Capítulo 3 – Escolhas e Promessas

O cavaleiro Ikki percorreu a montanha habilidosamente, escalando até o cume. Sentiu que havia uma cosmo energia poderosa e estranha naquele lugar.

"Sinto que os cosmos deles estão próximos. Desapareceram a pouco tempo neste lugar."

Ikki encontrou uma fenda na parede da montanha. Era bem estreita, mas mesmo assim era possível passar por ela.

Andando devagar percebeu que haviam fios ao redor. Deslizou habilmente por eles e seguiu em frente. Chegando a um aposento, encontrou-se com a moira Atropos, que parecia aguardá-lo. Ela estava de frente para ele com as mãos juntas ao ventre.

- Que criatura extraordinária é a fênix. – pronunciou – Reúne a vida, a morte e o renascimento em uma única existência.

Ikki olhou para ela com expressão séria e inflexível.

- Sim, é verdade. Mas não vim aqui para divagar sobre a vida e a morte. Eu vim aqui para procurar por Athena.

- Certamente que sim. – respondeu a moira – Creio que seus amigos possam estar tendo dificuldades neste momento. – começou a caminhar em direção a porta. Ikki a seguiu de perto.

A moira o conduziu até o local onde estavam suas irmãs, de frente para o lago.

- Finalmente veio, cavaleiro de fênix. – disse Láquesis que estava na margem oposta. Ikki arqueou uma sobrancelha desconfiado. – Talvez você seja a última esperança de seus companheiros de conseguirem escapar da Dimensão dos Sonhos.

- Dimensão dos Sonhos? – perguntou Ikki

- Seiya e Athena foram para a Dimensão dos Sonhos. Os outros cavaleiros também foram para lá para tentar encontrá-los, mas acabaram se perdendo. – disse Cloto por sua vez.

- Entendi. E como posso ir até esse lugar? – perguntou Ikki

- Através do lago. – respondeu Atropos

- Mas assim como dissemos aos seus companheiros, é um lugar onde é muito fácil se perder. – disse Láquesis – O mundo dos sonhos é um mundo belo, perfeito e fascinante. Porém é uma ilusão. Se você se esquecer disso, não será capaz de voltar por conta própria.

- Eu irei assim mesmo. Não vou sucumbir a uma ilusão.

- Assim será então, cavaleiro de fênix. – disse Átropos

Ikki também saltou sobre o lago, desaparecendo sob ele.

Ikki se viu em meio a um jardim. Havia muita luz e o vento soprava suavemente.

Uma pessoa se aproximou dele por trás e lhe tapou os olhos com as mãos.

- Quem eu sou? – perguntou a voz feminina

Ikki reconheceu sua voz imediatamente. Seus olhos ficaram úmidos e suas lágrimas molharam as mãos que os cobriam. A pessoa retirou as mãos e ele se virou para trás. Era Esmeralda.

- Ikki? – chamou-o preocupada. Ele sorriu. Estendeu sua mão e tocou-lhe o rosto. A pele dela era suave e aveludada. Ela sorriu.

- Esmeralda. – pronunciou seu nome.

Esmeralda lhe tomou suas mãos e as segurou sorrindo.

Ela se sentou sobre a grama e ele fez o mesmo.

- Achei que não iria me ver. – disse ela

- Por que achou que eu não viria?

- Foi bobagem minha. – sorriu.

Esmeralda se ajeitou perto de Ikki colocando a cabeça em seu ombro. Ele colocou seu braço ao redor dela.

- Eu senti muita saudade. – disse Ikki

- Eu também. – disse ela

Ikki suspirou e fechou os olhos.

- Eu nunca me esqueci de você.

Esmeralda sorriu.

- O dia em que você morreu foi o dia mais doloroso da minha vida. – disse Ikki. Esmeralda levantou a cabeça assustada com esse comentário.

- Ikki, eu estou aqui, bem ao seu lado. – disse ela – Como eu poderia ter morrido?

- Você não está aqui Esmeralda. – disse ele por fim – Você nunca esteve nesse lugar.

Ikki apertou o corpo de Esmeralda mais próximo de si e a abraçou.

- Seu cabelo é o mesmo. Sinto o calor de seu corpo e a suavidade da sua pele, e até ouço as batidas de seu coração. Mas eu sei que você não está aqui de verdade. – suspirou – Quem diria que eu viveria para perdê-la mais uma vez?

- Ikki! – Esmeralda gritou em desespero. Afastou-se e olhou para ele com lágrimas nos olhos.

Ikki sorriu para ela, com olhos cheios de lágrimas que escorriam. Com voz embargada ele lhe falou:

- Perdoe-me Esmeralda.

Ela abaixou a cabeça. Fechou os olhos e começou a chorar.

- Não, Ikki... Sou eu quem devo lhe pedir perdão. Eu fiz você sofrer por tanto tempo... Eu queria que tudo tivesse sido diferente.

