Capítulo Sete
Desfeito - Parte 1
- Recebemos uma mensagem de Shikaku-san essa manhã.
- Mesmo.
- Ele requisitou nosso exército para que esteja na divisa de Konoha em seis dias.
- Imagino que sim.
- Você acha que Temari já cedeu?
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Shikamaru esperou até ficar fora do campo de visão da casa antes de se esgueirar entre dois prédios, escondido da rua principal, e afundou contra uma parede. Pôde ouvir uma respiração pesada, assovios entre dentes apertados, e ficou assustado ao perceber que vinham dele mesmo. E suas mãos formigavam e ardiam, mas quando as examinou pareciam as mesmas mãos, exceto por estarem agora suadas.
Não entendia o que estava acontecendo com ele. Verdade que ele estava discutindo com Temari, e conflitos frequentemente afetavam os envolvidos numa forma difusa de fique ou brigue. Mas não havia razões para que seu corpo reagisse daquela forma exacerbada. Sentia-se quase em pânico. Enjoado.
Seus dedos continuavam curvados, agarrados ao fantasma dos braços de Temari. Aquilo explicava o formigamento, ele ainda sentia os bíceps dela lá. Mas para o ardor não havia explicação.
Não havia desculpas para sua falta de compostura. Ele estava certo, ela estava errada. Ele tinha um plano traçado minuto a minuto, ela não poderia ver dentro de seu cérebro para saber daquilo. Mas ela não deveria ter que ver dentro do cérebro dele. Ela deveria saber que ele não estava saindo desprotegido. Ela não havia lutado contra ele? Não haviam lutado lado a lado em diferentes cenários, desde batalhas contra o mesmo adversário a brigas com gennins desatentos? Porque ela pensava que agora, quando as vidas deles estavam em risco, ele jogaria a estratégia pela janela e entraria no escritório de Danzo despreocupado como... Naruto? A 'estratégia' de Naruto parecia funcionar muito bem para ele, mas Shikamaru nunca operava daquela maneira.
Confio em você, ela disse. Serviço labial. Ou talvez ela pensasse que confiava nele, ou queria acreditar que podia confiar, estando tão indefesa e alienada em Konoha, mas suas ações traíam seus sentimentos verdadeiros.
Ele tentou se lembrar que sabia que suas ordens a deixariam furiosa, que ela reagiria mal, mas aquela realidade era muito mais difícil de se lidar do que as imagens que ele havia imaginado quando fez seus planos. Aquelas não haviam sido tão reais... tão vívidas... nunca imaginaria que perderia o controle sobre si mesmo ao ponto de usar de força com ela. Ou ter qualquer contato físico com ela. Mas ele nunca a imaginaria prendendo seu hitayate cuidadosamente em seu colete, como se uma mulher estranha e atenciosa houvesse se apoderado dela por um momento. E ele nunca, nunca esperaria que ela fosse tão longe quanto agarrá-lo para impedir que ele encontrasse Danzo sozinho. Que ela achasse tão fácil desrespeitar seus limites pessoais.
Ele pôde senti-los se desfazendo. Seus limites, e os dela. Deveria ser uma coisa boa, não? Casamento não se tratava de ser sincero um com o outro, baixar a guarda, e todas aquelas coisas sentimentais? E ele amava Temari, não amava? Não era o que aquilo significava, que ele queria mantê-la a salvo e que ela o respeitasse? Não deveria apreciar o fato de que as barreiras entre eles estavam desaparecendo?
Mas ele não sentia. Não havia um único sentimento positivo associado àquilo. Ao invés disso, sentia-se como se estivesse à beira de um penhasco, olhando para baixo, mas o chão estava tão longe que ele não conseguia enxergá-lo através da neblina. E ele estava fazendo tudo o que podia para não cair, mas seu equilíbrio estava falhando e não conseguia se equilibrar por tempo suficiente para dar um passo para trás, e sabia que a qualquer momento uma forte rajada de vento o empurraria e ele começaria uma queda livre nauseante que duraria até sua morte.
Queda livre. Tontura. E suas mãos ainda suavam, e sua respiração não voltava ao normal. Cara, ele não tinhatempo praquela merda. E ele não conseguia explicar esse impulso que tinha, de voltar para casa e encontra-la, conversar com ela, explicar tudo para que ela não o olhasse com aqueles olhos frustrados e incrédulos, como se não pudesse acreditar que alguém tão estúpido e teimoso quanto ele existisse no planeta. Ninguém mais o olhava daquele jeito, nem sua mãe. Então porque Temari estava sendo tão lenta para acompanhar?
