Capítulo 7 – Antes Do Amanhecer
Gastei uma hora pensando num verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Poesia, Drummond
- Onde você conseguiu isso? - Lyra perguntou quase sem voz a Harry, os olhos ainda presos no retrato da mãe, que lhe acenava.
- Mione acabou de receber. Você também não sabia? - ele fitou-a com os olhos verdes nervosos.
- Saber disso? De uma mentira dessas? Eu não tenho irmã. Se tivesse minha mãe teria me contado, não acha? - ela deu uma resposta atravessada, como se ele fosse o culpado por aquilo.
- Mesmo se ela fosse filha do... filha de quem a matéria diz que é?
- Você não acha que algum dia na vida minha mãe foi estúpida o suficiente para namorar alguém como...
- ... Sirius Black? - uma voz arrastada e conhecida se intrometeu na conversa. - Pois minha mãe garante que os dois foram amantes! - Draco Malfoy espezinhou. - E você, Potter, querendo rastrear Sirius Black para a sua vingancinha ou será que resolveu se passar para o lado dele?
O garoto da Grifinória e a menina da Corvinal respiraram fundo antes de virarem o rosto e encararem Malfoy com toda a raiva que guardavam dentro de si.
- Minha mãe não tem um amante! - Lyra rebateu preparando-se para pegar a varinha dentro do bolso.
- Não? - Draco retrucou irônico. - Mas é muita coincidência, não acha? Sua mãe e a Catharina Silver são tão parecidas... Lógico que a sua mãe já está velha e acabada, mas não há dúvidas de que a sua irmãzinha...
- Ela não é minha irmã! - Lyra finalmente apontou a varinha para Malfoy.
- Abaixa isso - Harry disse entredentes, forçando o braço da garota para baixo. E então voltando-se para Malfoy: - E se for? O que é que você tem a ver com isso, Malfoy?
- Eu? Nada. Nem você, não é mesmo? Ao que me consta nem mesmo amigos vocês dois são...
- Fui EU quem pediu que o Harry mostrasse o jornal a Lyra - uma voz esganiçada e autoritária entrou na conversa.
Harry deu uma piscadela discreta para Hermione. Sabia que aquilo não enganaria Malfoy, que àquela altura do campeonato sabia muito bem que Sirius estava vivo e ajudando a proteger Harry, mas ao menos isso não despertaria a curiosidade dos outros alunos.
- Tudo bem com você, Lyra? - Hermione perguntou à corvinal.
- Lógico! - ela respondeu numa voz pouco convincente. - Eu-eu estou atrasada pra minha detenção. Tchau. - e saiu correndo para fora do refeitório.
Malfoy deu um risinho cínico vendo a menina fugir e voltou a encarar os grifinórios. Rony tinha se juntado a Harry e Mione e atrás de Malfoy estavam Crabbe, Goyle e, a agora sua namorada, Pansy Parkinson:
- Então, Potter... Recebendo notícias de seu padrinho desaparecido? - e reparando que vários rostos se viraram no instante em que ele disse a palavra "padrinho", aumentou o volume da voz: - Ora, vocês todos não sabiam? O famoso Harry Potter é afilhado de Sirius Black!!! Seus pais deviam ser mesmo uns idiotas! Deixaram as próprias vidas nas mãos de um comensal...
- Meus pais não eram... - Harry tinha o rosto vermelho de cólera, e Rony agarrou seu braço prevendo que ele tentaria atacar Malfoy. - Quer saber? - ele recuperou a frieza repentinamente. - Meus pais podem ter sido o que quiserem... Ao menos eles não tiveram a mesma mancha na vida que os seus... Escuta, o que foi que seu pai fez pra que Voldemort o recebesse de volta depois de fugir com o rabinho entre as pernas?
O número de pessoas olhando a discussão aumentava. Muitos, inclusive Rony e Mione, sentiram um arrepio ao ouvir Harry pronunciar o nome do Lorde das Trevas. Mas em Malfoy, a reação ao comentário foi diferente. Seu rosto ficou mais pálido do que de costume, e o sorriso cínico desapareceu.
- Você não pode provar uma coisa dessas!
- Infelizmente só a minha palavra não basta. - e então Harry disse para que todos os presentes ouvissem: - Mas eu tenho certeza que vi Lúcio Malfoy fazendo reverencias e pedindo perdão a Voldemort no dia em que Cedrico morreu!
- Harry!! - Mione e Rony olharam boquiabertos para o amigo.
- Eu me enchi. É por causa de gente como você e seus pais que Cedrico morreu. Por causa de gente como vocês que os meus pais morreram! Por causa de gente como vocês que inocentes são tratados como culpados!
- Harry! - Rony e Hermione tentaram em vão. A cada minuto mais gente chegava perto para ver a discussão.
- Você não tem provas, Potter! - Malfoy repetiu, repentinamente preocupado com a explosão do grifinório. Se aquele boato se espalhasse poderia ser ruim para sua família.
- Nem você sobre Sirius! Ele sequer foi julgado! Ninguém nunca provou que ele entregou meus pais!
O sorriso voltou ao rosto de Malfoy:
- Então você está do lado do assassino dos seus pais? Muito interessante.
- O assassino dos meus pais é Voldemort! Sirius não tem nada a ver com isso!
- O que está acontecendo aqui? - a professora MacGonagall, atraída pelo amontoado de alunos, foi resolver o problema.
- Potter está nos contando sobre o sumiço dele na final do Torneio Tribruxo, Profa. MacGonagall. - Draco disse sarcástico. - E também que Sirius Black é inocente... Ou ele realmente está demente como a Skeeter publicou no ano passado, ou então nós temos mais um elemento perigoso na escola além da Srta. Silver.
- Isso é verdade, Potter? - Minerva olhava incrédula para o aluno, que não sabia onde se esconder.
Harry tinha prometido a Dumbledore que não falaria uma palavra sobre o que havia acontecido na noite em que Cedrico morrera, mas Malfoy deixara-o descontrolado o suficiente para esquecer a promessa.
- Potter, na minha sala. Agora!
Harry deu uma última olhada para os amigos, que tinham expressões de pesar estampadas nos rostos. Uma detenção não apagaria os boatos que em breve estariam circulando pela escola.
* * *
Ela enxugou uma lágrima que teimava em se pendurar nos cílios, torcendo para que o rosto não estivesse muito inchado. Controlara-se até conseguir convencer Terêncio Higgs de que Snape não queria nada mais além de falar sobre a detenção que cumpriria na próxima terça-feira, e então, fingindo uma dor-de-cabeça súbita, disse que precisava se recolher.
A bem da verdade, Cathy não estava fingindo o mal-estar. Assim que o professor de Poções e diretor da Sonserina lhe mostrara um exemplar do Profeta Diário daquele dia, teve certeza de que não queria fazer mais nada além de trancar-se em seu quarto e chorar. Por que raios as pessoas se interessavam tanto por sua vida a ponto de querer estragá-la sempre que ela começava a melhorar.
Desceu as escadas que davam nos dormitórios e abriu a porta torcendo para que todas as colegas já tivessem se levantado. Eram apenas 9:30 da manhã e ela sabia o quanto as outras cinco garotas eram preguiçosas, mas, para seu alívio, elas realmente tinham deixado o quarto.
Todas as camas tinham as cortinas arreganhadas, com exceção da cama de Betelguese. Cathy sempre achara a garota estranha. Era calada e taciturna, e as outras garotas do sétimo ano costumavam deixá-la de lado quando comentavam as fofocas do dia. Estava sempre acompanhada de algum livro e podia-se dizer que era quase tão mal-humorada quanto a própria Cathy, com a diferença que não desperdiçava palavras: um simples olhar da garota era suficiente para afastar os indesejados.
Não querendo atrair atenção para si, Catharina tirou os sapatos logo na entrada do quarto e caminhou com a suavidade de um gato até seu baú, o Profeta Diário ainda na mão esquerda. Abriu a arca com cuidado e retirou dali uma caixinha pequena, que guardava um livro minúsculo. Jogou-a em cima da cama e voltou a procurar algo mais no baú. Finalmente achou o que queria: um pequeno rádio portátil trouxa.
Sabia que aquele tipo de equipamento não funcionava no castelo, ao menos não com pilhas, mas estava decidida a usar magia no aparelho. Faria o radinho funcionar de qualquer forma, ainda que bem baixinho. Ouvir música era a melhor forma de encarar os momentos de tensão.
Jogou o radinho também sobre a cama e tratou de fechar o baú. Entretanto, ao tirar os dedos para que estes não fossem prensados, fez-se um estrondo da parte de cima encontrando a de baixo. Cathy mordeu os lábios, pensando que teria acordado Betelguese. Poucos segundos depois ouviu a voz sonolenta da garota:
- Quem está aí?
Cathy não respondeu. Não tinha forças para falar. Intrigada, a outra sonserina colocou a cabeça fora da cortina:
- É você? - disse com cara de impaciente. - Será que você poderia deixar as pessoas dormirem num sábado de manhã, ou isso é muito?
Novamente ela não respondeu. Pegou os dois objetos que deixara sobre a cama e andou até a janela. Acomodou-se ali e ficou a contemplar o jardim amarelado e sem flores. O outono deixava a paisagem com a coloração sépia das fotos antigas.
Betelguese voltou a fechar as cortinas de sua cama e então Cathy sentiu-se livre para abrir a caixinha que trouxera consigo. Tirou dali um livrinho minúsculo com uma fechadura. Encaixou a ponta da varinha no buraco e girou-a; num instante o livro não só se abriu como aumentou de tamanho. Era um álbum de fotografias, fotografias tão amareladas quanto a paisagem lá fora. Nenhuma delas se mexia ou acenava: era um álbum trouxa, como a maior parte das coisas que lhe pertencia.
Então passou a investir no radinho. Na terceira tentativa conseguiu ligá-lo. Colocou os fones de ouvido e ficou a contemplar as lembranças de um tempo distante, mas que parecia cada vez mais próximo. Distraída nesse passatempo, a menina não percebeu quando sua companheira de quarto finalmente desistiu de tentar dormir.
Betelguese se levantou muda, como de costume. Trocou o pijama pela calça jeans e o moleton verde e foi até a penteadeira do quarto arrumar o cabelo. Tinha o cabelo preto e comprido como os de sua mãe, mas os olhos verdes do pai. Era sem dúvida uma garota bonita e, acima de tudo, imponente. Mesmo de cara amassada de tanto dormir, ela conservava o ar superior e o nariz empinado.
Foi pelo reflexo do espelho que ela notou que Cathy havia deixado algo sobre sua arca. O Profeta Diário daquele dia parecia mais volumoso que de costume. Acostumada a procurar notícias sobre seus pais todos os dias, puxou o jornal sem sequer sair da cadeira onde estava sentada para constatar que uma foto da colega de quarto estava estampada na primeira página do jornal. Depois olhando atentamente, percebeu que a mulher da foto era mais velha.
Cathy continuava com os olhos presos nas fotos e o pensamento distante. Vez ou outra olhava pela janela para avistar folhas caindo das árvores. A música alta a impedira de ouvir quando Betelguese chamou-a pela primeira vez. Só se deu conta que a outra falava com ela, porque um aviãozinho feito com uma página de jornal bateu em seu nariz.
Olhou para o lado e viu que a outra sonserina a analisava, coçando levemente o queixo. Betelguese não sorria, deixando o rosto meio inclinado, apoiando sobre as mãos.
- Que foi? - Cathy retrucou incomodada.
- Nada. - a outra respondeu dando de ombros. - Bem-vinda ao time, priminha!
- Time? Priminha? Do que você tá falando? - Cathy desligou o rádio de uma vez.
Betelguese deu um suspiro fundo e levantou da cadeira, caminhando até a outra garota, que fechou rapidamente o álbum de fotos.
- Aqui diz que você é uma Black... Pois somos duas. Minha avó era tia do seu pai.
- Ele não é meu pai - Cathy retrucou seca.
- Escuta. Eu sei exatamente pelo que você está passando. Ter um pai que foi Comensal da Morte parece o fim do mundo, mas não é, sabe? Impõe um certo respeito frente a essa cambada de idiotas.
- Eu não sou filha dele - ela repetiu.
- Olha, eu também costumava negar que era filha de quem sou. Tinha... - a garota hesitou - ... ódio deles. Me deixaram na porta da casa da minha tia quando eu não tinha nem um ano... Eu iria atrapalhar os planos deles... Mas, bem, você nunca deve ter visto uma pessoa que passou anos encerrada em Azkaban... - os olhos verdes de Betelguese passaram a fitar a paisagem lá fora. - São dignos de pena. E só.
- Quem são seus pais? - Cathy estava admirada. Aquela menina nunca conversara com ninguém e agora estava contando coisas de sua família para ela, assim, sem mais nem menos.
- Rodolfo e Bellatrix Lestrange. Dois inúteis que se deixaram prender. Ao menos nesse ponto você tem que admirar seu pai. Ele fugiu de Azkaban. Isso é praticamente impossível. Os meus nunca vão sair de lá a não ser que alguém os solte.
