Capítulo 5 – O Jornal
O fato ainda não acabou de acontecer
e já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensangüentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.
Carlos Drummond de Andrade
- Eu não acredito que você não gostou, Mione! - Rony parecia realmente indignado com a amiga. - Foi a melhor idéia que um professor de DCAT já teve!!
- Lockhart teve essa mesma idéia três anos atrás... - ela disse num muxoxo.
Foi a vez de Harry defender a nova professora:
- Mione, seja razoável! Lockhart não poderia tomar conta nem de si mesmo, quanto mais de centenas de alunos num Clube de Duelos.
- Eu não sou contra a idéia do Clube de Duelos, Harry - a menina parou de súbito, deixando que os dois garotos avançassem alguns passos e depois voltassem para onde ela estava. - Só acho que deveríamos ter um embasamento teórico maior antes de sairmos enfrentando alunos do sétimo ano, por exemplo. Com exceção do Lupin, nossos professores foram todos uns fiascos...
- Eu gostava das aulas do Moody... - Rony franziu as sobrancelhas. - Quer dizer... do Crouch... Não, do filho dele. Ah, deixa para lá... - ele deu um tapa no ar, confuso. - E de qualquer forma, o Harry tem tanto embasamento teórico quanto a gente e ele...
- O Harry é o Harry - Hermione foi taxativa.
- Como assim "o Harry é o Harry"? - o garoto da cicatriz pousou os olhos verdes irritados na colega, que desviou o rosto e começou a mexer na mochila, procurando alguma coisa.
- O que eu quis dizer, é que você... Ah, Harry... - ela olhou-o nos olhos. - Você conseguiu acabar com Voldemort quando ainda era um bebê... E aquela não foi a única vez. Desde que chegou a Hogwarts você tem provado a todo mundo que...
- Que... - ele ficou esperando a garota concluir, um ar gélido tomando conta de sua face. Ele parecia tão distante e impessoal quanto Draco Malfoy.
- Que você não precisa de aulas de duelo - Rony completou pela amiga, tentando encerrar aquela conversa. A cara de Harry não era nada boa. - Vamos?
- Eu não disse isso.
Hermione pegou a mão direita de Harry, seu rosto se contorcendo num misto de dúvida e apreensão. Por fim, ela voltou a encarar o amigo:
- Harry, você tem instinto. É... bem... é como se você não precisasse pegar um livro sequer, como se não precisassem lhe ensinar o que fazer. Você sabe exatamente como agir na frente do perigo. Harry, você voltou vivo de um encontro com V-Voldemort. - Rony sentiu um arrepio correr a espinha ao ouvir o nome do bruxo. - E não foi com o fantasma dele, como da primeira vez. Você sobreviveu a um V-Voldemort recuperado, na plenitude de suas forças!
- Foi o que eu disse! Ele não precisa do Clube de Duelos! - Rony manteve sua posição, fazendo Hermione soltar um suspiro de impaciência.
A garota largou a mão de Harry e voltou a fechar a mochila, que tinha aberto por puro nervosismo. Harry estava anormalmente quieto e frio, e não dissera uma única palavra depois que os melhores amigos se pronunciaram. Rony resolveu observar um dos quadros daquele corredor, olhando para Harry de soslaio repetidas vezes. Hermione ficou a contemplar os sapatos, esperando que um deles resolvesse continuar o caminho até a Torre da Grifinória. Mas ninguém se moveu.
- Vocês dois estão errados. - Harry disse após longos minutos de silêncio.
Rony e Hermione se entreolharam, com medo que o amigo tivesse se ofendido. Ambos já tinham conversado sobre aquele assunto muitas vezes, mas nunca tinham dito a Harry o que pensavam de toda a "sorte" que ele costumava ter em seus confrontos com a morte. Assim, nenhum deles encontrou qualquer palavra para responder ao amigo.
- Quero dizer... Não a respeito do instinto... - e Harry pareceu um pouco confuso. - Eu realmente costumo ter muita sorte...
- Não é sorte, Harry! - Rony deixou de fingir que conversava com as três damas gordas de um quadro do século XVI. - Você não poderia ser salvo pela sorte tantas vezes!
- Rony está certo, Harry... - as sobrancelhas do ruivinho subiram, e um certo rubor coloriu suas faces. Hermione estava concordando com ele?
- Tá, não vou discutir isso com vocês. Não agora. Mas isso não quer dizer que eu não precise aprender, Hermione! Quantas vezes você mesma não me ensinou um novo tipo de azaração? Ou todas as aulas particulares que tive com o professor Lupin para conseguir conjurar um Patrono.
- É isso que você não entende, Harry! - a menina retorquiu, inconformada. - Eu poderia passar tardes e tardes com o nariz enfiado nos livros, tentando de todas as formas aprender a conjurar um patrono, que eu não conseguiria fazer isso aos treze anos de idade.
- Quer saber de uma coisa? Tanto faz. Na verdade eu gostei dessa idéia de Clube de Duelos por um outro motivo - e ele deu um sorriso de escárnio, olhando para Rony.
- Ah, não, eu tive essa idéia primeiro! - o ruivinho protestou.
- Do que vocês estão falando? - a menina olhou de um para o outro, sem entender.
- Malfoy está me devendo uma revanche, Mione - Harry piscou. - Nosso último duelo foi encerrado pelo Snape, lembra?
- Oh... - e então ela também começou a dar risada.
- E ele ainda tem que dar um troco por conta daquelas lesmas estúpidas! - Rony arremedou enfezado, lembrando-se de um episódio absolutamente intragável do segundo ano.
Num clima muito mais descontraído os três recomeçaram a andar, discutindo quem gostariam de enfrentar na sexta-feira, quando teriam a primeira aula de Duelos. Apenas alunos do quarto ano em diante teriam autorização para participar, sendo que, no caso dos alunos dos dois últimos anos, a presença era obrigatória. Os quarto e quinto-anistas poderiam escolher entre fazer uma pesquisa teórica ou participar do grupo, e, apesar de todos os protestos de Mione a respeito de uma aula exclusivamente prática, ela também havia preferido duelar a escrever um rolo de pergaminho por semana. Na verdade, Harry e Rony sabiam que ela faria as duas coisas.
Quando estavam a alguns poucos corredores do retrato da mulher gorda, Rony mudou de assunto bruscamente:
- Harry, por que você não aprende a aparatar? - Rony sugeriu com ar pensativo.
- Eu... - Harry ia começar a responder quando Hermione o interrompeu:
- Quê? Nós não podemos aparatar antes de atingirmos a maioridade, Rony!
- Como você mesma disse algum tempinho atrás, até mesmo bruxos adultos têm dificuldade em conjurar o Patrono. Se Harry consegue, não vejo por que não poderia aparatar. Fred e Jorge fazem isso a todo instante agora que conseguiram a licença.
- Harry ainda não tem 17 anos! Isso é ilegal, Ronald Weasley!
- Hermione, ninguém vai parar para pensar se isso é ilegal quando o Harry precisar desaparatar de um lugar em que ele estiver preso, ou quando Você-Sabe-Quem estiver prestes a jogar um Avada Kedavra nele...
- Rony, regras existem para serem cumpridas. E Harry provavelmente nunca vai precisar disso.
- Regras existem para serem quebradas, Mione! Se você tivesse crescido com Fred e Jorge não teria a menor dúvida a esse respeito. Além do mais, como você pode prever que Harry não vai precisar disso?
- Porque ele está protegido em Hogwarts. Enquanto Dumbledore estiver aqui, nada vai acontecer...
- Mas já aconteceu!!
- Não com Dumbledore aqui...
- Ele estava no torneio tribruxo! E se Harry soubesse aparatar naquela ocasião...
- Cedrico sabia aparatar e mesmo assim não adiantou nada! Como você sabe que Voldemort não iria colocar uma proteção anti-aparatagem no esconderijo dele?
- É lógico que ele não vai fazer isso, Mione! Senão como os Comensais deles iriam encontrá-lo?
- Pirlimpimpim - Harry disse a senha à mulher gorda que olhava pasmada para a discussão dos dois monitores, os altos berros ecoando pelos corredores que davam na casa vermelha e dourada.
O garoto entrou sem olhar para trás. Não estava bravo com os amigos. Na verdade exibia um sorriso sincero no rosto. Será que Hermione estava certa? Ele podia realmente contar com seu instinto? Então uma vozinha murmurou dentro de sua cabeça: "Não basta ter instinto, Harry, é preciso controlá-lo".
* * *
- Ei!
Catharina não deu ouvidos à voz que a chamava. Não iria limpar um centímetro a mais daquela masmorra, nem que tivesse que cumprir detenção todos os finais de semana até o Natal. Por que os professores sempre faziam os alunos limparem tudo à moda trouxa quando a magia podia resolver esses problemas domésticos com muito mais facilidade? Além disso não gostava da maneira como aquele professor olhava para ela, como se a garota estivesse guardando algum segredo.
- Ei!
A voz estava mais próxima. Ela resolveu apertar o passo e virar no primeiro corredor. Se o professor a alcançasse, diria que não tinha escutado nada, que estava perdida em pensamentos.
- Caramba! Será que você é surda? - ela sentiu uma mão forte agarrá-la pelo braço.
Um garoto de cerca de 17 anos, cabelos cor de palha e muitas sardas no rosto olhava para ela com ar de impaciência. Reconheceu-o de imediato: o garoto que a puxara para longe do caldeirão antes que este explodisse. Cathy observou todo o corredor antes de responder:
- Achei que fosse o professor de Poções... Não estou nem um pouco afim de voltar àquelas masmorras hoje.
- Nem ele deve querer ver você tão cedo... Você deixou o velho Snape bastante irritado! Nunca vi ele punir um aluno da Sonserina.
Ela deu um sorriso, como se pudesse se vangloriar daquele feito.
- Então seu nome é Catharina Silver? - ele apoiou o queixo na mão fechada, olhando para ela de alto a baixo.
A medição que o rapaz fazia irritou-a. Quem ele pensava que era? Ela deu uma leve bufada de indignação e virou-se para continuar seu caminho. Ele segurou-a pelo braço:
- Onde você pensa que vai?
- Não é da sua conta! E me solte! - ela tentou se livrar do rapaz, sem sucesso.
- Eu quero conversar com você - ele disse sério.
- Pois eu acho que nós dois não temos nada para conversar - ela respondeu, finalmente livrando o braço fino e magro da mão forte do rapaz.
- Que foi que eu te fiz?
Ela não respondeu. Apenas apertou o passo ainda mais, sem saber direito para onde ir. Não podia ir para a Sonserina, pois ele também era aluno de lá. Precisava pensar num lugar onde ele não poderia entrar. Foi então que avistou um dos banheiros femininos e entrou sem hesitar.
Estava deserto. Cathy jogou a mochila num canto e foi até uma das pias que pingavam sem parar, provocando um ruído irritante naquele cômodo do castelo. Abriu a torneira e deixou a água vazar; em seguida, juntou as mãos em forma de concha e levou o líquido gelado até o rosto. A franja que caía-lhe nos olhos ficara empapada e grudada na testa. Ela puxou o cabelo em todas as direções, jogou a franja para trás, deixando a testa livre, mas nada parecia agradar a menina que, por fim, fechou os olhos e deixou os dedos deslizarem pelos fios castanhos e desalinhados.
"Era tudo o que eu precisava!", ela forçou um pouco a mão esquerda. O anel de pedra grande e escura que usava no dedo médio enganchara numa mecha de cabelo. Fio a fio ela foi desenroscando o nó que se fizera junto à bijuteria, maldizendo o dia em que ganhara aquele presente.
Duas pequenas lágrimas de dor escorreram-lhe pela face quando ela perdeu a paciência e arrancou uma fina mecha de cabelos junto com o anel. Ao menos meia hora se passara. Já podia deixar o banheiro feminino e vagar pelo castelo até o horário da próxima aula. Não tinha fome. Ou talvez estivesse com medo de encarar o Salão Principal... Medo? A garota birrenta que conquistara inimizades já no seu primeiro dia em Hogwarts tinha medo de alguma coisa?
Ela passou a mão na mochila, constatando que o fundo estava molhado. "Droga!", pensou que os livros e pergaminhos deviam estar molhados também. Mas não havia nada que pudesse fazer agora a não ser sair dali.
- Você demorou, hein?
Cathy estacou, perplexa, sem precisar olhar para trás para ter certeza de que o colega de casa que a abordara há pouco estava parado ao lado da entrada do banheiro feminino.
- Você não desiste nunca? - ela continuava de costas para ele, a mochila pingando pendurada no ombro direito.
- Posso dizer que persistência é uma das minhas maiores qualidades! - ele disse irônico.
- Curioso! Então você deveria estar na Lufa-lufa, não é? - ela retorquiu e saiu andando rápido novamente.
