Capítulo 4 – Seu Lugar no Mundo

- Perdoe-me, senhor, mas há algo que preciso lhe informar. – disse Páris ajoelhado diante de Apolo. – O cosmo de Athena voltou a surgir nesse mundo.

- Sim. Eu pude senti-lo fraco agora pouco.

- Apolo. – disse Artemis que estava ao seu lado. – O que fará meu irmão?

- Só há uma coisa que me resta a fazer. A humanidade será castigada e eu farei com que isso aconteça imediatamente. – fechou os olhos – Eu sou o Deus do Sol, então farei com que ele se apague. Ele só voltará a brilhar novamente quando não restar nenhum ser humano vivo.

- Apolo não faça isso! – disse Artemis desesperando-se. – Se apagar o sol o mundo congelará e não sobrará nenhum ser vivo!

- É exatamente isso que eu farei Artemis! – Apolo olhou para Artemis e seu olhar e tom de voz eram agressivos. – Eu sou o Deus do Sol, e ele se dobrará à minha vontade!

Artemis calou-se assustada. Mesmo concordando que os humanos tinham que ser punidos, achava que aquilo ia longe demais. Mas não havia nada que pudesse fazer para deter seu irmão Apolo.

Athena e os cavaleiros de bronze estavam de volta à caverna das moiras. Eles perceberam que a tapeçaria da última cena da vida dos cavaleiros de ouro estava estendida de frente para o lago e que refletia sobre ele. Provavelmente aquilo era um recurso que as moiras haviam usado para ajudá-los a sair da Dimensão dos Sonhos. Mas as moiras não estavam lá.

- Afinal, o que foi que aconteceu? – perguntou Seiya.

- Você não se lembra Seiya? – perguntou Shiryu.

- Quando estava lutando contra Apolo, vimos um clarão. –disse Hyoga – Não sabemos exatamente como ou o que aconteceu, mas depois daquilo você e a Saori desapareceram.

- Como nós não sabíamos onde procurá-lo – completou Shiryu – viemos até aqui para perguntar às moiras. Elas nos disseram que vocês estavam na Dimensão dos Sonhos e nos ajudaram a ir até lá.

- As moiras? – indagou Seiya – Aquelas que tecem o destino da vida?

- Sim. Viemos pelo mesmo lugar por onde fomos que era através desse lago. – disse Shiryu

- Entendi. – respondeu Saori – Então o lugar onde estávamos era a Dimensão dos Sonhos onde tudo é perfeito. E vocês vieram nos resgatar.

- Sim. – Shiryu abaixou a cabeça – Mas infelizmente nós acabamos caindo na armadilha das ilusões que existem lá. Se não fosse pelo Ikki e pelo Shun nós ainda estaríamos lá.

- Shun! – olhou ao redor e o viu afastado dos demais. – Então foi por isso que você me atacou não é amigo?

Shun olhava para o chão cheio de pesar.

- Não fique assim. – Seiya se aproximou dele colocando uma mão em seu ombro. – Eu entendo que você só fez aquilo para me ajudar.

- Seiya, você não faz idéia de o quanto foi doloroso para eu fazer aquilo com você. – disse Shun.

- Está tudo bem Shun. – Seiya colocou as duas mãos em seus ombros olhando para ele – Eu não te culpo por isso, muito pelo contrário, eu te agradeço! Isso só prova que você é realmente um verdadeiro amigo, não apenas para me ajudar, mas para me tirar dos problemas.

- O culpado aqui sou eu Shun. – disse Ikki se aproximando dele – Fui eu quem o obrigou a fazer isso.

- Ikki? Então vocês dois... – perguntou Hyoga.

- Sim, eu percebi que as únicas coisas que fazem com que você não se perca dentro da Dimensão dos Sonhos são a dor e o sofrimento. Por isso fiz com que Shun atacasse Seiya, pois percebi que ele estava bem próximo de se esquecer. A coisa que o Shun mais odeia é a violência, e sem dúvida usar seus punhos para ferir um companheiro deve ter sido uma coisa muito difícil para ele. Ele precisava daquele sofrimento para evitar se perder. - Ikki olhou para Shun e depois para Hyoga e Shiryu – Da mesma maneira, quando vocês foram feridos e puderam sentir dor pela primeira vez naquele lugar conseguiram aos poucos despertar seus cosmos e lembrarem-se do lugar de onde vieram.

