Capítulo Nove
Desinibido
- Não sei em que acreditar.
- Acredite nos seus próprios olhos. Fale com ele.
- E então o que? E se tudo o que ele disser for verdade, e o Rokudaime tenha deliberadamente o atacado? O que espera que eu faça?
- Não espero nada. Mas espero que você examine onde recai a sua lealdade: a um hokage ou a cada homem, mulher e criança que vivem nessa vila. Pessoas que você jurou proteger.
- Sou leal a ambos, Shikaku. Você pode fazer parecer que é fácil escolher um ou outro, mas não sou tão cego.
- O hokage é um escritório. E esse escritório serve as pessoas, não o contrário. Lealdade ao hokage é lealdade às pessoas, mas somente quando seus propósitos servem às necessidades deles.
- Não posso ouvir o que você está me dizendo. Você está falando de traição.
- Estou falando em generalidades. Se houvesse uma vila cujo kage fosse tão corrupto que assassinasse seus mais fiéis seguidores e tentar assassinar seus subordinados que confiaram nele e o procuraram para receber ordens, como você diria que a vila deveria lidar com ele?
- "Se" é a pergunta. E é a resposta que ainda está me escapando.
- Vá falar com ele, Hiashi.
- Vou pensar nisso.
X X X
Era difícil acreditar no quão bem Shikamaru parecia, considerando que apenas 24 horas antes ele estava próximo da morte, com o rosto tão pálido quanto as paredes estéreis ao redor dele, três médicos- nin trabalhando simultaneamente nele. Difícil de acreditar que ele esteve inconsciente enquanto bolsas e bolsas de sangue eram inseridas em suas veias. Temari esteve lá o tempo todo; foi contra as regras do hospital, claro, mas não havia um shinobi naquele hospital todo de quem ela tivesse medo, e nenhum pareceu disposto a confrontá-la. Então ela ficou. Não fora até essa manhã, depois que ele havia sido estabilizado da cirurgia e transfusões, que colocaram seu ombro de volta no lugar. Um ninja sentou em seu peito enquanto Sakura puxou e torceu seu braço para que voltasse ao lugar, e o rosto de Shikamaru ficou rígido de dor apesar de estar sedado.
Difícil acreditar que tanta coisa havia acontecido em tão pouco tempo. O exame dele. As brigas. Correr para tentar ajuda-lo. Assistir enquanto ele era ferido. O sangue. Ela não percebeu que ele havia sangrado em seu todo o seu vestido e pernas enquanto ela o carregava para fora até horas depois. Fora Ino quem lhe trouxera roupas limpas para que ela se trocasse e se limpasse o melhor que conseguisse com papel toalha, sabonete e lenços de álcool. Ela tentou fazer com que Temari fosse para casa à noite, e Temari havia concordado que era uma boa idéia. Mas ela... não podia. Naquele momento ele ainda estava em situação crítica, então as horas de visita não se aplicavam a ela. E não poderia se forçar a ir embora antes de vê-lo abrir os olhos. Então ela esperou que todos fossem embora e trocou de roupas no quarto com ele. Quase o desafiando a abrir os olhos e olhar para ela. Sabia que ele não acordaria; ainda estava drogado. Mas seria a cara dele esperar até que ela estivesse de roupas íntimas para abrir os olhos e dizer algo bem arrogante, como "Tem um banheiro para isso, sabe" ou "Só uma mulher para trocar de roupas doze vezes por dia, mesmo num hospital." Qualquer outro cara iria assoviar ou fazer uma piada sugestiva, mas não Shikamaru. Não, coisas daquele tipo estavam na categoria do flerte, e flertar era algo que ela o achava incapaz de fazer. Não com ela, pelo menos.
Mas ele não havia acordado, mesmo depois da oportunidade de caçoar dela. E ela nunca ficou confortável o suficiente na cadeira para dormir. Então ficou acordada a noite toda, observando-o. Observando e pensando porque era tão importante que ainda estivesse lá, mesmo que soubesse que o pior tinha passado e ele estava em boas mãos. Por que parecia que sua vigilância era a única coisa que o estava mantendo vivo? Parecia supersticioso, e era uma descoberta desconfortável; sugeria que ela ainda estava muito emocional, muito depois que a ameaça séria havia passado. Todas as outras pessoas já haviam se acalmado, feito sua visita e ido para casa. Até Yoshino havia aceitado a condição do filho, pelo menos aparentemente; quem saberia o que passava pela cabeça dela? Mas Temari ainda estava lá, exausta, com frio, sentada numa cadeira de metal dura e angulosa, com medo. Com medo de que algo desse errado, algo fosse esquecido e ele morresse e a deixasse viúva antes mesmo que ela fosse uma esposa de verdade. Com medo de que houvessem o anestesiado demais e ele não voltasse. Qualquer coisa. Qualquer coisa poderia dar errado, e ela não conseguiria descansar até saber que nada aconteceu.
Então, algum tempo depois que colocaram o ombro dele de volta no lugar e Sakura cortou a anestesia e o desentubou, Shikamaru acordou. E quanto ela viu os olhos dele se abrindo, olhando-a, reconhecendo-a, sentiu-se inundar de alívio de uma maneira que nunca havia experimentado antes. Mais forte até do que quando viu Gaara ser trazido de volta à vida. E como podia sentir aquilo? Como poderia ficar mais preocupada com o destino desse homem do que com o de seu próprio irmão?
E como parecia que toda a sua ansiedade havia desaparecido, simples assim? As primeiras palavras que ele disse foram perguntar a ela se ela estava doente. Preocupado com ela. E foi tão incongruente que seria cômico. Na verdade, era como ela se sentia. Com vontade de rir. Com vontade de se levantar e começar a andar... responder de alguma maneira física. Socá-lo no nariz. Sim, ela definitivamente queria socá-lo. Idiota. Assustando-a daquele jeito.
Mas ela não o socou; ao invés daquilo, pegou água para ele. E enquanto o observava beber, deitado na cama estreita de hospital com seu cabelo escuro espalhado ao seu redor como o de uma garota, acordado, se movendo e incontestavelmente vivo, ela percebeu: Não queria socá-lo de jeito nenhum. Não queria castigá-lo por sobreviver. Sobrevivência era algo que merecia ser celebrado, e era aquilo que queria fazer. Dar uma festa em homenagem à vida. Ou coisa do tipo.
Não que uma festa fosse possível no hospital, mas era um sentimento que permanecia com ela. Contentamento que se renovava toda vez que ela checava para ver se ele ainda estava acordado, que se transformava em júbilo quando ele sorria. Apenas vinte e quatro horas depois e ele estava saudável o suficiente para sorrir. Parecia um milagre.
Mas ela não havia esquecido o que ele lhe disse na escadaria. Você está atrasada. Não havia esquecido como ele a havia controlado, e ainda não tinha idéia do por que. Mas era uma coisa na qual ela colocaria um ponto final, aqui e agora. Ele sobreviveu: ok, bom. Ótimo. Ela não estava viúva e talvez tivesse mais sessenta anos para passar com ele. E aquilo era o tipo de coisa sem noção que precisava ser parado antes que ficasse fora de controle. Aquela... manipulação. Teria que fazer sua festa mais tarde.