- Eu também. Mas você não teve culpa Esmeralda. O sofrimento e a dor fazem parte da vida. Seria fácil demais aceitar esse belo mundo onde eu poderia ver você todos os dias. Mas não posso fazer isso.

Ikki fez uma pausa e abaixou seu rosto, o pranto o tomando por completo.

- Um dia... quando eu não estiver mais vivo, se os deuses me permitirem... Então eu a reencontrarei novamente.

Esmeralda sorriu para ele, com lágrimas nos olhos.

- Ikki... por favor, me prometa uma coisa.

- O que você quiser...

- ... por favor, seja feliz. Viva nesse mundo cheio de dores e sofrimentos, mas também de alegrias e momentos belos, e faça com que a felicidade seja algo real e presente na sua vida. Desfrute do que há de bom na vida, apesar das adversidades.

Ikki olhou para baixo e sorriu.

- Farei o possível. – ficou em silêncio por um breve momento – Foi muito bom vê-la novamente Esmeralda.

- Adeus. – Ikki apenas ouviu sua voz. Em seguida o vento começou a soprar frio e forte como se uma tempestade se aproximava. As flores do jardim se tornaram opacas e escuras.

Ikki apertou o punho e socou o chão violentamente, ato que lhe fez abrir um ferimento na sua mão de onde escorreu um fio de sangue. Chorou amargurado. Estava sozinho outra vez.

- Adeus... e obrigado...

Shun foi despertado de seu sono por causa de batidas violentas na porta. Levantou-se rapidamente e abriu a porta.

- Shun... – disse Ikki que estava diante dele – eu sei o que devemos fazer. Onde está Seiya?

Shun olhou para ele espantado.

- Ikki, que bom que está aqui. Seiya e os outros... eles...

- Eles se perderam não é mesmo? Se esqueceram de que quem são não é?

- Como você sabe disso?

- Eu entendi como esse lugar funciona. Ele mostra a pessoa exatamente o que ela quer ver. Mas eu acho que descobri um meio de fazer com que eles se lembrem. Você sabe onde podemos encontrá-los?

Shun pensou um pouco e respondeu.

- Eles falaram de um baile que ocorreria. Acredito que estarão todos lá.

- Ótimo. Isso vai ser perfeito. Shun, há algo que eu quero lhe pedir, sei que será difícil, mas terá que fazer isso por eles.

- Farei o que puder irmão!

Seiya, Shiryu, Hyoga e Saori estavam do lado de fora do salão onde ocorreria a festa.

- Onde será que o Shun se meteu? – perguntou Seiya olhando para o céu.

- Ele chegará logo, pode ter certeza. – respondeu Shiryu

- Você não deveria estar junto da Shunrey Shiryu? – perguntou Seiya

- O professor Dohko virá junto dela, acompanhado de alguns de seus amigos.

- Então será uma festa incrível, todo mundo vai se divertir. – disse Hyoga

- Sim, vai ser muito bom. – disse Saori. Ela distinguiu uma sombra vindo em direção a eles.

- Vejam, o Shun chegou.

Eles olharam para Shun, mas ele permaneceu distante. Estava com um olhar severo.

- Shun, que bom que você chegou. – Seiya se adiantou até ele, mas parou. – Shun?

Shun continuou sem se mover. Olhava para Seiya com um olhar furioso.

- Sh-Shun... Por que está... com essa cara?

Shun fechou os olhos. Começou a elevar o seu cosmo agressivamente.

- Seiya, - disse abrindo os olhos, numa expressão de extrema agressividade – eu vou te matar.

- O que? – espantou-se Seiya – Por que está dizendo isso Shun?

Shun saltou de onde estava desferindo um soco na cara de Seiya que o fez voar longe.

- Seiyaaaa! – gritou Shiryu também assustado com o que via.

- Shun! Por que você fez isso? – perguntou Hyoga correndo na direção dele.

Uma presença se colocou a frente deles, seu cosmo queimava como se fosse fogo.

- Ikki? – indagou Shiryu

Ikki olhou para ele e desferiu um golpe que levou Shiryu ao chão, em seguida golpeando Hyoga da mesma maneira.

Ambos caíram e sentiram seus corpos doerem.

- Por que estão fazendo isso? Me digam? - perguntava Shiryu indignado.

- Shun... por que está fazendo isso? – Perguntou Seiya, enquanto se esforçava para ficar de pé. – Pensei que fosse meu amigo.

Shun caminhou até ele com seu cosmo ardendo fortemente. Mais uma vez o golpeou, fazendo com que voasse ainda mais longe. Do outro lado Ikki também desferia inúmeros golpes contra Hyoga e Shiryu que gritavam de dor sempre que eram atingidos.

- Shuuuun! Pare por favor! – gritava Saori a distância com os olhos cheios de lágrimas.

Ambos viram quando Dohko se aproximou, acompanhado de Shunrey. Shunrey tentou correr até Shiryu, mas Dohko a deteve segurando seu braço. Ele olhava para os cavaleiros com austeridade. Shiryu olhou para ele, mas não conseguia entender o que aquele gesto significava.

