Capítulo 9 – A Malvada


Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra.

Toada do Amor, Drummond


– O que nós viemos fazer aqui, pai? Não tem ninguém!

Os olhos negros de Yuri revistavam cada canto do observatório Radcliffe. Lunetas e telescópios de todos os tipos dividiam espaço com aparelho colossal, um tanto velho e cheio de ferrugem que lhe dava a impressão de estar inutilizado.

Dmitri não sabia o que responder ao filho caçula. Só sabia que sentira uma dor forte no peito, como um aviso. Toda a convivência com o mundo mágico nos últimos tempos acabara lhe dando a idéia de que a causa de mau pressentimento pudesse estar escrita nas estrelas, mas sem Carol ou Sirius por ali para traduzir o que observava no céu, aquela tentativa seria inútil. Sua única alternativa foi sentar-se no chão e tentar segurar o sentimento de impotência contra o mundo.

O garoto continuava a perambular pela sala, sem se preocupar com a resposta do pai. Perguntara apenas por perguntar. Estava fascinado pelo monstro enferrujado a sua frente, justamente ele que sempre achara a astronomia tediosa.

– Ainda funciona? – perguntou colocando o olho direito junto ao visor do enorme telescópio plantado bem no centro da sala circular. – Pelo visto não... Está tudo escuro! – respondeu para si mesmo, um tanto decepcionado.

– Abrir o teto ajuda, sabia? – Dmítri havia se levantado e estava ao lado da entrada, onde inúmeros botões coloridos se dispunham simetricamente em duas fileiras paralelas.

O astrônomo pressionou um dos botões e se aproximou do filho, que estava novamente com os olhos grudados no aparelho. O teto arredondado começou a se abrir e as lentes se projetaram para o céu de Oxford. Yuri agora viajava por entre as estrelas do universo que pareciam muito mais bonitas e coloridas do que ele jamais supôs que pudessem ser.

Dmítri acariciou os cabelos espetados do filho de leve, ainda retendo algumas lágrimas que insistiam em querer sair. Então se lembrou das observações que fizera alguns dias atrás, em que tudo apontava para a morte de uma estrela. Mais um buraco negro, repleto de mistérios e nebulosas, viria a ocupar um vazio deixado o espaço.

– Eu... não entendo... o que está acontecendo, pai? – Yuri se afastou um pouco e pediu para que o pai observasse.

Imediatamente um sorriso surpreso se formou nos lábios de Dmítri. A natureza sabia exatamente o que fazia. Por trás da névoa provocada pela explosão, que aos poucos se dissipava, era possível ver uma luz, ainda distante e pequenina: dos restos da primeira, uma nova estrela nascia na constelação de Serpente. O coração do astrônomo voltava a bater no compasso rotineiro.

– Emily! Emily! Acorda, Emily!

Lyra sacudia a amiga, desesperada.

– Lyra! – ela bocejou e piscou os olhos melados de sono. – Ainda é noite! – disse virando-se para o outro lado, após dar uma olhada rápida para as janelas.

– Emily, por favor! – ela implorou mais uma vez.

– Você.. você está chorando, Lyra – a outra despertou de vez ao ouvir o primeiro soluço.

– Eu.. eu não sei explicar, mas aconteceu algo horrível! Eu tive um sonho.. Eu...

– Calma! – Emily abraçou a amiga, que chorava baixinho, preocupada em não acordar mais ninguém. – fique calma! Foi só um sonho ruim. Tente não lembrar...

– Eu não CONSIGO lembrar! – ela parecia ainda mais desesperada. – Por mais que eu tente, eu não consigo. Só fica essa sensação ruim... essa...

As lágrimas escorriam abundantes no rosto pálido e assustado da menina de 11 anos.

– Eu já sei do que você precisa – Emily levantou decidida e foi até seu baú, ao pé da cama.

Depois de tirar uma capa para si, foi até o baú da amiga e pegou uma para ela:

– Uma capa? – Lyra não entendeu.

– Vamos até a cozinha. Estava comentando sobre infusões calmantes com o Ben dias atrás e ele me disse que os trouxas sempre faziam chá quando havia alguém muito agitado na casa. A poção seria mais eficiente, mas não temos nem metade dos ingredientes necessários.

Meio a contragosto, Lyra vestiu a capa e desceu as escadas com a amiga, tentando soluçar menos para não chamar a atenção de ninguém. Quando estavam quase fora da sala comunal, porém, foi Emily quem provocou bastante barulho derrubando uma armadura de cavaleiro.

– Quem está aí? – uma voz meio desconfiada, meio assustada perguntou do fundo da sala, curiosamente, o mesmo lugar para onde Emily estava olhando atônita.

– Turpin? – Lyra perguntou, com a voz ainda trêmula do choro.

– Vocês? – Michael levantou a cabeça por detrás de uma poltrona. – Pode levantar, Alice. São só duas calouras...

– Só duas calouras? – Lyra viu a cabeça de uma garota loura do terceiro ano aparecer. – Com esse barulhão todo que elas fizeram, daqui a pouco teremos uma multidão aqui embaixo. Vou subir pro meu dormitório antes que alguém possa perceber alguma coisa!

– Mas Alice... – ele tentou argumentar, mas a garota não deu ouvidos: – Humf! Obrigado por estragarem tudo! – ele estava realmente aborrecido.

