Capítulo 6 – A Liga Extraordinária

Eram pouco mais de três horas da tarde quando Yuri chegou da escola. Estava novamente sozinho. Os tios tinham partido de volta para a Rússia naquela manhã e o pai só voltaria do trabalho dali a duas horas.

Largou o material da escola de qualquer jeito sobre a mesa entulhada de papéis: alguns desenhos seus, alguns mapas do pai. Olhou para uma foto da família que estivera tentando copiar... Tinha a mão firme, mas ainda achava suas linhas bastante disformes. Era perfeccionista com seus desenhos, o mesmo não se podia dizer sobre os deveres que trazia de casa.

Yuri nunca fora bom aluno. Passava raspando em todas as matérias, normalmente por falta de dedicação. Achava todas as matérias da escola chatas e monótonas, especialmente matemática e biologia. Quanto ao resto, se não chegava a odiar, também não se podia dizer que gostava de alguma. Entretanto, nos últimos meses ele descobrira algo que realmente o interessava além de desenhar.

Um dos livros mais antigos de sua mãe estava largado sobre a mesa. Ele ainda não tinha total domínio do inglês, mas já sabia o suficiente para decifrar aquela pequena maravilha. Parecia um pequeno dicionário: pequenas palavras numa língua estranha seguidas pelo seu significado escrito em inglês. Um livro de feitiços.

O menino foi até o quarto do pai. Sabia que dentro da terceira gaveta da cômoda de mogno estavam guardados os poucos utensílios mágicos que a mãe possuía. Os livros ela trouxera da casa de Arabella Figg logo que se mudaram para Oxford. Dentro de uma caixinha, estava guardado um bastão partido ao meio. Remo Lupin disse que não poderia consertar, mas...

Yuri tirou a varinha quebrada e voltou a fechar a caixa verde-musgo. Então correu para a estante desarrumada onde o pai guardava (se é que se podia dizer que aquela bagunça era lugar para se guardar alguma coisa) seu material de escritório. Não demorou a encontrar o rolo de fita adesiva com a qual uniu os dois tocos de madeira. Pronto. Agora tinha uma varinha.

O garoto voltou para a sala e pegou a foto onde ele, a mãe, a irmã e o pai apareciam em frente a um jardim repleto de girassóis. Sua antiga casa. E agora, como faria para dar vida a uma foto? Tinha que haver um feitiço. Bom, vida em inglês era life... Talvez...

Não achou a palavra. E com certeza não a encontraria... Aquelas palavras estavam todas numa língua esquisita! Talvez se procurasse a palavra em russo: жизнь. Desse jeito nгo ia chegar a lugar nenhum: sequer o alfabeto que esse povo do oeste usava era parecido com o russo. Folheou o livro desanimado... Teria que encontrar o feitiço olhando as descrições uma a uma.

Morbidus: deixa a pessoa em estado doentio, com inclinações para febres e alucinações. Não, definitivamente não era esse. Mudou de página. Predictus: ótimo aplicador de pragas e maldições. Deve ser completado com o destino desejado a pessoa. Quem sabe esse...

- Predictus life! Ele bateu a varinha sob a imagem de sua mãe na foto.

Nada aconteceu. Será que aquela varinha estava funcionando? Será que tinha aplicado o feitiço correto? Na dúvida resolveu procurar outro feitiço. Vitalis: prolonga por alguns momentos a vida de um moribundo. Vida? Ele tinha visto a palavra vida? Tinha que estar naquela página! Passou os olhos em todo os verbetes. Enfim ele achou.

- Vita Brevis!

O rosto de Yuri se encheu de esperança ao ver fagulhas douradas saírem da varinha. E não soube se era uma alucinação provocada pela vontade de falar com sua mãe, mas teve a certeza de ter visto o rosto dela se mexer dentro da foto antes de se tornar estático novamente.

- Vita Brevis! – ele tentou novamente, mas desta vez nada aconteceu.

- Fazer mágicas sem a supervisão de um adulto pode resultar em alguns ossos quebrados e fios de cabelos chamuscados, Sr. Rasputin...

Yuri deu um salto para trás, assustado. Sirius Black estava dentro de seu apartamento.

- C-como você entrou aqui? A-a p-p-porta está trancada!

- Aparatação... Você vai aprender isso na escola quando for mais velho. Mas, eu entendi bem? Você estava tentando fazer um feitiço?

Yuri olhou para mão que segurava a varinha remendada. Não havia como negar. Quem sabe Sirius o ajudava?

- Estava tentando falar com a minha mãe... – ele respondeu voltando para a mesa e olhando a foto.

- Com um Vita Brevis? Não é mais fácil usar o telefone? – Sirius apontou o aparelho que ele mesmo tinha comprado 20 anos antes.

- Onde ela tá não tem telefone – o garoto respondeu meio emburrado. – E eu não sei mandar corujas, muito menos o tal do pó de flu...

- Ora, você já sabe sobre corujas e pó de flu? Mas eu não entendi esse negócio da Helen não ter telefone. A escola onde ela trabalha tem telefone, não tem? Nesse horário ela deve estar trabalhando.

- É que... bom... minha mãe detesta que alguém ligue no trabalho dela... Só casos urgentes e...

- E então você estava tentando dar vida a uma foto pra tentar conversar com ela – Sirius reparou no retrato que o garoto segurava.

- Isso mesmo. – ele balançou a cabeça confirmando.

- Bem, com uma varinha em boas condições – o adulto reparou no remendo de fita adesiva -, você teria alguma chance de conseguir isso. Mas não seria sua mãe... Quero dizer, seria uma imitação dela. Só poderia responder coisas que você já sabe, pois estaria baseada nas suas memórias.

Yuri abriu a boca admirado. Nunca tinha pensado que feitiços tinham tantas restrições.

- E existe alguma maneira...

- Escreva uma carta que eu peço a Carol para colocar no correio-coruja para você.

- NÃO! – ele se assustou.

- Ué, você não quer falar com sua mãe?

- Quero, mas... Sabe, ela está numa cidade trouxa... Corujas iriam chamar a atenção e, bem, eu não tenho o endereço dela...

- Não é preciso endereço, Yuri. Corujas acham o seu destino. E eu posso pedir que ela contrate uma coruja bastante discreta,

- Deixa pra lá. No final de semana ela vai ligar. Daí eu converso com ela. – ele jogou a varinha e a foto sobre a mesa e foi sentar-se num sofá perto da lareira.

- Falando em conversa... Estou aqui para a nossa – Sirius sentou-se defronte ao garoto.

- Ah, sim, lógico! – o garoto reagiu rápido. Tinha-se esquecido que marcara aquela conversa.

- E... Sobre o que é que você quer falar? – Sirius sorriu, prestativo.

- O senhor era namorado da minha mãe, certo?

O adulto jogou o corpo para trás. Não esperava que o garoto fosse direto ao ponto. Entretanto, não havia dúvidas de que ele era filho de quem era... Helen nunca fora de fazer rodeios.

- Bem, isso foi há muito tempo... – ele tentou se explicar.

- Eu usei o verbo no passado, não usei? – o garotinho foi curto e grosso e Sirius se sentiu idiota por levar uma tirada de um moleque mal-educado de nove anos.

- Usou. – o homem respondeu secamente.

- Vocês... Vocês namoraram sério? – Yuri desviou o olhar.

- Depende do que é que você considera sério. – Sirius estava levemente irritado.

- Bem... você escreveu no livro que não queria se separar ela... – o menino se levantou e se colocou na frente da lareira, sem olhar para o bruxo.

Sirius ficou mudo. O que o garoto esperava que ele falasse?

- Então... por que foi que vocês se separaram? – ele se virou e encarou Sirius, tirando forças não sabia de onde.

- Hum... bem... isso você tem que perguntar a sua mãe. Não fui eu quem terminou o namoro, mas ela. Provavelmente ela se apaixonou pelo seu pai quando foi para a Rússia... – quem desviava o olhar era Sirius. Odiava pensar que aquilo pudesse ter acontecido, mas parecia ser o óbvio.

- Não. – ele respondeu calmamente, com uma frieza inimaginável para um garoto de sua idade. – Tio Alexei sempre diz que papai é o rei da insistência, pois conseguiu convencer minha mãe a namorá-lo depois de cinco anos de tentativas frustradas. E, bem, pelas minhas contas... Eu não sou nenhuma maravilha em matemática, mas deu pra perceber que minha mãe só começou a namorar meu pai depois que o senhor foi preso.

Foi a vez de Sirius levantar o rosto e encarar o moleque.

- Aonde exatamente você quer chegar?

- Bem... Se o senhor não tivesse sido preso... É... bem... Quero dizer, se minha mãe não tivesse ido para a Rússia, quero dizer...

Sirius acompanhava os braços do menino que se mexiam sem parar. Ele não conseguia achar as palavras que queria para se expressar.

- Bom... se vocês dois não tivessem se separado, o senhor poderia ser meu pai. – o garoto disse por fim.

- Como? – Sirius deu um sorriso incrédulo. Não estava entendendo nada daquela conversa.

Yuri sentou-se no tapete da sala, um tanto entristecido.

- Não pense que não gosto de meu pai. Ele é o pai mais legal do mundo – acrescentou rápido. – Me ensinou a andar de bicicleta; sempre que pode joga videogame comigo; leva eu e Lyra todos os anos na semana de Natal para patinar num ranking de patinação montado num lago congelado no centro de Píter, mas...

- Mas?

- Mas ele não é bruxo... E, bem, mamãe está longe e eu sei que ela está proibida de fazer mágicas. Então, bem, isso quer dizer que eu só vou aprender a usar uma varinha na escola...

- Sua irmã está aprendendo agora também. Tem muita gente que chega na escola sem saber nada... Meu afilhado, Harry, também não sabia anda quando chegou a Hogwarts. Descobriu que era bruxo dois meses antes de ir para lá.

- O senhor não entendeu – Yuri parecia prestes a chorar. – Eu-eu queria crescer como uma criança bruxa... Eu não sou como as crianças trouxas! Eu sei que não sou! E elas também sabem! Eu sempre faço alguma coisa de estranho acontecer todas as vezes que tento brincar com um trouxa... E todos sempre fogem de mim! Se eu soubesse controlar... Ou se eu conhecesse outras crianças bruxas... Se eu tivesse um pai e uma mãe bruxos...

- Você tem uma mãe bruxa. Ela não pode fazer magia, mas pode ensiná-lo a controlá-la. Tenho certeza disso. Helen é uma boa professora... – ele se lembrou de quando a ex-namorada estava lhe ensinando a cuidar de Rabicho.

- Mamãe está em Cambridge, Sirius. Ela não pode me ajudar de lá... Eu pensei que... Bem, o senhor deve ter gostado dela... Talvez possa gostar um pouquinho de mim também, afinal eu sou filho dela... Podia ter sido seu filho.

Aquelas palavras cortaram o coração de Sirius. O menino só precisava de alguém que pudesse lhe mostrar...

- ... eu não quero ficar como Lyra, Sirius! Minha irmã tem medo do que ela é!

Sirius aconchegou o rosto entre as mãos, os olhos pousados na figura suplicante do garoto.

- Você quer um pai bruxo, eu entendi direito?

- Eu quero que VOCÊ seja o meu pai bruxo - Yuri consertou. – Se o senhor quiser, é claro... – ele disse baixando os olhos.

- E por que é que eu não ia querer? – Sirius sorriu, um pouco de pena e um pouco de surpresa. Sabia que passaria uma noite acordado pensando no que aquele garoto acabara de lhe dizer. Um pai bruxo? Pai do filho de Helen?

- Bem... Eu não sou pai... Só tenho um afilhado, mas... Bem, quando eu era pequeno me lembro que uma das primeiras coisas que meu pai me ensinou foi a voar numa vassoura... – Sirius coçou o queixo, pensativo. – Eu não posso ir ao Beco Diagonal escolher uma vassoura pra você... Talvez se pedíssemos um catálogo do Qual Vassoura?... Ainda assim... Já sei. Você tem pó de flu em casa?

- Pó de flu... Pó de flu... Um pó cintilante que as pessoas usam pra desaparecer na lareira? – o garotinho perguntou.

- Esse mesmo.

- Tem sim. Minha mãe tem guardado.

Yuri saiu correndo pelo apartamento e voltou com um saquinho de veludo escuro, cheio do pó cintilante. Entregou-o a Sirius, que o abriu com cuidado e tirou um punhado daquela areia fina de dentro. Então, colocou o rosto para dentro da lareira e, ao jogar o pó do flu ali dentro, disse em voz clara: Galahad Street, 287.

* * *

Mais uma vez Remo estava no Ministério da Magia. Enquanto esperava registrarem sua varinha, seus olhos pousaram no chafariz do saguão de entrada. Estátuas de ouro de um bruxo, uma bruxa, um duende, um elfo e um centauro enfeitavam o círculo d'água. A imagem deveria representar a união dos povos mágicos, mas além de estarem faltando representantes de diversos povos, a disposição dos que ali estavam deixava dúvidas sobre uma possível relação de igualdade entre eles.