Então ela esperou até que Sakura saísse, até que parecesse que ninguém apareceria por um tempo. Abriria o jogo com ele. Ele estava bem, falando e comendo e fazendo piadas e sorrindo; poderia lidar com alguma oposição. E estava cansada de ser despistada.
- Como você soube?
Ele a observou da cama, olhos cansados mas afiados.
- Soube o que?
- Não seja dissimulado. Como soube que eu viria? Digo, eu sei que você sabia. Planejou que eu estivesse lá o tempo todo, não?
- Não exatamente. Depois que recebi a carta, estava bem determinado a te manter em casa. Mas...
- Mas o que?
- Mudei de ideia.
Dizendo isso, ele fechou os olhos, como se houvesse terminado a explicação. Quase parecia que ia dormir novamente. Sem chance.
- Pare com as respostas encriptadas. – a kunoichi falou. - Você me enganou e eu quero saber o porquê.
Ele suspirou e abriu os olhos novamente. Ela percebeu que ele olhava para a caixa de rámen vazia então pegou o objeto e mostrou seu interior para que ele pudesse ver que não havia mais nada para implorar. Ele provavelmente não teve a intenção de parecer tão miserável quando viu que não havia mais; ela tinha certeza que ele não teve intenção de tocá-la no fundo do coração e fazê-la se sentir culpada por seguir as regras. A maior parte delas. Mas ainda a irritou.
- Não planejei te trazer comigo no começo. Não te queria perto do Danzo e você sabe o porquê. Ainda me sinto assim; acho que seria muito estúpido nós dois ficarmos sozinhos com ele. Mas você estava certa. Você merecia estar lá. E enquanto eu estava prestando o exame jounnin, cheguei à conclusão que precisaria de você para derrotar qualquer pessoa que Danzo preparasse para mim. Ele me conhece muito bem. Sabe quais são as minhas fraquezas. Mas nós dois temos menos fraquezas para explorar. E imaginei que qualquer um que fosse uma grande ameaça para mim seria alguém à sua altura, por causa de nossos estilos complementares de luta.
- Mas por que você não me disse?
- Você a pegou, não pegou?
- O que?
- Pegou o Gato. Na escadaria.
- Sim...
- Não deveria ter conseguido. Ela era muito rápida para você. Não muito mais, mas rápida o bastante.
Temari pôde sentir aquilo de novo, a frustração. Porque ele não estava apenas respondendo as perguntas dela. Estava dando voltas e fazendo com que ela trabalhasse por elas, e fosse ou não a intenção dele, era irritante.
- Shikamaru...
- Então como você a pegou? Como alcançou uma mulher que eu nem consegui ver?
Aquela pergunta fez com que ela pausasse, pois era algo em que se descobria pensando com frequência desde que Shikamaru estava estável o suficiente para que ela permitisse que sua mente vagasse. Como havia se movido tão rápido? Sentia como se houvesse se movido baseada em emoções naquele momento, tão sem foco em seu próprio corpo que ele se moveu sozinho. Como se ele quisesse ser mais rápido que O Gato.
- Fiquei... irritada.
- Furiosa.
Temari concordou com a cabeça.
- Não acho que você tenha idéia do quanto é perigosa quando está com raiva. Você controla bem suas emoções numa batalha, porque sabe que se ficar com raiva, medo ou presunçosa, vai perder seu foco. Certo?
Ela concordou novamente. Agora entendia onde ele estava indo com aquilo, e ainda tinha dificuldades em aceitar.
- Não precisava que você estivesse focada, eu planejava estar focado. Só precisava que você fosse uma força da natureza. E você foi.
- Eu não acredito. – A raiva fez com que ela se levantasse, mas não permitiria que fosse mais longe que aquilo. Ele não estava tão saudável assim. – Você ocultou informações de mim para que eu ficasse com raiva? É a coisa mais idiota que eu já ouvi!
- Não é idiota. Seria idiota se não houvesse funcionado.
- Não funcionou. Não estava com raiva de você, estava com raiva dela por te machucar. E me sentiria assim de qualquer maneira. Não precisava ter mentido para mim.
- Sim, mas meu plano não incluía ser ferido. Meu plano incluía que nos encontrássemos na escadaria e enfrentássemos nosso inimigo juntos.
- Então você não me contaria nem se isso acontecesse?
- Não planejava te contar, não.
- Quando você ia me contar?
Ele fez uma pausa antes de responder.
- Não planejei essa parte.
- Mentiroso. Você sempre planeja antes. Você não ia me contar. Ia deixar com que eu pensasse que encontrei uma brecha nas suas ordens, e que coincidentemente apareci a tempo de ser sua força da natureza ou o que seja, e nunca me contaria que havia planejado tudo antes.
Shikamaru abriu a boca para responder, mas ela ainda estava pressionando, toda a sua frustração vindo à tona de uma vez.
- E sabe o que isso me lembra? O seu pai. Mantendo tudo em segredo para que façamos as coisas da maneira que ele quer. Você está me tratando da mesma maneira com que ele trata a nós dois, e isso é cruel. Você detesta ficar desinformado tanto quanto eu. Então por que faz isso comigo?
- Porque eu tive que fazer isso, Temari. Você precisava da agressividade para ficar no nível dela. Ela teria te matado, também.
- Não, não teria, por que ela não me atacou.
Aquilo pareceu deixá-lo chocado.
- De maneira nenhuma?
- Não.
- Nem quando você a pegou?
- Ela me acertou uma vez, mas estava mais interessada em fugir que em lutar.
As sobrancelhas dele se franziram e ela pôde ver as engrenagens já se movendo no cérebro dele.
- Huh.
- Huh o que?
Ele balançou a cabeça.
- Nada.
- Não me venha com essa, Nara. Não esconda coisas de mim a não ser que queira outro inimigo.
- Não estou escondendo nada de você.
- Você está confuso e não me diz o porquê.
- Bem... – ele passou uma mão pelos cabelos. – Imaginei que Danzo estava mais preocupado em manter sua imagem limpa. Não achei que deixaria nenhum de nós sobreviver para acusá-lo.
Temari deu de ombros.
- Mas não faria sentido ela me atacar quando sabia que ia perder. Ela estaria morta e ainda sujaríamos o nome de Danzo.
- É. Talvez.
Ela podia dizer que ele ainda não estava convencido, mas era um tangente na qual não estava interessada no momento. Havia negócios a tratar.
- Escuta, você não pode esconder coisas de mim, me manipular e esperar que eu confie em você. Pessoas casadas são supostamente parceiras.
- Temari... Não sei o que estou fazendo, tá bem? Sou seu marido e jounnin. Qual dos papéis tem prioridade?
- Talvez dependa da situação.
- Mesmo? Quando seria normal esquecer o meu trabalho para ser seu cônjuge ideal?