- Você é filha de Rodolfo e Bellatrix? - Cathy perguntou mais para si mesma do que para a outra garota. - Eles torturaram os Longbottom até leva-los à loucura....
- Ora, sua mãe torturou essa jornalistinha idiota aqui, não foi? Vocês são bem parecidas, hein? Achei até que fosse você na capa do Profeta Diário. E uma tortura não pode ser pior do que um assassinato e seu pai cometeu 15 numa mesma noite!
- Você fala como se isso fosse uma coisa natural... - Cathy estava assustada.
- Não, não acho natural. Mas sei que isso me dá poder aqui dentro. E vai te dar poder também. Esses bobocas têm medo da gente, porque somos filhas de Comensais. E quer saber, no começo eu me incomodava, hoje acho bom.
- Você acha bom que as pessoas tenham medo de você? - Cathy estava atônita. - Mas Betelguese...
- Não me chame por esse nome. Não gosto dele. Me chame de B. E acho bom sim. Porque medo significa respeito. O estúpido do nosso primo Draco, por exemplo, acha uma maravilha se vangloriar do que o pai dele é capaz, mas perde um duelo pra uma sangue-ruim...
- Sabe, você não devia ter pena dos seus pais... - Cathy levantou decidida e com raiva. - Você é igualzinha a eles.
E saiu do quarto deixando Betelguese Lestrange sozinha com um certo álbum de fotos destrancado.
* * *
Lyra abriu a porta da estufa quatro com cuidado.Com sorte Michael não apareceria, vencido pelo sono. Sabia que ele ficara acordado até tarde naquela noite, comemorando o fato de que fora escolhido como novo artilheiro da Corvinal com os amigos. Ele não ia estar lá...
Ele já estava.
- Atrasada... - o garoto fez cara de bravo para a menina.
Lyra não respondeu nada. Limitou-se a prender duas mechas de cabelo atrás das orelhas e sentar-se diante de um vaso grande e sem terra.
- Aconteceu alguma coisa? - Michael estranhou. Lyra sempre lhe dava alguma reposta atravessada no começo da manhã, depois, conforme, o relógio ia andando, tornava-se uma pessoa agradável. Mas ficar muda, isso ela nunca ficava.
A menina apenas balançou a cabeça, negando. Puxou então um saco de fertilizante para perto de si, e com uma pá começou a jogara mistura fétida dentro do vaso, fazendo algumas caretas por causa do mau-cheiro.
Michael Turpin resolveu respeitar o desejo da menina e não falou mais nada. Ficaram os dois trabalhando em silêncio por pelo menos meia hora, até Lyra deixar um vaso razoavelmente pesado cair e se espatifar no chão.
- Aiiiiiii!!!! - ela levou a mão ao joelho, que tinha sido atingido por um estilhaço.
- Você está bem? - o garoto levantou correndo e se agachou pra olhar o joelho dela de perto.
- Acho... acho que não foi nada. Doeu na hora... - ela abaixou também.
- Seja lá o que for, é melhor nós lavarmos seu joelho. Se for só um hematoma, tudo bem, mas se houver um corte, pode infeccionar.
Lyra olhou para o joelho e em seguida encarou Michael, os lábios se contraindo, querendo dizer alguma coisa.
- Fala - o menino percebeu.
- Hum... sabe... é... bem... Você gosta de ter uma irmã mais velha?
- Se eu gosto da minha irmã? - ele estranhou a pergunta. - Achei que você queria saber algo sobre o seu joelho... - ele encostou um pano úmido na perna da menina, tentando limpar o machucado.
- Gosta ou não gosta? - ela insistiu.
- Hum... Gosto. Mas preferia quando ela não era monitora. Ela pegava menos no meu pé. Foi só um hematoma, mesmo. Vai ficar roxo.
- Ah, tá. Obrigado. - ela se levantou e esticou a perna machucada. Doía um pouco, mas nada de exagero.
A menina recolheu a muda que tinha acabado de plantar naquele vaso e começou a preparar outro, deixando-a repousar numa bacia cheia d'água.
- Vai ficar muda outra vez? - Michael reclamou. As horas estavam parecendo mais longas com todo aquele silêncio.
- Hum... Eu não tenho nada pra falar. - ela disse baixinho, os olhos atentos no trabalho de manual de misturar terra e fertilizante.
- Nem sobre os tais patins? Você sempre fala disso... - ele arregalou os olhos levemente desesperado.
- Você não gosta de ouvir falar de coisas de trouxas... - ela apertou bem a mistura contra o fundo do vaso e por fim, plantou a mudinha.
- Quem disse que não? Eu adoro ouvir falar de trouxas!!! No momento eu adoro ouvir falar de qualquer coisa, contanto que você fale! Se eu ouvir outra vez um som de cigarra, quem vai quebrar um vaso sou eu. Mas vai ser de propósito.
- Não me leve a mal... Eu só não estou muito animada hoje... - ela acabou de achatar a terra.
- Isso eu percebi. Você está brava comigo? Fiz alguma coisa de errado? Sobre ontem, eu sei que eu fiquei tirando sarro sobre as tais flores-do-sol e dentes de jibóia que tem no seu país, mas...
- Não são flores-do-sol, muito menos dentes-de-jibóia. - ela respondeu calmamente, o que era realmente estranho, pois ela sempre ficava furiosa quando Michael errava alguma coisa sobre a Rússia: - São girassóis e dentes-de-leão... Quem me dera poder ver um campo inteiro dessas flores agora.
- Desejo realizado!
Michael apontou a varinha para dois vasos semi-prontos na frente de Lyra. No primeiro apareceu uma pequena bola de fogo que girava como um catavento e no segundo, o focinho de um leão, junto com a boca cheia de dentes afiados.
A menina começou a rir encantada com o mal-entendido do garoto, que olhava desconcertado para os dois espécimes: como é que Lyra achava uma coisa daquelas bonita? Eram perigosas, isso sim.
- Só você pra me fazer rir num dia como hoje! - e então os olhos dela começaram a ficar tristes outra vez. - Vou sentir falta das detenções...
- Você não precisa encher as unhas de terra pra me ouvir falar algumas bobeiras, russinha! Agora me fala. Que houve? Você não parece a garota que está sempre brava comigo!
- Prefere que eu fique brava? - ela forçou uma risada.
- Prefiro! Porque eu prefiro você brava a você triste! Se não quiser desabafar comigo, tudo bem! Mas pelo menos vai conversar coma Amelia. Eu termino o trabalho sozinho.
- Quantas vezes eu vou ter que dizer que é Emily, não Amelia? E eu não quero falar com ninguém... - ela virou o rosto para o outro lado, para que ele não visse uma lágrima que acabava de cair.
- Você é que sabe... - ele baixou a cabeça desapontado, e voltou a cuidar de um dos vasos.
Então, os soluços da menina começaram a ficar mais altos e em pouco tempo ela tinha mãos sujas de barro formado da mistura das lágrimas com a terra. Sem saber o que dizer ou que atitude tomar, Michael largou o vaso de papoulas que estava cuidado e abraçou-a.
- Calma! Vai passar! Vai passar!
Ele sentia a respiração ofegante e o coração acelerado da menina.
- Me... ajuda... achar... minha... avó... por ... favor. - ela pediu soluçando em parar.
- Ajudo, lógico que ajudo, mas antes você tem que se acalmar, certo. Vamos, lave o rosto. - ele a levantou do chão e praticamente a carregou até uma das enormes pias da estufa. - Está melhor?
- Aham... - ela já conseguia controlar os soluços.
- Vamos para o castelo então. Quem sabe a gente dá sorte e algum monitor vem fiscalizar...
- Sorte? - ela olhou para ele perplexa.
- Sorte. Se perceberem que a gente não está cumprindo esta detenção provavelmente vão passar outra e a gente vai ser obrigado a conviver por mais algumas horas na próxima semana... - ele abriu o sorriso branco.
- Michael... - ela parou de andar de repente.
Ele a encarou.
- Eu... eu não quero mais falar com minha avó. Quero dizer... eu realmente preciso de alguém pra desabafar, porque isto está em sufocando... Você...
- Quer ficar aqui na estufa mesmo ou ir pra beira do lago... Eu costumo ir pra lá quando alguma coisa está em chateando.
- Prefiro aqui. Se você não se importar, é claro...
- De jeito nenhum... Desde que eu fique bem longe daquelas coisas que você chama de flores...
O riso tímido de Lyra se confundia com as fungadas, que o nariz ainda vermelho de choro, deixava escapar. Ela procurou um lugar menos cheio de terra e sentou-se. O garoto fez o mesmo.
- Você não leu o jornal hoje, leu?
- Jornal? Você quer dizer o Profeta?
Ela balançou a cabeça confirmando.
- Eu não leio aquele monte de mentiras...
- Mentiras? Por que você está dizendo isso?
O rosto de Michael se contraiu numa expressão de desagrado.
- Se seus pais tivessem perdido o emprego de anos por causa de uma besteira que uma repórter inventou, você também não daria crédito a uma linha do que sai naquele jornal.
- Bem... Acho que o lugar onde minha mãe trabalha não recebe a visita de corujas freqüentemente...
- Também falaram da sua família? - ele apertou os olhos em direção à menina.
- Pode-se dizer que sim. Falaram da minha mãe.
- Aposto que não tinha uma linha verdadeira no texto inteiro...
- Ahm... bem... na verdade até tinha... mas é que a matéria diz uma coisa da qual eu já vinha desconfiando há tempos, sabe?
- Que uma tal garota da Sonserina é sua irmã?
- Como você sabe?
- Seu amigo Benjamin comentou comigo outro dia que os olhos dela eram idênticos aos seus... E que ela também tinha vindo da Rússia, apesar de não ter sotaque. Coisa mais sem graça... Vir da Rússia e não ter o sotaque...
Lyra de um sorriso de estranhamento. Ele gostava do sotaque dela?
- Como eu disse, deve ser mentira. Aquele jornal não é confiável. Entretanto, se você ainda tem dúvidas, o melhor a fazer é mesmo procurar sua avó.
- Acho que vou fazer isso mesmo. Depois que terminarmos aqui, lógico.
- Poder ir, eu termino sozinho. Isso é mais importante.
- Mas ainda tem muita coisa pra fazer...
- Não tem problema. Vai. Mas vai logo antes que eu mude de idéia.
Ela agradeceu, sem jeito e saiu correndo pela porta de vidro da estufa. Certo de que a menina estava longe, Michael tirou o jornal cuidadosamente dobrado de dentro dos bolsos das vestes. Os olhos de Lyra realmente eram iguais aos de sua mãe.
* * *
- E aí? - Rony pousou os olhos arregalados sobre o amigo que acabava de entrar no dormitório.
Harry não respondeu nada, mas sua cara não era muito boa. Caminhou até a cama e tirou a capa preta, jogando-a de qualquer jeito sobre a arca de roupas. Então ajeitou o travesseiro e se jogou na cama, onde ficou calado ainda uns cinco minutos, até Rony romper o silêncio que imperava no quarto.
- Se não quer contar, tudo bem. Mas achei que amigos...
- Contar o quê, Ron? Que Dumbledore me mandou ficar de boca fechada? - Harry reagiu inesperadamente, ainda mais nervoso do que meia hora atrás, quando discutira com Malfoy no Salão Principal. - Que daqui a pouco Neville, Dino e Simas vão entrar por aquela porta e me olhar como se estivessem vendo um bicho-papão transformado no seu pior pesadelo?
- Ei, você não precisa falar assim comigo! - Rony se ofendeu. - Eu só queria ajudar!
- Pois se você quer mesmo me ajudar, me deixa sozinho, ok? - e fechou com força as cortinas com força.
O ruivinho deu um suspiro raivoso e saiu do quarto batendo a porta. Ao chegar no sopé da escada encontrou Hermione, aflita.
- Ele falou com você? - o olhos castanhos tinham um ar de desespero.
Rony não conseguiu encará-la. Baixou a cabeça e acenou negativamente, sem pronunciar uma única palavra. Mione mordeu os lábios preocupada:
- Já estão comentando... - ele murmurou para que apenas Rony entendesse o que falava. - Eu tentei falar com ele, mas a Parvati e a Lilá estavam por perto, fazendo aquelas caras e bocas que você conhece. - e virou-se para lançar um olhar raivoso para as duas colegas, que novamente estavam aos cochichos.
- E vão continuar comentando. - Rony deu de ombros. - Como sempre fizeram... Eu não sei porque Harry está tão transtornado dessa vez. Isso já aconteceu tantas vezes...
- Foi o que ele disse pro Malfoy, Ron. Ele se encheu. E não era sem tempo. Eu teria explodido na primeira.
- Só que agora ele não quer nem a nossa ajuda - o ruivinho se sentou no chão, num canto escondido da sala comunal.
- Dumbledore deve ter sido duro com ele. Ele não devia ter falado o que falou...