O bruxo e a bruxa eram retratados como superiores aos outros seres e Remo tinha certeza que era por atitudes pequenas como esta que teriam tantas dificuldades para reunir apoio contra Voldemort. Os duendes, como donos do maior banco do mundo mágico, tinham algumas pequenas regalias perto dos outros povos. Tinha um departamento chefiado por alguém de sua classe, ao contrário dos elfos domésticos, que eram representados por um bruxo, e dos centauros, que sequer contavam com uma representação dentro do Ministério.

Naquela tarde, Remo tinha uma hora marcada com Betume Goblins, da Seção de Duendes. Para todos os efeitos, vinha tratar de uma reclamação contra o Gringotes, que considerava seu cofre confidencial até mesmo para ele. Mas o objetivo real era conseguir o apoio dos duendes para as futuras batalhas que aconteceriam quando do reerguimento de Voldemort. Não era a primeira vez que Remo vinha tratar daquele assunto. A resposta de Goblins era sempre negativa, porém com uma breve hesitação. E era nessa hesitação que Remo se apoiava para voltar a procurar o duende.

- Já está registrada, Sr. Lupin. Pode se dirigir ao terceiro andar. O Sr. Goblins já está a sua espera. Precisa de ajuda do Serviço de Aparatação para chegar até lá?

- Não. - Lupin e respondeu e num piscar de olhos sumiu da frente do recepcionista.

O terceiro andar do Ministério da Magia tinha algumas peculiaridades. Contava com uma cabine de teletransporte, uma vez que muitos duendes freqüentavam o local e estes não sabiam aparatar. Muitos dos móveis eram baixos demais para um bruxo, mas se adequavam perfeitamente a altura dos duendes. Remo teve de abaixar a cabeça para poder entrar no escritório do Sr. Globins, que acabava de despachar uma grande pilha de papel com sua secretária, uma bruxa velha e extremamente baixinha - ainda assim, maior que o duende.

- Boa tarde, Sr. Lupin. Espero que tenha vindo me trazer novidades desta vez... - o homenzinho falou arrumando os óculos sobre o nariz retorcido, e assinando alguns papéis sobre a mesa.

- É uma pena desapontá-lo, Sr. Goblins, mas são ventos antigos que me trazem. Continuamos precisando do apoio de seu povo.

- Se o seu Ministro descobre que vocês planejam uma rebelião contra ele...

- Não tramamos uma rebelião contra ele. Mas eu achava que o senhor não nutrisse grande simpatia pelo Ministro.

O duende deu um sorrisinho irônico e finalmente encarou Remo.

- Escute, meu jovem, você é bastante inteligente para perceber que o que existe entre os bruxos e os duendes são trocas de favores. O Ministro nos deu permissão para votar nas decisões do mundo da magia unicamente porque precisam dos nossos serviços bancários.

- Devo repetir ao senhor que esta é uma visão generalista. Que o Ministro pense dessa forma, eu não duvido, entretanto, Dumbledore... - Remo buscou argumentar.

As conversas com aquele duende eram sempre difíceis. Lupin havia conquistado um pouco de confiança após tantas visitas, mas além daquele povo ser desconfiado por natureza, tinham inteligência aguçada e não tomavam nunca uma decisão sem ter certeza de estarem ganhando alguma cosia com aquilo.

- Sei que Dumbledore pensa diferente, jovem. Mas Dumbledore é visto como um excêntrico pela sua própria comunidade...

- Dumbledore é o bruxo mais poderoso desse país, Sr. Goblins. E sua excentricidade não o faz menos inteligente.

- Não duvido da inteligência de Dumbledore, Sr. Lupin. O que estou querendo dizer é que o seu povo talvez não queira seguir com ele. - ele ergueu as sobrancelhas, e então disse em voz amarga. - Seus iguais se acham superiores a nós e aos outros povos mágicos. Os bruxos fazem acordos conosco por conveniência, não por simpatia. Estão acomodados sob as asas do Ministro, imaginando que nenhum mal lhe pode acontecer.

- Ao menos acredita que Voldemort está de volta?

- Se ainda não voltou, há de voltar um dia. Disso não tenho dúvida. O que não altera muito a situação dos duendes. Fudge e Voldemort não são assim tão diferentes, jovem. O problema está no fato de Voldemort achar que até mesmo entres os bruxos existem aqueles que são superiores uns aos outros.

Remo sabia que o duende estava certo. Ele mesmo sofria discriminação por não ser puro. Lobisomens eram considerados inferiores com ou sem Voldemort no poder. Ainda assim ele não queria que os tempos sombrios vividos há tantos anos voltassem.

- Espero que o senhor não imagine que todos os funcionários do Ministério pensem como o Ministro - uma voz feminina suave e gentil invadiu a sala.

Remo sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Se tivessem escutado aquela conversa ele poderia ser preso por conspirar contra o governo. Mas o rosto do duende demonstrava que Remo não precisava ficar apreensivo. Seja lá quem fosse que estivesse ali, era de confiança.

- Entre, Srta. Kudrow, imagino que vá gostar de ouvir o que este senhor tem para me contar.

Kudrow. Ele tinha ouvido direito? Remo virou-se num átimo para confirmar sua idéia. Bonnie passava ligeiramente agachada pela porta, segurando um envelope pardo, que ela depositou sobre a mesa do duende:

- Como vai, Lupin? - ela sorriu e ofereceu a mão direita.

Meio atrapalhado, Lupin se levantou, batendo a cabeça no teto baixo. Não sabia agora se a cumprimentava a ex-colega da escola ou tentava aliviar a dor na cabeça. O sorriso no rosto da mulher de cabelos castanhos presos por uma pena e óculos gatinho não se apagava.

- Então já se conhecem? Isso é bom. Talvez você devesse dar uns conselhos para o seu amigo. E o que é isso? - o duende levantou o envelope.

- Fudge cometeu outro daqueles "erros acidentais", Gobblins. Mande sua secretária refazer o pergaminho com as minhas correções ou Gringottes vai perder uma pequena fortuna para o Ministério.

- Você está trabalhando aqui? - Remo finalmente falou alguma coisa. - Mas eu nunca a encontrei pelos corredores e...

- Trabalho para Gringottes, Remo. Só vim trazer os papéis de uma transação para serem corrigidos.

- Excelente funcionária - o duende sorriu para a bruxa. - Se o senhor convencê-la a ficar do lado de vocês, eu assumo a responsabilidade pela colaboração do meu povo.

- Não ponha tamanha responsabilidade sobre minhas costas, Sr. Globbins - Bonnie advertiu.

- Sr. Lupin estava tentando me convencer de que os bruxos podem tratar duendes como iguais. Sei que existem minorias, como é seu caso...

- Não é exatamente isso. - Remo interrompeu. - Bonnie, os boatos de que Voldemort está de volta são verdadeiros. Harry Potter reencontrou-o no final de junho e pode assegurar que ele está forte novamente. Estamos tentando reunir...

- Eu sei disso tudo, Remo - A bruxa não deixou que ele terminasse a exposição e virando-se para o duende. - Sr. Goblins eu só posso pedir que o senhor ouça meu amigo com atenção. Ele tem motivos para não se importar com o destino da comunidade bruxa e no entanto não está poupando esforços para impedir o retorno de Você-Sabe-Quem. Sabemos que Fudge não é a melhor opção disponível, entretanto, um governo descaradamente excludente como o que pode vir com a ascensão de Você-sabe-quem não traria nenhum benefício para os duendes.

- Motivos para não se importar com a comunidade bruxa? - o duende parecia não ter ouvido mais nada do falatório de Bonnie. - Que tipo de motivos? Ele é um bruxo...

- Eu sou um lobisomem. Eu também sou um "cidadão de segunda classe" perante o Ministério - Remo afirmou um pouco incomodado com o sorriso de deboche que surgiu no rosto do duende.

Bonnie olhava para o chão, constrangida de ver o antigo colega revelar seu maior segredo.

- Agora sim você conseguiu me convencer que Dumbledore realmente apoia as minorias, rapaz. Por que não falou isso antes? - Remo e Bonnie arregalaram os olhos e se entreolharam, surpresos. - Teremos uma assembléia dos duendes na próxima semana. Vou expor o oferecimento de Dumbledore a meu povo. Mandarei uma resposta para Hogwarts em seguida, certo?

- Lógico... Eu não sei como agradecer. Quero dizer, estamos nos preparando para uma luta da qual depende a segurança de todos nós, mas...

- Agora vocês dois podem ir. Eu tenho muito trabalho por hoje. - o duende estalou os dedos e quando Remo e Bonnie deram por si, estavam de pé no saguão de entrada, próximos ao chafariz central.

* * *

Margot Stuart pensou seriamente em desistir. Como alguém poderia escrever tão mal e ainda querer que seu livro fosse publicado. E com certeza Walter Tristan teria seu livro publicado, com direito a noite de autógrafos na Floreios e Borrões. E ela continuaria apenas revisando textos e sonhando com o dia em que seu próprio livro estaria nas prateleiras das livrarias do Beco Diagonal.

Colocou o rolo de pergaminho de lado e se espreguiçou, devia estar debruçada sobre aqueles manuscritos há pelo menos cinco horas. Não tinha parado sequer para almoçar – o estômago vazio começava a chiar. Era o preço a pagar por seu sonho.

A irmã de Carol Stuart vivia em Liverpool desde que se casara. A cidade portuária, apesar de movimentada, ainda guardava certos encantos de uma cidade pequena, como a pracinha a menos de duas quadras de sua casa onde costumava levar os três filhos para passear. Agora estava de volta a Londres, onde as crianças passavam a maior parte do tempo na escola trouxa e Margot ficava na casa da irmã corrigindo os rascunhos de celebridades do mundo mágico que não sabiam sequer para que usar pontos finais nas frases.

Quando se casou, Margot achou que estivesse fazendo a coisa certa. Seu marido, Thabo Zuberi, era um bruxo de descendência africana, educado no antigo sistema machista em que as mulheres não podiam ser mais que bruxas do lar. Tivera de cortar relações com sua família já no segundo ano de casados, pois o marido não admitia que suas duas irmãs trabalhassem. Para Thabo, a pior situação era a de Florence, a caçulas das irmãs Stuart, que era jogadora de quadribol. Além de ter um emprego, ela tinha um emprego "masculino" – como se bruxas não pudessem praticar tal esporte. Ainda assim ela achava que estava agindo bem e, de certa forma, fora feliz até pouco tempo atrás. Até o sonho de ser escritora que a acompanhava desde garota voltasse com toda a força.

Ao descobrir as intenções da mulher, Thabo Zuberi pedira divórcio. Ele não suportaria a vergonha de ver o nome de sua esposa na capa de um livro. Margot pedira desculpas, jurou que esqueceria a idéia e os dois se reconciliaram. Mas uma nuvem negra continuou a pairar sobre o casal, que viu o casamento ir definitivamente por água abaixo no dia da morte do irmão mais velho das Stuart.

Filhas de trouxas, Florence, Margot e Carol tinham ainda dois irmãos que haviam nascido sem sangue mágico. O mais velho e o mais novo dos cinco filhos. Esquecendo-se dos laços rompidos com sua família, Margot abandonou o marido e os filhos para acompanhar o enterro de Bruce Stuart e rever seus irmãos. De volta ao que era sua vida antes do casamento, ela decidiu dar um ponto final naquela história. Trazer os filhos para a casa da irmã, com quem morava desde então, fora a parte mais difícil. Thabo estava irredutível em conseguir a guarda dos pequenos e só desistiu de brigar no Ministério da Magia porque sabia que perderia a causa, afinal, não tinha tempo para cuidar deles.

Já fazia dois meses que as crianças tinham chegado. Kamaria* era a mais velha, de dez anos, seguida pelo irmão Kayode*, de nove, e da pequena Malaika*, de sete. Os três eram a vida de Margot, junto com as histórias que voavam pela sua cabeça o tempo todo. Entretanto, até publicar seu próprio livro, a única maneira que a bruxa encontrara para se sustentar era revisar e editar material alheio.

Ela enfim se levantou e foi até a cozinha. Carol morava na casa que fora de seus pais e os retratos da família estavam por todos os lados. Eram os rostos de seus pais e do irmão morto que lhe davam forças para continuar. Bebeu um copo d'água e voltou para a sala. Ainda faltava muito para terminar.

Estava tão cansada que quando começaram a chamar da sala de estar, ela achou que fosse sua imaginação. Quem procuraria Carol num horário daqueles, afinal? Todos os amigos de sua irmã sabiam que ela estava no trabalho àquela hora. Então ela ouviu mais uma vez:

- Carol? Tem alguém em casa?

Margot estranhou: aquela voz lhe era familiar, mas não conseguia atinar quem era. Quem sabe um dos ex-colegas de escola? Não via nenhum a tanto tempo...

- Quem é? – ela perguntou dirigindo-se à outra sala.

