Música para acompanhar o capítulo – Butterfly, Jason Mraz
Dois meses e um dia depois.
Ainda haviam alguns pontinhos brancos e felpudos depositados sobre meus cabelos. Ao passar por uma das janelas do Salão, pude ver meu estado. Meu penteado já não podia ser chamado assim. Antes era um perfeito coque com fios estrategicamente soltos e cachos, e agora era apenas um embolorado vermelho com pingos brancos. Minha maquiagem ainda estava intacta, meus olhos se destacando. Meu vestido vermelho estava amassado, e o cinto que marcava a cintura estava torto. Apesar da inicial aparência e susto, não estava lá tão ruim. Uma menina passou por mim, agradecendo pela noite. Eu respondi com um sorriso tímido.
Não podia negar. A festa de inverno tinha sido um espetáculo; desde a decoração até a música, passando pelos convidados, comidas, e coisas assim. No início do ano eu tinha certeza que o Baile seria legal. Mas me surpreendi, vendo que havia sendo mais que legal. Perfeito descreveria melhor. Até mesmo os professores tinham deixado se levar pela alegria. Olhei para o Salão praticamente vazio, e Alice me encontrou com o olhar. Fui correndo até minha amiga.
— LILY, LILY, AH, LILY! — Ela veio correndo e me abraçou, fazendo nossos corpos se chocarem. Eu sabia como ela estava se sentindo. Orgulhosa. — Foi tudo tão perfeito! — Ela exclamou, dando um gritinho de felicidade. — E, aimeudeus!, o que foi todo aquele negócio de neve caindo, todo mundo flutuando? Você sabe mesmo como guardar um segredo! — Alice me deu mais um abraço, emocionada. Foi realmente lindo. Tinha combinado com Dumbledore para ser uma das surpresas do Baile de Inverno. Em certa hora do Baile, saquinhos cor de púrpura começariam a cair do céu, na quantidade exata. Cada um deles tinha uma estrela de cristal, que ficava piscando com as cores do arco-íris. No meio daquela cor toda, era possível ver a mensagem "Feliz Natal". Então, logo após isso, as pessoas começaram a flutuar. Flutuar mesmo, tipo voar em uma vassoura, só que sem a vassoura. E neve de verdade começou a cair sobre todo mundo. Essa parte não foi tão difícil. Dumbledore, eu, o professor Flitwick e mais dois ex-alunos que agora eram aurors em treinamento, fizemos um encantamento para as pessoas flutuarem enquanto dois alunos do comitê encarregavam-se da neve. Foi extremamente lindo. Um momento quase sem gravidade.
— É, é, mas não fui só eu, sabe? Muita gente ajudou. — Dei os devidos créditos, enquanto soltava um suspiro meio cansado. Porém, uma lembrança me agitou. Para mim, as surpresas da noite ainda não tinham acabado. — Agora acho melhor já irmos embora. Combinei com os elfos para eles limparem tudo aqui. — Expliquei. Teríamos bastante tempo para conversar na manhã seguinte. Além disso, eu ainda tinha um assunto pendente. Alice agarrou a mão de Frank, que também me parabenizara pelo trabalho bem feito, e ambos saíram. Encontrei com Dumbledore, e o agradeci com um abraço. O mesmo com Flitwick e os outros alunos. Todos pareciam radiantes, a noite tinha sido ótima. Andei até o chefe dos elfos e expliquei que a limpeza podia começar. Eles estavam mais do que gratos, já que eu armara uma espécie de festa na cozinha para eles também. Então, me dirigi até o palco montado, agradecendo à banda pela presença. Ouvi mais uns parabéns, enquanto aceitava o cartão deles, e finalmente, consegui fazer tudo que tinha que fazer. Ou quase tudo.
De fato, enquanto fazia todas aquelas coisas, meu olhar corria pelo Salão. Fiquei um pouco desapontada por não ver James. Pensei que ele me esperaria, mas tudo bem, ainda poderia encontrá-lo na comunal e pôr meu plano em ação. Tirei meus sapatos de salto alto, deixando meus pés relaxarem e pulsarem de dor por um instante. As outras coisas poderiam esperar até amanhã. Agora, eu tinha algo mais importante. Comecei a andar rapidamente até a saída, e quando estava pronta para subir as escadas, senti uma mão me tapar a boca e me puxar para trás, em meio às sombras.
u— Bico calado, garota. Isso é um seqüestro, e o preço para ficar livre é um beijo. — Soltei uma risada abafada, ao ouvir a voz de James. Ele usava um tom ameaçador muito falso, e eu imediatamente relaxei ao sentir o seu cheiro e seu toque. Minhas costas estavam pressionadas contra seu peito, e ele deu um beijinho na minha bochecha. — Então, vai pagar? — Ele continuou com a brincadeira e eu assenti.
— Já que você insiste. — Eu falei, quando ele me soltou. O nosso beijo foi diferente de todos os anteriores. Acho que James também percebeu essa diferença e gostou, o que me deixou com um sorriso bobo no rosto. Ele me abraçou, e eu o fiz também.
