Capítulo 4 – Vida que segue
iLes étoiles s'allument au ciel, et la
brise du soir doucement parmi les
fleus: rêvez, chantez et soupirez.../i.
George Sand
- Ei, Sirius, o marido da Helen não vem hoje? - Carol parou o que estava fazendo e fitou o astrônomo com os olhos azuis impacientes.
- Não foi você quem disse que não era uma boa idéia trazer um trouxa para dentro desta sala? - Fletcher perguntou num tom de voz irritado, escondendo o rosto atrás de uma página de jornal.
Sirius franziu as sobrancelhas na direção do amigo: por que raios ele mantinha o jornal de ponta-cabeça?
- Foi, mas eu mudei de idéia - a numeróloga respondeu sem olhar para Fletcher e voltou a fitar Sirius.
- Não sei, Carol. Eu convidei... Disse para ele voltar quando quisesse, mas o garoto não pode ficar sozinho todas as noites... - Sirius voltou a manusear o telescópio a sua frente.
- Afinal de contas, onde é que a Helen se meteu? Ela bem que podia tomar conta do próprio filho!
O tom de voz de Carol surpreendeu os dois bruxos que trabalhavam com ela. Eram cerca de dez horas da noite e, como em todos os outros encontros, ela, Fletcher e Sirius se concentravam em mapear os astros e comparar fatos novos e antigos. O manifesto de Morgana repousava sobre uma grande mesa redonda, cercado por mapas estelares e cálculos dos mais complicados.
- Acho que nenhum de nós tem nada a ver com forma como a família Rasputin vive - Mundungus amassava as laterais do jornal.
Mas Sirius pensava diferente:
- Sabe que você falou uma coisa certa, Stuart? - Sirius desviou a atenção do telescópio e girou o copo sobre o banquinho, ficando de frente para Carol.
- Novidade... - Carol olhou de soslaio para um dos livros no chão, passando a língua pelos lábios rapidamente.
Sirius não ouviu o muxoxo:
- Helen não está em Oxford, nem em Little Whinging, porque Remo me disse que ia hoje à casa da Arabella Figg e não tinha a menor idéia de onde começar a procurar os papéis que ela mesma pedira a ele. Se houvesse alguém na casa ele poderia pedir ajuda...
- Eu não precisei - Remo Lupin aparatou bem no meio da sala. - Estavam falando de mim?
- Não, da Helen - Carol respondeu.
- ... e do marido dela - Fletcher completou azedo.
- Dos Rasputin? - Remo olhou direto para Sirius.
- Ei, não olhe para mim! Não fui eu quem começou essa conversa... - Sirius girou novamente no banquinho e se pôs a analisar o céu pelas lentes do telescópio antes que aquela conversa tomasse rumos indesejados.
- Não era nada demais, Lupin. Eu só perguntei a Sirius sobre Dmítri...
- Nossa, que intimidade... - Fletcher não perdia uma oportunidade.
Pela primeira vez naquela noite, Carol dirigiu o olhar ao ex-noivo. Um olhar furioso e ressentido, que durou segundos suficientes para que Fletcher voltasse a se esconder atrás do primeiro pedaço de papel que viu na frente - desta vez um mapa dos anéis de Saturno.
- Como eu ia dizendo, perguntei por que o DMÍTRI - ela deu ênfase no nome do astrônomo - não apareceu mais aqui desde a vista da semana passada.
- Ora, alguém tem que tomar conta do garoto, não é? - Remo deu de ombros.
- Exatamente - Sirius e Carol disseram em uníssono. A ex-corvinal continuou:
- Onde está a Helen, então?
- Em Cambridge! - Remo respondeu naturalmente, caminhando até a mesa próxima a Fletcher e procurando por alguma coisa.
- CAMBRIDGE?! - os três olharam para Lupin atônitos.
- É. Cambridge - Remo repetiu sem entender o auê.
- E como você sabe disso? - Sirius perguntou como quem não quer nada, preocupando-se em remexer alguns papéis para aparentar desinteresse.
Remo parou de mexer nos mapas sobre a mesa e olhou para cada um dos presentes. Carol tinha os olhos azuis arregalados para ele, como se tivesse ouvido uma grande novidade. Fletcher não deixava de fitar Sirius, com as sobrancelhas denunciando o estranhamento; e o próprio Sirius... bem, Sirius tinha uma expressão quase convincente de que não dava a mínima para onde a ex-namorada se encontrava.
A sala estava extremamente desarrumada. Carol com certeza cansara-se de tentar manter tudo em ordem, principalmente porque, toda vez que um papel sumia, Sirius insistia em acusá-la injustamente. Fletcher, por sua vez, tratava de tornar as coisas mais complicadas do que já eram e Remo agradecia sempre o fato de ter que passar apenas uma hora por dia numa sala cheia de ânimos tão acirrados. Por isso estranhou aquela conversa toda...
- Quem me contou foi Yuri. Naquele dia em que fomos buscar os mapas... Achei que você soubesse, Sirius!
- Não, não sabia. E também não faz a menor diferença - Sirius resolveu encerrar o assunto: - Stuart, eu preciso das coordenadas da linha quatro.
Mas a numeróloga ainda não tinha satisfeito a própria curiosidade:
- Eles se separaram? - ela tirou os olhos de Remo e os pousou em Sirius, que sentiu a nunca esquentar com tal comentário.
- Não que eu saiba - Remo estranhou. - Yuri só me disse que a mãe não conseguiu emprego aqui e, portanto, foi para Cambridge... Parece que ela conhecia a dona de uma academia de dança de lá...
- Ah... - Carol soltou uma interjeição desapontada.
- Afinal de contas, por que é que você está interessada nisso? - Remo resolveu perguntar.
- Será que alguém pode me fazer o favor de passar as coordenadas da linha quatro? - Sirius estava extremamente irritado e os amigos podiam dizer que era menos pela falta de atenção de Carol do que pelo rumo que a conversa ia tomando.
Mas antes que Carol respondesse a qualquer uma das perguntas, Fletcher deixou escapar:
- A Srta. Stuart agora resolveu se tornar uma destruidora de lares...
A bruxa levantou-se furiosa e atirou o livro que tinha nas mãos em Fletcher com toda a mira e força que uma ex-artilheira poderia arremessar uma goles. Centésimos de segundos antes, ele aparatou dali, e o livro caiu dentro da lareira acesa.
- Eu não acredito - ela se levantou rapidamente e correu até o local. O livro já estava sendo consumido pelas chamas. - Idiota! Mas ele me paga dessa vez! - e num estalido, ela também sumiu da sala.
- O que deu nesses dois? - Remo perguntou estarrecido a Sirius, que coçou a cabeça e deu de ombros.
- A esperta sumiu sem me dar as coordenadas... - ele olhou para o telescópio de má vontade. Por fim, sabendo que não conseguiria nada sem os números, levantou e bebeu um pouco d'água. - Novidades? - ele perguntou olhando para a lareira que acabava de consumir as páginas amareladas do livro grosso atirado por Carol.
- Nada muito bom... Os duendes ainda estão receosos. Disseram que não se submetem ao comando de Fudge.
- Mas o Fudge não tava se negando a ajudar? - Sirius perguntou.
- Pois agora ele parece disposto a atrapalhar...
- Peraí. Se o Fudge não está conosco, então por que é que os duendes não querem se aliar?
- Ah, Sirius, você se importa se a gente discutir isso uma outra hora - Lupin se aproximou do fogo.
