Capítulo 11 – Prenda-me Se For Capaz


Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena,
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Atende à minha voz, que geme e brada

Bocage


Ela respirou fundo tão logo o cão negro a largou. A capa estava úmida pelo contado com a neve, e seus ossos começavam a tremer. Batera a cabeça umas três vezes e rasgara a capa de leve no percurso. Sentou-se, as costas doíam. Apesar de parecer, não era mais uma menina.

Helen tocou primeiro o ventre e depois arqueou o dorso para trás. Os olhos castanhos não ousavam encarar o animago a sua frente. Não estava com ânimo para discutir. A noite fora exaustiva. Deixou-se ficar, inerte, apenas observando o cachorro tomar as formas de um homem magro e alto, bastante maltratado pelo tempo e pela vida. Ele não olhava para ela; andava em círculos, praguejando contra as últimas e as primeiras horas em que estivera com ela.

- Não podemos mudar o passado, Sirius... – ela se mexeu, por fim, disposta a se levantar.

Passou as mãos rapidamente uma na outra e tirou o anel que lhe conferia a aparência juvenil. Precisavam ter uma conversa de adultos, ainda que, quando juntos, sempre deixassem o comportamento adolescente aflorar.

- Engraçado você dizer isso justamente pra mim – ele revidou em tom desaforado. – Afinal, mudar o passado resolveria todos os meus problemas...

- E certamente causaria outros, senão os mesmos de uma forma um pouco diferente. – Helen foi cética. – Você sabe que não depende apenas de nós.

Sirius sentiu os olhos queimarem. Definitivamente se enganara. Aquela mulher fria não era Helen, não a Helen que ele tinha amado um dia. Ela caminhou até o bruxo e entrelaçou os próprios dedos nos deles.

- Não vai me cobrar explicações? – ela baixou a cabeça, parecendo envergonhada.

Ele queria. Tudo o que mais queria na vida era entender o raciocínio insano daquela bruxa, mas talvez saber fosse doloroso demais. Entendê-la significava abdicar de suas ilusões. Seus olhos retomaram a opacidade adquirida em Azkaban.

- Não – Sirius se desvencilhou daquele contato. – Não é preciso. Eu... eu nem sei por que a trouxe até aqui. Eu...

Primeira ela tinha ignorado-o. Fingira-se de morta, sem sequer pensar na dor que aquilo poderia lhe proporcionar. E fora naquele momento que ele percebera que, mesmo nos anos que estiveram afastados, a única coisa que lhe dava paz à alma era saber que ela existia e que em algum momento o universo conspiraria para uni-los novamente. No íntimo, estava certo de que ela também sabia disso, ao menos até ela aprontar um escarcéu ao descobrir que ele andava ensinando magia a seu filho caçula.

- E se eu quiser explicar? – ela mordeu os lábios e procurou pela face abatida do bruxo.

- Explicar o quê, Helen? Que EU sou um idiota? Sempre fui, não é mesmo? Você vai me explicar certamente que - e a voz começou a adquirir sarcasmo – estava sob algum tipo de hipnose, ou sonhando acordada ou...

- Quem me dera tivesse sido um sonho – ela retrucou ríspida. – Assim nenhum de nós teria que conviver com o remorso. Porque eu não acredito que você possa olhar para o rosto de meu filho e não sentir absolutamente NADA.

Sirius engoliu em seco. Yuri. Só de pensar no garoto, o arrependimento tomava conta de seu corpo. Mas, de repente o rumo dos pensamentos do bruxo tomaram outro rumo:

- Espere um pouco. Você... isso... nós... Você está tentando dizer que...

- Hã... Não vamos ser precipitados... Eu... Eu não disse nada – ela hesitou.

- Você ainda me ama – ele começou a gargalhar. – Ama. Nunca teve coragem de dizer, ou de admitir. Mas me ama. Se não me amasse não teria remorsos.

- Isso é um despropósito. Eu não teria remorsos em trair meu marido? – rebateu, incrédula. – E meus filhos? Eles são razão suficiente para...

- Para nos manter separados, ainda que você não queira. E você não quer! Por isso tem remorso – ele avançou para ela.

Encurralada entre uma paineira e o corpo do bruxo, Helen sentiu os dedos de Sirius deslizarem em seu cabelo. Os lábios roçavam sua nuca. Ela fechou os olhos e sentiu o arrepio prazeroso que era seu maior inimigo. Mais uma vez cedia ao desejo, rejeitando a razão. Precisava desesperadamente daqueles lábios. Precisava descobrir como voltar no tempo.

