Capítulo 8 – Feito Cães E Gatos

inPetrúquio: n Ó, céu bondoso, como é terna e brilhante a luz da lua!

nCatarina: /n Lua?! O sol! Não há luar agora!

nPetrúquio: /n Brilhando assim só pode ser a lua.

nCatarina: /n Brilhando assim só pode ser o sol.

nPetrúquio: /n Pois eu juro pelo filho de minha mãe, ou seja, por mim mesmo,

que é a lua, ou uma estrela ou o que eu bem disser... /i

A Megera Domada, William Shakespeare

Sirius demorou para reconhecer de quem era a voz que insistia em tirá-lo de seu sono. Há tempos não dormia tão bem... Mesmo que estivesse estirado de qualquer jeito sobre o sofá da sala, de boca aberta e com uma almofada empoeirada lhe fazendo espirrar de cinco em cinco minutos... Tudo tinha sido um sonho?

Impossível! Ele ainda podia sentir o cheiro dela na própria pele. Sirius abraçou a almofada e virou para o outro lado, um sorriso bobo nos lábios, sem querer acordar.

- SIRIUS!!!! - cansado de chamar pelo outro, Fletcher apontou a varinha e esguichou um pouco d'água da cara do amigo, que deu um salto do sofá.

- Pô, Fletcher, eu já tava levantando... - ele disse entre dois bocejos.

- Sei - e então o bruxo começou analisar Sirius, intrigado. - O que houve com você?

- Como assim, o que houve comigo? - Sirius deu de ombros e começou a esfregar os olhos, tentando acordar de verdade.

- Não sei. Você... você está diferente! Eu não sei dizer o que é... - Fletcher apertou os olhos em direção ao amigo, sem conseguir nada.

- Bobagem! - Sirius andou até um espelho no hall de entrada sem conseguir segurar o sorriso. Não se sentia feliz daquela forma desde que... desde que... ele não conseguia se lembrar desde quando.

- Isso tem alguma coisa a ver com a sua escapadela de ontem à noite? - Fletcher adivinhou.- Duh, é claro que tem. Achávamos que você tinha ido ver o Harry, mas pelo visto você resolveu dar uma esticadinha em algum outro lugar... E a julgar por esse recado que o Remo anotou - ele deu um sorrisinho maroto.

- Recado? Que recado? - Sirius voou até perto do telefone, para então se lembrar que, por mais que tivesse passado boa parte da vida entre trouxas, Helen não poderia telefonar de Hogwarts.

- Srta. Teresa Bright. Eu sabia que aí tinha! E você negando, né? O interesse dela era explícito. Estou gostando de ver, Sirius, retomando a antiga forma!

Sirius olhou o bilhete anotado na letra séria e organizada de Remo. "Teresa Bright ligou por volta das oito e meia. Tem urgência em falar com você sobre algo que aconteceu ontem à noite. Um abraço. Remo".

- Onde o Lupin foi?

- Buscar a Tonks.

- Tonks? Que Tonks?

- Sua quase sobrinha, Black! Filha da Andie! Por Merlim, a noite deve ter sido boa mesmo. Parece que você já esqueceu de tudo o que discutimos ontem na reunião da Ordem!

- A Ordem! - Sirius se deu um tapa na testa. - Nós temos que ir para o observatório. Eu me esqueci de olhar ontem... Tenho que confirmar se a Helen está certa sobre a constelação de Leão...

- Ela está - Fletcher, segurou o amigo, que estava prestes a sair da casa, pelo braço.

- Como assim ela está? O astrônomo desse grupo sou eu e eu...

- A Carol ficou fula da vida com você ontem à noite e resolveu chamar o Rasputin... - Fletcher não estava nada contente em dizer aquilo. - Parece que ele entende mesmo de estrelas...

- O Rasputin... - Sirius murmurou, pensando pela primeira vez nas outras pessoas que estavam envolvidas na loucura que cometera na noite anterior. - Yuri...

- Não, o menino não foi. Só o pai. Falando em pai... O que achou de rever a mãe do garoto?

- Mãe... - Sirius se deixou cair sentado no chão. - Merlim, o que eu fiz?

- Sirius, você está bem? - Fletcher se abaixou e pegou o pulso do amigo, cujo rosto havia ficado branco de repente.

- Ô de casa! - Remo deu uma batidinha leve na porta e entrou, sem cerimônias, acompanhado de uma moça de cabelos ruivos e enrolados até a cintura.

- Ora, o DesapareSirius Black reapareceu? Titio, você tem que explicar como faz essas coisas! Me ajudaria a ganhar um aumento de salário! - a ruiva zombou, sorrindo.

- Ninfadora? - ele apertou os olhos tentando reconhecer algum traço de Andrômeda, sua prima, na garota sardenta a sua frente. Definitivamente não havia nada a não ser a voz levemente esganiçada e alegre.

Percebendo o embaraço de Sirius, a bruxa retorquiu:

- Metamorfomaga! Como meu pai, lembra? Contei isso ontem!! - ela levantava as sobrancelhas vermelhas a cada frase pausada, como se estivesse falando com um bêbado. - E, por favor, me chame de Tonks, ok?

- O que houve com você, Sirius? - foi a vez de Remo perguntar.

- Acordou com problemas de memória - Fletcher respondeu pelo amigo.

- Não estou falando disso... - Remo olhou com atenção para Sirius. - Você... você está diferente... Mas eu não sei dizer o que é...

Sirius e Mundungo se entreolharam. Remo acabara de dizer as mesmas palavras que Fletcher...

- É só um mal-estar... - Sirius tentou desconversar.

- Mal-estar? - Tonks se admirou. - Se o Clyde ficasse com essa cara toda vez que tivesse um mal-estar eu teria aceitado o pedido de namoro dele há séculos!!!! Tio, não me leve a mal, mas você tem os olhos mais brilhantes que eu já vi numa pessoa.

- Os OLHOS!!!!!! - Fletcher e Remo exclamaram juntos e ambos se abaixaram, virando o rosto de Sirius de um lado para o outro, puxando-lhe as pálpebras e todos os exames que um médico trouxa faria para verificar se alguém está doente.

- Diga a verdade, Sirius! Você andou tomando alguma poção proibida ontem? - Remo perguntou em alerta.

- Não foi poção, não, Remo!!! Foi uma boa dose de Teresa Bright, isso sim! - Fletcher voltou a exibir o sorriso de sarcasmo.

- Tá brincando? - ele olhou perplexo para Sirius. - Achei que você tinha ido ver o Harry!!!

- Eu não fui ver a Teresa!!! - o outro bruxo retorquiu bravo e se levantou, irritado. Remo e Fletcher fizeram o mesmo. - E eu fui mesmo falar com o Harry!

- Então... Essa cara de bobo alegre é só porque você conversou com o seu afilhado? - Fletcher estava decepcionado.

- Eu não estou com cara de bobo alegre, - mas um sorriso besta teimava em contrastar com seu olhar preocupado. Ele não conseguia apagar a sensação boa que aquela noite lhe deixara, apesar de tudo de ruim que ele sabia que aquela atitude impensada traria. - O que a Bright queria comigo? - ele tentou mudar de assunto.

- Não sei. Ligue para ela. - Remo respondeu e depois de alguns segundos calado, voltou a insistir: - Você não vai contar o que lhe deixou assim?

- Assim como, raios? Não entendi até agora do que vocês dois estão falando!

- Seus olhos... - Fletcher respondeu. - Como a Tonks disse...

- ... estão brilhando. - Remo completou. - Como antes de Azkaban!

Meio ressabiado, ele foi novamente até o espelho. Não conseguia perceber nada de diferente nele mesmo, a não ser aquela alegria boba, misturada com uma angústia inexplicável de quando não se sabe qual será o próximo passo.

Então viu um novo reflexo a seu lado no espelho. Uma moça de nariz reto e comprido, bochechas bem marcadas e olhos tão negros quanto os seus. O cabelo descia liso e reto até a altura do queixo, emoldurando o rosto pálido. Na sobrancelha direita, um piercing mudava de cor e forma a cada cinco segundos.

- Acha que somos parecidos? - os olhos de Tonks encararam a imagem do "tio" refletida no espelho.

Ele balançou a cabeça afirmativamente, colocando o braço sobre os ombros da jovem bruxa.

- Isso é de verdade ou ilusão de ótica - ele apontou para a sobrancelha de Ninfadora.

- De verdade - ela confirmou: - Mas por favor, não conte para minha mãe! Ela levaria um choque! - e mordeu o lábio inferior, de modo engraçado.

- Vocês dois vão ficar tendo reminiscências familiares até quando? Achei que tínhamos trabalho a fazer... - Fletcher se cansou da cena e foi juntar seu material, frustrado porque sabia que Sirius não lhe diria o que o transformara do dia para a noite.

- Ora, Fletcher, a parte boa da família da minha mãe fica encarcerada por 12 anos e agora você não quer deixar eu ter contato com ela? - Tonks respondeu num falso mau-humor. Mas ao virar-se para mostrar a língua para o bruxo, esbarrou sem querer no espelho que caiu aos pés dos dois Blacks da sala. - Oooops. - ela deu um sorriso sem graça.

Fletcher sequer se dignou a olhar o estrago:

- Tava demorando...

Remo riu discretamente enquanto Sirius se abaixava para recolher os cacos. Então, um reflexo tímido da luz que batia no espelho, fê-lo notar uma moldura estranha saindo detrás de um dos sofás daquela sala.

- Fletcher o que é isso? - ele perguntou enquanto caminhava até aquele canto da sala.

- Isso o que? - largando todos os seus projetos sobre a mesinha de centro e indo até onde Black estava. - Ah, isso... - ele passou a língua entre os dentes, nervoso.

- Isso o quê? - Remo e Ninfadora estavam curiosos.

Sirius então tirou um máscara de madeira trabalhada, pintada num verde fosco, de detrás do sofá. Ao redor da oval, que tinha duas fendas para os olhos e outra para o nariz, saíam curtos tentáculos, dando à mascara a aparência de um sol com problemas de estômago, tal era a careta talhada na madeira.

- Ei, isso é um... Fletcher!!!!!! - Ninfadora encarou o bruxo pasmada.

- Eu posso explicar... - Mundungo fugia dos olhares intrigados de Sirius e do ar de reprovação de Remo.

- Outra vez, Fletcher? - Remo se sentou desanimado.

