Capítulo Cinco
Indesejado*

Temari entrou assim que Ino e Chouji saíram, e estava com uma expressão que sugeria que ela queria algo para destruir com as próprias mãos. Mal continha a frustração. Ela atravessou o quarto e se sentou na cama de Chouji como se já pensasse que era dela, e Shikamaru primeiramente se preocupou que ela tivesse ouvido alguma parte de sua conversa com Ino. Mas quando ele pensou novamente na conversa, revivendo o diálogo em sua cabeça como se o tivesse gravado, estava bastante confiante de que não havia dito nada incriminador. Apesar de não ter muita certeza de exatamente qual crime poderia ter cometido. Ino havia dito algumas coisas bem insolentes, mas não faria sentido Temari ficar brava com ele por coisas que Ino havia dito. Não que tudo o que Temari fazia fizesse sentido.

Ela olhou para ele, cruzou os dedos juntos, descruzou e os flexionou. Levantou o braço e coçou a cabeça atrás de um dos tufos de cabelo. Inquieta.

- Detesto isso. – ela disse simplesmente. - Detesto não saber nada. Me deixa nervosa.

Ah, aquilo. Sim, era um sentimento ao qual ele poderia se relacionar. Ser desinformado só era pior que ser despreparado. O problema era que o primeiro geralmente levava ao segundo. Mas a explicação do pai dele fazia bastante sentido. Ele detestava aquilo, mas fazia sentido.

- Sei como se sente. - ele disse – Mas temos que aceitar que agora não somos shinobis. Nesse momento somos só rostos. Temos que deixar os outros fazerem o trabalho sujo e manter nossas mãos limpas.

- Mas essa não sou eu. E também não é você. Nós somos shinobi. Não é um emprego; é uma vida. Eu não nasci para ser uma esposa-troféu, nasci para ser o guarda-costas.

Ela estralou as juntas de uma das mãos, o que era uma coisa essencialmente masculina e agressiva para se fazer. Mas ele não pensou que ela estava tentando se fazer de durona. Foi sem pensar. Outro tique, como a inquietação e o coçar. Nunca a tinha visto tão sem controle sobre o próprio corpo antes. Como se não pudesse ficar parada.

- Mas você nunca seria outra coisa.

- Huh? - ela olhou para ele, já tendo claramente perdido o fio da conversa. - Outra coisa que o o que?

- Que uma esposa-troféu. Quero dizer, veja quem você é. Não há um cara em Suna ou Konoha mais poderoso que você, com exceção talvez do seu irmão e do Danzo. Qualquer um que se casasse com você estaria se casando com alguém muito superior a si próprio. Isso é tão óbvio.

Temari pareceu pensativa por um momento, depois deu de ombros.

- Talvez seja por isso que nunca quis me casar. Não quero ser venerada.

- Bem, eu não te venero, então pode ficar feliz por isso.

Ela ficou parada por um momento enquanto o observava. Os olhos dela nele fizeram com que ele se sentisse muito consciente de si próprio, como se estivesse sendo examinado. Então os olhos verdes se voltaram para as mãos dela, e ela estralou outras juntas.

- Mh.

Uma batida na porta. Ino.

- Vá embora, Ino.

Como o usual, ela o ignorou.

- Trouxe a bagagem de Temari-san. - ela disse.- E Chouji vai dormir na sala. Então tudo deu certo.

Temari pegou a mochila da outra loira, mas franziu o cenho.

- Tem certeza de que está tudo bem? Não quero desalojar ninguém.

O que? O que? A mulher o atormentou por um longo tempo sobre o quanto era importante dividir um quarto com o marido dela e agora estava tratando o assunto como se não fosse nada demais?

- Acredite em mim, - Ino sorriu. - Chouji está animadíssimo. Não vai ter que andar muito para fazer lanches de madrugada.

- Se tem certeza...

- Tenho sim. - Ino respondeu enquanto fechava a porta atrás de si, saindo tão abruptamente quanto havia entrado.

- De qualquer forma, - Temari continuou, colocando a mochila perto da cama. - Entendi a 'missão'. Pareça estúpido, fique vivo. Mas essas duas coisas são geralmente mutuamente exclusivas. E eu... - ela levantou as mãos como se estivesse desamparada – Eu nem tenho meu leque, ok? Está a três dias de distância.

Ele não pôde discutir. Sentia-se solidário. Mas sentiu que a ansiedade dela estava fora de proporção.

- Tem mais alguma coisa te incomodando?

- Precisa haver outra coisa? Isso já é ruim o suficiente.

- Você está... não sei.

Os olhos dela encontraram os dele.

- Olha, fui verdadeira no que disse. Eu confio em você.

E aquela declaração teve o poder de o deixar em estado de choque, da mesma forma que fez da primeira vez. E, estranhamente, também se juntou com que havia sobrado da sensação estranha em seu estômago desde a conversa com Ino. Ou talvez fosse a maneira com que ela o encarava, totalmente séria, e sem piscar. Ele ficaria muito mais confortável se ela simplesmente piscasse.

- Mas?

- Mas eu queria entender melhor o porque você confia nele.

- Por que não deveria? Ele é meu pai.

A cara que ela fez mostrou que as palavras tinham sido tão compreendidas como se tivessem sido ditas em língua estrangeira. E então ele se deu conta:

No mundo em que ela vivia, um pai era a pessoa em que você menos deveria confiar.

