Capítulo 2

Eu estava no quarto novamente. Suzannah já havia voltado da festa e dormia tranquilamente. Eu a observava inocentemente. Certo, talvez não tão inocente. Eu estava, de novo, observando de longe. Nem mesmo Suzannah poderia me ver.

Então, sem aviso nenhum, uma moça apareceu no quarto. Ela usava um casaco grande com capuz, calças pescando siri e um tênis de cano alto. E, essa moça, que emitia o mesmo brilho ao redor do corpo que eu, começou a gritar. Muito. E não eram nem três da manhã.

Suzannah acordou imediatamente e se sentou, parecendo desconfortável, como se estivesse tendo um sonho bom antes de ser acordada. "Ela podia estar sonhando com você" disse uma vozinha na minha cabeça. "Cala a boca" retruquei. Eu não podia me permitir pensar desse modo.

Depois da mulher gritar por um tempo, ela deve ter notado que Suzannah acordara e parou de gritar e enxugou os olhos.

- Desculpe - disse ela.

- É, bem, você conseguiu minha atenção. Agora, o que você quer? – Suzannah respondeu mau-humorada.

- Eu preciso de você. - Ela estava fungando. – Preciso que você diga uma coisa a uma pessoa.

- Certo. O quê?

- Diga a ele... - Ela enxugou o rosto com as mãos. – Diga que não foi culpa dele. Ele não me matou.

Suzannah levantou as sobrancelhas, surpresa.

- Dizer a ele que ele não matou você? – ela perguntou, como se não tivesse certeza do que havia ouvido.

Ela confirmou com a cabeça, parecendo triste. Eu tive pena dela. Qualquer que fosse o problema dela, não parecia que ela era uma pessoa má ou algo assim. Tinha mais ou menos a mesma idade que minha mãe tinha quando eu morri. Sorri com saudades de minha mãe.

- Você diz? - perguntou ela, ansiosa. - Promete?

- Claro. Eu digo. Mas para quem?

- Red, claro.

Red? Red nem ao menos era um nome, mas pelo visto, Suzannah devia conhecê-lo. Certo?

Ela sumiu depois de um ou dois segundos e Suzannah ainda olhava perplexa para o mesmo ponto onde ela havia estado. Depois se virou e bateu no travesseiro para afofá-lo. Quando ela se preparou para dormir, eu apareci, exatamente no mesmo ponto onde a mulher estivera.

- O que é? – ela perguntou de forma curta e grossa, como se quisesse me ver longe dali. O que provavelmente não estava muito longe da verdade.

- Você nem perguntou o nome dela. – eu disse, enquanto balançava a cabeça.

Ela se levantou, apoiando-se nos cotovelos. Ela olhou para mim como se quisesse me dar um tiro por eu não deixá-la dormir. Isto é, se eu não estivesse morto. Ou talvez ela só estivesse brava porque não guardei seus CDs na ordem certa ontem... Não sei.

- Como se ela tivesse me dado a chance – ela falou.

- Você poderia ter perguntado. – Eu cruzei os braços diante do peito. - Mas não se incomodou.

- Com licença – ela sentou-se. - Este é o meu quarto. Vou tratar os visitantes especiais que entrarem nele como eu quiser, muito obrigada.

- Suzannah.

Suzannah encarou minha camisa novamente. Eu não entendia o sentido daquilo, parecia que ela nunca queria olhar-me nos olhos. Bem, eu nunca disse que ela não era estranha.

- Se você vai fazer isso, Suzannah – eu continuei dizendo. - não faça pela metade.

Como eu disse, eu precisava provoca-la e fazer troça dela para não cometer mais deslizes. Eu havia me aproximado demais, no começo da semana e agora meu corpo implorava para eu me aproximar mais. Foi um erro. Um erro enorme.

- Olha, Jesse. – Ela disse com a voz dura. - Eu venho fazendo isso há muito tempo sem ajuda sua, certo?

Eu queria ser capaz de ajudar aquela mulher. Suzannah era capaz disse e fazia pouco caso. Esse era um dos raros momentos em que eu me irritava com ela. Continuei a minha bronca.

- Ela estava obviamente muito carente e você...

- E você? – ela perguntou irritada. Certo, provavelmente ela ainda estava brava com o negócio dos CDs. - Vocês dois vivem no mesmo plano astral, se é que não estou enganada. Por que você não pegou a patente e o número de registro dela?

- Patente e o quê?

Ela olhou irritada para mim.

- O nome dela - traduzi. - Por que você não pegou o nome dela?

Eu balancei a cabeça.

- Não funciona assim.

Porque não funciona. Quer dizer, eu ter me encontrado com Heater "do outro lado" havia sido mera coincidência. Não era comum encontrar outros fantasmas com frequência. Afora isso, tenho certeza de que, se a encontrasse, ela não iria querer falar comigo sobre qualquer que fosse seu problema.

- Olha – ela falou -, eu pretendo ajudar aquela mulher. Só que não agora, certo? Agora eu preciso dormir um pouco. Estou totalmente esfrangalhada.

- Esfrangalhada? - repeti.

Tenho plena consiência que ela não me entende quando falo em espanhol ou sobre o mundo dos mortos, mas eu realmente não a entendia quando ela falava assim ou quando falava muito rápido. Comunicação entre nós dois = exelente.

- É. Esfrangalhada.

Ao ver a dúvida em meu olhar, ela traduziu:

- Arrasada. Morta. Em farrapos. Exausta.

- Ah. – E eu simplesmente continuei a olha-la, como o perfeito idiota que sou. Não conseguia tirar os olhos dela. Isso era ridículo. Ela provavelmente pensa que eu tenho algum disturbio.

- Então boa noite, Suzannah – eu disse, ainda encarando os olhos muito verdes dela. Ela tinha esse tipo de olhos. Muito verdes, muito vívidos, muito brilhantes, muito reveladores.

Não que eles revelassem seus pensamentos; isso não. Revelavam suas emoções. Eu percebera que o tom de verde mudava se ela estva irritada ou feliz. Os olhos dela nesses últimos minutos estava caindo para o verde claro, de irritação e sono.

- Boa noite. – Suzannah respondeu-me com a voz um pouco esganiçada.

Ela me olhou com uma expressão estranha e rolou, puxando as cobertas sobre o rosto.

Aproveitei esse momento para ir embora.