A toalha extremamente branca servia-lhe de tapa-olhos, e Quinn reforçava a barreira que impedia que a luz entrasse em contato com os olhos dourados usando o antebraço direito. Ouviu quando a porta se abriu. Ponderou sobre despejar uma ou duas dúzias dos nomes mais feios que conhecia sobre a enfermeira... Mas gritar com a pobre senhora era demais, mesmo para Quinn Fabray.
Quinn Fabray...
O eco e a força do próprio nome visitou todo e qualquer canto da mente que já não tinha paz alguma.
O rosto do rapaz, mortalmente belo e terrivelmente mau (ela sabia que era), rondava-lhe o descanso dos olhos desde que se apresentara sem pudor nenhum. De início, ela pensou que talvez fosse melhor manter os olhos abertos, muito abertos, mas a sensação de que ele apareceria a qualquer momento, lhe incomodava de uma maneira quase insuportável. Então ela chegou a conclusão de que ficar repetindo mentalmente aquele pedacinho de segundo num loop infinito era muito melhor do que vê-lo outra vez.
O quarto permaneceu em silêncio e Quinn rezou para que a sensação de alguém se aproximando fosse só mais uma daquelas alucinações que vinham lhe rondando desde o começo da semana pra lá de estranha.
Mick se mantivera calada desde que Quinn dera entrada na enfermaria... Mas mesmo no escuro, Quinn podia sentir o anjo há alguns metros dela, sabia que estaria olhando pela janela e que iria manter aquele silencio sepulcral a que ela tinha se jogado também tão logo chegaram ali. A preocupação tinha deixado os olhos castanhos... E a última coisa que Quinn vira antes de decidir que estava de greve do mundo, foram os típicos olhos-Berry de Mick, naquele sempre tom de quem achava tudo muito divertido, mas o silêncio permanecia.
Mick não precisava falar para que Quinn entendesse o que era aquilo.
Mick também não precisava ler os pensamentos da menina para entender o porquê de Quinn estar tão abalada.
Sempre calada, Mick voltou a prestar atenção ao interior do quarto quanto a outra figura, um tanto quanto vacilante demais quando se levava em conta o poço de amor próprio que era aquela menina, adentrou o leito hospitalar improvisado. Sorriu, de orelha a orelha, apostando consigo mesmo quanto tempo a sua menina demoraria para notar a outra presença ali.
Barbra, que não era Barbra, não demorou a se aproximar... E um dedo sobre os lábios foi o suficiente para que a senhora também se mantivesse tão calada quanto Mickahill.
Ambas agora observavam uma Quinn que mais parecia uma criança de cinco anos, dando birra e se recusando a fazer qualquer coisa. Na verdade, a imagem de uma Lucy Quinn Fabray de tranças e bochechas cheias de ar, se recusando a respirar enquanto a mãe não lhe desse mais daquilo que ela chamava de "porquinho" foi viva demais e Mick não conseguiu conter o riso.
Quinn bufou em resposta, ainda com os olhos cobertos.
- Isso não tem a mínima graça.
Rachel arregalou os olhos, cruzando ambos os braços na altura do estomago enquanto por instinto dava um passo para trás perante o rosnado da moça loira.
- Eu... – Ela tentou continuar, mas não sem limpar a garganta antes – Eu não acho que seja nenhum pouco engraçado, Quinn. Realmente não tem graça nenhuma. Eu só vim porque estava preocupada e porque eu não sabia o que dizer para o Mr Schue quando ele perguntou sobre a sua segunda falta só essa semana. Bem... Quer dizer... Eu não sei se posso dizer que você não se sente bem para...
O susto foi tão grande que Quinn pulou na cama. O lençol que descansava sobre as coxas veio para perto do queixo e Quinn na verdade não ouviu o que Rachel continuou a falar pelo que lhe pareceu que fosse pelo menos mais umas duas horas inteiras, apenas encarava Mick e Rachel, passando de uma para a outra em uma velocidade vertiginosa, que a deixava meio tonta e assustava Berry.
