PARTE I – FERIDAS ABERTAS
Capítulo 1 – 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você
Amo el amor que se reparte en besos,
lecho y pan.
Amor que puede ser eterno y puede ser fugaz.
Amor que quiere libertarse para volver a amar.
Amor divinizado que se acerca, amor divinizado que se va.
Farewell, Pablo Neruda
Já era noite quando um cachorro negro apontou no início da rua dos Alfeneiros. As luzes do número 4 estavam todas acesas e ele imaginou se poderia avistar o afilhado numa das janelas. Passou devagar em frente ao sobrado, mas aquele não era seu destino.
Desde que deixara Hogwarts duas semanas antes, Sirius tinha ficado escondido com Lupin, esperando as coisas se acalmarem para poder procurar antigos membros da Ordem da Fênix. A primeira pessoa ele encontraria em poucos minutos: Arabella Figg morava no número 20 daquela mesma rua. Ele iria precisar da ajuda dela para localizar Mundungo Fletcher, um antigo colega de escola.
Sirius parou diante do sobrado branco, que há tempos não era pintado. Não precisava de seu faro canino para sentir o forte odor de gatos que o local exalava. Ele se perguntou quando a ex-professora começara a criar gatos. Até onde ele se lembrava, quem adorava animais era a sobrinha da bruxa. Por um instante, ele hesitou em tocar a campainha, mas logo se lembrou que a ex-namorada havia deixado a Grã-Bretanha há muito tempo.
Para um cachorro daquele tamanho, bater uma das patas no interruptor da campainha não era uma tarefa muito difícil. Ele ficou esperando Arabella Figg abrir a porta, mas quem apareceu foi uma garota baixinha de cabelos compridos e negros, que pôs a cabeça para fora procurando pelo visitante. Ela se assustou ao pousar os olhos no enorme cachorro parado a menos de três passos da porta de madeira maciça. Fechou a porta rapidamente; Sirius pôde ouvir o barulho da chave rodando.
– Humpf! – o cachorro procurou pelo número da casa para se certificar que aquela era a residência de Arabella Figg.
Não havia dúvidas: ele estava diante do número 20. Será que a Sra. Figg tinha se mudado? Mas Remo garantira que ela continuava morando no mesmo lugar nos últimos 14 anos... Sirius bateu a pata na campainha novamente. Desta vez só conseguiu ver um dos olhos da mesma garota, que espiava pela estreita abertura da porta.
– Não tem ninguém, vovó! – ela gritou para dentro da casa. – só um cachorrão enorme e feio!
Quando Sirius ouviu a ofensa inocente, arreganhou os dentes e rosnou para mostrar que não gostara do comentário. A única coisa que conseguiu com isso foi que a menina batesse a porta bruscamente, trancando-se outra vez com medo daquele animal de aparência feroz. Ele estava prestes a tocar a campainha mais uma vez quando uma senhora de cerca de 60 anos abriu a porta de repente, forçando os pequenos olhos azuis a encontrar o cão negro na rua mal iluminada.
O cachorro deu um breve latido para chamar a atenção da bruxa de cabelos prateados e, então, Arabella Figg encarou-o de maneira nada amistosa.
– Não se atreva a assustar um de meus gatos, Sr. Black, ou posso deixá-lo sem jantar! – ela deu um sorriso comedido.
Sirius fez cara de cão sem dono (literalmente!), dando um pequeno ganido. Logo atrás da velha bruxa estava a menina que lhe batera a porta na cara por duas vezes.
– Vamos, entre! Espero que goste de sopa... – Arabella fez sinal para que o animago entrasse. – Você está atrasado!
Nem bem a dona da casa fechou a porta, com a menina ainda se escondendo atrás dela, e Sirius retomou sua forma humana.
– Como assim atrasado? Por um acaso você estava me esperando?
– Há exatas duas semanas, Sr. Black. – ela respondeu enquanto apontava a varinha para talheres flutuantes, mandando cada um para seu devido lugar na mesa. – Lyra, você não pega mais um conjunto de talheres e um prato para mim no armário da cozinha?
Mas a menina não se mexeu. Fazia alguns minutos que ela estava congelada na mesma posição: as pernas rígidas, o ventre contraído e as mãos sobre a boca escancarada, tentando conter um grito silencioso. Ela vira um cachorro se transformar num homem. Como se isto já não bastasse, esse homem era extremamente alto e magro, com cabelos compridos e desgrenhados, e, o pior de tudo, tinha um olhar absolutamente fantasmagórico.
– Lyra? – Black encarou a menina, que finalmente deixou o grito vazar.