- Ei, eu preciso manter essa casa!!! O Ministério cortou minha verba na semana passada porque andei faltando demais para fazer serviços da Ordem...

- Alguém quer fazer o favor de me explicar que raios de máscara é essa!!!!!

* Bem, a reclamação é do Sirius, mas imagino que os leitores também devem estar querendo saber a mesma coisa nesse momento. *

- Os humores de Ceridween - Remo respondeu com o voz tensa.

- Me esclareceu dum tanto... - Sirius sorriu cinicamente, enquanto via o rosto da sobrinha ruborescer de raiva.

Remo respirou fundo e começou a explicar:

- Esta é uma das máscaras de Ceridween, a deusa soberana e distribuidora da magia no mundo. Conta a lenda que ela escolheu sete homens...

- ...e mulheres! - Tonks frisou.

- ...e MULHERES para receberem um dom divino. Bel, o deus consorte, talhou a madeira e, com magia, inseriu em cada uma delas um fio de cabelo de Ceridween. Como a deusa tivesse os cabelos da cor de um arco-íris, cada uma das máscaras adquiriu o tom do fio incrustado na madeira.

- Você esqueceu de um detalhe importante, Remo! - Tonks continuou a explicação, sem tirar os olhos furiosos de Fletcher. - Podemos dizer que Ceridween era meio metamorfomaga, porque mudava os cabelos de acordo com o humor, ou seja, ela não tinha os cabelos de sete cores diferentes ao mesmo tempo - e então ela fez uma careta, provavelmente pensando numa mulher com o cabelo tão colorido quanto um arco-íris. - Se estava com raiva, os cabelos ficavam violetas; apaixonada, vermelhos; alegre, amarelos; e assim vai.

- Cada um dos sete escolhidos - Remo prosseguiu: - colocou a máscara uma vez e então recebeu um dom divino diferente, baseado no tipo de magia a que Ceridween estava mais propícia a executar quando estava num determinado estado de espírito.

- Peraí. Você não estão em dizendo que acreditam em uma lenda, estão? - Sirius deu um sorrido de incredulidade. - Quer dizer que se eu colocar isso aqui no rosto eu vou ter uma indigestão? - ele fez piada, enquanto analisava a expressão estampada na máscara e obtinha a certeza de que a deusa devia ter comido alguma coisa que lhe fez mal para fazer tal careta.

- Na verdade a máscara verde é a máscara da inveja e do desgosto - Remo explicou. - E, segundo a lenda, elas só fizeram efeito uma vez, para formar os sete primeiros bruxos...

- ... e bruxas... - Tonks se mostrava uma feminista exemplar.

- ... e bruxas da Bretanha. Os sete disseminaram a magia na Europa, tendo filhos entre si e com trouxas.

- Todo o conceito de puro-sangue nasce daí. Somente os descendentes diretos dos sete seriam bruxos dignos, pois teriam sido escolhidos pela deusa.

- Agora acho que estou me lembrando de ter ouvido qualquer coisa desse tipo nas aulas de História da Magia... - Sirius coçou a testa levemente. - Bah, lendas!

- Essa não é a questão, tio! O problema é que o Fletcher ROUBOU a máscara verde!!!!

- Eu recebi uma oferta irrecusável!!! - ele tentou se defender. - E ninguém deu falta dela ainda.

- Lógico!!! Como dariam falta de uma peça que fica perdida atrás das mil e uma portas do Departamento de Mistérios? Eu mesma só a tinha visto uma vez, e olha que eu freqüentei bastante aquele departamento durante o treinamento de auror. - Tonks afirmou.

- Ela não serve pra mais nada!!!! - Fletcher tentou argumentar com a auror, que não arredou pé:

- Tem valor HISTÓRICO, Fletcher.

- Tanto valor que as outras máscaras estão espalhadas pelo mundo!!! Inclusive entre os trouxas!!!! - ele rebateu.

- VOCÊ ROUBOU!!! E o pior: não é a primeira vez, Fletcher!!!! Eles poderiam mandá-lo para Azkaban por isso!!! REINCIDÊNCIA!!!! Bonnie não vai te defender outra vez!!! Ela avisou!!!

- Você... você não vai me dedurar, vai, Tonks? Eu... eu...

- Ele vai devolver a máscara, Ninfadora - Sirius encerrou aquela discussão.

- Impossível!!!! - Fletcher arregalou os olhos.

- Como assim impossível? Você tirou a máscara de lá, não tirou? - Sirius foi enérgico com o amigo. - Então agora vai colocá-la de volta no lugar...

- Mas...

- Eu faço isso. - Tonks tomou a máscara das mãos de Sirius e enfiou na mochila. - Se ele passar por aquela porta com ela pode ser que nunca mais nós venhamos a descobrir o paradeiro da máscara verde!

Mundungo não respondeu nada. Não tinha moral nem cara-de-pau suficiente para isso. Além disso, Tonks estava certa: ninguém o defenderia daquela vez. Bonnie o avisara.

- Encontro vocês mais tarde no observatório - a jovem falou e desaparatou da casa.

- Tonks ainda precisa aprender muito se quiser ser uma boa auror. - Remo comentou. - Esqueceu de perguntar o principal: quem ia comprar a máscara, Fletcher?

O bruxo mordeu os lábios e fitou os próprios sapatos. Então ergueu o rosto devagar, sem coragem de encarar os dois amigos:

- Malfoy!

* * *

O inverno começava a dar mostras que estava chegando. Naqueles últimos dias de outono, ventanias densas e o frio cortante uivavam próximos às janelas e corredores do castelo. Mas Harry andava mais calmo. A boataria em torno de seu nome e de Sirius, como todos os outros falatórios que o tinham envolvido naqueles anos em Hogwarts, vinha cedendo devagar. Parece que o fato de voltar a andar com Rony e Hermione dera aos outros alunos a falsa sensação de que as coisas estavam novamente nos eixos e Harry estava gostando disso.

Além disso, havia aprendido com Mione o feitiço do surdo, que aplicava em si mesmo toda vez que percebia que Malfoy estava se aproximando. Dessa forma, evitava ouvir comentários desagradáveis ao mesmo tempo que não precisava mais se conter para não duelar com o sonserino, simplesmente porque não ouvia o que ele lhe dizia. A falta de reação de Harry também reduziu as investidas de Malfoy, que irritado pela falta de reação do garoto da cicatriz, deixou de provocá-lo após algum tempo.

Entretanto ainda havia um segredo que Harry andava guardando de todos e, que, incrivelmente, vinha sendo encoberto por Severo Snape.

- Aulas de reforço outra vez, Harry? - Rony não acreditava no que estava ouvindo. - Você não é tão ruim assim em Poções pra ficar enfurnado naquela masmorra três vezes por semana depois das aulas!

- Eu tenho que concordar com o Ron, Harry - Hermione pôs o nariz por cima do livro, levantando as sobrancelhas, enquanto desviava um segundo sua atenção da revisão que fazia das aulas de transfiguração. - Aliás, eu não consigo entender por que você tem aulas de reforço e o Neville não. A não ser... - ela fechou o livro bruscamente: - Isso não é só uma desculpa, é, Harry?

- Desculpa? - o rapazinho se alarmou brevemente. - Desculpa pra quê? Pra cara de tédio que eu volto depois dessas aulas? Por favor, Hermione... - ele fingiu se zangar.

- É, você tá certo - Rony entortou a boca pensando na resposta de Harry.

- Pois as suas caras de tédio se parecem muito mais com as caretas que você e Rony fazem depois de uma aula de História da Magia. - a garota desafiou.

- Hermione, - Harry estava perdendo a paciência. Sabia que era difícil enganar a amiga, mas para ele explicar que vinha tendo aulas de História da Magia, teria que contar muita coisa que não dizia respeito só a ele - você ouviu o próprio Snape me lembrando das aulas de reforço. E foi na frente do Malfoy!! Se você quiser relembrar isso, é só transitar nos arredores da Sonserina. Eles repetem isso de cinco em cinco segundos para quem quiser ouvir.

- Tá, tudo bem. Não vou mais insistir - ela se deu por vencida.

- Mas, então, porque ele não aproveita pra dar um reforço para o Neville também. Ele está precisando! Não sei como vai passar pelos NOMs.

- Agora você quer que o Harry entenda a cabeça doentia do Snape, Mione?? - Rony veio em seu socorro. - Se bem que...

- Se bem que o quê? - Harry e Mione perguntaram juntos.

- Eu tava pensando que talvez o Snape não dê aulas de reforço pro Neville por medo de ele incendiar a masmorra com uma poção mal-sucedida! Sabe que isso não seria má idéia? - os olhos azuis do ruivinho brilhavam. - Aposto que isso faria com que as aulas fossem suspensas por pelo menos uma semana!

- Mas o Neville não tem aulas de reforço! E eu vou acabar chegando atrasado se vocês continuarem o interrogatório. - Harry retrucou, enfiando o livro de Poções dentro da mochila.

Sob o olha desconfiado de Hermione, Harry deixou a biblioteca com cara de desânimo. Ele não teria reforço de Poções, mas nem por isso as próximas duas horas seriam mais interessantes. A verdade era que as aulas sobre o Manifesto de Morgana eram tão entediantes como qualquer aula de História da Magia.

Descia as escadas lentamente, sem pressa de chegar a mesma sala onde tinha visto Sirius pela última vez. Estivera bastante ansioso pela primeira aula, pois achava que finalmente esclareceria o mistério de ter sobrevivido ao Avada Kevrada, entretanto, sua professora não desviava uma linha sequer do livro velho e capenga, de folhas empoeiradas que continha os relatos do dia-a-dia de uma bruxa que vivera há mais de mil anos.

- Ooops, me desculpe... - ele esbarrou numa menina loura com o uniforme da Corvinal, fazendo com que ela deixasse cai todo o material escolar.

Estranhamente, a menina não respondeu nada. Ficou parada, olhando para os livros e pergaminhos esparramados, sem mover um dedo. Os olhos azuis miravam a capa de uma revista com um interesse inquietante. Tanto, que Harry esqueceu-se momentaneamente de sua aula e se pôs a analisar a edição.