- O que houve? Você não me parece muito bem...
- Lua cheia à vista... - Remo respondeu amargurado.
- Vicht! Já é amanhã, não é?
Lupin só abanou a cabeça para confirmar; os olhos estavam perdidos num ponto qualquer, tristonhos e melancólicos. Sirius pensou em dizer alguma coisa para tentar confortá-lo, mas não havia muito que falar.
- Com licença? - uma voz suave veio da direção da porta.
Sirius estava petrificado. Aquela não era a voz de Carol e nenhuma outra mulher tinha autorização para entrar naquela sala. Seja lá quem fosse, ela não podia ver seu rosto ou ele teria encrencas. Remo pareceu pensar nisso tão rápido quanto ele, e logo se deslocou até a desconhecida:
- Lamento informar, mas esta é uma sala reservada.
- Eu sei que é uma sala reservada - disse a mulher loura de cabelos curtos e óculos quadrados. - Mas eu recebi informações de poderia encontrar aqui um ex-professor meu...
- Aqui não há nenhum professor da Universidade... - Lupin tentou barrá-la, mas ela já estava dentro da sala, caminhando em direção a Sirius.
- Será que você pode me dizer o que há de tão interessante numa lareira, Sr. Black? - ela parou de cabeça erguida ao lado do homem de cabelos compridos e negros. - Não vá me dizer que não se lembra de Teresa Bright!
* * *
Meia hora depois, Sirius conversava com sua ex-aluna muito mais relaxado. Ela não fez perguntas sobre o que tinha acontecido a ele. Dmítri Rasputin devia ter-lhe informado o suficiente para que evitasse situações constrangedoras. Remo ouvia a conversa com atenção. Já tinha ouvido Sirius falar de Teresa Bright quando eram jovens, mas a idéia que tinha dela era que fosse muito mais jovem que eles e, no entanto, a mulher que estava na sua frente devia ter com certeza mais de 30 anos. Talvez fosse o rosto marcado pelo cansaço ou então alguns fios brancos que se escondiam em meio ao cabelo louro. Ainda assim, Remo não pôde deixar de notar o brilho nos olhos daquela mulher que comentava entusiasmada sobre feitos astronômicos do mundo trouxa.
- Ah, Sr. Black, você não tem idéia de como foi difícil convencer o departamento... Ainda mais com aquele idiota do Chandler querendo a todo instante que eu me enquadrasse nos regulamentos da Física...
- Terry, pelo amor de Merlim, você não vai parar de me chamar de senhor nunca? - Sirius abriu um sorriso encantador e Remo pensou que ele continuava o mesmo conquistador de sempre. Até mesmo a expressão funesta que Azkaban lhe deixara no olhar parecia ter se abrandado.
- É o costume... - ela sorriu levemente envergonhada. As sardas que cobriam o nariz e as bochechas tinham se acentuado naqueles anos todos.
Um estalido alto interrompeu a conversa. Carol voltara ainda mais furiosa que antes:
- Aquele imbecil não voltou para cá? - ela correu os olhos pela sala toda antes de reparar na estranha que estava li, sentada no chão, entre Sirius e Lupin. - Quem é ela... er... você? - e o belo rosto da bruxa se deformou pela irritação.
- Teresa Bright - respondeu a trouxa levantando-se e oferecendo a mão direita.
Carol lançou um olhar interrogativo aos colegas, afinal aquele nome não esclarecia bulhufas.
- Ela é a chefe do Departamento de Astrofísica da Trinity, Stuart. - Sirius apoiou-se na mão direita para se levantar num impulso. - E você pode apertar a mão dela. Garanto que não tem plasma de mascar grudado! - ele concluiu num ar de pouco caso.
- Engraçadinho! - mas ela não apertou a mão da astrônoma. - Muito bem, onde está o amiguinho de vocês?
Carol olhou de Sirius para Remo, exigindo uma resposta.
- Escuta aqui, Carol. Nós não temos nada a ver com essa picuinha de vocês dois. - Sirius perdeu todo o bom-humor: - E você, aliás, devia estar me ajudando, não correndo atrás do Fletcher...
- Eu não estou correndo atrás dele!!! - ela retorquiu indignada. - Acontece, que, por conta dele, meu Manifesto virou cinza!
A loira não estava entendendo muito daquela conversa. Manifesto?
- Por causa dele, Carol? Você atirou o livro na lareira e vai dizer que a culpa é dele? - Sirius olhava admirado para ela. Como as mulheres podiam distorcer tanto as coisas?
- Ele me deixou nervosa! Você ouviu o que ele disse! Aposto que se ele tivesse falado de você e da Helen você não o estaria defendendo.
- Não tem nada entre eu e a Helen! - ele retorquiu enfático e furioso.
- E nem entre eu e o Dmítri! - ela berrou ainda mais alto.
- Ninguém disse que você tinha algo com ele!
- O Fletcher insinuou isso, sim!
- Ah, desculpe, esse Dmítri é o mesmo Dmítri que eu conheço? - Teresa se intrometeu na história e Lupin mordeu os lábios esperando pela reação nada amistosa que os dois bruxos teriam.
- Exatamente - Sirius respondeu sem tirar os olhos de Carol.
- Mas eu pensei que ele fosse casado... - ela coçou o queixo.
- E é. - Carol respondeu um pouco mais calma. - Entende o porquê de eu estar irritada com uma insinuação desse tipo? - e voltando-se para Sirius: - Eu nunca, nunca me colocaria no meio de uma família. Ainda mais no meio da família dela. Helen já tem implicâncias suficientes comigo para eu evitar conquistar mais algumas, não acha?
Sirius engoliu em seco. Ela não ia começar a falar sobre aquilo na frente de estranhos, iria? Ainda mais na frente da chefe do marido de Helen...
- Mas, Carol, vamos ser realistas... Você estava fazendo perguntas demais sobre o Rasputin, não acha?
Sirius não podia acredita no que estava ouvindo: agora era Remo que ia por tudo a perder?
- Não, não acho. Eu realmente queria que ele viesse porque ao contrário do Sirius, ele entende alguma coisa de física e matemática! E não fica achando que eu estou dando coordenadas erradas o tempo todo! Com o Dmítri ao meu lado, o Sirius não contestava uma vírgula do que eu falava.
- Mas é lógico! Ele entende de astronomia.
- E eu de Aritmancia! - ele retorquiu indignada.
- Então o problema é esse? - ao invés de ficar bravo, Sirius deu um sorriso. - Pois eu tenho uma astrônoma trouxa aqui à nossa disposição, sem filhos para cuidar e sem ciúmes a despertar... - ele sorriu para a trouxa a seu lado.
- Ciúmes... O Fletcher tinha era que ter vergonha na cara! Depois de tudo que ele fez vir com essa conversa de ciúmes.
Sirius e Remo se entreolharam. Até hoje não sabiam o que tinha separado aqueles dois... E pelo visto aquela não era a melhor hora para descobrir.
- Muito bem, vamos voltar ao trabalho? - Sirius olhou para o telescópio. -Queria aproveitar para mostrar algumas coisas a Terry.
- Acho que você não me ouviu direito, Black! Meu Manifesto queimou! Não tem mais como fazer previsão nenhuma.
Outro estalido ecoou pela sala:
- Ela já foi? - era Fletcher.
