Capítulo 2 – Mera Coincidência
Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensando, me de a mente absorve
Todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que, inda que mágoa, é vida.
Ricardo Reis
Quase uma semana para chegar a Oxford. Por mais que fosse um cachorro veloz, não havia como fazer aquela viagem em menos tempo, uma vez que estava a pé. Lembrou com saudade da moto voadora: se estivesse com ela, teria chegado a Oxford em menos de dez minutos. No entanto, ele sequer sabia onde o veículo de duas rodas estava agra, e, mesmo se soubesse, não poderia usá-lo. Já andava abusando o suficiente só de perambular pela Inglaterra transformado em cachorro. Também havia Bicuço, que Sirius deixara em Lancashire com Remo, mas se uma moto voadora já seria algo estranho aos olhos dos trouxas, que reação teriam se vissem um hipogrifo?
A Rua Mill ficava próxima à estação ferroviária e era bem curta. Começava na Park End e terminava no cemitério, que não era mais que um grande tapete verde com cruzes brancas marcando o descanso dos mortos. Não era um local que um trouxa escolheria para viver, principalmente os mais supersticiosos. Tinham medo de fantasmas... Mas qualquer bruxo sabia que aquilo era uma grande besteira. Primeiro, porque os fantasmas não gostavam de assombrar cemitérios; preferiam as casas onde tinham morado quando vivos ou o local onde tinham morrido. Segundo, porque apenas os realmente infelizes em vida tornavam-se fantasmas, o tipo de pessoa que não guardara uma única recordação boa de sua vida. E esses casos eram raros, talvez um ou dois mortos por ano se transformassem em fantasmas.
Naquele pequeno trecho, logo após o cruzamento com a rua Arthur, havia somente duas casas. Ou seriam três? Sirius podia perceber uma imagem quase transparente tremeluzir com o vento. Nem precisou olhar o número para ter certeza que aquela era a casa de Mundungo Fletcher.
Quanto mais ia se aproximando, mais a imagem da casinha de madeira - diferente de todas as outras construções da rua, que eram de pedra – ia se firmando. Quando Sirius parou em frente ao imóvel, o contorno já era nítido, porém a casa parecia piscar, como se estivesse coberta de tinta invisível que brilhava ao sol. Sirius procurou um lugar meio escondido para poder se transformar em humano outra vez: tinha que pegar a carta que Arabella Figg lhe entregara. Retomou a forma de cachorro e foi bater na porta do velho amigo, sem conseguir descobrir onde estava a campainha.
Sirius ficou aguardando por ali. Estavam demorando a atender. Será que o Fletcher tinha se casado? Nesses dois anos fora de Azkaban ele não se permitira indagar sobre as pessoas de seu passado; tinha que se concentrar em sua sobrevivência. Ele bateu com as patas dianteiras mais uma vez na porta, e então percebeu que, da janela, alguém o observava. Foi só o cachorro virar o focinho naquela direção e a pessoa deixou a cortina tampar a visão daquele vulto novamente. Pelo visto, não ia ser muito fácil fazer com que Fletcher o recebesse, e ele nem sabia do pequeno detalhe de que aquele cachorro era na verdade um prisioneiro fugitivo.
Ficar parado, ali na frente, não ia adiantar em nada. Então o animago contornou o terreno, procurando alguma forma de entrar na casa. Se Fletcher não queria recebê-lo por bem, receberia por mal. Pular a baixa mureta que guardava o quintal da casa não foi algo difícil. Uma vez nos fundos da casa, Sirius achou o que procurava: uma entrada para gatos na parte inferior na porta que dava à cozinha. Ele estava magro o suficiente para passar por aquela abertura, só não imaginava o que ia encontrar do outro lado.
– Ele não vai querer trabalhar com ela novamente. Bem, eu não iria querer. – Remo deu sua opinião à Arabella.
– Vocês não tem que querer coisa nenhuma. – ela retorquiu brava. – Deixar que namoricos adolescentes atrapalhem os objetivos da Ordem é inaceitável.
– Arabella, você conhece o Fletcher. Ele não vai trabalhar com a Carol. Os dois não podem nem se ver.
– Eles não precisam se ver, então. Eu empresto uma capa da invisibilidade para um dos dois se for preciso.
Remo riu da ex-tutora. Muitas das cosias que ele havia aprendido sobre Artes das Trevas fora com ela. Ele não conhecia uma bruxa mais severa e determinada. Talvez Minerva McGonagall chegasse perto, mas ela não tinha o ar irônico de Arabella Figg. Remo só não sabia se essa característica da ex-professora era devido a sua estada na Corvinal enquanto aluna ou se era o sangue quente dos Silver deixando sua marca.
À primeira vista, Arabella Figg poderia ter sido uma aluna da Sonserina. Buscava alcançar seus objetivos sobre todas as coisas. Mas não chegava a ser ambiciosa. Remo tinha a impressão de que Arabella tratava a vida com um desses joguinhos de labirinto mágico: estudava todas as estratégias possíveis para chegar ao final da forma mais rápida e segura possível, sem temer os obstáculos que surgiam, a razão sempre superando a emoção.
– Você vai procurá-la ou eu vou ter que fazer isso? – ela não estava para brincadeiras.
– Hum... Eu procuro, tudo bem. Ela continua morando em Liverpool?
– Quem mora em Liverpool é a Margot, Remo. Carol está em Londres desde que saiu da escola.
– Ahn, é. Eu me confundi. – ele estava constrangido. Era difícil falar de Carol sem se lembrar da irmã dela.
– Nenhum de vocês tem casos amorosos muito bem resolvidos, não é?
– Eu e Margot não temos nada há muito tempo. Ela já está até casada.
– Eu sei disso, mas parece que seu coração ainda não... – ela ergueu as sobrancelhas um pouco penalizada. Gostava daquele rapaz como se fosse seu filho.
Um homem de cabelos grisalhos, bastante fora de forma, apontava a varinha para o cachorro que passava pela entrada destinada aos gatos.
– Um movimento e você morre. Não sei como encontrou a casa, mas... O que é isso? – só então o homem notou que o cão trazia um pergaminho na boca.
Sirius fez um gesto suave, oferecendo o bilhete de Arabella Figg. Se fosse muito brusco poderia ser atingido por uma rajada da varinha de Fletcher. Sim, porque, apesar da aparência, ele tinha certeza de que aquele era seu colega de baralho e bebedeiras da Corvinal.
Mundungo Fletcher tomou o papel da boca do cão com bastante agressividade. Olhou com nojo para um pouco de baba que ficara no pergaminho, mas por fim, o desenrolou e começou a ler.
