Capítulo Seis
Desconvidado
- Por que ele é tão estúpido?
- Quem? Shikamaru?
- Claro. É só porque ele é um garoto? Todos os garotos são estúpidos assim?
- Não sei.
- Se estivesse apaixonado por uma garota, você guardaria isso só para você?
- Eu...
- Quero dizer, ele a ama, Chouji, mas não vai contar para ela. E ele nem age como se estivesse apaixonado. Mas acho que ele e Temari poderiam ser felizes se ele não fosse tão... tão...
- Estúpido?
- Sim. Exatamente.
- Bem, eu não sei. Não acho que ele seja realmente estúpido, é só... você sabe como ele é.Tudo tem que ter uma categoria e um rótulo. Ele não gosta de mistérios porque tem que entender tudo. E Temari é provavelmente muito misteriosa para ele. Então é mais fácil dar a ela o rótulo de 'esposa' e a colocar numa categoria. Acho que agora ela está na categoria de "Pessoas pelas quais sou responsável". E tem muita gente lá, inclusive.
- Ok.
- E amor... é ainda mais misterioso. Tenho certeza que ele pensa que sabe o que é o amor: se importar com alguém, não querer que essa pessoa morra... esse tipo de coisa. Mas realmente se apaixonar... admitir para si mesmo que ele precisa da Temari e tentar lidar com todos os sentimentos envolvidos... é, consigo vê-lo tentando ignorar essa parte. Ele não pode controlar e não pode entender. Ninguém pode. Mas ninguém odiaria esse fato tanto quanto Shikamaru.
- Chouji?
- Sim?
- É a coisa mais inteligente que eu já ouvi você dizer.
- Mesmo?
- Definitivamente.
- Oh. Quer uma batatinha?
- Er... não, obrigada.
X X X
O jogo de shougi terminou muito rápido, no sentido de que Shikamaru foi destruído antes mesmo de ter alguma estratégia decente em mente, mas eles terminaram na hora certa em relação ao jantar. A refeição foi ainda mais agitada que o usual, por algumas razões: a primeira era que Kakashi estava lá, o que adicionava outra voz e um ar de excitado interesse à mesa. A segunda foi que a refeição foi continuamente interrompida por amigos, vizinhos, e francamente, gente que Shikamaru nem conhecia indo até lá para saber o que havia acontecido no escritório do Hokage. Estranhamente, Temari não falou muito durante essas visitas, mas do outro lado da mesa ele pôde ver que ela colocou algo parecido com um sorriso diplomático no rosto, e toda vez que alguma pergunta era feita diretamente a ela, a loira respondia de um jeito que Shikamaru tinha que preencher o resto dos detalhes. Mas ele via a frustração nos olhos verdes e tinha a nítida impressão que ela havia escolhido ser amável ao invés de ser brutalmente honesta em sua opinião sobre Danzou, e expressar sua raiva. Era a escolha certa, mas ele não pode deixar de se sentir um pouco nervoso sobre aquilo. A pressão dentro dela estava obviamente aumentando, e ele sabia quem seria a vítima infeliz quando ela finalmente explodisse.
Quando a hora do jantar já havia passado, poucos progressos haviam sido feitos no sentido de comer. A comida de Shikamaru já havia ficado fria há muito tempo, e ele a empurrava pelo prato com seus hashis antes de finalmente desistir e se recostar na cadeira com um suspiro. Olhou de soslaio para Kakashi, um pouco desapontado. Primeiro, ele teve certza de que o copy ninja seria forçado a tirar a máscara em algum momento para comer, colocando um fim nas especulações que ele, Ino e Chouji travaram várias vezes desde que foram apresentados ao professor. Mas a coincidência parecia ter removido essa oportunidade, porque Kakashi teve tão poucas chances de comer quanto o resto deles. Sua comida permanecia intocada no prato.
Ninguém à mesa fez menção a mascara de Kakashi, ou questionou seus hábitos alimentares; era como uma regra não dita em Konoha, quase um tabu, discutir aquele tópico com ele. Claro que não impedia que fofocas se espalhassem às costas dele, e aparentemente o tabu não se estendia a cidadãos de Suna. Porque assim que todos desistiram de seus jantares frios e o último vizinho voltou para sua própria casa, Temari, com seu estilo Temari, ultrapassou todos os limites pessoais. Como na noite anterior, foi direto na jugular; mas dessa vez na de Kakashi ao invés da de Shikaku.
- Você vai ter que tirar isso, sabe.
Houve silêncio total na mesa enquanto todos olhavam de Temari para Kakashi tentando não parecer que estavam olhando. Ninguém tinha dúvidas sobre com quem ela falava, ou sobre o que ela falava, e apesar de considerarem dizer aquilo por si próprios não podiam deixar de esperar calados por uma resposta. Kakashi, entretanto, não se abalou.
- Não posso. – ele respondeu.
- Por que não?
Ele levantou a mão e segurou a parte metálica de seu hitayate entre dois dedos, com olhos brilhando.
- Faz parte do uniforme.
Houve algumas risadas leves e desconfortáveis com a esquivada dele, mas Shikamaru pode sentir a lenta diminuição da tensão. Os olhos de Temari de estreitaram, sua boca se abriu, mas ela surpreendeu Shikamaru fechando-a novamente e permitindo que a relutância de Kakashi em falar sobre o assunto ficasse de lado. Ainda, ela encarou Shikamaru e sustentou seu olhar. Eles iriam conversar sobre aquilo mais tarde. Ele concordou com a cabeça.
O jantar eventualmente teve um fim, e depois dele Temari arrastou Shikamaru para acompanhá-la enquanto ela treinava. O pai dele insistiu que levassem Chouza e Inoichi para que ficassem de olho neles; se negava a deixá-los fora de vista por qualquer tempo. Mas Temari os abandonou no portão dos fundos e continuou puxando Shikamaru até que eles estavam perto das ameixeiras da mãe dele, à vista, mas longe o suficiente para não serem ouvidos. Ela estava com seus leques, treinar era claramente seu principal objetivo, mas antes ela atacou Shikamaru com suas perguntar sobre o Hatake.
- O que há com aquela máscara?
- Ele sempre a usa. Não acho que esteja aberto a negociações.
- Bem, precisa estar. Os cidadãos de Konoha não vão seguir um Hokage que se esconde. Como podem confiar nele?
Ele começou a argumentar com ela, mas depois de pensar por um momento percebeu que ela estava certa. Era fácil da posição dele como alguém que havia lutado com Kakashi, ignorar a máscara em favor do soldado por baixo dela. Mas os cidadãos de Konoha, especialmente os civis desinformados, não teriam aquela perspectiva. E não era possível que Kakashi e seu pai não houvessem pensado naquilo.