Ele não demorou a constatar que a ex-noiva estava no local; agora era preparar-se para os berros. Carol apertou as mãos e mordeu os lábios, contando mentalmente até dez. Não ia deixar que ele lhe tirasse a calma outra vez.
- Muito bem, Sirius. Já que não temos mais o livro - ela fingiu ignorar a presença de Mundungus - vamos fazer o quê?
- Alguém deve ter o livro... Remo?
- Vendi o meu ano passado.
- Vendeu? - Carol estranhou.
- Vendi, não posso? - Remos respondeu levemente irritado. Não queria dizer na frente de todo mundo que se desfizera de metade de sua biblioteca para conseguir se manter num dos períodos de desemprego.
- Pode... - ela respondeu baixinho, um pouco embaraçada. Deduziu o que ele não quis responder.
- Fletcher? - Sirius inquiriu o outro bruxo.
- Ora, e por que eu teria o Manifesto de Morgana em casa? Eu nem sabia que era isso que vocês usavam... Meu negócio é traçar estratégias!
- Achei que seu negócio fosse outro... - Carol disse num muxoxo, provocando um olhar raivoso de Mundungus. Ainda assim ele se manteve calado.
- Você não tem, Sirius? - Remo perguntou.
- Ah, você sabe que eu sempre achei aquela lenda melodramática demais... E mesmo na escola, a... - ele procurou meio de não mencionar Helen - ...as garotas sempre souberam o Manifesto de cor...
- Não as últimas páginas! Ninguém conseguiria decorar aqueles montes de números e símbolos! - Carol retorquiu, sem tanta má vontade dessa vez.
- As garotas! - Remo parecia ter tido uma grande idéia. - Com certeza Helen tem o livro!
- Eu acho que não. - Sirius deu meia volta e começou a andar pela sala.
- Como não? - Carol exibia um sorriso que a pouco Teresa consideraria impossível de imaginar. - Se ela era apaixonada por aquela história... A primeira vez que fiz uma das traduções foi com o livro dela.
- Eu sei disso, mas...
Sirius se sentiu fraquejar. Por que é que eles teimavam tanto em lembrar dela? Ele queria ter a certeza de que nunca mais a encontraria na vida. Ela dissera que o odiava, pois agora ele achava que sentia o mesmo.
- Mas? - quem perguntou foi Teresa, provocando um certo susto no astrônomo. Os outros três bruxos tinham os olhos fixos em Sirius.
- Mas você não quer pedir nenhum favor a ela, não é? - Carol adivinhou.
- Não é isso... É que... Bem, até onde eu sei, ela se desfez de tudo o que poderia lhe lembrar que um dia ela foi uma bruxa - ele arranjara a desculpa perfeita.
- Ela nunca jogaria aquele livro fora! - Carol disse com convicção.
- Eu também acho - Remo completou.
- Ah, lógico, porque vocês dois conhecem ela muito melhor do que eu, com certeza! - ele retrucou amargo.
- Hum, Sirius, eu não queria me intrometer, mas... Bem, eu também acho que ela não jogaria esse livro fora - até Fletcher estava contra ele.
- E por que não?
- Quantos motivos você quer? - Carol zombou dele; Sirius apenas deu um risinho de escárnio e mirou Remo.
- Ela não daria um fim naquele livro simplesmente porque era a única história onde buxos e trouxas tinha parcelas iguais de atuação. E porque era dali que ela tirava todas as idéias de que o mundo trouxa e o bruxo realmente deviam se manter separados... Você realmente devia ler a história, Sirius... Ela não é assim tão melodramática! - Remo comentou.
- Então um de vocês pode ir atrás dela e buscar o livro, já que tem tanta certeza.
- Eu posso fazer isso. Vocês só precisam me dar o endereço do Dmítri. Eu aparato lá agora mesmo. Provavelmente ela não vai ter levado o livro para Cambridge...
- Vocês estão cheios de probabilidades hoje... - Sirius disse com desdém.
- Esse é meu trabalho, queridinho - e numa reação que surpreendeu a todos, Carol deu um beijo estalado na bochecha do astrônomo, logo depois de guardar um papelzinho com o endereço e número de telefone dentro do bolso. Um segundo depois ela desapareceu.
- E nós? - Remo perguntou aos colegas .
- Eu ainda tenho um trabalho pra terminar. Se alguém estiver disposto a ajudar... - Fletcher olhou para a mesa repleta de mapas.
- Eu topo!
Os três homens olharam admirados para a mulher loura de óculos, que arregaçava as mangas e puxava um mapa de cima da mesa para si. Dando conta do estranhamento que aquilo causara, ela disse:
- Ora, Sr. Black, se esqueceu que foi o senhor... quero dizer, você quem me iniciou na Astronomia bruxa? - ela deu um sorriso maroto.
Enquanto Sirius puxava-a pela mão para que ela visse os mapas que ele tinha acabado de desenhar - a parte produtiva de uma noite tão turbulenta -, Fletcher comentou baixinho para Remo:
- Quanto você quer apostar que não foi apenas na Astronomia bruxa que o Black a iniciou?
* * *
A rua estava deserta. Nem mesmo um gato perambulava por ali. Foi então que um estalido forte soou no ar, como uma janela se quebrando. Carol aparatara em meio a Blackhall Road. Era uma estradinha torta, não muito longa, escondida atrás de uma das inúmeras faculdades de Oxford. A bruxa olhou para os lados, assegurando-se de que não havia ninguém ali. Também se houvesse, já seria tarde demais. Só mesmo com um bom feitiço de memória um trouxa conseguiria esquecer que vira uma mulher surgir do nada. Carol sabia que devia evitar amadorismos como esse, mas havia quase duas semanas que seu coração não se aquietava.
Procurou um orelhão nos arredores. Não era de bom tom chegar sem avisar, ainda mais na casa de alguém que conhecia há tão pouco tempo. Mas ela pensou que ele não iria se zangar. Ele nunca se zangaria com ela... Uma cabine vermelha era levemente iluminada por um dos postes na esquina com a Rua Kebble. Bastaram poucos passos para que Carol chegasse até ela.
Seus dedos bateram nas teclas com certo nervosismo, e a bruxa, impaciente com a demora (não tinha sequer passado um minuto), puxou o gancho cancelando a ligação. Esperou que o aparelho lhe desse o retorno e novamente pôs-se a discar. Estava ansiosa e aflita como uma adolescente. Já era tão tarde... E se acordasse alguém? Resolveu desligar antes que alguém atendesse e saiu da cabine, voltando para a frente do imóvel.
O antigo apartamento de Sirius Black ficava na sobreloja de uma casa de ferramentas. Bem ao lado, como se fosse uma construção geminada, havia uma pequena mercearia, com um cartaz grande escrito xerox em letras coloridas afixado sobre a porta. Era o meio de convidar os estudantes que passavam todos os dias pela rua Kebble a dar um passeio pela rua torta calçada com paralelepípedos.
Carol olhou para o alto, procurando as janelas. Estavam abertas e uma luz fria e ininterrupta, saltava da que ficava à direita. Foi então que Carol notou dois olhinhos que a observavam em meio à escuridão da janela ao lado. Decerto era uma criança, que sumiu tão logo a bruxa passou a retribuir o olhar. "Bem, ao menos há gente em casa. E ao que tudo indica, estão acordados", pensou e aproximou-se do interfone.
* * *
- Bar? Você quer ir a um bar? - Remo olhou descrente para Fletcher, que tinha feito a sugestão. - Hoje é segunda-feira!