- Mione... - Ron olhou para cima de repente. - Eu... Eu estou começando a ter uma idéia...
- Idéia? - ela se abaixou e Rony pode ver todas as rugas de interrogação que ocupavam a testa da garota. - Que tipo de idéia?
- Você reparou que metade do salão principal se surpreendeu ao ouvir o Malfoy dizendo que o Sirius era padrinho do Harry?
- Desenvolva! - ela mandou.
- Bem... Isso quer dizer que pouca gente conhece a história verdadeira e que, bem, que pouca gente sabe exatamente porque Sirius foi preso.
- Certo. E onde você quer chegar com isso?
- Hermione! É nessa parte que você entra! Eu disse que estava começando a ter uma idéia! Você conclui! A pessoa que raciocina rápido aqui é você, não eu...
- Ei, peraí... Acho que realmente... Nós podíamos contar a verdade!
- Quê? - Rony não entendeu. - Como assim a verdade?
- A verdade! Que foi Rabicho quem matou os pais do Harry. Que Sirius é inocente!
- Mione, eu disse pra você concluir minha idéia, não pra você pensar numa loucura!!! - se não estivesse preocupado em manter aquela conversa em segredo, Rony teria gritado com a amiga.
- Não é loucura, Rony! - Hermione exibia um sorriso quase demente.
- Não! Não é loucura! Nós vamos contar que Sirius é inocente... Hahahaha. Como se alguém fosse acreditar na gente... se bem que... Bom, talvez aí o Harry parasse de evitar a gente... Afinal a escola inteira ia começar a olhar pra nós dois do mesmo jeito que pra ele...
- Duh! Lógico que não, Rony! - Hermione ralhou com o amigo. - Nós precisamos de um meio influente, mas que também não tenha assim tanta credibilidade... Precisamos plantar a idéia na cabeça das pessoas.
- E como você pretende fazer isso? - às vezes Rony achava um verdadeiro sacrifício acompanhar as idéias de Mione.
- Primeiro nós temos que convencer um veiculo de comunicação de alcance nacional. Alguém que se disponha a lançar uma noticia sobre a inocência do Sirius.
- Você pode chantagear a Skeeter - Rony sugeriu.
- Pensei nisso, mas não. O editor dela provavelmente vetaria a noticia. Mas hoje cedo eu vi uma revista nas mãos da Lilá... Absolutamente ridícula. Você tinha que ver as coisas que publicam. Provavelmente não teriam medo de se queimar...
- De que revista você tá falando? - Rony franziu a testa.
- Como era mesmo o nome - a menina começou a batucar os dedos na testa. O Quattle, o Quórum...
- O Quibble? - Rony arregalou os olhos.
- Isso mesmo. Você conhece?
- Conheço. Mas, Mione, ninguém sério lê aquilo.
- Exatamente, Rony, por isso nós vamos poder contar que Sirius e Rabicho são animagos...
- Você vai contar que eles são animagos??? - os olhos de Rony se arregalaram ainda mais.
- Vou mudar o bicho em que o Sirius se transforma, é lógico. Acho que era melhor dizer que ele era um gato.
- Mione, você definitivamente ficou louca. Você deve ter bebido alguma poção que o Neville preparou e agora teus miolos tão fundindo!
Ela fez uma careta como quem não gostou do que ouviu, o que não apareceu incomodar Rony que continuava achando que a menina estava ficando pinel.
- De qualquer forma - ela continuou -, essa é só uma parte do plano.
- Não sei se eu quero ouvir o resto...
- Rony! - ela ralhou alto e algumas pessoas olharam para onde os dois estavam. Eles esperaram a atenção se dissipar e voltaram aos cochichos:
- Como eu disse, precisamos de divulgação interna. Temos que fazer com que a história se espalhe.
- Hahahaha! Ótimo! Você acabou de provar que está louca! Como é que nós vamos sair contando isso por aí?
- Através de um jornal... Estou com essa idéia há algum tempo. Faríamos um jornal para circular em Hogwarts, comentando os acontecimentos do castelo, e outras curiosidades. Assim que conquistássemos um certo público leitor, publicaríamos a história do Sirius. E não precisamos assinar! Assim ninguém fica sabendo que foi a gente.
- Eu posso falar mal do Malfoy nesse jornal? - Rony olhou de esguelha, com um sorriso maroto nos lábios.
- Tem total apoio da editora! - Mione piscou.
- Feito - os amigos se apertaram as mãos. - Vamos contar ao Harry?
- Não, Ron. Deixe isso em segredo. Quanto menos Harry souber sobre o que vem por aí, melhor para ele.
- Ele vai ficar com raiva da gente... - Ron hesitou.
- Não podemos fazer nada.
- Ok. Segredo nosso?
- Segredo nosso. - Mione apertou a mão de Rony. Não tinha muita certeza do que estava fazendo, mas parecia a coisa mais certa.
* * *
- Vai ficar admirando essa fulaninha até quando? - Cathy apoiou os braços na mesa do refeitório e encarou Terêncio Higgs com cara de brava.
- Ciúmes? - ele brincou com ela.
- Até parece... - ela revirou os olhos. - Só acho ridículo você ficar igual a um cachorrinho atrás dela depois do que ela te fez.
Quando Cathy contara a Higgs da estranha conversa que tivera com sua colega de quarto, Betelguese Lestrange, ele resolvera lhe abrir o coração. O garoto sentia que podia confiar na menina desde a primeira vez que a vira, apesar de ela ter tentado se esquivar no início. Assim, naquele mesmo dia, Cathy ficara sabendo que Terêncio Higgs fora namorado de Betelguese quando ainda era o apanhador da Sonserina e que a menina terminara com ele quando ele perdeu a vaga no time.
- Eu não fico igual a um cachorrinho atrás dela! - ele amarrou a cara.
- Só falta lamber os sapatos! - ela fez beicinho, provocando.
- Maldita hora em que eu te contei...
- Será que você não entende? Ela não te merece! É podre, como a família toda!
- Até onde eu sei você faz parte da família dela! - ele retrucou, aborrecido, querendo magoar a amiga.
- Quantas vezes eu vou ter que lhe dizer que não sou filha de Sirius Black? - ela baixou o tom de voz, percebendo alguns olhos curiosos sobre os dois. - E... bem... mesmo que eu fosse... Ele não é como os outros...
- Virou adepta do Potter agora? - ele desafiou. Concordar com um grifinório era o pior tipo de desonra para um sonserino.
- Não mude o assunto da conversa. Estávamos falando da sua querida B...
- Não, nós estávamos falando da SUA família!
- Pois muito bem. - ela concordou de repente, com os olhos na entrada do Salão Principal. - Já que você insiste, vamos continuar falando da minha família...
- Hã? - o rapaz fez cara de espantado. Após aquela provocação, ele tinha certeza que ela iria jogar o copo de suco na cara dele e sair furiosa em direção às masmorras, mas ela continuava ali e parecia mais calma do que nunca.
- Malfoy - ela indicou com um meneio de cabeça. - Também é meu primo, não é? Sabe, essa história do Potter me deu uma idéia...
- Que tipo de idéia?
- Bem... eu andei pensando... sei que é contra as regras, que um sonserino jamais deve pedir ajuda a um grifinório e tal, mas...
- Mas...
- Bem, a pessoa que Malfoy mais odeia no mundo é o Potter, não é?
- Quando é que você vai dizer alguma novidade? - ele estava se entediando com a demora.
- Ok, você me procurou há quase dois meses com o propósito de se vingar do Malfoy, não foi?
A conversa toda era feita em cochichos, quase que uma leitura de lábios. Além disso, ambos estavam num extremo da mesa, bem longe dos outros alunos que tomavam o café da manhã.
- Bem, até agora não conseguimos nenhuma ação concreta contra esse enjoadinho. Mas se pedíssemos a ajuda do Potter...
- Não fale besteiras, Cathy... Até parece que o Potter iria nos ajudar!
- Foi você quem acabou de falar que o Potter virou defensor do Sirius Black. E, bem, eu sou a filha dele, não sou?
- Peraí, você não tá pretendendo...
- ... usar essa boataria toda a nosso favor. Se eu fizer o Potter realmente acreditar que sou filha do Black, quem sabe ele não me ajude a aprontar uma com o Malfoy. Além de que eu acho que ele adoraria ver o Malfoy se ferrando de vez em quando...
- É, pode dar certo. - Higgs deixou os olhos pousarem na figura emproada de Malfoy, que dava ordens aos colegas para que lhe passassem torradas ou ficassem quietos.
- VAI dar certo! - a garota disse confiante e enfiou um pedaço de queijo na boca.
* * *
Quase um mês em falar com ninguém Nem mesmo nos treinos Harry abria a boca, por mais piadas que os gêmeos Weasley fizessem. Jogava automaticamente, muito sério e compenetrado, não dando motivo para que qualquer colega de time reclamasse. Aos elogios, reagia com um sorriso xoxo e apagado.
Nas últimas semanas o refúgio de Harry era a cabana de Hagrid, para onde ele seguia todos os dias após as aulas. Ficava ali até o anoitecer, pois era um lugar onde não teria que topar com outros alunos apontando para ele e cochichando qualquer coisa com olhares assustados. Mas o que seu amigo meio-giante não conseguia entender era por que Harry andava evitando Rony e Hermione:
- Você pode em dizer, Harry. Eles te fizeram alguma coisa? Toda vez que Hermione bate aqui te procurando você teima em se esconder debaixo dessa capa... Eu respeito o fato de você não querer conversar com seus amigos, mas juro que não compreendo... - Hagrid coçava a cabeça confuso.
- Não há nada para se entender, Hagrid. Eles estão melhor longe de mim.
- Mas você não está bem longe deles...
O garoto apoiou os braços na janela e passou a contemplar a chuva fina e gelada que caía lá fora. Lembrava-se do que Dumbledore lhe dissera no dia em que cortara relações com seus melhores amigos: "Sabemos que existe um espião na escola. Eu, mais do que ninguém, gostaria de não esconder nada de meus alunos. A ignorância pode ser nossa pior inimiga. Mas você tem que entender que , nesse caso, mostrar aos outros que se sabe alguma coisa pode colocar você em perigo. Você e as pessoas ao seu redor..."
As pessoas ao seu redor... Ora, o único meio de proteger Rony e Mione era mantendo os dois fora daquilo tudo e ele sabia que não conseguiria conter seus sentimentos e aflições com os amigos sempre ao seu lado. E não adiantaria tentar enganá-los. Rony e Mione o conheciam melhor que ele mesmo.
- Acho que é hora de eu voltar, Hagrid. A essa altura todo mundo já deve ter jantado...
- Fugindo do assunto outra vez! - o gigante balançou a cabeça desaprovando.
Harry deu um sorriso triste e não respondeu nada. Apenas procurou a capa da invisibilidade e deixou a casinha próxima à Floresta Proibida. Achou melhor não despir a capa antes de olhar quem estava no Salão Principal: não queria encontrar os amigos.
O garoto resolveu ficar sem o jantar ao ver Rony e Mione sentados à mesa da Corvinal, conversando com uma garota loura que ele só tinha visto uma vez antes, no primeiro dia do clube de duelos. Era a desastrada que mandara Neville para a enfermaria. Mione parecia um pouco impaciente com aquela conversa e Rony fazia caretas que levaram Harry a pensar que ele estava ouvindo algum absurdo muito grande.
Subiu as escadas que levavam à Torre da Grifinória, mas deteve-se um pouco no corredor do quarto andar. Tinha uma grande tarefa de transfiguração para terminar e ouvira Hermione comentando com Lilá durante uma aula que havia um livro bastante detalhado sobre o assunto. Se as coisas continuassem como nos velhos tempos, ele poderia simplesmente ouvir a amiga explicar. Mas agora...
Olhou bem para os lados. O corredor estava deserto. Escondeu a capa atrás de uma armadura enferrujada e entrou na biblioteca. Como todas as vezes que se movimentava pela escola sem a capa, todos os olhares voltaram-se para ele. O silêncio habitual foi cortada pelo som baixo e irritante dos cochichos dos alunos.
Harry não se demorou. Pediu o livro à bibliotecária e saiu depressa. Queria tanto sumir dali que esqueceu-se de verificar se havia mais alguém naquele corredor:
- Uma capa da invisibilidade?!
O garoto de olhos verdes e cicatriz na testa deu um pulo de susto:
- Neville?
- Então é assim que você anda circulando pela escola! - o rapazinho de bochechas rosadas não tirou os olhos da capa prateada.
- Eu... ahn... Não... Isso não é uma capa da invisibilidade. Rony me disse que realmente se parece com uma, mas não é. Eu lhe garanto.
- Sei... - Neville balançou a cabeça, ainda com os olhos na capa. - Então, nesse caso você não se importa de me acompanhar até a Torre da
Grifinória, não é? Esquecia a senha...
- Se você não se importar de virar alvo de todos os olhares... - Harry retrucou com amargura.
- Não deve ser muito diferente das aulas de Poções - ele comentou.