Quando os pais da menina revelaram o verdadeiro motivo da mudança da Rússia para a Inglaterra, Lyra pensou que tudo fosse uma brincadeira. Ela? Uma bruxa? Aquilo não fazia sentido. Foi por esse motivo que a mãe dela resolvera passar alguns dias em Little Whinging, no Surrey, enquanto o marido e o filho caçula procuravam uma casa em Oxford. Arabella Figg vinha obtendo progressos com a neta postiça. Conseguira deixar Lyra encantada com um diário antigo, cujas letras iam desaparecendo à medida que a garota escrevia, cumprindo com perfeição sua função de guardar segredos. Mas ainda havia muitas coisas naquele mundo desconhecido que assustavam Lyra. A começar pelo homem cuja cabeça aparecia todas as manhãs na lareira da casa por entre labaredas esverdeadas. Agora, acabara de ver um cachorro se transformar num homem. A menina começaria a ver os vários gatos da avó com outros olhos...
– Lyra! O que aconteceu? – uma voz preocupada de mulher surgiu do alto da escada que conduzia ao andar superior, onde ficavam os quartos.
Ela se assustou. – Arabella Figg respondeu com calma, indo pegar o prato e talheres que faltavam.
– Ora, Lyra, você ainda não se acostumou a ver sua avó colocando a mesa? – a mulher começou a descer as escadas e só então reparou que havia mais alguém na sala.
O susto em perceber Sirius Black de pé no meio da sala de jantar fez com que Helen se descuidasse com um dos degraus e pisasse em falso, rolando escada abaixo.
– Mamiénka! – a garota correu até onde a mãe estava caída.
Sirius olhou para a cena apreensivo e perturbado. Queria sair dali o mais rápido possível, mas a preocupação não o deixava seguir sua vontade. Ela teria se machucado? Só Arabella Figg continuava calma; Helen, aliás, poderia jurar que a tia ria.
– Eu estou bem, querida! – Helen disse à filha, tentando se levantar, mas uma dor aguda na perna esquerda a atingiu quando tentou se firmar e ela caiu outra vez.
Antes que Sirius conseguisse raciocinar, ele já estava ao lado de Helen, sob o olhar amedrontado da menininha que tentava ajudar a mãe.
– Melhor você se sentar em algum lugar. – ele evitou olhar no rosto da ex-namorada enquanto a pegava no colo e a carregava até a mesa de jantar.
Arabella puxou uma das cadeiras e Sirius acomodou a bailarina.
– É, está quebrada. – Arabella disse após examinar a perna da sobrinha e constatar uma fratura próxima ao tornozelo. – Vou colocar uma tala. Mais tarde preparo uma poção remenda-ossos...
– Ahm, Arabella, já vou indo... – Sirius começou a se despedir, sem coragem de encarar a acidentada. Lyra deu um sorriso aliviado que não demorou muito para sumir.
– Ah, já vai? – a velha bruxa perguntou com uma pitada de ironia na voz. – Então devo presumir que o objetivo de sua visita era assustar minha neta e derrubar minha sobrinha da escada? – ela deu um sorriso sarcástico.
– Tia Arabella! – Helen ralhou com a tia.
– Er... Hum... bem... É claro que não...
– Então sua visita ainda não está encerrada. Sente-se. Jante conosco.
– Ãh... eu... Eu ainda tenho que falar com outras pessoas...
Se Sirius prestasse atenção à mesa, veria que não era o único incomodado com aquela situação. Helen não parava de fitar o prato vazio e estralar os dedos, o que Lyra achou muito estanho, pois a mãe odiava que ela ou o irmão fizessem aquilo.
– Acho que antes você tem que falar comigo. Ou não vai descobrir onde o Fletcher está... – a velha acabou de dizer e sentou-se na ponta da mesa.
O homem mordeu os lábios: não havia alternativa. Ele mal se sentou e um som agudo invadiu a sala de jantar: a campainha.
– Pode deixar que eu atendo! – Helen se levantou com relativa rapidez para quem estava com a perna enfaixada. Ela aproveitaria qualquer desculpa para poder sair da mesa, mesmo que para isso tivesse que disfarçar a dor que sentia ao se apoiar na perna quebrada.
A campainha soou novamente antes que a mulher chegasse à porta. Ao abri-la, deu de cara com um homem gordo, quase sem pescoço e com um bigode grosso que lhe cobria o lábio superior.
– Nós não queremos comprar nada, obrigado! – ela bateu a porta na cara do sujeito.
Helen não deu três passos e a campainha tilintou outra vez. Ela bufou nervosa e resmungou qualquer coisa que lembrava vagamente a palavra "vendedores!".
– Eu já disse que não estamos interessados em... – ela parou para examinar o crachá do homem - ...brocas? O senhor vende brocas? – ela estranhou.