Sirius abriu os olhos e contemplou as pálpebras fechadas da bruxa, que irradiavam calor. Levou as mãos à cintura de Helen, antes demorando-se por cada curva do corpo protegido por um grosso sobretudo. Ela mordeu sua boca de leve, confirmando tudo o que não sabia dizer em palavras. As pontas dos narizes gelados recostaram-se por um minuto, provocando choque. Os lábios macios, úmidos e quentes pediram atenção e voltaram ao beijo longo. Tempo e realidade eram conceitos inexistentes.

Helen sentiu Sirius largar o peso do corpo sobre ela, num abraço apertado e reconfortante. A barba por fazer roçou-lhe o rosto; o cheiro fraco de perfume cítrico brincava com seus sentidos. O mundo finalmente poderia se acabar, desde que o vínculo não fosse cortado. E enfim, o gosto de lágrimas quentes levou Sirius a acordar daquele novo sonho.


Yuri abriu os olhos cansados de dormir, ainda que seu sono não tivesse durado metade das horas de costume. Sonhara com gatos, cachorros e vassouras e, ao contrário da maioria dos sonhos em que se unem coisas absurdas, este lhe incitara uma sensação de mal-estar ao despertar.

Livrou-se das cobertas e sentiu o corpo tremer de frio. Ainda não começara a nevar em Oxford, mas as baixas temperaturas davam indícios de que os flocos brancos não demorariam a amontoar-se nas ruas da cidade universitária. A situação era ainda pior naquela casa, pois até o momento ele o pai não haviam descoberto onde ligar o aquecimento. O garoto tinha suspeitas concretas de que bruxos não utilizavam aquecedor elétrico.

Saiu pisando nas próprias meias, sem encontrar as pantufas que a mãe lhe dera logo que se mudaram para a Inglaterra. Atravessou a sala curta em dois minutos para dar com o pai na cozinha apertada da sobreloja.

- Leite? – o pai ofereceu sem tirar os olhos do jornal inglês.

O garoto pegou uma xícara no armário e se serviu um pouco do líquido morno. Adicionou três colheres de achocolatado, e certificando-se que o sabor ainda estava fraco para seu paladar, acrescentou mais um pouco do pó adocicado.

Na mesa desarrumada, o pai deixara um pacote de bolachas aberto e dois sonhos de creme. Maçãs e pêssegos se ofereciam da fruteira sobre o armário, mas o menino ignorou-os.

- Pai? – Yuri arriscou-se.

O Sr. Rasputin ergueu os olhos sobre os óculos de leitura, encorajando o filho a continuar.

- Er... bem... Sobre ontem...

O adulto voltou a olhar para o jornal.

- Não se preocupe, Yuri. Enquanto sua mãe não estiver aqui, as decisões são minhas. Você continuará tendo aulas de magia.

O garoto deu um suspiro. Não era sobre aquilo que queria falar. Aprenderia a usar sua magia mais cedo ou mais tarde e, ainda que adorasse as aulas, aquilo não lhe preocupava no momento.

- Na verdade eu queria saber... Eu queria saber se mamãe escreveu.

Ele percebeu que o pai tentava esconder a raiva. Não era primeira vez que brigavam. Certamente não seria a última.

- Tenho certeza de que ela vai pedir desculpas – o garoto continuou. – Ela sempre pede... Talvez se fôssemos visitá-la em Cambridge... E Lyra podia ir também! Aposto como ela já está arrependida.

Dmítri fechou o jornal e observou o filho com cuidado. Era absurdo como ele e a mulher sempre jogavam seus problemas pessoais sobre as crianças. Por fim, sorriu para o filho caçula e bagunçou ainda mais os cabelos despenteados do menino.

- Essa separação está sendo difícil para todos nós, Yuri, e tenho certeza de que sua mãe queria poder estar a seu lado agora. As coisas vão se acertar, eu tenho certeza.

- Mas você ainda está bravo com ela. Vocês... Vocês deviam conversar, sabe?

Dmitri encarou o próprio filho, duvidando que mal tivesse nove anos de idade. Se Helen tivesse a maturidade de Yuri, brigariam menos.

- Sei que sua mãe tem contas a acertar com o passado, mas ela não pode descarregar as frustrações dela sobre nós. Sabe, filho, às vezes o silêncio fala mais alto que gritos. Sua mãe precisa pensar sobre o assunto.

- Mas...

- Você devia ir brincar – o pai tentou contar o assunto.

- Brincar? Com quem? – o garoto bufou, enfezado. Odiava quando lhe tratavam como criança.

- Com os sobrinhos de Carol? – Dmitri levantou os olhos por sobre o jornal, vendo o efeito de sua sugestão atingir o menino.