- Carol, - a pessoa pensou que a dona da casa respondera. A voz das duas irmãs era muito parecida. - Eu preciso lhe pedir um favor. Você não teria coragem de recusar, teria?

- A Carol não está, mas se eu puder ajud... – a voz de Margot se evaporou de repente, com o susto. O rosto de Sirius Black estava em sua lareira.

A pena e o pergaminho que carregara consigo caíram no chão, sujando o piso levemente por conta da tinta molhada.

O rosto de Black tremulava entre as chamas esverdeadas: ele também estava sem palavras. Não imaginava que pudesse encontrar uma das irmãs de Carol.

- Margot, fique calma. – Sirius resolveu se defender antes que ela começasse a gritar ou coisa parecida. – Eu-eu não sou culpado. Eu...

- Ele é meu amigo. E meus amigos sempre serão bem-vindos na minha casa. – a irmã mais velha de Margot tinha chegado do trabalho.

A mais nova não disse nada. Continuava muda pelo choque. Olhou para sua irmã procurando uma explicação para que um fugitivo perigoso tivesse acesso a lareira, mas Carol não se preocupou em explicar.

- Precisava da minha ajuda? Algum problema com os mapas? – ela se abaixou em frente à lareira.

Sirius deu uma última olhada desconfiada para Margot e então começou a falar:

- Não. Os mapas estão perfeitos. O que é óbvio, uma vez que sou eu quem os desenha. – ele deu um sorriso irônico que a morena respondeu com outro de cinismo.

- Se não são os mapas...

- Ontem você me deu um recado, lembra?

- Recado? Que recado? Ah, o recado do filho do Dmítri...

Sirius sorriu ao vê-la chamar uma pessoa que conhecia há tão pouco tempo pelo primeiro nome. Não pensava que Carol estivesse apaixonada por pelo marido de Helen, mas que a bruxa nutria um carinho especial por aquele homem, isso ele podia dizer.

- Pois eu estou aqui no meu antigo apê... ele não mudou muito sabe? – a bruxa viu o rosto girar entre as labaredas. – E eu tenho um pedido a fazer.

- Então faça logo, deixe de enrolação. Dmítri quer que eu vá para aí? – Carol perguntou ansiosa.

- O Rasputin nem tá aqui, Carol. Mas o Yuri está e, bem, eu achei que você podia dar uma voltinha com ele no Beco Diagonal, para comprar uma vassoura... O garoto já está na idade aprender a voar, não acha?

- Você pediu o consentimento dos pais dele, Sirius? – ela perguntou desconfiada.

- Ficou doida? Se eu perguntar pra Helen se ela deixa eu ensinar o filho dela a voar ela me joga de um precipício. Ela morre de medo de qualquer coisa que se afaste dois centímetros do chão...

- Realmente... Ela só não era pior que o Mund... – e então ela ruboresceu. Tinha chamado o ex-noivo pelo apelido. Detestava quando isso acontecia. – Mas o pai dele devia saber e autorizar primeiro... – ela voltou logo ao assunto.

- Eu falo com ele depois. Agora nós precisamos de uma vassoura. Eu mesmo faria isso se pudesse... – e então ele hesitou e olhou para trás. – É mesmo... Às vezes eu esqueço disso. – ele comentou enquanto voltava a falar com Carol. – Yuri acabou de me lembrar que eu POSSO ir. Estaremos aí em dois segundos e não se atreva a dizer que não vai. Preciso de você para tirar algumas moedas de Gringotes. E você vai ter a satisfação de me ver com uma coleira vermelha novamente... – Sirius resmungou baixinho, sem impedir que Carol entendesse a última frase.

Ele não esperou que ela respondesse e em exatos dois segundos, Yuri apareceu na lareira e Sirius aparatou na Galahad Street. Margot continuava muda. A irmã definitivamente era louca, mas ela não podia fazer nada. Carol era tão cabeça-dura quanto um grifinório. O menininho disse um oi acanhado que ela respondeu com um sorriso e então a aspirante a escritora recolheu a pena e o pergaminho que tinha deixado cair, voltando para a sala onde estavam os originais do mais novo livro de Walter Tristan.

* os nomes dos filhos de Margot significam "como a lua" (Kamaria), "aquele que trouxe alegria" (Kayode) e "anjo" (Malaika).

* * *

Satisfeito por não ter mais que tomar cuidado para não bater a cabeça no teto, Remo espreguiçou-se levemente. Tinha dores nas costas todas as vezes que vinha conversar com o Sr. Goblins. Bonnie sorriu para o antigo amigo. Há tempos queria revê-lo, só não imaginava que isso aconteceria hoje. Chegou a achar que ele não queria reencontra-la.

- Mandei um recado pelo Fletcher outro dia...

Remo ficou encabulado no mesmo instante. Tinha se esquecido que Annie e Mundungo haviam lhe falado que Bonnie queria vê-lo.

- Hum... é... bem... Ele me contou... E a Annie... Eu pretendia... Sabe como é... Semana de lua cheia...

- Ah, é verdade... – ela evitava olhar para Remo.

Quando ainda estavam na escola, Bonnie era a melhor amiga de Remo. Faziam boa parte dos trabalhos juntos, e quando o rapaz não estava com seus amigos de armações – Sirius, Tiago e Pedrinho -, era ao lado da garota que ele era visto. Ao menos até meados do 7º ano, quando Remo finalmente arranjara uma namorada, a alufada Margot Stuart.

Aquele fora o maior golpe que Bonnie sofrera. Amava o amigo em segredo desde o 3º ano, mas nunca tivera coragem de se declarar, mesmo que todos os colegas vivessem alfinetando ela e Remo. Desde então passara a se afastar do amigo, com medo de atrapalhar o romance que ela mesma ajudara a iniciar no dia do baile de formatura.

A advogada sempre soubera do "problema" de Lupin, mas nunca havia comentado isso com ele. Fazia-se de cega ante todas as ausências dele nas semanas de lua cheia e Remo só viera a descobrir que ela conhecia seu segredo naquela tarde, quando ela dissera que ele tinha motivos para não se importar com a comunidade bruxa.

- A gente precisa se encontrar para conversar qualquer dia... – ela comentou, ainda sem graça. Parecia até que era a adolescente boba de 20 anos atrás e não a advogada corajosa que se tornara.

- Você está em horário de serviço agora, não é? – Remo franziu a testa. Queria realmente encontrar um tempo para conversar com a amiga, mas nunca sabia quando teria tempo livre. Arabella sempre mandava tarefas nas horas mais inapropriadas.

- É, estou. Tenho que cumprir expediente na agência do Beco Diagonal até as cinco da tarde. – ela finalmente reuniu coragem para encarar o amigo.

- Está indo pro Beco, então? Eu preciso mesmo passar na Floreios & Borrões. Podemos ir juntos...

- Você quer dizer... – ela tinha um ar de surpresa no rosto.

- Sabe andar de transporte trouxa? É um meio de prolongar a viagem. – ele sorriu e piscou para Bonnie.

- Sei sim... Prefere ônibus ou metrô?

- Metrô... Deve ter umas três baldeações daqui até o Beco. Nós não devemos levar menos de uma hora e meia para chegar até lá! E você pode dizer que houve uma confusão aqui no Ministério, que não queriam devolver sua varinha...

- Ora, ora... Quem diria? Remo Lupin ajudando a amiga a matar o serviço...

- Eu sempre fui bom em arranjar desculpas – ele levantou a sobrancelhas comicamente.

- Você? Bom em arranjar desculpas? Nossa! Essa foi a maior mentira que eu já ouvi, Lupin. Se Sirius e Tiago não te ajudassem a inventar histórias mirabolantes para explicar suas ausências, você não seria capaz de explicar seu sumiço mensal em sete anos de escola. – ela começou a caminhar em direção à saída

- Ei, eu inventei umas três ou quatro desculpas durante esse período! – ele deu uma breve corrida para alcança-la, meio sem fôlego por tentar correr e rir ao mesmo tempo.

Qualquer um que visse os dois deixarem o Ministério imaginaria que tinham sido alvo de um feitiço de animação.

* * *

- Uau!! – Yuri admirava cada loja da rua de paralelepípedos de boca aberta. Jamais imaginara ver tantas coisas apaixonantes num mesmo lugar.

- Acho que você devia levar alguns livros também, Yuri. Sempre é bom conhecer um pouco de teoria mágica...

Mas o garoto nem ouviu. Saiu disparado até uma loja de animais, os olhos vidrados num gato preto de olhos vermelhos. Seria um animal bonito se não fosse aterrador. Sirius, em sua forma animaga, seguiu tranqüilamente, e ao parar em frente à vitrine, arreganhou os dentes para o bichinho, provocando miados desesperados. Não gostava muito de gatos.

O garoto olhou de relance para o cachorro e voltou a mirar o gato, que arranhava uma almofada dentro da jaulinha em que estava preso, desesperado para sair.

- Minha mãe gosta de gatos... Diz que são espertos! – o menino retrucou, passando os olhos numa gaiola onde uma coruja âmbar dormia.

Sirius esfregou uma das patas dianteiras no chão de pedra e baixou a cabeça, num sinal de desprezo.

- Sua mãe tinha o gato mais lindo que já vi – Carol comentou se aproximando dos dois. – Mas ainda acho que corujas são mais úteis. Gatos não costumam ser... hum... confiáveis.

- Eros é – o menino encarou a bruxa ao responder, sentindo um calor subir-lhe a garganta.

- Ele ainda está vivo? – Carol se espantou, enquanto Sirius rodeava a loja e latia para um bando de ratinhos pretos.

- E por que não estaria? – o menino deu de ombros e saiu andando em direção a próxima loja, deixando Carol intrigada. Como um gato comum poderia viver mais de 20 anos?

A loja vizinha era uma casa de condimentos e ervas mágicas. Todos os tipos de ingredientes usados em poções poderiam ser encontrados ali. Talvez por isso o lugar cheirasse tão mal, o que fez com que Yuri abandonasse sua investigação e passasse a loja do outro lado da rua. A loja de vestes de Madame Malkins estava cheia naquele dia. Provavelmente haveria algum casamento ou cerimônia do tipo, pois era possível ver bruxas de todas as idades em vestes de gala, olhando-se em espelhos, torcendo o nariz ou sorrindo, conforme o caimento da roupa. Carol olhou com interesse uma veste de noite azul celeste, estampadacom todas as estrelas do céu piscando incessantemente. O semblante dos poucos homens dentro da loja, no entanto, era o mesmo que estava no rosto de Yuri e de Sirius: tédio.

O cachorro latiu para atrair a atenção de Carol e saiu correndo entre os transeuntes até chegar a uma loja de esquina, com o garoto seguindo-o a toda velocidade. Carol deu um suspiro de impaciência e saiu andando vagarosamente atrás dos dois.

A vitrine da loja de Artigos de Qualidade para Quadribol mostrava uma Firebolt reluzente e, ao lado dela, a Comet 510 parecia ser invisível. Até mesmo Yuri, que não entendia nada de qualidade e tipos de vassouras, notara a diferença.

- Linda, não? – Carol comentou ao ver a cara de bobo do garoto.

- Deve ser caríssima! – O menininho comentou, com um sorriso triste no rosto.

- E é. Veja. Eles nem colocam o preço para não assustar os fregueses.

Yuri reparou que sob a Comet tinha um letreiro dourado indicando seu valor, enquanto a Firebolt trazia um "preço a combinar". Sirius rosnou em protesto. Não era TÃO CARA assim... Carol fez cara de reprovação diante da atitude do cachorro.

- Carol, o que é essa sigla G$ antes dos números.

- Indicação da moeda. A Comet custa 67 galeões. Se fosse S$, seriam 67 sicles, e N$, 67 nuques.

- E quanto isso significa em dinheiro de verdade? – ela levantou as sobrancelhas, insatisfeito coma resposta.

Carol riu. Às vezes ela se esquecia que trouxas – e bruxos que haviam acabado de descobrir que não eram trouxas – não sabiam fazer a conversão das moedas.

- Galeões, sicles e nuques são dinheiro de verdade, Yuri. Mas em libras esterlinas, dá mais ou menos...

- Carol, eu falei dinheiro de verdade... Você ficar me falando nome de dinheiro bruxo não vai resolver nada. Quero o valor em rublos!! Preciso saber se meu pai pode pagar!!

A interjeição de surpresa da bruxa e os latidos do cachorro se confundiram.

- Rublos?!? – e então Carol percebeu que ele falava da moeda russa. – Não faço a menor idéia de quanto vale um rublo, Yuri, mas bem, em Gringottes eles devem saber fazer a conversão.

Sirius continuava a latir em protesto, chamando a atenção de todos os que passavam por ali.

- Que foi, Sirius? – Yuri e Carol se entreolharam, sem entender o bruxo.

