Capítulo 3 - Eternamente Jovem


Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.

Fernando Pessoa


– Eu não estou achando a plataforma, mãe... Você tem certeza de que o número é esse? – Lyra reagiu com estranhamento ao constatar que entre as plataformas 9 e 10 não existia nenhuma indicação de que pudesse haver uma de número 9 e ½..

Helen olhou para a tia e sorriu. A filha ainda tinha muito o que descobrir sobre o mundo mágico e, lá no fundo, ela sabia que a resistência de Lyra não seria tão forte no momento em que ela pisasse em Hogwarts.

– Sua avó vai levá-la até lá, querida. Eu vou me despedir aqui mesmo, está bem? – ela se abaixou e deu um beijo na filha.

– Você não vai comigo até a plataforma? Mas eu pensei...

– Eu não posso, querida. Tenho algumas coisas para resolver aqui em Londres ainda.
– Não foi isso o que combinamos – a menina amarrou a cara e cruzou os braços bastante contrariada.

– Eu vou ficar na plataforma até o trem partir, Lyra – Arabella Figg tentou consolar a neta.
– Até o trem partir... E depois eu fico sozinha, né?

As duas mulheres que acompanhavam a garota se entreolharam. Talvez se Lyra soubesse que não ia ficar sozinha um instante sequer, nem na viagem, nem no castelo... Mas por mais que seu coração pedisse, Helen achava melhor que a menina continuasse na ignorância. A mãe abraçou a filha com força, tentando dizer com aquele gesto tudo o que não podia dizer em palavras. Encostou os lábios uma última vez na bochecha da menina e se levantou.

– É logo ali – ela apontou para uma parede maciça feita de tijolinhos à vista.

– Ali onde? – Lyra apertou os olhos na direção em que a mãe apontava.

– Ali, onde aqueles dois garotos acabam de entrar – Arabella Figg respondeu para a neta, que estava de olhos arregalados, sem acreditar no que via.

Helen se aproximou da tia, deu-lhe um abraço e cochichou no ouvido da velha bruxa: "Encontro vocês daqui a pouco", e aproveitando-se do estado de choque da filha, sumiu no meio da multidão que lotava King's Cross naquele dia.

– Vamos, Lyra. Ainda temos que embarcar suas malas. – Arabella puxou a mão da sobrinha em direção à passagem para a plataforma 9 e ½.

– Nós vamos bater... – Lyra choramingou a dois passos da parede.

A avó apertou a mão da garota firmemente, passando-lhe segurança, e as duas avançaram para dentro daquele mundo que Lyra não podia nem sonhar que existia alguns segundos atrás. Mal tinham pisado na plataforma 9 e ½ e um garoto que vinha a toda velocidade trombou na menina.

– De-desculpa!

Lyra fez a careta mais feia que conseguiu e deixou o garoto visivelmente amedrontado. Ela logo viria a descobrir que quase tudo metia medo em Neville Longbottom.

– Tudo bem, garoto, só preste atenção por onde passa – a Sra. Figg disse séria, sem prestar atenção ao rosto do garoto.

Neville balançou a cabeça rapidamente e saiu logo de perto das duas, para trombar em outra pessoa adiante.

Os olhos de Lyra correram pela estação. Todas aquelas pessoas deviam ser bruxas e era estranho perceber como elas pareciam normais, ou melhor, trouxas, como ela se forçou a corrigir. Arabella insistira durante todas as férias que não havia nada demais em ser uma bruxa e aos poucos Lyra estava começando a aceitar aquela situação.

– Por aqui, querida – a avó a puxou em direção ao trem.

A menina seguia observando todos aqueles que cruzavam seu caminho. Um garoto loiro e de ar arrogante, conversava com outros dois que pareciam ter o dobro do tamanho dele em altura e largura. Ele tinha um broche dourado reluzente pregado junto ao peito esquerdo da camisa verde. Logo adiante, Lyra e a avó passaram por uma garota de olhos puxados e bastante melancólicos, que ouvia de cabeça baixa as últimas recomendações dos pais. Um garotinho baixinho e eufórico passou correndo na frente dela gritando: "Colin! Colin! Você não imagina o que eu encontrei!". Estava tão concentrada em observar aquelas pessoas curiosas que não reparou que a avó já tinha parado e tropeçou no carrinho com a bagagem que estava bem à sua frente.

– Lyra, olhe por onde anda! Você se machucou?

– Não. – Ela levou a mão direita ao joelho. Sabia que não demoraria para estar exibindo um belo roxo na perna. Era o maior problema de ser branca daquele jeito.

A tia entregou os dois malões para o carregador, que acomodou os pertences da menina dentro do vagão destinado à bagagem.

– Vovó, esqueci de pegar meu diário! – Lyra lembrou-se de repente.

– Por um acaso é esse aqui? – uma voz que Lyra pensou ser de sua mãe perguntou atrás das duas.

Mas não era, apesar da semelhança ser incrível. Lyra chegou a pensar que a mãe deveria ter sido exatamente daquele jeito quando era garota, mas agora Helen já tinha 35 anos e menina que segurava um caderno grosso de páginas amareladas não tinha mais que 17.

– Vocês deixaram cair quando levantaram o malão – a jovem sorriu e entregou o caderno a Lyra. – Bem, tchau! – E saiu de perto das duas, dando uma rápida piscadela para elas.

– Parece a sua mãe mais nova, não é? – Arabella Figg percebeu o assombramento da neta, que se limitou a balançar a cabeça, concordando. – Acho bom você entrar e procurar um vagão antes que todos estejam cheios, querida.

– Você não pode ir comigo? Você falou que terá que ir para lá também...

– E vou. Mas adultos não entram nesse trem. Quero dizer, com exceção do maquinista e da vendedora de doces – ela sorriu animada para Lyra e se abaixou para dar um abraço de despedida na neta.

Lyra subiu no vagão e, no segundo seguinte, quando decidiu se virar para falar alguma coisa para a avó, ela já tinha sumido em meio à multidão. Um tanto decepcionada e irritada, ela trombou pela terceira vez naquela manhã.

– Que droga! Será que todas as pessoas na Inglaterra são cegas para saírem atropelando todo mundo assim, sem mais nem menos? – ela gritou mal-humorada num sotaque forte e engraçado, que fez a pessoa em quem tinha tropeçado começar a rir.

Ela já estava se preparando para soltar uma meia dúzia de desaforos em russo mesmo, uma vez que a mãe tomara o cuidado de não lhe ensinar nenhum palavrão em inglês, quando seu rosto paralisou. O garoto que ainda estava no chão tinha o sorriso mais bonito que a Lyra já tinha visto em sua vida.

– Você não é da Inglaterra, é? – ele se levantou num átimo e ofereceu a mão para ajudá-la a se levantar também.

A menina não respondeu. Também não segurou a mão que ele oferecia, ainda abobalhada pela surpresa que tomara conta dela. Ele estranhou e recolheu o braço, então começou a sorrir de novo, parecendo ter achado uma explicação:

– Você não fala inglês, né? – e, gesticulando exageradamente, começou a tentar conversar com ela através de mímica. – Eu, Michael! Michael Turpin! – ele apontava o próprio peito.

Achando aquilo absolutamente ridículo, Lyra finalmente saiu de seu transe, com o humor ainda pior que antes.