- Ele vai tirar a máscara então. Vai ser estranho, vê-lo sem ela.
- É. – ela concordou. – Senão teriam um Hokage que não conhecem.
- Ainda é melhor que Danzou.
- Acho que sim. - ela disse, e então mudou de direção. – Não aguento mais. Estou muito... argh. Preciso destruir alguma coisa.
- Pode me fazer um favor e destruir as árvores da minha mãe? Estou cansado de aguá-las.
Ela sorriu.
- Boa tentativa. Sua mãe na verdade gosta de mim. Não vou ser a pessoa com o sangue delas nas mãos.
Ele não pode evitar sorrir ao imaginar a imagem de Temari corada e triunfante sobre os cadáveres de uma dúzia de ameixeiras assassinadas. Algo como a luta que tiveram com aquela mulher do Som, mas em escala miniatura.
- Quer dizer seiva.
Ela riu e começou a descer a colina.
- Você é o idiota.¹
Ele pôde ouvi-la rindo enquanto se afastava, e era um som bem vindo. Pensando bem, ela não havia rido desde que a viu em Suna, não uma risada real e honesta. Todas foram amargas e sarcásticas, ou fingidas para o benefício de alguém. Mas aquela tinha sentimento, e o atingiu de maneira estranha, passando por todo o seu corpo, sendo mais sentida que ouvida. Talvez porque foi tão inesperada. Talvez porque, há apenas alguns dias, ele duvidava que a ouvisse rir genuinamente de novo.
Logo ela estava ao pé da colina, estendendo os braços e ombros, fazendo os movimentos para tirar os leques das costas sem efetivamente tirá-los do coldre, e Shikamaru teve que voltar para perto da casa, fora do alcance dos ataques dela. Ele tinha que treinar também, por mais repugnante que fosse. Não havia feito nenhum treino sério e focado em duas semanas, e podia sentir que estava mais fraco, mais fisicamente que outra coisa. Por mais que odiasse, precisava se exercitar. Era a parte de treinar que gostava menos, e não só porque tinha que se mexer para fazê-lo. Ao contrário de fortificação mental, ou melhorar sua concentração, os benefícios adquiridos com treino físico eram perdidos se o exercício não fosse mantido diariamente. E ele não era o tipo de cara que se desafiaria a levantar mais e mais peso, ou fazer mais flexões, ou correr mais quilômetros. Era apenas algo que ele mantinha por manter, e aquilo era chato. Mas não tinha escolha. Usando ou não taijutsu numa batalha, a quantidade de chakra que ele conseguia manipular era igualmente proporcional à sua energia física. Sua resistência. E suas reservas de chakra já estavam baixas o suficiente, comparadas com seus colegas de time. Em outras palavras, sem exercício, sem controle de sombras.
Não era justo.
Mas era o por que de, enquanto Temari fazia o melhor para destruir qualquer árvore no quintal dos fundos com exceção das ameixeiras, Shikamaru estava com o rosto próximo ao chão, sandálias jogadas para o lado, fazendo flexões até ter a impressão de que seus braços iam se partir. Ele havia sido preguiçoso por muito tempo, e seus braços compensavam em demasia o peso de seu peito, como acontecia quando ele era criança. Não apenas isso, mas não chegou nem perto de um número com três dígitos antes de cair e rolar para ficar de costas, arfando num pequeno ataque de coração.
Os assovios de Inoichi e risadas de Chouza puderam ser ouvidos do portão dos fundos. Eles realmente tinham que estar lá?
- É só isso? – Inoichi gritou, sua voz provavelmente sendo ouvida pela Vila toda. – O que você comeu no jantar, tijolos?
Não havia ar o suficiente nos pulmões de Shikamaru para responder que ele havia comido a mesma coisa que Inoichi, ou seja, nada.
- Tem uma garota por perto. – O loiro disse para Chouza. – É de se pensar que seria uma motivação melhor.
Chouza rugiu em concordância.
- Ei, Shikamaru! – Inoichi gritou. – Aposto 20 pratas que sua mulher consegue fazer mais flexões que você!
- Seria uma aposta estúpida. – Temari respondeu da base da colina.
- É mesmo?
- É, porque não sou um macaco performático.
Inoichi e Chouza riram, como uma dupla de crianças superdesenvolvidas.
Shikamaru ficou deitado por um tempo, descansando, ofegando, ouvindo Temari gritar ordens para seus leques, esperando seu coração desacelerar. A voz dela falhou e ele pôde ouvi-la se movendo com dificuldade entre as pilhas de folhas mortas e voltando para o topo da colina. Provavelmente para angular seus ataques em direção ao pasto, só pra manter as árvores da mãe dele seguras. Boa ideia.
Quando se sentiu melhor virou-se, se apoiou nas mãos e pontas dos pés e começou novamente. Era fácil no início, mas depois dos primeiros quinze as coisas ficaram bem mais difíceis. Calor se espalhava por seus ombros e peito, e seus músculos começavam a parecer gelatina: sem resistência para manter seu próprio corpo. Pior ainda, Inoichi e Chouza estavam contando, o que era irritante e atrapalhava.
- Dezoito! Dezenove! Vinte!
Um par de pés com sandálias apareceu em sua vista. Temari. Talvez ela não estivesse mudando os ângulos de ataque.
- Eles são sempre assim?
Bem, geralmente não eram tão chatos assim, mas tinham seus momentos. Momentos em que esqueciam que eram da geração dos pais e o tratavam com um kouhai ².Mas ele estava concentrado demais para explicar tudo aquilo para ela, então simplesmente concordou com a cabeça.
- Vinte e seis! Vinte e sete! Vinte e oito!
- Que sorte para você. – ela disse.
Balanço de cabeça.
- Trinta! Trinta e um!
Ele continuou, os pés de Temari em sua frente o tempo todo. Tentou ignorar, mas não podia evitar se sentir consciente de si mesmo enquanto ela estava ali. Como se as provocações de Chouza e Inoichi não fossem ruim o bastante.
- Vamos lá! Você parece a minha avó! – esse foi Inoichi.
- Coloque um prato de brownies debaixo dele. – esse era Chouza.
- Isso só funcionaria com você. – Inoichi respondeu. – Quarenta e dois, quarenta e três!
- Do que Shikamaru gosta, então?
- Boa pergunta. Nuvens? Shougi? Dormir até tarde?
- Longas caminhadas na praia? Quarenta e nove, cinqüenta!
- Filhotinhos.
- O cheiro da chuva.
- Carinho.
- Ikebana!
