–-Gomem... Fujiwara-san... Mas meu pai... Natsume Takashi...
O tempo pareceu parar, nenhum som era ouvido, de pássaros, vento ou pessoas. Apenas a voz de Aoi, com uma dor tão profunda que quase fez o coração de Touko parar.
–-... Morreu.
Capitulo 4 – Os Fujiwara
Um silencio se seguiu após aquela afirmação.
-Morreu? –sussurrou Touko, colocando a mão da boca de horror. –Como ele morreu?
-Eu não tenho certeza. –mentiu. –Me disseram que foi num acidente... Mas eu tinha só cinco anos então não lembro dele...
Touko parecia prestes a chorar, mas, surpreendendo Aoi, ela a abraçou com força.
O coração de Aoi quase parou, em quanto seus olhos se arregalavam de surpresa. Ela sentiu uma dor e tristeza grandes a invadir e começou a tremer, sem retribuir o abraço e chorar silenciosamente.
Quando Touko se acalmou novamente ela olhou para Aoi, e para suas roupas, notando o evidente descaso com a criança.
-Qual seu nome? –perguntou ela, gentilmente para a criança.
-Aoi... Natsume Aoi. –respondeu Aoi, com a voz fraca. Sua mente ainda estava em choque por ter recebido o primeiro abraço desde seus cinco anos.
-Aoi-chan... Com quem você foi morar? –perguntou ela, ainda gentilmente.
-Com... Os Takanawa. Com a irmã da minha mãe... –murmurou.
-Você está magra, e suas roupas estão muito surradas. –falou ela, e Aoi notou que ela esquadrinhava toda a sua aparência. –E eu consigo ver... Marcas de machucados.
Aoi ficou em silêncio, e abaixou a cabeça.
-Por acaso... –começou Touko. –Os Takanawa te tratam bem?
Aoi tremeu um pouco e não respondeu. Não queria mentir, mas também se recusava a contar a verdade.
-Entendo... Porque você não entra? Estamos almoçando, e eu sempre faço comida a mais... –falou Touko, parecendo envergonhada. –Me acostumei a ter o Neko-chan e o Takashi-kun aqui...
-Neko-chan?
-É, o gato do Takashi-kun... Qual era o nome mesmo? Nyanko...
-Nyanko-sensei? –riu ela, então tirou a mochila das costas.
-Neko-chan! –exclamou ela, sorrindo para o gato. –Como está à vida, Neko-chan?
-Nyan, nyan! –falou Nyanko, como de costume.
Touko riu.
-Entrem, entrem, vamos comer. –falou Touko. –Mas esperem do lado de fora da cozinha para que eu possa explicar para o Shigeru-san o que houve...
Seu olhar ficou triste e Aoi começou a se sentir chateada por ter feito aquela pessoa tão legal ficar chateada.
-Desculpa... –murmurou ela, olhando para o chão. –Touko-san... Por ter trazido noticias tão ruins...
-Oh, querida. –ela a abraçou novamente. –Você é a que está mais sofrendo aqui. Eles eram seus pais... Eu estou triste, mas sei que ele sempre estará no meu coração. Agora vamos, vamos entrando.
Aoi sorriu entre lagrimas para a senhora gentil. E a seguiu para dentro da casa.
Mesmo estando do lado de fora da cozinha, ouviu a reação de Shigeru, que foi no mínimo dez vezes pior que a da esposa. Ele parecia estar em negação. Quando as coisas finalmente se acalmaram, Aoi e Nyanko entraram na cozinha.
Aoi mantinha o olhar no chão, com o rosto vermelho de vergonha.
-Então você é... Aoi-chan, não é? –perguntou Shigeru. Ele parecia cansado, mas seu sorriso ainda era gentil. O coração de Aoi deu um salto. Era a primeira vez que um homem adulto falava assim com ela.
-S... Sim senhor... –murmurou ela, envergonhada e um pouco assustada.
-Sente-se, Aoi-chan. –convidou ele. –Sente-se e coma. Como Touko-san me falou, você parece ser subnutrida...
O rubor de Aoi aumentou por todo o seu rosto, e isso fez Touko sorrir e Shigeru rir.
-Não precisa ficar envergonhada, sente-se.
Aoi obedeceu e viu Nyanko indo para a tigela que havia sido preparada para ele no chão. Por um segundo, Aoi teve inveja da tranquilidade dele, mas isso não durou muito, porque logo que a comida veio ao seu prato seus olhos se arregalaram e sua boca começou a salivar. Ela estava tão preocupada com a comida que não percebeu o olhar preocupado que Touko e Shigeru trocaram ao virem sua reação a comida.
Aoi comeu. Comeu tudo que lhe ofereceram. Para uma pessoa normal, isso não deveria ser muito, mas para Aoi que já estava há quase cinco dias sem comer, e mesmo quando comia era só pão velho e embolorado, aquilo era um banquete.
Touko e Shigeru estavam felizes por a verem sorrindo e comendo, mas sua preocupação era constante. Aquilo era reação de uma pessoa que não via comida há muito tempo.
Nyanko comeu muito, mas isso já era esperado.
Quando Aoi terminou, ela olhou para os dois adultos, que já haviam terminado e olhavam para ela. Isso a fez corar de novo.
-Desculpe por comer tanto... –ela se desculpou.
Touko sorriu.
-Não se preocupe querida. Agora não terei que jogar tanta comida no lixo.
Aoi sorriu, ainda envergonhada.
-Agora, temos que tratar de um assunto importante... –falou Shigeru, sério. –Eu posso ver pela sua aparência... Os Takanawa não tratam você bem.
A garganta de Aoi apertou, mas ela se esforçou para se acalmar, então olhou para Sensei. Ele olhava para ela, e com um olhar ela soube o que ele queria que ela fizesse.
Diga.
Suas palavras saíram numa enxurrada, as emoções, reprimidas por oito anos desabaram sobre ela e ela começou a chorar em quanto falava.
-Eu sou uma escrava para eles... Eles me batem, me machucam... –ela teve que parar para tremer. –Me obrigam a fazer tarefas de casa, e quando eu termino arranjam uma desculpa para não me dar comida, e, em vez disso eu levo uma surra. Eu não aguento mais é doloroso e solitário... Eles deram doces para uma criança espalhar boatos sobre mim, e eu não consigo fazer amigos... É solitário... É doloroso... Eu sinto como se meu corpo fosse rasgado e queimado lentamente...
Ela teve que parar para respirar, arfando com dificuldade, e olhando para o chão, tremendo.
Shigeru estava com um olhar chocado, mas Touko estava pior. Seu olhar era de horror. Suas mãos cobriam a boca e uma compaixão muito forte era vista em seu rosto.
-Aoi-chan... Nós faremos o que pudermos para ajudar você.
