Ano 1337 de Nosso Senhor

Inglaterra – Algum lugar no condado de Westmoreland


Não era mais que um amontoado de casas pequenas, perdidas em meio à planície, sendo castigadas severamente pela tempestade de neve. Perto dali, um clarão tal qual relâmpago iluminou os céus por alguns momentos.

Tudo continuava o mesmo. Num passo lento que comandava a vida das gentes simples daquele lugar.

Tudo estava prestes a mudar.

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Frio.

Frio. Era o que ocupava sua mente agora. Frio, arrepiava sua pele, congelava seus cílios e tomava conta de seu coração.

Frio. Embranquecia a terra com uma coberta branca e fofa da neve que recém caíra durante a madrugada.

Frio.

Frio. Conhecendo a pequena trilha de olhos fechado, pouco importava que as árvores estivessem completamente cobertas pela brancura enregelante, ou que de tempos em tempos algum galho estalasse perigosamente.

Seu irmão havia acordado das garras gélidas da morte, e agora precisaria de comida mais substanciosa do que pedaços duros de pão ou caldos ralos tão requentados que ninguém mais saberia dizer o que havia ali originalmente.

Enrolando-se numa das poucas mantas pesadas que possuíam, ela preferira checar as armadilhas, pois não conseguiria cuidar do irmão caso fosse necessário. O pai ajudaria melhor o rapazote enfermo.

O medo de ataques inimigos era tremendo, apesar de a pequena clareira com a armadilha não ser distante da choupana onde viviam. Adiante na estrada, uma pequena depressão na floresta que ficava coberta de folhas mortas nos meses mais quentes, mas no inverno era escondida pela neve. Neve fria e sempre fresca naquela região inóspita.

Ao aproximar-se dos grandes carvalhos ela sentiu a mudança na atmosfera. O ar cortante e gélido estava preenchido pelo súbito, e peculiar, alvoroço dos pequenos pássaros e a agitação anormal na vegetação em volta.

Cada passo tornou-se mais hesitante até que ela parou completamente. Próxima à pequena armadilha, uma espada brilhante estava enfiada no chão, balançando penosamente ao sabor do vento. Não era uma arma comum, como as que ela estava acostumada a ver sendo carregada pelos homens do rei. A lâmina entalhada continha inscrições que ela não compreendia, e o punho era ricamente decorado com pedras que pareciam preciosas.

Um pouco mais à frente, prostrado no chão como um grande boneco, estava um homem de pele muito alva e longuíssimos cabelos louros. Não haviam manchas de sangue à vista e ele estava desacordado.

Desacordado e nu.

Ela era uma moça simples e inocente, aquela visão fora o suficiente para fazê-la gritar alto. Estridentemente.

O homem recobrou a consciência num salto.

A donzela foi de encontro ao chão úmido. Desmaiada.

Não haveriam coelhos para o ensopado naquele dia.