Caro Fletcher,
Senha: Emergência
Posto: 9711
Saída: pela direita
Método: Armamento trouxa
Situação: Bandeira branca
Atenciosamente,
Arabella Figg
Sirius já havia aberto aquele bilhete uma vez e não sabia de que forma aquilo poderia evitar que Fletcher o denunciasse. Deveria ser algum código; ao menos quando era adolescente, o corvinal adorava estudar estratégias de combate. Fora inclusive um dos estrategistas da Ordem da Fênix durante o período mais crítico. Isso até brigar com Carol Stuart, com quem costumava trabalhar. Mas o bilhete pareceu fazer sentido para o homem que baixou a varinha e caminhou até a parede direita da cozinha e apertou um botão.
– Pode se revelar agora. Desliguei as câmeras.
Por mais que esperasse que aquele cachorro se transformasse num bruxo, Fletcher não pensou que este bruxo seria Sirius Black. Estava tão atordoado que não conseguiu dizer nem fazer nada a não ser olhar para aquele homem.
– Estou desarmado! – Sirius levantou os braços, sem querer causar confusão.
Fletcher continuou a fitá-lo atônito e sem esboçar reação. Sirius julgou melhor começar a explicar o que estava fazendo ali.
– Estou aqui cumprindo ordens de Dumbledore. Não sei se ficou sabendo dos incidentes no último Torneio Tribruxo, mas tudo indica que Voldemort recuperou seu poder e... Bem, acho que Dumbledore pretende reorganizar a Ordem da Fênix...
O outro homem finalmente fechou a boca e piscou os olhos umas duas vezes antes de inquirir Sirius:
– Você é o nosso espião? – ele franziu a testa, assim como Sirius.
– Espião? Não. Acho que não. Pelo menos ainda não. Se bem que... – Sirius pensou que talvez aquela não fosse uma má idéia. Podia se oferecer para ser o espião da Ordem. Argumentos para mudar de lado não lhe faltavam depois de 14 anos de Azkaban.
– Se você não é espião... Não venha me dizer que está arrependido... Não vou acreditar nisso. – e Fletcher fez menção de sacar a varinha que tinha colocado no bolso.
– Arrependido? É pode-se dizer que sim. Eu continuo desarmado, Fletcher. – ele notou a intenção do outro bruxo. – Se estiver disposto a me ouvir, posso lhe contar a história toda. Arabella e Dumbledore confiaram em mim.
Mundungo olhou desconfiado para Sirius, mas ele realmente estava desarmado, e, portanto, não oferecia riscos. Ao menos não numa casa como aquela.
– Muito bem. Vamos até a sala. Quero ouvir sua história.
Remo estudou o sobrado antes de tocar a campainha. Era uma tarde de domingo de céu nublado e ele supunha que Carol devia encontrar-se em casa. Era uma residência comum como tantas outras daquele bairro trouxa. Dois andares, com arquitetura do início dos anos 50, flores no peitoril das janelas mais altas. O jardim na frente era muito bem cuidado, com lírios e camélias disputando a atenção dos transeuntes. Ele preferiu bater palmas a tocar a campainha, sem um motivo para tomar tal atitude.
De uma das janelas do segundo andar, uma mulher alta, de cabelos compridos e encaracolados, o observava com os olhos cor-de-mel incrédulos:
– Carol, não atenda. – Margot gritou baixo ao ouvir os passos da irmã do lado de fora do quarto, prestes a descer a escada.
– Ora, por que não? Mais um daqueles vendedores chatos? – Carol entrou no quarto em que a irmã estava. – Mas... É o Lupin!
– Não abra, Carol. – Margot implorou.
Tarde demais. Remo percebeu que havia pessoas no andar de cima e gritou:
– Carolyn, é você?
A irmã mais velha deu de ombros para a mais nova, como se dissesse que agora não havia nada que pudesse fazer. Ela pôs a cabeça para fora e respondeu:
– Tudo bom, Lupin?
– É, mais ou menos... Será que eu poderia dar uma palavrinha com você?
– Pode sim. Só um instante que eu já desço. – e virando-se para dentro do quarto. – Se você não quer vê-lo, fique aqui. Duvido que ele tenha vindo atrás de você, mas em todo caso, se ele perguntar, digo que você está em Liverpool. Ninguém está sabendo que você se separou mesmo...
– Carol, você não tem medo? Ele.. ele... ah, você sabe o que ele é...
– Ele já teve oportunidades suficientes para fazer mal a alguém e até hoje eu nunca soube de uma única nota falando sobre Remo nos jornais. Mas se você não quer vê-lo, não sou eu que vou insistir. Fique aqui. Eu já volto.
Carol deixou a irmã no quarto e desceu as escadas rapidamente, tirando a chave da porta de entrada do chaveiro ao mesmo tempo em que se olhava no espelho. Detestava aparecer desarrumada na frente de quem quer que fosse. Ajeitou os cabelos, alisados a custa de escovas e chapinhas diárias, e foi abrir a porta. O ex-grifinório levou um susto quando a viu: tinha se esquecido de como Carol era bonita. Os olhos azuis e o sorriso branco continuavam a contrastar com a pele negra.
– Há quanto tempo! – ela o convidou a entrar. – Está precisando fazer algumas aplicações financeiras e resolveu me consultar antes de caiar na conversa daqueles duendes de Gringottes, estou certa? – ela concluiu sorrindo.
– Nem que eu quisesse, Carol. Aplicações financeiras são para quem tem dinheiro sobrando. Não é meu caso. Estou aqui por outro motivo.
– Hum... sente-se. – ela apontou uma das cadeiras da sala de jantar. – Vou buscar um chá para nós dois e então você me conta.
Enquanto a mulher adentrava a cozinha, Remo ficou observando a decoração simples da casa. Ela tudo muito bem arrumado, porém sem luxo. Ninguém diria que uma bruxa morava ali. O local tinha todos os aparelhos e utensílios encontrados numa casa trouxa, desde a televisão e o telefone até um simples abridor de latas, que estava jogado em cima da mesa. Remo só se espantou pelo fato de a casa não ter uma lareira para a comunicação com o mundo mágico. O aquecimento era elétrico.
Ele passou os olhos pela escada. Na parede ao lado havia fotos da família, entre elas, uma das três irmãs juntas. Carol tinha outros dois irmãos além de Florence e Margot, dois rapazes sem uma única gota de sangue mágico. Não eram abortos: Carol era filha de trouxas. Ele estava pensando nisso quando sentiu que alguém o observava do alto da escada. Moveu os olhos rapidamente para o local, mas não havia ninguém ali.
– Prontinho! – Carol roubou a atenção que o ex-professor dispensava aos quadros: - Pode começar. – ela disse depois de colocar a bandeja com o bule de chá e duas xícaras sobre a mesa.