Era esclarecedor, e virou a visão que ele tinha dela de cabeça para baixo. Sempre havia pensado nela como alguém que era fisicamente e emocionalmente forte. Mas com uma família como a dela, ela teria sobrevivido se fosse de qualquer outra maneira? Crescendo daquele jeito, como ela aprenderia a ter fé em alguém? Como ela mesma havia dito, ser um shinobi não era um emprego, era sua vida. Por que, para Temari, nunca houve um momento em que não fosse vital que ela estivesse em guarda. Reagisse rápido. Protegesse a si própria. Nunca houve um momento na vida dela em que ela pudesse depender das intenções de outra pessoa. Não totalmente. Até mesmo Gaara, seu irmão, seu Kage, havia passado anos ameaçando sua vida. E Kankurou tinha sérios momentos de instabilidade. Momentos cruéis. E em quem ela poderia confiar, se não podia confiar nem em sua família?

Mas ela havia dito que confiava em Shikamaru. Mesmo que só um pouco. E até agora, não tinha ocorrido a ele o quão pesada era aquela carga. Não queria ser outra pessoa na vida dela de quem ela poderia eventualmente vir a desconfiar, mas como um cara consegue ser confiável o tempo todo? A resposta parecia ser não fazer afirmações ou promessas de maneira alguma, porque assim não haveria fé para violar. Mas nunca tinha visto um casamento que funcionasse daquela maneira. Talvez fosse apenas... uma resolução. Uma decisão. Fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para evitar desapontá-la.

Aquilo soava muito trabalhoso. Mas por mais objetável que todo aquele trabalho parecesse, muito pior era pensar em ser outra razão para que ela duvidasse da decência humana, ou da força dos laços familiares.

Tão confuso. Ele havia deixado o terreno sólido do pensamento lógico e se aventurado na areia movediça do emocional. E ele não sabia nada, a não ser que não queria machucar sua esposa.

- Por que está me olhando assim? - ela perguntou. Parecia desconfiada.

- Temari... - ele se sentou ao lado dela na cama, mas a incerteza da kunoichi só pareceu aumentar. Ela se afastou um pouco, colocando alguma distância entre eles.

- O que?

- Pais... - ele começou - Bem, pode-se confiar na maioria deles. Acho que eles querem o que é melhor para seus filhos. Mesmo que sejam irritantes sobre isso às vezes.

Ela balançou a cabeça, sem se impressionar.

- Não faz sentido. Qualquer ferramenta pode ter um filho. Usar seu esperma com sucesso não te torna alguém carinhoso ou disposto a se sacrificar.

- Nunca fui pai, então não posso dizer. Só posso falar da experiência que tenho com meu próprio pai e os pais dos meus amigos, e a maioria deles é carinhosa e disposta a se sacrificar. Os que sobraram, pelo menos. O resto deles deu a vida para proteger suas famílias na última guerra.

Os olhos dela refletiram compreensão, mas ela havia aprendido a lição errada.

- Você estava me psicoanalizando?

- Não intencionalmente.

- Pare de me olhar como se pensasse que eu sou patética.

- Não acho que você é patética.

- Então o que é essa cara que você está fazendo?

- Não tenho idéia. Não posso ver.

Ela fechou os olhos e respirou fundo várias vezes. Shikamaru pode ver que ela estava tentando não ficar brava. Ele estava agradecido por aquilo, mas não pode deixar de desejar que o ímpeto de ficar brava com ele não existisse de jeito nenhum.

- Você me disse que confiava em mim, - ele disse - Mas se não puder praticar a confiança, não é real.

A loira apertou a mandíbula.

- Eu estou praticando. Mas não quer dizer que eu tenha que gostar.

Alguém bateu à porta e Shikamaru e Temari disseram "pode entrar" ao mesmo tempo. Era Yoshino, que abriu uma fresta da porta, apenas espiando dentro.

- Espero não estar atrapalhando.

O sorriso de Temari era forçado, mas ela chacoalhou a cabeça

- Ino-chan me contou sobre as mudanças das camas, então vim trocar os lençóis.

- Eu posso trocá-los. - Temari se apressou.

A mãe dele entrou no quarto e os tirou da cama.

- Não seja boba. Você ainda é a convidada de honra. Mas amanhã vai ser moradora, então todas as apostas estarão terminadas.

Temari sorriu de verdade dessa vez. Foi rápido, mas por aqueles segundos seus olhos brilharam e não havia mais resquícios de irritação em seu rosto. E Shikamaru sentiu algo o atingir no peito, algo macio e pesado que lhe roubou um pouco do ar.

Olhou para baixo e viu que estava segurando um conjunto de lençóis.

- Você pode trocar os seus. - sua mãe disse.

- Tá bom, tá bom.

Mais tarde naquela noite, quando as luzes estavam apagadas, Temari dormia na cama de Chouji e a casa estava o mais silenciosa que poderia ficar, Shikamaru teve algum tempo para pensar. E deitado nos lençóis frescos, com as mãos apoiadas atrás da cabeça e os olhos bem abertos, encarando a escuridão, ele examinou a situação. Colocou sobre a mesa cada pedaço que tinha do quebra-cabeças, e apesar de alguns estarem faltando, ainda podia ver a figura. Ino havia o ajudado, à sua maneira agravante, mas as melhores pistas haviam vindo da própria Temari, quando inadvertidamente havia permitido que ele visse um pouco de quem ela realmente era. Forte, sim. Mas uma força nascida da autodefesa. Controlada, mas apenas porque mostrar seus sentimentos daria ao resto do mundo vantagem sobre ela. Estranhamente adaptada era sua invocação, o furão. Um dos mais rápidos e inteligentes membros do mundo animal, por que não estavam o tempo todo caçando, mas também sendo caçados. Não tinha outra escolha a não ser se manter vigilante, e acima de tudo, se movendo.

Uma imagem dos dedos dela se dobrando e flexionando surgiu em sua mente. Até hoje à noite, nunca pode vê-la como alguém que tinha uma fraqueza. E como alguém que sentia falta de algo... qualquer coisa. Alguém com um vazio que precisava ser completado para que passasse a ser inteiro.