- Muito engraçado. Você precisa de piadas novas, Chou.
Chouza riu.
- Cinquenta e oito! Cinquenta e nove!
- Você acha que ele vai desistir?
- Acho que sim. Olhe os ombros dele tremendo.
Os xingamentos de Shikamaru vinham até sua boca, mas não foram ditos. Intelectualmente, sabia que era assim que homens se encorajavam. Na realidade, fazia com que ele quisesse quebrar alguma coisa. Tentou focar sua irritação e adrenalina em tentar manter seus ombros parados.
- Setenta! Tem mais trinta aí, garoto?
Não, não tenho mais nada em mim. Não sei como meu corpo ainda está se movendo.
Mas ele continuou se movendo, e logo chegou onde havia parado na série anterior, no oitenta e dois. Não havia muitas vezes em que havia conseguido ir mais longe na segunda série que na primeira, mas as gracinhas de Inoichi e Chouza o deixaram com raiva o suficiente para continuar. Mas por que Temari ainda estava ali? Não tinha que demolir umas árvores?
- Oitenta e oito! Oitenta e nove! Sabe de uma coisa, acho que ele vai conseguir!
Shikamaru achava que não. Seus braços estavam tremendo e ele tinha que fechar os olhos para evitar seu próprio suor. Seus dentes estavam cerrados e sua mandíbula doendo por causa disso. Os músculos de seus braços estavam gritando. Seu peito estava queimando e seu coração batendo dolorosamente contra suas costelas.
- Noventa! Não, você não pode parar. O que a esposa vai pensar?
Ele não se importava com o que Temari pensava, e estava muito tentado a desistir agora só para provar. Não estava fazendo para impressioná-la, ela provavelmente podia fazer mais flexões que ele. Afinal, havia manipulado aquele leque o dia todo.
- Noventa e dois! Noventa e três!
Mas ele precisava continuar. Precisava voltar à forma para não ser fraco e inútil quando fosse hora de lutar, e essa hora certamente viria. Provavelmente logo. Não havia tempo a perder.
- Noventa e seis!
Precisava de cada fragmento de vigor que tivesse.
- Noventa e sete!
Ele nunca se perdoaria se sua sombra falhasse três segundos mais cedo, só porque ele desistiu de três flexões muito rápido.
- Noventa e oito! Chamem um médico, acho que ele vai precisar de um!
Uma torrente de xingamentos passou por sua cabeça, os pensamentos mais vis que ficaram se repetindo num tipo de oração para qualquer deus do mal que ajudasse as pessoas a encontrarem energia para quebrarem a si próprias.
- Noventa e nove!
Mais um- mais um- mais um - só mais um.
- Cem!
Ele caiu como uma rocha, de cara no chão. Não conseguia respirar, e quando o fez o ar veio cheio de poeira do chão que o fez tossir e engasgar, com a cabeça girando. A morte podia vir agora, seria o momento perfeito.
Pode ouvir vagamente Inoichi e Chouza rindo no portão, e o Yamanaka gritou.
- Dois minutos para a próxima série!
- Cale a boca. – Shikamaru resmungou junto ao chão. Mas eles ouviram e aquilo só os fez rir mais. Seria perturbado se não fizesse, perturbado se fizesse. Não havia justiça.
- Shikamaru.
Ele se virou e deitou de costas. A cabeça de Temari era apenas uma silhueta, o sol muito brilhante atrás dela para permitir que se distinguissem suas feições, mas ele podia dizer que ela estava o encarando. E... Shikamaru? Quando aquilo havia acontecido?
Ela jogou algo branco e fino sobre seu peito. Um envelope.
- Sua mãe trouxe para você.
Oh. Ela só estava esperando que ele terminasse para entregar a carta. Claro.
Temari dobrou as pernas e se sentou na grama ao lado dele, o observando.
- Quer que eu abra? – ela perguntou.
Ele balançou a cabeça levemente. Ele conseguiria... assim que lembrasse como mexer os dedos.
- Tem certeza? É de Danzo.
Os olhos dele se arregalaram. O peso do envelope de repente pareceu como o de um dicionário inteiro sobre seu peito, e ele estendeu uma mão para segurá-lo.
- Por que não disse antes? – perguntou. A voz dele ainda parecia esgotada.
Ela deu de ombros.
- Você estava ocupado.
Ainda deitado, ele abriu a aba e puxou a carta, desdobrando-a. Leu-a e depois passou para Temari.
Shikamaru,
Existem algumas inexatidões sobre seu casamento que precisam ser esclarecidas.
Reporte ao meu escritório às 9 da manhã.
Rokudaime Hokage.
- Rokudaime Hokage. – ela disse sem se impressionar. – Provavelmente é uma armadilha.
- Pode ser que sim, pode ser que não. – Shikamaru respondeu. – Descobriremos amanhã.
Na verdade, as probabilidades de ser uma armadilha eram muito altas. O escritório de Danzo era particular, era uma ordem que Shikamaru não poderia negar legitimamente, e era uma maneira bem conveniente para Danzo se livrar de seu problema de uma vez por todas. Seria uma jogada óbvia e desesperada, mas para um homem que não tinha receios de negar um casamento que tinha grande apoio público, um assassinato em seu escritório não seria muito com o que se preocupar. Politicamente, de qualquer maneira.
- Como acha que ele vai fazer? – Temari perguntou. – Vai nos matar ele mesmo, no escritório? Ou fazer um de seus lacaios da Raiz cuidar de nós na recepção?
- Nós não. – ele disse. – Eu.
- O que?
Ele estendeu o envelope para ela, apontando onde se lia Nara Shikamaru na parte de trás.
- Seu nome não está aqui, lembra?Você não foi convidada.
Ela ficou vermelha.
- Isso não quer dizer nada, a não ser que Danzou quer me excluir. Não vai funcionar.
- Sim, vai. Você não vai.
Ela o encarou com as narinas dilatadas.
- Se for uma armadilha, - Shikamaru disse. – não há motivo para que nós dois sejamos mortos. O casamento estaria morto de qualquer maneira.
- Não seja estúpido. – ela retorquiu. - Se nós dois estivermos lá, há menos probabilidades de que sejamos vencidos.
- Não estou sendo estúpido, estou sendo razoável. Se Danzo nos quer mortos em seu escritório, estamos mortos. Um ou os dois não importa.
- Então por que ele não nos mata e acaba logo com isso!
- Ele não pode, à vista. Existem muitas pessoas nos vigiando. Mas toda a facção anti-Danzo não pode entrar conosco naquele prédio. Então, não.