– O Pettigrew? E eu que não dava um nuque naquele filho da mãe...
– Ninguém dava. Eu devia ter suspeitado daquela coragem repentina.
– Águas passadas, Black! Não há nada que possamos fazer para mudar o passado. Mas, voltando ao que realmente interessa, você disse que Dumbledore quer restaurar a Ordem da Fênix?
– Isso é o que eu acho. Ele me mandou procurar pela velha guarda. Até agora só consegui falar com Remo e Arabella Figg.
– Ele vai convocar todo mundo? – Fletcher fez uma careta.
– Acho que sim. Ah, eu pensei que você poderia falar com o Bonnes...
– O Bonnes? Acho que isso vai ser impossível, Sirius. – ele levantou da poltrona em que se encontrava e se pôs a contemplar a parede. – A não ser que você tenha uma idéia de como podemos ressuscitar os mortos.
– Como? O Bonnes...
– Logo depois de mandarem você para Azkaban. – ele falou com voz lastimosa. - A filha dele não tinha nem um ano direito. Eu dou uma ajuda financeira à viúva e à menina. Você sabe, o Matt era como se fosse meu irmão...
– Eu... eu não sabia, me desculpe...
– Ah, e antes que você me peça para entrar em contato com o Longbottom, saiba que ele e a esposa estão no St. Mungus. Foram torturados até perderem a noção da realidade. Praticamente vegetais.
Sirius estava atônito. Raramente algum dos comensais isolados em Azkaban comentava sobre suas vítimas, assim, ele não sabia exatamente quem ainda estava vivo ou morto. A maior parte do tempo eles conspiravam contra traidores, quando não estavam remoendo suas próprias angústias. Black sabia que nenhum deles nunca se arrependera dos crimes cometidos e, os que continuavam vivos, atenderiam prontamente ao chamado de Voldemort quando este os convocasse.
– Er... Você já falou com a Stuart? – Mundungo finalmente tocou no assunto que o afligia.
– Não. Arabella ficou de passar as próximas instruções para Remo. Eu, bem, eu quero evitar o Surrey por enquanto.
– Helen está de volta, não é? – o ex-corvinal deu um sorriso maroto.
– Não é por causa dela. – ele mentiu. – Acontece que Harry mora lá, e o Ministério tem vigiado melhor aquela área. Quando ele for para Hogwarts, as coisas se acalmam e posso voltar lá. – Fletcher deu uma risada de deboche. – Do que é que você está rindo? Não sou eu que estou preocupado em reencontrar minha ex-namorada... – Sirius retrucou enfezado.
– Eu não estou preocupado. – ele fingiu muito bem que não estava. - Só perguntei se ela ia trabalhar conosco. Vocês dois costumavam fazer as previsões para que eu pudesse fundamentar as estratégias, lembra?
– Só que isso vai ser impossível dessa vez. Afinal, como é que um bruxo fugitivo vai ter acesso a um observatório?
– Essa é a parte mais fácil, meu velho! Aceita um chá?
– Aceito sim, mas... Fletcher, me responde uma coisinha antes. Para que uma casa invisível?
– Ah, eu voltei a trabalhar no Ministério. Sou do Departamento de Feitiços Experimentais, Seção de Estratégias de Defesa. Estamos testando um novo tipo de tinta da invisibilidade, além de modelos diversos de alarmes. Sabe como é, fase de testes... Eu virei a cobaia.
– Isso não vai dar certo...
– Por causa do Fletcher ou do Black?
– Por causa dos dois, Remo. – ela engoliu o resto do chá, que já estava frio. – Bem, você sabe que o Black não é lá a pessoal mais dócil do mundo, né? Eu duvido que Azkaban não tenha acentuado o lado implicante dele.
– Mas você não acredita que ele seja culpado, né?
– Não, quer dizer, se Dumbledore confia... Ele deve ter lá seus motivos. A história é meio estranha. Acho que só vou ter certeza quando vir o Pettigrew na minha frente. Mas o caso não é ele ser culpado. É que o Sirius é um chato quando se trata de astronomia...
– Eu sei. – Remo deu um sorriso. – Mas ele é bom nisso, nós temos que reconhecer.
– É. Disso eu não tenho dúvidas. Agora o Fletcher... Não tem jeito de eu fazer meu trabalho e depois mandar para ele sem a gente ter que se encontrar?
– Arabella disse que vocês têm que acabar com os melodramas adolescentes...
Essa foi a vez de Carol rir. Imaginou a ex-professora dizendo aquilo, com a cara mais carrancuda do mundo. Mas fazer piada não mudaria em nada o que sentia pelo ex-noivo. Daria tudo o que tinha para não ter que encontrá-lo nunca mais. Ela nunca o perdoaria.
– Muito bem. Eu não sou mesmo a única que está encarando certos fantasmas...
– Você ficou sabendo da Helen?
– Como?
– É, a Silver! Ela voltou para a Inglaterra.
– Sério? Por quê?
– A filha dela começa a freqüentar Hogwarts esse ano, mas está meio apavorada. Daí ela resolveu trazê-la antes para se adaptar. Mas se não era dela que você estava falando, de quem era?
Carol olhou rapidamente para o alto da escada e disse convicta:
– Do Fletcher. De quem mais?
Viagens por todo o Reino Unido se tornaram uma constante para Sirius e Remo. Quando não estavam convocando antigos membros da Ordem, ficavam na fazenda dos Lupin, em Lancashire, ou na casa invisível de Fletcher, em Oxford, respeitando sempre ao avisos da lua. Naquela manhã, Sirius parecia disposto a mais uma daquelas viagens malucas, mas dessa vez, o motivo não tinha nada a ver com a Ordem:
– Eu prometi a Harry que ia aparecer em King's Cross. Se você não quiser ir junto, não tem problema.
– Sirius, o Ministério continua atrás de você! Será que você ainda se lembra?
– Ninguém vai me reconhecer se eu for como cachorro, Remo.
– Você não vai deixar de ser teimoso nunca, não é?
– Alguém dizia que todos os grifinórios era teimosos. Isso inclui você.
Remo riu do amigo. Não havia como discutir com Sirius quando ele tomava alguma decisão. Em todo caso, ele também gostaria de rever Harry, apesar de achar que sua presença em King's Cross poderia causar algum rebuliço.
– Muito bem, eu vou com você. Mas acho bom você colocar uma coleira...
– Coleira? Você tá doido?
– Sirius, se eu pareço com um cachorro do seu tamanho solto em King's Cross, aí que os pais da meninada vão se convencer de que eu sou um perigo para a sociedade bruxa.
– Hum. Está bem. Então vamos logo. Se demorarmos, não vou conseguir me despedir de Harry. E vai saber quando vou poder ver o garoto outra vez...