Sem tempo. Tenho um monte de problemas pela frente, e não posso desperdiçar energia. Não nessa briga, não nos sentimentos de Temari... nada. Ela vai entender, eventualmente, e eu serei inocentado. Mas enquanto isso tenho que manter o foco em estar focado. Em alguns minutos entrarei no prédio do Hokage, e tudo vai depender de cronometragem precisa. E uma atuação brilhante.
Só... se... acalme.
Relaxou os ombros e respirou profundamente pelo nariz algumas vezes. Depois, resolvido, pulou no telhado mais próximo e dirigiu-se ao centro da cidade. Checou seu relógio, eram 8:40. Teria que se apressar.
Correndo pelos telhados, levou 16 minutos para chegar à Torre do Hokage. Aquilo lhe deu quatro minutos para que observasse a área antes de entrar. Esteve lá uma dúzia de vezes, claro, e tinha um mapa em sua mente, mas nunca havia visto o prédio pelas lentes de defesa antes. Queria tomar nota detalhada de cada janela, cada saída de emergência, do posicionamento de cada pessoa lá dentro, e ter uma idéia de que partes poderiam ser melhor observadas pelo time de Shikaku do lado de fora.
Assim como o prédio ao lado, o primeiro andar da Torre era amplo e consistia basicamente num vestíbulo. Dentro dele havia duas secretárias chuunin sentadas atrás de uma mesa longa. Ele podia ver os banheiros, a sala de conferências separada do resto por uma parede de vidro, e a entrada do longo corredor que levava à escadaria. A escadaria era a área mais problemática: enclausurada, se estendia por três andares, e sua entrada e saída eram invisíveis pelo lado de fora. Ele possivelmente poderia perder cinco ou seis minutos naquela escadaria antes que o time do lado de fora se preocupasse o suficiente para vir atrás dele. Cinco ou seis minutos era tempo o suficiente para que o time do pai dele não fosse mais considerado um reforço. Era uma eternidade.
Nos segundo e terceiro andares as paredes do lado oeste também eram um problema. As paredes eram tão próximas ao prédio vizinho que se tornaram meramente uma formalidade: não era possível ver através dela sem escalar a parede para olhar diretamente. Para os propósitos de Shikamaru, aquilo não era muito prático.
Provavelmente a sala mais perigosa do prédio todo era o escritório de Danzo, no sentido de que era no último andar, no final de uma longe série de corredores, e tinha janelas apenas do lado oeste. Era lógico o Hokage ser o mais difícil de se acessar pelo lado de fora, mais complicado de ser visto por espiões, mas Shikamaru nunca havia visto um kage que despedia tanta energia em proteger a si mesmo. Depois da abertura e acessibilidade do escritório de Tsunade na antiga mansão do Hokage, o escritório de Danzo parecia uma toca de rato. Escura, oculta, e apesar de o prédio ser novo em folha, úmido e embolorado.
Então seria um encontro desagradável, pelo qual ele estaria fora da vista de qualquer pessoa que pudesse estar o vigiando pelo tempo Danzo quisesse monopolizar. Mas a realidade era que o escritório não era uma ameaça, não quando ele conseguiu manter Temari em casa. Shikamaru teve muitos encontros com Danzo desde que ele havia se tornado Hokage, diretos e indiretos, e estava acostumado com o modus operandi do homem. Ele era um típico homem com alguma crueldade e complexo de deus, que possuía inteligência atípica, sem mencionar o sharingan. Mas o aspecto mais importante aspecto de sua personalidade era sua recusa em se envolver em atividades questionáveis se não pudesse transferir ou evitar a culpa, como era óbvio nos assassinatos de Koharu e Homura. Havia suspeitas sobre Danzo, mas os detalhes dos crimes haviam sido tão vagos e convolutos que fora impossível reunir provas suficientes para condenar alguém, ou ainda apontar o dedo convincentemente.
