bom momento para dizer.

- O-tsukaresama deshita, Tsunade.

- O-tsukare, Shikaku-kun.

X X X

Shikamaru ia e vinha na inconsciência, alcançando as bordas da lucidez. Vez ou outra suas pálpebras se erguiam o suficiente para permitir que alguma entrasse, mas ele estava muito aquecido e muito confortável para se convencer a deixar o delicioso sono para trás e começar o processo para acordar.

Eventualmente ele se movia em seu futon, rolando de um lado para o outro em busca de um lugar mais frio entre os lençóis. Para se mover ele teve que encolher as pernas e por um segundo fez com que os músculos de seu peito e ombros se esticarem e puxarem. Ele deixou escapar um suspiro satisfeito. Agora que ele havia começado o processo, ele sentia seus membros se torcendo e indo para longe de seu corpo, esticando, fazendo com que ele bocejasse e piscasse os olhos.

Sua cabeça parecia estranha, como se algo estivesse por baixo dela, e ele esticou a mão direita para investigar. Percebeu que havia dormido sem soltar o cabelo, e tocou o elástico com dedos dormentes, tentando convencê-los a se dobrarem o suficiente para que pudesse segurar a borracha e puxá-la. Ele finalmente conseguiu soltar o cabelo, mas o elástico acertou seu dedo no processo, mandando uma punhalada de dor até seu cotovelo.

De repente as memórias da noite anterior voltaram com força, tão rápido que ele se sentou na cama, completamente acordado. A destruição no escritório do Gaara. Uma Temari pálida, furiosa e selvagemente perigosa. Um corte no dedo e o gosto de sangue. Um casamento. Uma esposa.

Seus olhos vasculharam o quarto, procurando por ela; lembrava-se vagamente de que ela havia ido com ele para o hotel, mas não havia sinal de que ela esteve lá. Nenhum futon. Nenhuma bagagem. E aquilo não fazia sentido. Por que ela insistiria em ir com ele se ia embora antes mesmo que ele acordasse?

Uma sensação gelada começou em seu estômago, espalhando-se por seu torso e extremidades e transformando tudo em gelo. Casado. Como uma coisa como aquela poderia ter acontecido com ele? Não estava pronto. Só tinha 16 anos... não era jounin ainda, ganhava menos que um garçom, morava com seus pais, pelo amor de Deus, numa casa relativamente pequena que eles dividiam com os Yamanaka e os Akimichi enquanto a Vila estava sendo reconstruída. Chouji dividia o quarto com ele! Como poderia levar uma esposa para uma situação dessas? Pós guerra... reconstrução... governo instável... era um tempo em que era muito melhor ser criança. Não um homem adulto com uma esposa. Especialmente uma que sem dúvidas se recusaria terminantemente a aceitar qualquer tentativa que ele fizesse em ser um marido.

Tudo na noite anterior havia parecido um sonho. Lembrou-se do plano do pai e de pensar que era a melhor maneira. Mas de algum jeito havia falhado em conectar o plano com sua própria vida. Ele esqueceu de considerar como o plano iria afetá-lor, anos depois que a guerra houvesse terminado, depois que Kakashi morresse e um outro Hokage fosse escolhido. O tempo passaria, Danzou estaria esquecido há muito tempo...

... e ainda haveria Temari.

Todos os dias.

Para o resto da vida dele.

Isso a não ser que ela morresse antes. Mas aqui não era provável. Temari era muito teimosa para morrer antes dele.

Seu dedão continuava a doer e ele encarou o ferimento, o corte que dividia seu dedo em dois. Gaara estava certo, ele precisava de pontos ou dos cuidados de uma medica nin. E agora era tarde demais. Estava sarando em dois lugares diferentes, sangue seco manchando toda a sua mão e braço. Puxando os cobertores, pode ver que tinha sangue no lençol de baixo também. E provavelmente tinha manchado o colchão.

Minutos se passaram e ele continuou sentado, tenso, incapaz de se mover. Seu cérebro havia parado de funcionar e se recusava a navegar por aquele território inexplorado. E reconhecia aquele sentimento. O gelo no estômago, rigidez dos músculos, o desejo enorme de se deitar e fingir estar em coma até que ninguém esperasse mais nada dele.

Estava apavorado.