A foto de três bruxas de ponta cabeça - uma delas lutando para que a as vestes não descessem e mostrassem sua roupa debaixo - ilustravam a capa da revista, que levava uma chamada em grossas letras amarelas "Wiccyoga: a nova técnica que vai virar a cabeça das bruxas". Outra chamadas menores, alternavam-se no canto esquerdo do impresso, piscando desenfreadamente e não dando chance para que Harry conseguisse lê-las. O rapazinho não conseguiu achar nada de realmente importante e voltou a encarar a menina, que agora exibia uma careta de desaprovação. Por fim ela se abaixou e virou a revista de cabeça para baixo, fazendo com que as três bruxas da capa respirassem aliviadas.

- Se você fizer um ângulo de 90 graus entre os dedos médios e indicador a partir de Orion, fica fácil encontrar Vênus. Só é preciso multiplicar por mil e você chega a Cão Maior - ela falou séria para Harry.

- Ah, claro, lógico. - Harry respondeu sem entender onde a garota queria chegar.

Ela não se preocupou com o sinal de interrogação estampado do rosto do grifinório e começou a juntar suas coisas, guardando-as de qualquer jeito dentro da mochila. Harry resolveu continuar seu caminho deixou para trás. Ainda não tinha virado o corredor quando ouviu a menina comentar:

- Tão fácil localizar Sirius...

Aquilo agiu como um imã para devolvê-lo ao pé da escada.

- O que você disse? - ele arregalou os olhos para menina.

- Você é Harry Potter - ela falou, colocando a mochila sobre os ombros.

- Disso eu sei. Estou perguntando do que você estava falando. De... - ele baixou a voz e, olhando para os lados, falou: - De Sirius Black.

- De Sirius Black? Não o conheço.

O garoto desanimou:

- Você estava falando dele há pouco! Vai me dizer que não sabe quem é Sirius Black? - perguntou em tom de deboche provocado pela impaciência.

- Não disse que não sei quem é. Disse que não o conheço. - e a loira começou a subir as escadas.

Ele deu um suspiro de impaciência:

- Eu só quero saber o que você estava falando!! - ele gritou, fazendo duas lufa-lufas que passavam olharem assustadas para ele.

E então Harry deu um sorriso ao ver a menina descer as escadas novamente e parar bem a sua frente. Ela abriu a mochila e tirou a revista de dentro, entregando-a para ele:

- Você devia praticar wiccyoga - e então deu as costas para Harry e subiu rapidamente as escadas sumindo da vista do garoto.

- Droga! - ele enrolou a revista raivoso.

- Tsc, tsc...

Harry reconheceu rapidamente a desaprovação. Todas as vezes que esboçava um bocejo, Helen fazia aquele barulhinho.

- Atrasado... - a bruxa levitava ao lado de uma estátua de Merlin, as pernas cruzadas e o queixo apoiado no braço direito, cujo cotovelo afundava sob a coxa, bem próximo ao joelho. Flutuação era uma das habilidades da magia que Helen controlava melhor, desde que não passasse de meio metro do chão

- Eu... - Harry já ia começar a inventar uma desculpa.

- Não pedi explicações. - ela ficou de pé e contemplou-o com um olhar duro. - Hoje teremos aula em outro lugar...

- Mas... Existe outra sala secreta em Hogwarts? - ele perguntou num sussurro.

- Não vamos a nenhuma sala secreta. Vamos para as masmorras.

- Para as masmorras?? - ele olhou alarmado para a mulher em seu disfarce de menina.

- Pare de falar tanto e ande. Snape está nos esperando! - Helen disse isso já no final do corredor.

- Snape? - Harry correu para perto dela, duvidando de seus ouvidos.

A bruxa parou de súbito.

- Snape. Logicamente. Eu é que não vou me arriscar a fazer uma poção e explodir uma sala. Já tenho detenções agendadas para o resto do ano... - ela parecia mais mal-humorada que de costume.

- E pra que é que nós precisamos de uma poção para estudar história da magia?? - Harry se conteve para não gritar estas palavras.

- Desde que meus alunos passam metade da aula entre cochilos e bocejos. - ela foi enfática. - Quando Ceridween distribuiu a magia entre os humanos acho que ela queria justamente acabar com a monotonia, assim, vamos seguir os mandamentos dela!

- Ceridween? - Harry olhou para os lados, lembrando-se repentinamente de como pareceria estranho se o vissem conversando com uma sonserina. - Quem é Ceridween?

- A Deusa, Harry!!!! Estamos lendo o Manifesto há uma semana e você não sabe o nome da Deusa? A situação é pior do que eu pensava...

- É lógico que eu sei o nome dela... - ele retrucou, com ar emburrado. - Foi só um lapso.

- Tudo bem. Se a minha idéia der certo, essas aulas devem ficar bem mais interessantes. Eu fui professora durante boa parte de minha vida e sei quando algo não está funcionando. Aulas de história podem ser incrivelmente maçantes...

Por coincidência estavam exatamente em frente a sala de História da Magia. A garota deu um suspiro olhando dentro da sala vazia e por fim resolveu voltar a caminhar.

- Vá pela ala sul - ela disse sem olhar para trás. - Quanto menos pessoas nos virem juntos melhor.

Harry balançou a cabeça e então seguiu para o outro lado do corredor.

* * *

- Que cara de sono é essa, Tonks? - Kingsley Shackelbolt, auror-mor do Ministério da Magia, não pode deixar de perguntar ao ver uma de suas subordinadas mais jovens debruçada sobre a mesa do escritório amplo e bagunçado ao final do expediente. - Não responda! Deixe-me adivinhar... Virou a noite dançando na Haunted Mansion! Você e o Kudrow tem que parar com esses passeios durante a semana.

- Antes fosse... Não piso no Haunted Mansion há quase um mês - a moça resmungou, levantando a cabeça com algum esforço. - Sempre achei que astronomia devia ser chatíssimo, agora tenho certeza absoluta disso!

- Esteve em Oxford? - ele falou baixo, sentando-se em frente a ela, que apenas balançou a cabeça como resposta. - Já sabem quem será a vítima?

A sala dos aurores era um local especial, a prova de qualquer tipo de grampo mágico. Por isso, Tonks não tomou muito cuidado na hora de começar a relatar.

- Não temos nem idéia. Todos os dados são vagos, as probabilidades são variadas e alguns resultados são simplesmente absurdos...

- Absurdos? Que tipo de absurdos?

Tonks se ajeitou na cadeira, espreguiçando-se:

- Segundo as previsões, um dos locais prováveis do assassinato era Hogwarts.

- Potter! - Shackelbolt arregalou os olhos.

- Não. Parece que tudo o que diz respeito a ele está na constelação de Leão, e o buraco negro está se formando em Serpente. Além do mais, esse é apenas UM dos locais em que isso poderia acontecer, e o mais improvável na opinião de todos. Matar alguém sob as barbas de Dumbledore? Impossível! Ainda assim Carol desconfia que a vítima seja um sonserino, mas qual?

- Voldemort era da Sonserina... - o auror mais velho comentou sem qualquer esperança.

- A única coisa certa é que alguém morre esta noite...

- E que nós não poderemos fazer nada para impedir - o auror comentou sinistramente.

- Hum... Kingsley, há alguns dias estou para lhe perguntar uma coisa e sempre me esqueço.

- Então pergunte agora. Antes que algum chamado de emergência porque o gato angorá da Primeira-dama subiu em algum telhado novamente comece a ecoar pelos alto-falantes dessa sala.

Nymphadora deu um sorriso de leve. Quantas vezes não tivera que cumprir aquela tarefa em seu primeiro ano como auror. O Ministro da Magia costumava levar todos os pedidos de sua esposa muito a sério. Odiava ter de cumprir essas tarefas, mas nos últimos dias vinha imaginando se em breve não teria saudade desses tempos.

- O Departamento de Achados e Perdidos não andou registrando nada de diferente ultimamente?

- Não que eu saiba... Varinhas perdidas, caldeirões roubados, uma ou outra máscara de fortalecimento...

- Máscaras... Nenhuma máscara especial? - a jovem insistiu.

- Onde você está querendo chegar, Tonks? - o chefe alongou o corpo sobre a mesa, chegando próximo ao rosto da auror.

Nymphadora deu um suspiro longo e contou sobre o furto de Fletcher, apressando-se em explicar que já havia colocado o objeto em seu devido lugar. Mas isso não preocupou Shacklebolt. Ao menos não até a menina mencionar para quem Fletcher tinha roubado a máscara.

- Malfoy? O que Malfoy quer fazer com uma máscara velha?

- Entregá-la a Você-Sabe-Quem? - Tonks sugeriu, como se fosse óbvio.

- Não foi isso que eu quis dizer - ele retrucou aborrecido. - Estou tentando adivinhar que uso aquela máscara pode ter! Especialistas de todas as áreas do mundo bruxo já testaram os dons da máscara sem nunca descobrir nada...

- Não descobriram nada mesmo ou você não quer me dizer?

- E por que eu não lhe diria, Tonks? - ele se ofendeu. - Se não confiar em você, vou confiar em quem?

Então a conversa foi interrompida por uma agradável cheiro de rosas e uma conversa animada que se tornava cada vez mais alta. Pouco depois Clyde entrava no escritório acompanhado de dois bruxos jovens. Enquanto o olhar do jovem auror parecia complemente embasbacado pela companhia de uma bruxa de cabelos louro prateados, que parecia flutuar para dentro da sala, Tonks baixou o rosto evitando encarar o bruxo ruivo de cabelos compridos, por quem era apaixonada nos tempos de escola: Guilherme Weasley.

- E aqui é onde eu trabalho. Meu chefe, Sr. Shacklebolt... - ele apontou para o bruxo alto e negro que continuava sentado, um sorriso bonachão estampado - e Tonks, minha parceira.

- Tonks? - a loura de olhos azuis oblíquos piscou-os rapidamente. - Que nome estrrránho parra uma mulherrr... - comentou no forte sotaque francês.

- Ninfadora. Ninfadora Tonks - Gui Weasley esclareceu, colocando os olhos claros na auror, que rapidamente fez com que os cabelos crescessem, escondendo as bochechas ruborizadas. - Tudo bem com você?

- T-t-tudo - ela respondeu sem coragem de olhar para ele.

- Shacklebolt, Tonks, essa é Fleur Delacour - Clyde resolveu apresentar a visitante. - Estou mostrando o Ministério para ela.

- Ham-ham - Gui Weasley fez um barulhinho com a garganta.

- Hum... quer dizer... eu e o Weasley estamos mostrando o Ministério para ela - ele consertou contrariado.