- Mas pelo visto não foram só vocês que fizeram isso. – disse Saori que estava diante da tapeçaria – Eu pude sentir os cosmos dos cavaleiros de ouro vindo daqui, deste lugar.

- Pelo visto as moiras resolveram usar essa tapeçaria para nos ajudar a lembrar. – disse Shiryu

Todos agora se aproximaram da tapeçaria e agora a contemplavam em silêncio.

- Foram as moiras que fizeram isso? – perguntou Seiya

- Sim. – respondeu Hyoga

- É uma tapeçaria magnífica. – disse Saori - A glória dos cavaleiros de ouro jamais poderia ser retratada de uma maneira tão bela.

- As moiras tem nos ajudado bastante desde que chegamos. – disse Hyoga – Não entendo a motivação delas, mas acho que se não fosse por elas não estaríamos aqui agora.

- Mas onde elas estão? – perguntou Shun – Eu tive a impressão de tê-las visto antes de virmos para cá, mas elas desapareceram.

- Vejam. – Shiryu apontou para um ponto atrás do lago – Há uma escada ali. Talvez estejam naquele lugar.

Os cavaleiros junto com Athena subiram uma escadaria que estava ao redor da parede do fundo que os levou até uma sacada de onde era possível ver o lago logo abaixo. As moiras estavam diante da sacada reunidas entre si enquanto observavam o lago. Pareciam entretidas com alguma coisa e ignoravam a presença deles.

Athena se aproximou delas em silêncio. Pela primeira vez elas se interromperam e voltaram-se para ela.

- Vejo que conseguiu retornar Athena. – disse Láquesis

- Sim, e isso foi graças à ajuda dos cavaleiros e de vocês. Fico agradecida por isso.

- Entenda Athena, o seu desejo de que pudessem desfrutar de uma vida normal não poderia se concretizar nas condições atuais. O mundo dos sonhos é o único lugar onde poderiam conseguir isso. Mas em compensação...

- Eu entendo. A humanidade precisa da nossa ajuda e essa felicidade não poderia ser conseguida com o sacrifício de vidas humanas.

- De fato, a humanidade precisará de vocês mais do que nunca de agora em diante. – disse Atropos – Veja.

Atropos apontou para o lago, e Athena aproximando-se do parapeito pôde ver através dele que o sol se escurecia.

- Mas o que está havendo afinal?

- Apolo assumiu o controle desse mundo. – disse Cloto – Ele está apagando o sol para que ele não volte a brilhar sobre a terra.

- Não! Isso não pode estar acontecendo! Por que ele está fazendo isso?

- Athena, escute! – disse Láquesis voltada para ela – Se você for realmente confrontar Apolo ou qualquer outra divindade do Olimpo tem que estar preparada para jamais se render ou desistir.

- Sua vida e a vida dos seus cavaleiros estarão em risco, - disse Cloto – não importa o que aconteça, não poderão escapar da ira dos deuses.

- E a ira dos deuses cairá sobre vocês, não tenha dúvida disso. – disse por vez Atropos

- Eu entendo. – disse Saori – Sempre desejei poder evitar que eles enfrentassem essas batalhas sem fim, mas... – ela olhou para os cavaleiros que assentiram com o rosto sorrindo para ela – Mas nós fizemos nossa escolha. Nós já sacrificamos nossas vidas e até a nossa felicidade. Agora iremos até o fim.

- Você é realmente a Deusa da Terra, Athena. – disse Cloto – Agora deve assumir o seu papel e cumprir com o seu dever. Assim como nós...

Cloto e Atropos desceram as escadas.

- Venham comigo. – disse Láquesis – Este é o momento que esperávamos que não viesse, mas agora que chegou está na hora de unirmos todas as pontas soltas e completarmos essa trama que se formou nos últimos milênios.

- O que irão fazer? – perguntou Athena enquanto seguiam escada acima.

- Vamos roubar o sol.

Os cavaleiros e Athena seguiram Láquesis através da escadaria. Ela seguia em um ritmo rápido, e logo os deixou para trás. Chegaram a um patamar onde haviam colunas de um lado e através delas podiam distinguir tapeçarias que tremulavam em torno de algo, algo imenso que não conseguiam distinguir.