Em todas as aulas, após Neville fazer alguma coisa de errado com sua poção, o menino sentia a nuca arder com os olhares de pena e deboche que os colegas lhe lançavam. Harry nunca tinha parado para pensar no que era ser vítima desse tipo de atenção.
- Tudo bem.
Os dois seguiram mudos até a Torre e os poucos rostos amedrontados com os quais cruzaram nos corredores, nem se comparavam à cara de espanto dos alunos da Grifinória ao ver Harry entrar acompanhado de Neville. Nos últimos tempos, Harry sempre era visto sozinho.
- Bom, eu vou subir. Boa noite.
- Eu também vou - Neville não deixou que o outro sumisse de sua vista.
Subiram as escadas que davam nos dormitórios mais uma vez calados. O quarto estava deserto, o que Harry achou muito bom. Abriu a arca aos pés de sua cama e puxou o pijama de dentro.
- Onde você conseguiu uma capa da invisibilidade? - Neville finalmente retomou o assunto, depois de algum tempo em silêncio.
- já disse que não é...
- Harry, eu sei muito bem reconhecer uam capa da invisibilidade! Eu tenho uma!
- Você o quê? - Harry arregalou os olhos na direção do colega de quarto.
- Ganhei nas férias. Minha avó disse que era hora de eu conhecer melhor a meus pais...
Harry ficou quieto. Sabia do estado dos pais de Neville, mas o garoto não sabia disso.
- Sabe, meu pai era um auror. Há um baú na minha casa que tem todos os objetos de DCAT que você possa imaginar. E eu só fiquei sabendo disso esse ano. Porque minha avó acredita em Dumbledore e acha que Você-Sabe-Quem realmente está de volta... E ela acha que eu preciso aprender a me defender...
- Bom, todo mundo deveria - Harry arriscou.
- Mas, sabe, meu pai sabia se defender. Ao menos eu acho que um auror sabe se defender. E isso não adiantou nada... - o tom de voz do garoto ficou choroso e mesmo sem coragem de encarar Neville, Harry podia dizer com certeza que havia lágrimas escorrendo pela face rosada do amigo. Mas Neville tinha forças para continuar.
- Nesse mesmo baú eu achei uma coisa, Harry. E, bem, se o que estiver escrito lá for verdade, você está realmente certo em defender Sirius Black...
- Sirius? O que isso tem a ver com Sirius, Neville? - ele levantou a cabeça num átimo.
- Bem, segundo o diário de meu pai, Sirius Black era o melhor astrônomo que uma Ordem de Combatentes das Trevas poderia querer - Neville puxou um caderno velho de debaixo de seu travesseiro. - Aqui está.
Meio sem entender o que estava acontecendo, Harry recebeu o caderno das mãos do amigo e então ficou ouvindo Neville contar tudo o que lera naquelas páginas. Sobre mortes de trouxas, desaparecimentos, namoros e expulsões. As palavras confusas e o raciocínio bagunçado de Neville conseguiram, porém deixar a forte sensação de o garoto acreditava na inocência de Sirius.
Ficaram naqueel ritmo até ouvirem um forte estrondo. Os dois olharam imediatamente para a porta: era Rony. O ruivinho não disse nada. Apenas olhou perplexo para Harry e depois para Neville, então balançou a cabeça com raiva e foi andou até sua cama, evitando olhar para aquele que até poucos minutos atrás era seu melhor amigo. Sequer tirou a roupa do corpo: tão logo se jogou na cama, fechou as cortinas.
Neville colocou os olhos aflitos em Harry que parecia calmo. Parecia. Em seu peito, sentia uma faca rasgar-lhe o coração. Sabia como Rony devia estar se sentindo. Há semanas se recusava a conversar com o amigo sobre o que quer que fosse, e agora engatava uma conversa sem fim com Neville. E explicar a Rony o porquê daquilo sem mencionar a história que Neville Longbottom acabara de lhe contar, seria algo extremamente difícil.
* * *
- Você já leu, Harry? - Hermione empurrou um pergaminho fino na direção do amigo. Com exceção de ter apenas uma página, parecia-se com um jornal. Insistia em tentar conversar com ele, mesmo que na maioria das vezes Harry a ignorasse.
- Ora, Mione, até parece que você não sabe... Ele só lê aquilo que fala dele... E aí não tem nenhuma referência ao famoso Harry Potter - Rony respondeu de atravessado.
Há duas semanas que os dois garotos não conversavam. Mais precisamente desde a tentativa de Harry de explicar sua conversa com Neville, muito pouco convincente, na opinião de Rony. A partir daí, os dois amigos adotaram a postura de rivais.
- Eu não leio só o que fiz respeito a mim... - Harry folheava um livro segurando a raiva e a vontade de xingar Rony.
- Ah não, você também lê o que diz respeito a Sirius Black, que também tem a ver com você...
- Rony! - Hermione ralhou.
- Eu já acabei. - o ruivinho empurrou o relatório da monitoria para Mione e levantou da mesa.
- Já vai tarde!! - Harry gritou para que o ex-amigo ouvisse.
- Vocês têm que parar com isso - Hermione disse em tom choroso. - Estão brigados por bobeira.
- Eu tentei explicar a ele... Se ele é um cabeça-dura, a culpa não é minha.
- A culpa não é sua? - enfim Hermione indignou-se. - Pois se você quer saber, Harry, eu também estou com essa história atravessada na garganta. Você evitou a gente por uma semana. Agüentamos todos os seus desaforos e respostas mal-humoradas. E simplesmente, do nada, você resolve que o seu melhor amigo é o Neville? Não que eu tenha algo contra ele. O Neville é uma gracinha, acontece que nós sempre dividimos nossos segredos com você e sempre guardamos os seus a sete chaves. Nós merecíamos pelo menos que você falasse a verdade.
- Hermione... - Harry escondeu o rosto entre os dedos. Metade da biblioteca estava olhando para eles. A menina não se dera conta de que elevara demasiadamente o tom de voz.
- Ora, Granger, a verdade todos nós sabemos - a voz arrastada de Draco Malfoy se fez ouvir. - Harry Potter agora não só defende Sirius Black como passou a seguir seus passos. Morte aos sangue-ruins e amantes de trouxas! Ele vai começar por você e seu namoradinho - ele concluiu com seu habitual sorriso de sarcasmo.
- Rony não é...
Mas Hermione foi interrompida:
- Que interessante... - uma voz feminina ecoou no salão.
* pausa para dar voz aos leitores:
- Afinal onde está a Madame Pince pra acabar com essa baderna dentro da biblioteca?
A autora responde:
- Um aluno desavisado do primeiro ano da Corvinal (meu querido Ben, amiguinho da Lyra) abriu o livro Os gritos mais horrendos de toda a eternidade, da seção reservada enquanto cumpria uma detenção. Por estar muito perto do livro, o garoto desmaiou e Madame Pince, que correu toda a biblioteca para fechar o livro antes que os alunos ficassem surdos, acabou sofrendo o efeito de todos que chegavam muito perto daquele exemplar sem bons abafadores de som: ficou temporariamente surda e não entende nada que lhe dizem a não ser que falem bem próximo de seus ouvidos.
- E o Ben?
- Continua na enfermaria.
Voltando à história... *
- Eu podia jurar que tinha ouvido você fazer esse mesmo discurso ontem na sala comunal da Sonserina. - Cathy, sentada em cima de uma das mesas da biblioteca, disse com ironia: - Morte aos sangue-ruins e amantes de trouxas...
- Por que você não cala a boca? - Malfoy retrucou.
- Porque, segundo você, Harry está seguindo os passos do MEU PAI. Que caras assustadas são essas? - ela ficou de pé sobre a mesa, vendo os olhos arregalados de todos os alunos da biblioteca. - Não é isso o que todos vocês acham? Que eu sou filha de Sirius Black? Pois já que fiz a fama, vou deitar na cama. E que vocês acham do fato de que o Sr. Malfoy aqui é meu priminho? Ora, ele nunca contou nada sobre isso? Muito conveniente, hein, Draquinho?
O rosto de Malfoy ia ficando cada vez mais pálido. Ele todo tremia de raiva e nervoso. Harry, por sua vez, olhava a garota num misto de curiosidade e divertimento.
- Para quem não sabe, a mãe do Draco é prima do meu suposto pai, o que nos torna primos em segundo grau. E vocês sabem como essas coisas tem a ver com o sangue, né? O mesmo sangue que corre nas minhas veias, corre nas do meu priminho. O mesmo sangue do meu pai louco e assassino...
- Chega! - Malfoy apontou a varinha para a garota.
- Isso!!!! Mostre que você tem o sangue dos Black em suas veias, garoto! Vai lançar o que em mim? Uma das imperdoáveis?
O rapazinho teria lançado a maldição naquele instante, se sua namorada não tivesse se colocado entre ele e seu alvo.
- Draco, controle-se! - Pansy disse em tom baixo e suave, tomando a varinha das mãos do namorado. - Ela quer te provocar. Vamos sair daqui... - puxou o garoto para fora da biblioteca.
Na falta de um dos oponentes, todos os olhares se voltaram para Catharina Silver, que já tinha descido da mesa e caminhava na direção de Harry e Mione.
- Você é mesmo filha dele? - Harry perguntou assim que ela se aproximou, sem se importar que os outros ouvissem, pra desespero de Hermione.
- É o que todo mundo pensa, não é?
- Eu não quero saber o que todo mundo pensa, quero saber se você é ou não filha dele!
- Isso você vai ter que perguntar pra ele... - e ela deixou a sala.
Entre os muitos olhares que acompanhavam Cathy sair da biblioteca, estavam o de uma garota de longos cabelos negros e olhos verdes, que também fazia parte daquela grande família.
* * *
Um mês. Quatro semanas inteiras desde aquela maldita matéria. Apesar de poucas pessoas saberem seu parentesco com Helen Silver, Lyra não conseguia deixar de se sentir incomodada toda vez que alguém falava de algo relacionado a ela ou ao jornal.
Não conversara mais com Michael a respeito daquilo, mas desde aquele dia o garoto vinha se mostrando muito simpático e atencioso. Por vezes Lyra se pegava rindo sem motivo ao pensar no garoto de cabelos encaracolados que treinava pesado todos os dias para manter sua recém-conquistada vaga de artilheiro no time de quadribol.
- Ele parece um foguete! - Emily comentou entusiasmada, enquanto assistia ao treino da Corvinal.
- É, parece - Lyra respondeu sem tirar os olhos do pontinho azul que era Michael.
- Quê? Falaram comigo? - Benjamin despertou de um transe atrás de um par de binóculos trouxa.
- Pode voltar a admirar a Chang, Ben. Nós não estamos falando com você - Emily retrucou meio irritada.
- Eu não estou admirando a Cho...
- Nossa! Já até ficou íntimo... - a sardentinha debochou.
- Melhor olhar pra ela que ficar ouvindo vocês duas falarem do Turpin... - ele abaixou o binóculo emburrado.
As duas garotas se indignaram.
- Nós não estávamos falando nada demais...
- Só comentamos que ele é rápido...
- E habilidoso...
- E...
- Tá, tá. Deixa pra lá. - Ben voltou a colocar o binóculo e seguir Cho Chang pelos ares.
- Se o campo estiver infestado de xaminxuns no dia do jogo como está agora, eles vão perder de novo.
- Hein? - Lyra e Emily olharam para trás, para saber de quem era aquele comentário estapafúrdio.
- Vejam! - uma garota loira, sentada sozinha logo atrás das duas primeiro-anistas apontou para o campo. - Está no significado oculto das runas. Xaminxuns não gostam da cor azul. Vão agir contra o time por causa dos uniformes.
- Xaminxuns? - Lyra lançou um olhar aparvalhado para a garota e depois para Emily, mas a colega da russinha tinha encrencado com outro detalhe da frase.
- Runas não tem significados ocultos. São transparentes feito água.
A loira revirou os olhos e se levantou:
- Eles vão perder - então saiu do estádio.
- Arre, menininha agourenta. Torce contra o próprio time! - Emily voltou a observar o treino.
- O que são xaminxuns? - Lyra continuava aparvalhada.
- Bah, vocês duas não sabem quem é ela? - Ben abaixou o binóculo e deu um sorrisinho maroto de quem sabe algo que os outros não sabem.
- Uma louca? - Emily replicou.
- Di-lua para ser mais preciso. O pessoal da sala dela chama ela assim. O nome de verdade é Luna. Luna Lovegood.
- Bem apropriado pra alguém que vive no mundo da lua... - Lyra comentou
- É, eu também achei o apelido perfeito - Benjamin concordou.
- Eu não tava falando do apelido. Tava falando do nome dela. Luna é lua em espanhol.
- Peraí, você não era da Rússia? - uma voz se intrometeu na conversa.
- Eu sou da Rússia, Michael - ela já não se aborrecia com os comentários dele. Não desde que ele dissera que não tinha graça ser estrangeiro sem ter sotaque. - Mas eu sei um pouco de espanhol e de francês, além do inglês e do russo, é claro.