Remo assentiu com a cabeça, e então, transfigurou uma página do Profeta Diário num grossa coleira vermelha, que Sirius olhou desconfiado. Não tinha gostado nadinha daquela história. Em todo caso, era melhor aceitar a idéia do amigo. Aparatam na casa de Carol Stuart que levou um susto:
– Ficaram loucos? E se eu tivesse visitas?
– Se você tivesse visitas o Remo apagava a memória deles e pronto. E fique tranqüila que nós já estamos de saída. Só precisávamos de um local seguro para aparatar. – Sirius fez pouco caso da preocupação da dona da casa.
Já fazia dois meses que ela, Sirius e Fletcher vinham fazendo reuniões semanais, alternando os locais do encontro, com o intuito de juntar o material necessário para a reativação da Ordem da Fênix. Tais reuniões não eram algo que se podia chamar de agradável, uma vez que o implicância exagerada do Sirius astrônomo, o obsessão por segurança de Fletcher e o rancor acumulado de Carol sempre levavam a melhor.
– Olha aqui, Black, nós somos obrigados a trabalhar juntos, isso não quer dizer...
– Carol, nós estamos realmente com alguma pressa, mas eu prometo que isso não vai se repetir, está bem? – Remo pediu desculpas por Sirius. – E, de qualquer forma, você vai ter uma oportunidade única hoje... – e ele começou a dar boas risadas, olhando para ao amigo.
– Vai rindo, Lupin. Eu ainda vou descontar... – e ele se transformou no cachorro preto que andara viajando por toda a Inglaterra nos últimos dois meses.
Remo tirou um objeto de dentro do bolso da veste e Carol apertou os olhos para ter certeza de que não estava com a vista embaralhada. Era uma grossa coleira vermelha.
– Eu não acredito! – e a moça começou a gargalhar. – Sirius Black numa coleira. Ah, se eu tivesse uma máquina fotográfica à mão. Lupin, depois dessa você pode aparatar na minha casa sempre que quiser!
Sirius rosnou para mostrar que não gostara do comentário, mas nem Lupin, nem Carol se importaram com isso.
– Vocês vão aonde? – a única mulher na casa indagou.
– King's Cross. Sirius quer se despedir do Harry.
Hum... Eu dou uma carona para vocês então. Tenho que passar no Ministério e no supermercado. Deixo vocês no metrô mais próximo.
Lupin agradeceu pelos dois, uma vez que a melhor expressão que Sirius poderia fazer para demonstrar gratidão era esconder os dentes. Os três saíram da casa e entraram no carro trouxa de Carol, que Sirius julgou demasiado apertado. Por que raios ela nunca tinha usado um feitiço para aumentar o espaço no interior do veículo. Ele deu um latido, mas nenhum dos dois bruxos entendeu o que ele queria dizer. Acomodados, Carol deu partida e saiu deslizando, literalmente, entre os carros da rua congestionada.
De algumas facilidades da vida mágica eu não abro mão. – ela sorriu para Remo que ocupava o banco a seu lado. Sirius ficara no banco de trás, como qualquer cachorro obediente.
Pouco depois estavam no metrô. Remo não sabia se deixavam levar animais no transporte (ao menos a autora não tem a menor idéia se isso é permitido), então se fez de desinformado – o que ele era mesmo - e adentrou num dos vagões com Sirius a seu lado. Antes que alguém viesse reclamar, o trem já tinha partido novamente. Foram apenas dez minutos até King's Cross.
Ao saírem, deram com uma multidão de trouxas que perambulavam. King's Cross reunia não só a estação de metrô e a rede ferroviária, mas também as linhas de ônibus circulares. Para chegar às plataformas de onde saíam os trens para diversas localidades do Reino Unido e da Europa, Sirius e Remo subiram dois lances de escada, esbarrando ocasionalmente com uma família bruxa que vinha trazer os filhos para embarcarem no Expresso de Hogwarts. Alguns viravam a cara para Lupin, reconhecendo o professor-lobisomem que tinha se demitido cerca de um ano antes; outros sequer reparavam naquele homem mal vestido acompanhado de um cachorro.
Chegaram ao local onde ficava a passagem para a Plataforma 9 e ½ bem adiantados. O Expresso ainda não tinha chegado, mas algumas famílias já estavam de plantão na estação, os pais passando as últimas instruções para os filhos antes de desaparatarem para seus empregos. Remo escolheu um canto mais isolado e ficou a esperar: era melhor tanto para ele quanto para Sirius que poucas pessoas os vissem.
Quando o trem finalmente encostou, já havia um grande números de bruxos e bruxas de todas as idades carregando seus malões para lá e para cá. Gritinhos entusiasmados de amigas se reencontrando; o choro das mães que iam se separar de seus filhos por quase um ano; garotos explodindo bombas de bosta perto de seus "inimigos". Vendo aquela cena, era estranho para aqueles dois bruxos adultos pensar que tudo poderia acabar de repente. Voldemort estava demorando para se mostrar e isso podia ser pior do que pensavam. Com certeza ele estava se organizando e conquistando aliados importantes, e eles sabiam que ainda havia muitos adeptos de Voldemort no mundo bruxo esperando apenas uma ordem para reiniciar o inferno.
Foram os olhos de Sirius que avistaram Harry primeiro. O rapazinho surgia pela passagem que dava acesso a plataforma acompanhado de seu melhor amigo, Rony Weasley. Harry recebera autorização para ir passar as férias na casa do ruivinho apenas uma semana antes das aulas começarem, o que significava que passara um verão tedioso e irritante, explícito nas cartas que ele mandava ao padrinho.
O cachorro avançou por entre a multidão, desviando agilmente de crianças que corriam e malões largados no meio do caminho. Quando chegou perto do afilhado, Sirius deu um latido para chamar sua atenção e viu um sorriso largo aparecer no rosto do garoto:
Snuffles! – Harry se abaixou e deixou o cachorro pular sobre ele e lamber-lhe o rosto.
Remo levou mais tempo para chegar até o garoto. Enquanto tentava abrir caminho pela multidão, os olhos dele avistaram uma garota guardando seu malão num dos últimos vagões. A semelhança física não deixava dúvida: aquela devia ser Lyra, a filha de Helen Silver. Se bem que a garota era um tanto alta para quem tinha apenas 11 anos. Ele olhou rápido ao redor tentando achar a mãe da menina, mas um aceno de Harry lhe lembrou o que pretendia fazer antes de parar para observá-la.
Professor Lupin! Que bom que trouxe Snuffles para se despedir de mim!
Desconfio que se eu não trouxesse ele seria capaz de vir sozinho, Harry! – ele piscou para o garoto.