Temari se levantou num salto e começou a andar. Ele pode ouvir pedaços do que ela estava resmungando, e nenhum assegurou que ela cederaia e concordaria com ele. Quando ela alcançou as ameixeiras voltou, parecia mais irritada que antes. Cruzou os braços e o encarou.
- Primeiro, para não soar muito como uma pirralha adolescente, você não é meu chefe. Meu rank é superior ao seu. Segundo, me recuso terminantemente a esperar enquanto meu marido marcha para o escritório do Danzo e se mata. Terceiro, faz mais sentido que eu vá do que você, porque se Danzo me matar, Suna o enforcará. Ele sabe disso, e é por isso que não me mencionou. Eu vou.
- Não faz sentido você ir, porque não é você quem o Danzo quer ver.
- Nós ficaremos unidos, Danzo reconhecendo ou não. Eu vou.
- Temari... – Ele sabia daquilo tudo. Sabia do que ela estava falando e reconhecia a lógica por trás daquilo. Até concordava com ela. Mas nada mudaria o fato de que ele não conseguia tolerar a idéia de Temari ficar frente e frente com Danzo. Ou em qualquer lugar perto dele. Ele simplesmente... não conseguia.
Mas ela estava certa sobre o fato de que ele não tinha autoridade sobre ela, a não ser que se levasse em consideração a autoridade de um marido sobre sua mulher, o que aparentemente ela não considerava.
- Você jurou servir a mim. – disse.
- E você jurou servir a mim. Mais alguma coisa?
Estúpidos votos sem discriminação.
- Não vai deixar isso para lá, vai?
- Não.
Ele suspirou e se sentou, calçando suas sandálias. Temari o deixava sem escolha. Existia uma saída, mas teria que conversar com seu pai o mais rápido possível.
Quando estava de pé, olhou Temari nos olhos e deixou sua decisão clara, uma última vez.
- Você não vai.
Não era uma ordem. Era uma promessa. E apesar da fúria brilhar no verde azulado dos olhos dela, ela não respondeu nada.
x x x
Temari manteve seus pensamentos para si mesma durante o resto da tarde. Terminou seu treino, tomou um banho e depois foi para a cama cedo. Queria estar bem descansada para o encontro com Danzo por que, não importa o que Shikamaru dissesse, ela iria. Ele não tinha autoridade para impedi-la, e ela não permitiria que ele se matasse por causa de seu machismo sem propósitos. Absolutamente não.
Mas quando ela entrou no quarto ficou irada ao ver que Shikamaru já estava lá, sentado na cama fazendo anotações num caderno. Os olhos dele encontraram os dela por um momento, mas ele voltou para sua escrita sem dizer nada. Aquilo estava perfeitamente bem para Temari, ela também não tinha nada novo para dizer a ele, de qualquer forma. Ele sabia como ela se sentia.
E claro. Claro que ele tentaria mandar nela, quando as coisas começavam a ficar... toleráveis. Quase normais. Quando a interação deles estava começando a lembrá-la dos velhos tempos, quando não havia pressão para que eles fossem nada mais que camaradas. Foram quase amigos naquela época. Iguais, certamente, e ela havia se sentido confortável o suficiente para provocá-lo e atormentá-lo como fazia com Kankurou ou os rapazes do esquadrão dela ou até mesmo, em raras ocasiões, Gaara. Incomodá-lo era particularmente divertido, principalmente porque ele arrogantemente fingia que não se importava. Derrubar homens com uma vareta era uma atividade tão interessante.
Mas agora ela se sentia com mais vontade de nocauteá-lo. E era provavelmente um sentimento que a levava a se comportar de maneira mais provocativa que o de costume. De costas para Shikamaru, ela puxou as cobertas da cama, colocou seus elásticos de cabelo no criado onde eles estariam esperando por ela pela manhã, depois se inclinou para o interruptor na parede e o desligou.
- Ei! – ele disse.
Ela o ignorou e se ajeitou entre os lençóis, se acomodando. A voz irritada dele soou na escuridão.
- Eu preciso da luz para enxergar.
- Bem eu preciso dela apagada, para poder dormir. É isso o que as pessoas fazem quando é noite.
- Vamos lá, Temari. Acenda a luz.
- Não. Estou cansada. Sua teimosia me cansou.
Houve um suspiro alto e teatral, som de lençóis se movendo, e alguns passos pesados no assoalho. Abruptamente ela estava banhada em luz novamente, e piscou para vê-lo a encarando, com a mão ainda sobre o interruptor.
- Agora deixe aceso.
Ela ficou quieta, com os lençóis puxados até o nariz, até que ele voltou para a cama e voltou a escrever. Assim que viu que ele estava absorto no que fazia, engatinhou até o final da cama e apagou a luz novamente.
- Temari! Está agindo como se tivesse três anos!
- Posso ser mais madura, se você quiser. Posso te colocar para fora e trancar a porta.
Suspiros, passos pesados, luz brilhante.
- É importante. - ele disse – Tenho que checar algumas coisas e essa noite é a única em que posso. Você pode dormir até mais tarde amanha, se está tão cansada. Ainda não são oito horas.
Ela voltou para a beirada da cama, tentando alcançar a luz, mas ele estava cobrindo o interruptor todo com a mão.
- Não posso dormir até mais tarde amanhã, porque vou ao encontro de Danzo com você e nós dois precisamos estar descansados caso precisemos lutar. – Ela agarrou o pulso dele e o puxou, mas ele nem se moveu. – Agora tire a mão.
- Não. Puxe o cobertor sobre a sua cabeça, como sempre faz. Não vai nem perceber a luz.
- Mas vou saber que está acesa.
- Então vá dormir com a Ino.
- Não! Vá você escrever em outro lugar! É rude insistir em usar o lugar de dormir para trabalhar.
- É o meu quarto!
- É o nosso quarto!
- Quer saber? Não tenho tempo para isso agora. – ele andou até a cama e pegou o caderno, caneta, e alguns livros que estavam no criado, colocando tudo debaixo do braço. Então escancarou a porta. – Por mais divertido que seja ficar aqui e discutir com você a noite toda, tenho coisas para fazer. Durma bem!
A resposta dela de "Vou mesmo!" foi pontuada pela porta sendo batida. Vitoriosa, desligou o interruptor com uma das mãos e se afundou nos lençóis, resmungando sozinha.
Escute-o bater a porta como um bebê. Como se estivesse tentando provar alguma coisa. Tudo o que ele fez foi ir à outro lugar para trabalhar, exatamente como eu queria. Idiota.