E então a voz de Ino: Quando vocês dois finalmente perceberem que são a fim um do outro...

Ele achou que conhesse os sinais. Nunca os havia sentido, mas havia ouvido muita gente falar sobre eles para saber seu significado. Ele sempre havia a respeitado, sempre ficava um pouco impressionado com ela. Tinha medo dela, até. Mas agora, acima daquilo, ele queria ser aquele em que ela poderia confiar, alguém que ela poderia ter certeza de que nunca a trairia, para que de vez em quando ela se sentisse livre para não ser caçada. O que era... errado. Era errado para ele querer ter um papel tão ativo na vida de outro ser humano.

E por que ele ainda sentia que estava prestes a vomitar?

...vocês são a fim um do outro...

Ele se virou, o suficiente para ver a forma adormecida da kunoichi. E o que estava visível era um monte de cabelo loiro; ela havia puxado a coberta por sobre seus olhos. Enfiada numa toca. Se escondendo.

Então, quero dizer... você não gosta dela?

A garganta dele se fechou. Tentando não dizer a resposta. Mas ele era péssimo mentindo para si mesmo.

...você gosta dela...

Finalmente um suspiro escapou dele quando entendeu. Você gosta dela.

Você gosta da Temari do Deserto. Uma mulher que nunca deu indicação de estar interessada em homem nenhum, quanto mais você. E aquilo não era típico? Típíco dele sentir aquilo por alguém que era muito obstinada ou controlada ou desinteressada para retribuir, ou admitir caso sentisse o mesmo.

Absolutamente típico.

X X X

Assim que o Escritório do Hokage abriu pela manhã, Temari foi até lá com Shikamaru para ter sua cidadania aprovada. Ele iria se atrasar para o trabalho, mas era uma desculpa boa, e não era como se não tivesse sido substituído na semana passada, de qualquer forma. O que era mais uma hora?

Eles andaram pelas ruas de Konoha, por lugares que ela supostamente havia passado antes, mas pouca coisa lhe era familiar. Não havia sinais de destruição; o trabalho de Pein não havia deixado nada além de destroços para trás, então nenhuma parte da Konoha antiga existia, com exceção da montanha. E ela mesma esteve em um time que ajudou a carregar muito dos escombros no começo da reconstrução, para dar espaço aos prédios novos. Isso foi até Danzou mandar os times de Suna de volta para casa, com a alegação ridícula de que não não precisavam mais deles, já que os trabalhos mais importantes já havia sido feitos. Certo.

Agora Konoha era esparsa em se tratando de construções. Havia provavelmente um quinto das casas que existiam antes, e poucos comércios. O que havia para ser comprado e vendido era disposto na rua, em banquinhas que poderiam ser levadas para casa no final do dia. Mas as ruas estava tomadas de pessoas, e Temari sabia o por que; quando sua casa está tão cheia de outras familias que você não pode respirar, a única maneira de organizar seus pensamentos é sair. O problema era que fora não era muito melhor que dentro se todo mundo teve a mesma idéia que você.

Eles passaram entre as pessoas do mercado de bancas armadas, mantendo os olhos abertos. Temari estava usando seus dois leques menores lado a lado em suas costas, numa tira que Yoshino havia confeccionado para ela na noite anterior. Havia passado algum tempo essa manhã ajustando a tira e praticando alcançar suas costas com as duas mãos em ângulos estranhos para alcançar os leques o mais rápido possível. Havia descoberto que a melhor maneira era prender os leques num ângulo levemente inclinado para fora, e alcançá-los cruzando os dois braços na frente do corpo e puxá-los com as mãos opostas. Os músculos de seus ombros doíam devido ao treino, mas ela estava melhor que o Nara, que havia aparecido numa curva da casa a tempo de evitar que um dos leques o atingisse no rosto, o que resultou em alguns ferimentos sérios em uma de suas mãos. Oh, bem. Pelo menos ela podia dizer que ele tinha bons reflexos.

Então eles estavam desinformados mas o mais alertas possíveis enquanto andavam. Perto do final da rua, onde a fila dos comerciantes se estreitava, passaram por uma mulher que vendia itens para café da manhã em um carrinho. Temari nunca havia a visto; mas ela parecia conhecer o Nara e o chamou quando eles estava próximos o suficiente.

- Shikamaru!

- Oi.

Era uma mulher de meia idade bem robusta e segurava um pedaço de carne num espeto. Tinha um sorriso que iluminava suas feições, fazendo com que parecesse muito mais jovem do que provavelmente era. Ela sorriu para Temari.

- Essa é sua esposa?

O Nara assentiu.

- Temari. - Depois estendeu a mão em direção a mulher. - Ogawa-san.

- Prazer em conhecê-la. - Ogawa sorriu.

- O prazer é meu.

- Não acredito que esteja casado, Shikamaru! - disse Ogawa-san - Você parece tão novo. Mas acho que devemos agarrar o amor quando o encontramos.

Nara não a corrigiu quanto à natureza do casamento, o que era a decisão correta. A ilusão de amor jovem era parte do que faria a farsa funcionar, para arrancar emoções do público.

- Vocês já tomaram café?

- Já. – Temari respondeu.- Tente sair da casa da mãe dele sem comer. Impossível.

- Bem, voltem para o almoço, em casa. Estarei aqui.

- Obrigado.

Se despediram da mulher e continuaram seu caminho. Mas Temari sabia que aquilo havia sido apenas o começo. A família Nara era conhecida o suficiente para atrair bastante atenção com um casamento em Suna, e as pessoas estariam curiosas. Ela teria que fazer seu melhor para ser amável, o que quer que aquilo implicasse. Provavelmente em não ser ela mesma.