Sabendo que era impossível fazer-se entender por palavras, Sirius puxou a barra das vestes de Carol e puxou-a para dentro da loja. Latindo freneticamente para todas as vassouras que via e deixando o atendente irritado, - porém com medo de tirar um cachorro daquele tamanho dali – ele finalmente conseguiu fazer a bruxa entender que era ELE quem ia pagar pelo presente.

Bem, Carol sabia que Sirius tinha uma conta bancária generosa, mas ele não podia estar pensando em comprar uma Firebolt para Yuri. Ele só tinha 9 anos!! Era melhor escolher uma vassoura menos potente, até mesmo para evitar acidentes. E uma vassoura usada talvez fosse melhor para um principiante, pois o garoto poderia usa-la sem medo de estragar.

Yuri parecia pensar da mesma maneira, pois assim que entrou na loja se dirigiu ao depósito onde a plaquinha dizia "Vassouras Usadas". Sirius viu aquilo e puxou-o pela barra da calça jeans, derrubando o garoto no chão. Entretanto o menino não ficou bravo, e sim começou a rir, porque o cachorro lhe cutucava a barriga com o focinho, para que se levantasse.

Quando voltou para o salão principal da loja, Carol examinava uma vassoura nova em folha, bastante bonita. O vendedor explicava as vantagens da Nimbus 2000.

- Tem boa aerodinâmica. Eu diria que é perfeita para apanhadores. Você pode ver, tem o cabo mais curto, ideal para pessoas pequenas, como deve ser um apanhador. É bem leve e...

- Não sei... A nova Shooting Star me parece mais apropriada para um artilheiro... – Carol olhou para outra vassoura, que estava deitada sob o balcão.

- A série Nimbus é a melhor atualmente, Srta. Stuart. E a modelo 2004 é perfeito para artilheiros. Veja como eles mudaram os pedais!

- E a Comet da vitrine?

O vendedor fez cara de desprezo:

- Humpf... É razoável. Perde da Nimbus 2000 em aceleração. Mas é muito boa para goleiros, que não tem que executar mergulhos. Mas a Nimbus 2000...

- Você está ganhando comissão extra para vender a Nimbus, rapazinho? – a bruxa desconfiou.

- Quem me dera... – o vendedor suspirou. – Se a senhora tivesse visto Harry Potter voando nessa vassoura... Ganhava até de adversários com vassouras mais novas e da própria série Nimbus.

- Harry Potter? – Yuri resolveu se intrometer na conversa. – Quem é Harry Potter?

- Harry é um garoto muito especial, Yuri. Filho de uma antiga amiga de sua mãe. Ele voa bem? – Carol voltou a conversar com o vendedor, interessada.

- Muito!!! O melhor apanhador de Hogwarts desde a formatura de Carlinhos Weasley. Ouvi dizer que agora tem uma Firebolt. Não cheguei a vê-lo voar nela, mas se ele já era quase imbatível quando usava a Nimbus... Tudo é uma questão de quem pilota, afinal de contas. E ele fazia miséria com uma belezinha igual a essa.

- O danado deve ter puxado ao pai... – Carol murmurou. - Muito bem. Você me convenceu. Vou levar a Nimbus 2000. Está bom pra você, Yuri?

O menino olhou para vassoura desconfiado. Será que sua mãe conhecia esse tal de Harry Potter?

- Se não for muito cara...

- Essa é vantagem da Nimbus 2000. Você leva uma boa vassoura e não paga o preço de um modelo novo – o vendedor continuou. – Apenas 70 galeões e 12 nuques.

Yuri lançou um olhar apavorado para Carol. Era mais cara que a vassoura da vitrine, a tal Comet. Seus pais não poderiam pagar por ela, tinha certeza...

- Carol, não tem nada mais barato, não? Eu não me importo de levar uma vassoura usada – ele indicou o depósito onde estivera há pouco.

- Está uma pechincha!! – o rapazinho que tentava vender a mercadoria retrucou. - Você não vai achar uma vassoura dessa qualidade por um preço menor...

O cachorro então começou a latir raivosamente para Carol e o menino. A bruxa deu um suspiro e pediu ao vendedor:

- Tenho que passar em Gringotes para fazer um saque. Volto em seguida. Pode reservar a vassoura. Já me decidi.

Assim os três saíram da loja, deixando o vendedor com um sorriso satisfeito no rosto e Yuri com os olhinhos bastante preocupados. Enquanto Sirius se distraía espantando alguns gatos, Carol percebeu angústia do garoto e resolveu perguntar:

- Tem alguma coisa te preocupando?

Ele parou de andar, deu um suspiro fundo e enfim respondeu:

- Carol, uma vassoura custa mais que uma bicicleta?

A pergunta surpreendeu a bruxa. Nunca tinha pensado numa comparação daquelas, mas era perfeita para explicar ao garoto o quanto uma vassoura valia, já que ela não tinha a menor idéia de quanto valia um rublo e ele do quanto valia uma libra.

- Mais ou menos a mesma coisa. Depende do modelo, claro. Eu diria que uma boa vassoura, com exceção da Firebolt, vale o mesmo que uma boa bicicleta.

- Então nós podemos ir embora.

- Como?

- Meus pais não têm dinheiro para comprar uma bicicleta pra mim, Carol. Como vão pagar uma vassoura? Lyra estava louca por um par de patins no Natal e eles não puderam dar... Astrônomos e bailarinas não ganham bem, ao menos não na Rússia...

- Querido, acho que você ainda não entendeu. – ela se abaixou e fitou-o com os grandes olhos azuis. – Essa vassoura é um presente. Um presente do... – ela hesitou, não podia falar o nome de Sirius num local público. – Um presente de um grande amigo que você conquistou. Esse dinheiro não vai fazer falta para ele, eu lhe garanto. Ele deu uma Firebolt de presente pro afilhado dele e tenho certeza que daria uma pra você também se ele pudesse decidir agora... Aliás, tenho certeza de que vou levar uma bronca por comprar uma Nimbus pra você... Mas você ainda é muito pequeno para uma Firebolt.

- Você tem certeza... digo, de que não vai fazer falta pra ele?

- Tenho. E eu também quero lhe dar um presente depois. Só que não vai ser comprado. É um estojo de conservação de vassouras. Eu costumava usar quando era um pouco mais velha que você e entrei para o time de quadribol da minha casa... – ela se levantou e deu a mão para o garoto.

Enquanto caminhavam - vez ou outra quase tropeçando em Sirius, que passava correndo à frente deles -, Carol e Yuri conversavam.

- Afinal de contas o que é esse tal de quadribol? E os tais artilheiros, apanhadores...

- Hum, vejo que estava prestando atenção à conversa. Quadribol é um jogo muito popular entre os bruxos, com sete jogadores em cada time. Joga-se sobre vassouras, e na base é como o handebol: os times atacam para fazerem gols que valem dez pontos cada. Os artilheiros se encarregam de arremessar... Era nessa posição que eu jogava. Há também um goleiro para defender os três aros por onde a bola deve passar.

- Ah, acho que entendi...

- Ainda não acabou. Há também dois batedores, que cuidam dos balaços...

- Balaços? – o garoto franziu a testa.

- São bolas com vida, digamos assim... Você já viu um bumerangue?

- Já... – Yuri respondeu hesitante, achando aquela conversa esquisita.

- Os balaços são espécies de "bolas-bumerangues". Os batedores usam um taco parecido com o do beisibol para rebatê-las e tentar acertar os jogadores do time adversário.

E o que é que bumerangues tinham a ver com beisibol? Yuri achou que a bruxa a seu lado tinha ficado louca, mas não disse nada.

- E por último, tem o apanhador, que tem que apanhar uma bolinha dourada minúscula e que tem asas.

- Uma bola com asas??? – Yuri abriu a boca espantado.

- É. Assim que o apanhador pega o pomo – esse é o nome da bolinha de asas – o jogo termina e o time ganha mais 150 pontos.

Yuri tentou imaginar como funcionava um jogo tão confuso como aquele, com vassouras voando a toda velocidade por todos os lados em meio a uma chuva de bolas de todas as cores e tamanhos... Não conseguiu.

- Chegamos. Este é o banco mais seguro do mundo bruxo, Yuri: Gringottes.

* * *

- Sempre que eu preciso chegar cedo no Beco Diagonal via transporte trouxa alguma coisa acontece para eu me atrasar. Hoje que eu queria que algo acontecesse...

- Tudo bem, Remo. Talvez tenha sido melhor assim. Os tempos não andam fáceis. Se meus chefes resolvem implicar comigo...

Os dois pararam em frente ao banco onde Bonnie trabalhava.

- Foi bom rever você... - ela iniciou a despedida.

Remo coçou a nuca, meio atrapalhado. Durante todo o caminho pensara no que Fletcher lhe dissera a alguns dias: que Bonnie era apaixonada por ele. Na hora não levara muito em consideração. Estava costumado a ser sozinho, mas aquela uma hora que tinham passado juntos lhe fez lembrar o quanto apreciava a companhia da advogada. Bonnie não era muito bonita; os óculos lhe davam uma expressão muito séria e devia passar muito tempo trancada num escritório, pois era branca como um fantasma. As sardas salpicavam-lhe o nariz e as bochechas e o cabelo castanho estava preso por uma pena num coque junto ao pescoço.

Ele imaginou pela primeira vez que nada daquilo importava numa mulher. Se queria alguém para estar a seu lado, queria que ela fosse alegre, divertida, espontânea. E Bonnie era tudo isso e um pouco mais. Se ele desse uma chance a ela... Se ele se desse uma chance...

Mas e se tudo não passasse de alucinações de Mundungo Fletcher. O amigo decididamente tinha pouco juízo. Procurou não pensar mais naquilo.

- Que olhar perdido é esse, Remo Lupin? - ela deu um sorriso ao vê-lo pensativo e calado.

- Olhar perdido? Não... eu... eu só estava pensando...

Ela o interrompeu antes que ele pudesse completar o convite para tomarem um sorvete após ela terminar o expediente.

- Encontrou alguém conhecido? - e a bruxa virou o rosto para olhar para trás e então perdeu toda a vivacidade que exibia segundos antes. - Carolyn Stuart?

- Carol? Do que você está falando? - e então ele olhou para o mesmo lugar que ela.

Entrando no banco, estava a irmã de sua ex-namorada, o filho de Helen Silver e... Lupin não podia acreditar no que estava vendo... Sirius estava doido? Sair de casa assim, sem avisar? Será que o amigo tinha perdido toda a imaginação que o tornara famoso durante os tempos de escola? Pois qualquer pessoa com um mínimo de cérebro poderia deduzir que àquela altura, Pedro Pettigrew já tinha contado para Voldemort que Sirius era um animago, e é lógico que daí para chegar aos ouvidos dos comensais que viviam infiltrados na comunidade bruxa não levaria muito tempo...

- Eles ficaram loucos!!! - ele levou a mão a boca, esquecendo-se complemente da amiga e correu em direção aos três "irresponsáveis".

Bonnie ficou para trás. Enxugou com o dedo indicador uma pequena lágrima que insistira em sair. Como fora boba! Por um breve momento pensara que Remo já havia se esquecido de Margot Stuart, mas se a simples visão da irmã da ex-namorada já o deixava transtornado daquela forma.

A bruxa puxou a pena que segurava o cabelo, deixando os fios caírem desordenadamente sobre o ombro. Olhou atentamente para a pena por alguns segundos e então guardou-a no bolso. Ficava mais bonita de cabelos soltos, mas não se dava conta disso. Nunca fora muito vaidosa e talvez por isso nunca tivera muitos namorados. Ou talvez tivesse sido aquela eterna paixão mal resolvida que a mantivera fechada num casulo durante tanto tempo. Mas ela não queria pensar nisso agora. A passos vagarosos, ela entrou no banco.

* * *

- Sr. Lupin! - Yuri deu um aceno e um sorriso ao ver o bruxo se aproximar, enquanto Sirius tentava se esconder atrás do garoto e de Carol. Sabia muito bem o que significava aquela cara irritada de Remo.

- Muito bonito!! - o ex-professor de Hogwarts lançou um olhar mal-humorado para os adultos. Eu imaginava que pelo menos você, Carol, tivesse um pouco de juízo.

- Você anda muito estressado, Remo! - a morena fingiu não ligar para a bronca. Sempre ouvia de Sirius que levava tudo muito à sério, precisava de uma folga de vez em quando. - Nós só viemos comprar uma vassoura... e trazer meu cachorro pra passear. Ele não fica uma graça de coleira vermelha?

Remo não conseguiu segurar o riso ao ver Sirius arreganhar os dentes para Carol, enquanto Yuri balançava a cabeça contrariado: não gostava quando faziam troça de seu "pai adotivo".

- Mas afinal de contas, o que você está fazendo aqui? - Carol lembrou de perguntar. - Achei que você tinha uma reunião com o Globins hoje...

- Acabei de sair do Ministério. - e puxando a morena de lado, ele disse quase num sussurro. - Nós conseguimos. Os duendes vão nos apoiar.

- Nós conseguimos? Nós quem? - Carol estranhou.