Ela voltou para de baixo das cobertas e se aconchegou, de fato puxando-as sobre sua cabeça. Nunca havia pensado naquilo até ele mencionar, mas sempre dormia daquela maneira. Totalmente coberta. Era provavelmente por causa do ar seco de Suna, e agora era só um hábito. Mas incomodava-a que ele estava aprendendo aquelas pequenas coisas sobre ela, coisas que poucas pessoas sabiam, coisas que ela mal percebia; em essência, conhecendo-a como um marido conheceria. Mas não significava nada para ele. Ela imaginava que ele tinha uma repartição em sua cabeça chamada "Esquisitices da Temari" onde colocava informações aleatórias sobre ela, retirando coisas quando necessário, para provar algo ou ganhar uma discussão. Porque era o que ele fazia: anotava coisas sobre tudo e todos ao redor dele, analisava, assimilava, e depois, se possível, usava a informação em alguma estratégia. E perturbava Temari que suas informações pessoais fossem úteis a ele como armas contra ela. Fazia com que ela imaginasse que outras armas ela pudesse estar dando a ele, e esse pensamento era preocupante.
Mas ela não poderia passar a noite de preocupando, ou remoendo raiva, ou pensando nele de qualquer maneira. Precisava descansar o mais que conseguisse. As vidas deles podiam depender daquilo amanhã.
Era um pensamento nobre. Infelizmente, a determinação dela não era o suficiente. Ela girou na cama, rolou pelos lençóis, virou o travesseiro várias vezes para ficar com o lado mais frio, mas o sono a abandonou. E quando ela finalmente adormeceu, algum tempo depois que a hora do relógio digital foi de dígitos duplos para apenas um, a cama de Shikamaru ainda estava vazia.
x x x
Temari levou um tempo para se convencer a encarar a luz da manhã, cansada como estava pela noite mal dormida. E quando finalmente puxou as cobertas de sua cabeça, viu algo que a deixou surpresa: a cama de Shikamaru ainda estava desocupada. Ela ficou parada por um momento, pensando. Ele não havia dormido a noite passada? Foi dormir em outro lugar por raiva, ou desmaiou onde estava trabalhando? A cama parecia igual desde a noite anterior, ela não achou que ele deitou-se lá.
Uma suspeita começou a tomar conta dela, e ela olhou rapidamente para o relógio.
Oito. Já eram oito horas.
Teve que lutar contra os lençóis para sair da cama e trancou a porta. Não tinha tempo para ir ao banheiro para se trocar, teria que fazê-lo ali mesmo.
Arrancou os pijamas e começou a revirar a mala, tentando encontrar algo que pudesse vestir rapidamente, finalmente despejando o conteúdo em cima da cama para facilitar. Encontrou seu short de redes e um vestido curto e sem mangas com uma faixa larga que teria que ser bom o suficiente. Ela deveria saber que ele faria algo do tipo. Provavelmente havia a provocado de propósito para ter a desculpa de dormir em outro lugar, pensando que ela iria dormir mal e acordaria atrasada. Sorrateiro e manipulativo aquele... homem.
Ela se atrapalhou vestindo o short, colocando os dois pés em uma única perna por acidente antes de tirá-los e começar de novo. Depois colocou os braços no vestido, fechando-o na frente e amarrando a faixa. Pegou os elásticos e colocou-os no pulso para prender o cabelo depois. A estratégia dele havia falhado daquela vez. Ela havia acordado a tempo, e mesmo que ele tivesse saído mais cedo, ainda poderia alcançá-lo.
Não foi bom o suficiente, Nara.
Temari correu escada abaixo, passando pela sala de jantar antes de registrar o que havia visto: Shikamaru, sentado à mesa com Ino e Chouji. Ela se virou e voltou até estar de frente para ele, incapaz de ignorar o fato de que ele já estava de uniforme e tomando café. Senhor-espere-até-o-último-minuto-para-fazer-qualquer-coisa.
- Bela tentativa. – ela disse.
- Huh?
- Se acha que consegue sair escondido sem mim, tem outro problema.
- Do que está falando?
Ele parecia genuinamente confuso, e dúvidas surgiram na mente de Temari. Agora que estava prestando atenção nele, percebeu que ele não parecia 'pronto pra ir' de maneira nenhuma. Estava largado na cadeira, colete aberto, olhos escuros e cansados. Não, não parecia pronto para começar um dia longo e difícil. Parecia ter terminado um.
- Mas.. – ela disse, tentando encontrar o sentido daquilo. – Pensei que... quero dizer, você não foi dormir noite passada ... e...
O rosto dele mudou. Ainda estava cansado, mas havia algo distintamente satisfeito nele, quase orgulhoso, um dos lados da boca dele se ergueu.
- Não ia sair escondido de você. – ele respondeu. – Isso não funcionaria.
- Bem... claro que não. - ela replicou.
Ele inclinou a cadeira até encostá-la na parede, cruzando os dedos atrás da cabeça.
- Você simplesmente teria me seguido. Certo?
- Certo.
Ele sorriu e Temari se arrepiou. Era aquele sorriso. O sorriso que dizia que ele havia colocado uma estratégia em andamento e estava esperando que todos descobrissem o que ele já sabia: que havia ganhado.
- O que está acontecendo? – ela perguntou. Sua voz havia saído bem mais baixa do que esperava. - Onde você esteve?
- Tive uma reunião.
- Com Danzo?
- Ele não pôde ir.
Perdida, ela olhou para Ino e Chouji, mas nenhum deles a encarou de volta. Então voltou a olhar para Shikamaru, raiva esquentando seu rosto.
- Você vai me dizer o que fez ou vocês três estão se divertindo muito me deixando no escuro?
- Eles não têm nada a ver com isso. – Shikamaru respondeu. – E estou muito cansado para me divertir às suas custas.
- Então...
- Prestei exame para jounin essa manhã.
Temari parou, espantada com o anúncio. Anúncio que ela jamais preveria.
- Você fez o que?
- Ou à noite passada. Tanto faz.
- Mas... como... por que eles... de maneira alguma Danzo...
- Danzo não teve que fazer nada. A permissão dele não é necessária desde que se tenha apoio de pelo menos 8 dos 11 membros do conselho. E eu tenho.
- Mas...
- E eu acho que alguma coisa aconteceu com o pergaminho que o avisava que a participação dele era necessária. Porque ele não apareceu. - ele sorriu de maneira muito superior. Temari quis socá-lo.
- Então você simplesmente decidiu prestar o exame, no meio da noite, e todos os membros do conselho apareceram, e aconteceu de você passar?
- O primeiro pedido de um chuunin para prestar o exame deve ser honrado, não importa o horário. E sim, eu passei. Era para ser difícil?