- Ótima piada! - Cathy teria visto um sorriso forçado no rosto do rapaz, caso se dignasse a olhar para ele. - Você quer fazer o favor de parar e me escutar? Eu tenho uma proposta a fazer!
- Muito bem - ela parou de repente e se virou, encarando-o: - Fale.
Um tanto surpreso com seu poder de persuasão, ele ficou bobo ainda alguns instantes, e então começou a falar:
- Meu nome é Terêncio Higgs. Estou querendo falar com você desde o dia da seleção, mas esta tarefa parece quase impossível...
- Não enrola - ela olhou para os próprios sapatos e entortou a boca, impaciente.
- Certo. Eu quero ajuda para acabar com o Malfoy.
- Quê? - ela arregalou os olhos, aturdida.
- Deu para perceber que você não vai com cara dele. Pois eu também não. E, bem, acho que nós poderíamos trabalhar juntos para dar um fim na prepotência dele.
- Nós dois? Trabalharmos juntos? O Malfoy é aquele loirinho azedo que se acha o dono da escola, certo?
- Melhor definição impossível.
- A troco de quê? - ela avançou até o garoto, que parecia confuso com a pergunta.
- Como assim? Eu já disse: para dar um fim naquela arrogância toda.
- A arrogância dele não me incomoda - ela virou-se novamente, disposta a tomar o rumo de um lugar qualquer e deixar aquele tonto falando com as paredes.
- Peraí. Eu acho que não tô ouvindo direito... Como assim não incomoda? Você bateu boca com ele apenas uma hora depois de chegar a Hogwarts!
- Eu não gosto que ninguém se meta na minha vida, não importa se a pessoa é delicada ou não nessa tarefa... Você mesmo está sendo petulante o bastante para me deixar irritada! - ela parou após dar apenas três passos e ficou muda.
- Mas eu... Eu achei...
- Por que é que você não gosta dele? - ela perguntou de súbito: - Pelo que eu pude perceber ele tem um grande fã-clube na nossa casa...
- Puxa-sacos! Só porque o pai dele é rico! - ele respondeu amargo. - E a minha rixa com o Malfoy se deve justamente a isso. Ele comprou a vaga que era minha no time de quadribol.
- Agora isso está ficando interessante - ela deu um sorriso sarcástico. - Como é mesmo o seu nome?
- Higgs - ele sorriu satisfeito. Tinha certeza de que ela iria lhe ajudar. - Terêncio Higgs.
- Catharina Silver - ela ofereceu a mão direita. - Mas eu prefiro que me chame de Silver... Ou de Cathy - ela emendou olhando com cuidado para o rosto dele. - Raio de nome que meu pai foi escolher...
- O meu também não é lá muito "imponente" - ele apertou a mão da garota e mordeu os lábios com ar maroto, fitando-a sem piscar, como se estivesse à frente de um hipogrifo. Os olhos de Cathy exibiam a mesma ferocidade da criatura.
- Ao menos não te deram o nome da megera domada... - ela murmurou.
- Como?
- Nada. Sabe, me deu uma fome... A gente pode conversar melhor durante o almoço, não acha?
Finalmente tinha perdido o medo: conquistara seu primeiro aliado.
* * *
- Vejo vocês na aula daqui a pouco. Preciso ir urgentemente à biblioteca!
- E quando é que não tem que ir urgentemente a biblioteca, Hermione? - Rony fez pouco.
A garota respondeu com um sorriso de desdém. Então, Hermione se levantou, puxando o guardanapo de tecido de cima da mesa e pressionando ao redor da boca rapidamente. Em poucos segundos já tinha alcançado a saída do Salão Principal, deixando Harry e Rony para trás.
Estava tão habituada a fazer aquele caminho desde que chegara a Hogwarts, que normalmente nem prestava atenção a agitação dos corredores do castelo, com alunos de todas as idades zanzando para lá e para cá. Dessa vez não era diferente. Ia passando tranqüilamente em frente à gárgula que escondia a entrada para o escritório de Dumbledore, quando tropeçou. Ralara o joelho e, provavelmente, logo estaria exibindo um hematoma no cotovelo.
- Droga!
- De-desculpe...
Uma vozinha fraca e chorosa surpreendeu Hermione. A monitora da Grifinória não tinha se dado conta de que não tinha tropeçado em algo, mas em alguém. Ela olhou para a menina com trajes da Corvinal, seus olhos estavam vermelhos e inchados.
- Não foi nada. Aconteceu alguma coisa com você? - Hermione perguntou rápido, esquecendo-se da ardência no joelho.
- N-não.
- Pode me dizer. Eu sou monitora, veja. - ela puxou a veste para evidenciar o broche dourado onde a letra M estava estampada.
- Eu-eu precisava falar com o diretor.
Hermione olhou para a gárgula. Apenas os monitores-chefes tinham a senha da sala de Dumbledore. E além disso, apenas casos realmente urgentes poderiam incomodar o diretor em tempos sombrios como aqueles.
- Eu não posso chamar o diretor, mas, como ia lhe dizendo, eu sou monitora. Talvez eu mesma possa resolver seu problema. Algum garoto da sua casa andou lhe chateando?
- Não. Eu precisava falar com o diretor mesmo. Tudo bem. Eu tento mais tarde...
A menina que estava sentada no chão junto à gárgula levantou-se e, tentando segurar novas lágrimas, começou a fazer seu caminho para qualquer lugar. Hermione notou que a varinha caíra de seu bolso:
- Ei, você está esquecendo - ela deu uma pequena corrida até a garotinha.
- Eu não preciso disso - ela olhou para o objeto que a monitora lhe estendia, sem fazer menção de pegá-lo. Lágrimas voltaram a rolar sobre a rosto banco como neve.
- Mas é lógico que precisa - Hermione deu um sorriso de admiração . Ninguém consegue fazer mágicas bem feitas sem uma varinha. Tome!
- Eu não consigo fazer mágicas bem feitas nem COM ela, nem SEM ela.
- Como assim não consegue fazer mágicas? Você está no primeiro ano, não é? - a monitora deduziu pela aparência da garota. - Escute, a maioria dos alunos nãos e sai muito bem nos primeiros feitiços. Mas se você estudar e se esforçar...
- Você não entende... Foi um engano! Eu não devia estar aqui. - a garotinha retrucou desesperada e saiu caminhando outra vez. Já tinha ouvido aquela mesma ladainha aquela amanhã de uma menina de seu dormitório e de um garoto que conhecera na aula de feitiços. Nenhum deles entendia.
- Pois eu tenho certeza de que você está no lugar certo. - Hermione disse numa voz segura e otimista, que fez a garota parar de caminhar.
- E eu posso saber como você pode ter certeza?
- Eu vou fazer melhor... Venha comigo. Eu vou lhe mostrar porque você é uma bruxa. - e ofereceu a mão direita à menina. - Qual é seu nome?
- Lyra... Lyra Rasputin.
* * *
- Tenho certeza que está por aqui... - Hermione remexia todos os livros numa das estantes da biblioteca. Estava atrás de um exemplar de Hogwarts, uma História. - Se eu não achar, vou buscar o meu exemplar no meu dormitório...
Lyra fitava desconfiada os volumes da segunda prateleira da estante de História da Magia. Puxou um dos livros intitulado O Universo das Fadas e viu salpicarem pequenas estrelas em torno das letras cor-de-rosa que enfeitava a capa. Era um exemplar grosso e antigo, porém ela pôde perceber que ele não tinha o mesmo cheiro de mofo da maioria dos outros livros. Ao contrário, parecia exalar perfume de rosas, por isso decidiu abri-lo.
Fechou rapidamente ao perceber minúsculas borboletas coloridas fugirem em revoada para perto das mesas de estudo. Hermione sequer percebeu o movimento, continuando sua busca. Lyra devolveu o livro para a prateleira e resolveu não mexer em mais nada. Podia apenas observá-los, ler os títulos impressos em letras grandes nas laterais. Isso bastava.
Já devia ter passado os olhos umas três vezes sobre A Revolução dos Duendes - parte I quando resolveu se sentar. Lyra achou Hermione parecia decidida a encontrar um livro invisível, tal a demora da garota. Resolveu sentar-se no chão mesmo, enquanto a monitora revirava o sexta prateleira com o auxílio de uma escada. Então deu com os olhos num livro que lhe parecia conhecido, ente os volumes da primeira prateleira. A mesma capa bordô, as mesmas letras douradas, o mesmo título. Tinha certeza absoluta de que já tinha visto aquele livro em sua casa, em meio aos livros de História da Arte que a mãe guardava com todo o cuidado. Mas o que aquele livro estava fazendo ali?
- Srta. Granger? - ela chamou a monitora.
- Não, definitivamente não está nessa prateleira... Vou falar com Madame Pince. Alguém deve ter retirado para fazer uma consulta na biblioteca e não devolveu ao lugar correto...
- Srta. Granger, você conhece esse livro? - Lyra puxou o grosso volume de capa dura e suja, mostrando-o à aluna da Grifinória.
- O Manifesto de Morgana? Conheço, sim. Li no terceiro ano. E li também a versão trouxa, que foi um pouco distorcida e adaptada para não assustar os trouxas. - ela comentou.
- Ah, então tem uma versão trouxa?
- Tem, mas leva outro nome...
- Outro nome? Você tem certeza? - a corvinal olhou atentamente para a capa do livro. A edição que tinham em casa era absolutamente igual.
- Tenho. Mas ambos tem histórias interessantes. E a versão trouxa é a primeira a mostrar a Morgana sem a concepção de que as feiticeiras são más fora do mundo mágico...
- Morgana? Feiticeira? Ela não era uma bailarina?
- Bailarina? De onde você tirou isso? - Hermione arregalou os olhos. - Achei que você tivesse lido o livro...
- Não. Minha mãe tem esse livro... Mas eu sempre achei que fosse algum método de dança. Ela tem vários!
- Eu pensei que você fosse nascida trouxa! Se sua mãe tem um livro desses, ela deve ser uma bruxa...
- Hum... é... sim e não - Lyra hesitou. - Parece que minha mãe é bruxa sim mas, bem, ela não faz mágicas.
- É bruxa e não faz mágicas? Por quê?
- Ah, eu não sei muito bem... Só me contaram isso esse ano. Minha avó até me deu um diário encantado...
- Então você vem de uma família de bruxos! E não sabia que era bruxa?
- N-não... - ela deu de ombros, subitamente detestando aquela conversa.
- Curioso! A única pessoa que conheço com quem aconteceu a mesma coisa é o Harry.
Agora Lyra tinha certeza de que estava detestando a conversa.
- Escuta, eu... eu... eu vou embora... - e começou a andar, carregando o livro junto ao peito.
- Ah, você pode ir sim, mas tem que registrar o livro primeiro! - Hermione riu do atrapalhamento da menina. Não tinha percebido o quanto Lyra estava desconfortável e, batendo os olhos na prateleira em frente: - Eu sabia que alguém tinha guardado no lugar errado... - ela puxou um volume de Hogwarts, uma História. - Leve esse também. E se quiser conversar, estou às ordens...
Lyra olhou para os dois livros pesados que tinha nos braços agora e então voltou a fitar a monitora:
- Você sempre soube que era bruxa?
- Descobri três meses antes de vir para cá. Meus pais são trouxas.
- Sério? E você... você conseguiu fazer tudo certo?
Mione resolveu mentir. Era por uma boa causa:
- Não. Ninguém consegue. Nem quem cresce numa família bruxa. - ela pensou em Rony e Neville.
- Uma menina do meu dormitório consegue. Ela disse que o irmão dela ensinou algumas coisas para ela...
- Ela deve ter treinando bastante. Eu aposto que na primeira vez que sua amiga tentou usar uma varinha ela não acertou - Hermione lembrou de sua primeira tentativa, logo depois de voltar do Beco Diagonal com todo o material da nova escola. A única cosia que saíra da ponta de sua varinha foram fagulhas, mas logo em seguida ela descobrira que os livros podiam ensinar qualquer coisa que ela quisesse aprender.
Lyra anotou a dúvida em pensamento. Iria perguntar a Emily ainda naquela tarde.
- Ah, eu posso tentar falar com um dos monitores-chefes para agendar uma conversa com Dumbledore... - Hermione ofereceu.
A corvinal olhou bem para os livros em seus braços. Talvez não precisasse mais fala com o diretor.
- Não precisa... - e a menina caminhou até o balcão onde Madame Pince registrava os livros que entravam e saiam da biblioteca, deixando Hermione para trás com a sensação de dever cumprido.
* * *
Harry saiu apressado do treino de quadribol naquele fim de tarde de sexta-feira. Não só ele: Fred, Jorge, Angelina Johnson, Alicia Spinnet e Katie Bell - ou seja, o time todo - corriam em disparada para o castelo a fim de chegarem a tempo da primeira aula prática de Defesa Contra as Artes das Trevas. Ainda não tinham achado um substituto para Olívio Wood, mas Angelina, a nova capitã, achara bobagem desperdiçar um dia de treino por conta de um "mero detalhe".