- Eu e...

Só então Remo deu pela falta de Bonnie. Para onde ela teria ido?

- Bem, não importa. Temos que ir buscar a vassoura do Yuri que deixei reservada na Artigos de Qualidade para Quadribol. Venha conosco! Depois podemos tomar um chá na minha casa e conversar direito sobre o assunto.

Remo olhou mais uma vez para a grande porta de ouro maciço do banco. Ao menos sabia onde encontrar Bnnie novamente.

- Tudo bem. Temos mesmo muita coisa pra discutir...

- Pensando bem, acho que podíamos tomar esse chá na casa do Fletcher... - ela mudou de idéia repentinamente, lembrando da irmã e do quão desagradável seria provocar um encontro entre ela e Lupin. - Lá é mais seguro.

E os quatro saíram andando rumo à loja de vassouras.

* * *

Dmítri destrancou a porta e rodou a maçaneta devagar. Estava exausto. Passara a manhã e a tarde lecionando para uma dezena de alunos desinteressados, provavelmente absortos em pensamento sobre alguma festa que aconteceria naquele final de semana. Por vezes se perguntava se aquilo não era culpa de seu sotaque arrastado, mas apagara a dúvida ao ouvir os comentários de alguns colegas sobre as turmas da Trinity: os alunos de hoje em dia pareciam não ter amor à ciência.

Descalçou os sapatos assim que entrou. O ato lhe lembrou da esposa que certamente estaria resmungando palavrões sobre a falta de consideração que ele tinha com ela. Helen odiava que andassem de meias pela casa, embora ela mesma o fizesse com freqüência. As discussões entre o casal eram comuns; era assim desde que se casaram. Entretanto, Dmítri amava aquela mulher. Tanto, que chegava a achar que a implicâncias diárias eram apenas mais uma das qualidades que apreciava nela - até mesmo porque ele sempre a convencia do que queria.

Depositou os livros sobre o sofá e andou lentamente até a cozinha Um certo torpor começava a tomar conta dele. Molhou as mãos e jogou um pouco d'água no rosto. Precisava manter-se acordado para preparar o jantar dele e do filho. Foi então que começou a achar o apartamento silencioso demais. Àquela hora Yuri costumava estar soltando diferentes interjeições, ora de alegria, ora de indignação, em frente a seu passatempo favorito: o videogame.

Assim, Dmítri deixou a cozinha e rumou para o quarto do filho de nove anos. Imaginou que estivesse dormindo, por isso entrou sem bater. Tinha aberto só uma fresta quando ouviu um uivo de dor e, em seguida, um xingamento. Preocupado que o filho pudesse ter derrubado algo da estante abarrotada de livros, empurrou a porta com força, provocando um estrondo quando esta se chocou com a parede. Assustado com a entrada repentina do pai, Yuri caiu mais uma vez da vassoura.

- Cuidado! - Dmítri voou até o garoto, que olhava o hematoma no joelho.

- N-não foi nada - o menino respondeu sem olhar nos olhos do pai.

- Imagino que não - o adulto sorriu. Por sorte você ainda não tinha se afastado mais que um metro do chão quando eu entrei.

Yuri continuou mudo e sem olhar para o pai. O que diria quando ele lhe pedisse explicações? Não conseguiria mentir... Não para seu pai.

- Então... Você acha que um trouxa também pode voar numa dessas? - Dmítri perguntou, pegando a vassoura estirada no chão.

- Como? - Yuri arregalou os olhos para o pai, perplexo. Prometeu a si mesmo que gastaria a caixa inteira de cotonetes limpando os ouvidos naquela noite.

- Sabe... Tem uma dessas junto com as vassouras da limpeza. Descobri por acaso, no começo da semana. Eu ia pedir para você dar uma varrida na casa e descobri-la por acaso... Sabe como sua mãe é... Se ela descobre que eu lhe dei uma vassoura voadora, teria um abcesso.

- Acesso, pai! - Yuri riu. Ele não sabia inglês muito bem, mas seu pai cometia verdadeiros "assassinatos" gramaticais .

- É tudo a mesma coisa... - Dmítri fez um gesto de impaciência com a mão e voltou a analisar a vassoura. - Já descobriu onde é que liga? - ele indagou procurando um botão qualquer.

- Não se liga uma vassoura, pai - o menino dava risadas gostosas. - Veja! - e chamou a vassoura, que saiu voando até as mãos do garoto.

- É simples assim? - Dmítri franziu a testa. - Se você mandar ela também pode varrer a casa?

- Pai! Isso é uma vassoura de corrida!! - Yuri retrucou, achando a idéia absurda.

- Tudo bem, filho. Foi só uma sugestão... - Dmítri jogou o corpo na cama e apoiou a cabeça na parede, enquanto olhava o filho voltar a montar na vassoura. - Então, não vai me contar onde arranjou essa aí? Porque a que estava na cozinha não tinha o cabo tão lustroso...

- Er... hum.. bem... gasp...

- Tudo bem, tudo bem. Só em diga que você não mexeu nas coisas da sua mãe para consegui-la.

- Er... bem...

- Yuri!!! - Dmítri começou a falar em russo com o filho: não sabia dar broncas em inglês. - Quantas vezes já lhe falei para não mexer nas coisas dela?

- Eu... eu... desculpe.

O rosto do menino mostrava que estava realmente envergonhado do que fizera. Mas Dmítri não sabia ralhar de verdade com os filhos.... Era Helen que evitava que as crianças se aproveitassem do coração mole do pai.

- Não faça isso outra vez, está bem?

- Eu precisava de um pouco de pó de flu... - o menino tentou explicar.

- Pó de quê?

- Pó de flu. Um pó cintilante que faz a gente viajar pelas lareiras. Sirius disse...

- Sirius? O dono do apartamento? - o pai lançou um olhar desconfiado.

- é. Ele me deu essa vassoura... E a Carol... Eles me levaram para escolher... Eu juro que não pedi anda! Juro!

- Quanto custou, Yuri?

- Foi um presente, pai...

- Quanto custou? - Dmítri se manteve firme e o garoto recuou:

- Setenta galeões.

- Setenta o quê?

- Galeões. É a moeda bruxa. Não sei quanto vale em rublos.

Dmítri ergueu as sobrancelhas e coçou a testa, como sempre que estava pensando em algo sério. Não adiantaria anda levar aquela conversa adiante. Mais tarde acertaria as contas com Carol e Sirius.

- Bom, vou deixá-lo a sós... Você deve estar querendo aproveitar seu... presente, não é mesmo?

- Você está bravo comigo? - o garoto perguntou de cabeça baixa.

- Não - Dmítri fitou-o com ternura. Como eu poderia ficar bravo porque meu filho que ficar mais perto do céu quando fui eu que lhe deu o nome de um astronauta?

O garoto sorriu e correu para jogar-se sobre o pai, num abraço apertado e carinhoso. Dmítri fez um cafuné nos cabelos escuros de Yuri e ficou a contemplar o rosto faceiro do menino por alguns instantes. Ele era a cara da mãe.

- É melhor eu levantar. Alguém tem que fazer a janta nessa casa.

- Brigado, pai - o menino sorriu de canto de boca.

- Você não tem que me agradecer por anda. - e o professor de Astronomia foi deixando o quarto: - Eu só queria... Ah, deixa pra lá...

- Fala!!!

- Bem, é que eu acho que finalmente peguei a manha daquele seu joguinho. Mas imagino que nem vá lembrar de videogame agora que tem uma vassoura voadora, né?

- Você tá brincando, né? A vassoura é legal mas não chega nem perto do meu Playstation! Podemos jogar logo depois do jantar!!

- Você tem certeza?

- Pai, se eu não ficar do seu lado ensinando não tem a menos chance do senhor passar pra próxima fase. Você sempre esquece daquele atalho...

- É verdade. Ainda bem que tenho você pra me lembrar, né? - Dmítri piscou para o filho e deixou o quarto. Porta fechada, ele colocou a mão sobre o coração: estava batendo acelerado. Por um segundo tivera a impressão de estar perdendo o filho para algo que ele nunca iria entender.

* * *

- Vai tentar falar com a Bonnie de novo, Remo? - Fletcher perguntou ao ver o amigo descer as escadas ajeitando a capa.

- Enquanto ela não me explicar por que não quer me receber, eu vou continuar batendo na porta do escritório dela em Gringotes.

- Pois vai continuar dando com a porta na cara outra vez - Sirius comentou, entre um bocejo e outro, ao sair da cozinha, com duas xícaras nas mãos.

- Eu pedi café com leite, Sirius, não leite com café! - Fletcher reclamou ao provar a xícara que o amigo lhe dera.

- O leite está na geladeira e o café, na cafeteira. Faça você mesmo se assim não está bom - e Black virou a própria xícara.

- Acordou de mau-humor? - Remo perguntou, tentando desviar o rumo da conversa.

- Dormi mal - Sirius respondeu, caindo na poltrona e puxando o controle remoto da tevê para si. - será que tem alguma coisa que preste a uma hora dessas?

- Na tevê eu não sei, mas o jornal está interessantíssimo! - Fletcher debochou. - Você é capa, meu velho.

- Novidade... - Sirius fez muxoxo. Todas as semanas o Profeta Diária publicava alguma notícia sobre seu suposto paradeiro.

- Novidade mesmo. Eu não o que está escrito aqui... - Fletcher comentou, o rosto adquirindo contornos mais sérios.

- Deixa eu ver isso aqui - Remo tomou o jornal das mãos do colega.

Sirius continuava alheio àquilo, preocupado em zapear de canal. Não prestava atenção ao que passava na tevê. Só conseguia pensar no maldito sonho - ou seria melhor dizer pesadelo? - que tivera no início da noite,e que não o deixara mais dormir.

- Sirius! Você não vai ler o que está escrito aqui? - Remo tinha o tom de voz preocupado.

- Bah! Pra quê? Onde foi que me viram agora? Na Nova Zelândia?

- Leia! - Remo enfiou o jornal na cara do amigo teimoso.

Ao ver uma foto de Helen Silver ao lado de uma sua, Sirius se alarmou. O maldito sonho estaria se tornando realidade?

- O que ela está fazendo aqui? - ele interrogou os amigos.

- Você quer fazer o favor de ler essa droga de uma vez por todas? - Fletcher perdeu a paciência.

Enquanto Siruis lia, os olhos se arregalando a cada linha que vencia, Remo e Mundungo davam sua opinião sobre o artigo.

- Muito estranho essa história só ter vazado agora...

- Estranho?!? Helen só voltou pra Inglaterra agora!

- Exatamente por isso, Fletcher. Ela não ia conseguir esconder essa menina por 17 anos.

- E por que não? Ela se escondeu por 20.

- Se bem que... Eu vi uma garota muito parecida com Helen no dia em que fomos nos despedir do Harry em King's Cross. E ela parecia ter uns 16 ou 17anos...

- Vê? Tudo se encaixa! Ou isso, ou ela tem uma imaginação fantástica.

- Isso nós sabemos que ela tem desde os tempos de colégio - Remo lembrou.

- Remo, você VIU a garota!

De repente, as especulações de ambos foram interrompidas por uma gargalhada frenética, quase convulsiva. Sirius ria como um louco olhando para o jornal, deixando os amigos apreensivos:

- Vocês estão realmente considerando alguma coisa do que essa mulher escreveu? Foi o texto mais cômico que já li em toda minha vida. A Skeeter devia fazer roteiros para esses programas humorísticos dos trouxas...

- Você... Você está dizendo que não há a menor possibilidade do que está escrito aí ser verdade? - Remo franziu a testa, duvidando.

- Pelas barbas de Merlim! Isso é uam questão matemática. Eu não via Helen há 19 anos. Como poderia ter uma filahd e 17?

- A não ser que a menina não tivesse 17... - Fletcher soltou como quem não quer nada.

- A garota está no sétimo ano, Mund. Ela TEM 17.

- Não necessariamente, meu caro Black. Acompanhe meu raciocínio. Se a garota tiver os mesmos dotes mágicos da mãe, isso significa que ela não é lá uma grande bruxa e pode perfeitamente ter repetido algum ano da escola. Tendo repetido, ela deve ter 18 anos. Se ela tem 18 anos, isso quer dizer que ela nasceu em 1977...

- E eu não vejo Helen desde março de 76, portanto...

- Portanto você tem que ficar quieto e deixar eu concluir. Se ela tiver nascido em janeiro de 77, isso significa que ela foi gerada em março de 76!! E não ser que você e Helen não tenham tido nenhum contato mais... hã... profundo, o que, conhecendo você, sinceramente eu duvido, essa menina pode muito bem ser sua filha.