Tonks olhou de relance para Clyde. O que é que ele via naquela loura desenxabida? Quer dizer, ela era bonita e tal, mas... Bem, devia ser uma bruxazinha medíocre, dessas cuja maior especialidade é preparar poção alisante de cabelos. Ela não se atrevia a olhar para Gui com medo de descobrir o mesmo olhar débil do amigo.

- A senhorita foi a campeã de Beauxbatons no último torneio tribruxo, certo? - Shackelbolt se levantou.

Fleur confirmou abrindo um sorriso de superioridade e olhando rapidamente para a outra garota com desprezo.

- Clyde, aposto que Fleur adoraria conhecer o Departamento de Mistérios. Há coisas interessantíssimas por lá. Por que você não a leva?

O auror sorriu animado, confirmando coma cabeça e agarrando a bruxa pelo pulso, louco para ter um minuto a sós com ela. Mas Fleur não parecia contente:

- Você non vai também?

Gui mordeu os lábios e, com uma dificuldade impressionante, recusou o convite:

- Tenho que resolver alguns probleminhas com o Shacklebolt aqui. Vá com o Kudrow. Ele será um ótimo guia.

Meio contrariada Fleur saiu com o jovem auror, que parecia mais contente do que nunca.

- Ela era a campeã de Beauxbattons? - Tonks fez muxoxo ao ver a menina sair. - Pelo visto os franceses não tem bruxos da melhor qualidade...

- Ela não é só bonita, Tonks. É ótima bruxa. Nunca vi alguém com tanta habilidade para transfiguração - Gui corrigiu, fazendo a teoria da auror cair por terra. - E será uma ótima aliada na guerra que está por vir... - ele baixou a cabeça, pesaroso.

Os três ficaram alguns minutos em silêncio.

- Acham mesmo que é inevitável? - Gui rompeu o silêncio com a voz embargada e os olhos começando a ficar úmidos.

- Está mesmo gostando da francesinha, hein? - o auror mais velho deu um sorriso triste.

Gui balançou a cabeça de leve, confirmando. A convivência com Fleur lhe dera certeza de que a bruxa não era apenas bonita, mas a mulher que ele queria do seu lado para o resto de sua vida. Mas por quanto tempo ele ainda teria vida se estavam prestes a entrar numa guerra?

Tonks, sentindo-se desconfortável com o rumo da conversa, levantou-se da cadeira e foi mexer no arquivo de pergaminhos. Não estava procurando nada, simplesmente não queria olhar para o rapaz. Gui Weasley fora seu primeiro amor quando ela era apenas uma adolescente boba e desengonçada que acabara de entrar para a escola de bruxaria. E ele... Ele era monitor, quatro anos mais velho que ela, e LINDO!!!! A paixão platônica durou dos 11 aos 13 anos da garota, quando Gui finalmente se formou e saiu da escola, e ela nunca teve coragem de confessar aquele delírio para ninguém.

A garota namorou, terminou, namorou de novo, terminou outra vez com colegas de escola e garotos trouxas, e pensava ter superado essa crise da aborrescência, quando um belo dia reencontrou-o por um acaso numa viagem ao Egito, durante o treinamento para se tornar auror. Desde então, todas as vezes que cruzava com o rapaz ela se sentia estúpida por ser tão boba e tímida na frente dele. Assim, preferia continuar revirando os papeís a esmo, evitando prestar atenção à conversa que rolava na sala.

- TONKS!!! Ficou surda, garota? - Shacklebolt deu a bronca.

- D-d-desculpe.

Kingsley Shacklebolt e Gui Weasley estavam segurando o riso, enquanto olhavam para ela. Depois de olhar para si mesma e conferir se estava usando alguma peça do avesso, ela se deu conta de que havia um vazio atrás de si. Ao virar-se com pressa, batera a ponta da varinha no armário, transformando-o num cofre em forma de porquinho.

- Ai, meu Merlim!

Ela desfez o feitiço rapidamente, mas quem olhasse atrás do armário, veria que ele conservava um rabicó cor-de-rosa. O chefe da auror riu de leve. Já estava acostumado com aquilo, e só ficava bravo quando algo desse tipo acontecia numa missão muito importante. Em geral, estava sempre bem-humorado.

- O-o-o que vocês queriam? - ela se sentou novamente na mesa, evitando encontrar o rosto de Gui.

- Aquilo que você me perguntou agora há pouco. O Weasley disse que a agência de Gringottes no Egito conserva uma das máscaras de Ceridween.

- Mais precisamente a azul... - Gui completou.

- Da melancolia e da tristeza!!! - ela levantou o rosto devagar.

- E, coincidentemente, o banco sofreu uma tentativa de arrombamento recentemente. Mas os aparentes culpados, dois elfos domésticos libertados há mais de 50 anos, deram cabo da própria vida antes de contarem aos aurores egípcios qual era seu objetivo. - Gui continuou, deixando Tonks apreensiva.

- A família Malfoy tem vários elfos domésticos...

- Libertos, Tonks!!! Libertos!!! - Shacklebolt frisou. - E libertos porque nenhum membro da família a que pertenciam vive há cinqüenta anos. Ou seja, não temos prováveis mandantes.

- E nem a certeza de que estavam atrás da máscara - o bruxo ruivo ressaltou. - Acho que deveríamos levar esse comunicado o mais rápido possível para Dumbledore...

- ...se fizermos isso ele expulsará o Fletcher da Ordem, Gui. Mundungo já tinha sido avisado, mas o coitado é um cabeça-oca. Ele tem bom coração.

- Bom coração não irá nos ajudar se ele continuar trabalhando para o inimigo, Tonks - o outro auror foi duro com a jovem.

- Mas eu acho que o Fletcher pode se redimir, Shacklebolt! E também pode ser muito útil, mas para isso eu precisaria retirar a máscara novamente...

- Você não...

- Não sei quem anda trabalhando como espião para o Dumbledore, - ela continuou rapidamente - mas se ele deu esse trabalho para o Snape, jogou o homem na boca dos tubarões. Você-sabe-quem não iria perdoá-lo sem mais nem menos. No máximo pode estar querendo usá-lo para conseguir informações sobre as nossas estratégias. No entanto o Fletcher...

- O Fletcher? De espião? - Gui franziu a testa, não concordando com a idéia.

- Quem mais? - sem perceber ela perdera toda a timidez. - Todo o histórico de Fletcher leva a crer que ele não se importa para quem trabalha, desde que lucre com isso. Se pudermos convencer Malfoy de que ele está disposto a tudo...

- Você só está se esquecendo de um detalhe, querida! - Kingsley interrompeu. - Será que Fletcher está disposto a correr esse risco?

Então ouvindo ruídos próximos, os três calaram-se novamente para ver Fleur Delacour com os cabelos cobertos de uma gosma amarelada, o rosto vermelho e quente de raiva, entrar sala adentro:

- Guilherrrme, acho que já podemos irrr emborrra!!!

- O que aconteceu com você? - ele perguntou, desviando os olhos azuis do cabelo para as vestes da menina, onde pequenas larvinhas, semelhantes a girinos deslizavam pela capa, infestando o chão.

Tonks e Shacklebolt tamparam os narizes. Fosse o que fosse, aquilo cheirava muito mal.

- Fleurzinha, querida, não fique assim tão irritada - eles finalmente ouviram a voz de Clyde vir de onde ficava a porta. - Aposto como isso deve ser ótimo para o cabelo! Você vai ter economizado horrores com o salão de beleza!

A voz do auror deixou o rosto da francesinha ainda mais vermelho. Por algum motivo o rapaz não queria entrar na sala e Tonks deduziu que ela era o culpado pelo estado de Fleur Delacour.

- Hum... Acho melhor irmos pra minha casa - Gui sugeriu para a namorada, depois de olhar feio para a porta. Fleur não esperou segunda ordem para desaparatar dali, e, assim que Gui sumiu, Clyde entrou no escritório, bastante desconfiado.

- Eles não estão debaixo de alguma capa da invisibilidade, estão?

- O que foi que você aprontou, Kudrow? - o chefe não sabia se ria ou se ralhava.

As condições do auror não eram muito melhores que a bruxa francesa, por isso Tonks bateu com a varinha na ponta do nariz e um pregador apareceu do nada.

- Foi sem querer! - ele estava desolado. - Eu estava mostrando o Departamento de Mistérios pra ela, e acho que ela estava realmente interessada em mim... quer dizer, no que eu estava contando para ela, porque, bem, vocês sabem, é lógico que ela se interessaria por mim, sou um ótimo narrador e...

- Tá ela estava INTERESSADISSIMA por você! - Tonks cortou. - E daí?

- Bem, eu estava contando que atrás de uma daquelas portas estavam escondidas todas as profecias da Inglaterra em globos de vidro quando percebi uma das maçanetas rodar e a porta começar a se abrir.

- E...

- E tinha alguém ali! Eu perguntei quem era, e a pessoa não respondeu. Parece até que se assustou, porque bateu a porta. Eu fiquei desconfiado, e assim que me aproximei da porta a sala começou a rodar, vocês sabem, como nos treinamentos de confusão.

- Oh, não... - Tonks mordeu o lábio inferior, vendo a cena claramente. - Você era o pior aluno do treinamento nessa matéria...

- Você não precisa me lembrar!!! Eu acabei de recordar isso há 15 minutos.

- Então você não reconheceu a porta e entrou numa outra sala... - Kingsley deduziu.

- ...a sala das águas-vivas aéreas! Uma agarrou a mim e outra agarrou a Fleur, e bem, a garota é boa mesmo! Conseguiu soltar nós dois rapidinho, mas não impediu que ficássemos lambuzados com essa meleca mal-cheirosa - ele fez cara de nojo, enquanto esticava o visgo entre os dedos polegar e indicador.

- Você está dispensado por hoje, Kudrow. Vá tomar um banho! E você venha comigo, Tonks. Vou precisar de toda ajuda possível para revistar as salas do Departamento de Mistério.

- Não vai, não. Entre primeiro na sala onde guardam a máscara de Ceridween. Sou capaz de apostar um galeão como ela sumiu!

Ela não perdeu a aposta.

* * *

- Com licença - Harry tratou de ser educado ao entrar na sala de Poções. Sabia que Snape procuraria qualquer motivo para poder espezinhá-lo, por isso não iria facilitar.

- Atrasado.

Harry ainda não tinha se virado, mas sabia claramente que aquela não era a voz de Snape. Aquele era...

- Dumbledore? Aiiii!! Harry!!!