Yuri baixou os olhos, tentando não ceder ao desejo de ser apenas uma criança comum. Tinham problemas sérios em casa, não podia ficar pensando em vassouras, e snaps explosivos, e bombas-de-bosta. Mas a cada novo brinquedo lembrado, percebia que ficava mais difícil manter pernas e braços imóveis. Em pouco estava revirando a cômoda do quarto do pai em busca da trouxinha de pó de flu.


- É impressão minha ou todos estão um pouco mais aborrecidos do que o normal?

Bonnie tentou amenizar a impressão que tinha daquele grupo de colegas de Ordem.

- E alguém tem motivos para estar contente por aqui? – o irmão da moça retrucou.

Temendo expor exageradamente a sala que usavam no Observatório Radcliffe, Tonks, Lupin, Fletcher, Carol, Bonnie e Clyde decidiram-se por fazer aquela reunião em Lancashire, na fazenda dos pais de Remo. Escondidos no subsolo (onde Remo era trancado nas noites de lua cheia quando garoto), o sexteto desabafava sobre a impotência diante dos últimos acontecimentos.

O futuro dependia da localização das sete máscaras de Ceinween. Três delas estavam oficialmente desaparecidas: a amarela, a azul e, agora, a verde. As peças violeta, laranja, anil e vermelha estavam guardadas em diferentes locais do mundo, mais precisamente nas cidades de Lima, Budapeste, Istambul e Paris.

A única máscara em poder de trouxas era a vermelha, que segundo antigos pergaminhos fazia parte do acervo do Museu do Louvre. E, no momento, era a preocupação daquele grupo. Afinal, se Voldemort furtara a máscara verde debaixo do nariz do Ministro da Magia Britânico, apossar-se da vermelha seria mais fácil que roubar doce de criança.

- Você não está sugerindo... – Tonks franziu o cenho ante a proposta de Fletcher.

- Estou, sim!!! Temos que roubar a máscara dos trouxas antes que Você-sabe-quem faça isso primeiro.

Carolyn batucava com os dedos finos na mesa de madeira conjurada especialmente para aquela ocasião. Fletcher estava certo, infelizmente. Quanto mais hesitassem, maiores chances dariam a Voldemort e seus comensais. Mas, sair em busca da máscara vermelha lhe despertava mais preocupações do que gostaria de demonstrar.

- Mesmo que essa seja a única alternativa... Alguém aqui já visitou o Louvre por um acaso? - Tonks continuava cética. - Aquele lugar é imenso! Vamos levar pelo menos uns quatro dias para esquadrinhá-lo.

- E ainda há o acervo guardado nas masmorras... – Remo lembrou. – Já ouvi falar que há quase o triplo de peças lá!

- E o acesso é restrito – Bonnie acrescentou.

- Para trouxas, talvez. – Fletcher continuava firme em seu propósito. – Acham mesmo que uma fechadura trouxa pode resistir a um Alohomorra?

Quatro deles se entreolharam, dando razão ao estrategista. Apenas Carol parecia alheia à discussão, sem se pronunciar. Continuava a tamborilar os dedos na mesa, virando as páginas do manifesto de Morgana lentamente com a mão esquerda.

Enquanto os outros voltavam a argumentar, tentando encontrar a solução mais adequada para o caso, ela se deteve numa pagina em especial.

- Tiveram alguma notícia de Sirius? Ele devia estar aqui, não?

Os outros cinco emudeceram. A pergunta era quase estúpida: todos eles sabiam que Sirius estava transtornado o suficiente para sumir por alguns dias, ainda que aquela não fosse uma atitude muito "profissional" da parte do bruxo. Carol não esperava respostas.

- Bem, não podemos ficar aqui esperando a boa vontade de Sirius. Tampouco um astrônomo trouxa vai poder nos ajudar... – ela falou antes que Fletcher soltasse um comentário maldoso.

- Do que é que você está falando, Carol? – Remo questionou, espiando o livro de relance.

- De dividirmos tarefas.

- Dividirmos o quê exatamente? – Fletcher perguntou em tom irritadiço.

Bonnie olhou para o irmão, que fitava o teto entediado. Conhecia bem aquele ar de quem achava que tinha coisa melhor a fazer e a tal "coisa melhor" quase sempre se referia a alguma garota, que levou os olhos da advogada diretamente para Tonks. A auror, por sua vez, rodava a varinha entre os dedos como se fosse uma chefe de torcida. As constantes mordidelas no lábio inferior demonstravam que estava atenta a tudo que se passava a seu redor, esperando o melhor momento para se intrometer. Carol matinha seu ar enigmático:

- Eu, Nynphadora e Bonnie iremos a Paris. Dividindo o museu em setores, poderemos dar cabo da mostra aberta em um dia. Se não encontrarmos nada, passaremos ao depósito.