Lupin balançou a cabeça concordando coma dedução de Fletcher, enquanto Sirius deixava o corpo cair sobre a poltrona outra vez. Lembrou-se novamente do sonho que tivera aquela noite. Helen tinha voltado de Cambridge e proibira Yuri de conversar com ele. Quando Sirius fora tirar satisfações com ela, a bruxa gritara: "Ele não é seu filho!!". A frase ecoava em sua cabeça naquele momento, mesclando-se ao rosto impresso que mexia na capa do jornal. A foto parecia estar falando com ele, rindo de sua angústia, de sua agonia. Num acesso de raiva, amassou o jornal e subiu novamente para o quarto. Fletcher estava errado: ele não tinha filha nenhuma com aquela mulher.

* * *

Os dias correram sem que Sirius pronunciasse uma única palavra sobre a matéria do jornal, por mais que, na primeira semana, Mundungo Fletcher insistisse em retomar o assunto. Remo preferiu manter-se calado: se naquele homem duro e marcado pela vida ainda existisse um fiapo do garoto que conhecera em Hogwarts, ele poderia dizer com absoluta certeza que Sirius estava sendo consumindo pela dúvida.

As noites que passava em claro estavam marcadas no rosto do astrônomo. As olheiras tornavam seu rosto ainda mais sombrio e os amigos só o viam sorrir uma vez ao dia, sempre por volta das três horas da tarde, quando se preparava para aparatar na Blackhall Road. As tardes que passava ensinando feitiços simples e monitorando os vôos de Yuri eram os poucos momentos de prazer que tinha em seus dias.

- Eu vou falar com Arabella - Fletcher levantou-se do sofá decidido. - Já tem pelo menos 15 dias que o Sirius mal fala "oi" pra gente.

- Ele não vai gostar disso, Mund. Você sabe que Sirius detesta que se metam na vida dele.

- Acontece que o mau-humor dele está refletindo no nosso trabalho! A Carol veio falar comigo ontem...

- A Carol te procurou? - Remo estranhou. Carolyn Stuart evitava de todas as formas manter contato com o ex-noivo.

- Pra você ver como é sério. Ontem foi a terceira vez que Sirius errou um mapa. Carol já tinha quase terminado os cálculos quando percebeu que ele tinha colocado Mirach na constelação de Órion. Remo, até EU sei que Mirach dica em Andrômeda. Ela foi falar com ele e sabe o que ele respondeu? Que não via a prima há muito tempo. Ele não está se concentrando em mais nada! - Feltcher exclamou desesperado.

- Eus ei... Ele não é mais o emsmo.

- Se eu soubesse onde a Helen se meteu, ia procurá-la pessoalmente. Como não sei, vou falar com Arabella. Ela deve saber...

- devo saber o quê? - o rosto de Arabella Figg surgiu entre labaredas verdes na lareira da casa secreta.

- Arabella!! - Fletcher deu um pulo. - Quer me matar de susto?

- A velha bruxa fez cara de pouco caso. Humpf! Cadê o Black?

- No porão - Remo respondeu calmamente. - Disse que estava entediado e por isso ia caçar uns ratos.

- Entediado? Sei... Carol em disse que ele anda distraído com as observações. Qual é o motivo? - a bruxa encarou os dois pupilos com uma expressão severa.

- Ele não quer dizer... - começou remo.

- Ele está assim desde a matéria da Skeeter - Fletcher explodiu.- E você é a única que pode resolver essa história, afinal ninguém sabe onde está sua sobrinha.

- Essa história outra vez? - Arabella revirou os olhos desanimada. - Helen e Lyra já em deram tanto trabalho.

- Quem é Lyra? - Feltcher estranhou.

- Minha sobrinha-neta. Estou pensando em pedir para a Bonnie entrar com um processo por difamação e calúnia contra aquela repórter mexeriqueira...

- Helen também ficou abalada? - Remo não pôde deixar de prestar atenção a esse detalhe.

- Nada que uma boa poção calmante e algumas verdades não resolvessem.

- E a menina? - Fletcher lembrou de perguntar.

- Que menina? - Arabella não entendeu a pergunta.

- Como assim "que menina"? A filha do Sirius - Fletcher retrucou.

- Ela não é filha dele. - Arabella achou um absurdo.

- Então é de quem? - o bruxo arregalou os olhos, espantado. Remo por sua vez encarava a professora apreensivo: - Helen teve uma filha com quem?

- Quem disse que a menina é filha de Helen? Vocês deviam parar de acreditar em tudo o que lêem no Profeta Diário. Já disse que aquele jornal é vendido!

- Concordo plenamente! - Sirius entrou na sala de repente. Estaria ali há muito tempo? - Mas a que devemos a honra da visita, Arabella?

- Ora, ora, Black. Não em parece tão mal quanto lhe pintaram.

- Eu? Mal? - o animago olhou para os amigos desconfiado; Remo e Mundungo se fizeram de desentendidos.

- De qualquer forma não vim saber de sua saúde. Vim para convocá-los para uma reunião extraordinário.

- Quando? - Remo interpelou.

- Agora! Quero que aparatem em Hogsmead, na Casa dos Gritos, mais precisamente. Dumbledore, Moody e eu decidimos que é hora dos membros da Ordem da Fênix se conhecerem. E não ousem chegar atrasados - a cabeça da bruxa desapareceu da lareira.

* * *

- Ora, vejo que seguiram a risca minhas recomendações... - Arabella chegou à Casa dos Gritos através de uma passagem que Remo Lupin conhecia muito bem.

- Faz meia hora que estamos aqui, Arabella. Por que fez tanto alarde se você mesma ia atrasar? - Sirius retrucou mal-humorado.

A professora de DCAT deu um suspiro de desprezo, sem ligar a mínima para a contestação de Sirius.

- Onde está Carol? - a bruxa perguntou após examinar todos os cantos daquela sala empoeirada.

- Atrasada... Como é normal em todas as mulheres.

- Sr. Black, acho bom arranjar uma namorada logo... Seu humor está insuportável - Arabella respondeu à grosseria e Sirius fechou a cara, enfezado. - Algum de vocês dois pode responder minha pergunta?

- Que pergunta? - um estrondo chamou a atenção dos quatro: Carol acabara de aparatar na Casa dos Gritos.

- A senhorita está atrasada - Arabella deu a bronca ante o olhar reprovador dos três bruxos. Se ela mesma tinha se atrasado como podia reclamar de Carol?

- Na verdade houve um imprevisto... Tive de ir até o observatório buscar o Manifesto de Morgana. Dmítri estava lá e...

- Dmítri? Você quer dizer o Dmítri da Helen? - a velha bruxa apertou os olhos em cima da morena.

- Exato - Carol respondeu sem olhar para ela. - Bem, ele estava lá e me ajudou a procurar o livro que, eu adoraria saber como, estava no meio dos pergaminhos que seriam reciclados... - e voltando-se para os três colegas de serviço: - Qual dos três foi o distraído?

- Não olhe para mim - Remo ergueu os braços e andou até o outro lado da sala. - Eu nem toco no material que vocês deixam por lá...

- Como você tem certeza que foi um de nós? - Sirius continuava de péssimo humor. - Pode ter sido você mesma!!

- Ou então, pode ter sido seu amiguinho... O que ele estava fazendo lá quando não há ninguém?

- Não precisa desconfiar de Dmítri, Fletcher. Meu genro tem a cabeça na lua, literalmente. Além do mais, ele é um trouxa; não faz nem idéia da guerra em que estamos prestes a entrar.

- Como assim? A mulher dele é uma bruxa!!! - Fletcher admirou-se: - Ela esconde esse tipo de coisa dele?

- Fletcher, por um acaso você se lembra quem é a minha sobrinha? O nome Helen Silver diz alguma coisa pra você?

- Nós não tínhamos uma reunião? - Sirius queria encerrar aquela conversa o quanto antes.

- Precisamos esperar o Moody.

Sirius e Mundungo se entreolharam, incrédulos. Mais espera?

- O que é que você olha com tanto interesse, Lupin? - Carol notou que o bruxo examinava um local da casa em especial.

- Eu? Nada. Sabe, eu sempre achei que essa casa fosse assombrada... - ele comentou como quem não quer nada e Sirius segurou a risada, fazendo uma careta.

- Assombrada, Remo? Por quem? Pelo Pirraça? - Carol fez pouco caso. O dedo indicador se arrastou por um dos poucos móveis. - Argh! Alguém precisava fazer uma faxina nesse lugar de vez em quando.

Em seguida eles ouviram seis estalidos fortes. Moody havia chegado acompanhado da frente de ação da Ordem: uma jovem de no máximo 22 anos e cabelo roxo; um rapaz branco e sardento de sorriso largo; um negro alto e careca que Fletcher parecia conhecer de outros carnavais; um bruxo velhíssimo que aparentava ter as idades de Moddy e Arabella Figg somadas e, nada mais nada menos, que Bonnie Kudrow.

- Boa noite, Arabella. - o velho auror cumprimentou a colega enquanto seu olho mágico girava em todas as direções, parando por alguns instantes sobre Sirius Black.

Moody não se demorou, ao contrário de seus acompanhantes, todos com os olhos presos no fugitivo de Azkaban. O bruxo mais idoso da sala se beliscou, sem acreditar no que seus olhos viam.

- Ainda está faltando uma pessoa - Moody comentou, finalmente pousando o olho mágico em Arabella.

- Annie está na escola. Acabei de dar uma aula prática e ela se ofereceu para ajudar Madame Pomfrey a cuidar dos feridos...

- Feridos? - Remo e Carol perguntaram juntos.

- Vocês não querem que eu prepare essas crianças com duelos de mentira, querem? - ela respondeu um tanto azeda por estar sendo contrariada.

- Seu método é ótimo, Arabella. Só acho que falta o elemento surpresa... - Moody comentou. - Quando menos se espera, acabamos atingidos por um feitiço lançado pelas nossas costas.

Enquanto os dois "chefes" conversavam sobre os rumos da educação em Defesa Contra as Artes das Trevas, Fletcher fazia sinais para o bruxo negro que fazia parte do grupo, combinando uma conversa para depois. Carol notou de imediato:

- Vai meter o Shackelbolt em encrenca outra vez, Fletcher? - ela sussurrou perto do ouvido do ex-noivo.

O sorriso morreu no rosto de Mundungo que terminou a conversa por mímica fazendo um sinal de ok para o amigo dos tempos em que trabalhava no Ministério.

Os dois jovens do grupo continuavam fitando Sirius descaradamente. Irritado com aquilo, ele deu as costas para os dois e começou a andar para perto de Remo, que, por sua vez, encarava Bonnie Kudrow insistentemente. Em vez de intimidar o rapaz e a moça, a atitude de Sirius incentivou-os a aproximarem-se e a iniciarem uma conversa:

- Você é mesmo Sirius Black? - o rapaz perguntou.

- Você não perguntou isso, Clyde... - a garota mordeu o lábio, desconsolada.

- E porque não? - ele deu de ombros. - Só estou confirmando. Pode ser um agente disfarçado...

Ao ouvir a besteira, Sirius retrucou:

- Acho que não seria muito inteligente um agente se disfarçar de Sirius Black. O primeiro dementador que cruzasse a frente dele não pensaria duas vezes antes de beijá-lo...

- Faça de conta que não ouviu, Sr. Black. - e depois de olhar para o lado para ver se Moody não estava prestando atenção neles, disse em voz baixa: - Clyde tem andado muito com Moody... Já tá pegando parte da falta de noção.

- Eu ouvi isso, Tonks - Moody gritou do outro lado da sala, provocando riso do rapaz que a acompanhava.

Ela fez uma careta de desconcerto e então olhou mais uma vez para Sirius, que começava a se divertir com a situação:

- O senhor não se lembra de mim?

- Eu te conheço? - Sirius apertou os olhos tentando reconhecer algum traço familiar na jovem a sua frente sem sucesso.

- Depois eu é que faço perguntas estúpidas - o moço murmurou e a jovem auror lançou um olhar feio para ele.

- Dizem que eu sou a cara da minha mãe... - ela deu uma pista.

- Por Merlim, Nymphadora. Como é que o cara vai te reconhecer quando você aparece na frente dele com o cabelo roxo? - Clyde arregalou os olhos para a moça.

- Não me chame de Nympha... É mesmo. Esqueci completamente... - e num piscar de olhos, a moça de aparência extravagante, mudou a cor dos cabelos para um negro azulado. O nariz aumentou levemente de tamanho e o rosto ficou um pouco mais pálido. - E agora?

- Andrômeda? - Sirius reconheceu o rosto da prima nas feições da jovem. Só lhe faltavam os cabelos compridos.

Enquanto uma nova conversa se desenrolava, Remo deixou o grupo e caminhou até Bonnie, que fingia não ter notado os olhares insistentes do amigos dos tempos de colégio. Tentou puxar conversa com o bruxo idoso que viera com o grupo de Moody, mas ele parecia interessadíssimo numa cômoda quebrada e não deu a mínima atenção à bruxa.

- Fugindo de mim? - ele perguntou com cara de poucos amigos. - Para quem defende com tanto ímpeto o direito das minorias...

- Não estou fugindo de você. Apenas... estou... hum... muito ocupada ultimamente. - Bonnie respondeu sem olhar para o bruxo.