– Lógico que eu entendo inglês! Acabei de falar uma frase inteirinha nessa língua idiota! – ela também se levantou e bateu as mãos na roupa, tentando esticá-las.

– Falou? – as sobrancelhas do garoto se contraíram e ele coçou o queixou. – Ah, aqueles resmungos que você deu logo depois de me derrubar!

– Não foram resmungos! E eu não te derrubei! – ela foi ficando nervosa, a pele branca atingindo tons de rosa cada vez mais fortes. – Quem me derrubou foi você.

– Eu? Eu tava passando e você entrou sem olhar!

– Eu não entrei sem olhar! – ela retorquiu sem pensar no que estava dizendo, simplesmente porque não queria dar razão àquele mal-educado.

– Então eu vou ter que pensar que você quis me derrubar propositalmente, porque eu só estava passando...

– Grrr... – ela pegou o diário que estava no chão e saiu andando pelo vagão, sumindo na primeira porta que encontrou. O menino acompanhou-a com o olhar e riu, depois seguiu para o lado oposto do trem.


Em cada um dos vagões, pequenos grupinhos se aglomeravam contando o que acontecera de mais interessante nas férias de cada um. Numa das últimas cabines, Harry, Rony e Neville conversavam animados e, no caso de Harry, principalmente, aliviados por estarem voltando a Hogwarts.

– É ano de N.O.M.s! – Rony disse num tom de voz um pouco preocupado. – Vamos ter dever em dobro este ano!

– Mas pelo menos vamos poder desistir de poções no ano que vem – disse Neville com um sorriso esperançoso no rosto.

– Verdade? – Harry estava surpreso. Achava que teria que assistir às aulas do professor mais detestado de Hogwarts até seu último dia na escola.

– Parece que sim. Lembro que Fred e Jorge desistiram de Adivinhação e Astronomia... – Rony estava comentando quando a porta da cabine se abriu bruscamente.

– Ah, vocês estão aí! – era Hermione. – Rodei o trem inteiro para achá-los. Rony, vem comigo! – ela mandou, literalmente.

– Eu? – o ruivinho arregalou os olhos sem sair do lugar.

– Tem algum outro Rony aqui?

Ele trocou olhares com Harry e Neville, os três concordando que naquele ano Hermione estaria mais "rigorosa" do que de costume (para não dizer insuportável, com sua eterna mania de controlar os deveres escolares dos amigos).

– Mas eu não fiz nada! – ele tentou se defender sem saber do quê.

– Ronald Weasley. Será que você não pode simplesmente me acompanhar? É uma emergência! – o tom de voz da menina mudou de severo para dramático.

– Emergência? Mas eu não entendo nada de medibruxaria, Mione. Como é que eu vou ajudar? – Rony continuava sem entender nada.

Hermione deu um tapa na própria testa, irritada, seu rosto quente e avermelhado.

– Se você fizer mais um comentário idiota eu te largo aqui, e vou lá no vagão dos monitores dizer que foi uma péssima idéia escolher você para substituir Simas!

– Quê? – os três arregalaram os olhos, surpresos com a notícia que Hermione dava em primeira-mão.

– Simas não quis ser monitor. Diz que não vai ter tempo para estudar para os N.O.M.s. Uma grande besteira na minha opinião... É lógico que dá para conciliar tudo! Daí eu sugeri seu nome, mas estou vendo que deveria ter sugerido o do Dino.

– Ei! – Rony ficou vermelho de raiva. – Você não explica as coisas direito! Como é que eu ia adivinhar?

– Vamos? – ela ergueu as sobrancelhas e apertou os lábios, levemente irritada.

– É, né... – ele deu de ombros e olhou para os amigos. – Vejo vocês mais tarde então.. – e Rony saiu logo atrás da amiga, que não encarara Harry um segundo sequer enquanto estivera no vagão.

Mas fora outra atitude da menina que deixara o garoto mais magoado – ou seria melhor dizer emburrado. Ela sugerira o nome de Rony para a monitoria. E se ele não aceitasse, ela disse que iria sugerir o de Dino Thomas. Por que ela não sugerira o dele? Que espécie de amiga Hermione era? Se fosse com relação às notas, ele ainda tinha uma média geral melhor que a dos dois colegas de quarto. Quer dizer, perdia para Rony em Poções, mas isso acontecia por causa da implicância de Snape com ele. Mas em DCAT ninguém tirava melhores notas, nem mesmo a própria Hermione.

– Harry... – a voz de Neville só aborreceu o garoto ainda mais.

– Que foi? – ele apoiou o cotovelo na janela e ficou olhando a paisagem que corria apressada, com medo de que, se olhasse para Neville, o garoto pudesse ler em seu rosto que estava com ciúmes de Rony.

– Isso é jeito de tratar os amigos? – a voz de Fred ecoou pela cabine.

– Oi, Fred. Oi, Jorge – Harry se assustou ao ver a imagem dos gêmeos refletida no vidro.

– Caramelo? – um dos gêmeos ofereceu a Neville, que olhou desconfiado e recusou a oferta. – Não estão enfeitiçados!

Neville inquiriu Harry com o olhar e recebeu um dar de ombros como resposta. Por via das dúvidas, resolveu não aceitar.

– Cadê o Rony? – Jorge passou os olhos rapidamente pelo vagão, sem encontrar o irmão caçula.

– Ele foi promovido a monitor. – Harry tentou disfarçar a ponta de amargura em sua voz.

– Monitor? – os gêmeos se entreolharam, surpresos. – Mas ele não recebeu o distintivo...

– Simas desistiu e Mione indicou Rony no lugar dele.

– A Granger indicou, foi? – Fred coçou o queixo e deu uma risadinha irônica. – Tsc, tsc... Mais um monitor na família...

– Desse jeito só a Gininha vai poder honrar o nome da família depois que nós terminarmos a escola.

– Mas nós não viemos atrás dele.

– É – Jorge completou. – Vocês não viram o Malfoy por aí, não?

– Graças a Merlin, não – Neville deixou escapar num sussurro. Harry deu um sorriso para o garoto gordinho à sua frente: ele também não tinha a menor vontade de esbarrar com Malfoy antes sequer de chegarem a Hogwarts.

Fred e Jorge deram suspiros desapontados.

– Queríamos testar a última novidade das Gemialidades Weasley nele e nos dois macacos da segurança – eles se referiam a Crabbe e Goyle -, mas ainda não achamos nenhum dos três.

– Será que eles não perderam o trem? – Neville sugeriu esperançoso.

– Infelizmente não – Harry respondeu. – Eu vi Malfoy na estação.

– Bem, então nós vamos continuar nossa busca por cobaias...

Rony e Hermione só voltaram para o vagão uma hora antes do trem chegar a Hogsmeade. A menina já estava bem mais calma e sorridente agora, só ficando um pouco triste toda vez que Harry virava a cara para ela e fingia estar olhando as estrelas, uma vez que não era possível ver mais nada no breu por onde o trem passava.

O sumiço de Malfoy fora desvendado pelos dois monitores da Grifinória: ele era o mais novo representante da Sonserina, junto com a não mais simpática Pansy Parkinson. No momento em que pousou os olhos em Malfoy na cabine dos monitores, Rony se arrependeu de ter aceitado o convite de Mione. O fato de ambos serem monitores implicava em ter que conviver pelo menos duas horas a mais com Malfoy todas as semanas.