- Não vai dar tempo de trocarmos as vestes - Katie olhava para a barra enlameada de seu uniforme. Tinham treinado rasantes à exaustão naquele dia.
- Eu, o que é que nós estamos fazendo? - Jorge parou de repente, enquanto o bando continuava a correr pelo gramado que separava o campo de treinamento do castelo.
- Indo para a aula? - Alícia começou a correr de costas e por pouco não torceu pé esquerdo, pisando em falso.
- Duh! Por que estamos indo a pé? - Jorge montou na vassoura e passou ventando ao lado de Angelina, que era a mais adiantada.
Os outro cinco pararam e olharam para as próprias vassouras, que até então eram carregadas por sobre os ombros dos jogadores. Fred foi o primeiro a rir, seguido pelos colegas de time.
- Ei, Harry, - gritou Jorge na metade do caminho - não quer apostar uma corrida? - o ruivo piscou.
- Se você não tem medo de uma Firebolt? - Harry retorquiu rindo e deu um impulso forte, inclinando a vassoura para frente.
Em poucos segundos tinham ultrapassado a velha Cleensweep de Jorge e esperava os outros cinco na entrada do castelo.
- Será que não dá tempo mesmo de trocar de roupa? - Katie examinou o uniforme mais uma vez pensando no passa fora da nova professora ao velos imundos daquele jeito. No mínimo perderiam cinco pontos cada um.
- Sem chances! - respondeu Alícia. - Cinco minutos para a aula...
- Bah, você não precisa se preocupar com isso, Katie! - Fred retrucou. - Diz que você achou que assim poderia afugentar o Filch! Ele quer distância de alunos sujos e mal-cheirosos... - ele arremedou batendo as mãos na capa logo no Saguão de Entrada, para tirar um pouco da poeira.
Harry passou a mão no rosto, lembrando-se subitamente de que em poucos minutos estaria cara-a-cara com Draco Malfoy. Arabella Figg dissera que queria duelos verossímeis e que, portanto, eles não deviam enfrentar os amigos durante as aulas. Inclusive, armara aquele grande clube de duelos englobando alunos de todas as casas para que os alunos pudessem ir a forra e praticar sem muita piedade. "Piedade não vai ajudá-los contra um bruxo das trevas, eu lhes asseguro", ela respondera diante dos rostos assustados dos alunos na primeira aula do ano.
O apanhador da Grifinória sabia que isso era verdade, mas isso não o impedia de pensar se haveria leitos suficientes na ala hospitalar após uma aula como aquela. A cara aterrorizada de Neville quando ouviu as idéias da professora de DCAT dera a Harry a nítida impressão de que ele seria o primeiro a precisar dos cuidados de Madame Pomfrey. Entretanto, o garoto de rosto redondo e rechonchudo já estava no Salão Principal quando o time de quadribol da Grifinória chegou lá.
- Harry, você vai duelar assim? - Hermione fitou-o de alto a baixo, reprovando as vestes sujas e encharcadas de suor do amigo.
- Ou eu vinha assim ou eu não vinha, Mione! - ele respondeu um pouco aborrecido com o comentário da monitora.
Um pequeno aglomerado de estudantes estava se formando em torno deles. Harry trazia a Firebolt sobre o ombro e aquela era uma das raras oportunidades de ver a melhor vassoura do mundo de perto.
- Gininha! O que você tá fazendo aqui? - Jorge deu conta da presença da irmã, ao lado de Hermione.
- Ué, isso é uma aula, não é? - ela estranhou a pergunta.
- Mas... - Fred completou a idéia do irmão: - Você pode se machucar!
- Eu disse a ela para não vir... - Rony, que estava com cara de enfezado e braços cruzados, resmungou sem olhar para os irmãos.
- Parem com essa besteira! Eu sei me virar muito bem sozinha - a caçula dos Weasley respondeu irritada. - A gente se fala mais tarde Hermione. - e a ruivinha deixou o grupo após lançar um olhar feroz para os três irmãos mais velhos.
Harry estava ainda um pouco espantado. Já vira Gina brava com os irmãos, mas normalmente seu rosto se contorcia mais numa expressão de choro do que de impaciência, como tinha acontecido no ano anterior, às vésperas do Baile de Inverno. Ele viu a ruivinha parar logo adiante e iniciar uma conversa sorridente com um garoto da Corvinal que ele não conhecia. E Rony parecia ter visto a mesma coisa, pois bufou raivoso e resmungou alguma coisa que ninguém entendeu.
Ver aquele grupinho com trajes de detalhes azul e branco lembrou a Harry outra coisa, ou melhor, outra pessoa. Durante toda a semana, vira Cho apenas duas ou três vezes, no horário de almoço. Mas ela devia aparecer no Salão Principal aquela noite. Ela definitivamente não parecia ser uma pessoa que fugia do perigo e, bem, se até Neville estava ali, não seria a apanhadora da Corvinal que deixaria de vir.
O salão estava lotado com alunos de todas as casas. Parecia que todos os estudantes do 4º ano em diante estavam ali. Ao menos curiosos todos estavam. Harry olhou para o lado e deu Parvati e Lilá dando trocando risinhos entre si. Não pode deixar de pensar como as garotas eram bobas... Ou quase todas, porque naquele momento ele viu a artilheira da Corvinal entrar, acompanhada por duas amigas.
- Harry! Harry! - Rony chamou-o, a cara de emburrado continuava. - Vamos para o lado de lá. Dino disse que a visão do palco é melhor.
- Vamos, vamos, sim. - ele deu uma última olhada para onde estava a corvinal e seus olhos encontraram os dela. Um sorriso e Harry teve a sensação de que nem mesmo Malfoy conseguiria arruinar seu dia.
* * *
- Lyra! Pelas barbas de Merlim, você ainda está estudando? - Emily Bott não acreditava ano que estava vendo. - Para quem queria deixar Hogwarts no primeiro dia de aula...
- Eu não estou estudando! - a outra se defendeu.
Lyra fechou o livro e engatinhou sobre a cama até alcançar uma posição em que conseguiria abrir sua arca sem grande dificuldade, jogando o volume pesado dentro dela. Emily se tornara sua melhor amiga após aquele turbuloso primeiro dia de aula, mas ainda assim conseguia irritá-la vez ou outra com sua mania de ser dona da verdade.
- É que não tem nada para fazer... Achei melhor ler um pouco, ver se pegava no sono...
- Você quer dormir às seis horas da tarde? - a desculpa não colara.
- Ok, você venceu. Eu estava tentando terminar o capítulo 60!
- Você já está no capítulo 60? - a garota sardenta abriu a boca, espantada.
- Já fechei! E nem vem falar de mim porque eu e o Ben vimos você devorar o iFeitiços para Mil e Uma Noites/i numa única tarde...
- Eram feitiços, Lyra! Você está estudando História da Magia! É a coisa mais chata que existe! - a outra retorquiu.
- Gosto é gosto... - ele deu um suspirinho de desdém.
A verdade era que Lyra ainda não tinha conseguida acertar um único feitiço que tentara fazer. Invariavelmente o objeto para o qual apontava a varinha começava a pegar fogo. A aula de Transfiguração conseguira ser ainda pior do que a de Feitiços - ela pusera fogo na carteira. Entretanto, Lyra descobrira que havia pelo menos duas coisas naquele mundo esquisito que, literalmente, a encantavam: História da Magia e as aulas de vôo. Fora uma das poucas pessoas a conseguir planar logo na primeira tentativa e, apesar de não ter tentado nenhum movimento mais brusco, sentiu-se confortável e confiante pairando no ar.
Quando comentara o acontecido com sua avó após o jantar daquele dia, Arabella Figg lhe dissera em tom carinhoso:
- Ora, querida, que eu saiba Lyra é uma constelação... E as constelações pertencem aos céus, não é verdade?
Também havia Astronomia que, se não era sua matéria favorita, ao menos era algo que desempenhava sem o menor embaraço. Estava acostumada a ver o céu pelas lentes de telescópios e lunetas desde que se conhecia por gente. Era uma das vantagens de ter um pai astrônomo, ainda que trouxa.
- Eu não vim aqui discutir a inutilidade de matérias como História da Magia - a outra respondeu com uma pitada de arrogância na voz. - É o seguinte, nós vamos assistir o Clube de Duelos! Você não quer vir junto? - Emily disse sentando-se sobre a arca de Lyra, olhando o reflexo da amiga no espelho.
- Como assim assistir ao Clube de Duelos? - Lyra franziu as sobrancelhas e endireitou a coluna. - Achei que alunos do terceiro ano para baixo estivessem proibidos de deixar a Sala Comunal esta noite...
- É... Nós estamos... Mas, bem, o Turpin conhece uma passagem secreta que dá no Salão. Ele acha que se nós...
- Vocês vão escondidos? Mas vocês podem ser expulsos!!!! - Lyra pôs a mão sobre a boca.
- Vou dizer ao Ben que você medou... Eu disse a ele que você não ia querer, mas ele achou que você gostaria de ver a tal garota da Sonserina que parece com sua mãe duelando.
Emily tocara no ponto fraco de Lyra. Desde que chegara Hogwarts, a garota prestava atenção numa certa aluna do sétimo ano que era absurdamente parecida com Helen Silver. Além disso, tinha o mesmo sobrenome que sua mãe usava quando era solteira. Aquilo não podia ser uma mera coincidência. A menina devia ser prima de Lyra. Ela sabia que tinha um tio, há muitos anos no hospital... Bem, talvez ele tivesse tido uma filha antes de ficar doente.
Lyra também sentia que a garoto sempre lhe dirigia olhares carinhosos, ainda que nunca tivesse lhe dito um 'oi' sequer. E isso parecia ser bastante raro, pois todas as vezes em que via a garota ela estava de cara feia para alguém, ou discutindo por alguma besteira.
- Eu vou. - Emily deu um sorriso vitorioso ante a resposta da colega de quarto. - Mas...
- Mas? - tinha que ter um mas.
- Mas onde é que nós vamos nos esconder? - ela indagou, levantando os ombros.
- Era o que eu ia te explicar antes de você me interromper com o seu medo bobo. Michael acha que os alunos dos terceiro ano podem se misturar ao alunos que vão estar duelando, pois na confusão ninguém vai percebê-los. Mas como nós ainda somos muito pequenos - e então a gordinha sardenta olhou para os próprios pés, se medindo. - Bem ele acha que nós somos pequenos demais para andar no meio dos outros alunos, mas perto da saído para o Saguão tem aqueles vasos enormes... Nós podemos assistir a tudo escondidos atrás deles. Até porque, fora do pessoal do 3º ano só vamos eu, você e o Ben.
* * *
- Eu devia ter ficado na sala comunal preparando meu trabalho de História da Magia. Com esse mundaréu de gente aqui, duvido que ela dê pela minha falta.
Terêncio Higgs ouvia os resmungos de Catharina Silver pacientemente. Não entendia como a menina podia não gostar de DCAT, sendo que esta era uma das matérias mais fascinantes que tinham na escola. Entretanto, Cathy não era uma garota comum, e, portanto, era impossível esperar qualquer atitude previsível da parte dela. História da Magia? E existia alguém que gostasse de estudar bruxos velhos e gagás que fizeram sabe-se lá o que séculos atrás?
- Ora, não vai ser tão ruim assim, Cathy! Quem sabe nós não vemos o Malfoy levar uma lavada de alguém... – ele deu um sorriso perverso para ela.
A garota riu baixinho e balançou a cabeça murmurando: "Você não tem jeito mesmo". Os dois perambulavam entre os alunos aglomerados no Salão Principal, procurando um local para ficarem.
- Parece que ali no canto esquerdo tá mais vazio... – Higgs levantou a cabeça o máximo que conseguiu, tentando examinar o local por sobre as cabeças dos outros estudantes.
- Então é para lá que nós NÃO vamos. Tudo que eu não quero é que a Professora Figg me veja. Já basta o mico que paguei quarta-feira na aula dela.
Higgs riu disfarçadamente para que a garota não se zangasse com ele, mas fora realmente engraçado ver a colega ser alvo de diversos tipos de azarações lançadas pela professora de DCAT como demonstração do que ela queria durante os embates.
Infelizmente para os dois, nunca viriam a duelar contra Draco Malfoy. A intenção era que os alunos fizessem disputas intercasas, para dar certa realidade ao exercício, uma vez que todas elas tinham rixas entre si. Logicamente a intensidade dessas rixas eram variadas, mas a professora acreditava que, se não houvesse rivalidade, ao menos não teriam a proteção costumeira as disputas entre amigos.
- Ali parece que está bem cheio – Cathy indicou o lugar mais lotado do Salão e se dirigiu para lá.