- Ah, claro. Porque eu realmente não consegui encontrar uma razão para que você andasse me evitando... Não depois daquela tarde...

- Arranjou emprego? - ela mudou o rumo da prosa.

- Eu não estou procurando emprego, Bonnie. E você sabia disso - Remo franziu a testa, analisando a amiga. - Eu te fiz alguma coisa?

- Não. Lógico que não. Eu... Eu ando cansada... Me desculpe se confundi você com alguém. Algum amigo do meu irmão deve ter comentado que estava procurando emprego...

- Pelo que me lembro seu irmão era uns dez anos mais novo que a gente... Você não me confundiria com um rapazinho de vinte e poucos anos, confundiria?

Bonnie fingiu não ouvir a última frase:

- Meu irmão está logo ali! - ela apontou para o rapazinho que conversava com Sirius.

Remo resolveu não levar o ressentimento adiante. Fazia três semanas que vinha tentando falar com ela e nunca conseguia. Talvez fosse melhor fingir que aquilo realmente não tinha importância... ao menos momentaneamente.

- Nossa, ele cresceu. A última vez que o vi...

- ... ele tinha sete anos. - ela completou, abrindo um sorriso de admiração. - Já é auror. Passou com nota máxima em todos os exames.

Não conseguiram levar a conversa adiante. Naquele momento Arabella e Moody mandaram que todos lhes acompanhassem: A reunião seria no castelo.

* * *

- Higgs, pára de fazer tanta fita! - Cathy ralhava com o amigo deitado numa das macas da enfermaria. - Foi só um cortezinho à toa...

- À toa? Eu vou jogar um laminus na sua perna pra você ver o que é um cortezinho à toa... AIIIIIIII! - o rapaz berrou quando Madame Pomfrey encostou o algodão embebido numa poção qualquer para acelerar a cicatrização.

- Papoula, já terminei com o Weasley. Mais alguém que eu possa ajudar? - uma voz gentil e adocicada ecoou no cubículo onde a enfermeira cuidava da perna do sonserino.

Por um instante, Higgs imaginou ter visto o rosto de Cathy se contrair numa expressão de surpresa, mas tão logo piscou ela estava novamente com sua expressão de nojo olhando o pus amarelado que saía da ferida em sua perna. Não se deixou prender pelo rosto da amiga muito tempo: uma criatura angelical olhava com ternura para ele.

- Não precisa se incomodar, querida. Ele é o último...

- Então já vou indo - a mulher começou a se retirar.

- Não! - Higgs deixou escapar, provocando uma careta de estranhamento em Cathy.

A moça se virou para responder ao chamado e então deu com a menina:

- Helen?

A garota fez ar de pouco caso e retrucou mal-humorada:

- Porque todos os adultos dessa escola insistem em me chamar por esse nome?

- Desculpe, - a mulher ruboresceu. - É que você se parece muito com a minha cunhada, não é mesmo Papoula?

A enfermeira sorriu para Annie e depois se voltou para Higgs:

- Prontinho. Já pode voltar para sua casa. E você, - Mdme. Pomfrey girou o corpo em direção a Cathy: - não deixe que ela faça muito esforço.

- Pode deixar, Madame Pomfrey. - Cathy respondeu enquanto ajeitava o braço do amigo sobre seus ombros, numa posição desajeitada para ele, pois ela era muito baixa. - Tchauzinho! - ela acenou antes de sair da ala hospitalar.

- Meu Merlim! Então a história do Profeta Diário era verdade! - Annie finalmente comentou quando a menina saiu.

- Querida, acho melhor você ir. Os outros já devem ter chegado - Madame Pomfrey lembrou-a.

Annie pegou a capa que tinha deixado junto a porta e a maleta de primeiros socorros que carregava para todo lado. A enfermeira do Hospital St. Mungus não era pega desprevenida. Quando chegou à entrada do escritório de Dumbledore, deu com uma garota loira de cabelos bem enrolados sem o uniforme da escola mascando chicletes:

- Tonks?

- Achei que você não ia chegar nunca, Annie! - a garota soprou uma bola que estourou, grudando na ponta do nariz. - Droga de doce trouxa!! - ela puxou a goma cor-de-rosa, que então grudou na ponta do dedo indicador.

Annie balançou a cabeça divertida e apontou a varinha para a mais jovem auror do Ministério, fazendo o grude sumir.

- Brigadinho. Vamos entrar? - e a entrada secreta se abriu magicamente para que elas entrassem.

* * *

Severo Snape estava recostado a um pilar do escritório de Dumbledore. Dali, poucas pessoas podiam observá-lo sem que ele tivesse conhecimento de tal alto. Uma das exceções era Alastor Moody, não porque tivesse uma posição privilegiada na sala apertada, mas porque seu olho mágico permitia que visse através de paredes e pilares quando bem entendesse.

O professor de Poções se mexeu, um pouco incomodado. Não entendia como Dumbledore podia ter engolido a desculpa esfarrapada de Sirius Black. E agora o diretor o trazia para uma reunião secreta da Ordem da Fênix...

Todos os professores de Hogwarts estavam presentes: McGonagall, Flitwick, Sprout, Trelawney, Vector, Sinistra, Mdme. Hooch e Hagrid. Este último, aliás, fazia o escritório parecer ainda mais apertado do que já era para aquele amontoado de gente. Junto com os pupilos de Arabella e Moody, eles compunham a Ordem da Fênix.

- Agora que a Srta. Preston voltou, imagino que devamos iniciar a reunião - sugeriu Dumbledore. - Todos aqui já se conhecem?

- Quem não conhece pode conhecer depois, Dumbledore. - Moody respondeu mal-humorado. - Já nos atrasamos demais...

Annie se sentiu atingida pelo comentário:

- Me desculpem. Mas a enfermaria estava realmente lotada e Madame Pomfrey...

- Annie, o Moody não pode falar nada de ninguém. Ficamos esperando quase uma hora até ele aparecer... - uma voz grossa e ainda mais mal-humorada que a de Moody falou.

- Sirius... - Remo repreendeu e Moody deixou que o olho mágico fitasse o foragido.

Mas o auror não foi o único a por os olhos desconfiados em Sirius Black e, pela primeira vez naquela noite, Severo Snape sentiu uma prazerosa sensação de triunfo, ao constatar que era uma minoria ali naquela sala que demonstrava confiança no fugitivo de Azkaban.

Todos os rostos logo se voltaram para a escada que dava no escritório, de onde uma vozinha fina e irritante buscava fôlego para se desculpar:

- Desculpe pelo atraso, Dumbledore, mas Filch... - e então Helen Rasputin parou boquiaberta no último degrau da escada, encarando todos os presentes com um olhar assustado.

Remo e Mundungo olharam de esguelha para Sirius, que mantinha o rosto impassível e o olhar fixo num quadro de Rowena Ravenclaw.

- Helen, por favor, entre. Você definitivamente não está atrasada, mas nós estamos. Ainda nem começamos a reunião.

- Eu-eu posso voltar mais tarde... - ela falou olhando para os sapatos, sem coragem de encarar nenhum dos presentes (ou talvez com medo que seus olhos encontrassem um certo rosto na multidão).

- Na verdade é melhor que você assista. Depois eu teria que lhe contar a maior parte desta reunião mesmo... - Dumbledore deu uma piscadela e a moça procurou um lugar para se colocar.

Nessa busca, os olhos de Helen passaram rapidamente pela figura de Sirius antes de encontrar Annie Preston, que sorria e acenava para que viesse se postar ao lado dela.

* * *

- Então ele já conseguiu o apoio dos gigantes? - o auror Kingsley Shacklebolt fitava Hagrid com o semblante sério.

- É. Bem... ainda acho que podemos reverter esse quadro. Quero dizer... Os gigantes não são maus, mas o líder deles...

- A tribo age conforme ordena o líder, não é mesmo, Hagrid? - Arabella interveio. - Se o líder estiver comprometido com Voldemort isso pode ser ruim... Para nós e para os gigantes, que vão ser vistos ainda com maior temor pela comunidade bruxa.

- A não ser que eles trocassem de líder... - o irmão de Bonnie, Clyde, opinou. - ...por um líder da nossa confiança - e o rapaz olhou para Hagrid.

- Impossível. - Helen deixou escapar e ruboresceu ao ver que a sala toda olhava para ela. (A sala toda menos Sirius Black, of course!)

- Por que impossível? - Clyde retrucou num tom irritado de quem não gostava de ser contrariado.

- Porque, porque... Hagrid, não pense que eu estou duvidando de sua capacidade... Você... Você sabe que eu... Eu não quis dizer...

- Você está certa, pequena Silver. Eu sou um mestiço eles não me aceitariam como líder. Além do mais, ninguém pode simplesmente ir trocando o líder dos gigantes... Eu precisaria desafiar o líder atual e... bem... - o rosto de Hagrid se contraiu e ele hesitou um segundo antes de continuar. - eu não sei se eu voltaria vivo de uma disputa dessas...

- Ninguém está pedindo que você tente ser o novo líder, Rúbeo - Dumbledore, que pouco falara até então, resolveu interromper. - O apoio dos gigantes seria muito bem-vindo. Mas nós temos outras alternativas para conquistá-la além de arriscar sua vida. Pelo que sei Fletcher andou desenvolvendo algumas novas estratégias de intervenção. Acho que podemos adaptá-las para este caso. Remo?

- Ah, sim. Como alguns de vocês já sabem, os duendes decidiram em assembléia que irão nos apoiar... Mas com uma condição.

- Eles sempre têm uma condição - Snape resmungou.

Remo ignorou a interrupção e continuou:

- Querem que Fudge deixe o cargo de Ministro da Magia após a derrota definitiva de Voldemort. E querem ter direito a voto na escolha de seu sucessor.

- Nós não podemos fazer isso. - a auror mais jovem do grupo, que voltara a ostentar cabelos roxos, retorquiu: - Não temos o poder de modificar o Ministério da Magia. Nem mesmo a Ordem da Fênix está agindo legalmente...

- Sei que as reivindicações parecem um tanto autoritárias, Tonks, entretanto há uma negligência grave na Declaração dos Direitos Mágicos - Bonnie começou a argumentar: - Nossa Legislação é preconceituosa e racista! O que os duendes querem são direitos iguais ao de qualquer bruxo, algo que todos os cidadãos mágicos deveriam ter.

- Gringotes deve estar pagando bem, hein, maninha? - Clyde tirou sarro da irmã.

- Cale a boca, Clyde! - ela respondeu sem tentar manter bons modos.

- Ainda assim, Bonnie, isto está fora da nossa alçada - Dumbledore manteve o bom senso. - Como a Srta. Tonks lembrou, nós mesmos estamos agindo ilegalmente perante o Ministério. Qualquer um de nós poderia ir parar em Azkaban só por estar presente a essa reunião.

Todos os membros da Ordem ficaram mudos por um instante, até que Remo quebrou o silêncio:

- Digo então que não podemos aceitar a ajuda deles?

- Não. - Minerva McGonagall respondeu. - Sei que esta não é uma atitude ética, mas... Diga que aceitamos as condições. Quando essa guerra acabar pensaremos no que fazer.

- Com sorte o Fudge não sai vivo dessa história... - Fletcher comentou, provocando olhares espantados. - Eu disse isso alto?

Annie, Carol e Helen riram baixinho. Fletcher era perito em dar foras como aquele durante os tempos de colégio e, no fundo, elas sabiam que maior parte dos presentes pouco se importava com o destino de Cornélio Fudge.

- Bem, então temos o apoio dos duendes. Alguém falou com os elfos domésticos do castelo? - Arabella se lembrou do povo mais desprezado do mundo mágico.

- Já encarreguei uma pessoa dessa tarefa, Arabella. O mais difícil será convencê-los que têm liberdade para decidir se querem participar.

- Fadas? - Carol e Annie lembraram ao mesmo tempo do mais misterioso dos povos mágicos.

- Minhas mãe está cuidando disso. - Tonks respondeu. - Mas acho particularmente difícil convencê-las. Vivem alheias ao que acontece com os outros povos, sequer reconhecem a autoridade do Ministério...

- Mas tê-las ao nosso lado seria interessante - comentou o professor Flitwick. - São ótimas criadoras de feitiços... Contanto que não se aliem a Você-Sabe-Quem...

- Isso é fácil de saber - Dumbledore sorriu. - Como andam nossas previsões? - o diretor perguntou olhando diretamente para Sirius e Carol.

A moça deu um suspiro triste:

- O primeiro ataque acontece em duas semanas... E não há nada que possamos fazer para evitar.

- Como assim, nada? - Bonnie estranhou.

- Nada. Isso quer dizer nada - Sirius retrucou. - Probabilidade igual a cem por cento. Alfa de Serpente prestes a se tornar um buraco negro. Como é impossível evitar a morte de uma estrela, esta outra morte está selada. Linhas 27 e 28 do Manifesto, página 1327. - Sirius disparou com a autoridade de quem conhecia os céus melhor que a si mesmo.