Ikki o golpeou mais uma vez e também a Hyoga.

Shun golpeou Seiya várias vezes. Seiya tentava em vão se reerguer, sempre golpeado mais vezes.

- Chega! Pare com isso Shun! – Saori tentou correr até eles, mas duas mãos fortes a detiveram, segurando seus braços com força. Ela olhou ao redor e viu que eram Kanon e Saga. Eles seguravam seus pulsos com firmeza, mas com os rostos voltados para o local onde os cavaleiros de bronze estavam.

- O que estão fazendo? – Saori tentou se soltar, mas não conseguiu. – Me soltem! Deixem-me ir! – gritava em desespero.

Shun olhou para os dois cavaleiros de gêmeos por um breve momento. Os demais cavaleiros de ouro iam aparecendo aos poucos, cercando-os, formando um círculo ao redor deles.

Shun olhou para Seiya ajoelhado no chão ofegante. Cerrou o punho mais uma vez e o atacou. Desta vez teve seu golpe detido. Seiya segurou seu punho. Emanando seu cosmo fortemente pela primeira vez, Seiya se levantou.

- Não sei por que estão agindo dessa maneira. Shun, Ikki, seja lá qual for o motivo pelo qual estão nos atacando, - Seiya olhou para eles com uma expressão cheia de raiva – eu irei detê-los agora mesmo!

Ao mesmo tempo que Seiya elevava seu cosmo Shiryu e Hyoga também começaram a elevar os seus.

- Cólera do Dragão!

- Pó de Diamante!

- Meteoro de Pegasus!

Hyoga e Shiryu atingiram Ikki. Seiya atingiu Shun. Ambos os irmãos foram lançados para trás violentamente.

Shun e Ikki se levantaram lentamente, ofegantes.

- Finalmente... você se lembrou... Seiya... – disse Shun

Seiya olhou para Shun assustado. Ele, Shiryu e Hyoga também estavam ofegantes, mas não era apenas pelos ferimentos ou pelos golpes.

Seiya colocou a mão sobre o coração. Sentira alguma coisa, algo desagradável que fazia seu coração palpitar. Havia uma dúvida em seu mente. Ele olhou para o chão.

"De onde... de onde veio esse poder?" - pensava

Saori olhava para ele. Também sentia-se confusa. Ela olhou para Saga. Desta vez ele olhava para ela. Voltou-se para o lado e olhou para Kanon que também olhava para ela.

Saori virou-se para trás de onde percebera uma luz. Os demais cavaleiros de bronze também olharam para a mesma direção. Eles distinguiram na escuridão a silhueta de três mulheres que seguravam as pontas de um enorme pedaço de tecido, uma a direita, outra a esquerda e outra ao centro. A luz brilhante e dourada vinha de um ponto no tecido.

Então eles perceberam que era a mesma tapeçaria que outrora alguns deles tinham visto, mostrando a última cena da vida dos cavaleiros de ouro. Uma lágrima escorreu dos olhos de Saori que suspirou profundamente.

Seiya se aproximou de Saori ficando ao lado dela, olhando para aquela cena.

- Por muito tempo eu desejei – disse Saori – que você Seiya e os outros cavaleiros pudessem viver como pessoas normais.

- Eu sei disso Saori. – respondeu Seiya – Mas... talvez esse não seja o meu destino.

Hyoga viu sua mãe por um breve instante. Mas num piscar de olhos ela desapareceu.

Shiryu olhou para o chão sentindo-se bastante desolado.

Ikki e Shun também se entreolharam. O olhar de Shun demonstrava o quanto sentia-se angustiado.

Seiya viu Seika por um momento, diante dele.

- Seika... eu quero encontrar você. Eu quero muito encontrar você de verdade e não vou desistir até conseguir me encontrar com você. Eu sei que isso aqui é só um sonho, mas eu vou fazer com que esse sonho se torne realidade.

Seika sorriu para ele e desapareceu.

O mundo inteiro desapareceu diante deles, coberto pela escuridão. Restavam apenas os cinco diante da tapeçaria. Ao fundo eles puderam distinguir os cavaleiros de ouro que também estavam encobertos pelas sombras.

- Os deuses foram longe demais. – disse Athena – Vocês foram condenados por minha causa, mas não vou deixar que isso fique assim. Eu prometo que vou libertá-los mesmo que isso traga a ira dos deuses.

- Não precisa se preocupar conosco Athena. – disse Mu.

- E nunca se culpe por nossa causa, Athena. – completou Aioros.

Eles voltaram-se para a tapeçaria e para as mulheres que a seguravam. A que estava no meio tinha uma das mãos apontando para o céu. Eles puderam distinguir um círculo no céu onde parecia que o céu ondulava. Shun lançou suas correntes e elas atravessaram o círculo. Rapidamente eles se ergueram sobre o lago e estavam do outro lado da margem.