- Em seis faríamos esse serviço mais rapidamente – Clyde falou pela primeira vez, surpreendendo a irmã.

- Vocês vão para Stonehenge. Se eu não estou errada, os números dizem que a máscara azul está escondida naquela região. Agora, se me dão licença, eu tenho horário a cumprir no meu emprego trouxa. Mando as coordenadas exatas por uma coruja.

E desaparatou numa questão de segundos.


Sirius se afastou, ferido pela dor alheia. Helen tinha o dom de transformar seus sentimentos da água pro vinho em poucos instantes.

- Cansei – ele suspirou e deixou-se cair sobre a neve fina. – Cansei da sua inconstância, Helen. Cansei de lutar por migalhas.

A bruxa engolia os soluços de olhos fechados. Olhar para Sirius era dolorosamente insuportável. Gostaria também de poder ser surda naquele instante.

- Eu não vou mais me aproximar de seu filho, ou de seu marido, ou de qualquer pessoa da sua família. E, especialmente, eu não vou voltar a me aproximar de você.

Helen deixou as costas deslizarem pela árvore espinhenta. Os arranhões perpassando o tecido da roupa não lhe machucavam tanto quanto a ferida que reabria. Sentimentos nunca cicatrizam, pensava consigo mesma, os olhos vermelhos evitando a figura a sua frente. Sabia que seu sonho estava escorrendo por entre seus dedos e não podia fazer nada.

- Sirius, eu...

Abriu os olhos para constatar que o bruxo não estava mais ali. O destino parecia colaborar para que tomasse as atitudes corretas. Enxugou as lágrimas que ainda escorriam pelo rosto pálido e recolocou o anel de pedra negra. Fitou seu reflexo distorcido por alguns instantes e, por fim, deixou o local, rumo às estufas. Teria que resolver um dilema de cada vez e, agora, tudo o que importava, era recuperar a posse de sua varinha, coisa que apenas um bom número de N.I.E.M.s poderia lhe assegurar.


- Pois eu estou dizendo que vocês dois não brincam mais. A vassoura é minha e eu sou mais velha, por isso eu mando.

Yuri já estava mais do que arrependido. Péssima idéia, péssima. Tinha se esquecido de que a primogênita de Margot, Kamaria, era a menina mais chata que já conhecera na vida. Conseguia ser ainda mais chata do que Lyra, e até pouco tempo atrás ele acha que ninguém poderia ser mais insuportável que sua irmã. Tudo bem que não é costume que uma visita chegue assim tão cedo (mal tinham dado sete horas da manhã quando aspirou o pó que o levara à Londres), mas qual o mal de se levantar cedo quando o motivo é brincar?

Havia pouco mais de quinze minutos que chegara e correra diretamente para o quarto das crianças, passando pela mãe dos garotos na sala de jantar. Margot dormia, a cabeça apoiada num amontoado de pergaminho, a pena segura frouxamente na mão direita. O garoto não se deu o trabalho de acordá-la para avisar que estava ali. Entrou fazendo alarde no quarto das únicas crianças bruxas que conhecia.

A menina mais velha não estava mais lá; pelo visto já havia se levantado. A menor acordou sobressaltada, mas não gritou. Apenas encarou o garoto quase tão branco quanto a neve, ali, parado, sorrindo, tomado por uma euforia que ela conhecia bem. Assim, esfregou os olhos e botou sua melhor cara de lamento para disser com a voz ainda rouca de quem acabara de acordar.

- Kayode está na casa de papai. Só volta no final de semana.

Yuri não perdeu a compostura:

- Mas você está aqui, não é? E sua irmã, pelo visto... A cama dela está desarrumada.

Malaika olhou para o lado, e então acabou de se espreguiçar. Sorriu ligeiramente sem graça e disse:

- É, ela está aqui – e bem baixinho: - Infelizmente.

Mas o menino não chegou a ouvir. Tinha os olhos na vassoura novinha em folha que brilhava num canto do quarto.

- Uau, é uma...

- Não faço idéia. Não ligo muito para vassouras - a menina disse, calçando as pantufas.

Yuri lançou-lhe um olhar maroto:

- Você caiu da última vez que tentou voar, certo? – e sorriu com gosto – Eu já perdi as contas de quantas vezes caí da minha... É como andar de bicicleta. Uma hora a gente aprende e não esquece mais.

A garota sorriu ao vê-lo estender a vassoura em sua direção. Estava de pijamas, as pantufas herdadas da irmã mais velha, muito maiores que seus pés.

- Vai, tenta, deixa eu ver como você voa.