— Parabéns, meu amor. Foi tudo simplesmente perfeito. Você parecia um anjo, o baile inteiro. — Ele murmurou no meu ouvido, enquanto eu abraçava seu pescoço com força. — E eu te perdoo por ter esquecido seu namorado maravilhoso, forte e bonito por essa noite. Sei como estava ocupada. — Ele riu, mas eu me senti culpada. De fato, estivera tão aflita com tudo no Baile, que mal conseguimos ficar juntos. Mas eu iria pagar essa dívida.
— Obrigada. — Eu disse apenas, me enfiando mais naquele abraço familiar. — Mas, eu ainda tenho uma surpresinha pra você — Falei, e vi a mudança do seu corpo. Pareceu realmente ter se surpreendido. Eu sabia como ele ficava curioso, e estava apenas esperando pela insistência.
— O que? Mais uma? Pode ir contando! — Ele deu seu sorriso de cafajeste e me prendeu na parede, enquanto eu ria. Um dos aurors que me ajudou na hora do encantamento passou por nós, segurando uma risadinha e piscou para mim. Nem preciso dizer o quão vermelha eu fiquei. James nem ligou. Devia ter me acostumado já com esse jeito dele, mas simplesmente era demais para mim. Sorri com sua vontade de saber tudo, e o empurrei de leve com as mãos. Ele pareceu confuso, mas aceitou de bom grado minha mão. Entrelacei nossos dedos e comecei a subir as escadas. A cada degrau que vencíamos juntos, meu coração dava um salto no peito, ansioso. Eu estava nervosa, e não podia negar. Torcia para que minhas mãos não começassem a suar demais, ou me denunciaria. Eu não queria parecer hesitante ou inquieta, se não James não aceitaria o que estava por vir. Mas eu estava sim pronta, e não queria saber de mais nada. Após subirmos alguns lances de escada (eu estava completamente ignorando os resmungos de James, enquanto me mantinha em silêncio) parei e desenlacei nossas mãos.
— Agora vai ter que confiar em mim — Falei, sem titubear. Comecei a esfregar uma mão minha na outra, um modo de nervosismo. Acho que ele percebeu isso também, e me deu um daqueles sorrisos tranquilizantes que eu tanto amava.
— Hey, claro. — Ele falou, e esperou pro mais instruções. Eu respirei fundo.
— Ok. Eu tenho que ir dar uns últimos ajustes em umas coisinhas, e você tem que prometer que vai ficar aqui, paradinho. Eu juro que não demoro. E quando voltar, se eu pedir pra virar de costas, você vira. Se eu pedir pra fechar os olhos, você fecha. Entendeu? — Perguntei, preocupada. Queria que tudo desse certo. Geralmente dava, mas eu não estava lidando com uma circunstância normal. Ele assentiu, fazendo uma careta de ansiedade. — Ótimo — Bati palminhas e dei um selinho nele. Então, virei as costas e segui por um caminho. Realmente, eu estava contando com sua palavra. Ele não podia me seguir, ou tudo daria errado. Chegando ao meu destino, passei três vezes pela parede, com um pensamento forte. Quando a porta começou a se materializar, eu ainda estava um pouco vermelha pela intensidade do meu pensamento. Agora vinha uma das partes mais difíceis: Encarar tudo pela primeira vez. Entrei na Sala Precisa, observando sem fôlego o cenário perfeito que havia se formado. Corei novamente. Deixei para trás a decoração vermelha, a cama de dossel detalhada em ouro, os candelabros, a mesinha e tudo mais. Entrei por uma portinha de madeira, me deparando com um banheiro. Realmente, aquela Sala era demais. Dei um jeito no meu cabelo, deixando-o solto. Não ficou feio, talvez um pouco diferente, mas não feio. Ele estava liso em cima, e suas pontas ganhavam volume com os cachos desmanchados. Retoquei a maquiagem de leve. E contendo a vergonha que me assolava, olhei por dentro do vestindo, certificando-me que a Lingerie estava toda certinha. Passei as mãos nas bochechas, tentando parecer menos vermelha. Saindo do banheiro, olhei para toda aquela decoração. Será que se eu falasse, ela me ouviria? — Ãn, oi Sala. Eu vou sair agora só por uns segundinhos mesmo, e já já eu volto com o meu namorado. Será que você podia deixar a sua porta à mostra e não mudar a decoração? — Perguntei, olhando para cima que nem uma retardada. — Obrigada. Eu acho — Falei, franzindo a sobrancelha para mim mesma. Então, me retirei de lá. Após dar uns passos, vi que a porta ainda estava aparecendo, e dei um sorriso vitorioso. Cheguei à curvatura do corredor, e me deparei com um James que se movia de um lado para o outro, impaciente. — James? — Chamei, mordendo o lábio inferior. Ele se virou pra mim, a expressão suavizando-se.
— Vai parar com esse mistério todo agora? — Ele perguntou, se aproximando. Eu levantei o dedo indicador, e ele parou.