Higgs deu de ombros e a seguiu. Na realidade, preferia estar bem à vista. Tinha certeza de que a professora escolheria um dos Weasley para duelar no palco, e, na falta de Malfoy, os gêmeos grifinórios eram uma boa opção.
Os dois passaram com alguma dificuldade por um grupinho da Corvinal e, por fim, abriram espaço ao lado de três ou quatro alunos da Lufa-lufa que discutiam excitados os tipos de azarações que já sabiam usar. Os rostos quase infantis deixavam claro que eram do quarto ano, afinal os alunos mais novos não podiam participar do clube de duelos.
- Agora é torcer para que a Professora Figg sofra de miopia acentuada e esqueça os óculos na sala dos professores.
- Que mania de perseguição, Cathy! – Higgs condenou. – Entre 40 alunos do sétimo ano, por que ela escolheria justo você?
- Porque... – e então ela hesitou. – É, você está certo. Por que ela escolheria justo a mim?
Os dois ficaram quietos observando o salão lotado. Volta e meia olhavam para a entrada, procurando pela professora que já estava atrasada. Ao mesmo tempo em que Cathy finalmente via Arabella Figg entrar no salão, ela sentiu as palhas de uma vassoura de corrida roçar-lhe a panturrilha. Mesmo coberta pela meia, era impossível não sentir cócegas. Imaginando-se vítima de alguma brincadeira de mau gosto, ela se virou pronta discutir, dando com uma comprida trança negra caindo sobre uma capa vermelha.
Angelina Johnson estava logo atrás dela, de costas, rindo com vontade de alguma coisa dita por Lino Jordan. A sonserina deu um cutucão no ombro de Terêncio, que tinha os olhos grudados, que tinha os olhos grudados na professora de DCAT que cruzava o salão. Cathy indicou o grupinho de grifinórios – além de Angelina e Lino, estavam ali os gêmeos e Alícia Spinnet – e o rapaz mordeu os lábios, percebendo que teriam problemas. Nas outras duas aulas que a Sonserina dividira com a Grifinória naquela semana, Astronomia e Aritmancia, Angelina não perdera a oportunidade de trocar farpas com Cathy; a artilheira não tinha engolido as grosserias da aula de Poções.
Os grifinórios ainda não tinham notado, ou, se tinham, fizeram de conta que não. Cathy, para a surpresa de Higgs, se encontrava absolutamente quieta e paciente, apesar de continuar levando vassouradas de dez em dez segundos. Parecia disposta a tudo para não chamar a atenção da professora naquela noite. Mas paciência tem limite e a de Cathy finalmente se esgotou quando Angelina soltou a trança e sacudiu a cabeça para que as mechas se ajeitassem, fazendo com que uma revoada de fios escuros batessem cortantes na nunca de Cathy.
- Ei, Srta. Johnson – ela cutucou a artilheira no ombro. Será que você pode se mexer menos? Está em incomodando! – o tom de voz era grosseiro e petulante.
- Estou, é? – Angelina olhou para baixo: era pelo menos uns vinte centímetros mais alta que Cathy. – Que pena! – e ela virou-se outra vez, sacudindo os cabelos que bateram em cheio no rosto da outra menina.
Aquilo teria deixado Cathy irada, mas, no momento, tinha uma preocupação mais séria. Como sempre gesticulava muito quando discutia, os cabelos de Angelina encontraram a mão da sonserina em pleno ar e o anel de pedra escura que ela sempre usava, enganchou-se nas madeixas da Grifinória. Higgs assistiu à colega tentar desenganchar o enfeite sem sucesso por cerca de um minuto, então ela se cansou e deu um puxão forte:
- AAAAIIIIIIIII!!!!!! – Angelina girou o corpo furiosa, mas no que fez isso, puxou a outra garota, que estava com a mão enroscada nas madeixas negras da artilheira.
- Affff! Meu anel enroscou no seu cabelo. Você fica balançando essa juba pra todo lado! – Cathy forçou a mão para baixo mais uma vez, provocando uma careta de dor na Grifinória.
- Tire-o do dedo que eu mesma desenrosco... – Angelina puxou o braço da outra, que agiu rápido.
- NÃO! Eu tenho uma solução muito mais rápida – e, puxando a varinha do bolso, ela apontou-a para a mecha de cabelo da outra: - Guillotis!
Cathy nunca fora uma bruxa muito precisa na hora de executar feitiços. Assim, ao invés de cortar apenas os poucos fios que estavam enrolados em seu anel, ela levou quase metade do cabelo negro e cacheado de Angelina. As Madeixas que antes lhe desciam até a cintura, estavam agora na altura do queixo.
- Meu cabelo!! – Angelina fitava o chão, desesperada, enquanto Cathy se livrava dos últimos fios enroscados e seu anel.- Sua maluca!!
Sem raciocinar, esquecendo-se completamente de que era uma bruxa, a artilheira da Grifinória avançou para cima da garota a sua frente, agarrando-a pelos cabelos e puxando-os com toda a força, talvez disposta a a arrancar todos os fios do couro cabeludo da sonserina num único puxão. A outra começou a estapeá-la, tentando fazer com que Angelina a soltasse e nem mesmo a interferência de Fred e Higgs, que tinham agarrado as respectivas colegas de casa pela cintura para separá-las, estava sendo de grande valia.
- Muito bom! Realmente muito bom!
Cathy e Anelina congelaram. Arabella Figg abrira caminho em meio aos estudantes que assistiam à briga e observava a cena exibindo um sorriso de satisfação nos lábios:
- Agora que tal vocês duas terminarem essa briguinha ali em cima? E, de preferência, usando magia?
* * *
- Ai! Você tá pisando na minha mão, Ben!
- Desculpa, Lyra, mas é que eu não tô enxergando nada!
- Será que dá para vocês calarem a boca? – a voz de um garoto do terceiro ano se fez ouvir e os demais se calaram.
Michael Turpin fora o idealizador daquela maluquice. Era o garoto do 3º ano que mais aprontava, mas raramente perdia algum ponto de sua casa ou levava detenções. Era extremamente perfeccionista em seus planinhos para burlar regras antiquadas – ao menos aquelas que lhe impediam de fazer o que tinha vontade. E naquela noite, ele queria assistir ao Clube de Duelos que a Sra. Figg estava organizando como experiência prática para os alunos a partir do 4º ano.
Naquela tarde, ele combinava com outros três colegas de casa como fariam para chegar ao Salão Principal sem que Filch, Madame Nor-r-ra ou algum dos monitores – sendo que, por um acaso, a irmã dele era uma – pudessem pegá-los. Não seria nada muito complicado. Ele conhecia uma passagem secreta dentro da sala comunal da Corvinal que dava diretamente no Saguão de Entrada, dali, só teriam que se misturar aos outros alunos, tomando o cuidado para ficar bem longe de qualquer aluno da mesma casa, ou poderiam ser identificados.
Mas eles não foram discretos o bastante para traçar seus planos sem que uma garotinha abelhuda do primeiro ano os escutasse.
- Ou vocês deixam eu e meus amigos irem também, ou a sua irmã vai ficar sabendo, Michael – a sardentinha ameaçou e o garoto teve sérias dúvidas se ela não estava na casa errada. No entanto, ele não disse nada a esse respeito, e, por falta de uma alternativa melhor, concordou que os "pirralhos" viessem desde que jurassem obedecê-lo.
Agora passavam por um túnel estreito, onde tinham que engatinhar para poder se deslocar sob um teto tão baixo. Michael e outro terceiranista carregavam as respectivas varinhas acesas nos bolsos das vestes, iluminando fracamente o lugar por que passavam. As duas únicas garotas do grupo estavam no final daquela fila esquisita; Emily carregando um sorriso de felicidade extrema no rosto, enquanto Lyra tentava enxergar alguma coisa na mão dolorida. A menina ainda não sabia como a amiga a tinha convencido a entrar naquela loucura.
- Estamos quase chegando. – Michael disse quase num sussurro. – É preciso mais silêncio do que nunca. Vocês três têm que ficar escondidos, não se esqueçam. Qualquer um iria perceber que vocês não tem 14 anos só de olhar...
- Nós já entendemos – Lyra respondeu de mau-humor, depois de quase levar um chute de Ben, que estava a sua frente.
Ele continuou, o tom de voz levemente irritado por ter sido interrompido:
- Temos que voltar antes da aula terminar, ou então os monitores podem dar por nossa falta.
- Você quer dizer a SUA irmã pode dar pela SUA falta, né? – um dos amigos dele debochou.
- Ou isso... – ele respondeu meio rindo e empurrando uma parede aparentemente sólida à frente deles. – É melhor sair todo mundo aos poucos, ou alguém pode reparar. Andrew, você primeiro.
Um moleque alto e magricela, de nariz fino e cabelos encaracolados adiantou-se para o lugar que Michael indicava. A pouca luz dava a aparência de que havia uma parede ali, mas agora que a varinha dos dois garotos estava bem próxima, via-se que se tratava de uma tapeçaria. Provavelmente uma das peças que ficavam penduradas no Saguão de Entrada exibindo os símbolos das casas.
- Nós estamos bem atrás do emblema da Corvinal – Michael falava baixinho, dando tempo para que o garoto que acabara de sair se afastasse e misturasse-se aos alunos do Salão. – Eu acho que existem outras debaixo dos tapetes das outras casas, mas nunca tive a oportunidade de olhar. A maldita gata do Filch sempre aparece quando estou tentando descobrir.
- Ela não é maldita! É apenas um animalzinho indefeso! – Lyra exclamou num tom de voz um pouco mais alto do que deveria.
Os três garotos do 3º ano olharam imediatamente para ela, dois deles parecendo zangados e Michael, com um riso debochado no rosto:
- Muito bem. Quero ver você dizer isso no dia em que o Filch pegar você fazendo algo de errado.
- Eu não vou ter esse problema. – ela deu de ombros. – Não desrespeito as regras...
- Ué, então o que é que você está fazendo aqui, russinha? – os colegas de Michael riram.
- Não me chame de russinha! – ela mordeu os lábios irritada.
- Ué, mas você não é russa, Lyra? – Ben franziu as sobrancelhas, confuso.
A garota lançou um olhar fulminante para o amigo e não respondeu.
- Eu só estou aqui porque... porque...
- Porque eu a convenci – Emily assumiu a responsabilidade. – Não está na hora de mais alguém sair, Michael?
O rapazinho olhou para outro dos garotos e fez sinal com o rosto para que ele saísse. Ficaram todos em silêncio até que outro terceiranista saísse e então Michael deu seu último aviso:
- Existem alguns vasos bem grandes logo na entrada do Salão Principal. Vocês vão ficar escondidos lá, certo?
- Mas daí nos não vamos conseguir ver os duelos direito... – Emily começava a protestar.
- O trato foi esse, garota! E acho bom que ninguém veja vocês, ou estaremos todos em maus lençóis. Entenderam?
- Sim, senhor. Mais alguma recomendação aos primeiro-anistas incapacitados aqui? – Lyra estava visivelmente contrariada de ter que acatar ordens daquele imbecil.
- Seu vocabulário está melhorando, hein? – o garoto fez cara de admiração. – Nem comparação com os grunhidos daquele dia em King's Cross.
- Ah, por que você não vai desgnomizar um jardim? – Lyra retrucou nervosa. Emily abafou a risada: a amiga tinha aprendido aquela expressão com ela.
Ele só sorriu para ela. O mesmo sorriso franco e lindo que ela vira quando trombara com ele em seu primeiro contato com o mundo mágico. A luz da varinha iluminava o rosto de Michael. Lyra sentiu os joelhos tremerem em contado com o chão de pedra e teve raiva de si mesma.
- Eu saio primeiro, vejo se está tudo certo, e então chamo vocês, ok? – o menino empurrou a tapeçaria e saltou para fora do túnel.
Os três primeiro-anistas estavam na completa escuridão. Nenhum deles sabia como fazer o feitiço que acendia as pontas das varinhas, nem mesmo Emily, o que surpreendeu Lyra e Benjamin, que imaginavam que a menina soubesse mais que qualquer outro aluno do primeiro ano. Eles ouviram um assobio: era o sinal que esperavam. Benjamin saiu primeiro, seguido por Lyra e depois Emily.
- Aqueles são os vasos de que falei. Corram para lá e não saiam até que eu passe ao lado deles para voltarmos.
Os três balançaram as cabeças concordando. Antes que se afastassem demais, Michael disse em meia voz:
- Ô, russinha! – ele viu o rosto da menina se avermelhar de raiva. – Vê se não vai sair atropelando ninguém, hein? – e deu uma piscadela para ela.
- O que ele quis dizer com atropelar alguém, Lyra? Você nem tem idade pra dirigir! – Benjamin retrucou, com os pensamentos no modo de vida trouxa, enquanto escolhia o vaso mais alto para se colocar atrás.
- Ele é um tonto! Não diz coisa com coisa...
- Sei... – Emily olhou de soslaio, segurando o riso.
