"Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas."

Manuel Bandeira


A aula dupla de literatura passou para Quinn como todas as outras passavam: Voando. Apesar da figura um tanto quanto comum demais para um professor que era Mr Davis, não existia nenhuma outra palavra a não ser "fascinação" para explicar o que a ligava aos livros.

Ao contrário de Quinn, Rachel se manteve ereta demais para estar confortável. A dificuldade de se concentrar na aula não era lá uma surpresa. O instinto de sobrevivência falando mais alto... literalmente gritando sobre a voz de Davis, implorando para que se afastasse daquela Quinn Fabray extremamente estranha.

Aquilo tudo estava muito estranho... Muito estranho...

Rachel, a verdadeira, pensava que talvez o que tivesse acontecido no treino das cherios da última semana tivesse afetado Quinn de algum modo. Quando esgotou todas as explicações plausíveis, a fantasia tomou conta. E quando ela, a Rachel verdadeira, começou a projetar Quinn Fabray sendo abduzida por um tipo de extraterrestres de uma raça predadora e sádica, a outra Rachel, o anjo, tentou em vão abafar a mais gostosa das gargalhadas. Mas a risada saiu assim, por entre os lábios fechados, meio pelo nariz, chamando a atenção de uma Quinn que a encarou com o cenho franzido.

E foi nesse exato momento que o sinal para o intervalo tocou. Toda a confusão de anjos e alunos que saíam prenderam a atenção de Quinn por mais um tempo e quando por fim ela virou para Rachel, a única coisa que encontrou foi o lugar vazio. O que dava a Rachel apenas alguns segundos para ter saído da sala.

"É impressão minha ou ela fugiu?"

A única resposta que teve de Mick foi outra gargalhada. Dessa vez uma muito descarada. Descarada a ponto de fazer Quinn querer poder jogar alguma coisa nela.

Só a ideia de se meter entre o amontoado de adolescentes que se direcionava ao refeitório a deixou ligeiramente tonta... então não se preocupou nenhum pouco com a demora para arrumar os próprios materiais. A caneta de Rachel foi guardada no bolso de trás da calça jeans que usava... e a gratidão por poder usar bolsos (bolsos!) superou por uma ou outra fração de momento a sensação de "desproteção" que a falta do uniforme vermelho e branco das líderes de torcida lhe trazia.

Quando por fim ganhou o corredor, com a porção de livros junto ao tronco, não andou mais que cinco ou seis metros antes de ter o nome gritado pelo que ela sabia ser uma Sue Silvester exigindo explicações. A passos largos, conseguiu se embrenhar no meio do pessoal do clube de xadrez.

Não que temesse Sue... Mas aguentar a treinadora antes do almoço, era dose.

- Olha a mentirinha... – Mick, claro.

Ok, talvez ela tivesse um pouquinho de medo de Sue.

Quinn ainda revirava os olhos quando conseguiu chegar ao próprio armário. Livros guardados, lanche (bacon!) em mãos, e novamente ela estava procurando o refeitório.

No meio daquilo que ela julgou ser uma selva e que voltou a lembra-la de todo o ódio que tinha pelo ensino médio, não foi difícil achar o grupo das cherrios, na "parte nobre" do refeitório. Por pura e simples força do hábito, se viu impelida para o fundo do salão, onde as cores vermelhas predominavam. Líderes de torcida e jogadores de futebol. Mas Mick parou na metade do caminho... E Quinn não sabia quando tinham ficado tão ligadas assim, mas a questão é que quando Mick parou de andar, ela parou também, olhando para a outra moça com curiosidade, enquanto esperava. Mas Mick não falou. Nem precisou falar. Quinn não se enquadraria ali... Pelo menos não nas próximas semanas.

Mick apenas sorriu e Quinn entendeu. Suspirou, a culpa corroendo com vontade o coração maltratado. Engoliu em seco, sabendo para onde ir, caso não quisesse comer ao lado de Jacob ou coisa assim. O corpo agiu por vontade quase própria, enquanto andava em meio às mesas já ocupadas, como se ela fizesse aquele caminho todos os dias... O que não era verdade. Quase um ano se passara desde que ela deixou de almoçar ali, com aquelas pessoas. Quase um ano se passara desde que ela estava no topo da cadeia alimentar de novo...

Poucos passos a mais e Quinn chegou à mesa em que os colegas do coral costumavam se sentar.

Kurt ria de alguma coisa com Mercedes quando Quinn se aproximou. Ela se sentou na ponta do banco enorme, numa timidez que não era típica dela.

O silêncio repentino que se sucedeu à chegada de Quinn foi além do previsível e do esperado. Não era necessário que Quinn erguesse os olhos para saber que dez pares de olhos se fixavam nela, então Quinn simplesmente continuou fingindo prestar uma atenção exagerada à tarefa de desembrulhar o sanduíche feito basicamente de lipídios e carboidratos que ela não se permitiria comer em circunstâncias normais.