Ela pensou naquilo, mas não tinha uma resposta. A verdade era que não havia maneira de ele pudesse ser seu marido ideal se fosse o tipo de cara que evitava seus deveres como shinobi.
- E quanto a você? – ele continuou. - Você desobedeceu a ordens para salvar seu marido?
- É diferente. Você me deu a ordem para ficar. E não estou te pedindo para me colocar antes do trabalho, estou pedindo para que use esse seu cérebro privilegiado para encontrar maneiras de fazer seu trabalho sem mentir para mim.
Shikamaru não disse nada por um momento. Remexeu seu suco e tomou alguns goles, engoliu e depois exalou lentamente. Lambeu os lábios.
- Me desculpe.
Ela fez uma ligação dupla mental.
- O que disse?
- Você me ouviu. Segui o plano que tinha melhores chances de sucesso. Mas provavelmente poderia ter criado outro se tivesse tentado mais. Não esperava que você ficasse tão brava com isso.
- Não, você não esperava que eu descobrisse.
Ele exalou novamente, dessa vez com mais frustração.
- Sabe, tenho destruído meu cérebro pela última semana tentando descobrir por que você tem uma resposta para cada coisa que sai da minha boca.
- Eu não tenho.
Ele arqueou uma sobrancelha, como se disesse "exatamente o que eu estava tentando dizer". Temari lutou consigo mesma sobre como poderia argumentar com aquilo, antes de se contentar em encará-lo.
- É porque você é uma mulher? – ele perguntou mais para si mesmo que para ela. – Acho que deve ser. Ino é do mesmo jeito e me deixa maluco. E mesmo depois de todos esses anos, ainda não descobri um jeito de fazê-la calar a boca.
Temari revirou os olhos. Ele deveria estar se sentindo ótimo se já estava fazendo apontamentos com relação a mulheres.
- Supere. – ela falou. - Isso não tem nada a ver com ser homem ou mulher, e tudo a ver com o fato de que você age como se soubesse tudo, mesmo depois que admite que não sabe nada. Não teria que discutir com você se você ouvisse o que eu digo de vez em quando, ao invés de concluir que eu sou uma idiota só porque tenho peitos. E por falar nisso, "fazê-la calar a boca"? Sério? Essa é a coisa mais arrogante que já te ouvi dizer. Mais arrogante que quando você tentou me convencer que não poderia me deixar te proteger porque você é um homem. Não sei o que ... te faz pensar... que você... pode...
Ela começou a perder a linha de raciocínio quando ele levantou a mão esquerda para segurar a frente de seu vestido e a puxar para baixo. Então ela descobriu que era impossível falar, porque algo estava pressionado contra seus lábios.
Era a boca dele.
Por um instante, a mente dela parou; a única coisa que sabia era o que estava sentindo. O rosto dele ali, bloqueando o ar e fazendo com que ficasse difícil respirar. Suas mãos espalmadas no peito dele porque instintivamente ela evitou colocar muito peso sobre seu ombro. Seu joelho estava apoiado de maneira dolorosa contra o metal da borda da cama dele. Mas quando as sinapses voltaram a funcionar ela percebeu, com uma torrente de emoções contraditórias, que ele estava a beijando. Lábios colados, da maneira que as pessoas que estavam apaixonadas uma pela outra faziam. Ele não estava reclamando sobre as atitudes dela. Não estava suspirando pesadamente. Não estava dizendo o quanto ela era problemática. Beijando.
Os lábios dele mal se moviam, os dela não se mexeram antes que ele a soltasse e a deixasse afundar na beirada da cama. Mas quando ela o olhou ele estava sorrindo com o canto dos lábios, olhos brilhantes de surpresa e perplexidade.
- Funcionou. - ele disse.
Temari abriu a boca, tentando pensar numa resposta. Nada inteligente lhe veio à mente.
- Hun?
O sorriso dele aumentou, surpresa substituída por diversão.
- Você parou de discutir.
- Você... – ela se deu conta do que ele tinha feito e ficou furiosa, calor de vergonha subindo por seu rosto. Claro. Só outra tática, outra maneira de usar a personalidade dela contra ela mesma para conseguir o que ele quisesse. – Você me beijou para que eu calasse a boca?
- É, mais ou menos.
- Você não pode... você só... – ela gaguejou, forçando as palavras por seus dentes cerrados. – Isso é tão... o que tem de errado com você? Quem você pensa que é? Um... cara... idiota.. que pode ...
Dedos se fecharam na frente de seu vestido novamente, puxando. Ele se levantou um pouco, olhos escuros aprisionaram o olhar dela. O rosto dele ficou mais próximo, narizes se tocaram, lábios se encontraram e o bla bla bla fútil dela se transformou num gemido abrupto e indignado. Ele a beijou de verdade daquela vez, lábios exigentes e responsivos, e ela se viu retribuindo apesar de sua indignação. Não, sua raiva. Apesar do fato que o que ela realmente queria fazer era empurrá-lo e... socá-lo. Na boca. Não beijá-lo na boca, aquilo não resolveria nada. Mas não conseguia se fazer parar, e ele teve a audácia de dar uma risadinha no meio do beijo. Rindo dela.
Quando ele se afastou o sorriso bobo ainda estava em seu rosto, mesmo quando seu rosto de contraiu de dor enquanto ele voltava a se deitar na cama. E ela foi deixada tão paralisada quanto antes. Sabia que estava ficando nas mãos dele por não conseguir dizer nada depois de tal manobra, mas quanto mais ela tentava a retaliação, mais difícil era falar.
- Diz alguma coisa. – ele disse. Provocando.
Temari finalmente encontrou sua voz, que voltou de uma vez.
- Você é um idiota e eu te odeio.
Shikamaru fechou os olhos e cruzou os dedos em cima do abdômen, a imagem do contentamento.
- Não, não odeia.
Um calafrio percorreu o corpo dela, porque ele estava absolutamente certo. Não o odiava. Nunca havia o odiado. Estava brava com ele, frustrada com ele, era desconcertada por ele, mas o único sentimento que nunca conseguiu conjurar era ódio.
Ele abriu um dos olhos e a espiou, depois fechou-o novamente e o canto de sua boca se curvou um pouco. E ela se fixou naquele sorriso irritante como o símbolo de tudo o que estava errado em sua vida; todos os homens mandões e dominadores. Vinham em todos os modelos diferentes, dos cálculos frios de Gaara, aos segredos de Shikaku, a Shikamaru rompendo cada uma de suas barreiras rudemente. Ele pensava que a tinha na mão; bem, ela estava cansada de ser tão fácil de se entender. Estava cansada de fazer exatamente o que ele esperava. E era tempo de alguém tirar aquele sorrisinho dos lábios dele.