Ao descerem em Hogsmeade, o trio se dirigiu à uma das carruagens sem cavalos que os levaria ao castelo, acompanhados de Neville. Mione estava subindo no coche quando reparou numa menina que nunca tinha visto na escola.

– Ei, os primeiranistas vão de barco – a monitora informou. – Por ali.

– E quem disse que eu sou do primeiro ano? – a arrogância na voz da menina deixou Mione encabulada.

– Desculpe... E-eu pensei... – e então, reparando que o uniforme da menina não tinha o emblema ou as cores de nenhuma das casas, Hermione se indignou: – Peraí, quem você acha que está enganando.

– Mione, você não vai subir? – Rony pôs a cabeça para fora da janelinha, mas a menina o ignorou.

– Eu sou monitora, ouviu? O diretor de sua futura casa vai ficar sabendo... – Mione saiu de perto da carruagem e foi até onde estava a tal menina.

Ela era uma garota um pouco alta para quem estava no primeiro ano, mas ainda era mais baixa que Hermione. A franja densa e comprida caía-lhe sobre os olhos, impedindo que Hermione tivesse uma noção exata da idade dela através do rosto. A pouca luz do local dificultava a tarefa ainda mais.

– Eu-não-sou-do-primeiro-ano! – a menina repetiu devagar, mas com ainda mais amargura e impaciência.
– Ah, não? Então você pode me dizer por que é que não está com as vestes da sua casa? – Hermione deu um sorriso sarcástico.

– Olha aqui, garota – a menina bateu a mão na franja de modo a encarar a monitora -, eu não vou ficar perdendo meu tempo com você. Mas se você faz tanta questão de saber qual é a minha casa, eu lhe informo: é a SONSERINA.

A menina disse isso e entrou na primeira carruagem que viu pela frente, sem se preocupar se havia ou não lugar para ela. A monitora da Grifinória tremia de raiva; realmente, aquela fulaninha só podia ser da Sonserina... Nenhuma outra casa abrigaria alguém tão antipático. Ela estava tão consumida pela fúria que nem notou que Harry, Rony e Neville tinham descido da carruagem e estavam parados ao lado dela, sem saber o que fazer.

– Mione... – Harry tocou no ombro da amiga, que se virou no mesmo instante e deu com os três de caras assustadas. Mas em vez de desabafar, ela encarou Rony e berrou no tom mais áspero que conseguiu:

– E você? Nem para me ajudar. Você também é monitor, se é que você se lembra!

– Ei! – os olhos azuis do ruivinho se arregalaram enquanto acompanhavam a menina entrar no coche. – O que foi que eu fiz para ela? – ele perguntou para Harry e Neville, que deram de ombros e seguiram atrás da monitora.

Hermione não abriu a boca durante o curto trajeto, lançando aos amigos eventuais olhares de fúria, como se eles tivessem culpa da petulância da sonserina. Ao chegarem ao castelo, os alunos se dirigiram às mesas de suas respectivas casas. Antes de se sentar, Hermione correu os olhos pela mesa da Sonserina, e quando viu seu desafeto, teve ganas de avançar até a mesa adversária. Foi Harry que a impediu, passando mais uma vez por cima de sua mágoa.

– Senta. Você não vai querer ser advertida por arrumar encrenca logo agora que virou monitora, vai?

– Eu? Arrumando encrenca? Eu... – e então ela parou para pensar melhor. – É, você está certo, Harry, eu estou um pouquinho nervosa hoje.

Rony mexeu a boca sem emitir qualquer som e Harry leu em seus lábios a expressão "Um pouquinho?". Hermione sentou-se em frente ao ruivinho, mas em vez de olhar para o amigo, ficou contemplando o prato dourado e resmungando algo absolutamente incompreensível.
Todos os alunos já tinham se acomodado e a seleção iria começar em instantes. Minerva McGonagall, diretora da Grifinória, entrou seguida por uma longa fila de crianças assustadas, que davam gritinhos de assombramento e excitação ao verem os fantasmas flutuarem sobre suas cabeças de um lado para o outro no Salão Principal. Logo em frente à mesa dos professores estava um banquinho de três pernas com um chapéu sujo e maltrapilho largado sobre ele.

Os alunos estacaram ao sinal da bruxa que os guiava. Como se gestos e atitudes estivessem sendo cronometrados, no mesmo instante uma voz ecoou pelo salão. O chapéu seletor começara sua melodia. Mas nem todos tinham a atenção presa à canção: na extrema esquerda do Salão Principal, uma agitação na mesa de cores verde e prata ganhava cada vez mais olhares curiosos.
Lyra podia jurar que ouvira a voz de sua mãe. O mesmo som agudo e estridente de quando ela ralhava com a menina ou o irmão. Devia estar imaginando coisas. Sua mãe estava longe dali, em algum lugar da Inglaterra com seu pai e seu irmão. As inglesas é que deviam soar todas da mesma maneira. Ela se concentrou na música entoada pelo chapéu. Então ouviu um cochicho atrás de si e a voz rápida de dois garotos inquietos. Mas Lyra não entendeu o que disseram; só entendia bem inglês quando prestava atenção ao que ouvia.

Uma menina a seu lado espiava de canto de olho para a mesa enfeitada com as cores verde e prata. Lyra não se agüentou de curiosidade e virou-se para olhar também. Viu um garoto loiro, alto e forte, que parecia extremamente aborrecido, de pé junto à tal mesa. O primeiro pensamentode Lyra foi que teriam servido o jantar, pois ele tinha cara de quem comeu e não gostou, mas então ela reparou que na mesa logo ao seu lado os pratos ainda estavam vazios.

A bruxinha olhou de relance para a mesa do garoto emburrado outra vez e percebeu que ele estava resmungando alguma coisa na direção de uma menina sentada num raio à esquerda dela. Lyra não podia vislumbrar o rosto da estudante, mas seu coração começou a bater acelerado naquele instante, como se ela soubesse quem era aquela desconhecida.


Draco Malfoy estudou bem a distribuição das pessoas ao redor da mesa, escolhendo o melhor lugar para sentar-se. Mesmo que a Sonserina fosse a casa mais seletiva de Hogwarts, não era qualquer família bruxa que estava à altura dos Malfoy. Havia fracassados em muitas casas e Draco sabia muito bem como reconhecer um deles. Terêncio Higgs, por exemplo, se enquadrava perfeitamente nessa definição. Filho de uma bruxa com um trouxa, o ex-apanhador do time de quadribol da Sonserina fora criado pelos avós (estes sim puro sangue) após ser abandonado pelos pais.

Como de praxe, Malfoy passou em frente ao rapaz seguido por seus colegas de quarto (ou seria melhor dizer capangas?) Crabbe e Goyle. O garoto de ares nórdicos exibia um sorriso desdenhoso e, ao perceber que Higgs o observava, levou uma das mãos ao distintivo de monitor, como se precisá-se arrumá-lo sobre as vestes negras. Os olhos se encontraram por um breve instante, quando Malfoy se deleitou em perceber a raiva-inveja que o rapaz do 7º ano não conseguia esconder.