- Mas o que você está fazendo aqui afinal?

Mercedes foi a primeira a falar.

"Ela está olhando para mim, não está"

- Você tem dúvidas? – Se Quinn não pudesse ver Mick, com certeza não sentiria o toque extremamente sutil na ponta dos fios loiros, uma carícia extremamente delicada, como já foi dito, carícia daquelas do tipo que não dá pra se sentir. O gesto se repetia sempre que Quinn estava prestes a se alimentar... Quinn não olhava para os anjos a sua volta. Já era muito estranho poder vê-los. Analisar seria o mesmo que invadir o quarto de uma pessoa, ler o seu diário. Mas ela podia jurar que todos estavam de um modo ou de outro tocando seu protegido.

Mick lhe contou que os alimentos, todos eles, tinham uma espécie de energia. E que certos alimentos influenciavam diretamente na porta de ligação entre espírito e corpo. "Eles (os médicos), costumam chamar de cérebro. Nós chamamos de porta." Dissera com uma simplicidade quase infantil, enquanto olhava com gula uma das tortas de morango contrabandeadas por Judy Fabray. "É impressão minha ou você quer que eu coma aquilo, Rachel?" O anjo simplesmente deu de ombros e Quinn entendeu que se certos alimentos conseguiam chegar na passagem entre corpo e espírito, então talvez o guardião dessa passagem também tivesse acesso ao que ela comia.

Mercedes ainda olhava Quinn que continuava a encarar o papel alumínio. Artie, Kurt, Tina e Mike se juntavam à observação silenciosa da intrusa Fabray na mesa do Glee Club.

- Eu posso me sentar com vocês, não posso? – A pergunta foi feita em voz extremamente baixa e Quinn ainda não erguera os olhos. E não pedia exatamente uma resposta.

Mike pigarreou e Quinn pode "ouvi-lo" se ajeitando na cadeira, em ligeiro desconforto.

- Claro que pode Quinn, mas...

- Mas porque você QUER se sentar conosco? – Kurt. Sempre Kurt. – Não é como se você tivesse sido expulsa das cherrios ou alguma coisa assim.

Quinn suspirou, sem a mínima vontade de explicar que não sobreviveria mais de dez segundos em meio às outras garotas de cabelos e corpos perfeitos sem o uniforme das líderes de torcida.

Muito contra a vontade, por fim ergueu os olhos. Kurt estava à sua frente, de costas para a mesa onde se servia o almoço para os alunos que preferiam comer o que era servido na escola.

O primeiro foco foi em Kurt, mas logo em seguida passou para a jovem senhora toda vestida de branco que lhe segurava os ombros com todo o carinho do mundo e por fim os olhos foram se fixar no rapaz um tanto quanto forte demais para sua idade e em seu cabelo moicano... Foi então que o mundo de Quinn parou.

Enquanto Puck se aproximava, a bandeja apoiada única e exclusivamente na mão direita, enquanto a esquerda se ocupava com o telefone celular, Quinn só conseguia olhar para a pequena figura que se enroscava à calça jeans do rapaz. Uma figurinha loira... de passinhos atrapalhados e com um vestidinho branco cheio de babados. E então os olhos enormes a olharam por baixo da franja cortada meio dedo abaixo da sobrancelha... Olhos de um castanho-esverdeado que Quinn só costumava ver em um único lugar: o espelho.

- Quinn... – Mick espalmou os ombros delicados, enquanto Quinn sentia a pulsação acelerar a ponto do coração bater contra a base do pescoço delgado. A compreensão da cena chegando sem pudor nenhum. – Quinn, calma... – A voz delicada não foi tão eficaz quanto se mostrara nas outras vezes quando o assunto era acalmar os ânimos da menina e antes que Quinn se desse conta, estava de pé, instintivamente dando um, dois, três passos para trás.

Puck ainda alheio aos movimentos de Quinn, o que não acontecia com os outros membros do Glee Club ali presentes, continuava a andar e quanto mais perto ele chegava, mais Quinn recuava. Os olhos presos na pequena menina, que só fazia se agarrar feliz da vida às calças jeans, tentando acompanhar os passos decididos de Noah.

E quanto mais Quinn se afastava, mais rápido era o movimento do próximo passo.

Lá pelo que foi o sexto passo de Quinn, as costas da moça loira entraram em contato com algo extremamente duro, que se enfiou entre as costelas antes de por fim ir contra um certo outro corpo, que de susto e por causa do suco de uvas que se espalhava pelo piso branco do refeitório, espatifou-se no chão.

Quinn precisou se virar para ver que o objeto misterioso era também uma bandeja, idêntica aquela que Puck segurava... e QUEM segurava era ninguém menos que uma Rachel Berry que a olhava com verdadeiro ódio, ainda no chão. A saia num tom de verde muito claro com uma mancha roxa enorme... Arruinada.

