DOIS

Meus últimos períodos na escola eram realmente divertidos para mim. A quadra estava lotada de garotas vestidas em shorts, arremessando e rebatendo bolas de vôlei a torto e a direito pelo ar. Meu instinto rosnava dentro de mim, apenas esperando um momento de descontrole próprio para cortar uma daquelas macias bolas no ar e fazer um estrago por ali. Então, para que as coisas ficassem um pouco menos perigosas, eu resolvia agir como uma garota sem cérebro nas aulas de Educação Física.

Quando todos esperavam que eu pudesse ter tido alguma "evolução", eu apenas deixava a bola acertar meu nariz numa situação que poderia ser improvável. Claro, aquilo arrancava risos debochados de algumas meninas, mas eu as preferia vivas e seguras… por enquanto.

Assim que a turma foi liberada, eu me arrastei pela quadra, "milagrosamente" sem um pingo de suor em meu corpo, forçando uma expressão cansada. Tomei um banho totalmente desnecessário, dolorosamente longo, ouvindo a barulheira da conversa e dos risinhos das demais garotas. Eu esperava ouvir algum comentário interessante em meio a tantas vozes, mas nenhuma parecia estar falando de Edward Masen naquele momento. Talvez somente eu continuasse levemente obcecada por ele – com o passar do tempo, as garotas iam desistindo do sonho de ter Edward as convidando para sair e, felizmente, para as humanas, esperar era apenas desperdício. Numa cidade tão pequena como Forks, qualquer homem podia ser o homem certo, desde que estivesse livre.

Aos poucos, o vestiário foi se esvaziando e eu me senti a vontade de sair para fora do meu chuveiro, me secando com toda a calma que eu poderia ter.

Quando se era um vampiro, o tempo era um grande inimigo chato. Os dias passavam extremamente devagar, todo o mundo parecia devagar demais, aliás. Os pequenos detalhes incríveis que você se acostumara a se deslumbrar, passavam a se tornar um pouco repetitivos e não mais muito atraentes. As pessoas eram passageiras, apenas algumas eram algo a mais do que comida, mas eu gostava de pensar que elas eram meu passatempo favorito.

Eu me via na rotina de Forks por apenas um curto período a mais de tempo. Não havia muito mais do que 3 mil habitantes naquela cidade esquecida pelo Sol e, embora isso fosse algo que eu devesse agradecer, o fato de haver tão poucas pessoas que pudessem me ameaçar era entediante. Eu não sofria com a expectativa iminente de alguém perceber como eu realmente era estranha aos olhos crus dos humanos, porque todos ali eram muito centrados em completar o ciclo de vida natural. As meninas estavam sempre atrás de um garoto, e os garotos sempre procuravam algo a mais do que as mesmas garotas. Mas no fim, eles sempre acabavam casando prematuramente com alguém que era totalmente oposto do desejado.

Quando irrompi para fora do vestiário, direto para o estacionamento da escola, estava quase tudo vazio. No meu relógio, marcavam 16:22, e a quantidade diminuta de veículos me dizia que os adolescentes de hoje em dia não gostavam de passar nem um minuto extra nas dependências da escola.

Eu parti a pé, esperando estar longe o suficiente de olhares humanos para fazer minha curta corrida para casa, que não demorava muito mais que um minuto ou dois. Porém, como uma placa de neon em meio à escuridão, algo me chamou a atenção. Sim, realmente, aquilo parecia bem neon para mim: um Porsche amarelo estava estacionado a poucas vagas de onde eu estava. Tudo bem, qualquer um podia ter um gosto excêntrico de comprar um carro naquela cor, ou daquele preço, mas aquilo totalmente não se encaixava nos padrões econômicos da pequena e pasmada Forks. Eu estava começando a ter um pressentimento muito ruim…

Voltei a andar, um pouco mais depressa, tentando me acalmar o suficiente para conseguir disfarçar um pouco da minha velocidade fora do normal. Eu estava virando para direita na saída da escola quando eu ouvi sua voz antes mesmo de sentir seu cheiro.

"Ah, então você está aí, mocinha!" Nada adiantaria correr agora, então, eu apenas me virei para contemplá-la.

"Alice" ofeguei dolorosamente. Alice Brandon estava… horripilantemente vampírica. Seus olhos estavam vermelhos vivos, fazendo despertar a minha preocupação sobre o que ela tinha acabado de comer, além disso, ela estava mortalmente pálida, ainda mais com seu cabelo tão longo e preto escorrido por sobre seus ombros. Para qualquer um desatento, ela parecia apenas uma dessas garotas góticas com lentes extravagantes, mas, para mim, ela era um problema. "Que surpresa, huh? O que faz aqui?"

Alice rodopiou ao meu redor, dando uma boa olhada em mim e logo depois abriu seu sorriso extasiante. Ela era linda – tão linda quanto louca.

"Até parece que você não está feliz em me ver" seu beicinho revirou-se e ela parecia uma criança birrenta em questão de segundos. "Eu estou bem, obrigada por perguntar. E sim, você sabe que eu sou ótima com surpresas. Eu só vim passar um tempo com minha irmãzinha, isso não pode ser tão ruim… Bella!" Eu estava me afastando gradativamente dela. Infelizmente, ela vinha atrás. "Bella, o que há de errado com você? Eu estou falando."

'Delicadamente' ela enrolou seus dedos em meu cotovelo, puxando-me para que eu parasse de andar. Sua força me vez parar de imediato, e logo eu estava olhando desesperadamente ao redor, procurando por alguma testemunha. Felizmente, a região da escola conseguia ser a mais deserta em toda a cidade – que já era o suficientemente deserta. Eu bufei, expulsando um pouco de ar acumulado em meus pulmões, quando eu inspirei novamente, pude sentir o cheiro do sangue fresco correndo por Alice.