- Aos 11 anos? - o rapazinho empinou um pouco a vassoura e fez cara de admiração, que Lyra tomou como deboche.
- Se você fosse filho de uma bailarina inglesa que mora na Rússia e que tem amigas vindas de todos os cantos do mundo pra dançar numa escola de ballet só porque dizem que aquela é a melhor escola de balllet do mundo, você também aprenderia outras línguas por osmose.
- Osmose? - Emily, que até a pouco aparentava estar enciumada, franziu a testa.
- Deixa pra lá - Lyra e Benjamin responderam juntos. - Você não tem que voltar pro treino, não? - o menino perguntou a Michael.
- O Davies cancelou. - Michael respondeu desanimado. - Muito vento. A goles nunca vai pra direção que a gente quer... Parece até que enfeitiçaram o campo.
Os três calouros se entreolharam, mas só Lyra teve coragem de perguntar.
- Será que isso não é culpa dos xaminxuns?
- Culpa do quê? Que língua é essa que você está falando agora? - o garoto sorriu.
- Javanês! - Lyra mentiu, sem querer demonstrar que pudera acreditar na tal Luna Lovegood.
* * *
Naquele fim de tarde, Cathy estava anormalmente quieta. Higgs sabia que havia algo de estranho com ela desde que voltaram da última aula de Astronomia, mas a menina se recusava a contar o quê. Primeiro pensou que pudesse ter sido a piada estúpida sobre ela ser a única pessoa da família Black sem o nome de uma estrela, mas ela parecia longe e preocupada quando ele lhe pediu desculpas. Agora estava debruçada sobre pelo menos dez mapas estelares diferentes e fazia anotações freneticamente.
- Ei, Cathy, você já sabe Astronomia suficientemente para ganhar um N.I.E.M. Por que não se dedica um pouco mais a Poções? Você lembra do que o Professor Snape falou na aula passada...
- Hein? Falou comigo? - ela pareceu despertar de um transe.
- Ei, você não vai me falar o que você viu ontem naquela aula de Astronomia?
- Nada. - Cathy respondeu sem despregar os olhos do mapa de Saturno.
- Droga! - o rapaz se jogou com raiva num sofazinho da sala comunal, irritado com o desinteresse da amiga.
Consciente de que estava agindo mal, principalmente se não queria chamar a atenção para si, Cathy parou o que fazia e fitou o amigo demoradamente.
- Você está entediado, não está?
- Não, imagine... É tão interessante olhar você estudando astronomia... - Higgs ironizou.
- Está bem, está bem. - a garota começou a enrolar os pergaminhos. - Sei exatamente o que podemos fazer para acabar com essa monotonia.
- Sabe? - o rapaz olhou desconfiado para ela, que analisava os outros alunos que estudavam na sala comunal da Sonserina.
- Pegue sua capa e sua varinha e me encontre em meia hora em frente ao banheiro feminino do terceiro andar.
Cathy disse isso e saiu carregando a pilha de mapas e pergaminhos rumo ao dormitório feminino do sétimo ano. Tão logo saiu da vista do amigo, voltou a exibir o olhar preocupado.
Chegando ao quarto, jogou todo o material sobre a cama e só então se deu conta de que sua arca estava aberta.
- Mas...
- Olá, priminha! - Betelguese Lestrange estava atrás dela, com um livro na mão.
- Foi você!! - ela arregalou os olhos furiosa.
- Essa baguncinha de nada. É. Fui eu. Mas só fiz isso porque você devia explicações. Sabe, eu realmente não achava que você era minha prima após aquela nossa conversa. Mas depois daquele showzinho na biblioteca... Uma bruxa precavida vale por duas, queridinha!
- O quê? - a expressão de fúria no rosto de Cathy ia mudando para uma de pavor. Então, ela pulou para cima da arca e começou a revirar ainda mais o conteúdo, tentando descobrir no que a colega de quarto mexera.
- Ai! - Betelguese gemeu após ser atingida por uma sapato na cabeça. - Pára com isso! Seu álbum está aqui! - ela balançou o livro de modo a chamar a atenção da outra garota.
Cathy voou para cima da outra, arrancando o livro das mãos dela e conferindo página por página se ainda estava tudo ali.
- Pode ficar tranqüila. Não tirei nenhuma foto do lugar. Mas... bem. Agora sei que o que disse na biblioteca é verdade. - Betelguese baixou os olhos, em dúvida se gostava da afirmação que ia fazer: - Você é mesmo uma Black.
- O que eu sou ou deixo de ser não te interessa. - Cathy fechou o álbum após conferir a última foto e começou a jogar todas as suas coisas de qualquer jeito dentro da arca.
- É lógico que interessa! - Betelguese arregalou os olhos. - Será que você não entende?
- Não, não entendo - ela fechou a arca num estrondo, selando-a com um feitiço. Então virou-se e encarou a colega de quarto: - No que isso muda as cosias entre nós? Continuo achando você tão detestável quanto seu primo.
- Você é mesmo uma idiota... - a outra fez cara de desprezo. - Se não consegue entender o poder que o nome Black lhe dá...
- Primeiro: eu não sou uma Black! Meu sobrenome é Silver. Cores diferentes, caso você seja portadora de algum tipo de daltonismo desconhecido.
- Ah, não? Então como é que esse álbum está cheio de fotos da sua mãe com o meu tio?
Cathy engoliu a afirmação em seco.
- Isso não significa nada. Também há fotos de minha mãe com Frank Longbottom e ninguém ainda espalhou nenhum parentesco entre eu e aquele gorduchinho da Grifinória, o tal Neville.
- Se formos avaliar a fama que vocês dois têm em Poções... - B ironizou, mas logo continuou. - Mas está claro que você não é nada dele. Você é uma perfeita Black. Nota-se no seu dedo mindinho...
A garota mais baixa soltou uma gargalhada:
- Nota-se é? Que curioso... Se é tão aparente assim você não precisava ter mexido nas minhas coisas para ter certa do nosso parentesco.
Após ouvir o comentário, Beteguese empunhou a varinha e num movimento rápido jogou Catharina contra a parede.
- Muito bem, eu estava tentando ser amável. Mas já que você não quer colaborar, vou ter que extrair a informação que preciso de outro modo...
Cathy fazia uma careta de dor: tinha batido a cabeça.
- Vamos direto ao ponto: onde está Sirius Black? - B continuava coma varinha apontada para cathy.
- Como? - Cathy fez cara de incrédula.
- Onde está Sirius Black - o tom autoritário era mais forte.
- Não sei, não quero saber e não faço a menor de idéia de quem sabe. - ela retrucou irritada, colocando-se de pé.
- Mentira!! - e sacudiu a varinha em direção a outra.
Apesar de um pouco tonta, Cathy conseguiu desviar-se da rajada mágica por um triz e então puxou sua própria varinha. As duas ficaram se encarando por alguns instantes, como se estivessem numa das aulas de duelo da Professora Figg, até B voltar a atacar. Outro movimento rápido de Cathy e apenas parte da capa ficou chamuscada.
Betelguese não perdeu tempo. Estava pronta para atacar novamente quando as outras três sonserinas que dormiam naquele quarto apareceram e gritaram horrorizadas. Aproveitando a confusão, Cathy voou para fora do dormitório e deixou a masmorra da Sonserina o mais rápido que pôde.
* * *
- Vocês vão fazer as pazes nem que eu tenha que manter os dois sob o Feitiço do Contente pelo resto do ano!!! - Hermione esbravejou para Harry e Rony na sala dos monitores.
Os dois garotos tentaram protestar, mas tudo o que conseguiam era sorrir um para o outro e serem amável e corteses.
- Mione, minha querida e estimada amiga. Imagino que saiba que está infringindo pelo menos duas regras nessa sua tentativa de apaziguamento. - Rony fazia caretas medonhas ao pronunciar as frases. Nenhuma daquelas palavras tinha passado por seu cérebro antes de saírem ela sua boca, com certeza. Além disso, o feitiço o forçava a sorrir quando o que queria era mostrar a língua para a amiga e mandá-la para um lugar nada agradável. Harry agia da mesma forma:
- Escute Mione. Nós ficaríamos realmente entristecidos se você perdesse sua vaga de monitora por infringir uma regra. E, bem, lançar feitiços nos colegas é uma infração número... - ele olhou para Rony implorando que ele completasse a frase. Não sabia nada sobre as regras e deveres dos monitores.
- Número 7. Infração gravíssima, aliás. Meu caro Harry está certíssimo. Além disso, você não poderia ter trazido ele para cá. Esta sala é restrita a monitores, lembra-se? Não falo por mim, que jamais teria coragem de acusar uma amiga, ainda mais com tão boas intenções, entretanto, nosso amigo Draco Malfoy...
Os três se entreolharam: amigo Draco Malfoy.
- Ok. Eu retiro o feitiço. Só assim pra eu não ouvir um absurdo desse outra vez! - Mione sacudiu a varinha num movimento ligeiro e os dois conseguiram falar normalmente.
Tão logo recuperaram o controle sobre suas palavras, Harry e Rony começaram a xingar Hermione desenfreadamente e a menina foi obrigada a jogar um silenciador nos dois.
- Assim está bem melhor. - ela deu um sorriso. - Acho que consigo ouvir as corujas piando no corujal! Agora se me prometerem que vão fazer as pazer e parar com essa briga idiota eu retiro o feitiço.
Percebendo que não tinham escolha, os dois balançaram a cabeça confirmando. Mione retirou o feitiço e ficou encarando os dois:
- Vamos, estou esperando.
- É sé ele pedir desculpas primeiro - Rony respondeu.
- Eu? Eu não te fiz nada! Não tenho que pedir desculpas! - Harry retrucou, irritado.
- Ah não? Tudo bem, não há mesmo como consertar falhas de caráter... - Rony ironizou.
- Eu não tenho falha de caráter!! - Harry posicionou a varinha contra o amigo, que fez o mesmo.
- Vocês dois querem parar - Hermione se colocou entre os dois. - Vocês dois já estão bem crescidinhos para agir feito crianças. Harry, você deve desculpas ao Rony sim. Na verdade, não é desculpas, mas uma explicação. E a mim também, porque eu sempre o considerei meu melhor amigo...
Ao ouvir aquilo o coração de Rony bateu mais forte e ele sentiu a raiva aumentar. Então HARRY era o melhor amigo dela? E ele? Não era nada. Sua vontade era aparatar dali naquele instante, mas tudo que fez foi cruzar os braços e emburrar a cara ainda mais.
- Não é uma questão de amizade, droga! - Harry se deixou cair no chão, nervoso e se entregando à tristeza que sentia pela primeira vez desde a conversa com Dumbledore. - Será que vocês não entendem? Eu estou marcado.
Rony continuava imóvel, apesar de as poucas lágrimas que escorriam no rosto do amigo lhe deixarem compungido. Hermione abaixou-se e olhou Harry nos olhos. Retirou os óculos de Harry e deslizou a mãozinha pequena sobre a face do amigo, limpando as lágrimas.
- Nós queremos te ajudar, Harry! Nós sempre fizemos isso.
- Mas vocês não podem. - ele fechou os olhos e respirou fundo.
- E o Neville pode, decerto... - Rony falou amargo, segurando as lágrimas de raiva. Se tivera pena, já não tinha mais. Ele só não sabia se tinha mais raiva de Harry ou de Hermione. Não se lembrava da menina ser tão dedicada com ele.
- Neville sabe tanto da minha conversa com Dumbledore quanto vocês! Ou seja, NADA! - Harry enxugou as lágrimas que teimavam em cair e respondeu rancoroso. - Já lhe disse isso. Não tenho culpa se você não quer acreditar.
- Não tente me convencer que nos últimos dois meses você estava tentando só ajudar o Neville a melhorar em Poções! Nós não somo idiotas!!!
- Isso é que seria uma idiotice, não acha? Depois do Neville eu sou a segunda pior pessoa em Poções da nossa sala! - Harry irritava-se cada vez mais com a teimosia de Rony - Com o agravante de que Snape me odeia!
- E, bem, quem tem feito isso sou eu, Ron. - Mione deu um sorriso tímido. - Estou dando aulas particulares pro Neville desde o começo do ano. - e voltando-se para Harry: - Neville me disse numa dessas aulas que acredita em você... Que acredita em Sirius... O que você disse para convencê-lo?
- Neville acredita em Sirius? O que ele sabe sobre Sirius? - Rony arregalou os olhos, perplexo.
- Isso só ele poderia dizer a vocês. É um segredo dele e é por isso que não posso explicar nada. - Harry completou, enfezado.
- \Não quero saber nada sobre Neville, Harry. - Mione era a única a agir com calma e sensatez: - Qeuro saber porque, ao voltar daquela conversa com Dumbledore, você não quis mais falar coma gente. O que foi que ele disse de tão grave para que você preferisse brigar com seu melhor amigo!