Helen passava a mão no nariz dolorido, que acabara de levar uma portada. Harry estava tão perplexo olhando para o diretor de Hogwarts, que empurrara a porta sem perceber que a menina estava entrando. Fora a dor e o mau-humor, Helen parecia tão surpresa quanto o garoto.

- A senhorita também - Dumbledore se virou calmamente.

- Onde está Severo? - ela vasculhou cada canto da sala com os olhos apertados.

- Tive que mandá-lo em outra missão, Helen. Será que eu sou tão ruim assim em Poções para você parecer tão desapontada? - ela sorriu com ternura.

Helen baixou os olhos e respondeu um pouco envergonhada:

- Não, é que eu pretendia confirmar as suspeitas dele esta noite - e deu de ombros.

Harry sentou-se numa das carteiras, aliviado. Ter aulas com Dumbledore seriam mil vezes mais divertidas do que com Severo Snape.

- Como se ele tivesse alguma dúvida a seu respeito, Helen. - ele sorriu divertido. - Achei que soubesse que amigos sempre se reconhecem, não importa o disfarce.

- Ele deve realmente estar irritado por eu não ter confirmado depois de ele perguntar tantas vezes - a garota comentou, enquanto passava o dedo indicador dentro de um dos caldeirões: - Não me admira as poções da maioria dos alunos darem errado. Há restos de grudados nas laterais de todos os caldeirões! Quando isso se mistura com os ingredientes, deve provocar algum efeito... Ou seria melhor dizer defeito?

- A começar pelo seu, estou certo? - Dumbledore desafiou, bem-humorado.

Ela sorriu e olhou para Harry, que estava sentado numa das carteiras, a cabeça apoiada numa das mãos, contemplando o teto. Enfim, a mulher despiu a capa com o emblema da Sonserina e tirou o anel do dedo:

- Espero que não se importe, diretor - ela disse com as feições envelhecidas e vestindo um macacão branco sobre uma grossa blusa verde de gola alta. - Essa franja que eu tinha aos 16 anos realmente me tira do sério.

- Não vejo problema nenhum, Helen. E, você, Harry está pronto?

Ele deu de ombros. E desde quando precisava se preparar para ouvir dois professores contar como era a vida mais de mil anos atrás?

- Dumbledore, não sei se Severo comentou com você, mas eu havia pedido a ele para me ensinar a poção do simulacro... Bem, na verdade, eu pedi para ele fazer a poção, uma vez que não é novidade nenhuma que eu detesto isso... - ela falou fazendo uma careta para uma colher de pau que devia ter sido usada há pouco.

- Sim, ele me contou. E pensei que o ideal seria ensinar a Harry como fazê-la - Dumbledore comentou pondo os olhos no menino, que quase caíra da cadeira em que, há poucos segundos, se equilibrava sobre duas pernas apenas.

- Er... Poções não é minha melhor matéria, mas...

- Não é uma poção difícil, Harry. Quer dizer, não para pessoas normais - Helen consertou. - Se é que nós podemos dizer que você é normal... - ela falava consigo mesma, mas provocou uma careta irritada em Harry com o comentário. -ER... não disse isso num mal sentido.... - ela tentou se explicar.

- Deixa pra lá... - ele se voltou para Dumbledore. - E para que serve essa poção?

- Ah, essa é a melhor parte - Helen não deixou o diretor responder. Apenas abriu um sorriso e perguntou: - Quando você lê uma história, Harry, como você a imagina seus personagens?

- Como assim? - ele apertou os olhos e depois olhou mais uma vez para Dumbledore, para se certificar que a mulher a sua frente não tinha ficado maluca. Porém o diretor estava revirando o armário de ingredientes de Snape e não lhe deu atenção.

- Como você imagina as personagens de uma história, Harry? Você se coloca no lugar deles ou cria pessoas absolutamente novas?

- Eu sei lá. Nunca parei pra pensar nisso.

- Pois em breve nós iremos descobrir - ela deu um sorriso satisfeito. - Temos todos os ingredientes, Dumbledore?

- Falta apenas um fio de cabelo de uma garota irreverente. Coloque o anel outra vez e teremos tudo. - ele juntou uma série de pequenos potinhos nos braços e os carregou até a mesa de Snape, a maior de todas.

Helen colocou o anel outra vez e voltou a usar as vestes da Sonserina. Puxou um fio da própria franja com vontade e entregou ao diretor:

- Então o senhor me acha irreverente? - ela perguntou um pouco sem graça.

- Levando-se em conta que em duas passagens por Hogwarts você conseguiu fazer amizade com as pessoas mais improváveis da escola... - ela comentou enquanto um líquido ácido sobre o fio de cabelo dentro do caldeirão.

- Meu único amigo neste retorno é um aluno da Sonserina... - Helen não entendeu.

- Eu não teria tanta certeza... Pode me passar o frasco com asas de fadas, Harry? - Dumbledore pediu, desviando o assunto e deixando Helen intrigada.

- São asas de fadas de verdade? - Harry olhava com interesse os para as placas disformes, duras e acinzentadas guardadas dentro de um grande frasco de vidro.

- Estão desidratadas - e com um toque da varinha do diretor, uma delas se tornou maleável e multicor. Pequenas fagulhas brilhantes caíam conforme o bruxo de barba branca torcia aquela espécie de tecido mágico.

- Parece uma cola - Harry tinha a ponta do nariz quase dentro do caldeirão. Era a primeira vez que achava a preparação de uma poção realmente interessante. Até porque, ao contrário do cheiro desagradável da maioria delas, esta exalava um perfume indecifrável.

Enquanto isso Helen havia se sentado num dos degraus da sala, que parecia um anfiteatro. O comentário de Dumbledore não lhe saía da cabeça. Será que ele estava lhe dizendo que finalmente rompera a barreira? Iria confirmar suas suspeitas com o professor assim que Harry saísse daquela sala.

- Para finalizar, pigmentos de arco-íris. Muito cuidado para não colocar mais que uma pitada, Harry, ou sonhos podem tornar-se pesadelos...

O rapazinho ouviu aquelas palavras sem entender muito bem. Mas assim que adicionou o sétimo pó, Dumbledore pediu o Manifesto de Morgana a Helen:

- Na verdade acho que é você quem deveria finalizar a poção, Srta. Silver. Afinal, poucos conhecem esta história como você.

Ela olhou para dentro do caldeirão. Havia agora apenas uma calda transparente. Ela sorriu para Dumbledores e abriu o livro no capítulo em que havia parado no último encontro com Harry.

- Você ficou louca!!! - o menino puxou o livro das mãos dela ao vê-la arrancar meia dúzia de paginas e picá-las sobre o caldeirão, deixando que os pedaços amarelados do pergaminho se misturassem à calda transparente.

Foi então que Harry viu algo extraordinário acontecer. Cada um daqueles papéizinhos, tomava cor e forma e flutuava para borda do caldeirão. Cavalinhos, soldados, a torre de um castelo... Em cinco minutos, Harry viu aparecer uma miniatura de Camelot. Uma explosão e a masmorra não mais se parecia com o local onde Harry tinha aulas de poções. Na fileira mais alta, três cadeiras como as de um cinema trouxa tinham aparecido e, à sua frente, não havia uma simples tela de projeção de filmes, mas algo mais parecido com um teatro, com atores e cenários em terceira dimensão. Se quisesse, poderia entrar naquele campo de onde, ao longe, se via o castelo mais bonito de que Harry já tivera conhecimento.

- Vai ficar aí parado, Harry? - os bruxos mais velhos já tinham tomado assento e uma cadeira estava vaga entre Dumbledore e Helen.

O garoto se adiantou o tomou seu lugar, reparando que as figuras a sua frente estavam imóveis como estátuas

- Acho que podemos começar, Helen. - Dumbledore balançou a cabeça e a bruxa iniciou a narrativa.

Harry só conseguiu ouvir as primeiras palavras de Helen: "Era uma vez..." e então o cenário começou a se mover e como num filme, ou numa peça de teatro. Harry passou a assistir a vida dos bruxos durante o governo do Grande Rei Arthur Pendragon.

* * *

Snape avançava rumo à Floresta Proibida com cara de poucos amigos. Não que costumasse parecer mais amistoso normalmente, entretanto, Dumbledore lhe fizera um pedido um tanto inusitado, e na sua avaliação, bastante desagradável.

Na noite anterior, quando o diretor lhe confidenciou uma informação que poucos conheciam, ele se perguntou como não identificara aquilo antes. Eles eram sempre os piores alunos, ao menos os piores em todas as matérias onde a magia era realmente necessária. Como ele não percebera o quanto Neville Longbottom era parecido com Helen Silver?

Agora o garoto seguia atrás dele, com ar medroso. Snape não saberia dizer se Neville tinha mais medo dele ou do fato de estar indo para a Floresta Proibida. Qualquer que fosse, o professor de Poções sabia que o garoto só poderia ajudar a Ordem casa superasse seus medos, e Dumbledore queria matar dois coelhos com uma "varinhada" só.

De longe ambos viram a enorme silhueta de Hagrid. O gigante tinha chegado há pouco tempo e preparava-se para partir novamente em breve. Estavam cada vez mais próximos da florestas, como uivos e criquilares que soavam em seus ouvidos não se cansavam de alertar.

Com a voz embargada pelo medo, o garoto gorducho não conseguia dizer nada. Sentia cada músculo de seu corpo tremer e um soluço estava parado em sua garanta. Seguia atrás do professor como um cordeiro prestes a ser sacrificado. Pararam na borda direita da Floresta, de onde a cabana de Hagrid era mais visível. Pensou em correr para pedir ajuda ao gigante, mas depois teria que enfrentar a ira de Snape e isso pareceu muito pior do que as surpresas que a Floresta Proibida lhe reservava. Andava tão preso em seu próprio medo que não percebeu quando o professor parou de andar e tropeçou na capa negra e volumosa do bruxo.

Severo Snape revirou os olhos, prestes a perder a paciência. Não sabia quem tinha cumprido o ritual na vez de Helen, mas imaginou que a amiga era pelo menos mil vezes menos estúpida que Neville Longbottom. De que serviam seres elementares se não tinham capacidade nem para dominar suas próprias pernas? A vozinha aguda e irritada da amiga ecoou em sua cabeça "e você acha que eu gosto disso?", e olhou pela primeira vez com um sentimento entre dó e compaixão para seu aluno mais desastrado.

- Aqui está bom, Longbottom.