- Que é isso, Lupin? Não existe dia na noite de Oxford!
- Essa frase soou estranha... - Sirius comentou.
- Afff, não se pode utilizar metáforas em conversas com grifinórios...
- Na verdade esta é uma questão temporal, Mund... - Sirius debochou: - Se formos levar pelo sentido denotativo, nós realmente não somos mais grifinórios, uma vez que para isso precisaríamos estar estudando em Hogwarts novamente.
Mundungus respondeu com um sorrisinho irônico.
- Eu quis dizer que todas as noites são boas em Oxford. Essa é uma cidade universitária! Os jovens saem de segunda a segunda...
- Isso não esclareceu a "metáfora" da frase... - Lupin pegou no pé de Fletcher e deu uma piscadela para Sirius.
- Nós vamos sair ou não? - o outro inquiriu emburrado.
- Sair como, Mund? Esqueceu que eu sou um assassino procurado pelo Ministério da Magia e pelas autoridades trouxas? - Sirius retorquiu jogando-se no sofá da sala de Fletcher.
Apesar de toda a confusão que aquela noite rendera, ele estava tranqüilo. Uma alegria resplandecente tinha tomado conta de sua alma e ele não tinha medo de nada que pudesse acontecer. Só lembrara Fletcher de que era um fugitivo porque sabia que se não o fizesse, Lupin o faria.
- Nós vamos a um bar trouxa!!! - Mundungus contornou o sofá e lançou um olhar que Sirius conhecia muito bem. Ele dizia claramente: "Vamos, me ajude a convencer o Lupin!"
- Totalmente fora de questão - Remo sequer se dignou a olhar para os dois, abrindo dois rolos de pergaminho sobre a mesa da sala de jantar.
Fletcher pareceu um tanto irritado com aquilo. Largou Sirius deitado do sofá, que era demasiado pequeno para seu mais de um metro e noventa de altura, e avançou para o amigo lobisomem, jogando todos os pergaminhos no chão.
- Você não vai trabalhar agora, Remo! Nós acabamos de voltar de quatro horas de serviço pesado...
- Eu cheguei depois das dez... E nós só começamos a trabalhar mesmo depois das onze, então, acho que só foi UMA hora... - Remo fez as contas.
- Afff, maldita teimosia de vocês dois... - Fletcher parecia realmente zangado, quando a voz preguiçosa de Sirius ecoou pela abertura que dava na sala.
- Nós vamos, Mund!
- Quê?! - os olhos de Remo e Fletcher se arregalaram, o primeiro, de uma felicidade quase infantil; o segundo, de incredulidade ante as palavras de Sirius.
- Só tem uma condição - Black se levantou e andou lentamente até a sala de jantar, espreguiçando-se.
- Qual? - Fletcher inquiriu, antes os olhos ainda atônitos de Remo.
- Um disfarce. Eu tenho que passar desapercebido!
* * *
DIIIIIIIIIIIM-DOOOOOOOOOOM!
Dmítri saiu do quarto do filho bocejando.
- [Vocês ainda estão acordados?] - ele piscou os olhos algumas vezes, tentando acordar.
- [Você estava esperando visitas, Rasputin?] - Alexei, marido da irmã de Dmítri, perguntou estranhando o horário.
- Nyet! - ele respondeu sem se dar conta, indo em direção à cozinha para atender o interfone.
- [Depois dizem que os ingleses são rigorosos com horários...] - Dúnia levantou-se do sofá para mudar o canal da televisão: - [Você e Elena podiam pelo menos ter comprado uma tevê com controle remoto, não acha?]
Mas Dmítri não ouviu o comentário da irmã. Ainda sonolento, ele atendeu ao interfone:
- Hum... - e segurou um novo bocejo.
- Por favor, o Sr. Rasputin se encontra? - uma voz hesitante perguntou do outro lado.
- Uhum... - e soltou o bocejo.
- Dmítri? - duas vozes perguntaram ao mesmo tempo. Além da visita inesperada, a irmã de Dmítri estava na cozinha, mirando-o com um olhar de repreensão. - [Dá isso aqui!] - ela tomou o fone das mãos do irmão.
- Quem é? - Dúnia perguntou num inglês carregado.
- Helen? - Carol arriscou, apesar de aquela voz não se parecer em nada com a da antiga colega de escola.
- Elena está em Cambridge. Não sei quando volta... - Dúnia respondeu, enquanto o irmão voltava para a sala e sentava-se no sofá que há pouco estava sendo ocupado pela irmã e o melhor amigo.
- Na verdade eu estou procurando o marido dela... Com que eu estou falando?
- Não devia ser eu a fazer essa pergunta? - a russa retrucou.
- Carolyn Stuart.
- Avdótia Romanovna.
- Dmítri está? - Carol resolveu ser direta: aquela conversa estava tomando rumos estranhos.
- Você é de onde? - a russa loira e baixinha não se eu por satisfeita.
- Diga a Dmítri que é Carol Stuart do... do Observatório! Pergunte se ele pode me atender, por favor! - ela já estava cansada daquele interrogatório.
Dúnia tampou o bocal do interfone e colocou o rosto na porta da cozinha:
- Dí, é uma tal de Carolyn Stuart!
- Quem é essa? - ele deu de ombros, sem reconhecer o nome.
- Disse que é do observatório!
- Observatório? Que obser... - e então finalmente ele pareceu acordar. - Manda ela subir!
- Tá bom! - e voltando-se para o fone outra vez: - Ele falou para você subir! Tô destravando a porta, ok?
Carol deu um suspiro aliviado. Não achara que seria tão complicado conseguir um livro. Ela sabia que era um pouco tarde, mas... A porta destravou e deu passagem para uma escada curta e estreita, que dava na sobreloja. Ela subiu com agilidade, apesar dos saltos de nove centímetros que usava. Encontrou a porta do apartamento aberta, mas ainda assim resolveu dar uma batidinha:
- Oi!
- Entra, Carol. Desculpe o atrapalhamento.
- Meu Merlim, você estava dormindo! - ela notou que ele estava de pijamas.
- Meu o quê? - o outro homem que estava na sala estranhou a expressão da bruxa.
- Carol é amiga de Elena - Dmítri explicou rapidamente.
- Ah, é feiticeira também? - Carol reconheceu a voz e o sotaque que a atendera há pouco.
- Bruxa! Há algumas diferenças entre as nomenclaturas... Feiticeiras são as bruxas com especialização em Feitiços Avançados e... - vendo as caras de bobos dos três adultos da sala, ela resolveu deixar aquilo de lado: - Acho que isso não tem muita importância.
- Mas, em que eu posso ajudar? - Dmítri perguntou ao mesmo tempo que indicava o sofá, sugerindo que ela se sentasse.
No que ele podia ajudar? Ele podia ajudá-la em tanta coisa... Ela o viu piscar. Eram tão parecidos... Pensando bem, não tinham nada em comum, mas o jeito como ele a tratava. Era impossível não se lembrar. Mas ela se recuperou do transe logo:
- Eu preciso de um livro. Houve um acidente hoje no laboratório...
- ...e você veio pegar a cópia que Sirius tem guardada aqui? - o astrônomo tentou adivinhar.
- Na verdade, eu preciso da cópia de Helen! - Carol deu um sorriso sem graça.
- De que livro a senhora precisa? - uma vozinha aguda e levemente irritante, veio de um dos quartos. Um garoto de cerca de nove anos saía dali de pés descalços e cabelo despenteado.