Ela se inclinou e segurou o rosto dele entre as mãos, beijando-o com tanta força e tanta vontade que ele fez um som abafado de surpresa. Ele tentou levar a mão para as costas dela,mas ela agarrou seu pulso e segurou-o para baixo, prendendo-o na cama ao lado dele. Ela precisava daquilo. Precisava dominá-lo e fazer do jeito dela, aliviar a tensão que se acumulara em seu corpo a semana toda. Gritar não tinha adiantado. Destruir árvores não tinha adiantado. Até quebrar o maxilar do Gato não tinha feito nada mais que fazê-la desejar ter partido o crânio da mulher também. Mas ela poderia dirigir sua agressividade para a boca dele, mostrar quem era o chefe, se afastar toda vez que ele tentasse beijá-la de volta e deixá-lo sem balanço e insatisfeito, depois escolher um momento aleatório para deixá-lo capturá-la, só por um segundo, o suficiente para que ele mostrasse sua gratidão antes que ela continuasse. Ela podia morder o lábio inferior do ninja das sombras e sentir a respiração entrecortada dele. De todas as batalhas que havia perdido desde aquela noite em que Gaara lhe disse que se casaria, essa era uma que ela podia ganhar.
Ela o beijou até que não se sentia mais irritada, até poder pensar nele sem querer machucá-lo. Então ela se afastou, deixando-o com olhos arregalados de surpresa e a boca entreaberta. Temari pode apenas desejar que ela não tivesse ficado tão boba depois que ele a beijou. Ele riu, mais um engasgo de incredulidade do que outra coisa, e os olhos dele se fixaram no rosto dela.
- Diz alguma coisa. – ela disse, adicionando uma dose extra de sarcasmo para a ocasião.
Ele riu de novo, perplexo.
- Ai.
E foi então que ela percebeu que seu tronco estava apoiado no dele.
- Oh! – ela disse enquanto se levantava rapidamente. – Me desculpe!
Shuikamaru colocou a mão no abdômen e o apalpou um pouco, sorrindo.
- Talvez te molestar no hospital não tenha sido uma ideia muito boa.
- Você está bem? Quer que eu chame um médico?
- Nah, estou bem.
- Não está se fazendo de durão, está?
- Provavelmente um pouquinho.
- Bem, não faça. Se tem algo que eu possa fazer por você, me diga.
Ele concordou com a cabeça, então segurou atrás do pescoço dela e a puxou para si.
- Se puder encontrar uma maneira de me beijar daquele jeito de novo sem me machucar, seria bom.
Ela riu um pouco.
- Duvido que seja tão... explosivo.
- Eu aceito como for.
Temari colocou uma mão em cada lado dele para se apoiar e manter seu peso longe do corpo dele, depois se inclinou e roçou os lábios nos dele.
- Tudo bem?
- Mm-hm.
- Tem certeza? Por que posso parar se você...
Shikamaru a cortou da maneira que ela já estava esperando, mas aquilo ainda tinha o poder de deixá-la atordoada. Agora ele estava no comando, apesar de ela ainda estar por cima dele, mas ela percebeu que precisava daquilo, também. Precisava deixar que ele fizesse do jeito dele por um tempo, porque os beijos dele estavam aliviando uma dor que ela tinha no peito desde o primeiro dia. Nunca havia a percebido até agora, ou, se percebeu, não foi até senti-la se dissolvendo e ser capaz de apontar um dedo e dar um nome a ela pelo que era: medo de que ele nunca quisesse beijá-la daquela maneira. Que ele nunca pensasse nela como uma esposa de verdade, só como uma que lhe fora forçada pela conveniência. Mas o tremor leve nos dedos dele no pescoço dela era toda a evidência que ela precisava para saber que não poderia estar mais errada. E reconhecer o quão próximo ela esteve de nunca saber como ele se sentia fez com que seu fôlego ficasse preso na garganta.
- Shikamaru...
- Hm?
- Estou feliz por você não ter morrido.
Ele a olhou de maneira séria.
- Estou feliz por você ter ido atrás de mim.
- E uh... só para registrar, não acho o seu cabelo ridículo. Na verdade é muito sexy.
Era um daqueles comentários que ela fazia antes de pensar. Mesmo antes de ter admitido para si mesma. E, infelizmente, era verdade.
Ele riu de maneira incrédula.
- E os meus olhos?
- Vagos.
- Ah.
- Mas tudo bem. – ela disse enquanto se rendia à súbita necessidade de tocar os cabelos dele com seus próprios dedos. – Um de nós tem que ser bonito, e o outro inteligente. De outra forma fica desequilibrado.
- Huh. Acho que sou supérfluo, então.
Surpresa, ela riu.
- Quem diria. Você sabe flertar.
Ele ficou rosa com o comentário, o que pareceu bem nele. Era a primeira cor que ela via no rosto dele desde ontem.
- Eu não estava flertando. Flertar é algo que garotas adolescentes fazem. Ino flerta. Eu não flerto.
- Então você flerta distraidamente.
- Não me faça de beijar de novo para te fazer calar a boca.
- Fler...
Temari nem consegui terminar a palavra antes que ele a puxasse com raiva e cobrisse sua boca com a dele, o que era exatamente o que ela queria. Mas assim que ele a beijou, ela ouviu a porta sendo aberta. E uma voz masculina entusiasmada encheu o ar, antes de falhar, surpresa.
X X X
Shikamaru de repente descobriu seus lábios frustrantemente desocupados quando Naruto entrou no quarto, tirando a atenção de Temari dele. Ótimo, era justamente o que ele precisava. Sua primeira sessão de amassos interrompida por... bem, ninguém.
- Hey, adivinha! – Naruto berrou. – Consegui... algumas...
Ele os encarou, chocado, antes que um sorriso se espalhasse por seu rosto.
- Devo voltar mais tarde?
Shikamaru disse "sim" ao mesmo tempo que Temari disse "Tudo bem". O Nara dirigiu um olhar para ela, tentando fazê-la perceber o quanto ele ficar não era bem. Ela só sorriu para ele.
- Vocês deveriam colocar um aviso na porta! – Naruto comentou, mas já estava atravessando o quarto e se sentando numa cadeira vazia. Ele entregou a Shikamaru uma pequena bolsa de tecido, e o Nara chacoalhou a bolsinha. Pequenas peças de madeira fizeram barulho. Peças de shougi.
- Não acredito que encontrou. – Shikamaru disse. Ele abriu a bolsa e despejou seu conteúdo em uma das mãos. Madeira lisa e interminada, branca dos dois lados e incrivelmente suave. – Não achava que alguém estava gastando tempo e dinheiro em coisas como essa com toda a reconstrução da Vila. – Era verdade. Seu pai fora forçado a trazer um tabuleiro de Suna em sua última viagem, por mais pesado que fosse.
- Não estão. – Naruto respondeu. – Então pedi para o Yamato. Ele fez as peças limpas assim. – ele estralou os dedos. – Muito rápido.
- É, bem pensado. Tem uma caneta?
- Sim.
Temari observava a cena com sobrancelhas erguidas, e parecia que sua curiosidade finalmente tinha levado a melhor sobre ela.
- O que você está fazendo?
Shikamaru apontou com a cabeça para Naruto e pegou a caneta.