Foi então que a Sra. Weasley reparou que o filho caçula e seu amigo famoso tinham ficado para trás:
Vocês não vão embarcar seus malões, não? Faltam apenas cinco minutos para a partida. Tudo bom, Lupin? – e ela lançou um olhar desconfiado para o cachorro. Ainda não estava totalmente convencida de que Sirius Black era inocente.
Deixa que eu levo suas coisas, Harry! – Ron se ofereceu para ajudar. -Aproveita esse tempinho. A Mione deve estar guardando as coisas dela também... – e ele se afastou empurrando os dois carrinhos.
Com Sirius transformado em cachorro, era impossível para afilhado e padrinho conversarem. Por isso, Remo atendeu a um pedido que Sirius havia feito antes de deixarem Lancashire:
Acho que vamos aparecer em Hogwarts antes do final do ano, Harry.
Mas... Não é perigoso, Professor Lupin? – Harry olhou de Sirius para o ex-professor, assustado. – Os dementadores...
Se os dementadores ainda estiverem trabalhando para o Ministério, não vão ser eles que vão impedir que a Ordem da Fênix faça seu trabalho. – uma voz feminina rugiu atrás do menino.
Harry levou um susto, mas Remo já estava acostumado ao jeito de Arabella Figg. Lupin desconfiava que ela aprendera a andar com os gatos, pois só se fazia notar quando queria.
Sra. Figg? – Harry olhou com espanto. – A senhora vai no trem conosco? – ele perguntou lembrando-se que ela ia ser professora em Hogwarts naquele ano.
Não. Só vim trazer minha neta. Eu ainda tenho algumas coisinhas para resolver no Ministério antes de deixar meu cargo. Mas aparato em Hogsmead antes que o trem de vocês chegue lá.
Eu vi sua neta. – Remo já tinha cumprimentado Arabella com um sorriso. – É incrível como ela se parece com a mãe.
Lyra? Parecida com Helen? – a mulher franziu a testa.
Sirius e Harry também estranharam. O garoto imaginava que estavam falando da garota que passara um dia na casa dos Dursley durante as férias e que parecia ter medo dele. E as únicas coisas que ela tinha a ver com a moça da perna quebrada que conhecera na casa da Sra. Figg, a tal de Helen, eram os olhos e a altura. As duas eram bem baixinhas. Sirius, por sua vez, deu um latido grave, tentando discordar do amigo. Tinha a imagem das duas muito nítida na lembrança.
Não são parecidas? – Remo coçou a cabeça em dúvida. - Mas... Estranho... Eu devo ter me confundido. Não vejo Helen há tanto tempo!
É você deve ter se confundido mesmo...
Então o cachorro latiu e a senhora Figg não precisou entender a linguagem dos cães para responder a pergunta:
Não, ela não veio.
Ei, Harry! – uma voz esganiçada chamou pelo menino, que levou outro susto:
Mione? – ele tinha os olhos arregalados. Ela estava um bocado... hum... diferente.
Oi! Tudo bom, professor Lupin? – ela abriu um sorriso enorme para os dois. - Snuffles!
Bichento, que ela trazia no colo, se desenroscou e, ao modo dos gatos, foi cumprimentar Sirius, enquanto Hermione coçava a cabeça do cachorro distraidamente.
Cadê o Rony?
Foi guardar nossos malões e te procurar. – Harry respondeu.
Ah, eu estava conversando com a Lisa Turpin, - ela apontou para uma menina de cabelos nananana que se despedia dos pais, bem próxima do trem. Ela também foi promovida a monitora.
Ela era uma ótima aluna. – Remo Lupin se lembrou dos tempos em que dava aulas em Hogwarts. – Mas você também foi promovida, não foi, Srta. Granger?
Ele deu uma piscadela e ela sorriu, as faces ruborescendo. Harry já sabia que Hermione tinha sido escolhida como monitora da Grifinória. Isso era algo que ninguém tinha dúvidas de que aconteceria. Dentre os garotos, o escolhido foi Simas Finnigan, para o desapontamento de Rony, que, apesar de não admitir, tinha alguma esperança de se tornar monitor, ainda que soubesse que suas notas não eram boas o suficiente para isso.
Eu não lembro dela... – Harry espremeu os olhos verdes na direção que Hermione apontara.
Nós não temos nenhuma aula com o pessoal da Corvinal. Por isso você não se lembra. Eu conheço ela das aulas de Aritmancia...
Ei, vocês vão ficar, é? – Rony chamou os dois da janela de um vagão, parecendo um tanto irritado. O trem já estava quase saindo.
Harry e Mione se despediram de todos e entraram correndo no vagão onde estava Rony. Os três adultos ficaram observando o trem partir. Quando o barulho provocado pelas rodas e pelo apito se tornou baixo o suficiente para que conversassem sem gritar, Arabella falou:
Como é que você ajuda nesse tipo de imprudência, Remo? – ela olhou brava para Sirius.
E alguém consegue convencê-lo de alguma coisa, Arabella?
Bom, eu tenho que ir. Vocês voltam a Oxford quando?
Hoje mesmo. Aliás, ele queria saber se poder aparecer no apartamento para pegar alguns objetos pessoais. E, bem, se não há riscos...
Arabella Figg riu:
Esse risco de que você está falando não existe. Helen não está em Oxford.
Ela ficou no Surrey?
Eu realmente tenho que ir, Remo. Mas mantenha contato pelo correio-coruja ou por uma lareira. Passarei novas instruções de Hogwarts. – e a mulher desaparatou, deixando Remo, Sirius e alguns outros bruxos para trás.
DIM-DOM! O som da campainha ecoou por todos os cômodos da sobreloja, no número 202 da Blackhall Road. Apenas um garotinho, extremamente concentrado no seu jogo de video-game, estava em casa. Reclamando por ter que parar no melhor nível que já alcançara, ele foi atender a porta. Primeiro olhou pelo olho mágico. Inútil: ele não conhecia ninguém naquela cidade mesmo... Então abriu apenas uma fresta da porta, lembrando-se da recomendação do pai, de manter a correntinha presa, e perguntou para o homem de trajes gastos que aguardava do lado de fora:
O que deseja? – o inglês de Yuri era cheio de sotaque.
Ah, por favor, o Sr. Rasputin se encontra? – Remo Lupin tentou espiar pelo vão da porta para ver com quem estava falando.
Ele não está. – Yuri já ia fechando a porta quando o homem o interpelou.
Ah, e será que você não poderia me dizer como entrar em contato com ele? Eu sou representante do proprietário do apartamento... – ele tentou explicar sem muita convicção de que o garoto lhe entendesse.