Nenhuma das duas garotas respondeu nada, mas Lyra sentia que seu rosto estava fervendo. Sentiu então a mão gelada de Emily lhe puxar.

– Onde vocês pensam que vão? – o garoto do terceiro ano se intrometeu, ao vê-las saindo da sala comunal para o interior do castelo. – Não cansou da detenção passada, não, russinha?

– Não é da sua conta! – Lyra não se agüentou e bateu a porta com toda a força.

Emily estava muda desde que derrubara a tal armadura e continuou assim até que ambas chegaram à cozinha. Ter um irmão mais velho, fazia com que Emily conhecesse alguns segredos da escola, como a localização da cozinha. Havia poucos elfos acordados àquela hora, mas apenas um bastaria para ajudá-las a preparar um bule de chá.

Sentaram-se numa das mesas e bebericaram o líquido devagar, desprezando as apetitosas bolachas que um dos elfos colocara sobre a mesa.

– O que ele estava fazendo com ela? – Emily comentou com a voz amarga.

Só então Lyra notou que o rosto da amiga também estava inchado e os olhos pareciam vermelhos. Pelo visto ela chorara silenciosamente por todo o caminho.

– Turpin? – ela arriscou, sentindo a dor em seu peito ficar mais forte.

– Ela... Ela é uma metida! – e Emily bateu a xícara de chá na mesa.

Enquanto Lyra já havia tomado duas xícaras do líquido quente, Emily parecia não ter engolido uma gota sequer. O recipiente continuava cheio até a borda. Esquecida do porque tinha descido até ali, começou a desabafar:

– Eu... Eu achava que ele gostava de você. – ela admitiu sem olhar nos olhos de Lyra. – E cheguei a ter raiva do jeito como você tratava ele. Parecia tudo tão claro. Você estava desprezando o cara mais lindo e legal de toda a Corvinal, Lyra! Se eu tivesse uma migalha da atenção que ele dava a você...

– Emily... – a russinha não sabia o que dizer. Michael? Gostando dela?

– Mas eu estava enganada e você estava certa. Ele é mesmo um idiota! Pois só um idiota namoraria aquela metida da Alice Cleverland – e os olhos da sardentinha se encheram d'água novamente.

– Na-namorando? – e finalmente Lyra entendeu porque a armadura caíra. Emily devia ter visto os dois juntos e derrubara-a de propósito para atrapalhar o casal.

– E você viu como ele se referiu à nós? Duas calouras! Como se nós não tivéssemos nome! Como se não fôssemos ninguém...

A russinha ficou muda. E olhou para o chá. Pelo visto aquilo não adiantaria muita coisa. O vazio dentro dela só aumentava enquanto a amiga colocava pra fora todo o ressentimento que tinha de Michael Turpin. De repente, uma idéia se instalou em sua cabeça e sem explicar nada a Emily, saiu correndo da cozinha.

Não se importava em ser pega, ou levar uma detenção. Tinha que chegar à Sala de Astronomia o mais rápido possível. Algo lhe dizia que ali encontraria as respostas que queria. Tão concentrada nessa tarefa, não reparou que estava sendo seguida.

A Torre onde tinham aulas de astronomia estava vazia, apesar de todas as aulas serem ministradas durante a noite. Lyra olhou as lunetas uma a uma, tentando escolher qual deveria usar e pra onde deveria apontar. Primeiro pensou em visualizar a constelação que levava seu nome, mas de súbito mudou de idéia, e começou a procurar a constelação de serpente.

– Você está realmente empenhada em arrumar encrenca hoje, hein?

O susto fez com que Lyra deixasse a luneta cair e a lente se espatifasse no chão. Michael Turpin olhava todos os cantos da sala de Astronomia de braços cruzados.

– O que você está fazendo aqui? – o semblante denotava a surpresa da menina.

– Vocês estavam esquisitas... Hum... Eu não queria deixar sua amiga mal, mas... A gente não manda no coração, sabe como é...

– Você ouviu nossa conversa? – ela voltava a ter a raiva costumeira que sentia quando o via.

– Não foi proposital! Quer dizer, foi, mas... Eu estava preocupado com você.. vocês. Depois daquele barulhão todo... Com certeza o Filch devia estar por perto.

– Não estava. – ela respondeu rabugenta e abaixou para tentar consertar a luneta, dando investidas inúteis com a varinha.

– Reparo. – Michael atingiu a luneta à distância: – Por que você veio pra cá?

Ela continuou muda. Por que aquele garoto estava sempre querendo se meter na vida dela? Já tinha ajudado uma vez, mas isso não lhe dava o direito de se intrometer sempre que quisesse. Ainda mais depois daquela noite.

Sem responder nada ela virou a luneta que acabara de ser consertada para uma das janelas enormes da sala. Em meio a uma névoa, um brilho fraco teimava em se fazer notar. E assim, sem nem entender o porque, a menina sentiu seu coração abrandar e a sensação ruim em seu peito desaparecer. Guardou a luneta onde a pegara e, sob o olhar curioso de Michael, deixou a sala, com um sorriso bobo e calmo nos lábios. Não havia motivos para se preocupar.


– Pelas barbas de Merlim, Sirius! Agora eu sou culpada porque vocês dois se precipitam a tirar conclusões?

Severo Snape e Sirius Black encaravam o gato de pelugem prateada com olhares ferozes. Carol bocejava sentada numa das macas da ala hospitalar, onde Madame Pomfrey cuidava do corpo aparentemente inerte de Helen Silver.