Do lado de fora o sol ia se empalidecendo e um vento cortante e gélido tocava tudo ao redor.

Chegaram ao final da escada e o que viram os deixaram boquiabertos.

O espaço era muito maior por dentro do que por fora, como se o espaço fosse distorcido lá dentro.

Um colossal planeta terra formado por inúmeras e infinitamente longas tapeçarias girava em seu eixo, sustentado por fios que se cruzavam em diversos pontos. Não era apenas o planeta terra que estava representado lá, mas também o sol e a lua, tramas douradas e prateadas, e também as estrelas, fios que se cruzavam e seus nós brilhavam formando as constelações.

A grandeza daquele lugar era tamanha que ninguém conseguia dizer uma palavra.

O "sol" em questão de fato parecia perder o brilho pouco a pouco.

No andar debaixo Cloto e Atropos se aproximaram da tapeçaria dos cavaleiros de ouro.

Olharam uma para a outra, assentindo com o queixo como se estivessem cientes do que fariam.

Cloto estendeu sua mão cuidadosamente em forma de concha como quem fosse colher o fruto de uma árvore. Ela atravessou a trama com sua mão e a fechou sobre o ponto luminoso na ponta da flecha de Aioros segurando o nó. Em seguida trouxe a mão para junto de si. Um pequeno fio dourado saia de seus dedos. Atropos estendeu dois dedos da mão e como uma tesoura o cortou. Cloto tocou a ponta do fio com o dedo da outra mão e o conduziu até a tapeçaria. O fio se enroscou entre os outros e conforme Cloto rodava o dedo, deu-se um nó em si mesmo e no mesmo lugar.

- Apenas o suficiente. – disse Atropos.

Atropos olhou para Cloto, e Cloto para Atropos. Elas deram um sorriso malicioso entre si.

Atropos abriu sua mão direita, onde havia um pequeno fio enrolado e o mostrou a Cloto. Olhou para ele, e em seguida para ela e estendeu a mão. Cloto recolheu o fio e o posicionou na tapeçaria, cobrindo-o com a mão. Atropos colocou sua mão sobre a de Cloto e ambas elevaram seus cosmos naquele ponto.

- Isso os deixará irritados. – disse Atropos ainda sorrindo

- E não é exatamente isso que você deseja? – perguntou Cloto

- Eu tenho desejado isso há algum tempo. – respondeu Atropos

Ambas agarraram suas mãos na tapeçaria com força, arrancando-a do local onde estava pendurada, e arremessaram no lago.

Cloto e Atropos subiram novamente as escadas até o local onde estava Láquesis. Cloto carregava o nó luminoso em suas mãos com muita delicadeza.

- Aquele nó... – disse Shiryu ao ver as duas passarem

- Mas o que elas vão fazer com ele? – perguntou Hyoga

Láquesis, Cloto e Atropos subiram numa plataforma. Laquesis elevou seus braços e usando seu cosmo fez com que o "sol" se aproximasse um pouco delas. Atropo puxou um fio para perto de si, um fio que estava ligado ao "sol". Ambas posicionaram suas mãos em torno do fio, posicionando o nó dourado sobre o fio.

As moiras olharam todas para Athena, como se esperassem por ela. Athena compreendeu, consentindo com a cabeça e subiu até a plataforma.

Cloto estendeu sua mão requisitando a de Athena que logo a deu. Conduziu a mão de Athena sobre a sua, unindo-a as mãos das irmãs sobre o fio e o nó.

As três irmãs elevaram seus cosmos, concentrando-os sobre o fio e o nó, e Athena fez o mesmo. Athena arregalou os olhos por um momento, parecendo compreender alguma coisa, e em seguida os fechou, elevando o seu cosmo com muito mais força.

Sem que ninguém percebesse, o lago também começou a brilhar e a borbulhar.

O sol empalidecia e o vento frio avançava com força sobre a paisagem externa. Apolo observava tudo impassível e confiante.

A forma do sol dentro da caverna das moiras também empalidecia, ao passo que o ponto luminoso entre as mãos das mulheres brilhava mais forte e intensamente.