– Todos sabem que usar uma boa vassoura é um mínimo que um bom apanhador pode fazer. Lógico que isso não compensa a falta de talento... – ele comentou em tom bastante audível.

– Ei, Draco!

Uma garota alta, de cabelos castanhos curtos e lisos, com um nariz demasiado comprido para seu rosto magro, chamou o garoto do outro lado da mesa, evitando que Malfoy ouvisse Higgs murmurar algumas dezenas de pragas entre dentes.

Malfoy se sentou em frente a Srta. Parkinson, que estava acompanhada por outras duas garotas, uma delas tão grande enquanto os brutamontes que o acompanhavam. O garoto passou os olhos pelos outros estudantes, cumprimentando alguns colegas de time. Sabia que sua vaga como apanhador continuaria garantida caso um deles fosse promovido a capitão, agora que Marcus Flint não estava mais em Hogwarts.

– Draco, você conhece aquela garota? – Pansy apontou para uma menina baixinha sentada quatro ou cinco lugares à sua direita, que tinha os cotovelos apoiados sobre a mesa e o queixo entre as mãos.

Draco apertou os olhos naquela direção. Tinha certeza de que nunca vira aquela menina. Com certeza era mais um dos enganos do Chapéu Seletor, como Higgs: de longe via-se que ela não tinha o porte de uma sonserina.

– Não. Deveria? – ele passou a mão pelos cabelos louros que lhe caíam sobre a testa num gesto charmoso de impaciência.

Ninguém a conhece! – a garota à sua frente terminou de falar com uma expressão séria no rosto. – E ela não está usando os trajes da Sonserina, você reparou?

Draco deu uma segunda olhada para a menina, que agora tinha a cabeça deitada sobre a mesa, aparentando estar extremamente aborrecida. Nenhuma cor contrastava com as vestes negras. Ele poderia dizer que ela estava vestida como uma caloura. E os calouros tinham que ser sorteados, antes de qualquer outra coisa.

– Ei, você!

A menina não se mexeu. Continuava com os olhos semicerrados, afogada num profundo torpor.

– Eu estou falando com você, garota!

Ele se levantou e, apoiando as mãos na mesa, inclinou o corpo em direção à ela. A garota levantou o rosto e revirou os olhos ao ver quem a chamava. Então virou-se para o outro lado, apoiando a cabeça no braço e bocejando. A indiferença da garota irritou Draco Malfoy, que aumentou a altura da voz, adicionando um tom mais ríspido e autoritário:

– Se você não levantar dessa mesa agora, eu serei obrigado a chamar o diretor da casa para expulsá-la! Está mais do que claro que você não é aluna da Sonserina!

As palavras do rapazinho tiveram o efeito desejado na garota. Ela virou a cabeça na direção dele bruscamente e soltou, irônica:

– Ah, não sou aluna da Sonserina? – ela ergueu as sobrancelhas com ar de pouco caso. – Não sabia que os monitores daqui eram tão tapados...

Talvez porque ela tenha elevado um pouco o tom de voz, ou porque o Salão fizera o mais absoluto silêncio, apenas esperando o Chapéu Seletor iniciar sua canção, o fato é que a última frase da menina ecoou por todo o salão. O urro de fúria de Malfoy, no entanto, passou desapercebido sob a melodia rouca do Chapéu.

– Quem você pensa que está chamando de tapado, sua... Eu sou um Malfoy!

Ela o encarava firmemente, um sorriso de prazer estampado nos lábios. Soprou a franja grossa que lhe caía sobre os olhos, sem produzir qualquer efeito além de irritar ainda mais o monitor da casa da serpente. Draco levou a mão ao bolso disposto a sacar a varinha, quando a voz preocupada de Pansy Parkinson impediu-o de cometer uma imprudência ante os olhos de todo o corpo docente de Hogwarts.

– Olha aqui, queridinha, suas vestes estão sem emblema, o que significa que você ainda não foi sorteada! E quem ainda não foi sorteado não pode ir sentando na mesa que quiser.

– Jura, queridinha? – a outra devolveu o cinismo. – Pois infelizmente para você eu vou continuar aqui... Que espécie de monitores são vocês que não sabem receber alunos de intercâmbio?

– Intercâmbio? Nós não fomos avisados sobre nenhum estudante de inter...

O Chapéu Seletor tinha acabado sua música e, agora, até mesmo a mesa dos professores tinha os olhares voltados para onde estavam os sonserinos. Uma bruxa de cabelos prateados elegantemente presos num coque no alto da cabeça, ao lado da Profa. Sprout, colocou-se de pé. Mas antes que ela pudesse reagir, Dumbledore levantou-se e, adiando um pouco o início da seleção, começou a discursar, interrompendo as palavras nervosas de Draco:

– Boa noite! Peço perdão a todos por atrasar ainda mais o jantar. Devo dizer que também estou morrendo de fome e, pelo que vi hoje cedo na cozinha do castelo, creio que vamos ter um jantar realmente excelente...

Na mesa da Grifinória, Hermione resmungou algo que Harry e Rony imaginaram ser "Trabalho escravo, humpf!".

– Se eu fosse um de vocês não deixaria de provar o galeto ao molho de laranja... Ah, mas, bem...

Quanto à discussão interessantíssima que está acontecendo na mesa da Sonserina, creio que devo desculpas ao nosso Chapéu. Por um pequeno lapso deixei de informar aos nossos monitores que estamos recebendo uma aluna de Durmstrang, que irá tomar aulas com a turma do sétimo ano. Acredito que se eu não tivesse cometido esta falha, os alunos teriam prestado mais atenção ao trabalho de composição muito bem elaborado de nosso selecionador. Com tudo esclarecido, acho que podemos voltar à Seleção.

Mas uma vozinha esganiçada adiou a cerimônia mais um pouco. Hermione estava de pé, a mão erguida no ar, pedindo a palavra.

– Sim, srta. Granger.

– Eu só gostaria de saber se ela – Mione não disfarçou o rancor – não vai ser sorteada como os outros alunos

Pela primeira vez, Draco Malfoy apreciou um comentário de um sangue ruim. Aquela fulaninha sentada à mesa da Sonserina tinha tirado-o do sério.

– Ah, sim! – Dumbledore não parecia surpreso. – Ela já foi sorteada... Sonserina, não é mesmo, Srta. Silver? – Dumbledore pousou os olhos claros na nova aluna, que confirmou com um sorriso e um aceno de cabeça. – Mas agora é que estou notando... Suas vestes estão descaracterizadas. A senhorita se importaria em colocar o chapéu mais uma vez?

A garota deu um suspiro de tédio e se levantou.

– Espere ser chamada, Srta. Silver – a voz da diretora da Grifinória, Minerva McGonagall, soou levemente irritada. A menina sentou-se outra vez, de costas para a mesa, e ouviu a cerimônia começar. Seu nome provavelmente seria um dos últimos.

– Boot, Emily.

– Corvinal!

Enquanto isso, na mesa da Sonserina:

– Durmstrang? – Draco mudara seu tom de voz repentinamente, soando bem mais gentil agora. – Imagino que seja de uma família tradicional da Bulgária...

– Está falando comigo? – ela o encarou franzindo as sobrancelhas.