– Lógico! Porque deve ter sido muito engraçado para vocês duas fazerem a gente de bobo!

– Ah, isso eu sempre achei que vocês fossem mesmo... – Carol debochou, cansada de tanta tempestade em copo d'água.

– Eu gostei da idéia! – Tonks parou de examinar os vidros de poções medicamentosas para dar um palpite. – Além de que, se vocês soubessem...

– Se nós soubéssemos, um bocado de preocupação desnecessária teria sido evitada. – Snape resmungou irritado como nunca.

Eros pulou da prateleira onde se encontrava e caminhou em seu passo manso até Madame Pomfrey. Num salto, colocou-se sobre a maca onde o corpo pequeno e franzino de Helen estava estirado, os olhos aparentando extremo horror.

– Quanto tempo vai levar, Madame Pomfrey? Ele não vai sair com nenhuma seqüela, não é mesmo? – o gato perguntou.

– Seqüela? Acho que não. Afinal gatos tem sete vidas... – a enfermeira respondeu com naturalidade.

– Na verdade acho que Eros só tem mais umas três... – o gato tentou coçar a nuca com uma das patas, sem sucesso.

– Amanhã pela manhã, terá seu corpo de volta. Mas não tente realizar a troca antes de eu dar o aval ou todo o esforço terá ido por água a baixo.

– E o garoto, Madame Pomfrey? – Shackelbolt olhava para uma das macas onde Neville descansava sob a ação de uma poção do sono.

– Vai ficar bem. Só estava agitado... Quem não ficaria, após pensar que matou alguém?

– Eu disse a Dumbledore que ele ainda não estava pronto... – o gato se remexeu, incomodado.

– Realizou todas as tarefas. E passou no teste – Snape respondeu com ar carrancudo de onde estava.

Todos pareciam bastante abatidos naquela sala. Snape acabara de ser vítima de uma tentativa de assassinato. Sirius não perdera o ar tenso e irritado com o pequeno passeio até a torre da Grifinória na escolta de Harry, Hermione e Rony. Tonks e Shacklebolt acumulavam o cansaço das buscas no Ministério com todo o rebuliço formado pela morte que nunca aconteceu. Fletcher dormia encostado a uma parede, alheio a tudo. O cansaço de Carol e da própria Helen era diferente: estavam exaustas de tanto ouvir Sirius e Snape se queixarem de que elas os tinham enganado.

Foi por isso que Tonks procurou um momento em que todos estivesse mais preocupados em remoer as próprias lembranças para se aproximar de Carol:

– Sei que isso vai ser chato, mas será que você poderia repetir a história para mim em detalhes? Irei monitorar o treinamento de metamorfomagia dos novos aurores no próximo semestre e, adorei o recurso que vocês usaram, é bem interessante pra quem não consegue se transformar sozinho, entende?

– Vamos dar uma volta e eu lhe conto, Tonks! Se Sirius olhar mais uma vez pra mim com essa cara de "o que você fez foi imperdoável" quem vai querer trocar de lugar com um gato aqui sou eu! Mas eu não vou usar um shadowcat não! Vou querer uma onça bem grande e faminta! – e bruxa começou a sair da sala.

Após dois corredores de silêncio, Carol perguntou:

– O que exatamente você quer saber?

– Tudo! – a auror sorriu. – desde o começo.

– Muito bem. Tudo começou...


– Como assim, trocar de lugar com seu gato?

– Por favor, Carol, se eu conseguisse fazer isso sozinha não pediria sua ajuda!

– Mas Helen, eu não consigo ver a utilidade desta troca!

– Muito bem, nós vamos perder algum tempo mas eu vou te explicar. Como você sabe, eu era uma elementar...

– Achei que fosse alguma novidade...

Num tom de voz aborrecido, Helen continuou:

– Acontece que para se ter certeza de que um bruxo ou bruxa é um elementar, ele tem que passar por uma provação, mais ou menos como vocês quatro tiveram que provar que eram realmente membros de suas casas. Só que o elementar tem que provar que é de todas elas!

– Onde você quer chegar com isso?

– Esta noite, Snape trouxe um garoto para realizar esse teste. Se ele estiver apto, os espíritos de cada uma da casas irão agir através dele, entende? Não é ele quem fará o feitiço, mas esses espíritos, até porque, os elementares normalmente não conseguem fazer nada muito bem sozinhos.

– E... – eu ainda não sabia onde Helen queria chegar.

– E aí que no meu teste eu tentei matar minha tia quando estava sob o domínio de Slytherin. – ela concluiu baixinho: – e acho que Neville pode tentar fazer a mesma coisa com Snape.

– O garoto não seria capaz...

– Não é ele, Carol! É Slytherin quem faz isso. Temos que obedecer... É mais ou menos assim: a maior ambição de qualquer pessoa é superar algo ou alguém. É mostrar que você é imbatível, que é melhor que o outro. E a forma mais rápida de se fazer isso, é matando esse outro. Neville, sozinho, não poderia fazer um feitiço tão potente como o Avada, mas sob a influência de Slytherin...

– E o que seu gato tem a ver com isso?

– As estrelas disseram que alguém da Sonserina morre hoje, não foi? Pois eu serei esse alguém!

– Ficou louca?

– Não. Porque se eu trocar de lugar com meu gato, eu não irei morrer de verdade. Trocando de lugar com Eros, eu ganho sete vidas... Ou quatro, porque ele já andou perdendo algumas...