O Escritório do Hokage não tinha nenhuma semelhança com o antigo, sendo apenas um prédio grande mas simples muito parecido com os prédios vizinhos. Dentro dele havia uma mesa onde uma jovem mulher estava sentada, folheando desinteressadamente um arquivo e enrolando uma mecha de cabelo entre os dedos. Ela levantou os olhos quando eles entraram e lhes dirigiu um sorriso profissional e falso.

- Posso ajudá-los?

- Estamos aqui para verificar nosso certificado de casamento e adicionar minha mulher no registro de cidadania. - o Nara disse, já pegando os papéis necessários de dentro de uma pasta. Estendeu-os para a mulher, que parecia hesitante em aceitá-los.

- Nara?

Ele assentiu.

A mulher estreitou os olhos enquanto examinava os papéis, prestando especial atenção no certificado de casamento. Mas então tamborilou os dedos na mesa, olhando-os com ar de desculpas.

- Sinto muito, mas não posso aceitar esses documentos.

Temari já estava meio esperando algo do tipo. As chances de que tudo iria perfeitamente bem eram próximas de zero. Mas a realidade ainda a enfureceu. Deu os últimos dois passos em direção à mesa da secretária e se inclinou, colocando seu rosto próximo ao da mulher, que se afastou assustada. Mas sentiu um puxão na manga e havia um braço segurando o dela, puxando-a para longe da mulher.

- Há algo errado com o certificado de casamento? - Shikamaru perguntou, segurando-a com força suficiente para que ela não conseguisse soltar o braço sem quebrar alguns dedos dele. - Se verificar o selo de chakra vai ver que o casamento aconteceu enquanto Suna ainda era aliada.

- Não tenho competência para verificar a validade do selo.- A mulher disse num tom de voz bem ensaiado. - Konoha não está mais reconhecendo casamentos de Suna.

- O que? - Temari disse. - E os casais que se casaram em Suna antes?

- Todos os casamentos mais antigos que uma semana foram aceitos por antiguidade.

- Então só o nosso está sendo negado, é o que está me dizendo?

- Não tenho mais informações. Sinto muito.

- Escute aqui. - Temari disse à mulher, finalmente se soltando de Shikamaru. - Quero que você saia dessa cadeira e encontre alguém que tenha as informações. Não me importo se tiver que ir até o próprio Danzo. Não vou embora até ter algumas respostas.

- Temari.

- O que? - ela se virou para o Nara, que a observava com uma sobrancelha arqueada.

- Ameaçar a secretária não vai nos levar a lugar nenhum.

- Não estou ameaçando. - ela disse. - Se estivesse, faria isso. - Ela puxou os leques na velocidade da luz, quase apreciando a dor nos ombros e nas costas, e os abriu. Depois ela olhou novamente para a secretária, que havia se afastado com a cadeira até ficar de costas contra a parede. - Viu, se eu estivesse te ameaçando era isso o que eu faria.

A mulher simplesmente a encarou com olhos arregalados.

Shikamaru limpou a garganta e ela se virou para ele novamente.

- O que?

- Acho que devemos ir.

- Pode ir, então. Eu ficarei bem aqui até resolver a situação. Nosso casamento é perfeitamente legal, e Hokage ou não, Danzo não tem direito de contestá-lo.

- Eu sei, mas não faremos nada à esse respeito agora. Vamos explicar a situação para o meu pai e ver o que ele diz.

- Oh, nós vamos, não vamos?

Ele bocejou.

- Ainda temos dois dias. E talvez ele diga para você voltar e ameaçar o quanto quiser.

Temari sabia que ele estava certo, e aquilo a incomodou mais. Aumentou o sentimento de desamparo, como se todos soubessem mais que ela ou tivessem poder sobre ela, até mesmo o Nara. Mas ela fechou os leques e os recolocou nas costas, depois se concentrou em não ficar tão irada a ponto de baixar a guarda. Seria estúpido deixar que raiva infundada pelo marido dela a matasse.

Sem dizer mais nenhuma palavra à secretária chocada, eles deixaram o Escritório em direção à escola. Foram parados mais de uma vez por pessoas interessadas na nova noiva Nara, e cada vez que isso acontecia a raiva por Danzo aumentava, até que estava quase a sufocando. E quando ela se viu numa dessas "conversas" com Hyuuga Hinata, deixou um pouco da raiva transparecer.

- Não acredito que estejam casa... - Hinata dizia, e Temari não conseguiu evitar corrigir aquela pequena falácia irritante.

- Tecnicamente não estamos. - a loira disse, e tanto Hinata quanto Shikamaru a olharam surpresos. - Danzo rejeitou nosso casamento.

- O que? - Hinata perguntou. - Tem certeza?

- Oh, sim.

- Bem...mas como ele pode fazer isso? É legal?

Temari deu de ombros.

- Não, mas não me importo. Se ele não permitir que eu me torne cidadã de Konoha, quer dizer que eu ainda pertenço à Suna, e em Suna eu sou casada. Então Danzo pode chupar um bem grande.

Hinata franziu as sobrancelhas de maneira graciosa.

- Chupar... o que?

- Então, de qualquer maneira – Shikamaru cortou rapidamente. - As coisas estão assim. Mas temos que ir para a Academia, então depois conversamos. Até mais, Hinata.

- Até. - ela replicou com preocupação honesta em sua voz.

Assim que se afastaram, Shikamaru voltou a falar.

- Existe alguma chance de que você relaxe e esqueça isso até chegarmos em casa?

- Não. Me perdoe por defender meu casamento. Deveria manter a boca fechada para proteger o Danzo?

- Não exatamente. Não vejo motivos para deixar isso em segredo. Mas tente não ser tão claramente sarcástica em relação a ele.