Não, ele não seria atacado por Danzo, pelo menos não pela frente, e especialmente não em seu escritório. Não havia outra pessoa para culpar, neste caso. Entretanto, a história seria completamente diferente se Temari houvesse vindo com ele. Como ele havia explicado a ela: Danzo só precisava matar um deles para acabar com a aliança política existente entre ambos. E matar um deixaria o número perfeito para seu bode expiatório: um. Era ridículo imaginar que Shikamaru mataria sua própria esposa no prédio do Hokage, ou vice versa, mas descrédito nunca havia sido um obstáculo para Danzo. Aquele era seu verdadeiro talento, não seu cérebro ou sharingan. Era sua habilidade de dizer o que quisesse para o povo, e ser acreditado. Era a razão pela qual ele era um inimigo formidável, e o motivo pelo qual ele e Temari tiveram que se casar em primeiro lugar. As pessoas confiavam em Danzo. E o fato de que ele não havia solicitado a presença de Temari só contaria a favor dele, já que tê-la lá não estava em seus planos de maneira alguma.
E não havia dúvidas sobre quem dos dois Danzo escolheria. Para seus propósitos, nada seria mais vantajoso do que vitimizar Suna e responsabilizar o homem de Kakashi. Shikamaru queria acreditar que Gaara teria piedade dele, e preferir sua palavra a de Danzo. E talvez ele preferisse, mas naquele ponto já não importaria. Shikamaru seria permanentemente expatriado para Suna, e a influência dos Nara no conselho cairia para zero. E Temari estaria morta.
Seu dedão esfregou-se lentamente contra seu indicador. Ele sabia o que queria, o motivo para o tique, e o ignorou. Teve medo de fumar, de ficar viciado em nicotina e nunca conseguir parar. Parar acabou sendo fácil, provavelmente porque havia fumado apenas por um curto período e odiado cada minuto. Mas surpreendentemente, seu corpo ainda se lembrava do movimento, e o fazia quando ele ficava estressado. Mão no bolso, dedos nos lábios. Era a razão pela qual ele resolveu nunca mais segurar outro cigarro.
E ele sabia o que estava causando essa reação dessa vez: pensamentos de Temari morrendo sob seu comando. Memórias das ultimas palavras de Asuma, sua última baforada, seu último suspirou passou pela cabeça de Shikamaru, com a exceção de que agora o rosto era de Temari, sangue saía de seu abdômen e sua boca, fazendo com que ela se engasgasse, e dessa vez não haveria a Ino para tentar salvá-la, e Shikamaru nem poderia estar a seu lado porque já estariam arrastando-o para longe.
Seus dedos nervosos vieram até seus lábios, mas ele os forçou para baixo. Enfiou as mãos nos bolsos. Sim, ele sabia como Danzo teria conduzido esta reunião, se tivesse a chance. Sabia por que era exatamente o que ele faria, se estivesse no lugar de Danzo.
Mas sem Temari, o perigo viria mais tarde, depois que Danzo tivesse a chance de investigá-lo. Nos corredores ou na escadaria. Atacado por algum anônimo, alguém que estaria esperando por ele. E conhecendo seu próprio histórico, provavelmente seria uma mulher. E Shikamaru estava o mais preparado possível para este ataque. Conhecia o terreno, tinha um plano de contingência. Agora não havia nada a fazer além de reportar a seu superior e se fingir de bonzinho. Não havia razão para ser contrário a Danzo. Não às vistas dele, pelo menos. Ainda havia a ilusão de subordinação a ser mantida. E algumas arestas poderiam ser aparadas enquanto ele estivesse lá, se ele pudesse fazer uma atuação convincente.
Entrou no prédio da forma mais relaxada que podia, cumprimentando as secretárias cordialmente, fazendo seu melhor para parecer confortável e despreocupado. Só vim resolver essa confusão idiota sobre meu casamento. Sem chance de eu ser morto. Subiu as escadas rapidamente para não ficar muito tempo fora de vista e chegou ao terceiro andar. Andou pelos corredores, fez algumas curvas até parar de frente à porta do escritório de Danzo, em que se lia Rokudaime Hokage em letras grandes e dramáticas na porta. Seu relógio dizia nove em ponto. Bateu na porta.
- Entre.
Shikamaru entrou e parou em frente à grade mesa de madeira de Danzo. Não havia sentido em demonstrar suspeitas. Ele relaxou seus ombros, soltou os braços ao longo do corpo, se permitindo um pouco de má postura para demonstrar cansaço. A pose de um homem confiante em sua segurança. Ou possivelmente, um homem incrivelmente idiota.
- Rokudaime-sama.
Danzou estava sentado à mesa, observando-o com olhos estreitos. Seu braço 'bom' estava à vista, e o outro estava no colo. Era válido manter parte de sua atenção naquele braço, um ataque poderia facilmente vir daquela direção, sem prévio aviso. Não era provável, mas era possível.