O rapazinho se levantou sem dar um pio ou levantar os olhos para encarar o mestre. Aquela submissão irritou Snape. Como poderiam confiar nele para levar a causa adiante? Um frio percorreu sua espinha quando pensou na vingança de Voldemort ao descobrir que o traía pela segunda vez. Ele também tinha medo.

- Vê aquela pedra? - ele tentou afastar os pensamentos.

Neville assentiu com a cabeça.

- Traga-a aqui. - ele ordenou.

Sem perguntar nada, o garoto deu dois passos a frente, até paralisar com um berro do professor:

- Seu idiota!!!! Isso é jeito de um bruxo pensar? Pra que é que sua avó lhe deu uma varinha?? Você seria um desapontamento para seus pais...

Então Snape apontou a varinha para a pedra, murmurou um feitiço e em segundos ela voava em direção do garoto. Teria quebrado a cabeça de Neville se ele, num improviso provocado pelo pânico, não dissesse um contra-feitiço, que, se não funcionara perfeitamente, evitara que ela o machucasse.

- Era para você congelar a pedra... - Snape contraiu as sobrancelhas. - Mas não foi de todo mal.

Foram se seguindo testes e mais testes, a maioria deles para verificar o poder de autodefesa de Neville. E a cada vez que se salvava, ele adquiria um pouco de confiança em si mesmo e em sua varinha. Embora não aparentasse estar satisfeito, o professor de Poções estava ao menos surpreso. Imaginava que o grifinório não conseguiria provar que esta habilitado a prestar o teste:

- É, me parece que você está pronto. - ele por fim baixou a varinha e encarou o garoto, que desviou o olhar, subitamente apavorado outra vez. Mas a coragem que lhe permitira fazer parte da Grifinória ainda estava lá em algum lugar. Reunindo todas as suas fortes, ele perguntou numa voz fraca e hesitante:

- Pr-pronto pra q-quê?

- Pra provar suas habilidades, Longbottom. Ou morrer tentando - e o professor adentrou pela floresta.

O sol finalmente dera lugar à lua e o local parecia ainda mais apavorante visto de perto. Arrependido de ter perguntado e segurando a vontade de correr de volta para o castelo, Neville Longbottom o seguiu.

* * *

- Snape?? - Black exclamou surpreso. - Você tem certeza de que é Snape, Carol?

- 77,8% de chances, Sirius.

- Então você pode ir calculando de quem são os 21,2% restantes, porque já dizia minha avó que caldeirão ruim não racha. E, além disso, livrar a comunidade bruxa de Severo Snape seria um favor.

- Sirius!!! Isso não é hora para criancinces! Severo pode ser assassinado esta noite e nós temos que impedir isso! - Carol ralhou com o colega de trabalho.

- Você tem certeza disso? - a voz de Fletcher se fez ouvir bem baixinha. Andava evitando falar com os companheiros desde que descobriram sobre o roubo da máscara de Ceridween.

- Isso, vamos deixar nossos aliados morrer! Quando estivermos sozinhos, sem chances de derrotar Você-Sabe-Quem talvez vocês pensem que Snape seria de alguma valia.

Os dois bruxos se entreolharam. Sabiam que Carol estava certa, mas a antipatia que ambos nutriam por Snape desde os tempos de escola os impedia de serem racionais.

- Eu não vou - Fletcher respondeu. - Nem que me oferecessem um caldeirão de galeões eu não arriscaria minha pele pelo Seboso Snape.

- Ninguém pensaria em pagar um traidor, Fletcher. - Carol deu o troco.

- Eu não sou um tra... - mas a bruxa não deixou ele terminar.

- E a Ordem conta com a boa vontade de seus membros. Por isso, se você não tem este espírito, não sei o que está fazendo aqui.

- Não pense que vou aceitar ordens suas, Carolyn Stuart! A única pessoa que pode pedir para que eu saia da Ordem é Dumbledore e ele ainda não fez isso...

- Não fez porque ainda não percebeu a cobra que colocou...

- CALEM A BOCA!!!!!!! - Sirius encerrou a discussão, fazendo os outros dois bruxos olharem perplexos para ele. Retomando a calma, ele continuou: - Fletcher, você vai para o Ministério da Magia buscar reforços. Tonks e o Shacklebolt mandaram um aviso de iam fazer plantão esta noite. A máscara de Ceridween desapareceu novamente.

- NÃO FUI EU!!!!!!! - Fletcher começou a se defender.

- É lógico que não foi você. Você passou a tarde comigo. - Sirius o acalmou. - Mas acho que temos uma boa idéia de quem está por trás disso.

- Malfoy! - Carol balbuciou.

- Tonks e Shacklebolt acham que o ladrão não conseguiu sair do Ministério com a máscara, por isso iam revistar todo o prédio durante a noite. Veja que tipo de reforço eles podem nos dar nessa tarefa, ok? Nós dois - ele disse voltando-se para Carol - vamos em busca de ação. Por mais que eu não ache que Severo Snape valha o esforço.

Em minutos os três tinham desaparatado do Observatório Radcliffe, fazendo com que Yuri Rasputin encontrasse uma sala deserta quando chegou com o pai àquele lugar.

* * *

- Mais pipoca, Harry? - Dumbledore ofereceu.

O garoto não ficava surpreso com o fato de aquele saco de pipocas nunca se esvaziar. Devia fazer umas duas horas que estavam ali e ele pensava que poderia ficar muito mais. História da Magia nunca fora tão interessante. Mas para seu desencanto, uma Morgana extremamente parecida com Helen - porém de cabelos compridos - olhava partir um Merlim de feições idênticas às do diretor de Hogwarts, terminando o relato do dia. Não vira Lancelote, nem Guinevere ou Arthur, mas achou um tal de Derfel, um dos homens do rei, bastante parecido com Remo Lupin, caso esse fosse mais jovem e carregasse menos cansaço no rosto.

- Continue. - ele pediu.

- Coloquei apenas seis folhas na poção. Não há como reproduzir além disso.

- E quando será a próxima aula? - ele olhou aflito para Helen, que parecia deliciada em ver sua narrativa transformada em tão belas imagens. Sua imaginação estava congelada diante dos olhos da bruxa.

- Amanhã. Se você tiver aprendido a poção, porque eu sou uma negação nessa matéria. - ressaltou, tirando um chiclete do bolso.

Sem dar atenção a resposta de Harry, ela mascou o chiclete e fez uma bola, que, ao estourar, aspirou todas as imagens que começavam a evaporar.

Considerando o término daquela aula, Harry se despediu dos dois "professores" e saiu da sala. Não tinha dez passos quando pensou que Mione adoraria aprender aquela poção e resolveu voltar para pedir permissão para ensiná-la à amiga. Abriu a porta devagar e então sua curiosidade o impediu de se anunciar. Helen e Dumbledore conversavam:

- Quando você falou sobre um amigo... Estava se referendo a Harry? Porque eu sinto que ele tem uma barreira contra mim, Dumbledore. Provavelmente é o sentimento de raiva que Lílian ainda tinha de mim na última vez que nos vimos... Talvez ela tenha transferido algo para ele... Ou talvez seja Sirius que andou fazendo a cabeça do garoto com toda essa birra que ele tem de mim...

- E você dele, não é mesmo? - ele piscou para ela. - Mas eu não estava falando de Harry. Também acho que vai levar algum tempo para ele confiar em você, mas não culpe Lílian ou Sirius pelas suas dificuldades, Helen.

Harry sorriu. Realmente havia algo nela que ele não gostava e ele sabia exatamente o que era: ela era uma sonserina. E se fora escolhida para aquela casa, era porque algo nela era parecido com Draco Malfoy e companhia. Sabia que esse era um motivo irracional para não se gostar de alguém, mas, enfim, não gostava dela. Tampouco desgostava, e sem dúvidas, aquele início de noite ela ganhara alguns pontos com ele.

- Mas se não é Harry... - Helen não conseguia pensar em outra pessoa.

- Neville Longbottom.

- O filho de Frank? Mas... eu ainda nem tentei falar com ele! - ela se admirou. Uma de suas tarefas era justamente treinar Neville que, como ela fora um dia, era um elementar.

- Pois não vai encontrar dificuldades nessa tarefa, Helen. Esta manhã a avó de Neville veio me procurar. Eu havia pedido que ela entregasse um antigo diário de Frank a Neville, o que significa que a essa altura ele sabe exatamente quem foi Helen Silver para o pai dele.

- Eu decepcionei tanto o Frank... - ela lamentou.

- Decepcionou? Ele exaltou tanto sua coragem em voltar para a Inglaterra para salvar os Potter que deixou Sophie louca de ciúmes. Nada que atrapalhasse o casamento e, tão pouco tempo depois...

Harry viu a bruxa fechar bem os olhos e lágrimas rolarem sobre seu rosto.

- Mas, bem... - ela enxugou o rosto molhado com as costas das mãos. - Isso não faz dele meu amigo.

- Aproveitando que a Sra. Longbottom estava aqui - Dumbledore continuou: - chamei Neville para conversar e foi então que ele disse que gostaria de conhecê-la, pois, com exceção dos gênios opostos, achava que você se parecia imensamente com ele.

- Ele não deve ter chegado à parte em que eu...

- Isso não tem a menor importância Helen, uma vez que você já se arrependeu. - ele olhou dentro dos olhos dela ao dizer essas palavras.

Helen fugiu daquele olhar inquisidor. Não sabia se tinha realmente se arrependido do que fizera à Rita Skeeter.

- Mais que conhecê-la, ele quer recuperar os pais, Helen, e nós sabemos que isso é possível.

- Será mesmo, Dumbledore? Quando Annie encontrou a reversão do feitiços para salvar Cameron, eu achei que em pouco tempo ele estaria de volta, exatamente como o conheci. Já se foram 20 anos!

- Se perdermos a esperança não teremos mais nada, Helen. E, graças a Merlim, Neville ainda tem muita esperança. Por isso, eu e a avó dele achamos que já era hora...

- Não! Vocês não... Dumbledore, ele ainda é uma criança!!!

- Voldemort está de volta, Helen! Não podemos mais esperar. - ele foi duro como poucas vezes Harry o tinha visto.

- Mas... Então me deixe prepará-lo.

- Ele já está no teste, Helen. Snape já o levou até a Floresta Proibida!