– Helen, o que está acontecendo? – a Sra. Figg veio ver o que estava acontecendo.
– Esse homem querendo vender brocas! – ela fez sinal de que o homem era maluco.
– Eu não estou querendo vender nada! – Válter Dursley tinha o rosto vermelho e inchado de indignação e despeito.
– Ué, então por que você está usando um crachá?
O vizinho de Arabella Figg tinha um cargo importante na Grunnings, uma companhia de brocas de Little Whinging. Ele gostava de "esquecer" de tirar o crachá, que tinha em grossas letras vermelhas, logo abaixo de seu nome, o cargo que ocupava. Como aquela mulherzinha podia compará-lo a um reles vendedor?
– Eu sou GERENTE da Grunnings!
– E? – Helen fez pouco caso.
– Helen! O Sr. Dursley é nosso vizinho! – Arabella ralhou com a sobrinha e então dirigiu-se ao homem: - Desculpe minha sobrinha, Válter! Ela mora na Rússia há muito tempo. Esqueceu dos bons costumes ingleses. – ela pousou os olhos azuis furiosos novamente em Helen, que cruzou os braços e revirou os olhos.
– Rússia, é? – ele fez cara de nojo.
– Eu não como criancinhas! – Helen sorriu, irônica, e deu as costas ao Sr. Dursley.
– Humpf! – o vizinho de Arabella Figg resmungou e, por fim, puxou o braço do sobrinho que até então estava escondido atrás da barriga enorme do tio. – A festinha do Duda está quase começando e, a senhora sabe... Esse moleque tem o dom de aprontar confusão. Eu e Petúnia não queremos que ele arruine o aniversário de 15 anos do nosso Dudinha...
– Claro, claro. Petúnia já tinha me pedido para tomar conta do Harry.
Ao ouvir o nome pronunciado por Arabella Figg, Helen, que estava voltando para a sala de jantar, virou-se imediatamente:
– Harry? Harry Potter?
– É, querida! – Arabella respondeu num tom amargo, repreendendo-a pelo descuido. Se Válter Dursley suspeitasse que ela era uma bruxa... – Harry Potter: o garoto sobre o qual comentei esta manhã.
O Sr. Dursley empurrou o sobrinho para dentro da casa, lançando um olhar desconfiado para aquela mulher magra e baixinha:
– Virei apanhá-lo por volta das dez horas. – e ele saiu sem agradecer à vizinha pelo favor de tomar conta da aberração com a qual ele era obrigado a conviver desde há quase quinze anos.
A casa continuava exatamente igual à última vez em que Harry estivera ali. Os mesmos móveis antigos, o mesmo cheiro de gatos por todos os cantos, os mesmos gatos circulando pela sala mal iluminada pelas lâmpadas de dois abajures. A única coisa diferente era aquela mulher que ficava a encará-lo com a boca entreaberta, como se estivesse olhando para um fantasma. O garoto estava se sentindo encabulado; com certeza a Sra. Figg devia ter dito àquela mulher que ele era o sobrinho anormal de seus vizinhos, que estudava na escola St. Bruttus para Meninos Irrecuperáveis, história que os Dursley não se cansavam em espalhar para justificar sua ausência durante o ano letivo.
– Vocês dois vão ficar aí parados?
A Sra. Figg já estava do outro lado da sala, quando chamou a atenção dos dois. Ela nunca fora uma pessoa que se pudesse chamar de gentil. Na maioria das vezes em que Harry estivera ali, ela costumava ignorar o garoto, preocupada em tricotar uma colcha que ele jurava ser sempre a mesma, apesar dos longos intervalos em que ficavam sem se ver. Harry não costumava achar isso ruim: era melhor do que as implicâncias habituais dos tios. Assim, ficar parado em frente à porta, escolhendo um lugar na sala para sentar-se era comum nas suas visitas ao número 20 da rua dos Alfeneiros. E agora a Sra. Figg queria que ele se mexesse? Ele olhou para a mulher que o fitava há pouco, ela parecia ligeiramente desconcertada de levar uma bronca em frente a um garoto.
– Mãe? – uma garotinha de uns 11 anos surgiu da passagem que dava à cozinha. Ela parecia ligeiramente assustada.
Logo atrás dela, Harry avistou um homem. Ele esfregou os olhos. Não podia estar vendo que achava que estava. Ele se beliscou, tentando acordar daquele sonho, mas agora aquele homem sorria. Só podia ser sua imaginação: o que Sirius Black estava fazendo na casa da Sra. Figg? Mas aquela risada era inconfundível. Sirius ria como um louco, pensando em como a vida era cheia de surpresas boas e ruins. A garotinha a sua frente tinha a cara ainda mais apavorada... Além de se transformar em cachorro aquele homem era definitivamente um demente. Onde já se viu rir daquela maneira na casa dos outros? Os vizinhos poderiam ouvir!
