Anosmia
Por: Watashinomori
Capítulo 03
Richard estava batendo a cabeça com força contra a parede. Ele odiava aquele sentimento. Não ver Wally, sua razão lhe dizia que não havia motivos para pânico, mas ainda assim ele estava tremendo, chorando, quase vomitando e gritando. Estava sentado no banheiro, caso não conseguisse controlar o vômito, sentia o estômago protestando violentamente, provavelmente conseguiria uma úlcera antes do fim da noite. Suas costas apoiadas na parede na qual batia a cabeça tentando se controlar. Ele tinha uma ótima noção do quão ferrado ele estava. Pior, ele sabia que podia ligar para o amigo e pedir que voltasse. Mas seu orgulho não o permitia ser ele a acabar com a reunião da família e seu pânico estava levando a melhor sobre sua razão.
Tim viera e tentara distraí-lo. Damian soltara uns comentários ácidos e petulantes durante sua visita, mas parecia tão preocupado quanto os outros irmãos. Jason aparentemente voltara a sua própria vida para evitar maiores problemas com o velocista e o irmão. Alfred fora o último a verificar seu estado e isso tinha sido antes de Richard desistir e correr pra chorar no banheiro escondido.
-Merda, eu realmente sou uma garotinha de catorze anos – mordeu o lábio, se encolheu e chorou baixo, entrando num desespero silencioso.
-Dick? - uma voz chamou do seu quarto. A porta do banheiro abriu com força e o ruivo correu até seu lado. - Céus, Dick! Acalme-se. Olhe pra mim, vamos! - levantou o rosto do outro o colocando sentado. - Por que não me ligou se estava ruim assim? Eu teria vindo num minuto – acariciou seu rosto, o olhar correndo pelo banheiro tentando descobrir quão ruim fora o ataque.
-Eu não queria atrapalhar a reunião de vocês. Era só uma bobagem minha.
-Não é bobagem, eu quero que me ligue assim que não aguentar mais – o abraçou. - Eu não gosto de ver você assim.
Dick moveu-se em seu abraço, era terrível para ele encarar os olhos verdes, ele temia se perder naquele olhar e se deixar levar, e acreditar que eles seriam seus. Antes que pudesse desviar o olhar o outro se aproximou, encerrando a distância entre eles e o beijando. Esse era um beijo completamente diferente de todos que partilharam, fora lento e gentil, não parecia ter nenhuma paixão envolvida, apenas carinho. Empurrou Wally com força.
-Não! - exclamou. - Você não vai fazer isso comigo! - tentou levantar, escorregando um pouco no processo. - Isso é cruel demais! - estava chorando em desespero.
-Dick?
-NÃO! Você não me ama dessa forma, eu sei! Se você quiser me fuder para acalmar seus hormônios eu aceito. Mas se você me beijar dessa forma eu não vou conseguir viver a minha vida sem outro desse! Não me dê esperanças, Wally. É muito cruel! Eu amo você!
-Dick – murmurou, fechando os olhos.
-Eu quero isso mais que tudo no mundo. Eu não vou aguentar ter a única coisa que eu realmente desejo para perder logo depois porque você voltou a razão e percebeu que sua vida é com Artemis e que isso tudo não passou de um desejo passageiro. Para você pode ser fácil agir como se estivéssemos juntos e me descartar depois, mas para mim não é. Ter um gostinho da vida perfeita para depois voltar a ficar te observando com o canto do olho, ou ouvir como você é feliz com outra pessoa. Ou rezar para que ache um tempo para passar comigo, ou que... - e foi beijado de novo.
-Eu não sei o que eu quero – murmurou contra os lábios do outro. - Eu sei que não quero voltar para o que tínhamos antes. Eu quero poder abraçar e beijar você quando me der vontade, eu quero a primeira proposta que me fez, eu quero você – encostou as testas. - Mas eu não sei se eu quero só você. Eu sei que estou sendo cruel.
-Quer tentar? - respondeu entre choro. - Tentar voltar com Artemis? Quero dizer, eu não me importo em ser o segundo em sua vida. Em ser seu amante – respondeu baixo.
-Você quer isso, ou apenas não se importa? - Wally perguntou sério, olhando fundo em seus olhos.
-Eu... eu só quero ficar com você da maneira que conseguir. Se for assim que tiver que ser. Então, sim, eu quero.
-Então vamos fazer, dessa maneira. Amanhã eu converso com Arty, amanhã eu decido. Hoje só me deixe tê-lo.
-/-/-/-/-/-
Quando terminaram os exames na caverna Dick ficou nervoso. Wally saiu para se encontrar com a namorada. Ele ficou com medo. E se o ruivo percebesse que não o queria mais. Que tudo não passou de descontrole por causa do tempo que ficou sozinho.
-Patrão Richard, gostaria de por favor se concentrar no exercício em vez de fazer de qualquer maneira como se nem tivesse ouvido minhas instruções.
-Desculpe, Alfred.
-Gostaria de conversar? Já que aparentemente minhas instruções e nada parecem a mesma coisa?
-Não, eu estou bem.
-Não, não está, e acredito que tenha a ver com o Patrão Wallace ter ido reencontrar uma certa arqueira? - Dick engasgou. - Não é como se, apenas porque não vi a tal cena na Watchtower, eu não soubesse o que vocês andam fazendo. Eu lavo seus lençóis no final das contas, Patrão Dick.
-ALFRED! - corou violentamente e sentou na cadeira de rodas que o mordomo trouxe, um exagero, mas ele não conseguia refusar.
-Bom, agora comece a me contar tudo que assola o seu coração, meu garoto.
-Ok, é sim por causa de Artemis. Eu o amo desde que consigo me lembrar...