– E como você vai fazer para ele atingir você e não o Snape?

– Isso nós veremos depois...

Eu fiz o feitiço de troca. Não é nada muito complicado e Helen sabe explicar bem esse tipo de coisa. É até estranho que ela não se saia bem na realização, pois ela se atém a tantos detalhes quando está explicando... Pouco depois da troca concluída, ouvimos um pedido de socorro e corremos para o lugar de onde vinha aquele grito. Um monstro horrível, parecido com uma centopéia gigante.

Pedimos a Eros, já no corpo de Helen, que ficasse parado num canto e não saísse dali. O bichinho é bem obediente e não nos atrapalhou. Entretanto, pouco depois, Neville foi realmente tomado pelo espírito de Slytherin, sem que eu ou Helen conseguíssemos pensar em nada para distraí-lo de seu objetivo. Helen até tentou arrancar a varinha da mão do garoto, mas ele já tinha lançado o feitiço. Graças a Merlim, Sirius acabou salvando Snape, e por obra do acaso, Eros, acabou sendo atingido, cumprindo a tarefa do garoto. O que nós não pensamos antes, foi na reação de todos diante daquela "morte".

– Helen! Helen! Pelo amor de Merlim e dos deuses trouxas, fale comigo, Helen!

Assim que viu a mulher cair estatelada no chão, inerte, Snape ajoelhou-se ao lado dela, implorando por uma reação. Sirius, de volta a sua forma de buxo, olhava sem acreditar no que tinha acontecido. Ele tinha salvo Snape e deixado que matassem Helen?

Mais apavoradas estavam as "crianças". Hermione, Harry e Rony evitavam olhar para Neville, sem saber o que fazer. O menino, por sua vez, olhava para o gato prateado com a varinha na boca, procurando consolo. Ele não tinha feito aquilo, mas quem iria acreditar?

O gato acreditava, e largou a varinha de lado e começou a lamber o rosto do garoto. Sentindo-se mais infeliz do que nunca, Neville pegou o bichinho no colo e se pôs a acariciar seu pêlo. Os olhos tristes e perdidos encontraram um sorriso caloroso numa bruxa que ele não conhecia, e que rapidamente se aproximou:

– Olá, tudo bem com você? – o azul dos olhos de Carol o atordoou.

E então uma voz baixinha, quase inaudível, murmurou:

– Que pergunta ridícula, Carol... É lógico que não está.

Por um segundo, Neville pensou que estava maluco. O gato estava falando?

– É, realmente, foi uma péssima aproximação. – a bruxa refletiu por um instante: – Meu nome é Carolyn Stuart, mas você pode me chamar de Carol. Que tal voltarmos para o castelo? Você já cumpriu tudo o que deveria fazer aqui!

– O que você está conversando com este assassino, Stuart? – Snape se levantou feroz, de varinha em punho, pronto para atacar qualquer um.

– A culpa não é dele... – um Sirius de voz embargada respondeu. O brilho de seus olhos tinha se apagado novamente e Carol pôde notar isso imediatamente.

– A culpa não é dele? Ele acabou de matá-la! Todos aqui são testemunhas!

– Neville não sabia o que estava fazendo! – Hermione abriu a boca para defender o amigo. – Você não sabia, não é Neville? – ela perguntou, implorando por uma confirmação daquela idéia.

– Não, eu não sabia! – ele se levantou, agarrando-se àquela primeira demonstração de confiança! – Juro que não!

Harry olhou para Sirius, buscando uma explicação no rosto triste do padrinho.

– A culpa não é dele, Hermione. E Snape sabe disso muito bem. – e voltando-se para o professor de Poções, Sirius prosseguiu: – Se eu não tivesse salvado você, isso não teria acontecido!

– Você? Me salvado? Não seja prepotente, Black! Você não me salvou de coisa nenhuma! Eu desviei do feitiço sozinho. Você foi só um peso morto, me atrapalhando de salvá-la.

– Como é que é? Lógico que foi Sirius que te salvou! – Harry se indignou.

– É, não seja mal agradecido! – Rony acrescentou e logo se arrependeu, ao deparar com o olhar duro do professor para ele.

– O que importa isso agora... Não a trará de volta! – Sirius se abaixou para contemplar o rosto apavorado. Fechou-lhe as pálpebras e estava prestes a beijar-lhe a boca quando ouviu uma voz que conhecia muito bem:

– Por Merlim, vamos acabar com esse dramalhão mexicano!

O bruxo arregalou os olhos para a "morta", mas os lábios dela continuavam tão fechados quanto antes.

– Helen! – ele e Snape esquadrinhavam cada centímetro do lugar procurando descobrir de onde vinha aquela voz.

– Aqui embaixo! – e então eles deram com o gato prateado, que andava calmamente até o "corpo". – Desculpem a demora, mas a cena estava divertida...

Neville olhou para Carol pedindo explicações, ela apenas pediu para que ele esperasse. E então o gato começou a falar em alto e bom som:

– Pra quem não me conhece, meu nome é Helen. E esse é o corpo que eu costumo usar habitualmente – ela apontou para si com a cauda. – Prevendo que algo poderia acontecer essa noite, convenci a Srta. Stuart – Carol sorriu para todos – a me ajudar com o feitiço de troca de corpos. Assim, Neville meu querido, você não matou a mim, mas ao meu gato e, bem, como todos sabem, gatos tem sete vidas, o que significa que ele está apenas desacordado. Agora, um de vocês dois – voltando-se para Sirius e Severo -, como homens fortes que são, façam o favor de ME levar para a enfermaria, pois eu não acho muito prudente esperar meu gato recuperar a consciência dentro da floresta.