O menino ficou quieto, a testa franzida, pensativo. Então bateu a porta no nariz de Lupin e voltou a abri-la. Tinha fechado apenas para soltar a correntinha:
Entra. – ele convidou o estranho.
Se havia uma característica do filho que Helen detestava era a imprudência. Não era questão apenas de ele ser uma criança – ele tinha acabado de fazer 8 anos -, mas de se deixar levar mais pelo instinto do que pela razão. O menino não costumava distinguir muito o certo do errado. Agia conforme sua vontade mandava.
O senhor também é bruxo, não é?
Yuri ia fechando a porta sem prestar atenção no que fazia, olhando para Remo com atenção. Por conta disso, ele ouviu um ganido, logo após a porta enroscar em alguma coisa. Tinha prendido o rabo de Sirius no batente. Ele tornou a abrir a porta rapidamente, depois de fazer uma careta, como se ele pudesse sentir a dor do animal.
Desculpa, moço! Eu não tinha visto o seu cachorro! – e o garoto se aproximou de Sirius, sem medo nenhum. – Calma, garotão, não foi nada! Logo passa! – e acariciou a cabeça do animal.
Num primeiro momento, quanto sentiu a cauda sendo prensada pela porta, Sirius teve ganas de rosnar e latir para aquele moleque, mas a atitude do garoto o desarmara. Devia ter herdado da mãe o jeito com animais. Assim, deu um breve latido de aprovação e andou em direção à Remo.
Hum, seus pais lhe deram autorização para que deixasse estranhos entrar? – Remo não sabia ser irresponsável nem quando isso o ajudava.
Eu já vi uma foto sua... – ele apontou para um porta-retratos sobre uma estante da sala, onde quatro rapazes riam e faziam caretas uns para os outros. – O senhor é bruxo, não é? – o menino abriu um sorriso de fascinação.
Sou, sim. – Lupin respondeu sorrindo.
Então... Se eu não abrisse, você poderia arrombá-la. Volta e meia minha mãe faz isso.
Sua mãe? Mas ela não estava... – ele achou melhor não comentar sobre a proibição de executar magia que fora imposta a Helen após sua expulsão.
Minha mãe não estava o quê? – o menino olhou desconfiado.
Nada, esqueça.
Enquanto os dois ficavam nessa toada, Sirius passeava por seu antigo apartamento. Algumas caixas empilhadas faziam parte da nova decoração da sala. A família Rasputin ainda não organizara a tralha que trouxera na mudança, apesar de já estarem ocupando o imóvel há mais de dois meses. A maioria dos móveis continuava no mesmo lugar e nem mesmo os retratos, papéis e objetos pessoais de Black haviam sido removidos dos respectivos lugares. Se aquilo era resultado da pressa com que se mudaram ou da relutância de Helen em lidar com lembranças de seu passado, isso ele não sabia.
Onde ele foi? – Yuri se deu conta de que o cachorro não estava mais ao lado do suposto dono.
Visitando a casa. Ele costumava morar aqui. – Lupin respondeu sem constrangimento.
O antigo dono criava um cachorro desse tamanho nesse apartamento minúsculo? Coitado! Animais precisam de espaço par acorrer e brincar... – o garoto parecia bastante sentido.
Você disse que arranjaria o endereço do trabalho do seu pai... – Lupin procurou mudar de assunto antes que cometesse um lapso.
Ah, ele já deve ter saído. As aulas acabam às 17:00. Daqui a pouco ele chega. Eu não sei fazer café, por isso não ofereço... Se bem que aqui na Inglaterra vocês tomam chá, né?
Aham. – Lupin balançou a cabeça confirmando.
Eu também não seu fazer chá... – o menino deu de ombros. – Quer jogar video-game?
Ahn? – Lupin não entendeu.
Video-game! – Yuri apontou para o Playstation no chão, perto do aparelho de tevê. – E estava jogando antes de você chegar. Tava quase mudando de nível...
Ah, eu não sei jogar... – e olhou desconfiado para o aparelho. Os trouxas inventavam cada coisa...
O menino fez cara de decepcionado. Suas aulas tinham começado há pouco mais de um semana e ele ainda não tinha nenhum amigo no Inglaterra. Passava muito tempo sozinho, pois o pai ficava na Universidade a maior parte do dia. Yuri nunca pensara que sentiria falta das brigas da irmã... Mas visitas como a daquele homem também não ajudavam. Era melhor ficar a sós jogando video-game do que fazendo sala para alguém que ele não conhecia. Apesar de esse alguém ter um cachorro! Yuri adorava cachorros, mas a mãe tinha um gato e se negava permanentemente a realizar o sonho do menino de ter um cãozinho.
Já sei! – ele teve uma idéia e correu para um dos quartos, enquanto Sirius voltava de seu passeio.
Decidiu o que vai querer levar? – aos olhos de um trouxa, Lupin pareceria um maluco: estava conversando com um cachorro.
Sirius fez que sim com o focinho.
Aqui! – o menino voltou com dois pequenos bastões de madeira da mão esquerda (era canhoto): - Será que o senhor não consegue consertar? Já vi minha avó fazer algo assim... Como era o feitiço mesmo? – ele bateu com os tocos de varinha na cabeça, revirando os olhos e franzindo a testa. – Repito! Não... Reparto! Não, também não é isso...
Yuri já não era assim tão habilidoso com a língua inglesa, que diria com o latim... Na verdade só desistira de falar russo em tempo integral porque estava cansado de não ser atendido quando pedia algo às pessoas. Ele sempre ouvira a mãe e a avó conversarem em inglês, mas elas só se encontravam uma ou duas vezes por ano. Mas os desenhos animados tinham sido bom professores naqueles dois meses de férias...
Reparo? - Remo sugeriu vendo a dificuldade do menino.
Esse mesmo! – ele deu um sorriso contente.
– Mas não se pode consertar uma varinha com esse feitiço. É só para artefatos comuns, sem magia...
O sorriso se desmanchou e Yuri fitou os pedaços de madeira, chateado. Nesse momento, os três foram surpreendidos pelo barulho da chave destrancando a porta. O menino sequer deu tempo para que Dmítri entrasse no apartamento e começou a bombardear informações:
Pai, esse senhor tá te procurando. É sobre o aluguel!
Aluguel? Mas é sua avó quem cuida disso... – e então o homem pousou os olhos curiosos em Lupin.
Apesar do cabelo grisalho e das olheiras fundas, podia-se dizer que Remo Lupin era um homem jovem. Jovem, porém cansado. Nesse ponto, Dmítri se parecia com o visitante. As olheiras e o rosto pálido evidenciavam que não dormia havia dois ou três dias. O cabelo preto e grosso, caía-lhe sobre os olhos pedindo um corte. Ele carregava um número grande de livros e pastas empilhados sobre os braços, que não chegavam a atrapalhar a visão.