- Vou ensiná-lo a chutar seu traseiro no shougi.
A resposta dela foi a mesma de Naruto, ceticismo. Ele ignorou a reação e voltou a trabalhar nas peças. Demorou um minuto para descobrir uma forma de colocar tanta informação em uma única peça, mas quando terminou parecia bom, e ele mostrou a peça para Naruto.
- Está vendo? Esse é o Kei. - Ele apontou para o kanji perto do topo da peça. Depois apontou onde havia escrito seu próprio nome embaixo do kanji, e embaixo disso desenhou uma representação icônica de sua cabeça. – Sou eu, está vendo? Eu sou o Kei.- Naruto apertou os olhos e Shikamaru virou a peça. – Quando for promovido, serei o Narikei. – Ele havia desenhado sua própria cabeça do outro lado também, junto com o kanji de sua nova posição. – Entendeu?
- Ok.
Shikamaru preencheu outra peça com o kanji do Kin, depois escreveu o nome de Gaara debaixo e desenhou o ruivo, apenas reconhecível por causa dos olhos delineados de negro e o cabelo revolto. Mostrou a peça a Naruto.
- Gaara. - disse como se não fosse óbvio.
Ele preencheu mais algumas.
- Esse Gyn é Hinata, e o Ryuu é o Lee.
Naruto sorriu.
- O dragão.
- Certo. E temos Neji, Kakashi e Iruka... consegue pensar em mais alguém?
- Sasuke e Sakura.
- Ok. – ele preencheu aqueles e colocou as peças no colo. Fez Sakura o outro Gin, e Sasuke o Ou. O Rei. Parecia um pouco cruel fazer aquilo, mas confiava que Naruto entenderia. Desenhar Sasuke era difícil, parecia uma ferramenta o que quer que Shikamaru fizesse.
Shikamaru continuou com o resto das peças, desenhando as pequenas caricaturas que ele usava quando traçava planos para seus times, colocando a de Naruto em todos os peões. Assim que terminou deu as peças a Temari. Estava prestes a pedir o tableiro de Shougi, mas ela já estava colocando-o em seu colo, ajudando-o a posicionar as peças em ordem: as normais de um lado, as novas e especiais do outro.
- Essas são suas novas peças. – ele disse apontando para aquelas com os nomes e rostos dos amigos de Naruto. – Sua fraqueza no shougi é porque você não acha que é importante. Não imagina as peças como soldados de verdade. Mas observe a Hinata aqui.
- Hinata? - Naruto pegou a peça do tabuleiro e estudou o pequeno desenho. Seu rosto estava bem mais pensativo do que Shikamaru esperava, mas resolveu trabalhar com aquilo.
- Vai mandá-la para a batalha. E você é o capitão dela. Quer dizer que ela confia em você para lhe dar as melhores ordens, para que ela não seja capturada ou morta. Certo?
Naruto concordou, ainda observando a peça.
- O mesmo acontece com seus outros subordinados. Você é o único que pode protegê-los, porque ele vão fazer o que você mandar. Depende de você mantê-los a salvo. E a única maneira de mantê-los assim é derrotando o Rei desafiante.
- Ok.
Shikamaru pegou a peça Hinata e recolocou-a no tabuleiro e rearranjou as peças para que ela ficasse em iminente perigo. Ele colocou seu próprio Kei adiante de maneira que um movimento lhe permitisse proteger Hinata.
- Às vezes é necessário que um dos membros de seu time se sacrifique. – ele movimentou sua peça, bloqueando o Ryuu adversário que ameaçava Hinata. Depois fez com que sua própria peça fosse capturada no lugar de Hinata. Pegou a peça e mostrou para Naruto. – Pertenço ao inimigo agora, certo?
Naruto concordou. Parecia perturbado com o desenvolvimento.
- Mas vamos fingir que você sabe que eu serei capturado e você escolheu me colocar nessa posição, e então posso ser resgatado no final do jogo. É um blefe, estamos apenas enganando o inimigo para ganhar tempo. – Não era uma boa logística de batalha, mas o rosto de Naruto indicava que ele tinha entendido. Funcionava para os propósitos do jogo.
- Mas... – Shikamaru continuou, usando a peça de Hinata para capturar o Ryuu, colocando-a "inadvertidamente" no caminho de um Kaku inimigo. Naruto viu a ameaça e levantou uma mão para pará-lo, mas Shikamaru deixou Hinata onde estava. – Mas se perder sua peça por descuido, acidente ou mau planejamento... – ele moveu o Kaku para capturar Hinata. - ... essa peça pertence ao inimigo para sempre. Morto ou atuando contra sua própria Vila, não importa. Eles estão perdidos e você falhou.
Olhou para Naruto. Ele estava observando o tabuleiro com a mandíbula cerrada.
- Só você vai saber a causa da perda de um dos seus colegas de time: uma estratégia boa, ou ser vítima de uma. Às vezes vai ser forçado a sacrificar uma peça pelo bem de outra, mas não ter escolha quer dizer que perdeu aquela batalha em particular. E você é quem tem que conviver com suas decisões. Outra coisa.
Naruto o encarou, olhos duros.
- Tem uma peça do tabuleiro que não pode ser sacrificada, certo? – ele tocou no Rei, Sasuke. – Se perder seu Rei, o jogo acabou. – Ele moveu o Kaku que capturara Hinata para capturar Sasuke. – Se perder o Rei... - pegou a peça e mostrou-a para Naruto, e com um truque de mão fez com que ela sumisse entre seus dedos. -...você não o recupera.
Depois de um momento, Naruto concordou com um aceno de cabeça.
Shikamaru fez a peça de Sasuke reaparecer, depois entregou-a a Naruto.
- Por que não tenta? Veja se consegue ganhar dela agora.
Depois percebeu que nunca havia perguntado a Temari se ela queria jogar novamente, mas quando se virou ela já estava tirando o tabuleiro de seu colo e colocando as peças em posição inicial. Que mulher. Como ele queria ter privacidade.
Naruto carregou sua cadeira para o outro lado da cama e sentou-se de frente para Temari, ficando com o lado personalizado enquanto ela ficava com as peças comuns.
- Por falar nisso, - Naruto começou. - vi seu pai. Acho que ele vai voltar agora à tarde.
- Voltar?
- Ele esteve aqui algumas vezes. – Temari disse. – Ontem, na verdade. Foi quando ele trouxe o tabuleiro, mas ninguém quis jogar até hoje de manhã.
Lá estava novamente, o tom frio na voz dela quando ela mencionou seu pai. Ele havia deixado passar antes, mas era algo que precisava ser esclarecido, tendo gente com eles ou não. Bem, ter alguém lá requeria que ele fosse mais enigmático sobre o assunto, mas ele não permitira que sentimentos frios existissem entre as duas pessoas mais importantes de sua vida. Não com a ameaça de guerra no ar.
- Temari?
- Hm? - ela já estava concentrada no jogo, nem piscava.
- Algo... aconteceu?