— Claro. Mas, antes, feche os olhos. E não os abra até eu mandar. — Ordenei, e fiquei satisfeita ao ver ele me obedecer de prontidão. Segurei sua mão, e caminhei um pouco, ouvindo o eco de nossos passos. Se eu estava nervosa? Como nunca. Podia sentir minhas pernas fraquejarem. Mas aquilo estava mudando. À medida que eu caminhava em direção ao próximo passo, uma confiança desconhecida começava a tomar conta de mim. Poderia fazer a mudança de menina para mulher ao lado dele. Senti um aperto em minha mão, enquanto James sorria cegamente. Era incrível a maneira como eu podia confiar nele. Perdia o fôlego só de pensar. Ao chegar na Sala Precisa, a porta ainda estava lá, e agradeci mentalmente. James deve ter ouvido o barulho de uma porta se abrindo, porque elevou a cabeça atentamente — Olhos fechados, James Potter — Falei, um pouco esganiçada.
— Sim, senhora. — Eu senti a curiosidade em sua voz. A Sala estava da mesma maneira que antes. Fiz com que James sentasse na cama. Fiquei observando a sua expressão. James apalpou a cama ao redor, e o vi franzir a sobrancelha e comprimir os lábios. Soltei um riso baixinho, mas ele ouviu. — Lil? — Ele perguntou ainda confuso.
— Só mais um instante. — Pedi, tomando um fôlego profundo. Bem profundo mesmo. Relaxei os meus músculos e parei de frente para James — Ok, ok, pode abrir os olhos — E aí não teve mais volta. Fiquei concentrada na sua expressão, enquanto ele analisava o quarto em que estávamos. Seu rosto ficou confuso, surpreso, feliz e então, com uma expressão que eu não entendi. Mordi o lábio inferior, e ele finalmente me percebeu no lugar. Seu olhar encontrou com o meu, e foi de uma profundidade tão grande que dei um passinho para trás. Senti como se aqueles olhos pudessem ver cada pensamento meu, por mais profundo que fosse. Senti como se eu estivesse nua a sua frente (aimeudeus, que metáfora mais idiota pra esse momento, Lily!), vulnerável. E foi uma sensação boa. Como se eu fosse um livro lacrado, e James tivesse a chave para me abrir, e estivesse me lendo pela primeira vez. Ele se levantou da cama, e continuou com a expressão indecifrável. E eu logo estava enterrada em seus braços fortes (Quadribol, já disse como te amo?).
— Lily, eu já diss...
— Não, sh, sh, é minha vez de falar. Nesses anos todos e principalmente nesses meses que ficamos juntos, eu sempre fui reservada. Mas eu não quero mais isso, James. Eu quero me abrir pra você, eu quero responder todas as dúvidas que tem sobre mim, eu quero mostrar como eu gosto de você, sem deixar dúvidas sobre o que eu sinto é verdadeiro. Quero que você confie em mim como eu confio em você, quero que você me entenda como ninguém, quero que você me preencha por completo. — Olhei em seus olhos, entrelaçando nossos dedos. Eu podia ver como aquelas palavras marcavam-no. — Em todos esses anos você deixou claro para todos e tudo o quanto me amava, mas só hoje me dei conta de que eu nunca disse uma palavra em troca — Pisquei fortemente para não deixar as lágrimas de culpa me invadirem. — Mas sabe o motivo disso? Porque eu tinha medo. Todos esses anos eu me neguei pra você, porque tinha medo que você só quisesse me usar. Quisesse apenas me exibir como um troféu, mas isso não é muita surpresa. O meu maior medo é me apaixonar, me envolver. Porque apaixonada, eu fico boba, e fico incerta e ajo sem razão. Eu tenho medo disso! — Comecei a me atrapalhar nas palavras, então respirei fundo e recomecei — Eu tinha medo de admitir que estava amando porque eu sabia que não poderia cuidar de mim mesma. Mas aí eu me dei conta que se você cuidar de mim, tudo vai ser melhor ainda. — Dei uma pausa dramática, meu lábio inferior tremendo um pouquinho — Eu te amo mais que tudo nessa vida, James Potter. — Respirei fundo, terminando meu discurso. James me agarrou de uma forma que eu nem pensei que seria possível. E eu entendi o olhar que ele me dava. Era um olhar de paixão. Mais que isso, devoção. E eu tinha certeza que estava olhando-o do mesmo modo.
— Te amo, te amo, te amo, garota, mais que... mais que, Merlin, te amo mais do que posso explicar. — Ele murmurou, enquanto alternava selinhos no meu pescoço. E foi a partir daí que nossa noite de amor começou. A primeira de muitas, devo dizer. Nunca me senti tão completa e feliz e exuberante e animada e cheia de vida como naquela noite. Foi mágico e inexplicável. Foi aí que eu tive a grande certeza que James era o cara com quem eu queria passar o resto da minha vida. Queria envelhecer ao seu lado, e montar um daqueles álbuns de família, e morrer de mãos dadas com ele. Mal eu sabia o que o destino guardava para mim... Mas, enquanto James estivesse ao meu lado, eu me sentiria bem. Para além da eternidade.
n/a: Obrigada a todos que acompanharam, com ou sem reviews! Beijinhos!