– Por que você demorou tanto pra falar que não estava morta? – Snape misturava alívio e irritação na voz.

– Vocês deviam se ver... Uma verdadeira tragicomédia! Dariam bom atores no mundo trouxa! E que mal tem se divertir um pouquinho? Se Neville não estivesse tão atordoado eu teria levado adiante mais um pouco...

– Como é que é? – Sirius olhava para o gato furioso. – Você estava brincando com a gente?

O gato revirou os olhos.

– Sirius, você tem que parar de levar tudo tão a sério. Nem parece mais o garoto que conheci na escola – e o gato saiu rebolando.

– Eu levo tudo a sério? Você se finge de morta, deixa todos preocupados e...

– O que está havendo aqui? – Hagrid, acompanhado por outros três buxos que pareciam minúsculos a seu lado, apareceu por entre as árvores.

Fletcher, Tonks e Shacklebolt olhavam para cena espantados, mas não perguntaram nada.

– Hagrid, como vai? – Helen cumprimentou e o meio-gigante legou algum tempo até identificar de onde vinha a voz. – Preciso de ajuda para me levar até o castelo, será que você poderia fazer isso? Explico tudo no caminho...

E assim, ouvindo reclamações e suspiros de alívio durante todo o caminho de volta, o grupo retornou ao castelo.


– Até parece que um de vocês dois vai conseguir me impedir...

Quando Carol e Tonks voltaram para a ala hospitalar, a discussão ainda não tinha acabado. Snape, Sirius e Helen continuavam brigando, mas pareceu às duas bruxas que o motivo tinha mudado.

– Não me parece muito difícil impedir um gato de viajar com pó de flu! – Sirius desafiou, em tom irônico.

– Pois então tente! – e Helen pulou da maca onde estava para o alto de uma prateleira cheia dos mais diversos produtos.

– Você vai voltar comigo para a masmorra da Sonserina! – Snape tentou em vão tirá-la de entre os potes de vidro, mas a penumbra dava ao gato mágico a chance de desaparecer nas sombras e reaparecer noutro lugar.

– Eu nunca tinha pensado nas vantagens de se transformar num "shadowcat"... – Fletcher comentou inocentemente, enquanto Sirius se transformava num grande cachorro negro.

– Muito conveniente para quem pretende "surrupiar" alguma coisa – Carol murmurou num tom bastante audível.

O faro levou Sirius até o lugar onde Helen iria reaparecer, e a "gata" arregalou os olhos na medida do possível ao dar de cara com o cachorro a sua frente. Antes que Sirius pudesse abocanhá-la pela coleira – Eros usava uma corrente de prata com um pingente em forma de S -, Helen mergulhou nas sombras novamente reaparecendo rapidamente dentro da lareira. Na boca trazia um saquinho que logo colocou no chão. Tinha de ser rápida.

– O que você pensa que vai fazer? – Snape não imaginou que aquilo fosse possível. – Você vai ser expulsa!

– Eu já fui expulsa, meu caro!

Antes que Sirius pudesse alcançá-la, Helen disse em alto e bom som:

– Observatório Radcliffe! – e bateu a pata no saquinho, derramando pó de flu na lareira.

Os bruxos presentes no salão contemplaram o pequenino corpo do gato sumir entre as chamas esverdeadas. Entreolharam-se e Shacklebolt foi o primeiro a tomar a iniciativa de voltar para casa:

– Mais nada para fazer aqui, não é mesmo?

Aos poucos eles começaram a se retirar. Não queriam chamar a tenção dos fantasmas e elfos do castelo. Snape foi primeiro, resmungando que Helen não sabia respeitar uma autoridade e que não seria mais tão benevolente com ela. Tonks e Carol saíram em seguida, sendo que a metamorfomaga tomara o cuidado de aparentar ser a irmã mais nova da numeróloga para alunos e professores que as vissem perambulando pelo castelo sem querer pudessem associar algo à Ordem. Shacklebolt e Fletcher seguiram as duas bruxas rumo à Hogsmead. Sirius iria atrás de todos, em forma de cachorro. Ficar na forma humana era sempre arriscado para ele.

Mas Sirius não foi. A enfermaria estava de luzes apagadas e apenas uma luz fria vinda de fora daquele cômodo iluminava o lugar. Ele precisava olhá-la mais uma vez e não conseguia pensar num momento melhor do que aquele. Helen parecia tão serena, tão calma, tão... E então ele se deu conta: ela não se parecia com ela mesma. Porque Helen não era serena, ou calma. E pela primeira vez ele se deu conta de que teria que se contentar com migalhas de boa vontade daquela bruxa.

A prova estava naquela noite. Depois de acreditar que haviam feito as pazes, ela simplesmente o ignorara. Nenhum sorriso de cumplicidade, nenhum olhar com segundas intenções. Era simplesmente como se nada houvesse acontecido. Era hora de voltar para casa.


