O grito estridente e desesperado da jovem que agora estava desfalecida a poucos metros do homem fora o suficiente para trazê-lo em retornode volta ao mundo consciente. O frio incomodava-o absurdamente, mas isso era o esperado para alguém que vestia apenas a própria pele como no dia do nascimento – em pleno inverno de terras nortenhas.
Tentava levantar-se a todo custo, o pobre diabo, mas as pernas trêmulas e os braços dormentes em nada ajudavam; os cabelos empapados tinham um aspecto estranho, e a visão, ainda um pouco embaçada, não conseguia trazer a foco muito o que ajudasse. Distinguia vagamente a clareira, e as imensas árvores, e também o embrulho de tecidos rústicos que envolvia alguma coisa com bastante cabelo vermelho. Tentara gritar, mas sua garganta estava seca e o máximo que conseguiu com grunhir com o esforço que fazia.
Via também uma belíssima espada próxima de si, e, intuitivamente, tentando alcançaá-la, foi-se arrastando pelo chão – ainda não havia recuperado a força dos músculos – sentindo o sangue enregelar nas veias ante o contato com a neve. Desorientado, quase congelado, e sem realmente pensar no que fazia, era guiado pelo instinto.
Quando estava prestes a alcançar a lâmina, sua atenção foi capturada pelo alarde feito por homens e cães que agora adentravam a clareira.
...
Will estava velando pelo jovem Thomas quando sobressaltou-se. Poderia jurar que ouvira Brida gritando. A tempestade havia cessado, e o caminho até as armadilhas não deveria ter quaisquer obstáculos que não a já costumeira camada de neve. Olhou para o garoto desacordado na cama e decidiu que a garota precisaria mais de sua ajuda do que ele. Thomas havia recobrado a consciência afinal, o pior já havia passado.
Ali, na choupana simples de apenas um cômodo, procurou qualquer coisa que pudesse ser usada como arma: o bastão de caminhar teria que servir. Franziu o cenho, amaldiçoou o dia em que os coletores do rei haviam tomado tudo o que lembrava uma espada ou lança dos vilões! Como eles protegeriam à suas famílias e animais? Com porretes?
Sim, com porretes.
Atabalhoadamente abriu a porta, enquanto jogava um manto por sobre os ombros – a perna aleijada lhe atrapalhava nas tarefas mais simples - receoso de que algo de muito ruim houvesse ocorrido com Brida. Ainda era uma menina, sequer havia sangrado, mas era bastante esperta, e conseguia se virar bem, como ficara bem claro depois que o irmão adoecera com aquela febre. Um simples animal não a faria berrar como uma ovelha sendo estripada.
Próximo à saída da vila foi interceptado por outros moradores. Eram homens austeros e fortes, como era necessário ser naquela região fria; eles também haviam escutado e propuseramnham-se a ajudar. Mildred, a esposa do ferreiro, oferecera-se para olhar por Thomas enquanto os outros averiguavam o que teria acontecido a Brida.
Munidos com longos e rígidos bastões de madeira, enxadas e outras inúmeras ferramentas que nem de longe recordariam armas, eles adentraram na floresta. Acompanhados dos cães que, acostumados ao jogo da caça, cobriram rapidamente o trecho que separava a vila do ponto onde Will montara sua armadilhas para coelhos.
Chamavam por Brida em altos brados, tentando chamar conseguir atenção da jovem – e de quem possivelmente estivesse com ela – para o grupo. A clareira estava à vista quando Will sentiu seu coração acelerar fortemente: reconheceria os cabelos flamejantes de sua filha em qualquer lugar, principalmente espalhados na neve como estavam. Adiantou-se, afobado, erguendo o rosto da menina . Ela estava gelada, mas parecia que nenhum outro mal havia sido feito. Balançou-a com força, tentando reanima-la, e conseguiu.
"Brida! Brida! Fale comigo. O que houve?" – disse Will, mas não recebeu resposta. Ainda muito assustada, a menina apenas balbuciava confusamente, escondendo o rosto nas vestes do pai e agarrando-se a ele.
Ao menos ela não estava ferida, pensou, enquanto percebia os homens que o haviam acompanhado aproximarem-se ameaçadoramente de outro corpo mais à frente na clareira. Tirou a manta que trazia nos ombros e embrulhou a filha trêmula. Só agora notava que o bastardo estava nu. E se tivesse tentado contra a pureza de Brida?
Uma onda de raiva o atingiu. Queria estraçalhar o maldito, amassar sua cabeça até não sobrar nada além de um mingau sangrento...
O estranho movera-se para perto de uma das árvores, onde estava sendo acuado pelos cães. Os homens ao redor pareciam compartilhar da sanha sangrenta de Will. Não mostravam nenhum sinal de que retirariam as feras dali, tampouco tentavam acalmá-los, pelo contrário, seguravam suas ferramentas da maneira mais ameaçadora que conseguiam. Um deles, Uldric, um rapazote que não contava nem vinte verões, tentava desesperadamente retirar a espada brilhante da neve – sem êxito.