Quando Danzo falou, pareceu a Shikamaru que ele estava sendo testado, como se Danzo não estivesse seguro quanto às intenções dele, o que era provavelmente certo.
- Parabéns pela promoção.
- Obrigado.
- E você passou com uma pontuação impressionante. A maior desde o seu pai.
Ele não soou particularmente impressionado, e Shikamaru não disse que se tivesse tempo para estudar, teria sido a maior, ponto final. Quebrar recordes não era sua intenção.
E Danzo não mencionou sua própria ausência no conselho, o que preocupou Shikamaru. Queria dizer que ele suspeitava que havia sido intencional. Entretanto, ele perguntou sobre a decisão repentina de Shikamaru fazer o teste no meio da noite. E aí as coisas começariam a ficar complicadas. Haveria um monte de mentiras, mas ele não poderia se afastar muito da verdade, ou sua história pareceria implausível.
- Ah, isso. Minha mulher vem tentando fazer com que eu preste há algum tempo, e acho que ela finalmente me convenceu. Tentei fazer uma surpresa para ela.
- E conseguiu? Fazer a surpresa?
Ele balançou a cabeça.
- Posso dizer que ela ficou muito surpresa.
- Então vocês já se conhecem há algum tempo.
Shikamaru reconheceu a pergunta como retórica. Danzo saberia como e quando Shikamaru conheceu Temari, e provavelmente o resultado da luta entre ambos. Estava tentando ver qual seria a reação base para mentiras.
- Quatro anos.
- Hm. – ele pôde ver que Danzou escolhia suas próximas palavras com cuidado, e quando falou novamente, havia um traçoacusação em sua voz. - Perguntei por que o casamento pareceu muito repentino. E você é muito jovem.
Shikamaru deu de ombros.
- Temari está numa idade em que muitas mulheres se casam. E se você tem algum conselho em como lidar com mulheres impulsivas, adoraria ouvir. É difícil não me submeter a tudo o que ela quer.
- Ela está te dando trabalho?
- Sempre. – ele respondeu e depois sorriu. Deixe Danzo decidir que tipo de trabalho ela estava dando.
- Bem, você tem em sua frente uma oportunidade que não vai existir por muito mais tempo. – Danzou disse. – Deveria tirar vantagem disso.
- Do que?
- Vocês só estão casados há alguns dias. Agora você deve se afirmar e deixar suas vontades claras. Se deixá-la questionar sua autoridade no começo, quando os termos entre vocês ainda não estiverem estabelecidos, será impossível conquistar e manter o respeito dela no futuro.
O tom pedante do Hokage deu a Shikamaru a impressão de que ele não precisava responder ao pequeno sicurso. Não que ele tivesse uma resposta. E Danzou continuou falando, seus olhos se fechando como se ele estivesse conversando consigo mesmo.
- E você é jounin agora, é o momento de fazê-la se acostumar a te ouvir. Até as kunoichis mais teimosas não desobedecem a ordens, se são dignas do título. Não pegue leve.
Ele sorriu um pouco e Shikamaru se sentiu entre a incredulidade e o nojo. Incredulidade porque Temari só tinha mais um dia de passe e Danzo ainda não havia aprovado o casamento, e Shikamaru não ia poder controlá-la se ambos estivessem na cadeia. E nojo porque Danzo não teria como saber o que havia acontecido entre eles naquela manhã, mas ainda assim seu conselho parecia estranhamente aplicável. Ele não queria usar seu rank para fazer Temari completamente submissa a ele; na verdade ele nem sabia se queria uma Temari submissa. A vida ficaria mais fácil, mas ela não seria mais a Temari, seria? Mas era seu papel como líder fazer o que fosse necessário para manter os membros de seu time vivos, e menos diretamente, todos que lutavam a seu lado. Ele poderia ter dado ordens Ino e Chouji da mesma forma que fez com Temari, e o faria sem culpa, mas nenhum deles era sua esposa. Temari era, e também era shinobi, o que fazia as coisas ainda mais difíceis. As facetas de seu relacionamento com ela poderiam ser colocadas num diagrama de Venn, quantos lados haveria? E quando shinobi e esposa coincidiriam? Mesmo que ele encontrasse uma resposta razoável para aquela pergunta, Temari sem dúvidas ainda discutiria com ele.
- O que me traz ao tópico da cidadania de sua esposa. – disse Danzo. – Você tem o certificado de casamento?