Eram cerca de três horas da madrugada, mas quatro alunos da Grifinória ainda não tinham subido para seus dormitórios. Hermione abraçou a almofada mais próxima, como se sentisse frio, e Rony, intuitivamente, passou o braço esquerdo sobre seus ombros. Nenhum deles tinham vontade de conversar. Na memória, os últimos acontecimentos repassavam lentamente.

Harry se levantou e caminhou até a lareira. As labaredas crepitavam iluminando seu rosto cansado e sua sombra se projetava numa das paredes encardidas da Sala Comunal.

Neville remexeu no baú de jornais e revistas, com sempre bagunçado, e puxou qualquer coisa ali de dentro para fazer de conta que estava lendo. Enquanto isso, Rony abraçava Hermione, depois de ouvir um soluço de choro quase inaudível da garota. Foi então que o ruivinho reparou na página virada para ele e Hermione, da revista que Neville segurava. Uma manchete luminosa dizia: Omissão do Ministério – Localize Sirius você mesmo e prove que pagar aurores é desperdício do dinheiro mágico.

– Neville, o que você está lendo? – ele perguntou, soltando Hermione bruscamente.

– Eu? Hum? – pego de surpresa, pois apenas abrira a revista, sem vontade real de ler nada. – Estou lendo... hum... Wiccyoga: a arte de harmonizar a magia. – ele leu o título da matéria.

– Que revista é essa? – a voz de Rony denotava preocupação.

– O que tem a revista, Rony? – Harry deixou de contemplar o fogo para observar o amigo.

Mas Hermione também já tinha visto o artigo que deixara Rony preocupado. Sem lembrar da presença dos outros dois, lançou o olhar mais cúmplice que podia ao ruivo e disse:

– Isso já não importa mais, Rony. Nós demoramos demais. Temos que agir o mais rápido possível. – e a garota se levantou.

Rony imitou o gesto e ambos se dirigiram à saída da sala comunal. Antes que saíssem porém, Harry correu até eles:

– Onde vocês vão?

– Nós concordamos que respeitaríamos os seus segredos, não foi, Harry? – Hermione disse com segurança. – Agora pedimos que respeite os nossos. Vamos, Rony.

E os dois grifinórios deixaram o Salão Comunal. Sem saber o que fazer, diante da cara apalermada de Harry, Neville olhou o relógio. Já passavam das duas da manhã.

– Posso ver? – Harry se aproximou e puxou a revista, sem esperar o consentimento de Neville.

Conhecia aquela capa e rapidamente se lembrou de onde. Devolvendo o exemplar ao outro garoto, correu até sua mochila, procurando pelo exemplar do Quibble que Luna Lovegood havia lhe entregado naquela mesma noite.

Folheou a revista com cuidado e quando estava certo de que não conseguiria achar nada de interessante, deu com as mesmas letras luminosas que haviam impressionado Ron e Mione. Começou a devorar cada palavra para dois minutos depois jogar a revista no chão e pular em cima dela, raivoso.

– E as pessoas ainda tem coragem de dizer que isso é jornalismo... – colocou seus pertences novamente dentro da mochila e subiu num passo duro para o dormitório.

Intrigado com o comportamento dos colegas, o bruxo gordinho abriu sua própria revista na página onde estava anteriormente. Não havia nada demais naquele artigo sobre wiccyoga. Então olhou para a pagina ao lado.

Uma foto de Sirius Black e a promessa de que qualquer um poderia encontrá-lo. Começou a ler rapidamente a matéria para descobrir, com alívio, que a matéria falava da estrela que habitava a constelação de Cão Maior. Definitivamente, aquela revista não podia ser levada a sério.


Helen não conseguiu evitar a tosse alérgica, com tantas cinzas voando a seu redor. Difícil seria convencer Eros de que precisava de um banho com água e sabão para se livrar de toda aquela imundície. Começou a sair lentamente da lareira. Queria apenas dar uma olhada em seu filho e marido. Há tanto tempo não pousava os olhos naqueles rostos que parecia prestes a esquecê-los. E ainda havia Sirius, que se fazia presente todo o tempo, tentando apagar o fiapo da Helen trouxa que ainda vivia na Helen bruxa.

Pensou se conseguiria identificar o telhado do sobrado onde metade de sua família vivia atualmente, quando ouviu a voz de seu filho. A vontade de revê-lo era tanta que podia ouvir sua voz! E logo depois pensou ouvir a risada leve de seu marido, a mesma risada que sempre quebrava suas barreiras quando estava irritada com Dmítri Rasputin. Mas porque aquele observatório lhe provocava tantas lembranças? Nunca tinha estado com nenhum deles ali. Precisava sair, precisava...

– Yuri! Não, essa não é uma gigante!

– Mas ela é enorme, pai! Aposto que é maior que o Sol!

– Ainda que fosse, não seria necessitadamente uma gigante.

– Necessariamente. – uma voz feminina corrigiu

– Mãe!

Yuri e Dmítri Rasputin se viraram no mesmo segundo. Tinham ouvido a voz de Helen?

– Você também ouviu? – Dmítri perguntou ao filho, inconformado de não visualizar a esposa em canto algum do observatório.

– Aham. – ele confirmou, enquanto corria para abrir os armários do lado oposto da sala, certo de que a mãe estava escondida ali em algum lugar.

– Yuri – Helen chamou o filho, quase rindo.

O rostinho do garoto porém, se mostrava desesperado. Tinha certeza de que a mãe estava falando com ele, mas onde estava ela?