Era possível que existisse no mundo uma mulher mais difícil de se conviver do que Temari? Não é que não gostasse dela; ele simplesmente não sabia o que sentia. Não havia um sentimento muito positivo ou muito negativo que controlasse sua opinião. Quase todas as vezes em que se encontraram a conversa terminou em discussão, o que não era uma coisa boa. Mas ele descobriu que os argumentos dela tinham um jeito de ficar dentro de seu crânio, girando até que ele fosse forçado a reconhecê-los, geralmente muito tempo depois de ela ter ido embora. E com frequência o resultado de assimilá-los era uma nova perspectiva, um novo entendimento; resumindo, um Shikamaru mais sábio. O que poderia ser visto como positivo, se não fosse pelo fato de que ela parecia saber daquilo, e quando eles se encontrassem novamente algo estaria no ar, um toque de arrogância ou condescendência que faziam com que ele desejasse sua ignorância anterior.

Ela tinha auto-confiança, o que era bom. Mas era egoísta, o que não era.

Ela era inteligente: bom. Mandona: mau.

Honesta: bom. Grossa: mau.

Confiante: bom... talvez. Assustadora: terrível.

Não, ele não gostava dela. Como poderia? Ela nunca tinha feito nada para que ele gostasse dela. Nunca havia reconhecido nenhum esforço por parte dele a não ser que estivesse o elogiando às avessas. O insultava sempre que tinha a chance. Ela mandava nele, e deixava claro que seus esforços não estavam nem perto de serem bons o suficiente. Ele não era bom o suficiente. Ela não o respeitava.

E enquanto continuava sentado ali, ainda sem se mexer, se deu conta de que aquilo era o pior. Percebeu que não importava o quão irritante, barulhenta ou detestável Temari fosse, seu respeito era valioso. Provavelmente porque ela respeitava tão pouca gente. Ou então porque ela, como jounnin e aliada, fosse tão respeitável. Ele a respeitava. Ele a honrava por suas habilidades. Confiava nela com sua vida.

E ela o achava fraco.

Aquilo fez com que ele se sentisse uma criança. Como um bebê que Temari teria que carregar em seus braços quando viajasse, para ter certeza que ele não cairia em nenhum buraco, ou se aproximasse de alguma planta espinhenta ou animal perigoso e se machucasse. Como se ela fosse o protetor. O marido.

O que faria dele...

Ele tremeu, mas seus músculos estavam tão tensos que foi mais como um espasmo. Aquilo era errado. Nenhuma divindade tinha o direito de colocá-lo num casal com Temari. Ele precisava de uma mulher que o admirasse, que o ouvisse, alguém que não o fizesse sentir como se tivesse que provar alguma coisa o tempo todo. E Temari precisava de alguém mais durão que ela. Shikamaru já fora chamado de cabeça dura, mas nunca de durão.

Talvez se ele conquistasse algo incrível ela o admirasse. Mas aquilo era impossível. O respeito de Temari estava longe e era tão difícil de agarrar quanto uma nuvem, e ele tinha tanta disposição para conquistá-lo quanto tinha para construir um par de asas e aprender a voar. Muito mais fácil admirá-lo de longe, como algo atrativo, mas inalcançável. Muito mais fácil aceitar o fato de que ela iria desdenhar dele para sempre agora, então ele não passaria o resto da vida lutando por algo que, até onde sabia, não existia. Era mais fácil... aceitar.

Se você não mirar nada, certamente vai acertar. Mas ele não acertaria nada de qualquer maneira, então porque mirar?

Depois de chegar a essa conclusão, sentiu-se um pouco melhor. Ele não estava mais otimista quanto a seu futuro mas havia escolhido seu caminho, o que havia o livrado da paralisia da indecisão. Podia parar de olhar para seu dedão, podia mover os braços e as pernas e se colocar de pé, bocejando mais uma vez e esticando as costas.

Precisava de um banho. Um banho bom e gelado, que terminaria de acordá-lo e o prepararia para encarar sua companheira para o resto da vida. Onde quer que ela tenha ido. Provavelmente para casa, para andar de um lado para o outro reclamando do porque ele estava demorando tanto. porque ainda não estava lá. Ou, mais provavelmente, estava em casa para não ter que contemplar a existência dele de maneira alguma.