– Mas é claro! Se eu soubesse antes que você era de Durmstrang...

Ele parecia ignorar os olhares fulminantes que a garota destinava a ele enquanto amarrava a cara cada vez mais.

– Era só ter perguntado – ela deu um sorriso cínico, que sumiu tão rápido quanto apareceu.

– Sabe, meu pai pensou seriamente em me mandar pra Durmstrang...

– Seu pai? Peraí, você... Você é filho de Lúcio Malfoy? – ela arregalou os olhos, como se assim pudesse reparar em cada detalhe do rosto pálido do garoto de 15 anos.

– Vejo que já ouviu falar do meu pai. Ele é mesmo muito bem relacionado internacionalmente – ele disse com orgulho, levantando a cabeça acima dos colegas sentados a seu lado. – Imagino que seu pai também seja de uma família bem conceituada na Bulgária... – ele repetiu.

– Rússia! – ela corrigiu, um sorriso de escárnio surgindo nos lábios. – Mas, me diga, sua mãe se chama Narcisa?

– Sim – ele confirmou sem entender onde a menina queria chegar.

Ela soltou um riso debochado:

– Então você é filho de Lúcio e Narcisa? Que piada! A mais nova geração de puro sangues britânicos, haha!

– Ei! – o rapazinho se ofendeu.

– Rasputin, Lyra! – o Chapéu gritou e a garota se virou bruscamente para acompanhar a seleção.

– Corvinal!

– Corvinal? – ela fez uma careta de surpresa e aborrecimento, então se voltou para Malfoy. – Poupe seu tempo, queridinho! Sua mãe não gostaria de vê-lo conversando com a filha de Helen Silver!

No mesmo instante, o Chapéu Seletor chamou:

– Silver, Catharina.

Ela caminhou pelo salão de cabeça erguida. O Chapéu sequer lhe tocou os cabelos e berrou: "Sonserina!" Os detalhes em verde e prata, assim como o emblema contendo a serpente, apareceram magicamente em suas vestes.


Aquela era uma manhã de segunda-feira típica de volta às aulas. Alunos novos e antigos procuravam os monitores pelo Salão Principal em busca do horário das aulas. Hermione dava broncas em Rony por ele ter esquecido seu lote de horários no dormitório enquanto Harry olhava de relance para a entrada do salão procurando por algum dos jogadores do time de quadribol. Estava louco para recomeçar a treinar. Em vez de um dos companheiros de equipe, seus olhos encontraram Cho Chang, a apanhadora da Corvinal, acompanhada de três ou quatro amigas, como de costume.

O garoto sentiu uma pontada na boca do estômago e suas faces coraram levemente quando ela retribuiu o olhar e sorriu. A voz do melhor amigo o trouxe de volta ao burburinho do Salão.

– Caramba! Não sei o que é pior: os deveres de monitor ou ser inspecionado pela Mione o tempo todo – Rony resmungou ao lado de Harry, aproveitando que a menina tinha ido entregar os horários para alguns primeiranistas que acabavam de se sentar à mesa. – Ei, Harry, você sabe quando vão ser os testes para a vaga de goleiro?

Harry franziu as sobrancelhas.

– Como assim?

– Ué, o Wood já saiu de Hogwarts, não é? Vão precisar de alguém no lugar dele... – ele disse como quem não quer nada.

– Eu ainda não tinha parado para pensar nisso... É verdade. Quem será que vai ser o capitão esse ano?

– Capitã! – corrigiu Fred, que acabava de chegar para o café. – McGonagall deu o bracelete para Angelina.

– O que significa treinos em horários decentes – completou Jorge, lembrando-se das inúmeras vezes em que acordara praticamente durante a madrugada para treinar sob o comando de Olívio Wood.

– Por falar em horários... – Fred e Jorge olharam para o irmão caçula.

– Er... Peçam para Mione... Esqueci meu lote no dormitório.

Os gêmeos deram uma risadinha de escárnio.

– Quando é que alguém vai se tocar que deram o distintivo para a pessoa errada? – Jorge arreliou, deixando Rony sem resposta e de cara amarrada. – Ei, Granger!

Hermione encarou os ruivos de cara fechada. Tinha tido uma discussão com Fred na noite anterior por conta das Gemialidades Weasley, mas isso não impediu-a de entregar os horários dos dois, pedindo a eles que avisassem os colegas de sala, uma vez que o irmão deles tinha sido descuidado o suficiente para esquecer de trazer sua quota para o refeitório.

– Mione! Eu já sei que esqueci! Você não precisa ficar me lembrando disso a todo instante.

– Você tem que aprender a ser responsável, Rony. Esse distintivo não é enfeite, sabia?

– Lógico que eu sei. Mas eu esqueci, entende? ESQUECI! Passado! Eu não tenho um vira-tempo para poder voltar atrás!

– Um vira-tempo não deve ser utilizado para banalidades que poderiam...

– O amor é lindo, não? – Fred debochou da briga dos dois monitores num tom bastante audível.

Rony e Hermione lançaram seus olhares mais furiosos para ele e saíram da mesa, cada um tomando uma direção. Harry balançou a cabeça e acompanhou os amigos deixarem o salão com o olhar, até que a reação de Jorge em relação a seu horário chamou sua atenção de volta à mesa.

– Poções? Logo no primeiro período? Isso é que é incentivo...

– Quê? Deixa eu ver isso aqui! – Fred tomou o pergaminho das mãos do irmão. – Não acredito...

– Ué, mas vocês não eliminaram poções depois dos N.O.M.s? – Harry estranhou. Aquela seria a primeira matéria de que ele iria abrir mão quando entrasse no sexto ano.

– Está brincando, Harry? Poções é imprescindível. De onde você acha que tiramos a receita do caramelo incha-língua?

Harry tentou imaginar como uma das aulas de Snape poderia ajudar nas invenções mirabolantes dos gêmeos Weasley. Não conseguiu. Em todo caso, era melhor que Snape nunca viesse a saber que colaborara com os projetos de algum aluno da Grifinória, ou daria um jeito de tornar as aulas ainda mais maçantes do que já eram.

– Bem, eu vou subir. A minha primeira aula também não é muito agradável... História da Magia. – Harry olhou para o quadro de horários desanimado.

– Não é boa? É a melhor! Dá para continuar o sono que eu abandonei lá na Torre da Grifinória... – Fred zombou, mas realmente achava melhor ter duas aulas seguidas com o professor mais monótono da escola do que encarar 15 minutos dentro das masmorras com Snape.

Fred e Jorge aguardaram Lino chegar para enfim começarem a tomar o café lentamente. Entre um e outro bocejo, os três engoliram o café com bolinhos fazendo força para não pensar na aula que teriam a seguir – poderia causar uma indigestão. Se bem que Jorge e Fred acharam isso muito interessante de início: seria uma ótima desculpa para matar a aula. Alícia Spinnet chegou acompanhada de Kate Bell algum tempo depois, e Lino deixou-se ficar na mesa conversando com as duas enquanto os gêmeos acharam por bem subir e começar a tratar de negócios.