A cena na casa de Arabella Figg era cômica. A dona da casa encarava a mulher baixinha e de perna enfaixada com expressão de zanga. Esta, por sua vez, tinha os olhos melancólicos, prestes a se debulhar em lágrimas, presos no moleque magrelo de olhos intensamente verdes. Harry tinha a boca aberta de incredulidade por avistar o padrinho, que parecia extremamente feliz e inconseqüente, rindo com tanta extravagância. E a menininha olhava um a um, quase que pedindo socorro. Estavam todos loucos?
– Vocês vão assustar as crianças! – Arabella ralhou com os dois adultos.
– Tiago! – Helen pôs as mão em frente a boca. – Você... você é a cara de Tiago!
– A senhora conhecia meu pai? – Harry não estava entendendo mais nada. A Sra. Figg era uma trouxa... Ou não era?
– Helen, é incrível como você tem o dom de embaralhar a cabeça das crianças... – Arabella reclamou da sobrinha. E voltando-se para Harry: - Bem, acho que meu segredo foi revelado... – ela olhou para Sirius e Helen, que não estavam nem um pouco constrangidos. – Se bem que você ficaria sabendo mais cedo ou mais tarde mesmo, afinal este ano eu serei sua professora... Que tal irmos todos jantar? Aí eu explico melhor, certo?
– Er... eu vou subir, vovó, já acabei... – Lyra não esperou que lhe dessem a permissão para ir para seu quarto e subiu as escadas ventando.
Helen caiu sentada num sofá, desgostosa, a cabeça entre as mãos. Sabia exatamente porque a filha fugira da sala: ela tinha certeza que Harry era um bruxo. E a única bruxa de que Lyra não tinha medo era a avó – isso porque ela não considerava a mãe uma bruxa. Malditas histórias da carochinha! Por que em todos os contos as bruxas eram feias e más?
– Eu não consigo entender por que ela tem tanto medo...- ela lamuriou em voz baixa, porém audível.
– Ah, você não sabe? – Sirius engoliu aquelas palavras com raiva e soltou o veneno guardado há 14 anos. – Esconde da menina sua verdadeira natureza e depois não entende as reações dela?
Arabella Figg sentiu o ar pesado e tratou de tirar Harry logo dali. Pouco antes de entrar na cozinha ela olhou de relance para a sobrinha, que fitava Sirius Black indignada.
– Er... Eles parecem realmente nervosos. – Harry levantou as sobrancelhas rapidamente e voltou a olhar para o chão. Estava se sentindo desconfortável.
– Isso sempre acontece... Desde que eles eram adolescentes! Nunca vi duas pessoas discordarem tanto.
– Eles estão falando de mim... – o menino ouviu seu nome no meio da gritaria.
– Eles estão falando deles mesmos, querido! Agora por que não se senta e toma um pouco de sopa?
A bruxa deu um estalido e dois pratos surgiram sobre a mesa redonda e pequena que ficava dentro da cozinha, onde Arabella costuma jantar quando não havia visitas – ou quando as visitas não estavam tendo um bate-boca entre a sala de estar e a de jantar. Harry não pôde deixar de se assustar; primeiro, porque ela tinha feito mágica sem a varinha; e, segundo, porque ainda não havia digerido muito bem a informação de que sua vizinha era uma bruxa.
Ele sempre costumava ficar mudo nas visitas ao número 20, mas as revelações daquela noite o incitaram a falar:
– Sra. Figg, por que... Por que a senhora nunca disse que era uma bruxa?
– Porque você nunca perguntou. – ela respondeu séria, sem um pitada sequer da doçura com que o tinha tratado segundos atrás.
– Mas... Como é que eu ia adivinhar que a senhora era uma bruxa?
– Harry – ela falou um pouco brava -, da última vez em que você esteve aqui, você nem mesmo sabia que era um bruxo. Se eu dissesse algo a você, com certeza iria pensar que eu estava ficando caduca!
O garoto refletiu por alguns instantes. Ele já achava caduca sem que ela dissesse nada a respeito de bruxaria. Bastava passar uma tarde ouvindo ela falar dos gatos que viveram e ainda viviam naquela casa para chegar a essa conclusão.
– Espero que goste de sopa de legumes... – ela se levantou com um dos pratos na mão, em direção ao fogão.
– Parece que eles pararam de brigar... – Harry estava concentrado na discussão de seu padrinho com a mulher baixinha na sala.