Mal disse isso Kamaria entrou no quarto, com os olhos arregalados sobre o garoto. Aos pouco sua expressão foi se convertendo em fúria.

- Nós só estávamos brincando... – Malaika tentou explicar o que fazia com a vassoura da irmã na mão e acabou por ouvir todo tipo de xingamento.

Ouvindo a gritaria logo cedo, a mãe das crianças acordou e subiu correndo as escadas da casa. Estranhou ao ver o pequeno Yuri ali, tão cedo, mas, ela não sabia dizer muito bem porque, gostava do garoto.

Pediu que a filha mais nova respeitasse as coisas da filha mais velha e só usasse depois de pedir. Na frente da mãe, Kamaria não se negou a emprestar o brinquedo, mas assim que esta deixou o quarto, tomou a vassoura das mãos da irmã e trancou-se no quarto da tia.

- Bem, acho que vamos ter que arranjar outra distração – Malaika acabara de espiar o corredor.

Viu então o garotinho olhando o jardim seco da casa pela janela de vidro. Notou também que ele parecia muito mais sério do que quando chegara. Chegou perto devagar e segurou na mão dele. Estava gelada. Colocou entre as suas. Yuri ameaçou falar alguma coisa, e então desistiu. Ela não percebeu e procurou puxar um assunto qualquer.

- Todo mundo na sua casa é da Rússia?

O garoto olhou de esguelha para a menina, puxou a mão, agora quentinha, e escondeu-a no bolso de casaco. Depois de pensar um pouco, respondeu:

- Minha mãe é daqui. Não sei de que cidade. Papai é de Moscow e Lyra é de São Petersburgo. Eu, na verdade, nasci em Viena, porque minha mãe brigou com meu pai e teimou em viajar para Áustria para ver um dos espetáculos da Companhia de Ballet onde ela trabalha. Mas meu pai disse que eu sou russo, pois fui registrado em Píter. Minha mãe não tem o mesmo sotaque que a gente quando fala inglês, mas fala russo de um jeito meio engraçado... Meio... hum... esganiçado... hehe. Ela me mata se ouvir isso.

A garotinha riu e falou um pouco.

- Meu pai também não é inglês. Não de verdade. Ele não nasceu aqui, mas estudou a escola de trouxas aqui. Depois mudou pra Dakar... Estudou em Beauxbatons, que é na França, depois mudou de novo... Ixi, é um rolo.

- Ao menos você sempre sabe onde ele está e pode vê-lo sempre.

- Deixa eu adivinhar... Saudades da sua mãe? Onde é que ela está mesmo?

- E eu sei? Eu achava que ela estava em Cambridge, mas... a deixa pra lá.

- Seus pais não são separados também, né? – a garotinha se alertou de repente.

- Não... por enquanto não. – Yuri murchou um pouco mais. – Meus pais brigaram ontem, e normalmente eles fariam as pazes hoje, mas a minha mãe não está mais em casa pra se desculpar no dia seguinte, e a culpa é minha e...

- A culpa não é sua, Yuri.

- É, sim.

- Não, minha mãe disse que a culpa nunca é nossa! Ela jurou que os filhos nunca são culpados quando os pais brigam. Que ele brigam porque, sei lá, acho que porque eles são bobos mesmo.

O garoto riu timidamente, sem se convencer.

- Sabe, se eu conseguisse colocar um na frente do outro, eu tenho certeza...

- Sua irmã não pode te ajudar? Talvez ela não saiba onde a sua mãe está...

- Não, a Lyra não sabe, mas... mas a vó Arabella sabe. E a vó está no mesmo lugar que a Lyra. Você é uma gênia, sabia? Tem uma coruja pra me emprestar?


- Alguém pode me explicar por que estamos indo a Stonehenge de carro? Se aparatássemos...

- ... e fossemos vistos pelas centenas de turistas trouxas que vão para lá todos os dias, seria realmente embaraçoso, não acha? – Remo tentou por um fiapo de juízo na cabeça de Fletcher.

Lupin fechou os olhos, sentindo os primeiros sinais de cansaço. Há quantos dias não dormia? Desistira de contar. O barulho do motor zunia dentro de seus ouvidos, levando-o cada vez mais longe. Saudades do tempo em que suas preocupações limitavam-se a deveres de Hogwarts e noites proibidas na companhia de seus melhores amigos. Namoricos adolescentes... Os olhos cor-de-mel de sua namoradinha...

- Droga! Perdemos o pneu!

Remo despertou assustado de seu breve cochilo. Clyde tentava levar o carro velho e detonado para o acostamento, o volante exigindo-lhe as forças que não tinha. Remo suspirou ao ouvir um novo resmungo de Fletcher.