Não é preciso enfatizar que negócios para os Weasley tinham o exato sentido que a palavra significava. Eles queriam começar a distribuir catálogos de preços e produtos ainda naquela manhã, e pelos cálculos de Fred, seria possível deixar uns duzentos panfletos na biblioteca e outros 300 nos banheiros masculinos – todos eles devidamente enfeitiçados para que nenhuma pessoa acima de 18 anos (ou monitores extremamente 'caxias') conseguisse vislumbrar o conteúdo dos pergaminhos – antes que a primeira aula começasse.

Quando faltavam apenas cinco minutos para o início da aula, os gêmeos dirigiram-se para as masmorras. Como tinham acabado de deixar os últimos panfletos no banheiro masculino do primeiro andar, foram apenas três lances de escada até a sala de Poções.

Fred e Jorge sentaram-se nos lugares de costume, bem no fundo da sala. Angelina costumava utilizar a carteira e o fogareiro logo ao lado de Fred, mas ela estava atrasada naquele dia.

– Eu a vi conversando com McGonagall no final do café-da-manhã. Devem estar decidindo alguma coisa sobre o time... – Lino Jordan comentou.

Enquanto os três amigos discutiam as prováveis mudanças que o time teria esse ano – na verdade conversavam em código sobre a tabela de preços das Gemialidades – uma garota baixinha passou por eles e começou a montar seu caldeirão bem ao lado de Fred. Instantaneamente o rapaz parou o que estava fazendo e avisou:

– Ei, você não pode sentar aí! Está ocupado!

– Não estou vendo ninguém – ela respondeu, encarando-o por um breve instante e voltando a tirar o material da mochila.

– Acho que você não entendeu... – Jorge tentou manter um mínimo de educação. – A Angelina senta nesse mesmo lugar há sete anos!

– E? – ela cruzou os braços e ficou olhando de cara amarrada para os três. Já tinha arrumado todas as suas coisas.

– EI! Angelina! – Lino acenou para a garota que acabara de entrar na masmorra, um tanto esbaforida.

Angelina acenou de volta e se dirigiu para onde os amigos estavam com um sorriso enorme no rosto.

– Vocês nem imaginam o que McGonagall me autorizou... Ei, esse lugar é meu! – ela parou diante do fogareiro que tinha acabado de ser aceso.

– Qual é seu nome? – a garota perguntou sonsamente.

– Angelina Johnson – a nova capitã do time da Grifinória lançou um olhar inquisidor para os amigos, enquanto a outra menina se abaixava e examinava a carteira de todos os ângulos possíveis.

– Não estou vendo seu nome escrito em lugar nenhum!

Angelina escancarou a boca, incrédula.

– Mas é lógico que não tem. Nenhuma carteira tem o nome de quem a ocupa.

– Não posso fazer nada. Chegue mais cedo da próxima vez – a menina deu de ombros e sentou-se no banquinho ao lado do caldeirão.

– Ei, você não pode fazer isso! – Fred, que até então estava se segurando, entrou na briga.

Estavam tão concentrados na garota que nenhum dos quatro grifinórios percebeu que, na carteira ao lado da de Angelina, um rapaz da Sonserina afastava a maleta de ingredientes e o caldeirão de Lino Jordan com um Feitiço Expulsório, colocando suas próprias coisas no lugar.

– O que é que está acontecendo aqui?

Ao ouvir a voz de Snape, os quatro grifinórios congelaram; a sonserina limitou-se a revirar os olhos e cruzar os braços outra vez, na expressão de tédio que habitualmente tomava conta de seu rosto. Talvez tenha sido isso o que mais irritou Fred, que resolveu responder à pergunta do professor de poções sem se preocupar em levar um castigo.

– Essa aluna nova aqui roubou o lugar da Angelina e não quer sair de jeito nenhum. – E voltando-se para ela: – Será que ninguém te ensinou o conceito de propriedade privada, não?

– Eu tenho nome, sabia? Sou Catharina Silver, não a aluna nova – ela retorquiu de imediato.

– Silêncio. Vocês não vão transformar minha aula numa balbúrdia! Se a Srta. Johnson perdeu o lugar é porque chegou tarde para a aula. Ela pode resolver isso com um pouco mais de dedicação e pontualidade.

A capitã do time da Grifinória engoliu a raiva, tentando disfarçar a vontade que tinha de esganar o professor e a garota petulante que roubara seu lugar.

– Estou vendo um lugar ali na frente... – e Snape apontou para uma carteira vazia bem em frente à sua mesa. – E quanto ao resto, acho bom que voltem a seus lugares. Vocês já me fizeram perder um tempo precioso.

A menina caminhou para a primeira fileira enquanto os garotos se dirigiam a seus lugares, mas antes mesmo de dar um passo, Lino soltou uma exclamação de indignação.

– Ei! Dá o fora, Higgs!

– Professor Snape – o rapaz de cabelos cor de palha que tinha se apossado da carteira de Lino chamou num tom de voz cheio de cinismo. – Acho que o Jordan não se cansou de arrumar confusão...

– Eu mandei todos irem para seus lugares, Sr. Jordan!

– Foi o que eu fiz! – Lino retrucou impaciente, quase fulminando o aluno da Sonserina com o olhar.

– Pois me parece que esse é o lugar do Sr. Higgs. E eu vou descontar 10 pontos da Grifinória pelo tom como o senhor se dirigiu a mim.

Bufando de raiva, Lino Jordan ocupou uma carteira ao lado de Angelina, bem na frente da classe. Snape descontou outros dez pontos pela demora do rapaz em juntar seu material que estava espalhado por todos os cantos do fundo da sala para enfim fazer sua mudança.

Decididos a não deixar aquele desaforo passar em branco, Fred e Jorge começaram a observar o casal de sonserinos encrenqueiros disfarçadamente.

– Ela explode essa droga de caldeirão hoje ou eu não me chamo Fred – o rapaz murmurou raivoso para o irmão que devolveu um sorriso sarcástico.

– Deixa que eu cuido do Higgs! – Jorge fitou o rapaz de cabelos cor-de-palha com prazer.

Os dois irmãos cuidaram para que não parecessem demasiado interessados na aula, nem totalmente dispersos. Conheciam bem o professor, e achavam que aquele era um ponto a mais para eles naquela guerrinha de nervos, ainda que Snape tivesse a ligeira mania de favorecer a casa cuja direção estava em suas mãos.

Mas conforme se punha a observar a menina ao seu lado, Fred ia tendo a certeza de que não precisaria fazer muito para que ela explodisse o caldeirão. Ela era descuidada demais: jogava os ingredientes de qualquer jeito, adicionando-os fora de ordem e mexendo a mistura rápido demais. Se Snape visse um grifinório fazendo aquilo, com certeza já teria feito a tentativa de poção evaporar-se.

Jorge por sua vez, tinha aproveitado um segundo de bobeira em que Higgs contemplava a nova colega para jogar um aviãozinho de plasma de mascar. Misturado a qualquer tipo de base, ele adquiria consistência de cimento. Para acelerar o resultado, o ruivo ainda contou com a sorte: o sonserino começou a mexer a poção com a varinha no segundo seguinte.

Terêncio Higgs deu uma rápida olhada para seu caldeirão ao sentir a poção engrossar, mas como era a primeira vez que preparava uma emulsão descongestionante, achou que estivesse fazendo tudo certo. Na verdade, ele não conseguia desgrudar os olhos do caldeirão à sua esquerda, que começava a soltar bolhas de aparência estranha.