Ele mal acabou de dizer estas palavras e ouviram uma voz estridente gritar: "EU TE ODEIO, SIRIUS BLACK!" O homem respondeu alguma coisa que Harry não conseguiu entender e, alguns minuto depois, Black entrava na cozinha com a expressão mais carrancuda que o menino já tinha visto estampada na face do padrinho.
– Ei, quem é você para me julgar? O próprio Dumbledore fez isso com Harry! E eu aposto que você não usaria esse tom de voz para falar com Dumbledore.
– Você não faz idéia do quanto Harry sofreu e ainda sofre na casa dos trouxas! Se eu não tivesse sido preso...
– Mas foi. E Harry não me parece menos bruxo por ter crescido entre trouxas...
– Ele não teve escolha! Mas você podia ter evitado. Eu lhe avisei!
– Ah, que ótimo! Avisos... Pois eu sempre lhe disse que não gostava do Pettigrew! E não é que eu estava certa?
– Não mude de assunto. Estamos falando das suas decisões idiotas. Você só pensa em você, esquece que são os outros que sofrem as conseqüências! Será que nunca passou pela sua cabeça que pudesse traumatizar a menina?
– Ora, meu pai fez a mesma coisa comigo e eu não fiquei traumatizada...
– Não? A quem você está tentando enganar? Você passou sua vida toda negando que era uma bruxa!
– Eu não fiz isso!- Helen esqueceu-se da dor na perna e avançou para cima dele, com fúria. – Eu só passei a evitar uma realidade que não era mais minha!
– Porque você não quis! Você escolheu seu destino. E agora quer decidir o da sua filha... Você devia ser proibida de tomar decisões, sabia?
– Olha aqui, Sirius Black,– ela estava quase furando o olho direito dele com o dedo indicador. – eu posso ter tomado algumas decisões erradas na vida. Mas pelo menos de uma eu não me arrepen...
Helen não conseguiu terminar de falar. Não tinha reparado o quão próxima estava de Sirius. Ele não disse nada, apenas mergulhou naqueles olhos castanhos faiscantes. Como dois ímãs de pólos contrários, os corpos se uniram e, antes que um deles pudesse evitar, os lábios se tocaram num beijo quente e violento, que mesclava saudade, raiva e desejo. Não fora Black que iniciara aquilo, tampouco Helen. Havia uma força maior que a razão que os impelia a continuar uma história que tinham dado por encerrada 14 anos antes.
Um barulho parecido com passos fez Helen empurrar Sirius com toda a força que tinha. O que sua filha iria pensar se visse aquela cena? Por sorte, era só um dos gatos da tia. Com raiva de si mesma e do homem a sua frente, ela repetiu uma frase que dissera pela primeira vez a muito tempo atrás.
– EU TE ODEIO, SIRIUS BLACK! – e deixou que sua mão marcasse o rosto abatido dele.
Sirius não sabia se tinha mais raiva das palavras ou da atitude de Helen. Só sabia que desta vez ele não daria a mesma resposta que há 14 anos:
– Pois a recíproca é verdadeira...
Os dois ficaram se encarando por alguns segundos, derramando toda a raiva que sentiam um do outro. Foi Helen quem fraquejou primeiro e desviou o olhar para a perna quebrada e depois para a escada, estudando a melhor maneira de chegar até o quarto sem sobrecarregar o membro fraturado. Ela deu as costas ao homem sem dizer mais nada e, apoiando-se no corrimão, subiu com dificuldade os primeiros degraus.
Sirius continuou a fitá-la até Helen chegar a metade da escada, com uma ponta de esperança que ela se arrependesse. Então, convencido de que ela não pediria desculpas, resolveu esfriar a cabeça conversando com o afilhado.
– Eu não sei como você me convenceu a ficar... – ele entrou na cozinha pisando duro. – Sabíamos que ia dar nisso. Se eu soubesse que ela estava aqui não teria vindo...
– E não teria encontrado Harry. – Arabella respondeu tranqüila, despejando uma concha de sopa no prato e oferecendo-o ao menino.
O homem pôs os olhos gelados no afilhado, que tomava o caldo sem encarar nada senão o prato. Harry já vira Sirius tomado de fúria uma vez, logo que o conheceu. Depois da tentativa frustrada de matar Rabicho, o padrinho assumira uma postura mais racional e comedida. Ao menos até aquele momento.
– Harry! – Sirius contraiu o rosto arrependido de seu descontrole de há pouco. – Er... Eu não costumo ser assim, tão... tão...
– Perturbado? – Arabella Figg sugeriu.
– Eu não estou perturbado. – ele retrucou irritado.
– Er... Sirius... Não tem problema! Você deve ter seus motivos!