Não soube quando foi que Rachel parou de falar... Quando Quinn por fim se deu conta do que estava acontecendo, Berry a olhava de um jeito meio estranho, exatamente no meio do quarto e em silêncio. As sobrancelhas bem feitas quase se uniam.
"Eu odeio você!"
Mick gargalhou outra vez, enquanto Quinn se recompunha, sentando-se na cama e tentando ajeitar da melhor maneira possível o rebelde cabelo loiro que insistia em contrariá-la.
Rachel pigarreou, cruzando as mãos à frente do corpo e Quinn suspirou.
- Me desculpa. Eu não estava falando com você.
A outra menina não respondeu. Apenas concordou com um gesto de cabeça. Os olhos cor de chocolate fixos no chão da enfermaria.
- Eu... Eu estava preocupada. Só vim ver como você está.
- Não precisa se preocupar comigo, Rachel... – O tom de Quinn foi o mais cuidadoso possível. Mas as palavras tiveram o efeito contrário e Quinn sentiu aquele frio incomodo na base da espinha quando conseguiu notar em Rachel a mudança de postura enquanto a judia se escondia atrás do sorriso mais Berry possível.
- Muito bem então. Até mais, Quinn.
Outro suspiro por parte de Fabray, que não respondeu.
Rachel deu as costas para a cama, tomando o rumo da porta, que foi aberta no instante em que ela encostou a mão na maçaneta e fez com que Rachel recuasse um ou dois passos para não ser atingida diretamente no rosto.
O furacão Lopez adentrou o quarto tagarelando como Quinn a vira fazer pouquíssimas vezes.
Santana estava nervosa... O meio termo entre o espanhol e o inglês da maioria de suas palavras a denunciava e Quinn não pode conter um sorriso enquanto tentava entender o discurso que era algo mais ou menos parecido com "me matar do corazon", "ficando louca", "acabar com a Berry e com a treinadora Silvester", "matar você se fizer isso de novo".
Os olhos de Rachel dobraram de tamanho quando ouviu o seu nome... E a cena que se desenrolava ali no quarto era tão rica em detalhes que Quinn teve medo de se perder.
O homem de meia idade que acompanhava Santana, tinha uma das mãos apertando a ponte entre os dois olhos... Mick ria com ainda mais vontade agora e Barbra se perdia entre os dois, Rachel e Santana, enquanto espalmava as costas da menina que continuava a tagarelar. Quinn se perguntou se a amiga vira que Rachel também estava ali no quarto.
O gato mais gordo que o normal pulou para o colchão da cama e Quinn ofereceu-lhe os dedos indicador e médio para que ele se esfregasse.
- Oi, Q...
A voz doce de Brittany se fez ouvir e Quinn se sentou na cama, abrindo espaço para a outra cherrio.
Santana ainda tagarelava e Quinn podia jurar que ela ainda não se dera conta da presença de Rachel no quarto.
- S., calma. Eu estou bem.
- O que a Berry fez? Te empurrou? Eu não me surpreenderia. Quinn, por Deus, no que você estava pensando quando começou a andar com o anão?
Rachel inflou-se, o queixo pertinente ergueu-se e novamente aquela era uma pose Berry. Os cabelos grossos da franja chacoalharam com o movimento e por um instante Quinn teve vontade de saber se eles eram realmente tão macios quanto pareciam.
Três pares de olhos não materiais se fixaram nela, as bochechas queimaram e por instinto os olhos buscaram o chão, sem tempo de ver quando Rachel falou.
- Eu tenho certeza que você não está falando sério, Santana. Até mesmo porque empurrar uma ami... uma colega doente não seria de meu feitio.
- O que diabos você está fazendo aqui, Berry?
- S...
- Mas será possível? Olha só, o idiota do seu namorado não vale tanto esforço não, tá?
- S...
- Além do mais, eu juro que te mato se...
- SANTANA! – Quinn não soube quando foi que havia levantado... mas quando falou, estava de pé. E outra vez, a olhavam. Dessa vez, não eram mais três pares de olhos. Eram seis. O desconforto exigiu que o nariz bem feito se erguesse em todo o esplendor do orgulho Fabray antes que Quinn continuasse a falar. – A... A Rachel... Bem... Eu estou bem. Ninguém me empurrou. Rachel na verdade me ajudou. A única disposta a me ajudar.