– Eu não queria me meter... – ele tentou ajudar a vizinha.

– Então não se meta – a menina respondeu sem olhar para ele, jogando um punhado de salamandra picada que segurava com nojo dentro do caldeirão.

– Você não parece estar muito preocupada com as medidas... – ele se fez de rogado, os olhos distraídos pelo líquido borbulhante de cor alaranjada quando devia estar verde-bebê.

– Eu faço tudo a olho – ela voltou o rosto para o rapaz e ergueu as sobrancelhas. – Parece que a sua poção também não vai muito bem... – ela espichou o pescoço para ver a ponta da varinha de Higgs incrustada na massa quase sólida.

Higgs puxou a varinha com força, tentando tirá-la de lá. Foi bem-sucedido... ao menos com metade do instrumento. Um toco de madeira faiscava em sua mão direita e ele nem precisou ver os risinhos abafados dos grifinórios da última fila para ter certeza de que tinha caído numa das armações de Fred e Jorge. Os rapazes se encararam com fúria.

– Vocês dois!

– Que foi, Higgs? Perdeu a mão? Deve ser a nova localização do caldeirão... – Jorge debochou e então deu um pulo para trás ao ver uma enorme bolha alaranjada flutuar quase um metro no ar e explodir.

O rapaz deu um sorriso para o irmão, que parecia tão impressionado quanto ele. Jorge achou que Fred realmente tinha se superado. Eles já haviam explodido muitos caldeirões alheios, mas aquele era o primeiro que explodiam com tanta categoria. A poção provavelmente atingiria a sala inteira!

Terêncio puxou Catharina Silver pelo braço um segundo antes do recipiente de ferro se partir em centenas de pedaços. Jorge e Fred já tinham saltado sobre meia dúzia de alunos e se refugiavam atrás do caldeirão de Angelina. Mas, para a surpresa dos quatro, o líquido alaranjado parou em pleno ar, como se estivesse congelado. E essa idéia se confirmou quando a massa sólida caiu no chão, espatifando-se em pequenos grânulos inofensivos. Não tão inofensiva era a cara do professor, que abaixou a varinha e encarou a aluna nova com fúria.

– Eu devia imaginar que, com esse sobrenome, eu não poderia esperar muito... – ele disse com amargura.

A menina perdeu o olhar arrogante pela primeira vez desde que chegara Hogwarts. Baixou a cabeça e mordeu os lábios, sua mão apertando a do garoto que acabara de salvá-la de uma dolorosa queimadura, para não imaginar coisa pior. Ele apertou a mão dela de leve, tentando acalmá-la.

– Você fica na sala para limpar a sujeira, Srta. Silver. O resto da turma deixe uma amostra da poção num frasco com o nome para que eu possa avaliar. Estão dispensados.

Fora da sala, Lino dava os parabéns aos gêmeos:

– Vocês começaram o ano muito bem! Além de darem uma lição naquelazinha, ainda conseguiram fazer com que Snape liberasse a gente mais cedo!

– Não... – Fred tentou dizer alguma coisa, mas Angelina o interrompeu:

– Como era mesmo o nome dela? Catharina?

– Devia ser Chatarina, isso sim – Lino arremedou. – Menininha irritante! Mas vocês foram brilhantes!
– Não fomos nós, caramba! – Fred explodiu.

– Não? – Jorge arregalou os olhos para o irmão.

– Não! Eu não coloquei nada na poção dela! Se vocês vissem como ela fazia com os ingredientes... A garota conseguiu se detonar sozinha!

Os outros três se entreolharam surpresos. Desde quando Fred começara a ter ataques de modéstia?


Ela se concentrou mais uma vez. Se a menina ao seu lado conseguia, ela também tinha que conseguir:

Wingardium Leviosa!

Nada. A pena continuava no mesmo lugar. Ela não era única que não estava conseguindo realizar o feitiço, mas, com certeza, a única que não exibira uma única fagulha de mágica naquela classe.

– Eu disse. Eu disse. Eu não sou uma bruxa... – ela resmungou baixinho enquanto balançava a varinha bruscamente na direção da pena.

– Muito bem, Srta. Boot. O movimento é esse mesmo.

A menina ao lado de Lyra levitava sua pena sem a menor dificuldade. A russinha suspirou aborrecida e encostou a varinha, decidida a sair dali diretamente para a sala do diretor pedir que a mandassem de volta para casa. Do seu outro lado, um garoto continuava insistindo:

Wingardium leviosa!

Mas ele fez tantos floreios com a varinha que quando terminou de mexer o pulso, ela não estava apontada para a pena, e sim para os cabelos de Lyra, que subiram imediatamente, provocando riso em todos na classe. A menina que estava se saindo bem deixou a pena cair, gargalhando com vontade e até o professor esboçou um sorriso.

Aquilo já era demais! Ela não sabia como tinha concordado com aquilo, mas aquela seria sua primeira e última aula de bruxaria. Voltaria para casa no primeiro trem, ainda naquele dia se conseguisse. O Professor Flitwick se adiantou no seu passo miúdo e, com um meneio da varinha, fez os cabelos de Lyra se assentarem novamente. O menino ao lado estava cor-de-rosa de tanta vergonha.

– De-desculpa! Acho que eu nunca vou conseguir fazer isso direito... – ele disse baixinho, tão logo o professor se afastou para corrigir uma aluna que usava vestes da Lufa-lufa.

O garoto pálido, de olhos extremamente azuis e cabelos louros deu um sorriso sem graça para a menina, que o fitava pasma.

– Como?

– Ah, bem... Eu não sabia que era bruxo até um mês atrás. Ninguém na minha família é. Acho que devo ter recebido a carta por engano... – ele coçou a cabeça olhando para a própria varinha e franzindo a testa.

– Eu-eu também... De certa forma... – Lyra ficou em dúvida se deveria mencionar o fato de sua mãe ser bruxa, mas não poder usar magia. Achou melhor não comentar nada a respeito.

– Sério? – ele deu um sorriso feliz de quem se conforta com as palavras ouvidas. – Um menino do meu quarto chamou meus pais de trouxas, você acredita nisso? Se ele não fosse uns dez centímetros mais alto que eu... – ele olhou de soslaio para o canto da classe, onde três garotos, um deles bastante alto e forte em comparação com os demais, que riam vendo uma menina multiplicar a pena em vez de fazê-la flutuar.

– Ele não disse nada de mais – a menina ao lado de Lyra se intrometeu, fazendo sua pena voar entre os dois. – É o que seus pais são!

– Meus pais não são trouxas! – o garoto se revoltou.

– São sim – a menina retrucou e deixou a pena cair outra vez.

– Calma... – Lyra ficou olhando para a cara do garoto, esperando que ele dissesse o nome.

– Ben... Benjamin Scoresby – ele respondeu sem tirar os olhos raivosos da menina gorduchinha e sardenta ao lado de Lyra.

– Então, Benjamin, minha avó me explicou. Trouxa é o nome que os bruxos dão a todo mundo que não tem sangue mágico. Não é ofensa! É só um nome... – então a sardentinha começou a segurar a risada. – Que foi? Eu disse alguém coisa errada? – Lyra se enfezou.