Ela nunca havia o visto tão arrogante, nem quando a venceu no exame chuunin. Era desconcertante. Ela se debateu... pega com a guarda baixa... e foi quando seus olhos pousaram num pacote retangular de plástico na cadeira ao lado dele, com conteúdo azul marinho. O novo uniforme dele.
- Mas se era tão fácil para você, por que não...
- Nunca quis a posição, Temari. Seria feliz sendo chuunin pelo resto da minha vida. Quem precisa da burocracia? Do excesso de trabalho? Mas você me tirou todas as outras opções.
Ele se levantou, pegando o uniforme, e andou até ficar frente e frente com ela. Seus olhos ainda estavam cansados, ainda escuros. Mas completamente irredutíveis.
- Quando eu for ao escritório de Danzo hoje, você vai ficar aqui. É uma ordem.
Algo pesou como chumbo no estômago dela. Ele não podia. Ele não podia fazer aquilo com ela. Mas todos os seus argumentos sumiram porque ela sabia que ele estava em seu direito. Ambos poderiam ser jounins, mas Shikamaru era superior a ela pelo fato de que era um cidadão de Konoha, e ela não. Ainda estava sob as leis de shinobis emprestados.
Ele ganhou. Não teria saído escondido dela, claro que não. Sair escondido não era bom o bastante. Não resultariam na sua subjugação total. Em sua derrota completa.
- Você prestou o exame jounin, se tornou permanentemente jounin só para poder mandar em mim?
- Fiz porque não quero que Danzo te mate. Tente não encarar de maneira negativa.
- Shikamaru...
- Mas preciso subir para me trocar. - ele segurou o uniforme embrulhado em plástico e sorriu. – Tenho que vestir isso, eu acho. Teremos que conversar mais tarde.
Ele andou pesadamente pela escada, sem sinal do ditador arrogante de antes. Na verdade, andou como se estivesse indo para a forca. E ela ainda estava encarando a escada vazia quando o ouviu fechar a porta do banheiro.
Foi a voz de Ino que a trouxe de volta para o presente, e o som da cadeira dela sendo arrastada.
- Chouji, você é um gênio.
Ela colocou o guardanapo no prato e foi para o quintal, deixando Chouji com olhos arregalados e levemente boquiaberto.
- O que você fez? – Temari perguntou. - Adivinhou que ele se tornaria suicida?
Ele deu de ombros e balançou a cabeça, e o gesto pareceu mais de alguém que não queria se comprometer do que alguém confuso.
Temari afundou na cadeira ao lado de Chouji sem saber o que fazer. Ou o que sentir. Deveria se sentir furiosa por Shikamaru estar empurrando aquela porcaria tirânica para cima dela, mas estava chocada demais para ficar brava. Ele havia a cegado com sua audácia, claro; pensando bem era a única coisa que ele poderia fazer para vencer. Mas aquilo não era um jogo. Era vida ou morte. E agora a vida dele estava em perigo mais do que estaria de outra maneira. Homem idiota.
E ela não havia feito tudo o que era esperado dela? Não havia se casado com ele? Não havia se mudado para Konoha para viver com ele? Não estava fazendo o seu melhor para ignorar seus impulsos de caçar Danzo e matá-lo com suas próprias mãos, ou falar mal dele para todos os vizinhos que apareciam para comentar sobre o tratamento injusto que era destinado a ela só porque Shikamaru lhe disse para controlar seu temperamento? E agora ele não lhe daria a dignidade de ficar a seu lado quando enfrentasse Danzo. Ou lutar ao lado dele. Ou morrer ao lado dele, se fosse necessário. Então por que foi para Konoha? Ficaria viúva com a mesma facilidade em Suna.
Queria gritar. Berrar. Quebrar alguma coisa. Atacar alguém. Destruir uma floresta e dobrar o tamanho de Konoha. Ela precisava. Precisava dar vazão ao stress, mas não podia. Não tinha tempo agora. Agora tinha que descobrir algo, qualquer coisa que pudesse dizer para Shikamaru mudar sua mente irritantemente teimosa antes que acabasse morto.
Precisava dos conselhos de um expert. E conhecendo a expert, ela estaria na cozinha.
Pulou da cadeira, deixando Chouji sozinho com seu café, e passou pela cortina simples que separava a cozinha da sala de jantar. Lá estava a expert, fazendo algo com comida. Usando um cortador de queijo, mas em uma coisa marrom e enrugada ao invés de queijo. Estranho.
- Yoshino-san?
A mulher a olhou e sorriu, mas foi de maneira distraída e pouco calorosa.
- Bom dia, Temari-chan.
- Você está bem?
Yoshino deu uma risada trêmula.
- Estou tão bem quanto possa se esperar, suponho.
- Você ouviu tudo aquilo?
- Oh, ouvi. Mas escutei do meu marido antes, quando acordei.
- E o que ele acha disso?
Yoshino engoliu, seus olhos se enchendo de lágrimas que se acumularam em seus cílios, mas não caíram.
- Deu total apoio à promoção de Shikamaru. Achou que foi uma ótima idéia.
O coração de Temari afundou.
- Mas acho que não preciso dizer que eu ficaria muito mais feliz se você estivesse com o meu filho hoje.
Temari concordou.
- Então? O que devo fazer?
- Está me perguntando?
- Claro. Vi como lida com aqueles dois. Deve ter alguma idéia de como faço para Shikamaru me levar com ele.
Os olhos de Yoshino se arregalaram.
- Não sei se 'lidar' é o melhor termo. Seria mais eu escolher estrategicamente as batalhas que acho que posso vencer. Pelo menos é o que faço com Shikamaru, mas essas batalhas tem diminuído com o passar dos anos. E é ainda mais complicado com o meu marido.
- Como?
- Bem, - Yoshino se voltou para o ralador. – É difícil explicar. Sei que dá a impressão de que estou o controlando, mas há uma grande dose de dar e ganhar ali. Como acontece com Shikamaru, existem áreas da vida do meu marido que ele não se importa se controla ou não. Coincidentemente ou não, essas coisas tendem a ser mais públicas. As roupas que ele usa, como as contas são pagas, esse tipo de coisa, então o que a maioria das pessoas vê é ele se rendendo, mas só porque essas coisas não o interessam em primeiro lugar. Mas quando ele fixa a idéia em algo, fica completamente intratável. Nessas ocasiões, acho que é melhor não dizer nada. Não tem porque gastar minha energia. Às vezes acho que Shikaku pensa o mesmo sobre mim. Faz sentido?
- Sim...
- Mas de vez em quando Shikaku fica teimoso em relação a alguma coisa que também me interessa muito, e pode acreditar que há conflito. – ela parou e colocou o que restava do vegetal marrom na tábua. – Anda acontecendo muito, ultimamente.