- Agora! – disse Láquesis com urgência.

Em sincronia ambas soltaram o fio. O ponto luminoso percorreu o fio até o sol enquanto Atropos cortava o fio do outro lado. O ponto luminoso penetrou o "sol" e começou a queimá-lo intensamente, fazendo com que as moiras e Athena se afastassem cobrindo os olhos.

Ao mesmo tempo outro fenômeno ocorria no aposento abaixo. As águas do lago jorraram para cima com uma forte luminosidade. Em seguida vários braços e mãos saíram de dentro dele na escuridão que se formou, se agarrando à margem. Eles se arrastavam tropegamente pela margem. Aqueles que conseguiam sair do lago primeiro ajudavam os demais a saírem também.

O sol que estava quase apagado diante do mundo voltou rapidamente a se iluminar. Começou a brilhar com força e esplendor nunca antes visto.

Apolo observava o que acontecia e não pode conter sua ira. Urrou e gritou elevando seu cosmo tão forte que as paredes de seu palácio racharam e fendas no chão se abriram. Artemis e Paris observaram aterrorizados.

- A luz do sol e o poder dos nossos cosmos combinados. – disse Láquesis – Até mesmo Apolo não foi capaz de impedir que nós fizéssemos o sol brilhar outra vez.

- Isso será o suficiente para que a Terra não caia mais na escuridão? – perguntou Shiryu

- Não. – respondeu Atropos – Os deuses certamente tentarão encontrar outro meio de fazer com que o mundo caia na escuridão.

Shun enxugou uma lágrima que descia de seu rosto, sorrindo.

- Certamente é a coisa mais bela que já vimos.

- Sim, é verdade. – disse Ikki se aproximando ele

- Como é possível que esse lugar possa comportar algo tão grande quanto o mundo? – perguntou Seiya que também se aproximou

- Acho que provavelmente a tapeçaria do destino transcende o tempo e o espaço. – respondeu Shiryu

- Espere um pouco. – disse Hyoga arregalando os olhos – Vocês não estão sentindo...

Os cavaleiros de bronze arregalaram os olhos. Sentiam cosmos familiares abaixo deles.

- Não pode ser! – disse Shiryu.

Ambos correram pelas escadas abaixo.

Athena também percebeu o que estava acontecendo e quis acompanhá-los. Porém ela olhou para baixo por um momento e parou. Aproximou-se do corrimão e olhou para baixo podendo contemplar uma visão completa do lago que estava exatamente abaixo da "Terra". A visão que teve a chocou.

Sentiu duas mãos tocarem seus ombros e se assustou com o toque. Cloto, Láquesis e Atropos se aproximaram dela.

- Acho que seria melhor que não revelasse a ninguém o que viu. – disse Cloto

- O que você viu lá embaixo Athena, - disse Láquesis – não é o futuro, pelo menos não ainda.

- É apenas um dos futuros possíveis, e não definitivo. – completou Atropos – Porém se os deuses continuarem a agir como estão fazendo, este certamente será o futuro.

- Agora eu entendo porque se dedicaram tanto em me ajudar, mesmo correndo o risco de provocar a ira dos deuses. – disse Athena – Eu entendo. Não se preocupem, não falarei nada.

Ambas desceram as escadarias até a sacada embaixo. Athena de lá contemplou com alegria o que viu.

- Eu pensei – com lágrimas nos olhos – que vocês não seriam capazes de fazer nada por eles.

- Os deuses acabaram gerando essa oportunidade mesmo que não intencionalmente. – respondeu Láquesis sorrindo

Saori observou de lá os cavaleiros de ouro e seu mestre Shion sendo amparados pelos cavaleiros de bronze que olharam para ela com alegria, semblantes exaustos, mas cheios de esperança.

Mas muitas batalhas ainda esperavam por eles, e qual seria o futuro que lhes aguardava ninguém saberia com certeza.

Fim.

P.S.: Esse não é o fim definitivo da história dos cavaleiros como eu disse no Prólogo, mas a história cumpre o seu papel. Agradecimentos a todos, eu sempre gostei muito dos cavaleiros de ouro e é uma coisa legal ressuscitá-los. Espero que a idéia do fio extra da tapeçaria tenha ficado clara para todos.