Ela não o olhou, mas ele percebeu alguns músculos de contraírem em suas têmporas.
- Sim. Dois minutos extras antes de eu te alcançar.
- Espera aí... está dizendo que ele é o motivo pelo qual você...
Ela concordou com a cabeça.
Shikamaru abriu a boca, fechou-a novamente. Não fazia sentido nenhum. Seu pai sabia que ele planejava que Temari interviesse; havia avisado ontem pela manhã, antes que Shikaku saísse para preparar seu time. Por que ele a atrasou?
Mas manteve os pensamentos para si próprio. Era melhor perguntar para Shikaku diretamente. Certamente ele tinha suas razões; talvez tenha visto que Temari estava instável demais, ou talvez planejasse entrar ele próprio... poderiam ser muitas coisas. Talvez a chegada de Temari tenha interferido em algum aspecto do plano que Shikamaru não conhecia. Ele não tinha muitas informações, então não havia motivos para se estressar com aquilo. Ainda não.
Além disso, ele estava cansado. Não queria admitir, mas dar uns amassos com Temari havia levado muita de sua energia. E estava começando a sentir dores em seu estômago que não eram preocupantes, apenas desconfortáveis. O efeito dos analgésicos deveria estar passando, como Sakura havia dito, e ele sentia seu humor mudando de feliz para amargo. Lhe ocorreu pensar que talvez ainda estivesse meio dopado quando beijou Temari.
Mas o tic... tic... tic... das peças de shougi eram tão relaxantes quanto poucos outros tipos de som podem ser, e ele se viu cochilando apesar de seu desconforto. Depois de um tempo ouviu o clique e o chiado dos controles da cama; Temari estava abaixando para ele. Ele observou o rosto dela estudando-o, seu rosto e lábios estavam tão perto. Poderiam estar muito longe também.
E ele estava capturado pelo modo que ela parecia saber do que ele precisava, e providenciava sem que ele pedisse. Toda vez. A água, o suco, o rámen. Levantando e inclinando sua cama. O tabuleiro de Shougi. Eram pequenas coisas, claro, mas eram essas pequenas coisas que eram seus maiores desafios agora. E ela providenciava tudo como se pudesse ver dentro de seu cérebro e adivinhar o que ele queria. Mas talvez fosse porque ele estava ferido. Ela não havia feito aquilo sempre, havia?
Logo percebeu que a resposta era óbvia: claro que ela havia feito. Ele podia se lembrar de uma dúzia de vezes em que ela havia feito algo do tipo. Levou almoço para ele quando ele acordou no hotel no primeiro dia. Às três da tarde. Ajudando-o na discussão com seu pai quando ele não sabia o que dizer. Sempre antecipando o que ele queria quando a levou para a escola, e ele nunca precisou pedir nada diretamente.
E agora estava tudo claro, o padrão das interações deles desde o dia em que se conheceram. Bem, talvez não no primeiro dia, não havia nada solícito nela no Exame Chuunin. Mas em todos os dias que se seguiram. Vindo salvá-lo quando aquela mulher do Som estava para transformá-lo numa estatística de chuunins de doze anos. Simplesmente compreendendo os métodos dele e reagindo sem perguntas quando enfrentavam inimigos comuns. Não eram os ferimentos dele, era ela.
Shikamaru não sabia bem o que fazer com aquela informação. Não casava de forma nenhuma com tudo o que ele imaginava quando pensava nela: antagonismo, teimosia, mandona... era aquela a imagem que ela sempre projetava, com ele mais do que com qualquer outra pessoa. E o que ninguém nunca poderia dizer sobre Temari era que ela era só papo; ela realmente fazia o que dizia, e era tão perigosa quanto aparentava ser.
Tentar entender estava fazendo sua cabeça doer. Como se seu corpo já não doesse o suficiente. Talvez ele devesse se focar em dormir.
- Nossa, Shikamaru. – a voz de Temari interrompeu seus pensamentos, e ele abriu seus olhos para vê-la examinando-o, claramente preocupada. – Se você está sentindo dor deveria avisar alguém. Não fique aí como se fosse um cara durão e tivesse que lidar com isso; não faz sentido quando você sabe que existem pelo menos dez pessoas diferentes nesse hospital que podem te ajudar.
- É uma tolerância masculina. – ele disse.
Ela ergueu uma sobrancelha.
- Você inventou isso.
- Não. É um lema masculino que não é dito.
- Chega. Você está sendo ridículo e deveria estar descansando. Vou buscar a Sakura.
Ele quase disse "Sim, senhora", mas aquilo o enjoou. Levou um segundo para descobrir o por que: era a mesma coisa que seu pai sempre dizia para sua mãe. Tinha que ter certeza que evitaria aquela frase no futuro, então por enquanto escolheu um "Obrigado, Chefe."
Ela balançou a cabeça, mas ele pôde ver um pequeno sorriso em seus lábios antes que ela saísse do quarto.
Ele ouviu o tic de uma peça de shougi. Naruto.
- Como estão as coisas aí?
- Bem, eu acho.
- Quanto soldados você ainda tem?
- Bem... perdi todos os meus peões...
Claro. Confie em Naruto para se sacrificar antes.
- ... mas apesar disso ainda tenho todas menos Kakashi-sensei e Neji.
- Sacrifícios ou prisioneiros?
- Sacrifícios.
- Bom. E quantas peças Temari têm?
- Umm... seis.
- O que? – Shikamaru se ergueu da cama antes que pudesse pensar, para ver o tabuleiro. Dor fez com que ele perdesse o fôlego. – Sério?
Era sério. Ela ainda tinha o rei, um Narigin, seus dois Kaku, um dos quais fora promovido a Uma. Havia também adicionado Kakashi e Neji à sua tropa.
Naruto tinha várias peças de Temari, e nenhuma estava no jogo.
- Eu dormi ou coisa do tipo? – Shikamaru perguntou.
- Talvez. Você ficou quieto por um tempo.
- Você pode usar as peças dela contra ela, você sabe. – ele disse. Como se precisasse. Naruto ia destruí-la em minuto.
- Não quero. São o inimigo.
- E daí? Temari também era, há quatro anos atrás. E Gaara. Você, sobre todas as pessoas, deveria entender o conceito de assimilar seus oponentes.
- Acho que sim. Hey, quer saber... Acho que vou ganhar.
- Você vai ganhar.
- Legal! Obrigado.
- Sem problemas. Só espero que Temari não me mate.
- Ela não vai te matar. – Naruto disse. Arqueou as sobrancelhas. – Mas aposto que ela vai te beijar.
- Não seja esquisito. – Shikamaru disse. Embaraço fez com que ele se deitasse novamente. – Isso é particular.
- Não quando você está num lugar público, não é.
- Só porque estou preso aqui.
Naruto riu.
X X X
Temari voltou com Sakura rapidamente, que depois de examinar Shikamaru chegou à conclusão de que ele estava "se esforçando demais". Esse diagnóstico fez com que Naruto risse. Não sabia como Temari havia reagido; tudo o que ouviu foi o som de um tapa seguido por um "Ai!" indignado e os olhos de Sakura se arregalaram.