Bleh. Linha errada de pensamento. Era melhor pensar em que restaurante ele pararia no caminho para a mansão. Estava faminto e tinha um restaurante de takoyaki na esquina. Parecia um bom plano.

Ele pegou roupas limpas de sua bagagem, depois se despiu até ficar de roupas íntimas e socou as roupas sujas em cima de todo o resto. Depois se levantou e colocou as roupas limpas debaixo do braço para poder carregar sua escova de cabelo, de dentes, desodorante e pasta de dentes. E foi então que ele ouviu. O som de uma chave sendo inserida na fechadura, a maçaneta girando, a porta se abrindo.

Sem pensar duas vezes, ele soltou tudo o que estava segurando e fez os selos rapidamente, mandando sua sombra para debaixo da porta. Sentiu as sombras se conectando e a porta parou. Não havia suspeitado de alguma ameaça; poderia ser apenas uma pessoa. Ele só não queria ser visto de cueca.

- Temari?

A voz irritada dela veio detrás da porta.

- Isso quer dizer que você não quer almoçar?

- Como você conseguiu a chave?

- Peguei de você. Vai me deixar entrar ou não?

Ele abaixou os olhos para as coisas que avia derrubado no chão. Precisava pegá-las, mas se se inclinasse Temari faria o mesmo e acabaria abrindo a porta. Com o rosto. Na verdade ele não podia fazer nada para se livrar dela, pois ela repetiria tudo o que fizesse.

- Vou deixá-la entrar, mas me dê um minuto.

- O que, você está pelado?

O Nara não conseguiu evitar abaixar a cabeça e olhar para a própria roupa de baixo, e Temari riu baixo, zombando dele.

- Não exatamente - respondeu por fim.

- Não se preocupe. Não tenho interesse em ver sua cuequinha branca.

Shikamaru pensou em informá-la que era uma boxer cinza, mas era sem propósito; respeito de Temari estava fora de alcance. Mas ele pode sentir algo afundar dentro de si: sua última esperança.

Não demorou muito para se lavar e se trocar, consciente de que alguma forma de comida esperava por ele no quarto. Quando saiu do banheiro, Temari estava tirando dois bentos konbini de uma sacola de plástico. Ela não o olhou quando ele entrou.

- Que horas são?

- Quase três.

Oh. Era por isso que se sentia tão descansado. Doze horas de sono fariam isso com um cara.

Ela fez um gesto indicando o chão, empurrando um bento e um copo de café na direção dele. Shikamaru sento-seu com as pernas cruzadas e abriu a tampa de plástico.

- Obrigado. - ele disse.

- Uh huh.

Ele comeu tudo antes de falar novamente, não que aquilo deixasse um silêncio longo e terrível. Estava realmente com muita fome. Não era takoyaki, mas poderia ter sido até comida gourmet; ele terminou em apenas alguns minutos.

- Você pegou a chave de mim – ele disse quando terminou – mas ela estava no meu bolso quando adormeci.

Ela levantou os olhos.

- E pouco depois estava na minha mão. Onde quer chegar?

- Você me revistou enquanto eu dormia?

- Não. Vi onde você tinha colocado.

- Huh – não sabia mais o que dizer. Sentiu-se um pouco violado.

- Eu tinha que ficar aqui o tempo todo, te olhando dormir, só porque guardou a chave do quarto com você?

Despropositado. Fora de alcance.

- Não.

- Tive que tomar café da manhã, espalhando a alegre notícia da nossa união para o dono do hotel e todas as pessoas que encontrei, depois levei minhas coisas de volta para casa e descobri o que Gaara quer que façamos agora. A coisa toda foi tão repentina, não acho que alguém tenha alguma idéia do que está acontecendo.

A voz dela era amarga e ela comia cada pedaço do almoço como se estivesse o atacando. Não parecia mais feliz do que estava na noite passada.

- Então, o que Gaara disse?

- Você não vai acreditar.

- O que?

Ela deu uma risada ácida, como se demonstrasse sua própria descrença.

- Ele nos deu outra missão.

- O que agora? Produzir um herdeiro do sexo masculino?

- Não, Deus não. Como se eu permitisse que ele me convencesse em envolver crianças nessa situação infeliz. Ele está literalmente nos mandando em uma missão. Uma missão idiota de ranking bem baixo. Acho que a intenção é nos tirar do País para que Danzou não nos mate quando ele... você sabe. Descobrir.