– Elena? – Dmítri finalmente identificou o gato prateado perto de um dos telescópios.

Os olhos do astrônomo observavam o animal desconfiadamente e Yuri logo se juntou ao pai, o rostinho expressando sua incompreensão. Fato que não durou muito tempo:

– Mãe, você é uma animaga? – ele perguntou lembrando-se de Sirius.

– Não exatamente... – o gato sorriu, e Yuri e Dmítri acharam aquilo para lá de estranho.

– Yuri, parece que temos o gato de Alice bem à nossa frente! – Dmítri devolveu o sorriso, pegando o gato no colo e fazendo-lhe um cafuné na cabeça.

Do colo de Dmítri, Helen pulou para o pescoço do filho que a observava admirado, pedindo explicação:

– Mas se você não é uma animaga, então o que é? Ai, mãe, isso faz cócegas! – ele disse rindo, ao sentir a cauda do gato esfregando-se debaixo de seu queixo.

– Mais dois anos e poderá descobrir todos os segredos da magia você mesmo, meu pequeno! – e piscou para o marido, enquanto pulava mais uma vez para o chão.

– Pequeno... humpf! Pois estou maior do que você!

– Yuri, até um bebê é mais alto que um gato! – ela devolveu rindo.

O garoto deu de ombros e começou a rir, então se agachou e, colocando a mãe no colo, disse baixinho:

– Sentimos sua falta!

– Eu também. – e Dmítri podia jurar que vira uma lágrima rolando do olho do gato. Devia estar ficando louco! Gatos não choram... E também não falam!

– Como está Lyra? – o astrônomo sentou-se no chão.

– Mais conformada com a idéia de ser bruxa. E até que tem se saído bem em algumas matérias... Infelizmente foi parar na Corvinal! – a voz pareceu levemente ressentida.

– Isso nós já sabíamos – Dmítri comentou sem pensar.

– Já sabiam? – Helen arregalou os olhos para o marido. – Como assim já sabiam? Lyra tinha ordens expressas para não enviar nenhuma correspondência! – E começou o discurso: – Se um trouxa vir corujas entrando e saindo de nossa casa... Ah, meu Merlim, eu nem quero imaginar... Sei que não foi tia Arabella pois quando ela não está na escola, está prestando serviços para a...

– Para a...? – Yuri quis saber.

– Não interessa, seu curioso! – ela ralhou, ainda em tom preocupado. – Como vocês ficaram sabendo, Dmítri? E, aliás, – dando-se conta do lugar em que estavam – o que é que vocês dois estão fazendo num observatório bruxo? Dmítri Rasputin, não se atreva a me esconder nada! – ela ficou toda dura, encarando o marido com os olhos amarelos e frios.

Dmítri mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. Não queria esconder nada da mulher, porém sabia quanta tempestade Helen podia fazer com um copo d'água. Antes que inicia-se suas desculpas, três estalidos chamaram a atenção do trio:

– Sirius! – e Yuri saiu correndo em direção ao "professor particular" de feitiços e afins.

Pego de surpresa, ele só pôde sorrir. Vinha evitando o garoto para não sentir-se ainda mais culpado. Carol e Fletcher por sua vez, olhavam preocupados para o astrônomo trouxa e o gato prateado que continuavam parados no mesmo lugar.

– Minha mãe veio me ver! – Yuri disse sorrindo, e só então Sirius olhou para Dmítri e Helen a uns dez passos de distância.

– Sirius Black! Tinha que ser Sirius Black! – o gato guinchou, na voz mais aguda possível. – E você, – virando-se para o marido – tem idéia do perigo a que está expondo MEU filho?

– NOSSO filho! – o rosto de Dmítri abandonara a expressão calma habitual e exibia pequenos sinais de fúria: – E enquanto você estiver longe, eu tenho não só o direito como a obrigação de decidir o que é melhor para ele!

– Você não entende nada desse mundo para poder distinguir o que é melhor para ele!

– Mámienkha... – o garoto observava a cena apreensivo.

– É, realmente é difícil entender coisas que as pessoas se recusam a explicar! Ainda bem que existem outras pessoas que estão dispostas a colaborar!

– Ah, e você acha que pode confiar num assassino? Então vá em frente!

– Ei, ei, ei... – Sirius, que até então só observava a cena não querendo se envolver, sabia que ela estava falando dele: – Você sabe melhor do que ninguém que eu não sou um assassino!

– Não se meta onde não é chamado! – Helen ralhou, a voz ainda mais azeda. – Além de que, se a carapuça serviu...

– Helen, você está sendo injusta! – Carol resolveu tomar partido, enquanto Fletcher segurava Yuri tampando-lhe a boca para que ele não se metesse na briga.

– Elena, seja razoável! – Dmítri pediu.

– Ele vai estragar a nossa vida, Dmítri! E você vai ser o responsável por isso se continuar mantendo este indivíduo perto da nossa família!

Carol e Sirius abriram as bocas, pasmos e sem palavras. Um turbilhão de pensamentos passava pela cabeça de Sirius sem que ele conseguisse verbalizá-los. Quando finalmente conseguiu balbuciar alguma coisa, sua voz foi ofuscada por um grito:

– Auuuuuuuuuuuuuuu! – Fletcher guinchou de dor, após levar uma mordida na mão.

– Mãe, Sirius é legal! Você sabe disso. Ele está me ajudando... – Yuri correu pegando o gato no chão e levando o animal até a altura de seus olhos.