Mas houve quem discordasse.

- Tudo errado. - Helen não olhou para ele ao contestar. - As linhas 27 e 28 se referem à Alfa de Leão. E pelo que eu fiquei sabendo, uma supernova está prestes a nascer nessa constelação, o que significa que...

- As linhas 27 e 28 falam da constelação de Serpente. - Sirius não esperou ela terminar. Encarava-a extremamente irritado. - Você nunca entendeu nada de astronomia, é melhor não meter o bedelho...

- Pra seu governo, eu posso não ser uma astrônoma, mas moro há 12 anos com um. - Helen retrucou, perdendo todo o medo de olhar no rosto do ex-namorado. - Eu seria uma estúpida se não tivesse aprendido a ler coisas tão básicas como essa depois de tanto tempo convivendo com Dmítri.

- Vocês dois querem calar a boca? - Arabella Figg cortou a discussão.

- Tia, será que vocês não entendem. Não vai morrer ninguém, o que vai acontecer...

- Escuta aqui, só porque o seu marido lhe ensinou o nome de algumas estrelas isso não significa que você saiba alguma coisa de astronomia. Se eu estou dizendo que alguém vai morrer...

- Os dois estão certos... - Carol interrompeu - ... e errados. Sirius, você está falando da linha 28 e 29, e Helen da 26 e 27. Alguém vai mesmo morrer. Refiz esses cálculos pelo menos três vezes - a numeróloga garantiu. - Quanto às linhas 26 e 27... Meus cálculos também deram cem por cento. Mas não é para breve... Ao que tudo indica, o evento pode acontecer em qualquer data entre hoje e o Natal de 98. Só não consegui descobrir que diabos vai acontecer.

- Pois parece que a Srta. Silver sabe... - Sirius sorriu com cinismo.

- Sra. Rasputin - ela respondeu ríspida.

- Muito bem, Sra. RASPUTIN. Pois conte a todos nós qual é o evento das linhas 26 e 27!!

Ela encarou-o com ódio e desprezo:

- Isso não é da sua conta.

Para a surpresa de todos, quem respondeu foi Severo Snape.

- Diretor, acredito que os membros da Ordem possam receber suas instruções em minha sala, enquanto o senhor conversa com a Sra. Rasputin. Creio que os aurores devam ser preparados sobre como agir para evitar a tal morte inevitável.

- A idéia é realmente boa, Severo. Os senhores se importariam? - ele perguntou aos presentes que acenaram negativamente com a cabeça. Um a um, cada membro daquela liga de bruxos extraordinários começou a deixar o escritório de Dumbledore, logo após serem encantados com um feitiço de invisibilidade instantânea - que durava apenas 5 minutos - pelo professor Flitwick. Ainda que parecesse não haver mais ninguém ali, era possível ouvir comentários como: "essas previsões são ridículas. Consultei minha bola de cristal e ela me alertou que esta noite mesmo deve haver um assassinato". Na vez de Sirius, ele protestou:

- Não preciso disso... - e um cachorro negro deixou o escritório.

* * *

O que Sirius não disse a ninguém era que não pretendia se reunir ao grupo na sala de Snape. Estava de cabeça quente e sabia que naquele momento só uma coisa poderia acalmá-lo: conversar com Harry. A semelhança do menino com o pai era tão grande que às vezes Sirius tinha a impressão de que voltara a ter 15 anos. Assim, o cachorro dirigiu-se à Torre da Grifinória e ficou escondido esperando que algum aluno aparecesse para dizer a senha ao retrato da mulher gorda.

Não demorou muito para que Fred e Jorge aparecessem carregados de doces contrabandeados da cozinha. Ocupados em passar parte da mercadoria para Lino Jordan, que aguardava do outro lado da passagem, não viram o cachorro esgueirar-se para dentro da Sala Comunal.

Foram os olhos de Mione que primeiro avistaram Sirius:

- Harry - ela cutucou o amigo e indicou o animal com a cabeça.

Rony e Harry olharam para onde a menina apontava e sem saber se exibia um sorriso de felicidade ou um olhar de apreensão, o garoto da cicatriz virou para os amigos e disse:

- Vou buscar minha capa. Digam a Snuffles que já volto.

Enquanto Harry voava pelas escadas, Rony levantou-se de sua poltrona e foi até Sirius, alegando aos irmãos que ia dar algo para o cachorro comer. O ruivinho agachou-se e murmurou o recado de Harry, então fingiu que ensinava o cachorro a deitar e rolar, até que sentiu um cutucão nas costas. Como não viu ninguém atrás de si, teve certeza de que era Harry. Segundos depois, o cachorro deixava a Sala Comunal, parecendo tão só como quando entrou.

* * *

- Então o feitiço realmente vai se concretizar... - Dumbledore falou mais para si mesmo que para Helen.

- Receio que sim, Dumbledore. Está no Manifesto... E bem, não vejo como poderíamos impedir.

- Eu não pretendo impedir, Helen.

- Mas... E Harry... O senhor não pretende usar o garoto, pretende?

- Talvez. Como última alternativa.

- Mas, Dumbledore, ele não pediu para fazer parte disso. Foi Tiago quem se comprometeu e se eu não tivesse errado a poção...

- Ele já é um alvo em potencial, Helen. Ao menos com a concretização do feitiço ele terá meios melhores de se proteger. E você sabe que preciso de você para terminar isso tudo...

- Não me oponho em ensinar sobre o Manifesto, Dumbledore. Sabe que farei isso com prazer. Conheço cada detalhe daqueles manuscritos. Entretanto...

- Entretanto não lhe agrada meu outro pedido, não é mesmo? Sei que você não gostaria de colocar ninguém na mesma situação em que você esteve há tantos anos, mas não temos outra opção.

- Dumbledore, o garoto... Eu não posso fazer isso. Conheço todas as agruras de ser um elementar...

- Ele ainda não sabe o que é, Helen. E, ao contrário de você que entendia perfeitamente porque era diferente de seus colegas de casa, Neville Longbottom não faz idéia de porque caiu na Grifinória.

- Como se o filho de Frank Longbottom pudesse estar em outra casa... - Helen mordeu os lábios pensando com pesar na tarefa que teria que realizar.

* * *

Seguir uma pessoa invisível não costuma ser uma tarefa fácil. Ao menos quando se é humano, porque quando se é cachorro o olfato costuma facilitar a tarefa. Àquela hora não seria difícil encontrarem uma sala vazia e um simples alohomorra tornaria qualquer parte do castelo acessível.

Ainda assim, Sirius não conseguia se lembrar daquela sala, cuja porta ficava entre os quadros de dois bruxos da idade média. Lembrava-se que Tiago sempre dissera que naquele corredor havia uma passagem para fora do castelo, mas que o amigo não conseguira encontrá-la quando estavam catalogando todas as salas e corredores do castelo para confeccionar o mapa do maroto.

- Essa sala deve servir - Harry tirou a capa e fechou a porta assim que Sirius entrou.

- Que sala é essa? - o animago readquiriu a forma humana.

- Não sei... - Harry olhou ao redor. Mas parece abandonada.

- você está com o mapa do maroto aí, Harry? Eu gostaria de ver uma coisa...

- Er, bem... Acho que eu não contei uma coisinha pra você... - Harry coçou a nuca, desconcertado.

- Você perdeu? - Sirius não estava bravo. Talvez um pouco apreensivo.

- Na verdade... bem... eu emprestei ao Moody.

- Ao Moody? - os olhos de Sirius se arregalaram.

- Quer dizer, ao Crouch Jr...

- Tudo bem, deixa pra lá. É que eu não em lembro de ter catalogado essa sala... Talvez tenham criado ela depois que saí daqui.

Harry deu de ombros e finalmente deixou um sorriso invadir o rosto:

- Mas... você ficou louco? Está fazendo o que no castelo?

Sirius pensou se deveria contar sobre a reunião da Ordem. Definitivamente achava que Harry era maduro o suficiente para saber de tudo, mas algo o impediu de contar:

- Vim fazer uma visitinha - o fugitivo de Azkaban sorriu. - Não gostou? Posso ir embora.

- Até parece... Na verdade eu estava mesmo querendo falar com você. Só não mandei uma coruja porque Mione me convenceu de que seria perigoso.

- Falar comigo? Sobre o que? Sua cicatriz anda ardendo ultimamente? - Sirius tinha ares de pai preocupado.

Harry vinha sentindo pequenas pontadas nos últimos dias. Nada comparado às dores lancinantes que sentira no ano anterior. Mas não queria preocupar o padrinho. Ainda assim resolveu perguntar:

- Voldemort reapareceu?

- Nada ainda... Mas as previsões não são favoráveis. Tememos que haja um ataque já na semana que vem.

- Um ataque? A quem? E o que você quer dizer com previsões? Vocês usam Adivinhação para descobrir se vai acontecer alguma coisa? Pelo amor de Merlim, vocês não confiam no que a Sibila Trelawney diz, né? - Harry desatou a falar.

- Calma! Desse jeito você vai acabar engasgado e eu não vou lembrar de metade do que você perguntou.

Pacientemente Sirius começou a explicar sobre o Manifesto de Morgana, como o livro era utilizado para fazer previsões e outros detalhes. Era a primeira vez que dizia a Harry que trabalhava como astrônomo, o que provocou surpresa no menino. E apesar de todos os cuidados que Sirius tomara para não mencionar a Ordem, Harry deduziu que havia um grupo se organizando para combater Voldemort e aos poucos arrancaria do padrinho quem fazia parte dele.

- Então, mais alguma dúvida? - Sirius terminou as explicações com um sorriso.

- Na verdade sim. - Harry evitou olhar para o padrinho. - Sirius, sobre a matéria que saiu no jornal...

- Matéria? - o rosto de Sirius perdeu a jovialidade. - De que matéria você está falando, Harry?

- Se você não quiser responder eu entendo... Mas, bem, Catharina Silver é mesmo sua filha? Quero dizer, eu... eu não sabia que você tinha uma filha...

- Pois posso lhe garantir que a notícia me deixou tão surpreso quanto você está agora... - ele sentou no chão e suspirou.

- Então, você... você não sabia? - Harry estava sério. - A irmã dela também não. E ela se recusa a comentar qualquer coisa.

- Harry, me responda com sinceridade: a menina se parece comigo?

- Nem um pouco. - Harry respondeu sem hesitar. - Mas é a cara da mãe dela. Não dá pra duvidar que é filha de quem é. Existe alguma chance de ela ser sua filha?

Sirius ficou alguns segundos em silêncio:

- Você sabe se ela repetiu algum ano na escola?

- Se ela repetiu? Não tenho idéia. Mas pelo que Fred e Jorge contam, ela não é uma bruxa muito... hum... aplicada. Por quê?

Sirius coçou a cabeça preocupado.

- Bem, existe uma chance, um tanto remota é verdade. Mas a mãe dela não faria isso comigo. Ela não esconderia que tinha uma filha minha... Ou esconderia? - ele pensou com raiva em Helen. Vê-la há pouco só tinha aumentado seu mal-humor.

- Bom, eu posso tentar descobrir alguma coisa, se você quiser. Ela age meio estranho comigo... Quando li a matéria achei que era por sua causa...

- Estranho? Estranho de que jeito? - Sirius "estranhou".

- Bom, ela é uma sonserina. E só por isso ela já deveria me detestar. Ela já brigou com o Fred, o Jorge, a Angelina e a Mione. Isso pra contar as pessoas mais próximas a mim. Só que ela NUNCA disse nada pra mim. Eu poderia dizer até que de vez em quando pego ela sorrindo pra mim... e antes que você comece a fazer o mesmo discurso que o Rony, de que ela está apaixonada por mim, eu já vou dizendo que não tem a menor chance disso.

- Está fazendo pouco da minha filha, é, Harry? - Sirius piscou achando graça.

- Você tem que se decidir se tem uma filha ou não. - Harry respondeu ruborescendo um pouco.

- Hehe. Se ela não fosse filha de quem é, essa não seria uma má idéia. A mãe dessa menina é insuportável.

- Mas a Catharina TAMBÉM é insuportável.

- Se eu pudesse colocar os olhos por um instante nessa garota...

- Desejo realizado... - Harry olhou para a porta, que fechou num estrondo.

Ofegante, Catharina Silver respirava aceleradamente apoiada na porta. Parecia estar tentando de esconder de algo, ou alguém e nem tinha se dado conta de que havia mais gente na sala.

No que Sirius pousou os olhos na menina, um riso incontrolável se apoderou no bruxo. Ao ouvir as gargalhadas frenéticas, Cathy finalmente percebeu que não estava sozinha. De boca aberta e os olhos arregalados, ela ficou alguns instantes sem reação. Mas não muito. Menos de um minuto depois ela apontava sua varinha para Sirius Black:

- Silêncio!

Do lado de fora, podiam-se ouvir os passos leves de uma gata pelo o corredor. Madame Nor-r-ra fazia a ronda noturna por seu dono.