Regulus

Quando se é um Black você já nasce condenado. Condenado a ser perfeito, acorrentando a tradições e escolhas que não estão em suas mãos. Todos esperam a perfeição em cada gesto, palavra ou atitude que tome. É como se mil demônios estivessem sobre suas costas, cada qual lhe ditando alguma ordem, querendo um pedaço de você. Faça isso, não faça aquilo, sorria, acene, destaque-se, seja o melhor. As vozes em sua cabeça são tantas que às vezes o medo de perder a sanidade dança ao seu redor. Ah, dançar, é impossível com tanto peso sobre seus ombros. O peso do nome, da honra e do orgulho. Há duas opções, acatar ao que eles querem ou seguir em frente e cortar os fios que lhe prendem como uma marionete. Você está condenado se o fizer, mas amaldiçoado caso não o faça. Preferi a condenação. Fiz, fiquei, fui o orgulho deles por muito tempo. A imagem carbonizada de Sirius era como um lembrete diário do que não fazer. Por muito tempo fui tolo e cego, não fui capaz de me livrar das correntes que me prendiam a um passado que nem se quer me pertencia, esse era o passado do sobrenome, não havia porque ser meu. Sirius teve esse discernimento, eu não. Por muito tempo deixei minhas próprias questões afogadas. Meus desejos, sonhos e anseios, cada um deles trancafiado em um baú de esquecimento. Por muito tempo fui apenas uma sombra de mim mesmo, cumprindo ordens que nem sempre me agradavam, mas dando orgulho a minha família. Ah, família, talvez aquela casa não fosse realmente um lar. Dias, meses, talvez alguns anos tenham se passado — o tempo não é algo linear ou coerente quando se perde a essência de si mesmo — até que finalmente me cansei da vida sem sentido que vinha levando. Meu coração parecia seco e sem graça, como aqueles pergaminhos em que Andromeda tanto gostava de escrever. Ah, ela também se livrou de seus demônios, empurrou a todos e cada um deles para fora de sua vida. Ela e Sirius, uma galáxia e a estrela mais brilhante do céu noturno, eles decidiram o que fazer de suas vidas, não foram meras marionetes nas mãos dos outros. Então decidi que não queria que no fim de tudo eu fosse lembrado como o bom garoto, aquele que deu orgulho para sua família, mas jamais soube quem era de verdade. Eu era Regulus, alpha leonis, uma estrela de grande porte. O pequeno rei. Rei de mim mesmo e de minha vida, o desfecho deveria caber a mim e não a eles. E foi nas águas daquele lago verde, recheado de mortos vivos em que sacudi meus próprios demônios. No final de minha estrada havia um drinque com bebidas da escuridão. Enquanto o liquido causticante descia por minha garganta, forçando-me a reviver meus piores momentos e todos os remorsos acumulados como velhos amigos, todos reunidos e saindo para brincar. Mas foi ali que encontrei minha liberdade. Naquela noite enterrei toda a história e comecei uma nova, de forma mais do que simples. Apenas um bilhete, três letras como assinatura. No final das contas eu seria lembrado como um enigma, alguém que fizera algo realmente importante e por decisão própria. Talvez Sirius sentisse orgulho, talvez tenhamos nos tornados mais parecidos do que jamais fomos capazes de supor. Talvez Andromeda também se orgulhasse. Narcissa certamente iria chorar depois de tudo e Bellatrix ficaria irada. Talvez cada um deles agisse de maneira diferente da que imagino, mas isso não importa muito. Libertei-me, lancei meus demônios fora, afogando-os naquele lago escuro e pude finalmente dançar no firmamento com as outras estrelas.


N/A: Pois é, me esqueci de colocar disclaimer no inicio, mas todo mundo sabe que HP não me pertence. D:
Fim de mais uma fic escrita há um certo tempinho, só agora deu tempo/coragem de postar.
Críticas, comentários e sugestões são sempre bem vindas.
Espero que gostem. *-*

Bjokas, LLB. ;*