- Cale a boca! – retrucou Clyde ao parar o carro.

Exaustos. E derrotados. Tão cedo...

- De quem foi a idéia de usarmos métodos trouxas? – Fletcher ignorou o desabafo do colega de Ordem. Jovem demais para opinar, ainda mais para dar ordens. Quem se importava se era um auror?

Remo desceu do carro, seguido por Clyde. Ainda não havia neve, mas a relva já estava toda queimada pelo frio intenso das madrugadas de inverno. O rapaz procurou pelo estepe no porta-malas, sob o olhar rancoroso de Mundungus. Tentativa frustrada: teriam de continuar o caminho a pé.

- A pé? – Fletcher esbugalhou os olhos azuis-fadiga ao ponto de quase saírem de suas órbitas. Seus colegas não responderam, apenas seguiram pela estrada, calados. Prestavam atenção à sonoridade de seus pensamentos


- Je veux trois billets, s'il vous-plaît. Ça fait combien?

- C'est 18 francs.

Carolyn entregou as notas francesas para o cobrador e recebeu as entradas para a mostra permanente do Museu do Louvre. Seu francês era precário, especialmente se comparado com a habilidade com que sua irmã Margot dominava o idioma. Ainda assim, era suficiente para os propósitos que a levaram para longe de Londres naquele dia gelado.

- Eu ainda não acredito que deixaram a máscara azul vir parar num museu trouxa... – Tonks olhava as excursões escolares fazerem fila diante da entrada do mais famoso museu francês. Faltavam apenas alguns minutos para as portas do local se abrirem.

- Não são apenas os governos trouxas que têm maus administradores, Tonks. – Bonnie retrucou enquanto observava atentamente um dos panfletos. - Você não faz idéia de quantos tesouros o Ministério da Magia se desfez sem ter idéia do que representavam.

- Vamos. – Carol não estava disposta a ouvir comentários políticos naquela manhã. Queria voltar a Londres o mais rápido possível.

Tonks apertou os olhos, vendo a bruxa abrir caminho entre as filas de crianças e adolescentes que tentavam entrar todas ao mesmo tempo. Fitou Bonnie, convidando-a a seguir Carol, que em pouco sumiria entre os diversos retratos e naturezas mortas do prédio.


Caminhavam sem rumo há pelo menos meia hora. Cansara-se de derramar queixas menos de cinco minutos depois do início do trajeto. Falar consumia-lhe ainda mais energias. Se pudesse, Fletcher também teria calado seus pensamentos. Invariavelmente, os remorsos lhe atormentavam toda vez que discutia com Carol. Nem mil vira-tempos consertariam os erros do passado. Precisava apagá-los, extingui-los da memória. Mas a voz de Carol ressoaria pelo resto da vida em seu ouvido esquerdo, um zumbido sentido e rancoroso: a culpa é sua. Carregava o peso do mundo sobre seus ombros desde que desapontara a mulher que mais amara na vida.

Começou a assobiar, sem se importar com a musicalidade daquele som. Precisava que algo soasse mais alto que seus pensamentos e mais tênue que as acusações de Carol. Antes que percebesse, Clyde o acompanhava, agregando um ritmo estranho àquela melodia desafinada. De rabo de olho, espiou Remo, constatando que a tez cansada finalmente perdia parte da tensão característica.

- Não falta muito... – Lupin suspirou e deteve-se por um instante, suspendendo o canto de cigarras a seu lado.

Os dois bruxos que o acompanhavam apertaram os olhos para a frente. Um ônibus lotado de turistas os ultrapassou vagarosamente, e Clyde fixou o olhar numa das janelas. Uma garota trouxa acenou-lhe de dentro, como a um conhecido. Ele sorriu, levemente chateado.

- Elas deviam ser assim – resmungou, voltando a caminhar.

- Assim como? – Fletcher seguiu-o, deixando Remo um pouco para trás.

- As bruxas! Deviam ser como as garotas trouxas... Mas não, bruxas são todas temperamentais! – explicou e bufou, impaciente.

- Isso porque você não sabe como são as bruxas nascida trouxas, meu caro. Essas sim podem atormentar sua vida – Fletcher deu leves tapinhas nas costas do auror. – Não é mesmo, Remo?

Ao virar-se para trás, Fletcher percebeu que o colega não havia se movido. Olhava o mesmo ponto fixo, na lateral da estrada. Cutucou Clyde e adentrou pela grama, na direção que Remo olhava.

- Não. – Remo advertiu, e o auror agarrou seu companheiro pelo colarinho, impedindo-o de prosseguir.

- O que foi? – Fletcher levantou os ombros, perplexo.