Os três se colocaram atrás das folhagens verde-escuras das plantas e começaram a procurar brechas por onde conseguiriam assistir aos duelos.
- Não acredito! – Emily disse dando um tapa na boca, por ter falado alto.
- O que você tá vendo? – Ben passou a língua pelo lábios, tentando abrir uma fresta maior com as mãos. – Aqui não dá pra ver nada... Só as costas de uns alunos da Lufa-lufa...
- Eu tô vendo uma aluna da Grifinória... Ao menos eu acho que é... ela tá com umas roupas vermelhas esquisitas... – Lyra constatou.
- Vestes de quadribol! É a Angelina Johnson. Ela é artilheira da Grifinória... Mas não é dela que eu tô falando, Lyra! Você não consegue ver quem vai duelar com ela?
- Não, tem um babaca da Corvinal na minha frente...
- Ah, eu também tô vendo o Michael! – Benjamin deduziu de quem a amiga estava falando.
- Vem aqui, então. – e Emily puxou a amiga para o lugar onde estava.
A boca de Lyra quase tocou o chão. A menina da Sonserina que era absurdamente parecida com sua mãe estava de pé sobre o palco de duelos.
* * *
- Espero que tenham entendido todas as regras. – Arabella Figg encarou as duas alunas do sétimo ano.
Cathy não retribuiu o olhar. A menina não tirava os olhos dos próprios sapatos e a boca se mexia raivosamente, resmungando algo incompreensível. Angelina, por sua vez, mantinha o olhar firme, pronta para dar o troco naquela sonserina intrometida que vinha procurando encrenca desde o início da semana.
- Prontas? – Arabella Figg perguntou. – Cumprimentem-se e iniciem a luta.
As garotas inclinaram o corpo para biaxo, saudando uma a outra de má vontade. Em seguida, ambas sacaram as varinhas das vestes, mas apenas Angelina se colocou em posição de ataque; Cathy apontava sua varinha para o a superfície do palco.
- Srta. Silver... – a professora de DCAT ralhou com a aluna, que apontou a varinha de qualquer jeito para a outra garota.
Um raio vermelho disparou da varinha de Angelina Johnson e a sonserina não foi atingida por uma questão de milímetros. E o duelo seguiu dessa forma por quase dez minutos: Angelina atacava e Cathy escapava de todos os feitiços sem utilizar sequer um feitiço. Ninguém esperava que a garota fosse tão ágil e, muito menos, que não fosse revidar.
Angelina já estava desconcertada. Por que raios aquela menina não a atacava? Será que sua varinha estava com problemas? Não, com certeza não era isso, ou então seu cabelo continuaria do jeito que era quinze minutos atrás. A grifinória sentia-se idiota e boba de ficar lançando feitiços contra aquela menina sem nunca atingir o alvo. Ninguém poderia se queixar de sua pontaria. Era a melhor artilheira da Grifinória e, se podia acertar a goles num aro, era lógico que conseguiria atingir aquela intrometida. "'E só uma questão de tempo!", ela pensou. "Eu tenho de encurralá-la."
Então Angelina reparou que a rival estava a poucos centímetros de uma das extremidades do palco. Se pudesse força-la a ir para trás, ela com certeza cairia e não conseguiria se recuperar tão rapidamente que pudesse evitar ser atingida por um feitiço. Assim, a cada novo feitiço que lançava contra garota, Angelina dava um passo para a frente, e Cathy, um passo para trás, tentando manter a distância. A sonserina sabia que não conseguiria escapar de um feitiço lançado muito de perto; a relação tempo-espaço tornaria impossível que ela fugisse dos encantamentos irados da grifinória.
- Lança um feitiço da perna-presa nela, Angelina! – Freddie gritou da beirada do palco.
- Se ela conseguir acertar algum feitiço no alvo, você quer dizer... – Higgs, que estava ao lado dele, retrucou com desdém.
- A sua amiga não sabe sequer usar a varinha... Está na cara que a Angelina vai ganhar... – Lino Jordan rebateu sem tirar os olhos das duas garotas. Estava impressionado com a agilidade da sonserina. Mas uma hora ela iria se cansar de pular de um lado par ao outro.
A artilheira da Grifinória sorriu quando Cathy finalmente resolveu encará-la; a sonserina estava a um passo da beirada do palco e parecia não ter se dado conta de que estava prestes a cair. A expressão de triunfo no olhar de Angelina era tamanha que Cathy sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha: seria humilhada em frente a todas aquelas pessoas? Se dependesse daquele olhar, ela tinha certeza que sim.
Deu então mais um passo para trás e sentiu a quina do palco sob o calcanhar. Tinha tirados os sapatos e a capa ao subir, apesar dos protestos da professora que dizia que ela não teria tempo de pensar em amenidades como essa num duelo de verdade. Não havia mais para onde fugir. Por mais que ainda tivesse as laterais, Angelina continuaria se aproximando. Ela teria que usar a varinha.
Em menos de um segundo, um raio dourado zuniu na direção da menina que fechou os olhos e rodou a varinha:
- Protego!
O feitiço se refletiu no instante em que tocou a espécie de escudo invisível que se formara diante da garota. Mas a superfície refletora estava levemente inclinada e, ao invés do feitiço atingir a adversária, ele passou por cima da cabeça da menina rumo ao teto do Salão Principal.
Angelina riu, sarcástica:
- Isso é o melhor que você pode fazer? – e se preparou pra lançar outro feitiço.
Entretanto, antes que pudesse pronunciar qualquer palavra, uma rajada prateada saiu da varinha de Cathy na direção do teto do Salão:
- Cortis!
Uma bandeira da Grifinória, que até há pouco estava pendurada sobre o palco de duelos entre as flâmulas das outras casas de Hogwarts, caiu sobre Angelina, derrubando-a e cobrindo-a por completo. A aluna da sonserina andou calmamente até o embolado de gente e pano e puxou o tecido bordado, deixando o rosto de Angelina à mostra.
- Touchet! – ela encostou a varinha na garanta da grifinória.
Angelina fechou os olhos, tentando conter as lágrimas de raiva. Não sabia se tinha mais raiva de si mesma ou daquela garota nojenta e irritante, que sorria irônica com a varinha apontada para ela. Ainda não conseguia entender como a garota se desviava tão rapidamente de seus feitiços.
- Muito bem! – Arabella Figg subiu no palco onde as duas meninas estavam. – Cinco pontos para a Sonserina. As médias de vocês são 6 e 7,5.
- Sete e meio? Mas eu venci o duelo. – Cathy interpelou indignada.
- A sua nota é seis. A da Srta Johnson é que é sete e meio.
Angelina arregalou os olhos para a professora sem entender. Ela e o salão inteiro, enquanto Cathy abrira a boca, sem encontrar os xingamentos apropriados para aquela professora maluca.
- Por que o espanto? – a professora se admirou. – Você lutou muito bem, garota. – ela disse a Angelina. - Dei sete para a estratégia, e oito para o ataque. Escolheu bons feitiços, e mesmo boa pontaria, no entanto, a Srta. Silver parece ter alguns atributos que você não vai encontrar em Comensais da Morte, como a prática de ballet clássico desde criança. Infelizmente não pude lhe dar uma nota de defesa, uma vez que ninguém a atacou. – e os olhos azuis e ferozes da professora recaíram sobre a sonserina.
- Isso não explica a MINHA nota – Cathy não parecia nem um pouco intimidada.
- Você teve dois noves e um zero. Faça as contas! Basta somar e dividir por três.
- Como assim zero? – ela continuava não aceitando.
- Uma vez que você não atacou, você teve um zero no quesito ataque. Mas a percepção da bandeira sobre sua colega foi interessante... Apesar de o primeiro feitiço ter encontrado as cordas que a prendiam ocasionalmente, você soube aproveitar algo que deu errado. Quanto à defesa... Enquanto você não se cansar, serve, mas acho bom você começar a usar a varinha se pretende sobreviver num duelo de verdade. Dois noves são notas ótimas....
Cathy enfiou a varinha no bolso com raiva e pulou do palco, pronta para deixar o Salão.
- Onde a senhorita pensa que vai? – a professora a interpelou.
- Para a sala comunal da minha casa... – ela respondeu sem olhar para trás. Se olhasse mais uma vez para o rosto de Arabella Figg, não conseguiria segurar todas as palavras desagradáveis que estavam entaladas em sua garganta.
- De jeito nenhum. Você vai assitir seus coelgas duelarem. Quem sabe assim você não aprende alguma coisa que possa ajudá-la a melhorar sua nota da próxima vez...
A menina cerrou os punhos e apertou os olhos, segurando um choro irritado que estava prestes a cair. Por que aquela mulher a odiava tanto? Sempre fora assim. Ela sempre a colocara nas situações mais constrangedoras. Como ela pudera acreditar que em Hogwarts seria diferente? Arabella Figg continuava sendo a corvinal racional e inescrupulosa que ela conhecia desde criança. Que diferença fazia que fossem da mesma família? Ela era mais exigente com Catharina do que com qualquer outro aluno.
Cathy voltou para perto dos outros estudantes, procurando manter-se distante do palco onde a professora de DCAT passava as instruções para outros dois alunos: uma garota de olhos amendoados do 6º ano da Corvinal e um rapaz do mesmo ano da Lufa-lufa, bastante alto e magro.
- Que apostar quanto como a japinha ganha? – uma voz sussurrou no ouvido de Cathy.
Ela virou-se de imediato para encontrar Terêncio Higgs.
- Você foi bem! Só não entendi porque não quis usar a varinha. Mas você deve ter seus motivos – ele acrescentou rapidamente ao ver a cara de brava da menina.
- Por que você acha que ela ganha? – Cathy passou a observar o duelo, uma vez que a professora tinha descido do palco.
- Ela ganha de qualquer cara dessa escola, com exceção de mim e talvez do Malfoy... Talvez os Weasley também não sejam assim tão idiotas para deixar ela ganhar...
- Deixar ela ganhar? – ela voltou o corpo para o rapaz. – E por que alguém DEIXARIA ela ganhar?
- Essa pergunta tem duas respostas... – ele olhou bem para a mestiça que lançava um feitiço qualquer no adversário – O primeiro, é pena... Meia escola sente dó da Srta. Chang por causa da morte do namorado dela no ano passado...
- O namorado dela morreu? – Cathy se assustou. – De que?
- Ninguém sabe ao certo. Ano passado houve um Torneio Tribruxo na escola e o namorado dela, Cedrico Diggory, foi eleito um dos campões da escola... você deve saber... Viktor Krum estava representando Durmstrang...
- Ah, claro, eu me lembro... – ela respondeu rápido. – Mas o que isso tem a ver com a morte do fulano.
- Eles também não noticiaram nada na Bulgária?
- Eu não era da Bulgária... Era da Rússia.
- Mas Durmstrang é na Bulgária, não é? – ele franziu as sobrancelhas intrigado.
- Ah, tá... Esquece... Eu não sou muito fã de jornais. Mas para de enrolar e me conta o que aconteceu.
- Bem, na última prova do torneio, Diggory e o Potter... Do Potter você já ouviu falar, né? – ela acenou com a cabeça que sim e ele continuou: - Os dois sumiram por mais de uma hora depois de chegarem ao troféu que lhes daria o prêmio. Quando voltaram, o Diggory estava morto. O Potter contou uma baboseira de que o Lorde das Trevas voltou, mas eu sinceramente não acredito nisso. O cara vive querendo chamar a atenção...
- Um garoto volta morto e você acha que isso não tem o dedo de Você-sabe-quem? E, aliás, porque você o chama de Lorde das Trevas?
- Dizem que não é bom falar o nome dele... E acho que negócio de Você-sabe-quem ridículo...
- Humpf! Eu não vou discutir isso com você agora! Não estou com paciência para convencer ninguém de nada. Então as pessoas tem dó dela porque o namorado dela morreu.
- E os que não tem dó são apaixonados por ela... Não sei que graça viram nessa japa magricela...
- Ah, ela é bonita, sim. – Cathy observou a menina que agora tremia como um liqüidificador ligado. Tinha sido atingida por um feitiço do adversário. – E ele está atacando ela...
- Bah, eles só jogam esses feitiços bobinhos... E até esperam o efeito passar para que ela possa revidar. Confie em mim, ele vai deixar ela ganhar, mesmo sendo melhor que ela.
- Pois eu acho que você tá dando uma demonstração de machismo. Só porque ela é uma garota não pode ganhar do... do... Qual é o nome dele? – ela fitou o garoto louro que duelava.
- Smith... Zacarias Smith. É artilheiro da Lufa-lufa. Jogador razoável. Acho que foi promovido a capitão esse ano. Não é nenhum bruxo fenomenal mas é melhor que a Chang. E não é machismo, pois eu acho que a Angelina... – ele parou e fitou por alunos segundos –, e mesmo você, poderiam detoná-lo em pouco mais de dez minutos.