- VOCÊS ESTÃO LOUCOS!!!! VÃO MATAR O GAROTO!!!! O buraco-negro!!! - as imagens de uma noite debruçada sobre lunetas e telescópios veio à mente de Helen - Ele vai morrer, Dumbledore!!! Neville vai morrer!!! Você o enviou para a morte!! - ela acusou apavorada.

Ao ouvir aquelas palavras, Harry só tinha uma coisa em mente: salvar o amigo. Saiu correndo sem se importar com o barulho que a respiração e seus passos faziam no corredor. Isso o impediu de ouvir o resto da conversa.

- As estrelas não contam o futuro, Helen. Elas revelam o passado. Morgana errou muitas vezes por acreditar mais nas estrelas do que em si mesma. - o velho diretor tinha o mesmo ar austero do Merlin da imaginação de Helen.

A bruxa preferiu acreditar nas estrelas e, sem escutar nem mais uma palavra do diretor, correu desabalada até a saída mais próxima do castelo.

* * *

O vento gemia naquela noite escura e sem lua. A única luz em meio àquele emaranhado de folhas e troncos retorcidos saía da varinha de Severo Snape.

- Trace uma cruz coma ponta de sua varinha, Longbottom.

O garoto obedeceu. A mão tremia e as linhas saíam razoavelmente tortas. Snape olhou pra o trabalho mal feito e aponto a varinha para cada ponta da cruz. A cada rajada, uma fumaça de cor diferente surgiu e logo sumia, misturando-se com a névoa que vinha descendo conforme as horas avançavam.

- Escolha uma das pontas - o professor ordenou.

Neville apontou para uma qualquer sem entender porque fazia aquilo. No mesmo instante os galhos das árvores se fecharam em torno dele.

- Professor Snape!!!! - ele ganiu, sentindo a madeira retorcida quase estrangulá-lo.

- Terá que sair daí, Longbottom - uma voz distante soou. - E sem ajuda.

As poucas frestas entre os galhos iam sendo tomadas pela névoa, de modo que Neville tentou se virar para o lado de onde vinha o som da voz de Snape. Não sabia o que fizera para merecer aquilo, mas era procurar uma saída ou morrer. Ainda tinha sua varinha e, um pouco incrédulo, encostou a ponta dela com dificuldade no ramo mais próximo.

- Lumus!

Viu que não se tratava de um único galho, mas finos ramos que se entrelaçavam, dando a impressão de que eram uma coisa só. Poderia cortá-los, mas aquilo levaria uma eternidade. Sem uma idéia melhor, começou trabalho, dizendo baixinho para si mesmo:

- Seja paciente, Neville. Seja paciente.

Levou quase meia hora para conseguir cortar o amontoado de galhos. Para sua surpresa, ao concluir o serviço, os outros ramos se afrouxaram e enfim, sumiram. Conseguiu reconhecer a figura de Snape novamente a sua frente, apesar da densa neblina.

- Provou que é persistente, garoto. Vamos ver como se sai nos próximos testes. - e o professor mandou-o escolher uma nova extremidade da cruz.

Ao apontar para o destino escolhido, Neville viu a neblina se fechar totalmente, tornando impossível distinguir qualquer coisa:

- Professor Snape, o senhor está aí? - ele mordeu o lábio inferior, adivinhando que não teria resposta.

Não havia ameaças. Nem sons, nada que pudesse atemorizá-lo senão a sensação e que estava sozinho para o resto da eternidade. Precisava pensar numa saída. O que deveria fazer?

* * *

Harry quase topara com Filch perto da saída do castelo. Somente quando ouviu o ronronar de Madame Nor-r-ra percebeu que estava pondo tudo a perder com aquela falta de cautela. Se ao menos tivesse passado em seu dormitório para pegar a capa da invisibilidade...

- Harry! - uma voz murmurou próxima ao seu ouvido esquerdo.

Ele se virou rapidamente e o braço esquerdo encontrou uma resist6encia, apesar de não haver ninguém a sua frente. Não teve tempo para raciocinar antes que Rony o puxasse para debaixo da mesma capa em que estivera pensando.

- O que vocês estão fazendo aqui? - ele esqueceu-se momentaneamente de que tinha que ser discreto.

- Shiuu! - Hermione pôs o dedo na boca do garoto. - Quer que Filch nos achem.

- O que vocês dois estão fazendo coma MINHA capa? - ele perguntou irritado, mas num tom quase inaudível.

- Viemos te procurar!!! - Hermione explicou num tom ainda mais baixo. Já são quase 10 horas.

- E sabemos que você não teve aulas de reforço, porque Snape foi até a Torre da Grifinória buscar o Neville, por volta das seis horas da tarde! - Rony acrescentou, exibindo a mesma cara zangada de Harry há pouco.

- Er... nós tivemos aulas juntos hoje! Você tinha falado sobre o Neville mais cedo e eu fui idiota o suficiente pra perguntar porque eu tinha que fazer reforço e o Neville não... - ele inventou na hora.

- Você não acha que nós vamos acreditar nisso, né? - Hermione deu um sorriso cínico. - Onde você estava indo?

- Eu estou falandoa verdade e agora... Bem, agora eu estava indo visitar o Hagrid!

- Que interessante! - Rony balançou a cabeça - Estou com saudades do Hagrid também, você não está, Mione?

- Claro! - ela sorriu novamente. - vamos todos!

- NÃO!!! - ele deixou a voz um pouco alta demais, por sorte, Filch e Madame Nor-r-ra já tinham ido embora.

- Harry Potter!! Ou você deixa a gente ir com você ou eu, como monitora-chefe, irei agora mesmo na sala da MacGonnagall relatar que você está perambulando pelo castelo. E eu sou capaz de inventar uma barbaridade extraordinária capaz de fazer você ser expulso.

- Você não faria isso, Mione! - Rony fez muxoxo.

- Não duvide de mim, Ronald Weasley! - ela foi enfática e os dois garotos se entreolharam.

- Pensando bem... melhor fazer o que ela tá falando, Harry.

- Muito bem. Vocês querem ir juntos. Então nós iremos. Estou indo para a Floresta Proibida!

- Você o que? - Rony ficou branco de repente.

- Neville está lá. E eu ouvi uma conversa de que vão matá-lo. E eu não vou deixar isso acontecer. Vocês podem voltar pra torre. Vai ser pra lá de arriscado e...

- NÓS VAMOS!!! - Hermione disse isso e olhou para Rony.

O ruivinho só balançou a cabeça confirmando. Sua voz não saía, com certeza apavorada com a lembrança de Aragogue.

* * *

- Eu não consigo me conformar!! Hogwarts!!! Esse é o lugar mais seguro do mundo!! Ele não poderia atacar o castelo...

Carol parecia uma maluca enquanto atravessava a ponte que ligava Hogsmead aos terrenos de Hogwarts conversando com um cachorro. Sirius esquadrinhava cada centímetro do caminho com o focinho, em busca de alguma pista que identificasse a provável localização de Snape. Mas foram os olhos azuis de Carol que avistaram a estranha névoa que circundava a Floresta Proibida.

- Sirius... - ela indicou o local com a cabeça e passou a caminhar para lá.

A Floresta Proibida era o único local de Hogwarts que não estava protegida com magia anti-trouxas, simplesmente porque já reunia magia demais num só lugar. Além de que, nenhum trouxa entraria naquele local e sairia vivo para contar a história. Até mesmo entre os bruxos, o temor daquele lugar era imenso.

- Acho melhor esperarmos aqui - ela parou de repente. - Esperar ajuda.

Vendo a hesitação da acompanhante Sirius se transformou novamente num homem.

- Conheço aquela Floresta como poucos, Carol. Não há o que temer enquanto estiver comigo.

- Não em leve a mal, Sirius. Mas não tenho boas recordações desse local. - ela continuava paralisada.

- Não foi você quem disse que tínhamos que ajudar nossos aliados? - ele achou tempo para aporrinhá-la.

- Estou começando a achar que Snape não é assim um aliado tão importante. - ela não teve medo de dizer.

- Já disse que você não tem o que temer, Carol. Conheço essas árvores como a palma da minha mão.

- Ai, meu Merlim!! - o rosto de Carol exibia terror absoluto. - A-aquele não é o Harry?

Sirius olhou na mesma direção que ela vendo o último integrante do trio aparecer do nada. "A capa de Tiago", pensou e rapidamente se tornara um cachorro correndo a toda na direção dos garotos, que estavam entrando na Floresta Proibida.

O que ele não havia visto é que outra pessoa corria desenfreadamente. O choque foi inevitável. O enorme cão negro foi jogado a um metro de distância, enquanto o corpo de uma garota rolava pela grama mal aparada.

Sem saber quem acudir primeiro, Carol correu até o local do choque e ficou olhando primeiro para Sirius, que já estava se destransformando outra vez.

- Ai, minha cabeça!! - a voz feminina chamou a atenção da bruxa negra.

- Mas... Então você é a filha da Helen? - ela olhava aparvalhada a figura da jovem que agora tinha se sentado

- Helen... - Sirius andou cauteloso até ela, o coração disparado.

- A filha dela, Sirius! - disse sem tirar os olhos da menina. - Vocês duas são realmente idênticas!

- Não me diga que foi em você que eu tropecei? - ela perguntou irritada para Sirius. - Que coisa óbvia!! Se alguém pode atrapalhar a sua vida, esse alguém tem que ser Sirius Black!

- Ei, eu não tenho culpa que você estava correndo feito uma maluca!! - ele esqueceu qualquer ponta de ternura em reencontrá-la. Odiava-a.

- O que vocês dois estão fazendo aqui?

- Ei, isso não é jeito de falar com seu... hã... pai! - Carol tentou defender Sirius.

- PAI?!? - os dois retrucaram de imediato. Mas foi o comentário seguinte de Helen que despertou a fúria de Sirus. - Não seja ridícula! Eu? Filha dele?

- Ela nunca poderia ser minha filha com Helen, Carol. - ele disse em tom amargo: - Simplesmente porque ela É a própria Helen.

Carol ficara chocada com a revelação.

- Muito obrigada, Sirius. Você guarda segredos com perfeição! - a outra retrucou sarcástica. - Agora me digam o que estão fazendo aqui! - disse retirando o anel do dedo.

- Entao você... - carol finalmente conseguiu dizer alguma cosa.

- Você ouviu o seu amigo. Agora me respondam. Não tenho tempo a perder com vocês dois e muito menos quero que vocês me atrapalhem.

- Te atrapalhar? Oh, não milady, sem dúvida essa não era nossa intenção - Sirius exibia um sorriso de deboche.