Temari podia entender. Um pai usando seu filho como arma política contra o medo de uma mãe por seu filho.
- Então o que você faz nessas ocasiões?
Yoshino andou até a pia e começou a lavar as mãos.
- Quando Shikaku teima em algo em que eu realmente acredito que ele esteja errado, e que as conseqüências daquela ação serão prejudiciais, faço o que todas as mulheres fazem, só com muita frequência, o que diminui o efeito e torna fácil de descobrir: fico do lado dele. Encontro a fraqueza em seu plano e a exploro. E faço com a consciência tranqüila. Não tenho o hábito de questionar a autoridade dele, mas homens têm esposas por uma razão. E algumas vezes acredito que é para salvá-los de seus próprios erros burros. Para ser mais precisa, Shikaku também já me salvou dos meus.
- Bem, não é autoridade que eu possa questionar. As ordens de Shikamaru estão me prendendo e não há nada que eu possa fazer.
- Queria, já estive na sua posição. Sou uma chuunin casada com um jounin. E se pensa que ele não usou esse fato para sua vantagem, está enganada.
Apenas por um segundo algo brilhou nos olhos dela e Temari só pode imaginar o que estava acontecendo por trás deles. Mas estava feliz por não ter o mesmo problema que Yoshino; pelo menos não precisava se preocupar em ser militarmente subordinada a Shikamaru por muito tempo. Quando tivesse sua cidadania, estaria empatada com ele.
Mas o brilho nos olhos da mais velha foi substituído por ansiedade.
- Temari-chan, você se casou com um homem inteligente. Mas acho que quando ele te conheceu, encontrou um igual. E considerando meu filho, a tarefa de determinar suas forças e fraquezas, de entendê-lo...- ela sorriu de maneira triste. - ... bem, essa tarefa não é mais minha.
Temari suspirou. Era o que ela esperava, que Yoshino deixasse Shikamaru ir ao invés de tentar controlar a ambos. Mas não pôde deixar de desejar que ela houvesse esperado um pouco mais. Tipo, até amanhã.
- Mas tenho que dizer que é muito importante para mim que você esteja lá. – os olhos de Yoshino estavam bem abertos, e dessa vez uma lágrima escapou, depois outra, rolando por suas bochechas até que ela as secou com as costas de uma das mãos.
- É importante para mim também.
Yoshino concordou.
- Talvez devesse dizer isso a ele.
Temari riu, incrédula.
- Eu já disse! Ele sabe que não quero que ele vá sozinho. Ele é meu marido e eu sou um soldado. Meu lugar é lutando ao lado dele, não esperando em casa com uma boa dona de casa. – então percebeu o que havia dito e se encolheu. – Sem ofensas.
- Não, sei o que quer dizer e já passei por isso também. Não vou fingir que é fácil. Você pode tirar a kunoichi da briga, mas não tira a briga da kunoichi. É o que dizem.
Sim, Temari já havia ouvido aquilo antes. Era geralmente usado como uma referencia rude à maneira que kunoichis se comportavam na cama, ou pelo menos como os homens gostavam de acreditar que se comportavam. Mas se aplicava aqui também.
Ela tinha mais perguntas, mais preocupações, mas ouviu passos na escada e uma olhada no relógio deixou claro que ela não tinha tempo. Ela tinha que encontrar uma maneira de fazê-lo mudar de ideia, contorná-lo, e só tinha cinco minutos.
Voltou para a sala de jantar, olhando diretamente para frente apesar de não querer vê-lo em seu uniforme jounin estúpido. Já havia entendido, ele era o chefe agora. Confirmação visual só a deixaria mais brava.
Chouji havia sumido, deixando para trás uma tigela tão vazia que parecia limpa. E lá estava Shikamaru, franzindo o cenho e coçando a nuca, suas pernas enfaixadas nos tornozelos, as calças pretas e a camiseta trocadas pelas mesmas peças na cor azul marinho. As roupas novas eram engomadas e rígidas, provocando um contraste direto com suas vestes antigas e desbotadas. Haviam marcas vermelhas circulares nas mangas, e aquilo chamou a atenção de Temari para algo que estava faltando.
- Onde está seu hitayate?
Ele alcançou um dos bolsos e jogou-o por cima da mesa.
- Essa camisa me pinica. – disse com uma careta.
- Não preste atenção nisso. – ela respondeu. - Precisa usar seu protetor.
- Não sei o que fazer com ele. Não posso cobrir as marcas.
- Prenda na coxa.
- Tentei fazer isso. Mas me atrapalha quando tento alcançar as shurikens.
- Então prenda a bolsa ninja no quadril.
- Não gosto de colocá-la lá, estou acostumada a prendê-la mais baixo.
- Então coloque o hitayate na sua outra coxa.
- Também não gosto. Posso senti-lo quando dobro o joelho.
- Isso é ridículo!
Ele deu de ombros.
- Acho que você pode usar seu protetor de testa na testa. – ela disse.
Ele torceu os lábios.
- Não, obrigado.
- Funcionalidade ao invés de moda.
- Não estou preocupado com moda. Só não gosto de coisas no meu rosto.
Ela suspirou exasperada. Não apenas com o hitayate, mas com tudo sobre ele.
- Por que você está sendo tão difícil?
Shikamaru pareceu um pouco surpreso.
- Não estou sendo difícil, só não quero mudar um monte de coisas agora. O uniforme novo já vai ser uma distração.
- Então, aqui, - ela disse pegando o hitayate – vamos fazer assim. Tem algum alfinete?
Em um minuto ela havia o prendido no ombro do colete, junto à linha do braço. Parecia uma bainha de metal.
- Não ficou legal, mas vai servir por agora.- ela disse.
- Não, ficou bem. Obrigado.
- Tem certeza que não consegue sentir o hitayate?
- Eu consigo, mas não é tão problemático.
- O que? Como consegue sentir?
Ele estendeu a mão oposta e tocou uma das pontas penduradas da bandana.
- Seesh. – ela resmungou. – Não acredito no quão chato você é com seu uniforme.
Ela ajustou um dos alfinetes para que o material ficasse preso debaixo do metal, e depois olhou para cima. Ele estava a observando com as sobrancelhas arqueadas.
- Às vezes faz toda a diferença.
Houve alguma trégua na conversa enquanto Temari se assegurava que o hitayate não se soltaria facilmente, e ela sabia que era agora ou nunca. Ela o tinha agora, num minuto ele estaria saindo pela porta. Última chance.
- Shikamaru... escute...
Ele suspirou sonoramente e puxou o braço para longe dela, colocando as mãos nos bolsos.