Shikamaru puxou o papel de um dos bolsos de seu colete, desdobrou-o e entregou-o a Danzo. Ele examinou o documento e carregou dois dedos de sua mão esquerda com chakra e passou-os sobre o selo, checando sua validade.
- Shikamaru, tenho que admitir que estou confuso.
- Senhor?
- Ouvi dizer que seu casamento foi rejeitado, mas essa ordem não foi dada por mim.
A última tensão de Shikamaru sobre o encontro o abandonou na forma de uma longa exalação de ar pelo nariz. Danzo estava tomando o caminho da negação, o que queria dizer que ele ainda estava tentando ser amigo. Agora tudo o que restava era transferir a culpa pela "confusão" com o casamento a outra pessoa.
- Pedi que a secretária que estava de serviço ontem fosse dispensada. Ela cometeu um erro egrégio que não pode se repetir.
Shikamaru concordou solenemente e sussurrou uma desculpa silenciosa à pobre mulher que foi demitida pelas ambições pessoais de Danzo. Sem mencionar ter sido aterrorizada por Temari no dia anterior.
- Então quer dizer que vai aprovar o casamento? E a cidadania de Temari?
- Aprovarei o casamento. - Danzo disse. – Mas você deveria pensar duas vezes sobre a cidadania. Posso dar a ela um passe indefinido como sua esposa, sem ir tão longe quanto torná-la numa cidadã, e desta forma você ainda é superior a ela. Se você constantemente tem que brigar com ela esta parece ser a melhor opção.
Shikamaru fingiu considerar a proposta. Na verdade seria melhor para Danzo que pra ele manter alguma distância entre Temari e Konoha, mas ele era bom e fazer a oferta de maneira que pensasse ser atrativa.
- Senhor, acho que seria melhor para mim aprender a lidar com ela sem o rank. Não posso usar isso como apoio para sempre.
- Sua escolha. – Danzo disse.
Ele abriu a gaveta e pegou um formulário amarelo e uma pasta arquivo, deslizando-os pela mesa para Shikamaru preencher. O formulário de cidadania de Temari. À primeira vista ele percebeu que não era qualificado para fazer aquilo: a maioria das questões ele não poderia responder com certeza. Mas podia sentir que Danzo o observava atentamente, querendo saber que informações sobre Temari Shikamaru sabia de cor. E hesitar não era uma opção, ele tinha que aproveitar que o homem que poderia tornar o casamento oficial estava sentado em frente a ele. Seria mais fácil levar o papel para casa e pedir para Temari o preencher, mas estaria apostando errado.
A primeira linha já era problemática. Nome. Ele escreveu Nara Temari, sabendo que pagaria por aquilo mais tarde. Depois... aniversário? Como saberia daquilo? Mas era algo que um marido saberia, então se manteve sério e adivinhou a data educadamente. Ela era três anos completos mais velha que ele, porque uma vez zombou que ele tinha 14 quando ela já tinha 18. Mas não durou muito então não era muito mais que três anos. Agosto? Algum dia em agosto. Mas era tudo o que ele sabia. Então colocou 23 de agosto, exatamente um mês antes de Ino. Daquela forma poderia dizer que se confundiu com as datas. Soava como tolice mas poderia ser estereótipo de um marido novo; as pessoas ririam, mas não desconfiariam dele.
Loira, ele sabia. Não havia espaço no formulário para cor dos olhos para escrever "meio verde meio azul", então ele escreveu "vd. –azl". Depois altura... não poderia simplesmente colocar "mais baixa que eu?"
Quando chegou a peso, sentiu-se contrair involuntariamente.
- Problemas? – Danzo perguntou.
Finalmente um assunto sobre o qual ele poderia ser totalmente honesto.
- Não tenho certeza do quanto ela pesa, e algo me diz que adivinhar vai me colocar em apuros.
Danzo não ofereceu nenhuma pílula de sabedoria e voltou a olhar o arquivo. Shikamaru descobriu que chutar para menos era melhor. De fato, Temari não era nada como Ino, diminuir o peso de maneira lúdica era melhor que ser exatamente certo. Ele pesava 55 quilos, então menos que isso... 45 soava bem. De jeito nenhum ela pesava 45 quilos. Ela era muito curvilínea.
Endereço sem problemas. Ocupação... ser era shinobi, ranking... Vila de nacionalidade anterior...
Mãe: não aplicável/ falecido
Pai: não aplicável/ falecido
Cônjuge: Nara Shikamaru.