Como não poderia deixar de ser, todas as mesas do refeitório, todas elas, sem exceção, se acabavam de rir do incidente.

Quinn apenas olhava, piscando muito rápido, extremamente rápido. Pode ver quando Barbra acariciou os cabelos castanhos, com carinho. Esperou encontrar nos olhos dela o mesmo ódio que havia nos olhos de Rachel, mas a única coisa que conseguiu ver quando por fim conseguiu desviar o próprio olhar da menina caída aos seus pés, foi compreensão.

Engolindo em seco, Quinn se abaixou, recolhendo o que sobrara do lanche de Rachel.

- Era isso, não era? Uma maneira de me fazer piada. Não se cansa disso, Quinn?

A amargura presente na voz poderosa, era ainda maior que aquela que Quinn conseguira distinguir nos olhos escuros. A ideia de que aquilo realmente era algo que ela faria alguns dias atrás apenas, apertou-lhe a garganta por um motivo que Quinn desconhecia. Nó que só foi desfeito quando o sentimento de melhora iminente da situação se fez chegar e Quinn soube que Mickahil estava tão perto dela quando Barbra estava de Rachel. Rachel que agora se levantara (sem a ajuda da loira) e tentava dar um jeito na própria saia.

- Rachel... – Uma duplamente perturbada Quinn tentou se aproximar, mas Rachel estendeu a mão direita, exigindo a distância de Quinn pelo que ela entendia ser uma versão expandida do espaço pessoal de Berry. – Rachel... – O tom de voz foi mais suave agora. Um pedido sem pedir.

- Isso foi extremamente desnecessário, Quinn. Eu costumo trazer outras blusas na minha mochila. Mas por uma questão de controle de peso que eu posso carregar sem comprometer minhas costas pelo resto de minha carreira, eu não trago saias. Uma slushie seria igualmente engraçada e me pouparia... – Rachel olhava para as próprias pernas enquanto tagarelava em acusação à Quinn, que olhou ressentida para Mick, exatamente ao seu lado agora.

- Hey! – O lábio inferior da loira se dobrou em uma espécie de bico e Mick revirou os olhos, erguendo os braços em uma queixa evidente – Eu não tenho nada a ver com isso, ok? Nada mesmo.

O bico de Quinn aumentou... e Rachel continuava a falar.

Quinn fechou os olhos, a lembrança do porquê sempre tinha vontade de bater em Rachel muito viva. Agiu por puro impulso e quando voltou a dar conta de si mesma, quando voltou a poder pensar no que estava fazendo, arrastava uma Rachel Berry que tinha parado de falar por pura e simples surpresa para dentro do banheiro feminino mais próximo do próprio armário. Trazia consigo uma das saias vermelhas que guardava de reserva, para o caso de uma emergência de raspadinha, desde que entrara para o coral.

Quinn parou e Rachel também. Os olhos parecendo ter o dobro do tamanho original. O brilho de acusação inicial tinha dado lugar para um outro, que Quinn julgou ser um misto de surpresa e desconfiança.

Suspirou, levando as duas mãos para os olhos cansados. Ajeitou a franja loira antes de voltar a abrir os olhos e voltar a encarar Rachel.

- Me desculpa... - Os olhos de Rachel aumentaram ainda mais e Quinn a assistiu engolir em seco. – Sério. Eu juro que não foi de propósito. - Rachel suspirou, se encolhendo e Quinn imitou o suspiro, resignada. Estendeu a saia vermelha para Rachel, antes de voltar a falar. – Não encare como uma crítica... Mas eu não tenho certeza que somos do mesmo tamanho. Sou o que chamam de falsa-magra. – O sorriso que se seguiu foi fraco e genuíno. – Mas eu acho que vai servir.

Rachel ponderou. Pensou pelo que Quinn achou ser pelo menos uns quinze anos. Chegou a se olhar no espelho com o rabo dos olhos para ter certeza quando finalmente Rachel estendeu as mãos para aceitar com timidez a saia vermelha. Por puro instinto, Quinn cobriu as mãos de Rachel com as suas. Imitou o gesto que costumava fazer com as novatas, quando lhe era designada a entrega do uniforme... Sabia que nenhuma das outras cherrios fazia isso, acolher as novatas, mas Quinn se lembrava, e se lembrava demais, do seu primeiro ano. Não sabia se adiantava muito com as outras meninas... Mas a carícia extremamente leve nas costas das mãos de Rachel foi o suficiente para fazê-la corar até a raiz dos cabelos e Quinn pode jurar que Rachel quase retribuiu com timidez o sorriso que ela própria ainda tinha nos lábios.


Oi, gente.
Vocês ainda estão aí? rsrs
Eu queria antes de qualquer coisa, agradecer de todo o coração a galera que comenta.
Depois eu queria pedir desculpas por demorar tanto... Mas eu já falei isso e vou repetir: Essa história pede demais. A trama é complicada e o cuidado pra escrever é redobrado.
Espero que entendam.