Remo não respondeu. Tateou os bolsos do casaco puído e tirou de dentro de um deles um pequeno livro. Esperou que uma nova frota de carros passasse acelerada, e discretamente, bateu com a varinha no livreto, fazendo-o aumentar em tamanho e volume. Tempo suficiente para que os outros dois bruxos se aproximassem.

- O Manifesto? – Clyde estranhou. – Mas Carol passou as coordenadas...

- Coordenadas erradas. – Remo disse por fim, consultando uma das últimas páginas. – A máscara não está em Stonehenge.

- Não? – Fletcher arregalou os olhos – Então nós andamos tudo isso à toa?

- Não. – remo respondeu. A máscara não está em Stonehenge, mas... – e voltou a olhar para o infinito.

- O que é que você consegue enxergar que a gente não consegue? – Fletcher perdeu os bons modos, se é que algum dia os teve.

- Não é o que eu vejo... Eu, vocês não sentem? Tem magia no ar. Essa região foi encantada. E não faz muito tempo.


- Neste pátio vocês poderão apreciar a obra de Rodin. Este talentoso escultor...

Travestida como uma colegial, Ninfadora Tonks bocejava ante as explicações da guia do museu. Ao contrário do que imaginara a princípio, acompanhar um bando de adolescentes não era nada divertido.

- O que é que vocês têm contra subverter regras neste colégio? – ela se virou para o primeiro garoto que viu na frente, que escancarou os olhos e murmurou alguma coisa em francês. - Você tá no grupo errado, garoto, não tá vendo que a monitora tá falando em inglês, não?

Fez uma bola com o chiclé de mascar, que estourou antes de atingir o tamanho esperado, enquanto o menino se juntava a outro grupo, de uniforme verde musgo como o dele. Tonks olhou para si mesma e finalmente entendeu a confusão do rapazinho: estava usando um moletom da mesma cor.

- Esta peça foi intitulada O beijo. Vocês podem notar...

Ninfadora desviou o olhar para outra das estátuas escuras. O Pensador encarava-a desafiadoramente, perguntando com palavras mudas até quando ela seria apenas uma coadjuvante em cena. Fitou rapidamente o grupo ao qual se misturara e, ignorando todas as instruções de Carol, deixou o pátio lotado de esculturas imóveis.

Noutro corredor, Bonnie andava apressada, como se fosse uma consultora de arte pronta a vender uma tela milionária. Pasta na mão, óculos de gatinho firmes sobre o nariz reto, o cabelo liso preso num coque banana muito bem preso. Desfilava pelos corredores de paredes escarlates abastecidas pelas pinturas doadas por Carlos Besteigui. Demorou-se alguns segundos a mais quando avistou um Goya, fingindo entender alguma coisa de arte. Precisavam percorrer o Louvre até o final da tarde, tarefa impossível para qualquer ser mortal, mesmo bruxos. E ainda não havia garantias de que a máscara de Ceinween estaria exposta. Poderia muito bem ser um das centenas de objetos guardados nos calabouços daquele antigo palácio.

- Pardon, je... – ela arriscou um contato e viu a mulher a quem se dirigira disparar para o outro lado, apavorada.

Bonnie já estava acostumada a reações como aquela... Não precisou virar-se de costas para saber que havia um espelho atrás de si. Sem qualquer reflexo.

Enquanto isso, Carol dava passos curtos e vagarosos, evitando olhar para a dona de outra ala do museu. A estátua da Vênus de Milo reinava soberana na sala ainda vazia. A da deusa do amor zombava dela, escondendo sua sorte no piso de marmore preto e branco.

Evitou pensar em Fletcher, mas seus olhos recaíram sobre o ventre da estátua. Suas mãos automaticamente moveram-se ao redor do seu umbigo; não conseguiu reprimir uma lágrima solitária.

Deusa do amor... Antes fosse deusa da luxúria! O que Vênus sabia do amor, inconstante como era? O que sabia do amor, se não conhecia o amor de mãe para filho? O que sabia do amor, se se deixava guiar pela inveja?

Passou o dedo indicador no rosto, secando outra lágrima indiscreta. Era impossível não pensar no filho que não chegara a ter. Estava naquela mesma sala quando recebera a notícia de que Fletcher fora preso. Estava naquela mesma sala quando viu seu futuro revolver suas entranhas e matar-lhe seu mais verdadeiro amor. O choque que tivera sob os olhos sem pupilas da estátua invejosa ainda estava vivo em sua memória.

Sem que pudesse controlar seus instintos, Carol agarrou o primeiro objeto que viu a sua frente, sem se importar com o alarme que gritava a todo o museu que alguém tocara uma preciosidade. A estatueta do século XIX foi de encontro à Vênus de Milo, rasgando-lhe o ventre por inteiro.