A garota ruboresceu um pouco com o elogio. Não estava acostumada a esse tipo de coisa.
- Não disse? – Higgs levantou as sobrancelhas satisfeito quando a luta se encerrou. – Você acha que um aluno do sexto ano deixaria ser atingido por um Petrificus Totallis? Todos nós já sabemos refletir esses feitiços mais fraquinhos com perfeição já no quinto ano...
Os dois ficaram em silêncio para ouvir as notas dos combatentes, o garoto levando um sete e meio, e a menina, um oito. A Corvinal ficara com os cinco pontos daquele duelo.
* * *
- Agora ela vai escolher dois alunos do quinto ano! – Parvati comentou com voz excitada com Simas Finnigan.
Os alunos do quinto ano da Grifinória estavam todos aglomerados junto a uma das extremidades do palco, com exceção de Neville, que fora se afastando dali desde que o primeiro duelo tivera início. Quando se inscrevera para o clube de duelos imaginara algo mais calmo. Na verdade, não conseguira imaginar nada; não tinha idéia de porque assinara aquele papel se comprometendo a participar das aulas de sexta-feira. Talvez fora o fato de a Professora Arabella ter mencionado seus pais...
Arabella Figg tinha dado aulas para Frank Longbottom e Sophie Alethea quando eram apenas adolescentes. Ela elogiara tanto o desempenho dos dois, que Neville sentira-se obrigado a honrar o sangue que corria em suas veias. Mas agora já não tinha tanta certeza de que seria capaz de fazer isso.
- Quem será que ela vai escolher? – Rony comentou ansioso, um pouco a frente de Neville. – Adoraria que ela fizesse outro Grifinória versus Sonserina, para alguém poder dar o troco pela Angelina.
- Eu também. – disse Hermione. – E, bem, tenho certeza de que ela vai colocar o Harry...
- Por que o Harry? – Rony deu de ombros, um pouco enciumado.
- Rony! Que pergunta...
A resposta era óbvia. Harry era o aluno mais famoso da escola, já tinha combatido bruxos realmente mal-intencionados e uma série de outras coisas, mas a vontade de Rony de se provar às vezes o tornava meio cego. Harry no entanto, não estava ouvindo os dois. Tinha os olhos fixos no palco, onde Draco Malfoy acabava de subir. Só faltava Arabella Figg escolher seu adversário e ele nunca desejara tanto ser escolhido para uma tarefa por um professor.
A professora observava o aglomerado de alunos do quinto ano da Grifinória. Ela parecia ter gostado daquela mistura, que sem dúvida era explosiva e arrebatadora. A rixa que Grifinória e Sonserina alimentavam entre si era maior do que a de qualquer outra das casas. Os olhos azuis de Arabella Figg correram os rostinhos ansiosos e Harry teve a impressão que ela se demorara um pouco mais olhando para ele. Já estava quase acostumado a pensar nela como uma bruxa, ainda que vez ou outra pensasse em Arabella Figg como a velha babá obcecada por gatos.
- Srta. Granger, por favor. – a professora fez sinal para que a menina subisse.
Hermione levou alguns minutos até entender o que estava acontecendo. Rony estava atônito: está bem que Hermione era a melhor aluna em todas as matérias mas... Iriam colocar ela para duelar com Draco? Ele sentiu o sangue ferver... Se Malfoy ousasse insultar Mione enquanto duelavam... O que é que ele estava pensando? Mione sabia se defender muito bem sozinha! Balançou a cabeça rapidamente tentando se livrar daquelas idéias.
Harry, por sua vez, estava desapontado. Tinha tanta coisa engasgada a respeito de Malfoy. Ainda assim, achou que fora uma boa escolha da professora: Hermione também tinha contas a acertar com Draco Malfoy e Harry não tinha a menor dúvida de que ela se sairia muito melhor que o sonserino naquele duelo.
A menina só se mexeu depois que Rony lhe deu um cutucão: "Tá esperando o quê?" Ela tinha tanta certeza de que Harry seria escolhido. Mas o que a despertou realmente foi a expressão de desdém estampada na face de Malfoy. Ela sentiu o rosto esquentar e a mão se dirigiu automaticamente para o bolso onde estava a varinha.
A professora mandou um para cada extremo da pista e mandou-os prepararem-se. Malfoy mal baixou a cabeça na hora do cumprimento. Já achava um absurdo estar duelando com uma sangue-ruim, não se rebaixaria ao ponto de tratá-la como uma igual. Do meio da platéia, Rony e Harry mordiam os lábios ansiosos. Mione não podia perder para Malfoy. Ela não ia PERDER!
Varinhas a postos, a primeira ação foi de Draco. Um fio vermelho-cintilante de magia jorrou da ponta da varinha do sonserino e Hermione sentiu algo queimar o tecido de sua meia e a perna esquerda arder de leve. Não deixou que a sensação tirasse sua concentração: revidou com um tarantallegra. Draco cambaleou um pouco mas, tão logo firmou os pés no chão outra vez, soltou mais uma rajada violenta em direção à adversária.
A menina caiu. Fora atingida por algo que lhe lembrou um soco no estômago. Estava certa de que nenhum professor nunca ensinara aquele tipo de magia em Hogwarts. A Sra. Figg não havia dito que deveriam usar apenas os feitiços que tinham aprendido em aula? No entanto, não houve protesto por parte da professora e se Draco conhecia alguns feitiços, ela conhecia outros. Mas ela lembraria daquelas palavras mágicas: se aquele encantamento estivesse num livro, ela certamente o acharia. Esse pensamento lhe passou pela cabeça enquanto a garota se levantava. Draco exibia um sorriso sarcástico de quem sabe que vai vencer.
- Pronta para se arrepender de ter saído do meio dos trouxas? – o rapazinho sussurrou de forma que apenas a menina pudesse ouvir.
Antes que a menina pudesse dizer um feitiço, Draco a atingiu na mão, com um feitiço-chicote, fazendo com que ela deixasse a varinha cair. O rosto de Hermione estava quente, o rubor lhe cobria as bochechas, o queixo e até a raiz dos cabelos. Com a mão direita, ela ajeitou – ou pelo menos tentou – o cabelo volumoso, tirando da face algumas mechas coladas pelo suor. Ela não podia perder. Era a melhor aluna do 5º ano, sabia de cor todos os feitiços já dados em sala de aula e muitos outros que nunca ninguém lhe havia ensinado, mas que tinha lido nos livros.
Ela se jogou no chão desviando de mais uma rajada de magia e se pôs a engatinhar disposta a recuperar a varinha, que tinha rolado para o meio do palco em que lutavam.
- Accio! – Draco andou até a menina, que ainda estava de gatinhas e aparentando um olhar desolado. – Procurando por isso, sangue-ruim?
Hermione Granger nunca imaginou que pudesse sentir tanta raiva de alguém. Ela nunca imaginou que ouvir a agressão costumeira de Draco Malfoy pudesse despertar todo o rancor que vinha guardando para si, tentando parecer indiferente aos "elogios" do sonserino. E ela nunca imaginou que um dia iria agradecer a ele por isso...
- Muito bem, Granger. Prefere ir para a ala hospitalar carregada ou levitando? Prometo que respeitarei o seu último pedido.
- Estupefaça! – ela gritou com toda a força que os pulmões lhe davam, apontando o dedo indicador para o peito de Malfoy.
O sonserino foi jogado a dez metros de distância, sendo prensado contra uma das paredes do salão pela rajada de magia que a menina disparara. O corpo inerte escorregou pela parede de pedra. Tinha desmaiado.
Em cima do palquinho montado para as disputas, Hermione ofegava e sorria ao mesmo tempo. Alcançou sua varinha antes que ela rolasse pela lateral e caísse entre os outros alunos que assistiam o duelo, para enfim levantar-se. Colocou o instrumento no bolso da veste e só então olhou na direção onde Malfoy estava caído, no outro extremo do Salão, rodeado por alunos curiosos.
- Mione! Mione! – ela percebeu alguém chamando-a.
Rony e Harry pareciam a personificação do contentamento. O ruivo não parava de dar pulinhos e dançar com todos os que passavam a seu lado berrando pra quem quisesse ouvir: "Ela ganhou!! Ela ganhou!!" Harry ajudou a garota a descer, enquanto o resto dos estudantes ia para o lugar onde Draco se encontrava estirado.
- Como você fez aquilo?? – Harry sorria escancaradamente para a menina.
- Não faço a menor idéia – ela respondeu um pouco sem jeito, porém tão entusiasmada quanto os amigos. – Talvez tenha sido algo parecido com o que você fez com a sua tia, quando estávamos no 3º ano. Emissão involuntária de magia. Se bem que no meu caso ela foi mais que voluntária... – a garota riu.
Os dois passaram ao lado de Rony, que puxou a menina pelos braços e começou a rodopiar com ela pelo salão:
- Você ganhou, Mione!!! Você ganhou!!! Você acabou com o Malfoy. Você... Você...
E então, sem pensar direito no que estava fazendo, o ruivinho tascou-lhe um beijo na boca. Daí soltou a menina e recomeçou a pular, acompanhando um novo bandinho que seguia para o outro canto do salão, deixando Hermione de boca aberta e com cara de aparvalhada. Enquanto isso, Harry assistia à cena e ria baixinho, balançando a cabeça e pensando quando é que aqueles dois finalmente se dariam conta do que sentiam um pelo outro. De repente, Hermione voltou a si e retomou o semblante disciplinado que os amigos conheciam bem:
- Vamos até lá! Quero dar uma olhada na cara daquele verme – ela rumou decidida para junto da aglomeração, arrastando Harry pelo braço.
* * *
- Nossa! Se essa é a melhor aluna do 5º ano não quero nem imaginar as ruins... – Cathy fez muxoxo.
- Estranho. Eu já ouvi dizerem que o Malfoy tem quase tanto ódio dela quanto tem do Malfoy por ela sempre ser a primeira em tudo... – Higgs comentou sem tirar os olhos do duelo.
- Raiva.
- Quê?
- Ele tem raiva dos dois. – ela arremedou. - Só temos ódio de quem amamos... A não ser que o Malfoy tenha uma quedinha pela monitora da Grifinória.
- Impossível. Ela é nascida trouxa. Malfoy nunca se sujeitaria a isso.
Catharina entortou a boca e levantou as sobrancelhas, voltando a assistir à disputa. No mesmo segundo ela viu algo passar a menos de dois metros de sua cabeça, resvalando no bico do chapéu de Higgs: Malfoy tinha levado o troco de uma bruxa que sequer contava com a varinha.
- Vem! – ela puxou o rapaz ao seu lado, que ainda, como os outros alunos, estava abobalhado.
- Onde você está indo? – ele perguntou enquanto seguia a menina correndo.
- E você acha que eu vou perder a oportunidade de ser a primeira a jogar na cara do Malfoy o que acabou de acontecer? Vou garantir meu lugar na fila do gargarejo.
- Ficou doida, Cathy? Ele vai ser mandado direto para a ala hospitalar! Falar com alguém inconsciente não tem graça nenhuma!
- Até parece... Se eu conheço Arabella Figg, e eu posso dizer que conheço, ela vai despertá-lo com um feitiço de reanimação e manda-lo assistir ao próximo duelo.
A garota estava certa. Nem bem chegou perto do aluno, Arabella Figg despertou-o. Ainda zonzo e fora de órbita, Draco chamou pela mãe, fazendo com que o ajuntamento de alunos a seu redor soltasse gargalhadas. O eco dos risos completou o trabalho da professora e em segundos o rapazinho estava de pé novamente, tentando entender o que acontecera. Uma vozinha aguda sussurrou próximo ao ouvido do garoto: "Então, como é ser nocauteado por uma sangue-ruim?". Ele virou-se a rápido e dirigiu um olhar fulminante para a dona da voz: uma garotinha atarracada com o uniforme da Sonserina que ele detestava desde o primeiro contato que tivera com ela.
- O melhor duelo até agora. Vocês dois estão de parabéns – a professora reparou que Mione já estava entre os alunos e fez sinal para que avançasse para o meio da roda.
Hermione exibia um sorriso triunfante.
- Acho que você perdeu isso... – a menina ofereceu a varinha do garoto, que a tomou num gesto brusco.
A professora fingiu ignorar a rivalidade entre os dois:
- Sr. Malfoy, você leva nota nove, afinal perdeu o duelo. Também percebi que você se valeu de alguns feitiços pouco apropriados para a ocasião... Feitiços-flamejantes serão proibidos a partir da próxima reunião para evitar maiores problemas. Entretanto, num duelo de verdade, qualquer um de vocês poderia ser vítima de algo parecido, por isso considero a experiência válida. Quanto a você, Srta. Granger, se não tivesse perdido a varinha teria levado dez, no entanto, sou obrigada a lhe descontar 0,25 pelo descuido. Agora quero todos de volta ao centro do Salão. Ainda falta um duelo entre quartanistas.