Filhos: nenhum
Com uma olhada no relógio ele viu que era 9:08, então respondeu as ultimas questões. As 9:11 ele assinou o formulário na linha onde dizia "Pai/Guardião". Temari iria adorar aquela.
Ele devolveu o formulário a Danzo, que nem olhou para as informações. Apenas assinou, retirou a cópia, colocou um selo de chakra em ambos e entregou um deles para Shikamaru. Parecia subitamente entediado com a situação, como se os resultados não o afetassem de nenhuma maneira. Provavelmente pensava que Shikamaru não iria muito longe com aqueles documentos.
- Tem que levá-los ao Escritório do Hokage para pegar o passaporte dela, mas enquanto isso esse documento é prova da cidadania dela.
- Entendido.
Danzo resmungou algo e colocou sua copia numa pasta do arquivo, sem olhar para cima novamente. Shikamaru tomou aquilo como uma dispensa, dobrou seu certificado de casamento e a cidadania de Temari e colocou-os cuidadosamente no bolso de seu colete. Depois se curvou num cumprimento formal e saiu da sala.
Ele escaneou o hall cuidadosamente antes de sair e fechar a porta de Danzou atrás de si. Quando estava do lado de fora, encostou-se à parede e soltou um longo suspiro. A primeira parte e mais fácil estava feita. O encontro aconteceu sem incidentes, como ele suspeitou, e os papeis de cidadania foram conseguidos. Não conseguia evitar que sua mão tocasse o bolso do colete onde estavam todos os documentos importantes; se conseguisse sair de lá vivo, a posição de Temari como uma Nara estria garantida. Mas esse era o maior "se".
Como a mão ainda no bolso, girou o pulso e olhou o relógio. 9:13. Agora começaria a segunda parte, cujo final ele não conseguia prever. Queria acreditar que tudo daria certo e que em alguns minutos ele deixaria o Prédio do Hokage intacto, ainda em posse dos documentos de cidadania de Temari. Mas essa parte não dizia respeito somente a ele, e se Danzou fizesse com que ele fosse atacado, não brincaria. Não poderia deixar Shikamaru escapar com a prova de suas más intenções.
Ele se moveu rapidamente pelos corredores, ainda tentando aparentar estar relaxado caso encontrasse alguém, mas mantendo seus olhos, ouvidos e mente em alerta total. Mas não encontro ninguém e logo estava na entrada da escadaria. Ele parou em frente à porta por alguns momentos, se preparando para o encontro inevitável. Não havia dúvidas em sua mente que ele seria atacado ali; depois que deixasse a escadaria estaria à vista dos secretários no andar de baixo e do time de seu pai.
Seu relógio dizia 9:16. Os cabelos em sua nuca estavam se arrepiando, mas ele abriu a porta da escadaria e entrou.
Do ponto vantajoso no alto das escadas, não pôde ver ninguém. Mas havia dois lances de escadas em cada andar, fazendo uma curva, quatro lances no total, os lances um sobre os outros então ele não podia ver mais que um andar abaixo dele. Qualquer um poderia estar abaixo daquilo, vinte pessoas poderiam estar escondidas e ele não poderia descobrir até que estivesse perto demais. E uma área preocupante eram os "tetos" debaixo de cada lance de escadas. A maioria dos ninjas era capaz de se esconder em um deles e pular nele quando ele passasse.
Seria mais seguro se ele conseguisse trancar a porta pela qual passou, pelo menos assim não teria jeito se alguém o surpreender quando a entrada estivesse fora de vista. Mas não tinha meios de trancá-la de outra forma que não fosse permanentemente, e prender a si mesmo lá seria extremamente estúpido. Então ele pegou um selo explosivo e selou a porta com uma grande quantidade de chakra. Ninguém poderia abrir a porta sem detoná-lo. Não iria incapacitar o intruso porque a porta pesada de metal bloquearia a maior parte da força da explosão, mas pelo menos alertaria Shikamaru para o fato de que alguém estava vindo atrás dele.
Então, sem precisar parecer casual, ele ficou totalmente observador. Pressionou suas costas contra a parede e começou a descer as escadas, cuidadosamente, um degrau de cada vez, olhos perscrutando para capturar o mínimo movimento, ouvidos aguçados para um passo, um suspiro ou o barulho de uma maçaneta sendo girada. Até suas mãos ardiam contra a parede, prontas para fazer um selamento a qualquer momento. Podia sentir seu coração disparado, nervos agitados a cada passo, pois cada passo o trazia mais perto. O primeiro sinal de ataque. A primeira ameaça. Mas ele ignorou seus sentimentos. Não podia se distrair.