– Esse é justamente o problema, Harry. Nenhum deles têm motivo.
– Como assim não tenho motivo? – Sirius estranhou. Arabella Figg raramente defendia a sobrinha. Era a pessoa mais neutra em julgamento que ele conhecia.
A bruxa não respondeu nada, apenas fitou aquele homem maltratado achando graça.
– Ela me deu um tapa! – Sirius parecia uma criança que tinha acabado de brigar e tentava desesperadamente dizer que fora a outra quem começara, como se isso pudesse amenizar ou justificar seus atos.
– Mais um? – a bruxa sorriu.
Ele afastou o prato de sopa que a bruxa dera a ele e encerrou o assunto. Então, voltou-se para Harry, os olhos negros perdendo um pouco do ar fantasmagórico que Azkaban havia lhes dado.
– Como vai de férias?
Harry olhou para a senhora Figg antes de responder. Será que podia falar mal dos Dursley na frente dela? Na dúvida evitou falar dos tios.
– Na mesma... – ele respondeu desanimado. – Estou esperando uma autorização de Dumbledore para ir à casa do Rony.
– Dumbledore está certo em mantê-lo aqui, Harry. – Arabella Figg comentou. – Arthur e Molly têm um coração enorme, mas não seriam páreo para Voldemort. Além de que você colocaria os Weasley em perigo de vida...
Harry reagiu aos dizeres da bruxa com estranhamento. Era esquisito ouvir a trouxa que cuidara dele desde que era um bebê falar com tanta intimidade dos pais de Rony. "Mas ela não é trouxa", ele repetiu para si mesmo em pensamento.
– Sra. Figg, se nem os Weasley, que são bruxos, podem com Voldemort, por que eu estaria seguro na casa dos meus tios, que são trouxas?
Sirius segurou a risada ao ver Arabella se engasgar com a sopa.
– Harry, você não é só a cara do seu pai... – o padrinho comentou. – Não vai responder, Sra. Figg? – ele pousou os olhos irônicos sobre a velha. Não a chamava com toda aquela formalidade desde que era um adolescente.
– Não. – Ela respondeu secamente. – Quem tem que responder isso é Dumbledore. Foi ele quem decidiu. Aliás, acho que já está na hora de você ir embora, Black!
– Mas até agora a pouco você estava pedindo para eu ficar! – a cada dia que passava, Sirius entendia menos as mulheres da família Silver. Arabella podia ter o sobrenome do marido, mas ainda tinha o mesmo sangue imprevisível que circulava nas veias de Helen.
– Era para você ver seu afilhado. Agora que você já viu, vou lhe dar o endereço do Fletcher.
– Mas...
– Sra. Figg! – Harry arregalou os olhos: não queria que Sirius fosse embora.
Ela não deu ouvidos aos apelos do menino e continuou a passar as instruções para o bruxo fugitivo.
– Fletcher encantou sua casa para que nenhum bruxo pudesse encontrá-la. Depois você pergunta para ele o porquê. – ela respondeu antes que ele questionasse. – No entanto, você conseguirá vê-la se estiver transformado em cachorro. – Arabella conjurou pena e pergaminho, e rabiscou alguma coisa rapidamente. – Entregue isso a ele antes de voltar a forma humana se não quiser ser encontrado pelo Ministério.
Black enrolou o pergaminho com cuidado e guardou-o num dos bolsos de trás da calça jeans, o rosto aparentava tristeza. Ele adoraria passar mais tempo com Harry, mas Arabella estava certa: ele tinha que procurar Mundungo Fletcher. Antes de se despedir de Harry e seguir caminho, ele resolveu tirar uma dúvida:
– Se Dumbledore já tinha entrado em contato com você, por que não fez a mesma coisa com o Fletcher?
– Na verdade não foi Dumbledore que entrou em contato comigo, e, sim, eu com ele. – ela sorriu. - Desde que Helen voltou, 15 dias atrás, a idéia de que você viria atrás dela começou a me atormentar. Eu precisava entrar em contato com o Moody para pedir proteção e sabia que ele estava lecionando em Hogwarts... Mas acabei dando com Dumbledore na lareira da sala de DCAT e ele me contou sobre o Torneio Tribruxo e sobre você... Helen me confirmou que sabia que você era um animago e, devo dizer, ficou furiosa quando descobriu que o ratinho que ela ajudava você a criar era na verdade o Pettigrew.
Sirius esboçou um sorriso. Se não tivesse tanto rancor acumulado, tanto de Helen quanto de Rabicho, aquela seria uma cena que ele gostaria de ter visto.
– Então o Fletcher não sabe que eu sou inocente?
– Não.