* * *
- Escolheram uma aluna da Corvinal e um da Lufa-lufa... – Emily comentou enquanto tentava alargar a brecha por onde assistia aos duelos.
- Quem é a da Corvinal? – Bem, conformado em não conseguir ver nada, ouvia as colegas narrarem os fatos mais fantásticos e engraçados.
- Ainda não consegui descobrir... Afff... ela tá de costas pra cá!
- E como é que você sabe que ela é da Corvinal?
- Por que isso é óbvio... – a menina sardenta respondeu em tom de pouco caso. – Já foram dois enfrentamentos entre grifinórios e sonserinos e apenas um entre corvinais e alufados...
- Yaaac... Acho essa nomenclatura horrível? – Lyra comentou sem despregar o olho do duelo que havia acabado de começar. – Quem foi que inventou que os alunos da lufa-lufa são alufados??
- Vai saber. – Emily deu de ombros. – Mas a garota da corvinal é loira, e a da lufa-lufa parece um poste de tão alta.
- Ai, meu Deus, a corvinal acertou um menino da platéia!!! Os cabelos dele tão pegando fogo!!! – Lyra deu um gritinho baixo, um pouco apavorado, um pouco excitada com os acontecimentos.
- Pegou fogo? Deixa eu ver! – bem empurrou a colega e olhou pela larga fresta da planta atrás da qual estavam escondidos. – Lyra! Aquele é um dos gêmeos Weasley. O cabelo dele é daquela cor! E a fumaça tá vindo do menino ao lado dele... Não faço a menor idéia de quem seja. Você conhece, Emily?
- Não.
- Mas se não tem fogo, por que tem fumaça? - Lyra empurrou o colega de casa, retomando seu lugar.
- Feitiço congelante... Nunca viu as pessoas soltarem fumacinhas pela boca quando é inverno? Pelo visto a garota exagerou na dose... o cotado tem fumaça saindo pelas orelhas, pelo nariz pela boca e ta quase azul de tanto frio.
- Ele vai morrer congelado? – Ben perguntou assustado.
- A professora Figg tá levitando ele. Acho que vão leva-lo pra enfermaria. Uma boa poção de aguardente deve resolver o problema, mas não dá pra professora fazer isso aqui...
Emily contou aquilo como se fosse uma coisa que qualquer pessoa sabia, sem notar as caras de desentendidos dos colegas ao ouvir a palavra aguardente. Benjamin pensou que, se sua mãe soubessem que davam bebidas alcoólicas aos alunos, tiraria ele da escola na mesma hora, sem atinar que uma poção de aguardente não era a mesma bebida dos trouxas.
- O Michael tá fazendo sinal pra gente ir para a passagem... Parece que os duelos acabaram. Vamos? – a sardentinha finalmente descolou do arbusto a sua frente.
Os três esperaram um momento e começaram a se retirar, para o lado oposto da maioria dos alunos, entretanto, tinha que tomar cuidado, pois um ou outro perdido zanzava por perto do saguão de entrada.
Quando estava quase encostados na tapeçaria que escondia a passagem, Lyra olhou para trás e o que viu, fez com que saiu correndo em disparada de volta ao salão principal. Foi uma ação de reflexo: em segundos ela chegou o mais perto que pode para levantar a varinha e berrar "Vingardium Leviosa" com toda a força que podia. Bem a tempo. Sobre a cabeça de Hermione pairava um grande lustre de vidro que sustentava mais de 50 velas.
* * *
- Eles são suspensos por magia! Não iriam se soltar assim, sem mais nem menos! – um garoto da lufa-lufa comentou.
- Talvez tenha tido algum surto... Magia às vezes é tão temperamental... – uma garota da Sonserina que Hermione conhecia muito bem fez muxoxo. – O lustre deve ter se ofendido ao ver uma sangue-ruim passar debaixo dele.
- Cala a boca, Parkinson! – Harry retrucou irritado voltando a olhar para o lugar onde poucos minutos antes, um lustre de vidro flutuava sobre a cabeça de sua melhor amiga.
Alicia Spinnet tinha se livrado do perigo lançando um feitiço de desaparecimento sobre ele e Hemione conversava com a garotinha que tinha salvo sua vida.
- Eu nem sei como agradecer, Lyra! Se você não tivesse visto...
- Se eu não tivesse acertado o feitiço, você quer dizer – o coração da menininha saltava apressadamente.
- Você não tinha como errar – Hermione disse docemente. – É uma bruxa! Só precisa ter confiança em si mesma.
Lyra apenas sorriu. Gostava muito daquela monitora e, se não fosse por Hermione, talvez nem estivesse mais em Hogwarts.
- Agora resta descobrir quem...
- O que é que você está fazendo aqui? – uma voz aguda e esganiçada interrompeu a monitora.
Catharina Silver, livrando-se do braço de Higgs, tinha do parar ao lado de Lyra e Hermione, e parecia estar realmente zangada com a menininha. O rosto de Lyra estava mais branco do que de costume: aquela garota tinha a mesma expressão de sua mãe quando esta ficava furiosa. Mas Hermione não parecia nem um pouco abalada com a braveza da sonserina:
- Ninguém chamou você aqui, garota! Se você não ouviu a Professora Figg dizendo que todos os alunos deveriam voltar para suas casas agora, eu posso repetir pra você! – ela deu um sorriso irônico.
- Muito me espanta saber que uma monitora está encobrindo uma aluna do primeiro ano. – ela retrucou deixando Hermione sem resposta e voltando-se para Lyra novamente. – Você não sabe que não pode ficar aqui? Isso é perigoso! Você podia ter sido atingida por um feitiço como aquele garoto da Grifinória! Francamente...
- Ei, ela pode estar errada em estar aqui, mas você não tem o direito de passar um sermão nela! – Hermione estava ficando realmente irritada. – Você não é a professora... Sequer uma monitora.
Catharina virou o rosto lentamente e encarou a monitora com um olhar feroz:
- E quem disse que eu não posso? E afinal de contas, se os monitores não fazem seu serviço direito... – ela entortou a boca com desprezo.
Hermione já tinha levantado a varinha, quando Lyra gritou pedindo que ela parasse:
- Ela... ela está certa! Eu não podia ter vindo...
- Você acabou de salvar minha vida!! Se você não tivesse vindo...
- ... teríamos uma imprudente a menos em Hogwarts. – Cathy completou com cinismo.
Lyra, que até então aprecia congelada pela própria vergonha, ruboresceu, incomodada. Um pensamento passou pela sua cabeça e então ela respondeu num tom bastante indelicado:
- Não fale com ela assim! – a corvinal retrucou, zangada.
- Não responda pra mim! – o sorriso de deboche sumiu do rosto da sonserina.
- E por que não? Você não é minha parente nem nada... E se você pode falar assim com ela, eu também posso responder pra você!
Harry e Rony se aproximaram do grupinho que ainda estava no salão. Não eram mais que quinze pessoas, todas mudas assistindo àquela cena. Não havia mais ninguém da Sonserina além da menina e seu melhor amigo. A fama de intragável de Catharina Silver já tinha se espalhado bem para quem só freqüentava a escola há uma semana.
- É... você está certa. – a sonserina respondeu sem olhar para a garota. Eu realmente não deveria me importar... Não sou sua parente, não é mesmo? Sequer estou na mesma casa que você para me importar com os pontos que você acabou de perder...
A garota enfiou as mãos nos bolsos das vestes e saiu resmungando qualquer coisa num tom inaudível, passando por Higgs sem falar nada e seguinda para sua sala comunal.
- Deve ter sido ela! – Fred comentou logo que a menina saiu. – Se frustrou ao ver que o planinho dela de mandar você pra enfermaria não deu certo...
- Eu não acho – Hermione respondeu taxativa. – Ela não teria motivos para isso...
- Não teria motivos, Mione? – Rony, sem se lembrar de quem tinha motivos para ficar embaraçado, estranhou. – Ela é da Sonserina! Todo mundo sabe que os sonserinos detestam bruxos nascido trouxas... No mínimo o Malfoy contou pra ela!
- Você falou o nome da pessoa certa, Rony. Tenho certeza de que tem o dedo do Malfoy nisso...
- Bom, tendo ou não, eu vou ser obrigada a retirar alguns pontos da nossa casa, mocinha! – uma garota de cabelos enrolados e escuros, e olhos verdes muito bonitos se aproximou de Lyra. – Você realmente não devia estar aqui... Vou ter que comunicar à professora Figg e provavelmente você levará uma detenção...
- A culpa não foi dela, Lisa! – um menino de cabelos igualmente escuros e enrolados saiu detrás de um grande vaso disposto na saída do Salão Principal que dava para o Saguão de Entrada. – Fui eu que a trouxe aqui...
- Michael! – a monitora da corvinal aprecia perplexa. – Eu não acredito! De novo com esses desafios estúpidos? Ah, mas desta vez você não vai ficar sem punição de jeito nenhum! Vou eu mesma falar com o Professor Flitwick para ver se você para de levar inocentes pras suas armações...
A garota andou até ele e com todos os direitos de irmã mais velha, agarrou-o pela orelha e saiu arrastando-o pelo salão. Já tinha dado uns dez passos qando ela olhou para trás:
- Você também, garota! Já passou da hora de vocês estarem nos seus dormitórios.
Lyra deu uma piscadela e um sorriso para Hermione, para então sair correndo em direção aos dois alunos da Corvinal. Junto com eles um outro grupinho começou a dispersar, até que só Hermione, Harry e Rony restaram no salão.
- Você acha mesmo que foi o Malfoy? – Harry perguntou apesar de já saber a resposta.
- Acho.
- E será que nós podemos saber por que você nem considerou a hipótese da Chatarina Silver ter tentado? – Rony replicou ainda contrariado.
- Você chamou ela do quê? – Hermione estranhou.
- Chatarina... – Rony riu. – Foram Jorge e Fred que inventaram. E ela é uma Chata mesmo...
- Bom, Ron, o motivo pelo qual eu acho que não foi ela é... bem, você assistiu ela e a Angelina. Alguma coisa não deixou que ela usasse a varinha contra a Angelina. Pode ser que ela esteja bloqueada...
- Ela cortou o bandeira com um feitiço, Mione. – Harry lembrou.
- Eu sei. Não acho que seja isso. Acho que foi medo...
- Como? – os dois garotos perguntaram juntos, surpresos.
- Ela parecia ter medo de usar a varinha... Vocês não viram a expressão dela quando finalmente foi obrigada a usar? Parece que ela tem medo de magia...
- Mione, tem uma coisa que eu não contei a vocês, mas que talvez faça algum sentido nessa história toda... – Harry disse baixinho, a mão coçando o queixo (a autora finalmente deixou o Harry falar...).
- Você disse que tava ajudando aquela menininha da Corvinal a perder o medo de fazer feitiços, não é?
- O que é que a Lyra tem a ver com isso? – Mione estranhou.
- Eu... Bem, eu conheci a sua amiga nas férias... Lembra Rony que eu te contei de uma garota...
- A que tinha medo de você e era extremamente arrogante e antipática? – Rony foi certeiro.
- Você conheceu a Catharina nas férias? – Mione arregalou os olhos.
- Não. Conheci a Lyra! – ele respondeu um pouco sem graça.
- Ela não é arrogante, Harry. – Hermione amarrou a cara, gostava da garotinha.
- Isso não vem ao caso... Entretanto, bem, eu também conheci a mãe dela...
- Agora quem não tá entendendo nada sou eu... – Rony tinha o semblante confuso.
- Acontece, Rony, que a mãe da Lyra seria idêntica à Catharina Silver caso ela fosse uns 15 anos mais nova. – Harry finalmente desfez o mistério.
- Que? – Rony parecia ainda mais abobalhado. – Você... Você acha que elas são irmãs, ou coisa parecida, Harry?
- Foi o que me ocorreu... Vocês não perceberam que a Lyra parecia assustada e demorou pra responder para a Silver?
- Mas ela disse que as duas não eram parentes, não foi? E elas nem tem o mesmo sobrenome...
- Talvez ela não saiba que tem uma irmã... – Hermione finalmente abriu a boca, depois de ouvir atentamente a conversa dos amigos.
- É o que eu acho. Até porque o Sirius...
- Que é que o Sirius tem a ver com essa história? – cada novo detalhe deixava Rony mais perplexo.
- O Sirius conhece a mãe dela... Aliás, a Lyra é sobrinha-neta da Sra... Professora Figg. Eu não vou me acostumar com a minha vizinha sendo minha professora nunca... Bem, o Sirius me disse que a Lyra só tinha um irmão mais novo.
Os três dividiram o mesmo olhar desconfiado. Havia algum mistério por trás de uma história tão enrolada.