Harry e Rony olharam para o chão, refletindo sobre as palavras de Hermione. Ambos sentiam a falta um do outro.
- Quer saber? Não precisa contar... - Rony levantou os olhos azuis timidamente. - Nós não temos esse direito. Mas, bem, ao menos a gente ainda poderia conversar sobre quadribol, aulas de transfiguração, garotas...
- Garotas? - Mione perguntou desconfiada, com uma pitada de ciúme na voz.
- Na verdade, a única garota de quem costumamos falar é você... - Harry piscou, aceitando o cessar-fogo com Rony - ... o quanto você anda prepotente de uns tempos pra cá!
- Jogar um feitiço do contente na gente?? O que você estava pensando? Vou ter que relatar isso na ata da monitoria! - Rony fez cara de sério e piscou de volta pra Harry.
- Seus bobos! - ela deu um pulo, agarrando ambos pelo pescoço e abraçando-os.
Encerradas as brigas e de volta à paz antiga, os três pegaram suas coisas e deixaram a sala dos monitores rumo à torre da Grifinória. No caminho:
- Harry, quanto o seu segredo vale? - Mione parecia ter segurado aquela pergunta por um longo tempo.
- Como assim? - ele não entendeu e a cara de Rony evidenciava que ele também não.
- Quero dizer, eu e Rony também temos um segredo. Poderíamos trocar... - ela disse como quem não quer nada.
- Hahahaha! É verdade!! - Rony lembrou subitamente do jornal: Mione sempre conseguia surpreendê-lo.
- Quer dizer que então que vocês agora têm segredos pra mim! - Harry fez cara de indignado.
- Altamente confidencial! - Rony, levantou as sobrancelhas em sinal de deboche.
- Já disse que podemos trocar... - Mione insistiu.
- Não vale. - Harry também começou a fazer troça - Meu segredo é mais importante. E, além do mais, eu acho que já sei qual o segredo de vocês...
- Sabe? - Rony e Mione se entreolharam. Será que Harry tinha percebido que eles eram os autores do jornal que já estava em sua sexta edição?
- Eu preferia ouvir da boca de vocês dois. Até porque sei que em pouco tempo a escola inteira vai estar sabendo.
- Vai? - os dois amigos não conseguiam adivinhar do que Harry estava falando.
- Quanto tempo vocês acham que vão conseguir esconder que estão namorando? - o rapazinho de óculos abriu um sorriso enorme para o suposto casal.
* * *
- Ali está ele: o nojento em pessoa. - Cathy se escondeu mais uma vez atrás da armadura gasta e mal polida.
- Tudo posicionado? - Higgs falou com um pequeno espelho que servia de walk-talkie para os dois.
- Tudo. É só disparar um feitiço qualquer e as bombas de bosta vão cair em ciminha dele. - ela deu um sorriso gostoso, que o rapaz viu através do espelho.
- Três... Dois...
- Pára tudo!!! - ela gritou desesperada e saiu detrás da armadura, colocando-se à vista.
- Parar? - ele baixou a varinha desapontado e olhou para ela, no meio do corredor.
Cathy andava rapidamente, na direção de Malfoy. Acompanahndo o andar da garota, Higgs finalmente viu o motivo pelo qual Cathy encerrara a travessura. Sua "irmã" - por mais que a menina negasse, ele tinha certeza de que Lyra Rasputin era irmão de Catharina - vinha acompanhada de dois amiguinhos pelo corredor onde Malfoy estava. Ele só não entendeu porque Cathy não continuou escondida.
- Ora, ora! Quem temos aqui! A filha do trouxa com a comensal!! - Draco Malfoy resolveu mexer com a corvinal, que passava o mais encolhida possível.
- Não responda, Emily. Não responda. - Lyra agarrou o braço da amiga, que parecia disposta a dizer os piores xingamentos para o lourinho ensebado.
- Por que você não mexe com alguém do seu tamanho?
Draco virou-se e deu com Catharina, de mãos na cintura e rosto amarrado.
- É uma pena, mas não estou vendo ninguém do meu tamanho por aqui. -ele ironizou a altura da menina. - Ou a Chatarina Silver tá achando que pode encarar sozinha?
Crabbe e Goyle se posicionaram logo atrás de Draco, numa associação que intimidaria até alunos mais velhos.
- Ela não está sozinha! - Higgs saiu deseu esconderijo e se postou ao lado da amiga.
- Não mesmo. - Lyra tirou a varinha da cintura e apontou para Malfoy. Benjamin e Emily fizeram o mesmo. Caty exibia um sorriso satisfeito.
- O que está acontecendo aqui? - uma monitora da Corvinal, que vinha acompanhada de duas amigas, interrompeu a briga que estava prestes a começar.
- Veja com seus próprios olhos, Turpin. Esses pirralhos da sua casa estão nos ameaçando. Depois vão parar na enfermaria e nãos abem por que... - Malfoy dissimulou.
- Parece que não são só corvinais que estavam prestes a travar um duelo no meio do corredor - Lisa Turpin reparou em Cathy e Terencio.
- Existem maçãs podres nas melhores cestas - Malfoy deu de ombros. - Mas nenhum de nós quer perder pontos de suas casas, não é mesmo, Turpin? Vamos encerrar o caso por aqui. Crabbe, Goyle, vamos!
Lisa Turpin olhou para os alunos que sobraram no corredor. Acho bom todos irem para suas casas. Já São quase nove da noite. Aliás, o horário de vocês trÊs venceu às seis, não foi?
- Elas foram me buscar. Acabei de ter alta da enfermaria! - Benjamin explicou.
- Por hoje passa. Agora vão.
Lyra olhou uma vez para trás antes de deixar o corredor e cruzou o olhar com Cathy, que lhe sorriu. A menina se animou um pouco: havia algo naquele sorriso que lhe trazia uma segurança que ela nunca poderia explicar. Começava a desejar que Catharina Silver fosse realmente sua irmã.
- E vocês dois? - a monitora interrogou os sonserinos.
- Nós dois o que? - Cathy reagiu mal-humorada, o sorriso sumindo por completo. - Ainda não são nove horas, podemos andar por onde quisermos.
- O problema é de vocês. - a garota deu de ombros. - Mas lembrando que falta penas cinco minutos para s nove, eu tomaria cuidado com Madame Nor-r-ra. Seria uma pena ver a Sonserina perder pontos - ela deu um sorriso irônico e saiu com as amigas.
Tão logo encontraram-se sozinhos novamente, Cathy virou-se apra Higgs:
- Esconda-se novamente. Temos cinco minutos para que um tonto passe e a gente possa usar nossa armadilha. Rápido. Vem vindo alguém.
No final do corredor, um garoto e uma garota conversavam e riam descontraídos. Fred Weasley e Angelina Johnson tinham começado a namorar oficialmente há menos de duas semanas, e a cena mais comum era ver osd ois de mãos dadas passeando pelo castelo, às vezes acompanhados por Jorge e Lino Jordan, às vezes a sós como agora.
Cathy não pôde deixar de pensar que não havia cobaias mais perfeitas. Já que não conseguiram aprontar com Malfoy. O que ela não contava era com o faro de Fred para armações. Um segundo antes das bombas atingirem as cabeças dele e Angelina, ele empurrou a namorada, salvando-os da sujeira e do mal-cheiro. Irritado por quase ter sido pego pela brincadeira, percorreu os olhos atentamente no corredor e viu uma ponta da capa de Higgs, saindo por detrás de uma estátua.
Sem falar nada, levantou-se e apontou a varinha para a estátua. Com um feitiço de levitação mandou a estatua contra uma parede, deixando Higgs desprotegido. O sonserino engoliu fundo e preparou-se para se defender. Ambos começaram um duelo, onde Higgs levou a pior.
Cathy, que tinha corrido para o lado de Angelina assim que ouviu o barulho da estatua espatifando contra a parede, assistia a tudo chateada. Não havia nada que pudesse fazer. Nunca atacara ninguém naquela escola, nem nas aulas de duelo. Não iria quebrar sua promessa agora.
Deixando Higgs desacordado no chão, Fred voltou para o lado da namorada:
- Eu sabia que tinha o dedo de mais alguém nessa história. O Higgs é estúpido demais para fazer tudo sozinho!
Ela não respondeu, apenas caminhou até o amigo e debruçou-se sobre ele para ouvir sua respiração. Ela aprendera que, pela respiração, era possível determinar a gravidade do estado de uma pessoa. Higgs estava bem.
- Da próxima vez, é melhor vocês tentarem pegar alguém que seja tão ruins quanto vocês dois par cair numa armadilha tão óbvia! - e saiu arrastando a namorada.
Cathy ainda pôde ouvir Angelina falando algo como "Ele te machucou, amor", mas não deu atenção. Tinha que dar um jeito de levar o amigo para a enfermaria. Olhou duas vezes para a própria varinha pensando se arriscaria jogar um feitiço de levitação em Terêncio. É verdade que vinha melhorando nas aulas de Feitiços, mas nunca se perdoaria se, ao invés de ajudar o amigo, tornar-se seu estado ainda pior.
Antes que ela pensasse em alguma outra coisa, o menino se mexeu e abriu os olhos:
- Ele já foi?
- Hã? - ela arregalou os olhos, enquanto via o rapaz se levantar e espalmar as vestes. - Você fingiu que desmaiou?
- Acho que agora eles já foram... - ele ajeitou a capa.
- Você fingiu que desmaiou, Higgs? - ela perguntou outra vez, chocada.
- Ei, olha o tamanho desse corte que eu tenho na perna!! - ele apontou a manga rasgada da veste. Ou eu fazia isso ou o Weasley ia achar que isso não era suficiente!! Aliás... - ele olhou aterrorizado para o pus que escorria pelo tecido - ... acho que eu tenho que ir para a enfermaria!
- Pra enfermaria? É só um cortezinho de nada... Você só precisa lavar e cobrir com um esparadrapo - ela abaixou-se para analisar a ferida, fazendo uma careta de nojo do líquido amarelo-esverdeado que saía do corte.
- Só um cortezinho?!?! Você ficou louca!!! Já vi pessoas perderem um braço por causa de disso!
- Não seja tão dramático... - ela protestou mas começou segui-lo em direção à enfermaria.
Durante o trajeto ele contou casos absurdos de pessoas que tinha ficado verdes ou cheias de bolhas venenosas pelo corpo após serem atingidas por feitiços diversos. Cathy ouvia tudo com o ceticismo estampado em cada careta de incredulidade.
Logo na entrada da enfermaria ambos ouviram a voz de Angelina:
- Fred, deixa ela olhar!
- Pelas barbas de Melim, Angelina! Eu já disse que não foi nada!
- Isso pode te atrapalhar nos treinos. Juro que isso prejudicar na sua função de batedor eu mesma acabo com o Higgs!
- Sabe Cathy, realmente, acho que não foi um corte tão feio assim... - Higgs disse, hesitando em entrar.
- Ah, não, depois de ter que ouvir essa sessão azia, você vai entrar querendo ou não! - e ela empurrou o rapaz para dentro.
Para a sorte de Higgs, Fred estava sendo atendido atrás de uma das cortinas e não viu quando os dois sonserinos entraram. Madame Pomfrey, indicou-lhes um outro canto da ala hospitalar e logo se dirigiu para lá. A enfermeira deu uma olhada rápida no ferimento e foi buscar a poção de desinfecção.
No primeiro contato com o líquido, o o garoto urrou de dor:
- A senhora está querendo me matar? Que negócio estranho é esse? - Se minha perna começar a apresentar bolhas venenosas eu posso lhe processar!
Madame Pomfrey lançou um olhar severo para o rapaz, que tinha se deitado na maca e contorcia-se como se sentisse as dores de um parto.
- Higgs, pára de fazer tanta fita! - Cathy ralhou com o amigo. - Foi só um cortezinho à toa...
- À toa? Eu vou jogar um laminus na sua perna pra você ver o que é um cortezinho à toa... AIIIIIIII! - o rapaz berrou quando Madame Pomfrey encostou o algodão embebido numa poção qualquer para acelerar a cicatrização.
- Papoula, já terminei com o Weasley. Mais alguém que eu possa ajudar? - uma voz gentil e adocicada ecoou no cubículo onde a enfermeira cuidava da perna do sonserino.
Por um instante, Higgs imaginou ter visto o rosto de Cathy se contrair numa expressão de surpresa, mas tão logo piscou ela estava novamente com sua expressão de nojo olhando o pus amarelado que saía da ferida em sua perna. Não se deixou prender pelo rosto da amiga muito tempo: uma criatura angelical olhava com ternura para ele.
- Não precisa se incomodar, querida. Ele é o último...
- Então já vou indo - a mulher começou a se retirar.
- Não! - Higgs deixou escapar, provocando uma careta de estranhamento em Cathy.
A moça se virou para responder ao chamado e então deu com a menina:
- Helen?
A garota fez ar de pouco caso e retrucou mal-humorada:
- Porque todos os adultos dessa escola insistem em me chamar por esse nome?