Ela se virou para olhá-lo; ele estava olhando para frente enquanto andava, com as mãos nos bolsos. Não se virou para olhá-la nenhuma vez, apesar de ela continuar o encarando por um quarteirão inteiro. Ele não havia prestado atenção nela o dia todo, na verdade; a mente dele estava claramente em outro lugar. Talvez estivesse se concentrando para um possível ataque, mas ela imaginou se ele poderia se ouvir falando.

- Você está sendo realmente mandão hoje, sabia?

Dobraram uma esquina e entraram na escola. Do corredor podiam ouvir aulas em progresso, então passaram a falar mais baixo.

- E você vai nos colocar numa encrenca. Sei que existe uma versão diplomática sua aí dentro. Sintonize-a, sim?

A primeira reação que ela teria seria dizer "sintonize isso" e lhe mostrar o dedo. Mas reconhecia o que era aquela reação: ela estava soltando fogo pelas ventas. Estava com raiva de Danzo, decepcionada com seu papel na guerra de Shikaku. E aquilo a estava afetando. Precisava relaxar.

Ele parou em frente à uma porta e falou ainda mais baixo.

- E provavelmente não preciso te dizer isso, mas é muito importante que você cause uma boa impressão nesses alunos, porque só um quarto deles vem de famílias que não confiam ou estão contra Danzo.

Causar uma boa impressão. Como uma esposa doce cujo único propósito é ser um ornamento para seu marido.

- Como quiser, mestre.

Ele a olhou, mas não disse nada. Foi provavelmente uma decisão inteligente.

X X X

As crianças pareciam felizes por ter seu professor de volta, ou pelo menos curiosas sobre a ausência prolongada dele. O chuunin que estava encarregado da classe entregou o giz ao Nara com o que poderia ser interpretado como muito vigor. Talvez ele não costumasse ser professor. Ou talvez a classe fosse tão problemática quanto Shikamaru havia sugerido. De qualquer forma, a porta se fechou atrás do substituto quase antes de Shikamaru conseguir dizer "obrigado pela ajuda."

O Nara dava aula à classe do 5º ano, Teoria de Ninjutsu, que parecia abranger crianças de nove a dez anos. Os três primeiros anos eram totalmente teóricos, então eles já teriam estudado ninjutsu por dois anos e saberiam o básico no papel, se não na prática. Os diferentes tipos de chakra, os nomes de todos os selamentos e como fazê-los, eram coisas que eles já sabiam e estavam sem dúvidas ansisos para praticar. Mas o que o Nara ensinava era muito mais abstrato. Temari se lembrava de ter uma versão daquela aula em Suna e odiar cada minuto dela. E se perguntou por que Shikamaru, dentre todas as outras pessoas, foi selecionado para ensinar aquilo. Ele tendia a olhar as coisas em preto e branco, assim como ela. Mas Teoria do Ninjutsu era o primeiro ano em que eles seriam apresentados ao conceito "por baixo do que há por baixo de tudo". Temari entendia aquilo bem, agora, mas aquele ano na escola não havia sido fácil para ela.

A primeira coisa que o Nara fez foi apagar o que o professor substituto havia escrito na lousa: Técnias de Defesa e Como Usá-las. Depois, em alguns movimentos firmes, escreveu os kanjis para "Invisibilidade". Depois andou até a primeira fileira e puxou uma cadeira vazia, levou-a para a frente da sala e se sentou. Não havia lugar para Temari sentar, mas ela estava confortável de pé, por enquanto. Andou até a janela mais próxima de Shikamaru e se recostou no parapeito. Daquele lugar poderia ficar de olho lá fora no caso de qualquer sinal de problemas.

- Invisibilidade. - Shikamaru disse.

Ele só tinha dito aquela única palavra quando um aluno o interrompeu, se levantando. Um garoto com cabelos vermelhos e maneiras diretas, sem um dos dentes da frente. Ele era muito velho para ainda estar trocando dentes de leite; aquele havia sido perdido numa briga ou numa brincadeira mais violenta.

- Shikamaru-sensei!

O Nara olhou de relance para Temari, eles sabiam para onde ia a aula. Não havia motivos para adiar mais.

- Sim, Gorou?

- Você realmente se casou enquanto estava viajando?

- Sim, me casei.

- Com uma garota?

- Aham.

O efeito da resposta dividiu a sala. Os meninos fizeram barulhos estrangulados e as meninas suspiraram sonhadoras. A maioria delas, pelo menos. Algumas começaram a chorar as lágrimas mais sentidas de alguém que teve seu coração partido.

Uma garota se levantou dessa vez.

- Shikamaru-sensei, você se casou com aquela moça ali? - e apontou para Temari, como se houvesse alguma outra 'moça' na sala para confundi-lo.

- Sim, é ela. Podem chamá-la de Temari-san.

Os lábios da garota fizeram um ohh silencioso e ela voltou a se sentar.

- Mais alguma pergunta? - O Nara perguntou. - Não me importo em responder, mas não vou aceitar mais nenhuma depois que começar a aula.

Aparentemente não havia mais nenhuma, mas poucas crianças estavam olhando para seu professor. A maioria estudava Temari com curiosidade.

- Invisibilidade. - Shikamaru disse novamente, redirecionando a atenção deles. - O que é?

Várias crianças responderam de uma vez, e o Nara fez um sinal com a mão.

- Um de cada vez.

- É quando ninguém pode te ver. - disse um garoto.

- Ok.

- Não, não é! - disse outro garoto, que parecia ser do tipo espertinho. - É quando você não pode ser visto.

- Qual é a diferença? - perguntou o primeiro garoto.

- Bem... - começou o espertinho. - Quero dizer... se você perder os sapatos e ninguém puder os ver, não quer dizer que estão invisíveis. Certo, Shikamaru-sensei?

O Nara se recostou na cadeira, colocou as mãos atrás da cabeça e se apoiou na lousa.

- Eu não sei.

Temari o observou. Eu não sei? Que tipo de professor diz "eu não sei" para seus alunos?

