AQVA
Ou Anima
Ainda estamos na cama. O calor ainda impera, de certa forma. Calor das velas. Dos corpos.
Ainda suamos, ainda arfamos, ainda gememos.
Ainda, ainda, ainda. Infinita e deliciosamente ainda.
Suas mãos em meu peito auxiliam seus movimentos vagarosos. Ele sente dor, é visível. Mas não se rende; não desiste até que me tenha completamente dentro de si. Suas pernas tremem. Acompanho seu corpo esguio com a visão. Do membro ainda (ainda) rijo, até o sorriso vitorioso em seu rosto. Seus olhos fechados denunciam algum êxtase.
Não é nossa primeira vez desse modo. Logo, Mu sabe como me conduzir.
Infimamente, brinco - comigo mesmo - que o prazer que me proporciona seja mais efetivo como alterador de estado de consciência do que as ervas e chás que ele usa em seus rituais.
Descubro outras vias existenciais toda vez que meu - por que não? - amante me conduz ao êxtase. Cada vez que me pego fluindo, preenchendo-o de mim.
Adormeço por dentro.
Desperto com os olhos amendoados me acarando com um apelo pouco usual. Uma carência gritante e muda. Um inferno de água sem haver choro.
Nossos diálogos, em suma, se desenvolvem em grego. E assim seria, como de costume, se ele não me surpreendesse.
Um única frase em português carregado de tantos sotaques.
Tantas coisas Mu disse. Tantas sobre tramas e conspirações. Tantas em grego.
Fazendo uso da sombra que seu corpo projeta sobre meu rosto, de olhos arregalados me retive a escutar "vou sentir saudade" ecoando em minha cabeça.