- O Manifesto de Morgana - Carol respondeu sem saber se olhava para o pai ou o filho. O garoto era a cara de Helen.
- Esse está aqui ou sua mãe levou, Yuri? - Dmítri perguntou ao filho.
- Eu não estou lembrando desse... Mas se estiver aqui eu não levo nem dez minutos para achar. Peraí!
O garoto foi correndo para o outro quarto, e um silêncio cortante reinou na sala. Dúnia resolveu quebrar o gelo:
- Então, você faz o quê? - e então ela deu um tapa na própria testa: - [Pergunta estúpida!] Esqueça... Você é bruxa, não é?
- Ser bruxa não é profissão. Você simplesmente nasce assim. Mas meus pais eram trouxas assim como vocês, e alguns dos meus irmãos também.
A testa de Alexei se enrugou em sinal de dúvida: o que afinal eram trouxas? Estava certo que não era nenhum expert na língua inglesa, mas não tinha idéia do que aquela palavra significava. Dúnia, no entanto, parecia ter entendido (na verdade o marido sabia que ela estava fingindo para não perder o crédito com a visita e depois que ela fosse embora iria atolar seu irmão com as dúvidas).
- Certo, então você faz o quê?
- Sou numeróloga!
- É o quê? - Dúnia perguntou com descrédito. Numeróloga era algo que ela sabia o que era. Uma das garotas da companhia de dança tinha mudado o nome por conta do conselho de uma numeróloga.
- Matemática - Dmítri respondeu trazendo uma bandeja com quatro xícaras de chá. - O trabalho dela é o de um matemático ou físico... Não se parece em nada com essas bobeiras que saem em anúncio de jornal. Diferenças entre o mundo bruxo e o trouxa... - ele ofereceu a primeira xícara à visitante.
- Afina de contas o que é esse negócio de trouxa? - Alexei se cansou de não entender a conversa.
- Desculpem-me... - Carol levou a mão esquerda à testa. - Tenho andado tão cercada de bruxos ultimamente, que acabei me esquecendo de coisas tão habituais... Trouxas são pessoas que não são dotadas de mágica como vocês, ou meus pais. Eu mesma vivo como uma trouxa. Tenho uma casa em Londres...
- Você veio de Londres para cá a essa hora? - Alexei se admirou outra vez.
- Ah, não, eu estava no observatório. Mas isso não seria exatamente um problema... - ela pensou seriamente se devia comentar alguma coisa sobre aparatar.
- Aqui. É esse - Yuri voltou com um livro grande e empoeirado, de capa vinho e letras douradas já bastante desbotadas.
Ele andou até a visitante e estendeu o livro. Carol deixou a xícara de chá quase vazia em cima da mesinha de centro e pegou o livro que o garoto oferecia.
- Esse mesmo. Vocês não tem idéia da importância desse livro. É com ele que fazemos as previsões.
- Ela não disse que não era numeróloga? - Alexei cochichou para a esposa, que deu de ombros.
- Só tem uma coisinha, Sra...
- Me chame de Carol! - ela se abaixou para ficar da altura do menino.
- Carol, a senhora é amiga do Sr. Sirius Black?
- Pode-se dizer que nós nos encontramos freqüentemente - ela achou que amigos era uma palavra muito forte.
- Pois então diga a ele que Yuri Rasputin precisa ter uma conversa a sério com ele. De homem para homem - ele disse com ar enfezado.
Os tios e o pai deram sorrisos suaves e debochados, de quem conhecia o pestinha desde que nascera. Carol tratou de disfarçar a surpresa e tratá-lo com seriedade. Afinal, como ela podia estar surpresa? Ele era filho de Helen; aquele tipo de atitude era mais que natural.
- Com certeza! Eu darei o recado.
* * *
- Remo, Remo, Remo... – Fletcher já estava mais para lá do que para cá.
Lupin trocou olhares com Sirius, que achou que o amigo estava novamente estranhando o cabelo azul que Fletcher lhe arranjara como disfarce. "Ninguém vai notar... Hoje em dia todo mundo usa!".
- Eu sei que tá todo mundo olhando pra mim, Remo! Você não precisa fazer o mesmo... – Sirius olhou disfarçadamente para os lados, constatando que duas garotas de no máximo 22 anos riam dele descaradamente (pura paranóia, na opinião da autora...)
O outro devolveu uma careta de estranhamento e então falou:
- Acho melhor a gente levar o Fletcher pra casa. Ele já passou da conta.
- NÃÃÃÃOOOOO! Conta não! Ainda nem pedi um belinsky... – Mundungus deixou a boca aberta e as sobrancelhas levantadas ao acabar de falar. Já tinha bebido demais.
- Você pode até pedir, meu velho, mas não acho que um pub trouxa vai servir uma bebida dessas... – Sirius desencanou por um segundo do mico que estava pagando e riu do estado do amigo.
- Trouxa... Não, a trouxa tava olhando pra você... O Remo é outra história!
- Que trouxa, Mund? - Sirius olhou ao redor imaginando que alguma outra garota estivesse rindo de sua cara, mas não achou ninguém dessa vez. - Acho que o Remo tá certo... Melhor a gente ir embora.
- Senta aí! – ele puxou os dois amigos que se levantavam pelo braço.
Sirius e Remo voltaram a se sentar, não pela força com que Fletcher os puxara – porque esta só era suficiente para levantar mais um copo de cerveja -, mas por uma dessas razões inexplicáveis que nos fazem ficar num lugar mesmo sabendo que já não devíamos estar ali. Sirius estava abusando: um disfarce como aquele só servia para chamar a atenção ainda mais, o que não era nada bom para um fugitivo.
Remo olhou para o colega embriagado com pena. Sabia que ele estava assim por causa de Carol. Arabella Figg estava certa: todos eles tinham casos amorosos muito mal resolvidos.
- A trouxa! – Fletcher arregalou os olhos o mais que pôde, balançando a cabeça afirmativamente. – A trouxa!
O fugitivo de Azkaban olhou para Remo franzindo a testa e apertando os olhos. Fletcher não estava falando coisa com coisa...
- Mund, o que você acha de tomar um cafezinho? Ou um chá? Com bastante açúcar? Talvez comer... Me diga, você não está com fome? – Lupin tentou.
Mundungus agora fitava um ponto na parede pichada do lugar. Sua cabeça se movia de um lado para o outro e, vez ou outra ele apertava os olhos em qualquer direção.
- Não. Você, não. A Margot, não. Não, vocês nunca combinaram.
O sorriso se esvaiu do rosto de Lupin, que fechou a cara repentinamente perdendo o bom-humor. Fletcher estava se tornando um bêbado pra lá de inconveniente.
- Carol... Carolyn... Lyn… In… in the sky… A garota das estrelas gostou do Almofadinhas, não foi? – Fletcher virou a cabeça bruscamente.
- Agora chega – Lupin se levantou irritado. - Você está dizendo besteiras demais.
- Peraí, Lupin, talvez... Fletcher, presta atenção. Eu NÃO gosto da Carol, lembra? NÃO GOSTO. E ela não gosta de mim, tá me entendendo... Você não precisa ficar de porre por conta de um beijinho, velho! Eu...
- Dã... Eu não sou retardado, sabia?
- Pois tá parecendo! - Lupin murmurou pelo canto da boca.