Will observou o homem loiro. Por mais que quisesse mata-lo ali, algo lhe dizia que ele estava tão ou mais assustado que Brida. Envergando a sensatez pela qual já era conhecido, disse:
"Amarrem-no. Cubram-no antes, minha filha não precisa olhar para as vergonhas de ninguém" – e foi regalado com olhares surpresos – "Cubram-no e tragam-no para a vila. Lá pensaremos melhor no que fazer" – completou. – "Vou levar Brida de volta. Ela não parece estar machucada".
Com isso ajudou a menina a levantar-se, apoiando-a pelos ombros e dirigindo-se em direção ao vilarejo, sendo imediatamente seguido por Uldric.
Simon, o gigantesco pastor, ouviu as recomendações com o que pareceu uma decepção tremenda. Todos os que ali estavam olharam para o estranho com cuidado redobrado. Além da longa cabeleira dourada, ele era grande e bastante forte, ainda que suas formas fossem mais esguias que parrudas, como lhes era costumeiro ver. E parecia mortificado de medo. Mas algo em seu semblante não combinava com toda a figura de pavor pintada na frente daqueles vilões. Parecia-lhes que, na primeira oportunidade, o estranho assustado poderia passar a algoz impiedoso.
E assim, exibindo uma ponta de satisfação no sorriso maldoso, Simon adiantou-se e golpeou o forasteiro na cabeça. Com um grunhido sufocado ele desmaiou mais uma vez.
...
Will colocava mais lenha na pequena lareira. Sentada na poltrona forrada de peles, com o fogo dando vida a seus cabelos vermelhos e bebendo um chá quente feito por Mildred, Brida parecia mais recomposta. Ainda tremia levemente, mas provavelmente era devido ao frio. Will esperava, paciente, para questionar a filha sobre o que havia acontecido.
Da cama, olhando para toda aquela comoção, sem entender o que estava acontecendo, Thomas era alimentado pela filha do ferreiro, que havia feito, sabe-se lá como, um ensopado com os poucos pedaços de carne que sobraram da noite anterior.
Acreditando já ter dado tempo suficiente para a filha, Will questionou:
"O que houve, Brida? O que a atacou?"
"Nada me atacou, pai." – respondeu a menina, ainda um pouco abalada.
"Mas havia um homem próximo a você na clareira, e uma espada. Ele tentou algo...?" – perguntou Will, temendo a resposta.
"Não, senhor. Ele já estava na clareira quando eu cheguei. Segui pela trilha dos pinheiros, como sempre" – ela disse, pausando para beber mais um pequeno gole do chá – "e tudo estava como sempre costuma estar depois de nevar. Mas eu consegui achar o caminho, e quando cheguei ao ponto das armadilhas... bom... havia aquele homem... e... sem roupas... e fiquei assustada e eu gritei!" – ela completou, sentindo as bochechas esquentarem com o rubor – "Eu só me lembro do senhor me sacudindo depois... e ... bem, é só".
"Tem certeza de que nada mais aconteceu?"
"Sim, pai." – ela disse.
Will ficou em silêncio por um momento. Lembrou da espada que Uldric tentara trazer. Precisaria conversar com o forasteiro, considerando que Simon não o tivesse matado, e assegurar-se de que nenhum mal havia sido feito à sua menina.
Virou-se para Mildred, e já tentava formular os agradecimentos pelo cuidado com seus filhos. A mulher o tinha ajudado das mais variadas formas desde a morte de sua esposa no parto de Brida. Uma intuição incômoda dizia-lhe que ela quereria mais que agradecimentos, mas preferia fazer-se de desentendido. Mais uma vez.
...
Simon esperava impaciente por Will na soleira da choupana. Não demoraria a escurecer e o estranho ainda não havia acordado, embora tivesse dado sinais de vida. Com ambos os filhos aquecidos e alimentados em casa, Will manifestara sua vontade de conversar com o forasteiro. Melhor tirar a história a limpo de uma vez por todas, pensava.
Os aldeões vilões que acompanharam no resgate – assim eles nomearam aquela comoção – amarraram o estranho homem à porta do estábulo onde estavam os poucos cavalos de tração do vilarejo. Haviam-no vestido com trapos deixados ali pelos responsáveis com os cuidados dos animais, e agora estava dobrado sobre si mesmo, os longuíssimos cabelos cobrindo o rosto.
Will se aproximou com um pequeno balde cheio d'água. O líquido enregelante fez o homem louro despertar num susto, respirando sofregamente.
- Agora, senhor desconhecido, vamos conversar. – disse Will.