Mas as crianças claramente esperavam por aquilo e entenderam a resposta como um convite à gritar sua opinião.

- Ninguém pode ser invisível!

- Só tem importência se for durante o dia!

- É a mesma coisa.

As sobrancelhas do Nara se arquearam.

- É a mesma coisa, Hanabi?

Uma garota Hyuuga com cabelos escuros assentiu.

- Não é bem a mesma coisa, mas para ninjas não importa. Se ninguém puder te ver, você está invisível.

Temari pensou na velha charada sobre a árvore que cai na floresta. A resposta ficava na definição de som. O som era algo produzido ou recebido? Igualmente com uma imagem, era algo que você emitia? Ou algo que o olho interpretava? Mas o importante era que essa garota havia cortado todas as irrelevâncias e foi direto ao propósito da lição, que era ensinar ninjutsu. Não discutir filosofia ou física.

- O que vocês acham? - Nara perguntou aos outros.

- Eu acho que é diferente. - disse o menino de cabelo vermelho de antes, Gorou. - Só por que você pensa que ninguém pode te ver não quer dizer que eles não vejam.

- Mas então você é um mau ninja. - Hanabi disse. - Bons ninjas podem dizer se estão visíveis aos outros.

A testa do Gorou se franziu, e ele se sentou. Hanabi não se vangloriou e também se sentou e cruzou os dedos.

O espertinho falou novamente.

- Mas e se seu inimigo tiver uma técnica que você não conhece? Tipo ver através de paredes ou coisa do tipo?

- Ou então tem insetos. - disse uma menina. - Como o Clã Aburame.

Ninguém respondeu àquilo num primeiro momento, e o Nara não fez força para preencher o vazio. Ele deixou o silêncio se arrastar por um minuto, depois outro, enquanto as crianças se entreolhavam e sussurravam umas com as outras.

Um garoto tímido levantou a mão e Shikamaru apontou para ele.

- É possível estar invisível para algumas pessoas e não para outras?

- Relatividade. - o Nara murmurou. - Eu não sei. É possível?

- Acho que sim, - disse o mesmo garoto – Todo mundo é invisível para os cegos.

Temari sentiu o mais estranho ímpeto: queria participar da conversa. Dizer que se dez pessoas estão te seguindo, apenas uma deve ter visão para que você seja visto. Mas ela não disse nada, sabendo que sua opinião não seria levada como a de qualquer estudante. Mas nunca em sua vida se viu tão inclinada a participar de uma discussão abstrata antes. Talvez porque não sentisse que estavam indo "para algum lugar", não sentia que Shikamaru-sensei estava tentando conduzir as crianças em alguma direção, forçá-los a ver as coisas que ele teria planejado o tempo todo. Eles só estavam... pensando.

Claro, era estúpido dar precipitadamente crédito a ele por causa daquilo. Tudo o que ele havia feito até agora era sentar meio dormindo numa cadeira e deixar as crianças falarem alto umas com as outras.

E foi aquele momento que o Nara escolheu para fazer um gesto para que ela se aproximasse dele.

- Você é tão rápida com esses leques pequenos quanto é com o grande? - ele perguntou quando ela se aproximou.

- Mais rápida.

Ele fez Temari ficar parada no meio da sala, de frente para ele, e se afastou até a porta. Depois ordenou à classe que se levantasse e ficasse atrás da kunoichi. Houve muito barulho e conversa enquanto os alunos obedeciam.

Temari esperou, imaginando o que o Nara tinha em mente, enquanto estava de pé entre ele e seus alunos. Ele abriu a bolsa em seus quadris e tirou um punhado de shurikens que dividiu entre suas duas mãos.

- Pronta? - ele perguntou enquanto mirava e ela entendeu o esquema. Ele jogaria as shurikens na classe e seria trabalho dela bloqueá-las. Era arriscado, mas ela não estava preocupada com o fato de que pudesse errar. Só esperava que nenhuma criança se assustasse e corresse, por que poderia ser atingido por uma shuriken que ricocheteasse. Ela teria que redirecionar todas para frente, em direção ao Nara.

Ela não podia ver os alunos, mas imaginou que eles estivesse observando com atenção arrebatada, porque não estavam emitindo um pio. De repente, a mão do Nara se moveu velozmente e Temari puxou os dois leques, estendendo-os e rebatendo as shurikens com um movimento. Muitas crianças fizeram barulhos ou até mesmo gritaram quando as shurikens vieram em sua direção, e Temari se virou para ver vários deles se jogarem no chão, com as mãos sobre as cabeças. Mas nada havia passado; todas as shurikens caíram inofensivamente no chão entre o Nara e ela.

- Então. - Shikamaru perguntou – Alguém viu Temari-san se mover?

As crianças a encararam com olhos arregalados e surpresos, balançando a cabeça.

- Ela não se moveu! - Gorou gritou – Você não jogou as shurikens com força!

Temari sabia como lidar com aquilo. Ela se curvou e pegou uma shuriken, entregando-a ao garoto. Depois ela caminhou até onde Shikamaru estava e deixou Gorou tentar. Ela parou a shuriken tão facilmente quanto as outras, deixando as crianças de boca aberta de novo.

- Alguém viu ela dessa vez?

Não, ninguém tinha visto.

- Hanabi?

Temari viu que a garota Hyuuga ativou o byakugan no segundo arremesso, mas ela támbém balançou a cabeça.

- Não pude vê-la. - disse. Parecia muito decepcionada consigo mesma.

- Não é fraqueza de sua parte. - disse o Nara. - Temari-san é muito rápida para o byakugan ver. Mas existe um olho que pode vê-la. Alguém sabe qual é?

Todos sabiam e vinte e quatro gritos de "sharingan" foram ouvidos enquanto as crianças voltavam para seus lugares.