* * *
Quando Terêncio Higgs subiu as escadas que levavam do dormitório masculino do 7º ano até à sala comunal naquela manhã de outubro, seus olhos ainda lutavam para permanecerem fechados. Trombou duas ou três vezes nos degraus da escada e por pouco não levou um tombo em frente a uma aluna do segundo ano. O rapaz se segurou no corrimão disposto a manter-se de pé. Por que raios Cathy tinha de marcar aqueles encontros tão cedo?
- Atrasado – a garota resmungou logo que ele se jogou num dos sofás escuros e aconchegantes da sala retangular e comprida.
- Ah, Cathy, eu atrasei cinco minutos... Isso não merece uma bronca – ele disse contendo um bocejo.
- Merece sim. Antes de mais anda você precisa de disciplina. Essa é a regra número um do ballet.
- Fala baixo!!! – ele disse dando um salto do sofá e despertando repentinamente. – Se alguém ouve você dizendo isso vão achar que eu... que eu... – ele olhava todos os cantos da sala deserta àquela hora da manhã. – Diga aulas de defesa. Isso... Aulas de defesa é muito melhor.
- Como quiser. Não vou ficar discutindo uma banalidade dessas. Agora é melhor irmos tomar café...
- Acho melhor adiar um pouco o café, Srta. Silver. Preciso ter uma conversinha em particular com a senhorita.
Catharina Silver e Terêncio Higgs sentiram seus ossos gelarem. O diretor da Sonserina raramente entrava na sala comunal e, quando isso acontecia, podiam esperar reprimendas homéricas. Desde que chegara à Hogwarts, um mês atrás, era certo que Cathy causava algum problema na aula de Poções ao menos uma vez por semana. No entanto, ela sempre cumpria alguma tarefa extra por conta de seu mau desempenho na matéria. E se naquela semana ela havia inutilizado todo o estoque de fungos herbicidas de Severo Snape, também já tinha sido obrigada a desidratar dois quilos de ervas mágicas para compensar a perda. A garota olhou para Higgs, com um misto de desespero e incredulidade no olhar. O que será que ela tinha feito dessa vez?
- Claro, senhor. – Cathy baixou a cabeça e seguiu Severo Snape pela parede falsa que dava acesso ao castelo.
Fizeram o caminho até a sala do diretor em silêncio. A menina tentava decifrar o rosto enigmático do professor. Era sempre assim com ela: por mais que provocasse tumulto nas aulas, ele nunca a fitava com a raiva e o desprezo que destinava aos alunos das outras casas. Era frio, como a maioria de seus colegas de casa, mas ela sentia que, de certo modo, ele a protegia, o que não o impedia de passar castigos enfadonhos e monótonos todas as vezes em que ela se saía mal numa aula.
- Entre, por favor.
Uma nova parede falsa se abriu num dos corredores do subsolo. O escritório de Severo Snape era uma grande sala mobiliada com móveis escuros e sóbrios. Duas grandes estantes de madeira guardavam coleções imensas de livros. Uma delas parecia conter todos os livros de poções já publicados no mundo mágico, inclusive em outro idiomas. A outra, porém, que parecia ainda mais abarrotada, não trazia a identificação de um livro sequer. Eram todos volumes grossos, de capa negra, sem títulos nas laterais. Cathy imaginou como ele conseguia encontrar um livro no meio de todas aquelas edições anônimas, mas não teve coragem de perguntar.
Severo Snape apontou uma cadeira em frente a sua mesa, indicando que a garota se sentasse. Então, deu a volta ao redor do móvel e s sentou numa poltrona de aspecto bastante desconfortável.
- Acredito que já comentei com a senhorita que conheci sua mãe... – ele disse em tom trivial, olhando para alguns papéis sobre a mesa.
Catharina murmurou um sim baixinho, fixando o olhar numa grande pena verde-bandeira que se encontrava deitava na mesa do diretor da Sonserina. Não que a pena tivesse qualquer atrativo. Apenas queria evitar que seus olhos encontrassem os olhos de Snape.
- Bem, posso dizer que eu e Helen fomos... bem... amigos. E no pouco tempo em que você está nessa escola, pude perceber que não é apenas nos atributos físicos que a senhorita se assemelha a ela.
O professor fez uma pausa e observou a jovem a sua frente, levando a mão direita de encontro ao queixo dela e levantando seu rosto.
- A semelhança física é absolutamente indiscutível. Qualquer um que conheceu sua mão aos 16 anos diria que vocês são a mesma pessoa... – ele tinha um tom sarcástico na voz, do qual a garota não gostou.
Por maior que fosse o receio que tinha daquele homem, o comentário mexeu com seu brio, e ela respondeu no tom mais ácido que poderia falar sem ganhar uma detenção como recompensa:
- Somos PARECIDAS. Minha mãe estaria desafiando o Ministério para estar em Hogwarts fazendo-se passar por uma aluna mais jovem. O senhor não acredita que ela desrespeitaria as leis a esse ponto, acredita?
- Ah, sim, acredito. Sua mãe já fez coisa pior. Mas o fato de você ser quem diz ser não é da minha competência. Se Dumbledore autorizou sua entrada nessa escola, eu é que não poderia ir contra essa determinação. Além de que, eu não me incomodaria com a volta de Helen Silver. – a garota deu um sorriso que se apagou sem seguida: - O problema de sua mãe foi conviver com as pessoas erradas – ele entortou a boca, desgostoso.
- O senhor me chamou para discutir minha semelhança com minha mãe? – Cathy resolveu mudar o rumo da conversa para o motivo que a trouxera ali.
- De certa forma. Pois se a senhorita for tão parecida com ela no gênio, como é fisicamente, imagino que podemos ter uma confusão de grandes dimensões quando a senhorita ler o jornal esta manhã.
- O que o senhor quer dizer com isso? – ela franziu as sobrancelhas, intrigada.
- Veja com seus próprios olhos – Snape entregou à garota uma edição do Profeta Diário daquele dia.
* * *
- Mione, você tinha realmente que acordar a gente agora? – Rony resmungou da cama sem abrir os olhos.
No dormitório masculino do 5º ano da Grifinória, os roncos de Neville ainda ressoavam alto. Simas e Dino dormiam um sono pesado e, Harry e Rony relutavam em sair da cama, apesar da insistência da garota.
- Hoje é domingo, Mione! – Harry jogou o travesseiro sobre a cabeça, tampando as orelhas tentando evitar o ruído do mosquito despertador que Hermione conjurara para despertá-los. O inseto não devia ter mais de um centímetro, mas fazia um barulho parecido com passadas de elefantes todas as vezes que chegava perto do ouvido dos garotos. Foi a forma que a menina encontrou de acordar os amigos sem perturbar o sono dos outros garotos.
- Já são oito meia da manhã. Nós podíamos aproveitar esse tempo...
- Mione, você não ouviu o Harry? Hoje é DOMINGO!!!!
- Eu ia sugerir uma visita ao Hagrid, mas se vocês não querem...
- Como? – Harry deu um pulo na cama, e encarou amenina com os olhos arregalados.
- Hagrid chegou ontem à noite. Da janela do meu dormitório dá pra ver a cabana dele... Eu estava aproveitando a luz do luar para reler um trecho de Hogwarts, uma História a que o prof. Binns se referiu na aula de sexta sem precisar incomodar as meninas coma luz da varinha, e vi quando ele entrou na cabana trazendo alguma coisa nas costas... Só não consegui descobrir o quê... Estava muito longe...
- O que é que nós estamos esperando? – Harry caminhou de gatinhas sobre a cama até chegar ao baú onde estavam suas vestes, enquanto Rony tentava em vão acertar o mosquito-despertador que zumbiu perto de sua orelha com o travesseiro.
- Vou esperar vocês dois lá embaixo – ela deu uma piscadela e saiu do quarto, sem livrar Rony do incômodo.
* * *
- Lyra! Ei, Lyra!
- Zamolchi! – e virou para o outro lado, tampando o ouvido com o travesseiro.
- Lyra Rasputin! – Emily gritou arrancando o travesseiro das mãos da garota. – Você vai acordar! Por bem ou por...
Emily ia apontando a varinha para a amiga, que resolveu abrir os olhos para mostrar que estava desperta. Sabia muito bem o que a esperava se não fizesse isso: um jato de água gelada na cara. Na primeira vez em que se recusara a acordar para cumprir detenção, Emily fizera aquilo e Lyra não tinha a menor vontade de repetir a dose.
- Ok, ok. Já estou levantando... – a menina se espreguiçou, sonolenta.
O sotaque ainda dava certa graça às palavras de Lyra, mas ela não cometia mais erros gramaticais e usava a linguagem coloquial com naturalidade. Assim como também já manejava a varinha com segurança. Fazia mais de um mês que viera para Hogwarts e não tinha mais o ar assustado e indefeso de quando chegara. E o grande responsável por aquela transformação era seu colega de detenção, embora Lyra nunca admitisse que Michael Turpin conseguia entusiasmá-la.
- Você devia estar animada! É o último sábado de detenção, não é?
Lyra deixou que a escova escorregasse pelos fios negros e longos. O espelho refletia um semblante bastante desapontado.
- Graças a Merlim! – ela fingiu estar satisfeita. – Se passasse mais um sábado sendo espetada por aquela planta espinhenta tendo de ouvir aquele chato falar...
- Ah, Lyra, quando é que você vai admitir que o Michael é legal? Ele podia ter deixado você levar a culpa sozinha.
- É... bem... Isso foi legal mesmo, mas... – ela se virou e encarou a amiga. – Sabe, tem horas que eu acho que ele só fez isso para poder rir do meu sotaque com mais freqüência. Se você passasse quatro horas ouvindo alguém fazer piada com o jeito que você fala, você também teria birra da pessoa, Emmy!
- Ele nunca falou nada do meu... – a sardentinha forçou o sotaque irlandês, dando de ombros. – E, quer saber? Eu não ligaria!
- Você fala isso porque não é com você... – Lyra voltou a pentear os cabelos.
- Estou falando sério, Lyra. Ao menos isso significaria que ele sabe quem sou eu... – Emily tinha um tom de desapontamento na voz.
Sem notar, Lyra retrucou:
- Pois eu daria qualquer coisa pra ele esquecer que eu existo. E ele sabe quem você é sim... Eu vivo falando sobre você e o Ben durante as detenções.
- Lógico... – Emily disse num murmúrio inaudível. – Ele deve saber que eu sou a amiga da russinha...
Lyra não viu uma pequena lágrima rolar pelo rosto da amiga quando deixou o quarto para ir tomar o café, apressada. Estava atrasada.
* * *
- Que demora! – Hermione comentou quando finalmente Harry e Rony chegaram a sala comunal.
Harry não respondeu nada, apenas lançou um olhar feio a Rony que fingiu não notar, cantarolando uma canção qualquer. O trio desceu rapidamente para o Salão Principal e, tão logo sentaram-se à mesa da Grifinória, coruja responsável pela entrega dos jornais pousou na frente de Hermione.
- Aqui está seu dinheiro – a menina depositou dois sicles numa bolsinha que a coruja levava presa na pata esquerda.
- Você não vai ler jornal agora, né, Mione? – Harry ralhou. - Nós temos que ir à cabana do Hagrid.
- Até o Rony acabar de comer eu consigo ler o jornal inteiro... – ela disse desenrolando o folhetim.
O ruivo ia começar a protestar, de boca cheia mesmo, quando o olhar espantado de Hermione o impediu:
- Harry, veja isso! – e empurrou o periódico para o colega.
Rony aproveitou para olhar jutno com Harry e quase cuspiu a comida sobre o jornal ao ver as fotos da matéria de capa...
- Então nós estávamos certos... – o ruivinho murmurou, após acabar de engolir.
- Não pode ser... Ele... Ele teria me dito alguma coisa...
- Talvez ele não saiba, Harry – Hermione supôs.
O garoto no entanto já estava de pé, olhando para as outras mesas do refeitório. Nenhuma das pessoas que ele queria encontrar estavam ali. Ele olhou para as saídas do Salão Principal e encontrou uma das pessoas que talvez pudessem esclarecer alguma coisa. Sem explicar nada para os amigos, saiu da mesa da Grifinória e correu até uma corvinal baixinha, que parecia bastante apressada.
- Você já viu o jornal hoje? Sabia sobre isso? – ele mostrou a primeira página do Profeta Diário daquele dia.
Pela de surpresa, tanto pela abordagem súbita como por ver uma foto de sua mãe e de Sirius Black na capa do jornal, Lyra ficou muda. Não conseguiu responder nada. Seus olhos encararam Harry por um instante e este ofereceu o jornal para que ela lesse.
* * *
Quer saber o que foi que saiu no Profeta Diário? Então copie o endereço abaixo (não adianta Copiar e Colar; tive que separar os pontos porque o ff.net teve uma crise de ciúmes ao ver outro site com o endereço aqui...):
http:// www . maraudersfansite . hpg . com . br / jornal.jpg