Só um minuto. Vou guardar esse material e já volto. - ele deu um sorriso comedido para Lupin, que balançou a cabeça concordando.
Quando Dmítri voltou, esfregando as palmas das mãos para livrar-se do pó deixado pelos livros velhos, esbarrou acidentalmente num porta-retratos deixado a beirada da estante, justamente o que tinha a foto de quatro amigos rindo e fazendo caretas. Ele se abaixou para pegar e sorriu com a coincidência:
Imagino que você é o da ponta direita? - ele disse entregando a foto à Lupin.
O retrato em que Tiago, Pedrinho, Sirius e Remo apareciam de pé na sala comunal da Grifinória fora tirado no dia do baile de formatura.
sou eu, sim. - Lupin devolveu a foto, após alguns segundos de contemplação. - Meu nome é Remo Lupin. Sou amigo do dono do apartamento. Ele me pediu que viesse buscar alguns objetos pessoais...
E então, para a surpresa de Lupin, o homem virou-se para o cachorro:
Não seria melhor que o próprio dono fizesse isso?
O pequeno Yuri, que observava os adultos conversarem duma poltrona encostada colocada ao lado da estante, arregalou os olhos sem entender até ver o cachorro tomar as dimensões de um homem adulto.
UAU! Faz isso de novo? - o garoto estava encantado. Será que algum dia poderia fazer o mesmo?
Sirius sorriu e se votou para o pai do menino, o semblante retomando a seriedade:
Helen contou?
Não. Mas minha filha tem tido pesadelos com um cachorro que se transforma em gente desde que foi para a casa da avó.
Er... Desculpe, não pretendia assustar a menina... - Sirius respondeu desconcertado.
Lyra se impressiona facilmente... Mas... Prazer, meu nome é Dmítri Rasputin. - ele ofereceu a mão direita.
Sirius Black. - o bruxo e o trouxa apertaram-se as mãos.
Yuri, o que é isso que você está segurando. - os olhos de Dmítri focaram o garoto que estava logo atrás de Sirius.
Isso? Ahm, é... Isso é... Hum... Uma baqueta!
Baqueta? Sei. E por um acaso você ganhou uma bateria para precisar de uma baqueta?
Ah, não, isso eu ia pedir de aniversário...
Dmítri riu. Nunca conseguia ficar bravo com o filho. Helen era a única que conseguia ralhar com ele. Mas agora ele tinha de assumir os papéis de pai e mão ao mesmo tempo, não podia relevar as travessuras de Yuri a todo instante.
Vá guardar isso. Se sua mãe descobre que alguém andou mexendo nas coisas dela...
Eu achei que ele... - e pensando que o número de pessoas presentes na sala aumentara: - hum... que ELES poderiam consertar... - o menino baixou a cabeça, enquanto tentava se justificar.
Só não faça isso outra vez, certo?
O garoto balançou a cabeça concordando e saiu da sala para guardar o instrumento quebrado.
Er... Fiquem à vontade. A maioria das coisas continua no mesmo lugar em que foram deixadas.
É, eu reparei... - Sirius comentou enquanto observava cada detalhe da sala, que, tirando três aparelhos eletrônicos que não estavam ali em 1981, continuava exatamente da mesma maneira como ele a deixara antes de ir à procura de Pedro Pettigrew tantos anos antes: - Por que não mudaram anda de lugar?
Elena não quis. - Dmítri deu de ombros. - E isso é particularmente estranho. Ela detesta desordem...
Sirius e Remo se entreolharam. A atitude mais compreensível seria que ela guardasse, escondesse tudo o que pudesse lembrá-la de Sirius, anão ser que... Sirius sentiu uma pontada no peito ao pensar na possibilidade de ela não sentir absolutamente nada ao lidar com todas aquelas lembranças.
Hum... Então eu vou acabar fazendo um favor, não é? Deixar o espaço mais livre para vocês se acomodarem. - ele disfarçou o embaraço e pediu a ajuda de Remo: - Me ajuda a empacotar?
Eu ia fazer isso sozinho antes... - o amigo sorriu.
Ah, - Dmítri se lembrou de alguma coisa. - Se você não se importar, gostaria que deixasse uma caixa que encontrei num dos quartos essa semana...
Sirius forçou a memória. Caixa? Não se lembrava de caixa nenhuma.
É, que, bem... Eu encontrei mapas estelares bastante curiosos ali dentro e... - o marido de Helen parou de falar intimidado pela expressão no rosto de Black.
Infelizmente, foi justamente isso o que viemos buscar.
Ah, entendo... - Dmítri parecia decepcionado.
Você também trabalha com astronomia? - Lupin deduziu.
Eu era professor de Astronomia na Universidade de São Petersburgo. Acabei de ser aceito para fazer um PhD na Oxford. Vou ministrar algumas aulas na Keble enquanto isso...
Na Keble? Eu-eu trabalhei lá... - Sirius estava um tanto embasbacado.
É mesmo? E porque deixou a faculdade?
Eu... hã... é... eu fui preso... - ele respondeu em voz baixa, desconcertado.
Ah, é verdade. Que cabeça a minha... A Sra. Figg já tinha me falado sobre isso.
Mas e aí, está gostando da Oxford? - Remo retomou o assunto para evitar um constrangimento e lembranças agradáveis.
Bem, não tomem isso como ofensa. Sei que os britânicos tendem a olhar os russos com certa desconfiança, afinal o regime soviético caiu há pouco tempo - Remo e Sirius trocaram olhares confusos; a guerra fria não existira no mundo mágico. - Mas, bem, em termos práticos, a Inglaterra tem uma desvantagem enorme. O único observatório foi fechado m 74...
O Radcliffe não foi fechado. - Sirius rebateu no ato.
Foi sim. Ontem mesmo tentei fazer uma visita só por curiosidade e não me deixaram entrar.
Qualquer trouxa em qualquer parte do mundo que se aventurasse a descobrir um pouco mais sobre o Observatório Radcliffe, em Oxford, teria obtido a mesma informação que Dmítri Rasputin. O local havia sido desativado em 1974, devido às condições climáticas da região. Era impossível investigar o espaço com tantofogatrapalhando as lentes dos telescópios.
– Fog! – Sirius não acreditou que aquela desculpa esfarrapada pudesse durar tanto tempo. - Pois muito bem, eu vou lhe contar a história real.
Os três já estavam bem acomodados nos dois sofás da sala quando Sirius começou a narrativa. A primeira vez em que pusera os pés em Oxford fora no início de 77. Um renomado astrônomo bruxo tinha aceitado ser seu tutor por recomendação de Berenice Moonlight, professora de Astronomia de Hogwarts naquele tempo.