- Então, - Shikamaru disse enquanto voltava a se sentar confortavelmente em sua cadeira – Os leques da Temari-san estava invisíveis?

Muitas crianças disseram sim; outras pareciam em dúvida. O espertinho teimosamente insistiu que os leques eram visíveis, mas não para aquela classe.

- Mas isso é o que eu estava dizendo. - Hanabi comentou. - Se a classe não pode ver os leques, não importa quem possa. Não temos sharingans aqui.

As crianças debateram por quase uma hora, com pouca ajuda do Nara. Ele interrompia esporadicamente, para chamar a atenção para alguma criança que poderia ser ignorada, mas esse foi o máximo de sua participação. E quando a aula acabou e as crianças saíram para o almoço, conversando animadamente e fervendo de novas idéias, Temari ficou com a impressão de que havia acabado de testemunhar a aula mais produtiva da história da Academia Ninja.

O resto das aulas do Nara prosseguiram daquela forma, com uma pequena diferença em matemática, que ele efetivamente teve que ensinar. Essa matéria era definitivamente o ponto fraco dele, que obviamente detestava tanto quanto as crianças. Não que ele não fosse bom nela, apenas parecia ter dificuldade em simplificar o que tinha em seu cérebro para que seus alunos entendessem.

Ele também inclui Temari sempre que houvesse uma oportunidade, e pela última hora a havia transformado na heroína da sala ou coisa do tipo. Todas as crianças a observavam como se ela fosse irreal. Ela imaginou que o ponto era ter certeza que eles fossem para casa com boas histórias sobre Temari para contar para seus pais, e não se importava. Se mostrar para um monte de crianças era até divertido.

No final do dia a maioria das crianças foi embora sozinha. Mas algumas esperaram por seus pais ou guardiões, e Temari fez um esforço para ficar disponível para conversar com os adultos. Algumas mães fizeram perguntas sobre sua cidadania com educada curiosidade, sabendo que Suna era agora uma Vila inimiga, e Temari não fez questão de esconder que aquilo estava sendo um problema. Mas tentou diminuir o sarcasmo.

Hanabi era uma das crianças que tinha um parente para buscá-la. Temari reconheceu aquele sujeito: Hyuuga Neji.

Nara cumprimentou-o com a cabeça quando ele entrou.

- Neji.

- Shikamaru. Bom te ver de volta. - Seus olhos pálidos pousaram em Temari e ele inclinou a cabeça. - Temari. Parabéns.

Consciente de que ele deveria ser uma daquelas pessoas em quem ela deveria causar uma boa impressão, ela sorriu.

- Obrigada.

Neji olhou na direção de Hanabi. A garota conversava com uma amiga enquanto arrumava suas coisas. Parecendo satisfeito ao ver que ela estaria ocupada por um momento, ele se aproximou de Shikamaru e Temari.

- Ouvi algo estranho de Hinata-sama. Queria verificar com vocês.

- Sobre a validade do nosso casamento? - Nara perguntou.

Neji confirmou.

- Ela disse que Danzo-sama não o está aceitando, apesar de ser legal. Mas, tenho que admitir, acho isso difícil de acreditar.

- Por que? - quis saber Temari.

Os olhos do Hyuuga se estreitaram um pouco, mas o resto de sua expressão continuava impassível.

- Parece uma medida extrema a se tomar. Sei que ele não aprova nenhum laço com Suna, mas uma decisão dessas somente provocaria os cidadãos de Konoha.

Temari não disse o que estava pensando: que Neji não fazia idéia do que estava acontecendo nos bastidores com aqueles que se opunham à Danzo, mas que Danzo provavelmente tinha suas suspeitas.

- Talvez ele esteja desesperado. - foi o que ela disse.

Neji parecia pouco convencido.

- Desesperado não implica ser estúpido.

Ele era um cara impassível, quase impossível de ler. Mas ela teve a distinta impressão de que ele tentava decidir se acreditava neles ou não.

Nara aparentemente teve a mesma impressão, pois se endireitou e olhou Neji nos olhos.

- Está sugerindo que estamos inventando tudo isso?

- Não sei no que pensar. Conversando com vocês agora, posso ver que estão sendo sinceros comigo. Existe a possibilidade de que vocês tenham cometido um erro?

- Definitivamente não. - afirmou Temari.

- Hm. Bem, sinto muito por vocês estarem enfrentando problemas. Espero que a questão seja resolvida para satisfação de vocês. - Ele não soou particularmente sentido, só educado e bom com linguagem solidária. Mas Temari resolveu aceitar as palavras como sinceras, para que pudesse responder com uma expressão sinceramente agradecida. Neji colocou a mochila de Hanabi nos ombros e guiou-a para fora da sala de aula.

Quando a sala ficou vazia, Nara fechou tudo e segurou a porta para ela, trancando-a depois que eles saíram.

- Vamos ter muitas reações como essa? - ela perguntou. - Pessoas que acham que estamos mentindo? Quero dizer, porque faríamos isso?

- Não acho que você deva se preocupar muito com Neji. Duvido que ele seja um seguidor leal de Danzou, por ser uma pessoa que acredita que as regras devem ser seguidas e a ordem mantida. Ele não seria alguém que alteraria o status quo.

- Se for assim então ele deve estar queimando de raiva justa por Danzo ter manipulado as leis à seu favor.

- Vamos esperar que sim.

Voltaram para casa pelo mesmo caminho em que vieram, parando na Ogawa-san para comprar churrasco, já que o jantar ainda estava à algumas horas de distância.

- Então, Shikamaru-sensei. - Temari disse enquanto segurava seu pacote com cuidado para que as pequenas embalagens de molho não se derramassem. - Você é um mentiroso.

- Por que?

- Você diz que seus alunos não te ouvem, mas é o melhor professor que eu já vi.