- Rachel? Q., Você está bem?
- S, por favor... Eu estou bem. Só estou cansada...
- Eu não vou te deixar aqui sozinha com ela! Mas não vou mesmo.
- San, não é como se ela fosse me matar ou alguma coisa do tipo...
- O que está acontecendo com ela? – A voz grave desviou a atenção de Quinn por um segundo. O "pai" de Santana se recusava veementemente a falar com ela na única vez em que estiveram juntos e mais uma vez, o jeito de trata-la como se ela não estivesse no carro, era uma prova de fogo imposta à sua paciência.
"Nada está acontecendo comigo. E eu posso ouvir você, ok?"
Mick ergueu ambos os braços à melhor maneira "nada haver com isso" que alguém podia fazer.
- Está vendo? Ela enlouqueceu! Eu te falei! – Santana sussurrava, indignada, para uma Brittany recém prostrada ao seu lado, enquanto ainda olhava Rachel da maneira mais acusadora possível.
- Eu não acho que a Q. está tão louca assim, S. Acho que a Rachel trouxe os ursinhos dela na verdade.
Ursinhos?
- Ursinhos? Do que você está falando, Brit?
- O Jimmy olha a mamãe do mesmo jeito que a Q. estava olhando para a Rachel quando a gente chegou, quando a mamãe leva os ursinhos dele pra cama.
Mick gargalhou. Quinn fechou a cara. Barbra sorriu e Rachel franziu o cenho, por instinto procurando Quinn com o olhar.
- Do que é que você está falando afinal de contas, B.?
- Eu disse, eu avisei! Muita gente, muita gente. Não pode. Para fora, todas. – A enfermeira de sotaque germânico e bem mais de sessenta e poucos anos interrompeu toda e qualquer tentativa de Britanny para o reforço do ponto de vista sobre Rachel Berry e os ursos de Quinn Fabray.
Rachel deu passagem para uma enfermeira que trazia Santana extremamente revoltada para fora do quarto e em um ou dois pares de segundos, novamente ela a única no quarto com Quinn.
- Rachel...
A voz rouca tirou-a do estado de inércia imposto pela estranheza daquela cena toda e só então Rachel voltou a olhar outra coisa que não fosse a porta ainda entreaberta.
Rachel agora olhava Quinn, que suspirou. Os fios loiros e rebeldes da franja foram trazidos para trás da orelha esquerda, enquanto Quinn voltava a se sentar na cama.
- Me desculpa.
Piscou, uma, duas, três vezes. Meneou a cabeça, confusa.
- Oi?
- Santana só está preocupada e...
- Ok... Tudo bem, eu sei como ela é. – A voz saiu um pouco mais aguda que o normal, num ritmo um tanto quanto rápido demais para o gosto de Berry.
Quinn sorriu, Rachel pigarreou.
- Eu... Eu acho melhor ir também. Você sabe como é. Ela é alemã... eu sou judia...
O sorriso de Quinn dobrou.
- Isso foi uma piada, Berry?
Outro pigarro. Rachel ajeitou a saia, só para ter o que fazer realmente com as mãos.
- Tchau, Quinn...
- Obrigada, Rach.
O sorriso de Rachel, meio sem jeito, brincou nos lábios fartos. Incerto, inseguro... Mas acabou por vencer e se desenhava quase de orelha a orelha quando Rachel por fim deixou Quinn sozinha.
- Eu já fiz muito mal pra ela, né?
Mick sentou-se também, ao lado de Quinn, que ainda olhava pela porta agora aberta pela metade.
- Muito.
- Não acho que ela mereça tudo aquilo...
- Não merece.
- Eu sou uma má pessoa?
Foi a vez de Mick sorrir, a mão delicada ganhando o ombro de Quin.
- Não, Q. Você não é uma má pessoa.
Eu sinto muito, muito mesmo pela demora
Juro que estou fazendo o possível para postar o quanto antes.
Fim de ano complicado. =\