Assim que chegou ao segundo lance, checou o final da escada que descia. Nada. Daquele ponto ele poderia ver tudo, menos a porta pela qual ele havia entrado, a porta pela qual sairia e a parte de baixo do último lance de escadas.
Então ele alcançou o terceiro lance de escadas, já esticando o pescoço para ver o final dela.
Nada.
E de lá ele podia ver a porta. Não havia mais lugares para alguém se esconder.
Poderia ter se enganado?
Não. Aquela era a chance de Danzo. Sua melhor oportunidade para se livrar do problema com os Nara para sempre. Ele não a desperdiçaria.
Confuso, ele se virou para checar atrás dele, apesar de saber que ninguém estava lá. Então ele desceu o último lance de escadas e andou até a porta. Não estava aliviado; mais que tudo, se sentia mais apreensivo que antes. A tensão não diminuía. Perguntas sem respostas. A escadaria estava vazia. Seu relógio marcava 9:17.
Ele estendeu a mão para a maçaneta, a ponta de seus dedos mal tocando o metal.
O selo no andar de cima explodiu.
Shikamaru não teve tempo para formar o selo do rato. Antes que ele pudesse ao menos hesitar, sentiu mãos lhe segurando e jogando-o para longe. Ele voou pelo cômodo numa velocidade impressionante, batendo a cabeça na parede de concreto, estrelas explodiram atrás de seus olhos.
Caiu no chão, sua boca já se enchendo de sangue. Sua cabeça palpitava, mas ele se levantou o suficiente para olhar seu atacante.
Uma mulher. Claro.
Ela estava vestida com o uniforme ANBU, com o rosto coberto por uma máscara de gato. Do ângulo em que estava não pôde ver nenhuma arma além da espada em suas costas, mas aquilo não dizia nada. Se ela realmente desceu do terceiro ao primeiro andar tão rápido quanto ele pensava, ela não precisava de nenhuma arma.
Ele não desperdiçou outro segundo. Tensionando os músculos debaixo de si ele se levantou do chão girando para longe. Quando estava no meio do giro, com as mãos escondidas da kunoichi pelo seu corpo, formou o selo do rato. Mas antes de poder mandar sua sombra até ela sentiu uma mão segurá-lo no ar e mandá-lo de volta para o chão. Atingiu o chão primeiro com o rosto, o ar escapando de seus pulmões, e ele lutou por ar enquanto levantava a cabeça. Ela já estava de volta à porta.
Aquilo era mau. A maneira com que ela se movia não era humana. Como para demonstrar aquilo, a mulher desapareceu e Shikamaru sentiu um chute nas costelas que o virou até que ele atingisse a parede.
Ela não disse nada. Simplesmente retomou seu lugar junto à porta, observando-o, um robô planejado para uma única coisa: erradicação. Ela nem parecia estar numa batalha, não havia tensão, ou ansiedade, ou excitamento ou medo. Era como se suas emoções houvessem sido completamente desligadas.
Ele ficou parado por alguns segundo, fingindo estar desmaiado. Requeria que ele fechasse os olhos, mas seus olhos eram inúteis para seguir os movimentos dela de qualquer maneira. Fez cálculos sobre a habilidade dela contra a dele num décimo de segundo, e seu cérebro cuspiu a informação de que ele tinha medo. Num mano a mano, as chances dessa mulher o vencer eram de 92%. Ela era uma assassina treinada, e não havia jeito de competir com a velocidade dela. Temari poderia competir; a maneira que aquela kunoichi se movia o lembrava como os leques de Temari se moviam no ar, quase invisíveis a olho nu. Mas Temari não estava ali.
Tinha apenas uma chance, e seria Kageyose. Ele poderia completar o selo com uma mão, mesmo que fosse atacado durante o processo. Poderia fazer se se concentrasse, mas precisava de algum tempo.
Ele finalmente cuspiu o fragmento de um molar destruído no chão, junto com uma golfada de sangue. Então se levantou rapidamente. Havia antecipado que ela o atacaria novamente, então mirou um soco no ar à sua frente, sentindo-se um pouco ridículo. Mas seu punho acertou algo e o fôlego dela lhe escapou com um oofenquanto ela voava para o chão.