– Miauuu!

– Miau? – Fletcher estranhou, ainda balançando a mão para aliviar a dor.

– O efeito de feitiço acabou. – Carol deu a sentença. – A esta hora, Helen está na enfermaria de Hogwarts... Ele é apenas um gato.

Yuri olhou desapontado para Eros e o largou de qualquer jeito. Tão logo pôs as patas no chão o gato prateado sumiu através de uma sombra. Lágrimas começaram a rolar no rosto vermelho. Os primeiros soluços começaram a aparecer.

Com o rosto tão vermelho quanto o do filho, porém de raiva, Dmítri agachou-se e puxou o garoto para si, dando-lhe um abraço apertado. Sem descolar o rosto do filho, olhou para cima e falou:

– Yuri vai continuar tendo aulas com você, Black.

– Mas... – Sirius estava desconfortável.

– Eu me entendo com ela depois. Em doze anos de casamento se tem uma coisa que aprendi foi a domar Elena...

– É, nós percebemos... – Fletcher fez muxoxo.

– Eu não estava discutindo com minha mulher! Estava discutindo com um GATO! – ele olhou feio para Fletcher, e levantou-se, carregando o filho, que ainda não tinha conseguido parar de chorar. – Ao menos sei que ela e minha filha estão bem... Isso já basta. Até qualquer dia.

Os dois Rasputins saíram do observatório e antes que Carol ou Fletcher tivesse tempo para comentar alguma coisa, Sirius desaparatou dali. Queria ficar sozinho.


– Ela está acordando, Madame Pomfrey!

– Então deixe que ela acabe de acordar, garoto! Crianças apressadas...

– Ai, minha cabeça! Quem foi que pôs álcool no meu leite ontem à noite pra eu ver tudo rodando hoje?

Na enfermaria, Catharina acabava de despertar de um longo sono, com o colega de casa Terêncio Higgs a seu lado. De início não se lembrou o que estava fazendo ali, mas pouco a pouco foi recobrando a memória dos fatos da noite anterior.

– Ao que tudo indica foi um... acidente – Higgs olhou desconfiado para Madame Pomfrey.

– Ah, sim... é... foi... – a garota retrucou e tampou os ouvidos. Sentia cabeça latejar que como se estivesse de ressaca. – Acho que preciso de um café...

– Não hé tempo para isso. Estamos atrasados – e o rapaz jogou a mochila da garota sobre a cama. – Pedi a Betelguese que pegasse seu material...

Cathy sentou-se na cama e gritou:

– O quê? Você deu autorização pra aquela bruxa mexer nas minhas coisas – e arrependeu-se em seguida, pois aquilo piorara sua dor de cabeça.

– Até onde eu me lembro você também é uma bruxa... – Higgs estranhou o comentário de Cathy.

– Lógico que sou uma bruxa! Vamos embora daqui, seu irresponsável... Achei que você a detestasse. – pulou da cama, quase recuperada do mal-estar.

– E detesto... eu acho... Mas ela foi tão solícita... Estava preocupada! E um pouco enciumada também... – ele deu um sorriso de satisfação. – Você passou a noite fora. Ela achou que estivesse comigo.

– Não seja idiota, Higgs, aquela xereta só queria informações a meu respeito. Não te contei que ela andou mexendo nas minhas coisas? – e disparou a dizer todos os nomes obscenos que conseguiu lembrar. Descontaria assim a frustração da noite anterior.

Os dois jovens caminharam rapidamente até as estufas onde teriam aula de Herbologia junto com a turma da Grifinória. Betelguese os aguardava logo na entrada, com ares de preocupação tão fingidos quanto suas unhas postiças de resina. Assim que a viu, Higgs abraçou Cathy pela cintura, disposto a passar por namorado da garota.

– É pelo visto a noite foi boa, priminha! Mandando o namorado buscar sua mochila enquanto se recupera. – Betelguese falou com ar de deboche.

Cathy lançou um olhar de raiva para o colega, que não se abalou. Estava contente como há muito ninguém o via. Ela o empurrou com raiva de todos os homens serem uns babacas, a começar pelo seu marido oficial:

– E aí, teve tempo suficiente para mexer nas minhas coisas?

– Tempo eu tive, priminha. Mas resolvi esperar você me contar... Queria pedir desculpas pela minha intromissão naquele dia – e ofereceu a mão direita para selar o acordo de paz.

– Essa é boa... – Cathy ignorou o gesto. – A filha de Bellatrix Black pedindo desculpas...

– Lestrange – a outra garota corrigiu, com ar feroz.

Cathy deu de ombros:

– Pra mim pouco importa. A família toda é farinha do mesmo saco...

Ao terminar de dizer isso, os três ouviram latidos fortes logo atrás de Cathy e Higgs. Viraram-se para descobrir um enorme cachorro negro saindo de dentro das folhagens. Não houve tempo para reações. Num salto, o animal abocanhou a capa de Cathy e saiu arrastando-a para o lugar de onde tinha saído. Quando Betelguese e Higgs se deram conta, a colega de casa tinha sumido.

– E agora, o que fazemos? – Higgs balançou um olhar perdido para a ex-namorada.

– Você pode fazer o que bem entender... Eu vou entrar na aula pois a Professora Sprout já está chegando – e deixou o garoto do lado de fora da estufa absolutamente sem idéia de que providências teria que tomar.