- Não, escute... apenas me escute. Realmente acho que ir sozinho é um erro. Eu... tenho um pressentimento de que algo ruim vai acontecer.
- Eu também. – ele disse. - E é por isso que você vai ficar aqui.
Ele foi para a entrada e começou a calçar as sandálias, e Temari o seguiu em desespero. Ela não tinha mais idéias, mas não podia desistir. Não podia deixá-lo ir e encarar Danzo sozinho. Ele podia não voltar para casa. Provavelmente não conseguiriam nem o corpo dele de volta.
- Por favor, Shikamaru. Preciso estar lá. Se há uma luta, preciso lutar. E não quero que você morra só porque resolveu virar o machão.
- Não posso te levar, Temari. Sinto muito.
- Quer dizer que não quer me levar!
- Não posso. – ele insistiu.- Não vou conseguir me concentrar se tiver que me preocupar com outra pessoa.
- Você não tem que se preocupar comigo! – ela gritou. - Sou uma jounin, Shikamaru, e tenho mais anos de experiência que você. Sei cuidar de mim mesma. Na metade do tempo acabo salvando o seu traseiro!
Ele apenas a observou de maneira cansada.
- E olhe para você. – ela continuou. – Você dormiu noite passada?
- Não.
- Ficou acordado a noite toda, ainda está cansado depois do exame. Não está em condições físicas de se defender.
Ele ficou em silêncio, mas ela sabia que não estava prestando atenção. Seus pensamentos estavam em outro lugar, provavelmente no escritório de Danzo há vinte minutos dali. E tudo nele a enfurecia. A maneira com que casualmente dispensava a opinião dela. A obstinação. O fato de que os lábios dele estavam se curvando num pequeno sorriso enquanto sua cabeça apontava para a porta.
- Estamos provavelmente agindo de maneira exagerada, de qualquer forma. – ele disse. – Danzo não vai me matar no escritório dele. Incitaria muita desaprovação pública.
- Você não acredita nisso. Só está segurando o fôlego até o cemitério.
- Preciso ir. – ele colocou a mão na maçaneta e ela entrou em pânico.
- Espera... espera... me deixe ir e te esperar do lado de fora, ok? Na rua. E então pelo menos podem ficar de olho em mim e posso ajudar se alguma coisa sair errada. Ou vou saber se você sair bem. Certo? Por favor, pelo menos deixe-me fazer isso!
Shikamaru estava olhando para outro lado, mas enrijeceu as costas, os músculos de seu pescoço se contraindo.
- Vai brigar comigo assim sobre qualquer assunto pelo resto de nossas vidas?
- Que diferença faz? A sua vai acabar em alguns minutos mesmo!
- Até mais, Temari.
- Isso não é só sobre você, Nara!
Ele se virou para ela, não mais cansado. Agora parecia furioso. Provocado além da conta.
- Eu sei disso! Nunca pensei que fosse sobre mim! É sobre Konoha e Suna, e impedi-las de acabar uma com a outra! O que acha que Suna vai pensar se te apresentar na frente de Danzo e você morrer, uhn? O que eles vão pensar?
- Vão pensar que Danzo...
- Não. Vão pensar que os Nara foram muito descuidados com você. Olha, Danzo nem te quer lá. Como exatamente posso te usar como guarda costas se Gaara confiou você a mim?
A boca de Temari se abriu... ela tentava formar palavras, mas mal sabia como refutar uma linha de raciocínio tão ilógica.
- Shikamaru, isso é loucura! Gaara nunca culparia os Nara se eu fosse assassinada. Ele não é cego, sabe quem é o responsável pelo mal em Konoha agora.
- Isso não está tão delimitado, Temari.
- Você tem que me levar. Tenho que estar lá com você.
Ele a ignorou e alcançou a maçaneta novamente, e ela segurou a manga da camisa dele, tentando puxá-lo. A outra mão dela subiu e segurou o bíceps dele, e agora ela o segurava com as duas mãos e tinha tomado sua decisão. Talvez fosse desobediência segui-lo, mas não tinha que deixá-lo ir. Não até que ele mudasse de idéia.
- Você vai me levar. E se morrermos, morreremos juntos.
Exceto que ela não estava mais o segurando. De alguma fora ela foi empurrada pra trás, seus dedos tirados do braço dele, e agora eram os braços dela presos contra a parede atrás dela. E o rosto dele estava bem na frente do dela, escuro e intenso e lhe ocorreu que ela nem sabia quem era esse cara.
- Você não entende. – ele disse, com a voz gradativamente mais baixa. – Fica falando sobre nós lutarmos e morrermos, mas não é assim que funciona. Alguém tem que morrer primeiro. E Danzo é o tipo de pessoa que asseguraria ser você a primeira, só para poder fazer isso na minha frente. Consegue entender isso?
Ela o encarou, muda.
- Eu não vou assistir enquanto você morre. E não vou mais discutir com você. Esteja aqui quando eu voltar.
Ela reconheceu que o último foi uma ordem, mas não consegui vocalizar seu assentimento com ele encarando tão intensamente. Mas ele soltou seus braços, e sem mais nenhuma palavra, fechou seu colete e saiu pela porta. E ela foi deixada ali, olhando o lugar onde ele esteve. De novo. E o coração dela estava disparado, a adrenalina correndo por seu corpo porque ela esta furiosa por ter sido controlada, furiosa por ter sido pressionada contra a parede e furiosa por ele ter gritado com ela. E furiosa consigo mesma por ser tão fácil de controlar. E por deixá-lo sair quando sabia em seu âmago que não seria só uma reunião de rotina com o Hokage.
Mas não sabia o que mais poderia ter dito a ele, que pudesse ter feito alguma diferença. E ela estava presa a seu juramento e suas ordens para deixar seu superior se sacrificar daquela maneira, se foi o que ele escolheu. Ela perdeu. Ela falhou. E não havia nada mais a fazer.
Exceto ficar lá enquanto ele ia ao escritório de Danzo.
E estar lá quando ele voltar.
N/T: Eu peço desculpas pela demora, minha vida nesses últimos meses não foi exatamente o que eu queria que fosse, e eu ainda não sabia bem o que fazer em relação a esta fic. Pensei em deletar tudo, em deixar para lá, até porque eu mesma fiquei desapontada por não saber o fim. Mas como o relacionamento Shika x Tema vai ser até bem desenvolvido até onde ela vai, então resolvi continuar. Não sei muita gente vai continuar a ler, mas seria bacana receber o feedback de quem o fez até lá. Enfim, este capítulo tem muitas coisas nas entrelinhas, especialmente no fim (gosto muito dele, hehehe). Até o próximo (que não vai demorar tanto).