- Parem de picuinhas vocês dois. Viemos impedir o assassinato de que falamos na ultima reunião, Helen. - Carol encerrou a disputa.

O semblante da sonserina mudou de repente, cheio de ódio e desprezo:

- Foi Dumbledore quem o enviou para morte, Carol. Imagino que ele não está se importando com os riscos. Não ia querer sua imaculada Ordem preocupada com algo tão insignificante.

- Não seja estúpida, Helen. Se tem alguém que se preocupa com o idiota do Snape é Dumbledore - Sirus retrucou irritado, cada vez com menos disposição para executar sua tarefa. - E se quer mesmo saber, estou pouco me importando com ele. Mas Harry está lá dentro, e a Floresta é perigosa com ou sem previsões de assassinatos. - se transformou num cachorro e continuou seu caminho, deixando as duas bruxas sozinhas.

- Ele ficou doido? Harry está no castelo!

- Não está, não. Acabamos de vê-lo entrando com dois amiguinhos na Floresta.

- O que nós estamos esperando então? Temos que ajudá-los! - e Helen disparou a correr outra vez, com Carol em seu encalço

- E o que ele quis dizer com Snape, Stuart? - ela gritou

- É Snape quem vai morrer, Helen. Achei que você soubesse.

- Meu Merlim, como eu fui idiota! - e se deu um tapa na testa. - Mas é claro que é Snape! O buraco negro é na constelação de Serpente! Eu sei exatamente quem vai querer matá-lo - comentou numa voz mais baixa, acelerando a velocidade da corrida.

As duas entraram na floresta receosas. A última vez em que ambas estiveram ali não lhes trazia boas recordações, mas não podiam se acovardar. A neblina densa tomava conta da floresta e foi com dificuldade que as duas avistaram um ponto cintilante metros a frente delas.

- Um unicórnio? - Carol perguntou, enquanto avançavam em direção aquele fio de luz perdido no breu.

- Não, me parece... Eros!

A bola de pêlos saltitou até a dona, miando esganiçadamente.

- Stuart, eu tive uma idéia. Mas vou precisar da sua ajuda.

* * *

Desanimado com tanta neblina, Neville se sentou sobre um emaranhado de raízes, lágrimas escorrendo dos olhos. Iria ficar ali para sempre, sozinho e esquecido. As lágrimas escorriam sem eu rosto e uma, a uma iam se alojar no chão escuro, como se cada um daqueles pontinhos fosse uma estrela numa constelação.

- Se ao menos eu pudesse me guiar pelas estrelas, mas com essa névoa estúpida - disse para si mesmo, enquanto olhava o desenho na terra e um vento frio e estranho, soprou-lhe a nuca.

Pensou que estivesse imaginando coisas, mas, ao olhar para cima, viu que o céu aparecia límpido, com todas as suas estrelas faiscando. A sua frente, a neblina continuava, mas acima de sua cabeça o caminho era perfeitamente visível. Concentrou-se resolveu que o castelo ficava ao sul da floresta, então era para lá que deveria seguir. Com os olhos presos na Ursa Maior, Neville caminhou, até perceber que a névoa ia perdendo a densidade. Quase meia hora de caminhada depois, ele ouviu uma voz que o fez voltar a olhar para o chão.

- Segunda tarefa cumprida, Longbottom. - era Snape. - Quem diria que existe alguma coisa nessa sua cabeça oca! Além de pensar em olhar para as estrelas conseguiu se guiar por elas!

Neville nada respondeu. Ficou olhando para a cruz no chão que tinha feito com a varinha. Agora só havia mais duas tarefas, mas antes que pudesse escolher, ouviu um berro:

- SOCOOOOOOOOOOOOOOOORRO!!!!

Era claramente a voz de Rony Weasley e o rapazinho gorducho não pensou duas vezes antes de correr para o local do perigo. Antes de seguir atrás dele, Snape tocou uma das pontas da cruz.

- Agora vejamos se é corajoso ou imprudente... - e, a passos lentos, dirigiu-se ao mesmo lugar.

* * *

- Harry! Harry! Harryyyyyyyyyyyyyyyyyyy! - os gritos de Sirius ecoavam pela mata e seus olhos pulavam de uma árvore para outra, tentando adivinhar atrás de qual delas surgiria algum inimigo.

Resolveu que seria mais fácil executar aquela busca transformado em cachorro, pois o faro de um cão é muito mais potente que o do homem. A confusão de cheiros e aromas, tornavam a busca mais difícil, mas ele acabou conseguindo farejar o perfume doce que Hermione Granger costumava usar.

Pista errada. Seguindo o aroma, dera num jardim repleto de gardênias e margaridas, sob cujas pétalas se escondiam pequenas fadas mordentes. Desavisado, levou uma forte mordida de uma delas e soltou um ganido alto de dor. Quase em seguida, ouviu uma voz gritar não muito ao longe:

- SOCOOOOOOOOOOOOOOORRO!

Seguiu a orientação do grito que poderia jurar que era de Rony Weasley. E não estava errado. Uma centopéia gigante e bastante assustadora, segurava o garoto ruivo pelas pernas com as antenas, tentando abocanhá-lo desajeitadamente. Com certeza nunca tivera um petisco tão rebelde pois o garoto não parava de se mexer. Ao lado do corpo, dois pares de patas mantinham Harry e Hermione imobilizados.

Agindo por impulso, o bruxo arreganhou os dentes e pulou para cima do monstro, apertando a carne viscosa entre os dentes. Tudo em vão. Logo dois pares de patas tinham-no imobilizado como aos garotos.

- Neville?! - Rony, o único que estava coma boca desimpedida, exclamou incrédulo.

O garoto estava paralisado e perplexo. Teria que enfrentar aquilo? Preferia os testes a que Snape o estava submetendo. Mas não podia largar seus amigos ali. O que o pai pensaria dele quando finalmente voltasse a si e saísse de St. Mungus. Em meio a esse borbulhão de pensamentos a lesma de 100 patas avançou e usou Rony para derrubar o garoto.

- Me desculpa, Neville! - o rosto de Rony estava inchado de tanto chorar.

Ainda sentado o garoto puxou a varinha de um dos bolsos e apontou para Rony". "Se eu mirar no rony e não na centopéia..."

- Neville, o que você tá fazendo? NÃO!!! - e tentando fugir da rajada, Rony se balançou com tanta força que a centopéia acabou por soltá-lo.

- VOCÊ TENTOU EM MATAR!! - ele arregalou os olhos para Neville.

E então uma rajada passou pra cima da cabeça dos dois garotos. Snape estava atacando o bicho.

- Cada um de você mire numa das patas que estão segurando seus amigos. Harry e Mione caíram no chão e logo correram para longe.

Afastem-se todos. Vai haver uma explosão e entranhas de centopéias são venenosas

- Sirius! - Harry gritou, ao ouvir um ganido. Não tinha visto Sirius atacar o monstro.

- Alguém tem que se sacrificar Afastem-se.

- NÃO! - e além de Harry, Neville saiu de onde estavam e se pôs a atacar o bicho. Rony e Hermione se entreolharam e correram atrás dos outros dois meninos.

- Seus idiotas! - Snape estava perdendo o controle. - Se não dermos cabo da via desse animal agora...

- Severo, severo. Nunca lhe ensinaram que não se deve fazer mal a um pobre animalzinho?

- Pobre animalzinho? - Rony Weasley olhou para o lugar de onde vinha a voz, assim como Snape.

- Helen! - o mais velho identificou duas bruxas e um gato cintilante logo atrás do monstro.

- Quando eu disser três todos apontem suas varinhas e digam "Petrificus Totallus" - agora era Carol quem ordenava. - Um... dois... TRÊS!!

O brilho que foi emitido com a junção de tantos feitiços ao mesmo tempo podia ser visto do castelo. Mas só assim conseguiriam a força necessária para paralisar a criatura. Sirius também acabou paralisado, o que dificultou um pouco a retirada do cão das patas afiadas da centopéia por Carol, Harry e Rony.

- Vamos sair daqui - a ex-corvinal ordenou e Neville indicou a trilha por onde tinha vindo. Snape deixou-se ficar para trás para conversar com Helen.

- Dumbledore a mandou aqui?

Ela não respondeu. Tinha o olhar parado no ar e apenas seguia o resto do grupo.

- Helen! Não vai mais falar comigo agora? - ele esbravejou, mas ela continuava com a mesma feição distante e inabalável.

Snape ouviu uma risada baixa e olhou para Hermione, jurando que era ela quem debochava dele. Mas a garota estava bem à frente, conversando entusiasmada com Neville. Olhou desconfiado para os lados, mas todo o que viu fora o velho gato de Helen sumindo numa sombra. Irritado e magoado coma falta de resposta, tomou a frente do grupo e, quando chegaram ao local onde há pouco ele aplicava os testes em Neville, puxou o garoto.

- Onde pensa que vai? Ainda não acabamos!

Ele mordeu os lábios, perdendo o ar contente e cansado da vitória de minutos atrás.

- Ele vai conosco! - Harry se colocou entre Snape e Neville.

- E você também! - Carol disse firme para Snape.

- Vocês quase atrapalharam tudo. Sumam daqui e me deixem terminar meu serviço. - Severo parecia mais amargo do que nunca.

Harry colocou um Sirius petrificado no chão e tirou a varinha do bolso.

- Você não vai matá-lo - apontando-a para Snape. Ao olhar para os lados viu que Hermione e Rony também tinham os semblantes raivosos e as varinhas em posição de ataque.

- É lógico que Snape não vai matar Neville! - Carol arregalou os olhos, espantada. - De onde vocês tiraram essa idéia.

- Eu ouvi ela dizer a Dumbledore - apontando com a mão livre para Helen, sem tirar os olhos de Snape.

Carol e Snape olharam para a bruxa, que estava de pé, com o olhar no anda, pouco atrás de Snape. Mas antes que pudessem perguntar algo a ela, Neville empurrou Harry, e apontou a varinha para Snape:

- Ele não vai me matar! Avada Kevrada!

Entre os gritos de desespero de Carol e Hermione e as expressões exasperadas de Rony e Harry, o jato verde de magia passou raspando a orelha de Snape, que fora derrubado pelo peso do cachorro negro. Enquanto Sirius salvava Snape, um gato prateado tirava a varinha das mãos de Neville. Tarde demais.

Helen tinha sido atingida.