– Não, desculpe... – a menina pôs a mão na boca, tentando se controlar. – De-de onde você é?

– Ah, já entendi – a russinha soltou uma interjeição rancorosa. – Você está rindo do meu sotaque, não é?

– Desculpe. – a menina engoliu o ultimo acesso de risos e ficou séria. – Eu não queria ofender. É que é... hum... engraçado... – ela sorriu, tentando conquistar a simpatia da outra.

– Eu não acho! – o menino deu o contra com ar enfezado, mas Lyra não soube dizer se isso era porque ele realmente discordava da menina ou se fazia de pura birra.

– Ei, calma aí! Vocês não precisam ficar bravos. Eu também tenho o maior sotaque! Sou da Irlanda! Tem gente da Europa inteira estudando aqui.

– Da Europa inteira? – Lyra arregalou os olhos quase negros.

– E da Ásia, das Américas, de sei-lá-onde... Meu irmão me contou que a apanhadora do nosso time de quadribol é taiwanesa!

Lyra levou a mão à boca, surpresa.

– Tem mais gente como eu? – o menino perguntou desconfiado.

– Nascido trouxa, você quer dizer? – os olhos castanho-claros da sardentinha brilharam. – Claro!

– Ei – o menino entendera a resposta como um convite à conversa. – Como é que você faz a pena flutuar?

– Ah, é fácil! Meu irmão me ensinou isso há um tempão... Ele já está no quinto ano, sabe? E você pegou o jeito... Fez os cabelos dela flutuarem, não foi? – o garoto ruboresceu outra vez, lembrando do vexame. – Só aponte para a pena desta vez!

Lyra se encolheu atrás da carteira, sem tocar na varinha, enquanto Ben voltava a praticar. A sardentinha franziu a testa para ela:

– Você não vai treinar?

Lyra só balançou a cabeça negativamente e começou a olhar para um borrão de tinha na parede com grande interesse. A garota devia achá-la uma idiota. Afinal, se era tão fácil... Mas a verdade é que Lyra não conseguira fazer com que sua pena mexesse sequer um milímetro.

– Ei, consegui! – a garoto viu a pena que tinha flutuando quatro ou cinco centímetros cair outra vez, passando da euforia à frustração em instantes.

A menina voltou a encarar Lyra:

– Vamos! É fácil!

– Para você pode ser... – Lyra resmungou sem se mexer, num inglês tão cheio de sotaque que a outra não entendeu nada.

– Que foi que você disse?

Irritada com a insistência da garota, Lyra se levantou e apontou a varinha para a pena:

Wingardium Leviosa!

Outra vez nada aconteceu. A outra garota observou intrigada.

– Faz assim – e ela mostrou o jeito como Lyra devia mexer o pulso.Mais uma tentativa frustrada. E depois de insistir mais umas cinco vezes, Lyra sentou-se novamente, cruzando os braços, o olhar irritado pousado na pena.

– Não é possível! – a colega franziu a testa, apontou a varinha para a pena de Lyra e fazendo-a flutuar quase 50 centímetros. – Será que a sua varinha... – Antes que a menina terminasse a frase a pena começou a pegar fogo. Lyra não despregava os olhos do objeto em queda livre, e quanto mais ela se concentrava, maiores eram as chamas.

Acqua! – um jato d'água saiu da varinha do professor de feitiços, que sorria para a garota. Lyra parecia um pimentão de tão vermelha que estava, mas, pelo visto, aquele fora apenas mais um dos incidentes comuns de primeiro dia de aula.


– Ah, não, mãe... está muito cedo – Rony virou a cabeça para o outro lado.

Harry soltou uma risadinha e, logo em seguida, um bocejo, mas Hermione estava realmente irritada.

– Ronald Weasley! ACORDE! – ela berrou no ouvido do garoto de cabelos vermelhos.

Rony levantou-se de imediato, assustado. O garoto tinha a respiração ofegante e levou alguns segundos para recuperar-se do susto. Hermione exibia um sorriso bastante satisfeito e disse num tom irônico:

– Você pode até não dar o devido valor à aula de História da Magia, mas um monitor não pode chegar atrasado a aula nenhuma. Mesmo que passe a aula inteira dormindo depois.

O ruivinho respirou fundo, contando até dez bem baixinho para não perder a paciência com a amiga. Ela sempre fora um pouquinho preocupada demais com o que ele e Harry faziam ou deixavam de fazer. Mas desde que o ano letivo começara, parecia que ela tinha resolvido destinar a parcela de controle de Harry em cima de Rony.

O garoto de óculos preferiu não se meter, mas também estava estranhando o comportamento de Mione. Primeiro, porque ele também dormira durante toda a aula de História da Magia (apesar de ter acordado alguns minutos antes do final) e, mesmo assim, Mione não ralhara com ele como de costume. Segundo, porque Mione sempre soube como Rony era relaxado com seus deveres escolares e, ainda assim, resolvera indicá-lo para o cargo de monitor. Será que ela estava tentando forçar Rony a ter um pouco mais de juízo?

Ao menos as caras enfezadas dos amigos despertaram um pensamento alegre em Harry: tinha perdido completamente a vontade de ser monitor. Eram obrigações demais para poder exibir um distintivo nas vestes. Além disso, os treinos de quadribol logo começariam e o tempo de Harry se tornaria escasso para tudo o que teria que estudar num ano de N.O.Ms.

Chegaram rápido à sala onde teriam aula de Defesa Contra as Artes das Trevas.

– Que maravilha! Sua disfunção de sono nos fez sermos os últimos a chegar! Não quero nem ouvir o que a Professora Figg vai dizer. Atrasados na primeira aula... – Hermione levantou a cabeça procurando um lugar vago e foi sentar-se ao lado de Neville.

Rony estava novamente contando até dez. Nesse ritmo não demoraria muito tempo para tentar usar a varinha contra Hermione. E se evitava fazê-lo era mais por preocupação consigo mesmo do que com a menina.

– Não sei por que Hermione está tão preocupada. A professora ainda nem chegou... – o ruivo sentou-se na única carteira dupla vaga da sala.

Harry ocupou o lugar a seu lado. Os olhos verdes percorreram a sala que já havia sido ocupada por outros quatro professores diferentes. A sala de Arabella Figg era sem dúvida a mais vazia de todas. Nem um único instrumento de combate às artes das trevas, como era comum a sala de Olho-Tonto Moody; nem mesmo uma criaturinha diabólica, parecida com as que Lupin trazia para as aulas. Harry também não imaginou que Arabella Figg, sempre tão descuidada com a aparência, pudesse querer manter fotos suas pelas paredes, como era o caso do professor que tivera no segundo ano. No entanto...

O garoto passou os olhos rapidamente pela sala, disposto a encontrar um gato. Ao menos uma foto, ou uma pintura... Tinha que haver alguma coisa parecida com um gato ali dentro, ou então aquela não era a mesma mulher que ele imaginava ser. Se havia uma coisa que marcara a infância de Harry era o cheiro de gatos da casa da Sra. Figg. Apurando as narinas, ele sentiu um odor fraco, quase ao mesmo tempo em que se deparou com uma bola de pelos prateados surgindo de debaixo de uma estante. No instante seguinte, Arabella Figg entrou na sala.