– E por que você não entrou em contato com ele?
– Você vai entender. Ele está morando nesse endereço – Arabella entregou um cartão a ele.
– Oxford? – Sirius se admirou. Não pisava naquela cidade desde que fora preso.
– Aham... Falando em Oxford... Você ainda tem aquele apartamento perto da Universidade?
– E como é que eu iria vendê-lo? Se passasse uma procuração para Remo resolver por mim, o Ministério era capaz de prender o coitado sob acusação de ser meu cúmplice...
– Não quer alugar?
– Alugar? Você está pensando em ir para Oxford?
– Eu não. Mas o marido de Helen vai dar aulas na Universidade de Oxford. Sei que é um apartamento pequeno, mas eles também não podem gastar muito ainda... Helen está desempregada desde que resolveu largar o Bolshoi para voltar para a Inglaterra.
– Er... Eu não sei. Eu pensava em levar o Harry para lá quando provasse minha inocência... – ele disse olhando para o garoto.
– Só até Helen arranjar um emprego. Eles vão precisar de um lugar maior de qualquer forma. Uma família de quatro pessoas não consegue viver num apartamento de dois quartos por muito tempo.
– Er... está bem. – ele não teve forças para recusar. – Mas imagino que esteja bastante empoeirado. Tem 14 anos que ninguém entra lá.
– Obrigado! – ela agradeceu. – e fique tranqüilo! Eu vou ficar de olhos grudados em Harry durante todo o verão!
– E você, garoto... bem, vou tentar aparecer em King's Cross, está bem?
King's Cross? Harry adorara a idéia. Mas de repente o medo invadiu seus pensamentos:
– Não vá! Pode ser perigoso! – alguém tinha que ser responsável ali.
– Irei transfigurado em cachorro. Não se preocupe. Ninguém vai me pegar.
Sirius abraçou Harry com força e se transformou no enorme cachorro preto que Harry vira pelo primeira vez naquele mesmo bairro, pouco depois de fazer a irmã de seu tio Válter flutuar na sala de jantar dos Dursley. Quando o menino e a bruxa acharam que Sirius iria embora, ele voltou a sua forma humana. Tinha esquecido de perguntar alguma coisa:
– Arabella, por que a teimosa da sua sobrinha nunca aproveitou a chance que deram a ela? Eu não consigo me conformar com isso...
– Chance? Do que você está falando, Black?
– Ela... Ela nunca ficou sabendo? – ele se assustou com aquela hipótese.
– Sabendo do quê? – Arabella não estava entendendo.
– Moody conseguiu que a expulsão fosse revista pelo Ministério. – e lembrando-se direito da história. – Lílian ia escrever a ela... Helen esqueceu a carta na casa do Tiago... Eu achei que fosse simples teimosia dela não querer mais ser bruxa... – ele falava rápido sem se preocupar em emendar as frases.
– Moody?
– É, depois que ela ajudou ele e o Longbottom a prender o Karkaroff. Eles iam reconsiderar...
– Sente-se. – ela ordenou. – O Fletcher pode esperar mais um pouco...
Quando Sirius deixou a casa de Arabella Figg, os últimos convidados saíam do número 4. Minutos depois Válter Dursley batia na porta da vizinha e saía arrastando o sobrinho, que para sua irritação, parecia feliz demais para o gosto do tio. No número 20, duas das três mulheres da casa continuavam acordadas. Arabella Figg acabara de tirar a louça da mesa e, enquanto uma esponja enfeitiçada lavava os pratos, a bruxa ia guardando as panelas já secas.
No quarto que costumava ocupar quando era adolescente, Helen tentava se acalmar rabiscando um dos currículos que desistira de entregar nas escolas de dança da cidade. Não ficava nervosa daquele jeito havia 14 anos. Sirius Black tinha o dom de deixá-la fora de si. Odeio o modo como fala comigo e como corta o cabelo. Ele tinha mudado: estava mais velho e maltratado. Quatorze anos... Mas parecia que essa mudança toda tinha acontecido em 14 segundos. Odeio como dirige aquela moto idiota e odeio o seu desmazelo.
Helen sempre dividira sua vida em duas: a da trouxa e a da bruxa. Há muito tempo a vida da bruxa ficara em segundo plano, esquecida na memória da bailarina trouxa. Fora só rever aquele homem e tudo renascera de repente. Odeio suas botas de couro de dragão e como consegue ler minha mente. Odeio tanto isso em você que até me sinto doente. Quatorze anos ou 14 segundos? Que importava isso agora? Ainda se sentia a mesma adolescente insegura.