Esse astrônomo era conhecido no mundo mágico por seu estudo sobre Relatividade Astrofísica, onde ele traçava paralelos entre a astronomia bruxa e a trouxa. Por esse motivo, ele lecionava para trouxas na Universidade de Oxford, ao mesmo tempo em que tinha o privilégio de manter alunos bruxos em condições especiais.
Uma dessas condições era o acesso ao observatório Radcliffe. O Ministério da Magia havia comprado o lugar do governo britânico trouxa, uma vez que estes viviam se queixando da funcionalidade do lugar. Realmente, para os trouxas, era difícil fazer boas análises do espaço, pois o céus de Oxford viva coberto pelofog. Mas os bruxos podiam se utilizar de feitiços desembaçadores e ver o céu com ainda mais clareza que numa noite naturalmente sem névoa.
Então o observatório continua funcionando?
Imagino que sim. Temos uma hora marcada lá manhã... - Sirius deu de ombros.
Eu gostaria de poder ir junto. A última vez que entrei num observatório foi há cinco meses.
Mas vocês não tinham um observatório em San Petersburgo - Lupin fez as contas na cabeça: fazia apenas dois meses que Helen e a família tinham se mudado para o apartamento de Sirius.
Não. Nós usávamos um construído no Cáucaso! - os olhos de Dmítri brilharam. - O maior e melhor observatório do mundo... Foi inaugurado em 76.
Ah, eu não acredito, pai. - Yuri resolveu deixar a monotonia de seu quarto e se intrometer na conversa dos adultos. - Já está amolando as vistas com esse papo de astronomia outra vez.
Bem, quando uma das vistas tem o mesmo nome de uma estrela, falar de astronomia não é maçante! - Sirius respondeu sorrindo.
Deixa eu adivinhar... O Sr. também é filho de astrônomo? Para ter um nome desses... Achei que só meus pais dessem nomes de constelações e astronautas para os filhos...
Não, meu pai não era astrônomo... E eu não faço idéia de quem começou a dar nomes de estrelas na minha família... Não sou o único. Tenho um tio Alphard, uma prima Andrômeda, outra... - ele se lembrou de Bellatrix. Achou melhor mudar o rumo da conversa. - Er... mas no meu caso, o nome foi apropriado. EU era astrônomo...
O senhor também? - e o menino olhou para Lupin meio desesperado.
Não, eu não. - ele riu do garoto soltando um suspiro aliviado.
Lupin era professor de DCAT, uma matéria que você vai estudar em Hogwarts. - Sirius piscou para Lupin
Sério? - Yuri tinha os olhos vidrados postos em Remo. - E sobre o que é?
Hmm... Gasp... Você vai descobrir em breve. - ele achou melhor não comentar que o garoto teria aulas sobre como combater magia negra.
Mas voltando à Astronomia. - Dmítri queria retomar o assunto que a seu ver era muito mais interessante. - Será que eu não podia tirar algumas cópias de seus mapas?
Cópia? É... Pode ser... Mas, até onde eu me lembro, a Astronomia bruxa era bem distinta da trouxa. Se bem que a Terry conseguia aproveitar algumas coisas...
Terry? - Lupin não tinha idéia de quem era a mulher de quem Sirius estava falando.
Teresa Bright. Uma estudante trouxa que eu monitorava.
Te-teresa Bright? - Dmítri deu um pulo de onde estava sentado.
Você a conhece? - Sirius perguntou.
E quem não conhece? Ela é famoso. Alguns dizem que é louca, mas a verdade é que ela tem teorias brilhantes. Estuda astronomia por um lado filosófico. É coordenadora do Departamento de Astrofísica da Trinity. Nós nos encontramos uma ou duas vezes, mas nunca conversamos. Ela era sua aluna?
Não exatamente. Eu a estava introduzindo na astronomia bruxa. Ela era uma das poucas trouxas que tinha acesso ao Radcliffe.
Yuri já estava desanimado outra vez. Conversas de adultos eram sempre chatas. Remo notou e se ofereceu para ensinar alguns feitiços simples ao garoto, enquanto Sirius e Dmítri continuavam a conversa.
Pegou tudo, Black? - Mundungo não esperou sequer Remo e Sirius saírem da lareira para perguntar.
O suficiente. Carol não vai poder reclamar de nada. - Sirius respondeu olhando dentro da grande caixa de papelão que ele e Remo tiravam de dentro da lareira, certificando-se do que acabara de dizer.
Hum... certo. E lá, como foi?
Bem. - Sirius respondeu seco e sem olhar para o amigo, que lançou o olhar interrogativo para Lupin que confirmou os dizeres de Black com um aceno da cabeça.
Então ela não estava lá... - Mundungo concluiu mordendo os lábios. - Conheceu o marido dela?
Sirius olhou furiosamente para Fletcher. Após perceber que o bruxo se arrependera da pergunta intrusiva, ele soltou uma gargalhada:
Conheci. E você também vai conhecê-lo amanhã. Ele vaio conosco ao Radcliffe.
Fletcher arregalou os olhos, intrigado:
Mas...
Hum, eu preciso de cama, Fletcher. Até amanhã. - Sirius largou a caixa no meio da sala e seguiu para o quarto da casa onde estava dormindo nos últimos dois meses.
Lupin? - Fletcher praticamente implorou com o olhar alguma explicação. Ele tinha certeza que Sirius iria voltar daquela visita um tanto aborrecido, mas, a não ser que ele estivesse fingindo, parecia estar de melhor humor do que quando deixara a casa naquela manhã.
Ele e o Rasputin ficaram amigos... Passaram a tarde discutindo astronomia.
Astronomia? Mas a Helen não tinha casado com um trouxa?
Os trouxas também estudam astronomia, Fletcher.
Puxa, que coisa!
Mundungo estava admirado. Nunca imaginara que aquilo poderia acontecer, principalmente em se tratando de Sirius Black. Mas, para Lupin, a situação era lógica: as afinidades entre Almofadinhas e Dmítri Rasputin eram mais que mera coincidência...
N/A: Eu não inventei o nome do observatório. O Radcliffe realmente existe (o fato de o ator que interpreta Harry Potter no cinema usar esse sobrenome é apenas mera coincidência), fica em Oxford e foi fechado em 74 por conta da péssima visibilidade na Grã-Bretanha. Quanto à Universidade de Oxford, é preciso explicar que o sistema estudantil é diferente do vigente no Brasil. A Universidade de Oxford nada mais é que a associação de várias faculdades existentes na cidade, entre elas a Keble e a Trinity, que eu cito nesse capítulo. Cada uma delas oferece uma determinada variedade de cursos, que podem vir a se repetir em outras das 45 escolas que compõe a Universidade.