Enquanto ela estava no chão, ele trouxe suas mãos para frente para tentar completar o selo. Mas ela pulou de pé e desapareceu novamente, e ele sentiu-a agarrar seu braço por trás. Tarde demais. Mesmo quando ela estava no chão ele não foi rápido o suficiente. Era como tentar ser mais rápido que um raio. Total desperdício de esforços.
Esse foi seu último pensamento realmente racional. A kunoichi puxou seu braço para trás e o torceu, e seu ombro deslocou-se com um estralo.
Dor intensa e súbita se espalhou por suas costas e ombros e ele caiu e joelhos, um gemido escapando entre seus dentes apertados. Seu braço inutilizado acertou o chão ao lado dele, e a dor duplicou, triplicou, fazendo com que sua vista escurecesse. Mas ele não podia. Não podia desmaiar agora. Ainda não.
A kunoichi voltou para a porta, observando-o. Sua mensagem era clara, não haveria mais tentativas de manipulação de sombras. E Shikamaru repensou sua primeira impressão sobre sua falta de emoções. Crueldade ela parecia guardar na manga, ou teria o matado na primeira oportunidade. A máscara de gato era perfeitamente apropriada; aparentemente brincar com ele era o suficiente por enquanto.
E foi então que ela puxou a espada.
Devagar. Deliberadamente. E ele viu; sua morte pelas mãos dessa mulher por que causa? Um pequeno erro de cálculos? Um atraso inesperado? Queria olhar seu relógio, mas não conseguia levantar o braço, então ele encarou a porta, como se com aquilo conseguisse fazer a maçaneta girar.
Nada.
Suspirando, voltou a olhar para a kunoichi. Ela dobrou os joelhos, preparando o ataque.
Ele fechou os olhos.
Uma explosão fez seus olhos se abrirem novamente, e com o susto ele se moveu e seu ombro doeu mais. A porta voou e ele viu Temari com o rosto contorcido de ódio. Sua expressão se suavizou quando ela o viu, mas sua voz parecia tensa.
- Shikamaru?
Ok... talvez ... agora ele pudesse desmaiar.
- Você está atrasada. - ele resmungou.
Os olhos dela se estreitaram confusos.
- O que...
- Cuidado – ele disse. Queria apontar para a kunoichi, mas todos os músculos de seu corpo protestaram contra o movimento. Então direcionou seus olhos para ela, confiando que Temari entenderia. – Ela é...
Mas a mulher havia desaparecido.
Agonia rompeu seu corpo, vindo de suas costas para seu estomago, queimando enquanto sua pressão vital era liberada. Sua cabeça tombou e seus olhos caíram em trinta centímetros de lâmina ensanguentada que saíam de seu abdômen.
- ...rápida. – ele sussurrou.
Em algum lugar longe ele ouviu Temari gritar, seu nome, um palavrão ou ambos, e a dor se intensificou e depois entorpeceu quando a espada foi retirada de seu corpo. Sangue quente começou a sair de seu abdômen e costas, e pensamentos irracionais começaram a surgir em sua inconsciência.
Deveria ficar de cabeça para baixo, então meu coração ficaria abaixo dos ferimentos.
Ele começou a se inclinar, puxado pela gravidade, seu corpo não resistia mais, o chão duro vinha de encontro a ele.
Poderia ter fumado um maço inteiro de cigarros.
Mas o chão não o atingiu quando ele caiu, ao invés disso pareceu estranhamente quente e macio, amortecendo sua queda.
Algo molhado está caindo em meu rosto. Está chovendo na escadaria?
Ele sabia que havia perdido... mas seus cálculos haviam sido perfeitos...dezesseis minutos para chegar lá, saindo as nove... caminhando o mais rápido que podia parando para observar o prédio... entrou na escadaria às nove e dezesseis.. . Temari deveria encontrá-lo lá, mas algo a atrasou e ele não conseguia saber o que. Mas era difícil se concentrar, conectar aquelas perguntas a ele e Temari, e a preocupação e o medo que havia sentido o dia todo começaram a se dissipar, afastado por um som que tinha o poder de deixá-lo... feliz. Ele estava envolto em um calor protetivo, mesmo enquanto sua vida se esvaía no chão.
Um grito de batalha cheio de ódio, saído da garganta de Temari.
Bem, fazia tempo que eu não lia esse capítulo, tinha esquecido o quanto ele era foda. Agora to querendo me matar porque essa fic não tem final...