Ela se lembrou das palavras dele na sala. Helen escolhera seu destino. Estaria arrependida? Não, ela não podia se arrepender... Não agora... Odeio como está sempre certo e odeio quando você mente. As lembranças relampejavam em sua cabeça. O dia em que falara com ele pela primeira vez... Uma mentira que ela descobrira fazia apenas duas semanas. Uma mentira, que se tivesse sido descoberta antes, poderia livrar aquele homem de anos de prisão injusta. Quando ela adivinharia sobre aquele ratinho inocente? Mas, para Sirius tudo sempre era uma piada. Eu odeio quando me faz rir muito; mais, quando me faz chorar. Quantas vezes ela não empapara o travesseiro com seu pranto, recriminando-se pelas decisões erradas? Ela o afastara de si quando o que mais queria... Ele teria deixado de viver como um bruxo por ela! Eu odeio quando não está por perto e o fato de não me ligar.
Era a segunda vez que ela dizia que o odiava... Mas eu odeio, principalmente, não conseguir te odiar. Nem um pouco. Nem mesmo por um segundo. Nem mesmo só por te odiar.
– Helen? – a Sra. Figg abriu a porta, depois de bater delicadamente.
– Oi. – ela limpou as lágrimas que lhe escorriam pela face rapidamente.
Arabella Figg percebeu que ela estivera chorando, mas preferiu não comentar:
– Você tem planos para amanhã cedo? – Helen respondeu olhando para a pequena pilha de currículos.
Já tinha percorrido todas as escolas de dança da cidade e não conseguira vaga nem como professora de férias. Era qualificada demais para dar aulas a crianças de 7 e 8 anos, diziam os diretores das academias. E nenhum deles entendia por que ela abandonara uma companhia de ballet não importante.
– Então você vai comigo ao Ministério da Magia. Vou pedir a Petúnia que fique com Lyra. Casa mais trouxa não conseguiremos achar.
– Petúnia? A irmã de Lílian? Ela me odiava!
– Ela nem se lembra de você... Eu tive que desmemoriá-la após aquele lamentável incidente! – Arabella se referia ao episódio que tornara Helen e Lílian grandes amigas. – Mas antes eu preciso saber uma coisa: você gostaria de voltar a ser bruxa?
– Como? – Helen achou que não tinha ouvido direito.
– Você gostaria de poder usar magia outra vez? – Arabella reformulou a pergunta, afinal, Helen nunca deixara verdadeiramente de ser uma bruxa.
– Não diga besteiras, tia! Você sabe que eu não posso...
– Não pode ou não quer?
– Os dois. – ela não quis dar o braço a torcer.
Arabella deu um suspiro:
– Helen, isso não é hora para ser orgulhosa. Se você tivesse uma chance...
– Que tipo de brincadeira é essa, tia Arabella? Você sabe muito bem que eu não poderia...
– Sirius Black me garantiu que sim.
– Sirius é um lunático!- Helen sentiu a raiva crescer dentro dela novamente.
– Eu não quero saber o que você pensa dele. Quero saber se você dá valor ao sangue que corre em suas veias! – Arabella retorquiu irritada com a demora da sobrinha.
Helen pensou imediatamente na filha. Se ela pudesse voltar a fazer magia, seria mais fácil convencer Lyra de que aquilo era algo bom. Parecia que naquela noite as estrelas conspiravam para que ela repensasse seu passado. Ela sempre fora feliz com Dmítri, mas faltava alguma coisa que Helen não sabia explicar o que era. Ao menos até ver sua filha explodir um abajur durante uma briga com o irmão.
– Se eu tivesse uma nova chance, agarraria com todas as minhas forças! - ela respondeu olhando dentro dos olhos azuis da tia.
– Eu sabia que você sempre teria orgulho do sangue de seu pai. – Arabella abraçou a sobrinha. – Só mais uma perguntinha... Você ainda tem alguma peça de roupa de quando tinha 16 ou 17 anos?
– Roupa? Não. – Helen forçou a memória. - A única coisa que guardei dessa época foi um anel...
– Um anel? – Arabella sorriu satisfeita. – Não podia ser melhor.
N/A 1: A poesia escrita em itálico em meio aos pensamentos da Helen foi retirada da versão dublada do filme 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você, que dá nome ao capítulo. Logicamente, a parte das botas de couro de dragão, ou da moto, foram adaptadas para se encaixarem na fic!
N/A 2: Meus agradecimentos a Ani (Ameria A.Black), que foi paciente o suficiente para reler tudo o que escrevi até agora e corrigir meus erros. Estou trocando todos os capítulos pelas versões betadas, e fazendo os ajustes que há tempos estavam faltando (como inserir linhas de separação... meus asteriscos foram todos 'devorados' pelos sistema do site!