Mas Fletcher não ouviu e continuou:
- É lógico que a Carol não gosta de você! – e então a voz dele foi ficando amarga e arrastada... – Ela gostou do outro...
Sirius franziu a testa ainda mais. Outro? Que outro? (Dã, que outro, Sirius? Desaprendeu a ler sinais, foi?).
- Do Remo? – ele arriscou, vendo os olhos claros de Lupin arregalarem-se de perplexidade.
- Você é ruim nisso, hein? – Fletcher mostrou a língua ao amigo, que não sabia se ria ou se preocupava. – Quem gosta do Lupin é a Kudrow...
- Eu desisto... – Sirius deixou as costas baterem no encosto da cadeira, exausto.
- A Bonnie? – agora fora Remo que se motivara.
– Bonnie. Bonnie Lupin. Remo Kudrow. Eu te vi outro dia, Bonnie... Saudades do Remo, não foi isso que você me disse? – agora Fletcher parecia falar com uma pessoa invisível a sua frente. – Você sempre gostou dele, mas ele caiu na poção do amor das Stuart... Envenenado... O outro também vai ser envenenado...
- Remo, vamos tirar ele daqui! – Sirius começara a se afligir com as pessoas em volta outra vez; podia jurar que um homem mais ou menos da sua idade o estava encarando. E se o tivesse reconhecido? Ou pior, e se fosse gay? (a autora não tem nada contra os gays, mas acha que, como a maioria dos amigos heteros dela, Sirius não gostaria de estar sendo alvo da paquera de um...)
- Não! – Remo parecia determinado a deixar Fletcher falar. – Quando foi que você viu a Bonnie? – ele tentou continuar o diálogo mais maluco de sua vida.
Mas Fletcher não estava mais ali. Sua cabeça divagava e ele repetia que outra pessoa ia ser envenenada. Falou isso continuamente até que seus olhos pararam no rosto de Sirius e ele sorriu:
- Isso é bom pra você, né? Ela vai ficar livre! Mas a trouxa...
Remo e Sirius se entreolharam uma última vez antes de verem o amigo bater o nariz na mesa, desmaiado. Não por efeito da bebida – ainda que não estivesse longe disso – mas por causa de um feitiço que Remo lhe jogou por baixo da mesa.
* * *
- Caramba! Tá tudo rodando... – Fletcher coçou a cabeça, e piscou várias vezes tentando fazer as imagens pararem de girar.
- Muito bonito, Sr. Fletcher – uma voz feminina ralhou com ele.
- Aninha! – ele berrou quando seus olhos finalmente conseguiram focar a imagem da mulher meiga e de voz gentil. – Eu estou no St. Mungus? – ele se sobressaltou, depois de lembrar que a última vez em que a vira fora quando fraturara o braço direito testando um feitiço de desarme.
- Lógico que não, seu mala!
- Ah, a mí no me gusta oír tu voz, Señor Black... – ele desdenhou em espanhol.
- Cumé? – Sirius não entendeu bulhufas. Tudo que sabia de magia ele desconhecia em termos de línguas estrangeiras.
- Nada, Sirius – a enfermeira deu uma risada breve. - Mas posso te garantir que ele já voltou à antiga forma.
- Pra falar a verdade ainda, não, Annie, querida. Eu preciso queimar uns pneuzinhos e, bem, meus cabelos nunca mais serão os mesmos...
- Tenta o Grecin 2000... – a voz de Remo ecoou pelo quarto. Ele acabava de vir da sala.
- Tenta o quê? – os três bruxos dentro do quarto perguntaram ao mesmo tempo.
- Ah, eu não entendi muito bem o que era... Vi isso naquela caixa trouxa que o Sirius colocou na sala...
- A televisão! Devia ser uma propaganda... Você já viu aquela da pasta de dentes? - Sirius ia começar uma conversa ainda mais sem pé nem cabeça do que aquela situação.
- Ei, ei, ei... Achei que estivessem preocupados comigo! - Fletcher ralhou debochadamente.
- Nós? Preocupados? - Sirius e Remo se entreolharam e cruzaram os braços, fixando os olhos em Fletcher e dando um sorriso cínico: - Quem devia ficar preocupado é você, se não conseguir uma boa explicação para os seus delírios de ontem à noite... Eu e o Remo estávamos pensando em fabricar um pouquinho de Verita Serum...
- Ei, vocês não podem dar Verita Serum a ele! - Annie arregalou os olhos, assustada. - Além de essa poção ser proibida, ele está convalescente. O seu feitiço foi muito forte, Lupin.
- Forte? - Remo estava perplexo. - Não foi forte! O problema era o estado em que ele estava. Bebeu metade do estoque do bar! - ele pousou os olhos desgostosos em Fletcher.
- Ah, a gente precisa disso uma vez ou outra! - Sirius defendeu o colega e sentou-se numa poltrona vermelha que havia no quarto. - Mas nós podemos esperar até o nosso amigo se recuperar da ressaca para saber mais - ele piscou para Lupin.
- Saber o quê? - Mundungus Fletcher não conseguia se lembrar da nada do que se passara na noite anterior.
- Não se faça de desentendido, Mund... - Sirius advertiu com um sorriso maroto.
- Mas...
- Bom, eu tenho que ir. O Fletcher deve estar recuperado em no máximo uma hora. Mesmo assim é bom ficar de repouso - Annie acabou de guardar seus pertences numa maleta e estava pronta para desaparatar quando o rosto de Remo lembrou-lhe de alguma coisa: - Lupin, a Bonnie conseguir entrar em contato com você?
- A Bonnie? Não, não há vejo há anos... Mas parece que ela andou encontrando o Fletcher - ele olhou de soslaio para o convalescente.
- Ah, então era isso que vocês queriam que eu contasse... Não precisa de Verita Serum para isso, não - Fletcher respondeu se espreguiçando alegremente.
- Bem, eu sei que ela queria falar com você, Lupin - Annie continuou: - Posso avisá-la que você está aqui com o Fletcher? É que ela tem ido todos os dias visitar o irmão lá no St. Mungus. É fácil encontrá-la.
- Irmão? - Sirius estranhou.
- Bonnie tinha um irmão dez anos mais novo que ela - Remo esclareceu. - Mas acho melhor eu ir até lá... Quero dizer, quanto menos gente souber que o Sirius está escondido aqui, melhor.
Annie parou de prestar atenção a Remo e se pôs a observar Sirius, a mão roçando o queixo, como que analisando se algo seria possível.
- Acho que ela pode te ajudar! - ela disse por fim.
- Quê? - Sirius franziu a testa.
- Bonnie é advogada... - Annie explicou. - E você não foi julgado, não é? E quando Clyde estiver recuperado, ele seria de grande valia na busca do Pettigrew. Ele está dentro do Ministério - ela ia comentando seu raciocínio sem se preocupar em parecer muito lógica. - Eu vou falar com ela... Eles têm me ajudado a ter acesso às varinhas confiscadas que estão guardadas no Ministério da Magia... E tem também a sua prima, Black. Os dois formam uma dupla incrível. Tenho certeza de que eles poderiam fazer alguma coisa...
- Minha prima? Você tá falando da Andie? - Sirius deduziu que Annie só poderia estar falando de Andrômeda, uma vez que das três primas, uma estava presa em Azkaban e outra tinha se tornado uma Malfoy.
- Da filha dela. Não sei se você lembra do Ted... Ele era da sala do Cameron.