- Desculpe, - a mulher ruboresceu. - É que você se parece muito com a minha cunhada, não é mesmo Papoula?
A enfermeira sorriu para Annie e depois se voltou para Higgs:
- Prontinho. Já pode voltar para sua casa. E você, - Mdme. Pomfrey girou o corpo em direção a Cathy: - não deixe que ele faça muito esforço. Não queremos que apareçam bolhas venenosas, não é mesmo?
- Pode deixar, Madame Pomfrey. - Cathy piscou para a enfermeira, enquanto ajeitava o braço do amigo sobre seus ombros, numa posição desajeitada para ele, pois ela era muito baixa. - Tchauzinho! - ela acenou antes de sair da ala hospitalar.
- Meu Merlim! Que anjo era aquele? - Higgs murmurou logo que atingiram o corredor
- Ela tem idade para ser sua mãe! - a menina resmungou.
- Eu gosto de mulheres maduras... - ele retrucou com um sorriso bobo nos lábios.
- Ah, lógico! Betelguese Lestange é tão madura...
Mas o rapaz não ouviu o comentário da menina. Na sua frente pairava o rosto mais lindo que já vira na vida.
* * *
Por volta das dez horas da noite, Harry fazia algo que há muito tempo vinha evitando. Sentado próximo à lareira central, o garoto jogava xadrez de bruxo com Rony, que deixava o amigo ganhar em nome da amizade recém-restaurada. Nem os olhares de esguelha e um ou outro cochicho que continuava a correr o salão incomodavam Harry. Era a primeira vez desde que se posicionara a favor de Sirius publicamente que conseguia ficar se sentir leve e tranqüilo. Vez ou outra brincava com Rony e Hermione a respeito do segredo que o casal de amigos guardava:
- Vamos, admitam!
Hermione olhou para Harry levemente irritada e envergonhada:
- Pela última vez, Harry. Eu e o Rony não estamos namorando! Não sei como pode pensar num absurdo desses!
Rony sentiu as orelhas esquentarem... Era tão absurdo assim? Ao se dar conta do que estava pensando, ficou nervoso e moveu o rei precipitadamente.
- Xeque-mate - disse Harry, com um sorriso nos lábios.
- Droga! - o ruivinho se irritou levemente. Tinha planejado perder, mas não tão estupidamente. Mas arranjou um jeito de dar o troco: - Sabe, falando em namoros, eu andei reparando uma coisa... Sei que não estávamos nos falando e tal, mas é impossível não perceber que a sua... hã... prima? Ei, Mione, a Chatarina Silver tem que tipo de parentesco com o Harry? - ele olhou intrigado para amiga.
- Até onde eu sei nenhum - Harry foi taxativo. - Ela não confirmou nada até agora!
- Bem... Não confirmou em termos, né, Harry? - Mione falou baixinho. - Depois daquele dia na biblioteca...
- Tá, mas o que tem ela? - Harry não tinha entendido onde Rony queria chegar.
- Bem, eu andei observando que ela está sempre olhando pra você.
- Ah, não inventa, Rony!
- Não tô inventado. É sério! O problema é que ela olha pra você do mesmo jeito que minha mãe olha pro Percy... - Rony fez uma careta de reflexão. - Ei, Lino, Fred e Jorge voltaram da cozinha! E estão carregados de coisas gostosas!! - Rony esqueceu rapidamente a conversa ao ver um punhado de penas de açúcar pulando de dentro da mochila de Jorge.
Mas Hermione parecia ter visto outra coisa mais interessante:
- Harry - ela cutucou o amigo e indicou um cachorro que entrara junto com gêmeos.
Rony e Harry olharam para onde a menina apontava e, sem saber se exibia um sorriso de felicidade ou um olhar de apreensão, o garoto da cicatriz virou para os amigos e disse:
- Vou buscar minha capa. Digam a Snuffles que já volto.
Enquanto Harry voava pelas escadas, Rony levantou-se de sua poltrona e foi até Sirius, alegando aos irmãos que ia dar algo para o cachorro comer. O ruivinho agachou-se e murmurou o recado de Harry, então fingiu que ensinava o cachorro a deitar e rolar, até que sentiu um cutucão nas costas. Como não viu ninguém atrás de si, teve certeza de que era Harry. Segundos depois, o cachorro deixava a Sala Comunal, parecendo tão só como quando entrou.
* * *
N/A: Não estranhe se você achar as próximas linhas um tanto familiares. Esse trecho está sendo reproduzido exatamente da mesma maneira que no capítulo 6, para que ninguém precise voltar no cap anterior para se lembrar do que aconteceu. Logo em seguida, a história continua.
Seguir uma pessoa invisível não costuma ser uma tarefa fácil. Ao menos quando se é humano, porque quando se é cachorro o olfato costuma facilitar a tarefa. Àquela hora não seria difícil encontrarem uma sala vazia e um simples alohomorra tornaria qualquer parte do castelo acessível.
Ainda assim, Sirius não conseguia se lembrar daquela sala, cuja porta ficava entre os quadros de dois bruxos da idade média. Lembrava-se que Tiago sempre dissera que naquele corredor havia uma passagem para fora do castelo, mas que o amigo não conseguira encontrá-la quando estavam catalogando todas as salas e corredores do castelo para confeccionar o mapa do maroto.
- Essa sala deve servir - Harry tirou a capa e fechou a porta assim que Sirius entrou.
- Que sala é essa? - o animago readquiriu a forma humana.
- Não sei... - Harry olhou ao redor. - Mas parece abandonada.
- Você está com o mapa do maroto aí, Harry? Eu gostaria de ver uma coisa...
- Er, bem... Acho que eu não contei uma coisinha pra você... - Harry coçou a nuca, desconcertado.
- Você perdeu? - Sirius não estava bravo. Talvez um pouco apreensivo.
- Na verdade... bem... eu emprestei ao Moody.
- Ao Moody? - os olhos de Sirius se arregalaram.
- Quer dizer, ao Crouch Jr...
- Tudo bem, deixa pra lá. É que eu não me lembro de ter catalogado essa sala... Talvez tenham criado ela depois que saí daqui.
Harry deu de ombros e finalmente deixou um sorriso invadir o rosto:
- Mas... você ficou louco? Está fazendo o que no castelo?
Sirius pensou se deveria contar sobre a reunião da Ordem. Definitivamente achava que Harry era maduro o suficiente para saber de tudo, mas algo o impediu de contar:
- Vim fazer uma visitinha - o fugitivo de Azkaban sorriu. - Não gostou? Posso ir embora.
- Até parece... Na verdade eu estava mesmo querendo falar com você. Só não mandei uma coruja porque Mione me convenceu de que seria perigoso.
- Falar comigo? Sobre o quê? Sua cicatriz anda ardendo ultimamente? - Sirius tinha ares de pai preocupado.
Harry vinha sentindo pequenas pontadas nos últimos dias. Nada comparado às dores lancinantes que sentira no ano anterior. Mas não queria preocupar o padrinho. Ainda assim resolveu perguntar:
- Voldemort reapareceu?
- Nada ainda... Mas as previsões não são favoráveis. Tememos que haja um ataque já na semana que vem.
- Um ataque? A quem? E o que você quer dizer com previsões? Vocês usam Adivinhação para descobrir se vai acontecer alguma coisa? Pelo amor de Merlim, vocês não confiam no que a Sibila Trelawney diz, né? - Harry desatou a falar.
- Calma! Desse jeito você vai acabar engasgado e eu não vou lembrar de metade do que você perguntou.
Pacientemente Sirius começou a explicar sobre o Manifesto de Morgana, como o livro era utilizado para fazer previsões e outros detalhes. Era a primeira vez que dizia a Harry que trabalhava como astrônomo, o que provocou surpresa no menino. E apesar de todos os cuidados que Sirius tomara para não mencionar a Ordem, Harry deduziu que havia um grupo se organizando para combater Voldemort e aos poucos arrancaria do padrinho quem fazia parte dele.
- Então, mais alguma dúvida? - Sirius terminou as explicações com um sorriso.
- Na verdade sim. - Harry evitou olhar para o padrinho. - Sirius, sobre a matéria que saiu no jornal...
- Matéria? - o rosto de Sirius perdeu a jovialidade. - De que matéria você está falando, Harry?
- Se você não quiser responder eu entendo... Mas, bem, Catharina Silver é mesmo sua filha? Quero dizer, eu... eu não sabia que você tinha uma filha...
- Pois posso lhe garantir que a notícia me deixou tão surpreso quanto você está agora... - ele sentou no chão e suspirou.
- Então, você... você não sabia? - Harry estava sério. - A irmã dela também não. E ela se recusa a comentar qualquer coisa.
- Harry, me responda com sinceridade: a menina se parece comigo?
- Nem um pouco. - Harry respondeu sem hesitar. - Mas é a cara da mãe dela. Não dá pra duvidar que é filha de quem é. Existe alguma chance de ela ser sua filha?
Sirius ficou alguns segundos em silêncio:
- Você sabe se ela repetiu algum ano na escola?
- Se ela repetiu? Não tenho idéia. Mas pelo que Fred e Jorge contam, ela não é uma bruxa muito... hum... aplicada. Por quê?
Sirius coçou a cabeça preocupado.
- Bem, existe uma chance, um tanto remota é verdade. Mas a mãe dela não faria isso comigo. Ela não esconderia que tinha uma filha minha... Ou esconderia? - ele pensou com raiva em Helen. Vê-la há pouco só tinha aumentado seu mau-humor.
- Bom, eu posso tentar descobrir alguma coisa, se você quiser. Ela age meio estranho comigo... Quando li a matéria achei que era por sua causa...
- Estranho? Estranho de que jeito? - Sirius "estranhou".
- Bom, ela é uma sonserina. E só por isso ela já deveria me detestar. Ela já brigou com o Fred, o Jorge, a Angelina e a Mione. Isso pra contar as pessoas mais próximas a mim. Só que ela NUNCA disse nada pra mim. Eu poderia dizer até que de vez em quando pego ela sorrindo pra mim... e antes que você comece a fazer o mesmo discurso que o Rony, de que ela está apaixonada por mim, eu já vou dizendo que não tem a menor chance disso.
- Está fazendo pouco da minha filha, é, Harry? - Sirius piscou achando graça.
- Você tem que se decidir se tem uma filha ou não. - Harry respondeu ruborescendo um pouco.
- Hehe. Se ela não fosse filha de quem é, essa não seria uma má idéia. A mãe dessa menina é insuportável.
- Mas a Catharina TAMBÉM é insuportável.
- Se eu pudesse colocar os olhos por um instante nessa garota...
- Desejo realizado... - Harry olhou para a porta, que fechou num estrondo.
Ofegante, Catharina Silver respirava aceleradamente apoiada na porta. Parecia estar tentando de esconder de algo, ou alguém e nem tinha se dado conta de que havia mais gente na sala.
No que Sirius pousou os olhos na menina, um riso incontrolável se apoderou do bruxo. Ao ouvir as gargalhadas frenéticas, Cathy finalmente percebeu que não estava sozinha. De boca aberta e os olhos arregalados, ela ficou alguns instantes sem reação. Mas não muito. Menos de um minuto depois ela apontava sua varinha para Sirius Black:
- Silêncio!
Do lado de fora, podiam-se ouvir os passos leves de uma gata pelo o corredor. Madame Nor-r-ra fazia a ronda noturna por seu dono.
- Retire o feitiço agora - Harry esqueceu de ser precavido e falou num tom de voz alto demais para a ocasião.
- Ou você fica quietinho ou vou ter que usar em você também - ela disse num murmúrio ameaçador. - Quer que Filch o encontre?
Harry ficou quieto a contragosto, vendo o rosto de Sirius se fechar cada vez mais, os olhos fixos na menina. Catharina por sua vez devolvia o olhar duro do suposto pai sem um traço de constrangimento. Enfrentavam-se de igual para igual. Sem quebrar o contato, ela se aproximou da parede e colou o ouvido numa fissura que Harry não tinha reparado existir até então. Enfim ela respirou fundo e finalmente apontou a varinha para Sirius, retirando o feitiço:
- Por favor, contenha-se. Chamar a atenção não vai ser bom pra ninguém aqui. Se não se importa consigo mesmo ou comigo, pense no Harry. - ela disse sem olhá-lo nos olhos.
- Eu não sou criança. Não cometeria uma estupidez dessas - ele retrucou amargo.
Harry olhava os dois conversarem com uma expressão de estranhamento estampada no rosto:
- Vocês... Parece que vocês se conhecem... - ele falou receoso.
- Infelizmente - os outros dois falaram ao mesmo tempo.
- Então ela é... - Harry arregalou os olhos esperando que o padrinho confirmasse.
- Minha filha? De jeito nenhum. - ele olhou a menina de alto a baixo. Cathy sorria cinicamente. - Inclusive, eu duvido que ela seja filha de Helen Silver, como dizia naquela estúpida matéria de jornal.
- Como? Mas... mas elas são iguaizinhas, Sirius!