Temari descansou os hashis e o olhou séria.

- E por falar nisso, acho que você deveria saber. Tsunade morreu essa manhã.

Ele teve vergonha de que seu primeiro sentimento foi de alívio. Havia cumprido sua missão e os últimos três dias de tortura não haviam sido em vão. Alívio por Tsunade não estar mais sofrendo. O alívio se tornou um tipo... estabelecimento. Aceitação. O casamento era válido. Sempre havia a chance de que ela morresse antes que assinassem o certificado, mas aquela possibilidade não existia mais.

Mas então todo o peso da morte da Godaime o acertou, e lágrimas umedeceram seu olhos. Ele não sabia se era verdade que a vida de uma pessoa passava inteirinha em sua mente antes que ela morresse, mas a vida dele desde que havia conhecido Tsunade estava passando em sua mente naquele momento, como paginas de um livro de fotografias velho, passando rápido para apenas dar a ele rápidas espiadas em suas próprias memórias. Lembrou-se de quando se graduou chuunin e como ela lhe sorriu com orgulho quando lhe concedeu o ranking. Ele não estava pronto, não mesmo, e sem dúvidas ela sabia daquilo. Mas ainda assim teve orgulho dele. Ele pensou em toda a responsabilidade que lhe fora dada ao longo dos anos e como ele a havia decepcionado em muitas das mais importantes. Mas aquilo nunca a impediu de confiar nele.

Mas ela era uma apostadora, no final das contas. E apostou nele, mesmo quando as situações não eram favoráveis.

Memórias dela gritando com ele e lhe dando lições ficavam voltando, mas aquilo não era uma coisa estranha. Estranho era que essas memórias evocavam sentimentos de afeto, como se as experiências houvessem sido boas. Era insondável.

Temari se levantou e limpou as embalagens vazias de bento sem olhar para ele. Ela provavelmente estava achando-o repugnante por chorar por Tsunade.

Despropositado. Fora de alcance

Mas ele não se importou muito. Se a vida de seu líder morto não valesse algumas lágrimas, o que valeria então?

- Enfim, - ela disse levantando a voz para que fosse ouvida do outro lado do quarto – Gaara está nos mandando entregar uma encomenda para alguém em Kawa. Como eu disse, é ridículo, mas nos mantém em movimento e impede Danzou de saber onde estamos.

Não, ele não está. Mandá-los para Kawa, quando ficar de olho neles e mantê-los vivos era de maior prioridade seria estúpido. Tão estúpido que aquilo tinha de ser uma mentira. Temari obviamente sabia daquilo, o que explicava o motivo de ela estar falando alto o suficiente para ser ouvida pelo hotel todo.

- Ok. - ele concordou.

- Ficaremos na mansão essa noite e partiremos pela manhã. Já fiz o seu check-out do hotel. Você só precisa juntar suas coisas para irmos embora.

Não era só aquilo; antes de saírem, Shikamaru teve que procurar a dona do hotel e pagá-la pela roupa de cama que ele havia arruinado com sangue. Ela havia aceitado o dinheiro com uma piscadela e um sorriso de quem sabia o que havia acontecido na noite de núpcias, e saiu deixando o Nara corando violentamente. Ele não podia explicar que as presunções da mulher estavam erradas sem se envergonhar ainda mais ou levantar suspeitas.

Ele andou até Temari, que o observava com um sorriso sarcástico no rosto.

- A conversa foi legal?

Despropositado. Fora de alcance.

- Acho que sim.


N/A: 1. o-tsukaresama deshita, e variantes: uma frase usada entre colegas de trabalho e de classe quando vão embora no fim do dia. É bastante formal; algo que não se usa com um amigo próximo, mas posso ver Tsunade indo por esse caminho, evitando o uso de um mais permanente e emocional "sayonara". Mas meio que significa "obrigado pelo trabalho duro" ou "Você/nós fizemos um bom trabalho hoje." Mais literalmente "você se cansou."

konbini bento: almoços em embalagens plásticas que podem ser comprados em lojas de conveniência.

N/T: Os nomes dos capítulos começam com o prefixo Un, e em inglês a sequência de nomes é toda assim. Em português usei o equivalente, mas não pude preservar a semelhança para não prejudicar o entendimento.