"Droga, Alice, você andou comendo agora?" Resmunguei nervosa com a possibilidade de sua refeição ter sido um cidadão de Forks, ou até mesmo um estudante da Forks High School. E se fosse alguém que eu conhecia?! Droga.

"Havia tantos jovens saudáveis por aqui, eu fiquei com água na boca, querida. Nham, nham." Diante de meu olhar aterrorizado, ela começou a rir musicalmente. "Eu estou brincando! Nós comemos a caminho daqui. Qual é, você acha que somos tão burros assim? Relaxa, me dê as boas vindas."

"Nós?"

"Yeah, Jasper e eu… O quê? Não me olhe assim. Você sabe que nós devemos ficar juntos, eu ainda não acredito que você conseguiu viver tanto tempo assim sozinha… ainda mais numa cidade como essa."

"Alice, vocês têm que irem embora." Era para soar como um conselho, mas minha voz estava apelativa demais e acabou saindo como um pedido desesperado.

A cidade não comportava nem mesmo a mim. Eu tinha que sair todo final de semana até Seattle, Olympia ou Tacoma para conseguir me alimentar o suficiente e não ter que atacar em Forks. Mas, quando se tinha três vampiros em uma pequena cidade como aquela, as coisas eram diferentes, ainda mais quando se tratavam de Jasper e Alice.

"Eu sou sua irmã, você não pode ficar me expulsando assim." Ela estava ofendida, eu sabia, mas ela estava tão errada por ter vindo até Forks que eu apenas não conseguia me controlar.

"Nós não somos irmãs. E sim, eu posso te expulsar, esse é o meu território e eu não preciso que vocês apareçam do nada e apenas decidam foder com toda a minha discrição aqui." Meus dedos estavam vibrando, reflexo de que eu estava com raiva.

Alice e eu havíamos sido criadas pelo mesmo vampiro, Carlisle, e isto era suficiente para ela sair espalhando por aí que éramos irmãs. Tudo bem, nós compartilhamos do mesmo veneno gerador, mas antes de ser transformada, meu DNA nunca havia sequer dado uma olhada no DNA de Alice. Nós havíamos morado por muito tempo no Alaska, onde ela conhecera Jasper, e tinha sido um tempo legal. Mas eu precisava me afastar deles… Jasper era simplesmente um sanguinário descontrolado e, embora Alice dissesse que ele estava mudando por ela, eu duvidava que ele conseguiria mudar sua mente sádica.

"Ok, tudo bem" ela ergueu as mãos, como em derrota "nós não somos propriamente irmãs, mas nós somos sua família. E agora já é tarde demais."

"Como assim?" A pergunta saiu de minha boca trêmula.

"Enquanto você estava na aula, Jasper e eu nos instalamos na sua casa. Foi um pouco difícil conseguir o endereço, e Jasper teve que derrubar a porta para conseguirmos entrar, parece que você não guarda mais a chave extra no vaso de planta do lado da entrada. Mas, calma, já está tudo organizado, já colocamos a porta nova, nossas coisas estão no quarto ao lado do seu e eu achei muito interessante o fato de que você tem uma cama no seu quarto! Muito esperto, caso receba convidados." Ela vomitou as palavras em cima de mim. Embora meus ouvidos fossem extremamente eficientes e captassem sons de longo alcance e velocidade, a maneira como Alice falava ainda me desconcertava.

"Alice…" Eu neguei com a cabeça. Eu estava atordoada. Eles me rastrearam, bisbilhotaram e depois invadiram minha casa e eu apenas não conseguia ficar com raiva dela. Ela estava me olhando com expectativa. É claro que ela já sabia o que ia acontecer. "Tudo bem, ok? Vocês ficam." Ela passou a saltitar, batendo suas mãos pequenas estrondosamente. "Mas vocês têm que se controlar, por favor, vocês têm que se misturar. Você vai ter que cortar esse seu cabelo, ele está… muito bom para os padrões daqui. E também terá que colocar umas lentes e, acima de tudo, não fique adivinhando o futuro das pessoas mentindo sobre sua veia cigana, está bem?"

"Oh, sim, sim!" Ela ainda estava saltitando. "Eu mal posso esperar para sermos colegas de aula." Ela deu meia volta, andando em direção a escola novamente. Eu a segui, confusa.

"Você vai estudar aqui?" Ela confirmou com um sorriso enorme, olhando para mim. "Mas e Jasper? Ele vai odiar ficar sozinho."

"Ora, ele vai vir para cá também, bobinha. Jazz adora se misturar com adolescentes, ele diz que renova suas energias, sabe?" Ela soava sonhadora toda vez que falava do parceiro. Pois eu, se pudesse, estaria soando frio aqui, tamanho era meu nervosismo.

"Alice… ele vai matar todos." Eu gemi e ganhei um olhar assustador da minha pequena amiga. "O que é isso? É assim que você quer se misturar?" E eu estava gemendo novamente, parada ao lado do seu Porsche estúpido amarelo.

"Queria, eu tenho que manter meu posto de garota bem nascida e popular aqui. Além do mais, como você vai para casa todos os dias? Correndo?" Eu acenei positivamente. "E é assim que você acha que está se misturando?" Ela deu um leve clique na chave que tirara do bolso da calça, destravando as portas que se abriram automaticamente, me convidando a entrar. "Oh, Bella, ainda bem que eu cheguei." Alice se lamentou, balançando negativamente a cabeça antes de dar partida no carro, o motor mal dando sinal de vida antes de ela dar ré e sairmos do estacionamento.

Eu odiava visitas.