Sirius, Betelgeuse, qual seria a próxima estrela a tentar intrometer-se em sua vida? Helen deixara a estufa desabalada, esquecendo-se que suas pegadas poderiam vir a condená-la. Tampouco se importava com seu futuro. Tinha estragado tudo tantas vezes que já duvidava que a vida ainda lhe reservasse algo verdadeiramente bom.

Começou a desacelerar conforme a mata foi se fechando. Ela impossível passar por entre os arbustos sem ganhar um novo arranhão. Ainda andava errante, absolutamente sem rumo, sem sentidos. Não podia estar fazendo a coisa certa... Pedira tanto para ele sumir e agora era ela quem estava atrás dele. Mas ele poderia ajudá-la, não poderia? Não, nem ele, nem ninguém. Queria apenas uma desculpa. Um minuto a mais. Precisava pedir desculpas. Precisava recuperar as esperanças.

- Ele tem que estar em algum lugar! Se você fosse ele, pra onde iria, Helen? Vamos, pense, mulher!! Ninguém o conhece como você...

Então Helen deu-se conta de que nunca encontrara Sirius. Era sempre o contrário: ele é quem vinha ao seu encontro. Diante de uma árvore gigantesca, Helen estacou. O cheiro de pinho adentrou-lhe as narinas, entorpecendo seus pensamentos. Podia jurar que alguém a observava, sentia o olhar quente a queimar sua nuca. Virou-se. A bruxa respirava rapidamente, no mesmo ritmo das batidas de seu coração. Ele estava ali. Tinha que estar.

- Sirius... – murmurou com a voz fraca, prestes a render-se a uma nova onda de soluços.

Os olhos atentos perceberam o cachorro negro mal camuflado pelos arbustos cobertos de neve.

- Sirius. – a voz um pouco mais fortalecida.

Helen deu um passo à frente, Sirius, um para trás. Ela estacou novamente, percebendo a frieza no olhar do cachorro. Sabia que ia fazer uma grande besteira, mas não se conteve.

- Não desista de mim... – a boca tremeu, incerta.

O cachorro ganiu, permanecendo estático. Então, Helen o viu balançar a cabeça de um lado para o outro, desaprovando sua atitude. Em seguida, a transformação.

- Inconstante! – ele retrucou, o rosto fechado. – Inconstante e louca! Você é louca, Helen!

Contente com a primeira vitória – vencera seu silêncio-, Helen exibiu um sorriso de alívio.

- Merlim, eu sou. E como sou. Mas, mesmo assim, por favor, não desista.

- É interessante como podemos ser tão fortes e tão fracos ao mesmo tempo, não? – ele baixou o rosto e começou a circular, escondendo-se atrás das árvores durante o percurso. – Eu consegui fugir de Azkaban, consegui me esconder durante todo esse tempo, mas eu não consigo... Inferno! Eu nunca vou conseguir desistir de você. Mesmo sabendo que preciso.

Disse isso e não reapareceu. Deixou-se ficar escondido por trás de um tronco, enquanto aliviava o choro represado. Abafava os soluços: homens não choram. Helen seguiu seu instinto para descobri-lo. Tomou-lhe as mãos descarnadas e aqueceu-as entre as suas.

- Me dê algum tempo. Eu preciso me concentrar em terminar Hogwarts. É a única maneira de ajudar a todos. E o garoto Longbottom... Eu preciso ajudá-lo... E a Harry... E a Lyra. Merlim...

Helen respirou fundo. A cada vez que se lembrava dos filhos e do marido, sentia uma faca a estraçalhar-lhe o peito. O que estava fazendo? Seria corroída por seus próprios remorsos até o fim da vida. Procurando conforto, a bruxa recostou a cabeça no peito de Sirius.

Ficaram ali algum tempo, abraçados, reconciliando-se com o destino. Sem promessas, sem planos, apenas aceitando que não eram fortes o suficiente para controlar o que sentiam. Teriam ficado ali pelo resto da eternidade, se um grito vindo de alguns arbustos à esquerda de onde estavam não tivesse lhes devolvido todas as preocupações anteriores.

- Ah, meu Merlim, acabei esquecendo de contar. Narcisa está desconfiada. Está me vigiando, através da sobrinha... – Helen se afastou rápida. – Tenho quase certeza que acham que eu posso levá-los até você.

Sirius se transformou no cão negro e logo a ultrapassou. O faro ajudava ainda mais que os ouvidos. Em pouco estava latindo ameaçadoramente para Terêncio Higgs.