Uma risada curta quase zombeteira escapou dele.

- Eles não me ouvem. Por isso dou aula daquele jeito. Se me envolver demais, eles não me dão crédito. Você viu a aula de matemática.

- Bem, que seja. Funciona.

- Eles são crianças boas. - ele disse olhando para o céu. - Mas ficam difíceis se tento direcioná-los numa linha específica de pensamento. Exceto Hanabi. Ela faz o que lhe dizem. É definitivamente uma Hyuuga.

Temari teve que provocá-lo um pouquinho.

- Fiquei imaginando se Hanabi era uma das garotas que choraram quando soube que você se casou.

- Como você, certo?

- Ha ha.

X X X

- Bem, olá!

- Coloque seus olhos de volta na sua cabeça, Shikaku.

- É que faz tempo desde que te vi usando essas roupas. E com essa katana.

- Bem, você queria que eu seguisse meu filho com roupas de dona de casa? O avental voado atrás de mim como uma capa de super heroína?

- Voltar à ativa está te deixando um pouco intratável.

- Sempre deixou, não?

- Não me lembro. Só me lembro da parte amorosa.

- Acho que a parte amorosa é algo com que você sonhou enquanto treinávamos.

- E que tal a parte que você teve que subir numa árvore para resgatar sua blusa? Estou imaginando isso também?

- Você tem alguma evidência desse fato alegado?

- Você o seguiu o dia todo, Yoshino.

- Oh. Certo.

X X X

Shikamaru encontrou seu pai sentado ao lado de Ino no portão lateral da casa, tomando chá e fazendo anotações num pedaço de papel. Ambos o olharam quando ele se aproximou, e pelas expressões deles pode dizer que já tinham ouvido sobre a dificuldade que ele estava tendo em conseguir a cidadania de Temari.

- As palavras se espalham rápido. - Shikamaru disse, sentando-se com as pernas cruzadas ao lado deles.

- Bem, não é como se não esperássemos resistência da parte de Danzo. - Shikaku disse. - As coisas podiam ser piores.

- O que quer que eu faça?

- Nada, por enquanto. - o pai dele respondeu, tomando um longo gole de chá. - Vou cuidar disso.

Shikamaru suspirou. Estava tão casado de não saber nada. O casamento foi um segredo até o último momento, e agora todos os planos... essas coisas rapidamente já não eram mais novidades.

Seus olhos passaram casualmente por Ino e voltaram para ela quando perceberam que ela o estudava com intensidade desconcertante. Como se ela quisesse enxergar através da cabeça dele, dentro da floresta à frente e além.

- Você conseguiu, não conseguiu? - ela disse.

- O que?

- Descobrir.

- Devo saber sobre o que você está falando?

O olhar dela nem tremeu.

- Você ama a Temari.

- Oh. - ele já havia passado do ponto de tentar entender como Ino sabia algumas das coisas que ela sabia. Não pensava que era algo relacionado à leitura de mentes , era só... Ino. Ela sabia ler pessoas.

Mas dizer aquilo na frente do pai dele não era o que ele teria preferido.

- Você está normal agora. - ela voltou a observar, descruzando as pernas e esticando-as à sua frente. - Você só fica estranho quando está confuso.

Shikamaru nem soube que estava 'estanho'.

- Mas você não contou para ela, ainda. Quando vai contar para ela?

Ele massageou as têmporas com as mãos. Ela simplesmente não ia deixá-lo em paz. Ela fez com que ele admitisse para si próprio, já não era bom o suficiente?

- Não quero falar sobre isso.

- Quer que eu conte a ela por você?

Ele permitiu que seu olhar falasse por ele.

Ela se levantou e balançou o cabelo; depois apontou um dedo para ele.

- Você – ela disse – só está adiando o inevitável.

A loira não deu a ele tempo para responder, não que ele tivesse algo para dizer. Ela entrou na casa, fechando a porta de correr atrás dela.

Agora eram só ele e seu pai, e ele nem conseguia olhar o velho nos olhos. Nenhum deles disse nada, o que era parte do normal, mas era um silêncio estranho, que teria que ser eventualmente rompido.

Ele era um idiota. Deveria ter mentido, dizer que ela estava errada. Ino não contaria à Temari, mas contaria à todas as outras pessoas, incluindo a mãe dele, e aí seria o fim. Dentre todas as situações desagradáveis em que um cara poderia se meter, ter medo de que sua mulher descubra que você gosta dela tinha que ser a mais estúpida.

Arriscou um olhar para seu pai, que estava escrevendo mais algumas coisas no papel. O Nara mais velho não fez contato visual, mas limpou a garganta e colocou a caneta e o papel de lado.

- Então.

Shikamaru continuou sem dizer nada, mas assentiu com a cabeça.

- Shougi? - seu pai perguntou.

Aliviado, Shikamaru respondeu.

- Claro.


* O título em inglês é "Unwelcomed", que numa tradução literal quer dizer "mal vindo", mas como isso ficaria estranho mudei im pouco. Mas entendam o indesejado nesse sentido.

N/T: Queria agradecer imensamente pelas reviews recebidas no capítulo passado. Espero que vocês continuem a ler e que comentem comigo. Eu provavelmente sou uma das maiores "entendidas" da fic, por ler e traduzir cada palavra várias vezes, e adoro conversar sobre ela. E as reviews me incentivam a continuar na tradução e revisão dos capítulos. Espero que as quase 10000 palavras deste compensem quem estava esperando.

No mais, queria agradecer à Violak, Peeh e Leh, que eu não posso responder pessoalmente. Obrigada de coração,as reviews de vcs são muito importantes. E Leh, eu ando encontrando muitas fics, geralmente ones que eu escrevi e nunca postei, então é provável que poste coisas novas ^^