Ela gastou alguns minutos usando chakra em seus ferimentos novamente, mas estava hesitante em lhe dar mais sedativos, depois das 24 horas que ele havia passado em coma induzido. Então colocou seus dedos nas têmporas dele para ajudar a aliviar a dor que ainda restava, depois ordenou que ele fosse com calma sob ameaça de passar mais que os dois dias previstos no hospital e ficar sem sua gelatina no jantar. Ela provavelmente não sabia que motivação forte eram aquelas duas coisas; Shikamaru reclinou sua cama imediatamente e jurou mentalmente não fazer nada mais que ficar deitado e ser beijado, assim que a oportunidade aparecesse novamente.
Infelizmente, parecia que a curta meia hora que ele passou com Temari era a última de privacidade que eles teriam. As notícias de que Shikamaru estava acordado deviam ter se espalhado, porque as visitas começaram a aparecer em intervalos curtos ou seguidamente. Além disso, Naruto ficou lá o tempo todo, jogando Shougi com Temari. Não demorou muito para que ele a derrotasse, e Temari concedeu a vitória graciosamente, mas demandou uma revanche, sugerindo que havia subestimado Naruto e precisava de outra chance para encará-lo seriamente. E o Jogo Dois começou. Parecia ser ótimo entretenimento, pois as visitas inevitavelmente se reuniam ao redor da mesa, observando os jogadores. Não parecia que Temari estava pegando leve com Naruto, o som das peças eram pontuados por gemidos desapontados, e até um grito de "Coloque-a de volta!".
A maioria dos visitantes eram pessoas que ele conhecia bem: Kurenai, parecendo grávida o suficiente para precisar ser internada ela própria, Lee e Tenten, Kiba e Shino, Ino e Chouji, junto com outros conhecidos, como Ogawa-san. Ela lhe deu uma caixa grande churrasco, e doeu fisicamente dá-la a Chouji quando ela foi embora, seu estômago se torcendo contra aquilo.
E as flores e cestas de frutas e origamis continuaram a chegar, muitas acompanhadas por cartões assinados por pessoas que ele nem conhecia. Mas nenhum dos arranjos era tão notável quanto a monstruosidade que fora levada por Shiho enquanto Chouji e Ino ainda estavam visitando. Ela colocou perto da janela, depois desapareceu na ponta da cama, e ele pode ver o que parecia ser o topo de uma pequena árvore que se apoiava na parede. Depois ela finalmente apareceu, com o rosto vermelho e cabelo desgrenhado. Seus óculos estavam tortos, ela os ajeitou.
- Não quero que bloqueie a tomada. Poderia representar risco de incêndio.
Ele simplesmente balançou a cabeça.
- É do departamento de Criptologia.
- Oh, obrigada. Muito... gentil da sua parte.
Ela pareceu brilhar de alegria.
- Eu fiquei sabendo, quero dizer, nós ficamos sabendo hoje que você estava no Hospital. Nem sabia que você estava doente. Não se ouve muitas fofocas no laboratório. Quero dizer... novidades. Você sabe, estamos sempre ocupados.
- É, eu sei.
- Então. – ela tirou uma mecha de cabelos do rosto, mas ele voltou para onde estava imediatamente. – Está se sentindo bem?
- Não muito mal.
- Isso é bom. Você deveria estar focado em se cuidar. Sabe, se tem alguma coisa que precisa deveria pedir. Não tente fazer tudo sozinho.
- Ok. – Era uma coisa engraçada para ela dizer, por algumas razões: primeiro, ele achava que ela não sabia porque ele realmente estava no hospital, parecia estar jogando generalidades que só se aplicavam por serem muito genéricas. Dois, ela soava como a Temari, sem o tom autoritário na voz.
- Quero dizer... – ela assoprou o cabelo novamente, depois desistiu e empurrou-o para longe do rosto. – Sabe, posso ajudar se precisar de alguma coisa. Qualquer coisa. É só pedir.
O que apenas o lembrou o quão entranho e legal era o fato de Temari não precisava pedir.
- Ok, obrigado.
- Então, você precisa?
- Preciso do que?
- De alguma coisa?
Sim. Comida, um elástico de cabelo e calças.
- Acho que estou bem. Ou ficarei, assim que Sakura voltar com um frasco novo de soro para eu comer.
Shiho riu com o comentário, durante tempo o suficiente para que ele se perguntasse se o que ele disse e o que ela ouviu eram a mesma coisa.
- Wow. – ela continuou. – É realmente impressionante que você consiga manter seu senso de humor nessa situação.
- Temari. – Naruto cortou, soando impaciente. – É sua vez! Anda logo pra eu poder armar minha armadilha!
Shikamaru olhou para o lado para ver Temari recostada na cadeira, braços cruzados, encarando Shiho com expressão divertida. Ino estava olhando para ela, lábios apertados em sua clássica cara de "tentando não cair da gargalhada".
- Oi. – Temari disse e Shiho se virou para ela, confusa por ter sido cumprimentada por uma estranha. Mas sorriu contidamente.
- Olá.
- Não fomos apresentadas, fomos?
- Não... – Shiho balançou a cabeça. – Acho que não. Meu nome é Shiho.
- Temari. - ela respondeu sorrindo. – Nara Temari.
Shikamaru ficou surpreso por ela usar seu sobrenome abertamente, e tentou conter o sorriso que se formava em seus lábios. Nara Temari. Aquilo soava tão bem. Deslizava pela língua. Nara Temari.
Mas Shiho apenas respondeu "Prazer em conhecê-la" e voltou a olhar para ele, o que fez com que Shikamaru imaginasse se ela havia se dado conta que Temari era sua mulher. Não ouviam muitas fofocas no laboratório, ela disse. Ela sabia que ele era casado? Ele tinha apenas 16 anos, faria mais sentido se Temari fosse uma prima ou algo do tipo. Ele suspirou; teria que fazer a terrível apresentação formal para deixar aquilo claro. Problemático.
Mas Shiho já havia voltado ao seu normal em um segundo. Parecia que estava perpetuamente ansiosa ou coisa do tipo.
- Certo, então me avise, que dizer, nos avise, o Laboratório de Criptologia, se precisar de ajuda em alguma coisa enquanto estiver no hospital. Faz mas sentido se você me pedir diretamente, já que somos conhecidos, mas o importante é que não faça muito esforço para que melhore.
- Shiho.
Shikamaru sentiu dedos tocando sua mão; Temari estava se inclinando para frente com um sorriso que parecia estralar. Os olhos de Shiho se arregalaram, e Shikamaru ficou com a sensação desconfortável de que estava no caminho de algo perigoso. Como um trem.
- Sim?
- Acho que cubro esse departamento. – Temari disse enquanto acariciava a mão dele. – Mas se ele precisar de alguma decodificação, te aviso.
Shiho deu um passo para trás, piscando rapidamente. Ela ajustou os óculos novamente. Engoliu.