A garota continuava quieta, porém prestes a soltar uma gargalhada.
- É exatamente esse o problema. Quer dizer que nem Severo Snape desconfiou? - Sirius encarou Catharina com desprezo.
- Percebeu na primeira vez que me viu, mas nunca teve a confirmação. Nem por isso deixa de me tratar como nos velhos tempos... Aliás, você costumava ser mais educado antigamente... - ela finalmente abriu a boca.
- Peraí, eu não estou entendendo nada...
- É simples, Harry. A garota que está na sua frente não é minha filha simplesmente porque não ela não é mais uma garota. Aos 36 anos, Helen Silver não pode ser vista como uma garotinha.
- Trinta e cinco! - ela corrigiu. - Não me envelheça antes do tempo, Black!
- Helen Silver? Então você é a mãe, não a filha? - Harry tentou colocar as idéias em ordem.
- Não existe filha, Harry! - Sirius remendou, emburrado e, talvez, um pouco decepcionado.
- Lógico que existe! - ela reagiu imediatamente. - Tá achando que Lyra é filha de chocadeira?
O astrônomo bufou impaciente:
- Eu quis dizer que não existe nenhuma Catharina Silver.
- Também está errado.
- Quê?
- Eu não acredito que você esqueceu que meu nome completo é Helen Catharina Silver!
- Quê?
- Homens! Harry, querido, não se inspire no seu padrinho quando arranjar uma namorada ou a relação de vocês podem não ter um fim muito agradável...
- Eu sempre me dei muito bem com as minhas namoradas!!! - aquela conversa sem pé nem cabeça estava deixando Sirius ainda mais irritado.
Helen revirou os olhos e andou até o filho de sua melhor amiga, fitando-o com ternura.
- Ah, Lílian ficaria tão orgulhosa! Você tem o mesmo gênio forte dela. Não abaixa a cabeça para nada. Aquela sua briga com o Malfoy pra defender o Sirius... - os olhos de Helen brilhavam.
- Briga com o Malfoy para me defender? - Sirius apertou os olhos na direção de Harry.
- Hã... er... bem... eu posso explicar - Harry encarou a sonserina com raiva.
- Dumbledore já deu todas as broncas que ele tinha que ouvir, Sirius. Não seja um estraga-prazeres! Ah, eu me esqueci. - ela falou em tom de deboche. - Isso é intrínseco a você. Ninguém consegue ser mais desagradável.
- Até onde eu me lembro, quem era detestada pela escola inteira era você.
- Vocês dois querem parar de brigar? Até parecem o Rony e a Mione! - Harry se encheu.
Os três ficaram em silêncio por um instante, até Harry se lembrar de perguntar.
- Como é que você fez isso?
- Isso o quê? - Helen não entendeu a pergunta.
- Ficar mais jovem? Alguma poção?
- Boa pergunta - Sirius não tinha se atentado a este detalhe. - Você está exatamente igual a 20 anos atrás.
- Bem... isso eu tenho que agradecer a você, Black - e tirou o anel de pedra negra da mão direita.
Em seguida, os dois bruxos viram uma transformação. As vestes da Sonserina se transformaram em calças jeans escuras com um blusão de lã colorida. Os sapatos envernizados viraram um par de tênis bastante batidos. A franja que vivia caindo nos olhos da menina cresceu até atingir o comprimento do ombro, como o resto do cabelo, que ela rapidamente jogou para trás e prendeu com um elástico que estava no pulso. Helen Silver finalmente adquirira os traços de mulher feita que Harry conhecia como a mãe de Lyra Rasputin.
- Lembra desse anel? - ela mostrou o adereço a Sirius.
Ele balançou a cabeça confirmando e ela continuou a explicar para Harry:
- Tia Arabella lembrou que havia uma forma de rejuvenescer uma pessoa através de uma peça de roupa ou coisa parecida. Só que esse objeto tinha que ter sido usado na época em que a pessoa queria voltar. Então estou até mais nova do que deveria, exatamente como se eu tivesse dezesseis anos.
- Interessante - Harry comentou: - E PRA QUE você fez isso?
Helen olhou para Sirius antes de responder:
- Bem, você já sabe que eu fui expulsa de escola quando estava prestes a completar o sexto ano. - Harry confirmou com a cabeça, enquanto Sirius se afastava e procurava uma janela naquela sala estranha. - Por causa disso eu não posso usar minha magia. Só bruxos habilitados podem, o que se torna um problema quando seus filhos atingem a idade escolar e se recusam a freqüentara escola de magia. Muitos anos atrás, eu ganhei o direito de voltar à escola por serviços prestados ao Ministério, mas acabei só sabendo disso esse ano. Acontece que Fudge não quis validar esse direito e então minha tia teve a idéia de me infiltrar em Hogwarts como uma aluna transferida. Segundo uma advogada que Tia Arabela contratou, eu posso obrigar o Ministério a me reabilitar. Só depende da minha quantidade de NIEMs.
- Só? - Sirius não conseguiu evitar o comentário. Má aluna como ela era, Helen nunca conseguiria sua varinha de volta.
A bruxa ignorou e continuou:
- Mas também há um outro motivo e esse é o mais importante. Eu estou aqui para ensinar você.
- Você ficou louca? - Sirius andou rapidamente até a bruxa e o afilhado?- VOCÊ? Ensinar alguma coisa a alguém? É a pior aluna que já passou por esse castelo - ele disse enraivecido, querendo humilhá-la. Quer dizer, você tinha algum talento em Estudos dos Trouxas, mas acho que Harry já teve aulas intensivas sobre o assunto em seus primeiros 11 anos de vida.
- Pra seu governo eu sempre fui ótima aluna de Trato com as Criaturas Mágicas e Aritmancia, Sr. Black. Além de que meus conhecimentos em Astronomia já não são os mesmos daquela época. Eu conheço minhas limitações, Black, mas não existe ninguém mais indicada do que eu para contar a Harry a história de Morgana!!
Sirius engoliu a última frase com dificuldade. A raiva que tinha daquela mulher o deixava cego a ponto de não conseguir enxergar algo tão óbvio.
- Morgana? - Harry se intrometeu na discussão. - O tal Manifesto de que você estava falando, Sirius?
- Ora, quer dizer que você andou fazendo alguma coisa de útil, Black? Achei que só soubesse expor o garoto a perigos!
- Ora, porque você não cala a boca! - ele levantou a mão direita, perdendo a paciência.
- Silêncio! - Harry deixou ambos mudos.
Com a sala em silêncio eles puderam ouvir a voz que vinha do corredor:
- As vozes vem daqui! Fique de olhos bem abertos, minha querida. Não queremos que esses baderneiros nos escapem?
Era Filch. Harry caminhou até a fissura na parede. Podia ver um fresta da luz da lamparina do bedel entrando na sala mal iluminada. Tentava conter o barulho que a própria respiração fazia, mas parecia impossível. Se Filch os encontrasse, estavam os três perdidos. Nem Dumbledore conseguiria livrá-los de tamanha enrascada: Harry seria expulso, Helen provavelmente iria para Azkaban e Sirius levaria o beijo do dementador.
- Ali, atrás daquela armadura, Madame Nor-r-ra! Muito bem, engraçadinho, se estiver usando uma capa da invisibilidade...
Enfim, parecendo convencido de que não havia ninguém naquele corredor, Filch foi embora resmungando qualquer cosia.
- Será que vocês podem abaixar o tom de voz de agora em diante? - Harry ralhou com os dois adultos, que acenaram com a cabeça confirmando. - Continue! - falou num tom levemente autoritário para Helen.
- Bem, essa é uma longa história Harry, que envolve a mim e a seu pai, especialmente. Eu pretendo lhe contar em detalhes, mas não agora.
- Como assim, não agora? O que meu pai tem a ver com você? E o que vocês tem a ver com Morgana?
- Ela está certa, Harry - Sirius disse a contragosto. - A história é longa e não há ninguém melhor para contá-la que Helen Silver. Ela decorou o manifesto quando tinha apenas 12 anos...
- Vocês estão surdos? - Harry se segurou para não gritar. - O que é que MEU PAI tem a ver com isso?
- Quer me ajudar a contar? - Helen pediu a colaboração de Sirius.
- Sente-se - o padrinho ordenou ao afilhado. - Tudo começou numa noite de ano novo em que as estrelas estavam com um comportamento muito estranho...
* bem, esta história vocês já conhecem... Como? Você não leu Dilema? Tá esperando o que? *
* * *
Helen deixou padrinho e afilhado sozinhos na sala. Aquela noite ainda estava longe de terminar. Uma confusão de pensamentos atravessava sua alma e ela não sabia se se sentia feliz, aflita ou emputecida (desculpem-me pela palavra, mas ela é exatamente o que eu queria expressar). O que mais lhe atormentava era saber que não conseguia se preocupar com Harry, ou com o filho de Frank Longbottom. Só conseguia pensar numa pessoa: Sirius Black.
Aquela sensação de impotência lha dava ganas de chorar e, não fosse Helen tão orgulhosa, ela o teria feito. Em vez disso, começou a subir todas as escadas que via pela frente, sem preocupar-se em esbarrar com Filch, ou o que era ainda pior na sua opinião, com Pirraça.
Voltara a usar o anel no dedo e os trajes de sonserina reapareceram num passe de mágica. Uma corrente de ar gelada fez com que a Helen ajeitasse o capuz de forma a proteger seu pescoço. Sem se dar conta, tinha ido parar na torre de Astronomia. Pensou que seria a melhor forma de se redimir. Quem sabe os astros podiam lhe dizer que estava enganada e que Harry não seria envolvido no feitiço das casas. Mera ilusão. As estrelas só sabiam confirmar o futuro nefasto que estava por vir.
Desencantada, Helen deixou-se cair no chão. Deitada sobre as pedras geladas, ela admirava a lua crescente por uma das enormes janelas escancaradas. Era como há tanto tempo atrás, quando ela e Sirius vinham se refugiar naquele lugar encantado.
Helen se beliscou. Estava pensando nele novamente. Não podia. Ela era casada. Tinha filhos... Como se seu coração se importasse com isso. Então o barulho de passos e a porta rangendo lhe desviaram a atenção:
- Você?! - Sirius percebeu a figura pequenina mal iluminada pelo luar.
Ela fitou a materialização de seus pensamentos com olhar lânguido e um sorriso maroto. Sabia que Sirius não estava ali. Era apenas a sua imaginação. E não se trai ninguém com a própria imaginação.
- Você demorou... - ela se espreguiçou devagar.
- Demorei? - ele respondeu incerto, analisando cada canto da Sala de Astronomia.
- Quase 20 anos... - ela sentou-se ereta, como uma bailarina bem comportada. - Venha, quero lhe mostrar uma coisa.
- Quem vai lhe mostrar uma coisa sou eu! Olhe nessa luneta! Se você aprendeu alguma coisa de astronomia vai perceber que eu estava certo sobre a Serpente. Mas vou lhe dar uma colher de chá. Se Leão realmente...
- Serpente? Leão? Será que você ainda anão percebeu que não precisa de uma luneta para vê-los, Sirius?
- Hein? - ele largou o telescópio e virou-se.
O cabelo de Helen esvoaçava com o vento gélido que entrava. A capa também balançava de leve e ele sentiu um arrepio ao contemplar o sorriso de menina. A garota que estivera viva em sua memória durante tantos anos estava a menos de um palmo de distância, tão real quanto houvera sido um dia.
- A serpente... - ela tocou o emblema bordado em sua capa - ... e o leão.
Os dedos finos de Helen percorreram os lábios de Sirius vagarosamente e ele sentiu o impulso de puxá-la para si.
- Você está louca - ele disse, empurrando-a e evitando olhá-la nos olhos.
- Louca? - e começou a rir desenfreadamente. - É, pode ser. Estou louca!! Sabia que a loucura é o estágio máximo da infelicidade? - ela parou de rir e passou a ostentar um olhar mortiço.
- Quem melhor do que para saber de uma coisa dessas... - ele se recordou de Azkaban com amargura. - Mas julguei que fosse feliz, afinal, foi você quem escolheu seu destino.
- E sou. Ao menos uma parte de mim é... - ela deu meia volta e andou até uma das janelas, o que Sirius estranhou, pois desde garota Helen tinha medo de altura.
- Helen, o que... - ele correu até ela ao vê-la subindo no beiral da janela. - Ficou maluca mesmo! Você ia se atirar?
- Me beija... - ela pediu, aproveitando a proximidade dos rostos a menos de um palmo de distância.
- Por que você está fazendo isso comigo? - ele resistiu, mesmo sentindo os lábios quentes dela chegarem próximos aos seus. Helen estava de pálpebras fechadas, a aparência mais frágil que a de uma boneca de louça. - Eu não posso fazer isso - ele disse baixinho, para si mesmo.
- Você pode... - e ela colou a boca na dele, estabelecendo o laço que faria ambos se entregarem da mesma forma que na última vez em que estiveram juntos naquela mesma sala.