- Lembro. Lembro, sim. Aliás, eu fui no casamento deles - Sirius deu um tapa na testa. - Mas o que tem a garota?
- Ah, ela é auror. Normalmente trabalha junto com o Kudrow. Vou falar com a Bonnie a respeito... Tenho certeza que vai dar certo. Você vem comigo, Remo?
- Vou. Aliás, Annie, será que você consegue um pouco de poção mata-cão lá no hospital?
- Hoje é noite de lua cheia, né? - ela tinha um pouco de pesar no olhar. - Acho que tenho. Não faz muito tempo recebemos um bruxo que tinha acabado de ser mordido por um lobo. Compraram um grande estoque dessa poção por causa dele. Bem, tchau para vocês dois, então. E juízo, Fletcher. - Annie deu uma piscadela e desaparatou do quarto. Remo sumiu em seguida.
- Que sina, hein? - Fletcher ergueu as sobrancelhas e começou a levantar da cama.
- Ei, onde você pensa que vai? Pode ficar deitadinho aí. A Preston não te deu alta. Além disso, você tem que me contar uma história direito...
- Ué, não era sobre a Bonnie? Ela perguntou do Remo... E bem, desde a escola que tem aqueles boatos de que ela gostava dele. Bom, ela não casou até hoje, e, vou te contar, tá um mulherão... Se o Lupin deixar passar, juro que eu não desperdiço a oportunidade. Nem parece a garota alta e magricela da escola.
- Acho que seria bom pro Remo arranjar uma namorada, ainda mais alguém como a Bonnie, que já conhece o segredo dele e não vê nada demais nisso. Mas não é disso que eu tava falando, Mund.
- Então era do quê?
- Da sua conversa de ontem...
- Black, eu juro que não lembro de nada do que falei ontem... Nem lembrava desse negócio da Bonnie... Se a Aninha não tivesse falado...
- Você estava falando sobre algo ser bom para mim...
- Bom para você? Não faço idéia...
- De uma trouxa...
- Ah, a trouxa... - Fletcher deu um sorriso de escárnio. - Não se faça de desentendido, Black. A sua aluna tava toda derretida.
- Você tava falando da Terry? Imagina! Ela nunca... - e então Sirius parou de falar, analisando as palavras de Fletcher.
Conhecera Teresa Bright dois anos antes de ser preso. A aluna de Física da Trinity conseguira enganar a segurança do Observatório Radcliffe e entrar no prédio. A entrada de trouxas fora proibida alguns anos antes, quando o governo trouxa vendeu o observatório para o Ministério da Magia. Assim, a jovem que então tinha volumosos cabelos louros e olhos grandes e curiosos entrou numa sala deserta do prédio, onde, um pouco mais tarde, perderia a voz ao ver um homem alto e bonito surgir do nada.
A vontade imediata de Sirius naquele primeiro encontro fora de apagar a memória da garota, mas até hoje ele não sabia dizer por que não o fizera. Ao contrário, ele passou a receber a garota freqüentemente, e a se surpreender com o interesse dela pela Astronomia bruxa. Talvez fosse a compreensão do quanto era difícil para alguém apaixonado pelo céu não poder observá-lo mais atentamente que o levou a ensinar tudo o que sabia para aquela estudante trouxa, que devorava cada palavra que ele dizia.
Mas daí a imaginar que ela podia ter algum interesse por ele que não fosse a astronomia? Ainda mais agora... Sirius tinha consciência das marcas que Azkaban tinha lhe deixado e essas feridas jamais iriam se cicatrizar...
- Há quanto tempo você está sem uma mulher, Black?
- Como? - Sirius despertou do transe.
- Quero dizer... Você vivia rodeado de garotas antes de... antes desse mal-entendido todo - Fletcher achara melhor evitar o nome da prisão. Se os dementadores fossem tão terríveis como todos diziam que eram, Sirius devia ter deixado a própria alma em Azkaban. - Você sabia muito bem identificar o tipo de sinal que a sua amiga estava emitindo ontem.
Sirius não respondeu. Será que ele tinha esquecido de quem era? Depois de dois anos fugindo, não lhe sobrara tempo para pensar em relacionamentos amorosos. Tampouco lhe importava se havia mulheres interessadas nele ou não. Seu único objetivo vinha sendo achar Rabicho e cuidar de Harry. Ao menos até rever Helen. De súbito ele entendeu de onde vinha todo o ódio que sentia por ela ultimamente. Ela despertara nele uma preocupação inútil quando sua vida não lhe permitia pensar em nada além da sobrevivência. A consciência disso fez a raiva crescer ainda mais dentro de Sirius.
- Black? Você está bem, chapa? Cê tá mais branco que fantasma! - Fletcher estava de pé, ao lado da poltrona onde Sirius estava sentado. O fugitivo passou mais alguns segundos fitando o nada quando finalmente resolveu responder ao amigo:
- Você acha mesmo que ela estava interessada em mim? Acho que estou fora de forma nesses assuntos - ele deu a costumeira risada marota. - Mas eu consigo recuperar esses 14 anos de atraso, não acha?
- Esse é o Black que eu conheço! - Fletcher sorriu para o amigo. - Que tal uma cervejinha amanteigada para comemorar?
- Sem chances, meu velho! Pode ir voltando para cama. A Preston disse que você precisa de pelo menos mais uma hora de repouso. E não acredito que ela ache que você já pode beber depois disso...
- Alguém já disse que você é um estraga-prazeres? - Mundungus resmungou, enquanto voltava a se enfiar debaixo dos lençóis.
* * *
Carol foi a primeira a chegar naquela noite. Pensou que isso era bom, pois Sirius adorava dizer que ela sempre chegava atrasada, não importava se devia ter chegado um minuto ou uma hora antes. Ela começou a recolher instintivamente os papéis espalhados pelo chão, largando todos logo em seguida. Se arrumasse aquela bagunça e algo sumisse, com certeza colocariam a culpa nela.
Ela se lembrava que Sirius sempre fora um tanto detalhista com tudo que envolvia Astronomia, mas raramente tinha achado tão penoso trabalhar com ele como agora. Provavelmente a culpa não era dele. O que Sirius Black tinha a ver com os últimos acontecimentos em sua vida? Nada. Mas ainda que soubesse que ele não era responsável pela tristeza que a consumia havia pouco mais de duas semanas, seu coração se apertava ao ver a insensibilidade com que ele a tratava. Talvez essa fosse mais uma das conseqüências da longa estadia em Azkaban.
Procurou um espaço livre na mesa circular e depositou o livro que trazia junto ao corpo sobre ela, abrindo com cuidado para que as folhas já velhas e amareladas não se soltassem. Colocaria um feitiço recuperador nele tão logo falasse coma dona. Era melhor pedir a autorização de Helen antes de aplicar magia nos pertences dela; a garota se irritava com qualquer coisa...
Garota? Helen com certeza não era mais uma garota. Mas Carol não conseguia imaginá-la de outro jeito. Sempre o cabelo curto, cortado reto na altura do ombro, e a franja espessa quase cobrindo-lhe os olhos escuros. O corpo franzino dava a impressão que a garota poderia se quebrar a qualquer instante, e, no entanto, ela era mais forte do que aparentava. Como estaria Helen Silver agora, mãe de dois filhos? Provavelmente teria engordado, mas a altura continuaria a mesma. Seu filho era sua cara e soubera que ela também tinha uma garota. Seria uma cópia da mãe?