- Oh. – foi tudo o que ela disse. O que fez o fato de que Temari tivesse uma resposta ser muito estranho.
- É.
- Bem, acho que devo voltar para o laboratório.
Temari não respondeu dessa vez, mas seus dedos deixaram a mão de Shikamaru e houve um tic no tabuleiro de Shougi.
- Há! – disse Naruto.
- Obrigado pela... árvore. – Shikamaru não soube mais o que dizer. Houve uma mudança drástica na atmosfera do quarto e ele não sabia bem o por que.
Shiho apenas concordou, e já saía do quarto.
- Melhore rápido.
Shikamaru abriu a boca para responder, mas Temari o fez antes dele.
- Oh, ele vai. Prazer em conhecê-la.
- O prazer foi meu. – Shiho respondeu sem convencer. Ela saiu, e se passaram cinco segundos inteiros de silêncio antes de Ino cair na gargalhada.
- O que acabou de acontecer? - Shikamaru perguntou.
- Não estava prestando atenção? - Temari respondeu. – Uma garota te trouxe uma árvore.
- Temari-san, você é assustadora! – Ino comentou.
- Não faço idéia a que você se refere.
- Xeque-mate!- gritou Naruto, no que foi respondido por um palavrão pouco feminino por parte de Temari.
- Estava distraída. Revanche.
- Qualquer hora ou lugar.
- Aqui e agora.
Shikamaru gemeu e revirou os olhos.
- Vocês podem não ter outra partida agora? – daquele jeito ele nunca ficaria sozinho com Temari. Mas ele deveria ter previsto aquilo quando começou a rivalidade no Shougi.
-Oh, tudo bem. – Temari respondeu antes de apontar um dedo para Naruto. - Mais tarde.
- Pode vir!
Depois que Naruto ajudou Temari a guardar o tabuleiro, Ino e Chouji se despediram e foram embora. O que deixava Shikamaru com uma visita hiperativa e loira. Não era como se ele não quisesse Naruto lá, entre eles haviam desenvolvido o hábito de fazer companhia um para o outro quando estavam no hospital. Mas Temari estava tão próxima, o tecido do vestido dela roçava nos dedos de sua mão esquerda e tudo o que ele queria era puxar aquele vestido novamente e trazê-la para ele. Só por um minuto; ele ficaria feliz se pudesse ficar sozinho por um minuto para beijá-la. Agora seria um momento oportuno para Naruto ir ao banheiro ou coisa do tipo.
- Naruto. - Temari disse, lendo sua mente como de costume. – Pode fazer algo para mim?
- Claro.
- Vá atrás da Sakura e diga que Shikamaru está pronto para comer gelatina.
- Pffff. Você quer que eu saia para vocês se agarrarem.
- Não, quero que você saia para que não assista enquanto nos agarramos.
Naruto ergueu as mãos em rendição.
- Estou indo, estou indo!
- Bom garoto.
Temari ficou imóvel, observando enquanto Naruto saía e a porta se fechava totalmente atrás dele. Então Shikamaru sentiu o peso dela sobre ele, os seios dela sobre o peito dele e os lábios dela sobre os dele, angulada de maneira que não atingisse seu ferimento. Ela o beijou freneticamente como se estivesse tentando aproveitar o tempo antes que Naruto voltasse, e Shikamaru se permitiu aproveitar, apenas participando o suficiente quando ela deixava que ele a beijasse de volta. Que outra escolha ele tinha além de deixar os lábios dela passearem por seu rosto e levassem o que queriam? Só estava seguindo ordens médicas.
- Sou só eu... – ela disse entre os beijos. – Mas essas foram as duas horas mais torturantes de nossas vida?
Ele teve que esperar ela deixar seus lábios e respirar antes de responder.
- Não foi só você.
- Mmm.
- Vai me dizer o que aconteceu com a Shiho agora?
- Não posso falar. Estou beijando.
- Você consegue fazer os dois. Eu já vi.
- Mm. Bem... – os lábios dela desceram para sua mandíbula, em direção a seu pescoço. – Ela gosta de você.
- Huh? – Era difícil pensar com uma boca em sua garganta. – Gosta... do que?
- De você. Ela gosta de você. – ele sentiu algo quente percorrer sua pele. A língua dela. Doeu quando os músculos de seu estômago se contraíram, mas era uma dor tolerada com vontade. – Ela só precisava de um pequeno esclarecimento quanto à sua disponibilidade.
- Oh. – Shikamaru meio que sabia do que ela estava falando, mas já tinha esquecido qual havia sido a pergunta.
- Como é possível que você fique tão sexy numa roupa de hospital?
Ele não tinha resposta. Na verdade, ainda estava tentando assimilar o comportamento carinhoso dela com sua personalidade. E seu cérebro dava a mesma resposta: Não computa. Falando em possibilidades, como era possível que uma mulher que não tinha nada de bom para dizer dele antes pudesse ser tão efusiva em elogios? E elogios embaraçosos. Não que ele não apreciasse, só não entendia.
Mas ele não teve que responder, já que ela estava o beijando na boca novamente. E lá estava: aquele sentimento de felicidade e tranquilidade. Ele quase não podia lidar com o quão boa a vida dele tinha ficado no último dia. Não queria que Naruto voltasse, não queria que seu pai aparecesse, só queria beijar sua esposa e conhecer aquela mulher que tinha mais facetas que ele jamais esperaria e que, por algum motivo, parecia amá-lo.
Mas não era para ser. Porque naquele momento alguém bateu à porta, e Temari se afastou com um rosto enrubescido e frustrado. Ela se sentou a arrumou suas roupas para depois perguntar com um pouco mais de veemência do que era educado.
- Quem é?
Uma fresta da porta foi aberta, revelando um par de olhos pálidos.
- Neji. Shikamaru está bem para conversar?
- Sim. – ela suspirou. – Ele está ótimo.
Neji entrou e cumprimentou Shikamaru com a cabeça.
- Estou aqui em nome de Hiashi-sama. Ele tem muitas perguntas, e espera que você possa esclarecer algumas coisas para ele.
N/T - A autora escreveu essa fic levando-se em conta as convenções japonesas, que ela leva muito a sério. Então beijos em público não existem, o que Naruto viu foi um acidente, e Temari ter acariciado a mão do Shikamaru na frente da Shiho foi bastante ousado. E japoneses não costumam dizer "eu te amo", pelo menos não com todas as letras, mas os "eu te amos" estão aqui nessa fic, na parte do "Shikamaru?" "Uhm?" "Estou feliz por você não ter morrido." "Estou feliz por você ter ido atrás de mim."
Esse capítulo é uma ode ao amor ShikaTema, e Shiho bashing é muito melhor que qualquer outro bashing. Em todo caso, eu sinto muito por ter demorado um mês para atualizar. Minha vida está meio atribulada, e revisar os capítulos, que são longos, é bastante trabalhoso. Enfim, planejo terminar essa fic o mais rápido que eu puder. Obrigada a quem ainda acompanha.