Ela não pôde deixar de pensar em como seria seu filho hoje. Se sua gravidez não tivesse sido interrompida, ele estaria com 17 anos... Teria tido um garoto ou uma garota? Maldito Mundungus. Além de estragar a própria vida, tinha que estragar a dela também?
PLOC!
- Sirius?! - Carol se assustou com a chegada do astrônomo, tão distraída que estava com seus próprios pensamentos.
- E quem mais? - ele respondeu secamente, enquanto se dirigia à mesa em que ela estava para buscar alguns mapas e começar a trabalhar.
- Cadê o Fletcher? - ela perguntou sem olhar para ele, folheando o livro que tinha pego emprestado na noite anterior.
- Indisposto - ele sentou-se e apoiou o cotovelo na mesa redonda, desistindo subitamente de iniciar o trabalho.
- O que foi dessa vez? Bebedeira? - ela deu um suspiro de lamento e fechou o livro a sua frente, apoiando o queixo sobre as duas mãos.
- Você o conhece melhor do que ninguém, não é?
Os dois adultos conversavam sem trocarem olhares. Parecia que todas aquelas palavras eram fortes demais para que pudessem se encarar e continuar a dizê-las.
- Deus quisesse que eu não o conhecesse como conheço, Sirius.
- Você sabe que ele ainda não te esqueceu, não é? - Black mordeu o lábio inferior nervosamente.
Ela não respondeu, apenas deixou as pálpebras se fecharem e respirou fundo. Sirius continuou assim mesmo:
- Eu não sei o que ele fez para que você o odeie tanto, mas...
Ela o interrompeu:
- Eu não o odeio, Sirius. É preciso amar alguém para odiar. Tudo o que eu tenho pelo Fletcher é desprezo.
- Acho que sei como você se sente...
- Talvez... - Carol murmurou e finalmente pousou os olhos em Sirius: - ... mas eu achei que você ainda gostasse dela.
Foi a vez de Sirius se calar por alguns instantes antes de responder:
- Isso não faria diferença...
- Faria... Eu gostei muito do Fletcher antes de ele causar a maior dor que já tive na vida. Se eu ainda tivesse um mínimo de amor por ele, perdoar poderia ter sido mais fácil. Se você ainda gostar um pouquinho dela, também vai perdoá-la...
- Carol, você está mesmo interessada no Rasputin?
O rosto dela, que até então expressava dor, contorceu-se numa feia careta de raiva.
- Eu não sei de onde vocês tiraram essa idéia ridícula! Já disse que não! - ela virou o rosto para o outro lado, onde podia ver a lareira que aquecia a sala naquelas noites de outono.
- Não fique brava... - ele coçou a cabeça ligeiramente, pensando numa forma de dizer o que queria de maneira sutil. - Bem, eu não queria ofender ou insinuar nada... É que... Bem, você falou sobre perdoá-la... De que adiantaria perdoá-la? Esta história acabou há muito tempo... Toda vez que penso nela é com raiva...
- Ou com ódio? - ela voltou a encarar o amigo, que desta vez sustentou o olhar.
- É como eu disse, Carol. Não faz diferença. Ela encerrou a história por nós dois 14 anos atrás.
- E no entanto você tinha esperanças de que eu pudesse vir a separá-la do marido e então ela estaria livre outra vez... - Carol retorquiu com amargura na voz.
- Não, lógico que não - Sirius se indignou. - Sabe, eu... Eu gosto dele - ele parecia extremamente desapontado com isso. - Dmítri às vezes me lembra Tiago...
- Dmítri me lembra você... Um pouco menos mal-educado, é verdade. - Carol debochou. Já estava cansada do clima de velório que pairava naquela sala.
- Bem, então agora eu posso ter certeza que você não está interessada nele. Você jamais ficaria com alguém como eu... - ele retrucou com um sorriso nos lábios.
- Ora, Sirius, parece até que você já se esqueceu que nós fomos namorados...
Ele riu:
- Achei que você estivesse tentando me convencer de que não estava interessada em homens comprometidos...
- Eu não tenho que te convencer de nada - ela retomou a expressão séria. - Acontece que, além de você, ele me lembra uma outra pessoa. Principalmente pelo modo como fala dos filhos...
Ela baixou a cabeça, deixando que os olhos encontrassem as letras desbotadas do livro de capa vinho que tinha a sua frente.
- Falando nos filhos... - ela começou a rir sozinha, fazendo com que Sirius franzisse as sobrancelhas em sinal de estranhamento. - Yuri mandou um recado para você. Disse para você procurá-lo urgentemente pois precisa ter uma conversa de "homem para homem".
- Crianças! - Sirius riu descontraidamente. - Ele é a cara dela, você não acha?
- E o gênio também! E agora, que tal trabalharmos? O Lupin não vem?
- Lua cheia! - ele ergueu as sobrancelhas ao responder.
- Tinha me esquecido... De qualquer forma eu adiantei uma parte do trabalho em casa, acho que você já pode começar com isso: - ela disse entregando alguns rolos de pergaminhos enrolados caprichosamente.
Sirius abriu-os e olhou um a um atentamente, conferindo cada número.
- Carol... - ele chamou a numeróloga fazendo uma careta para o pergaminho aberto a sua frente.
- Que foi que eu fiz de errado agora? - Carol tinha certeza que Sirius já tina sido gentil demais por uma noite.
- Nada! - ele olhou surpreso para ela:- Eu só queria dizer que acho você uma excelente profissional. Ninguém poderia fazer esse trabalho melhor...
- Como? - ela não acreditou no que estava ouvindo.
- Você sabe que eu implico com você de brincadeirinha, não é?
- De brincadeirinha? Sirius! Você arma verdadeiros escândalos por causa de um número em cem que eu erro... Quer dizer, que você ACHA que eu erro, porque todas as vezes você me obriga a refazer todos os cálculos para chegar ao mesmo número.
- Ah, você sabe que eu sou perfeccionista! - ele deu um sorriso e se levantou, caminhando até onde a colega de trabalho estava sentada. - É o livro dela?
- É sim. O garoto não levou nem dez minutos para achar.
- Acho que já sei por que ele quer conversar comigo...
Os dedos de Sirius folhearam rapidamente o livro gasto e empoeirado, chegando rapidamente a contracapa, onde estava escrito numa letra bastante irregular:
Baixinha,
Eu posso até concordar que você se parece um pouco com a Morgana... Pelo que entendi vocês duas tinham essa deficiência de altura... hehehe. Mas quanto a esse negócio de eu parecer com o Lancelote. Ah, tenha dó, gatinha! No dia que eu for mané igual a ele... Ok, ok, eu já FUI assim. Mas não sou mais. Além isso, nessa história Lancelote não fica com a Morgana e eu não tenho a menor intenção de me separar de você.
Aliás, que tal uma aulinha de Astronomia essa noite? Te espero no horário de sempre.
Beijos
Sirius
A data em que o bilhete havia sido escrito vinha logo abaixo da assinatura.
- Eu não queria estar na sua pele. Explicar para um garotinho de nove anos que você chamava a mãe dele de baixinha...
Sirius riu:
- É, acho bom começarmos a trabalhar mesmo, por que pelo visto o meu dia amanhã vai ser dureza... - e Sirius levantou-se carregando alguns pergaminhos para junto do maior telescópio da sala.
Carol não conseguiu se lembrar qual fora a última vez em que apreciara tanto a companhia de Black.