-Oh, eu sei desde quando. Me diga se algum dia eu esqueci de colocar alguma toalha em algum banheiro desta casa?
-Eu desconfiava – sorriu, para o homem mais velho. - Eu o amo, mas ele não me ama, não dessa forma. Eu consegui seduzi-lo, mas eu duvido que eu tenha ganho algo além do corpo dele, Alfred. E ontem, ele... ele me beijou de uma forma diferente, quase carinhosa. Eu... eu surtei. Eu tenho medo que ele não queira ficar comigo de verdade. Eu não queria um beijo cheio de promessas para vir seguido de "Eu e Artemis não aguentamos mais!" - começou a chorar. - EU NÃO QUERO SER REJEITADO! NÃO DE NOVO! - tremeu violentamente. Alfred se alarmou, eu reconheceu ali o mesmo choro do ataque de cinco anos atrás.
-Patrão Richard, mantenha a compostura. E me escute. Primeiro, por mais que tenha medo de ser rejeitado você nunca vai saber se não tentar. Ele sabe como você se sente e ficou por perto, no mínimo o rapaz sente alguma coisa por você. Segundo, você vai apenas desistir? Vai deixar que ele corra para a garota depois de tudo que vocês passaram? Por que não vai atrás dele e o seduz de volta aos seus braços? Por que não o conquista em vez de esperar que ele te ame de volta apenas por causa da história da amizade de vocês? Ninguém ganha nada só bancando o coitado.
-Alfred?
-Eu não sou o Patrão Bruce, eu não vou passar a mão em sua cabeça e dizer que você está fazendo um ótimo trabalho quando tudo que você faz é sentar e chorar. Reúna a sua coragem e vá atrás do que você quer, não foi dessa forma que você virou o Robin, o primeiro dentre todos os sidekicks? Então levante, embora não literalmente, por favor, o seu rabo dessa cadeira e vá lutar pelo que você quer. Porque, francamente, Patrão Dick, eu não vou mais ser conivente com essa sua atitude. Agora retorne ao seu exercício e sem mais distrações – incapaz de retrucar voltou para a fisioterapia.
-/-/-/-/-
O que o levara até ali era complicado. Ele estivera tão furioso que nem pensou antes de agir, apenas fez. Dick estava sendo teimoso sobre esse assunto. Ele não negava que ainda estava confuso, mas quando tudo finalmente pareceu certo e encaixado, quando ele só quis aninhar o outro homem nos braços e o beijar, fora rejeitado. O outro aceitou tranquilamente quando quase o machucara por não ter controle sobre o seu desejo. Por isso quando Dick sugeriu que ele deveria voltar para Artemis, viera sem titubear e agora não sabia o que estava fazendo. Bom, ele sabia, estavam dando uns amassos, por assim dizer. Mas ele não sentia-se tão tentado a levar isso adiante. O corpo sob o seu parecia menor do que deveria, por isso não se encaixava tão bem. O gosto em sua boca parecia errado, o toque podia ser firme e decidido, mas lhe faltava uma força, como se estivesse se agarrando a ele para manter-se vivo. E ele não podia negar que faltava uma certa dureza contra seu corpo, mas ele se recusava a acreditar que sentia falta dessa parte.
-Wally, chega – ela o empurrou. - Onde está a sua cabeça?
-Bem aqui, babe – e tentou retomar o beijo.
-Nem remotamente, Baywatch. Você está pior do que quando estava quase reprovando em Física III – ele gargalhou ante a memória.
-Impossível, naquele dia eu estava literalmente morrendo – ela não riu de volta. - Desculpa, eu esqueço que vocês me viram morrer.
-Você fala assim perto do Dick? - ele fez uma careta e se afastou dela. Isso não ia a lugar nenhum mesmo.
-Não, ele reage um pouco mais do que só resmungando.
-Eu o vi em cada um dos aniversários, Wally. Mais do que isso, eu sempre notei como ele te olhava, como ele parecia adorar cada lugar que você estava, ou coisa que você usava. Ele te olhava de uma maneira que me fazia sentir culpada. Eu não conseguia te olhar daquela maneira.
-Como assim?
-O olhar dele era...
-Não, sobre os aniversários. Como assim? - ela ergueu uma sobrancelha.
-Ele lamentava cada um deles como se tivesse acontecido naquele ano. Eu me senti horrível no primeiro ano e no segundo, mas depois a dor foi morrendo, parecia ter cicatrizado, entende. Doía, mas só se eu cutucasse bem fundo. A cicatriz ainda estava lá me lembrando do que eu perdi, mas não era como se fosse mais doloroso. Mas pra ele era. Ele chorava cada vez, e chamava por você. Eu não aguentei mais a culpa, eu não conseguia mais me sentir dessa maneira. Ninguém conseguiria, o Flash e o pirralho choravam também, mas ninguém sentia como se você tivesse acabado de ser tirado de nós. Cinco anos é muito, Baywatch.
-Eu não te culpo, mas...
-Você é um egocêntrico – ela riu. - Duvido que resista ser adorado dessa maneira. É por isso que não estamos chegando a lugar algum aqui? - ele corou.
-Eu não colocaria assim.
-Mas é – e gargalhou. - Está tudo bem, sério. Eu também não posso negar que eu acho que não íamos muito adiante, você continua lindo, Wall-man, mas eu segui em frente. Ainda não é nada sério, mas pode virar. Eu não sinto mais o mesmo por você – olhou para ele de maneira carinhosa. - Eu só concordei em vir pois não conseguiria seguir em frente sem confirmar isso.
-De certa forma, eu também não – respondeu.
-Foi uma boa sessão de amasso, pelo menos. Você continua gostoso – ela bagunçou seus cabelos e ela deitou em seu colo. - Então, me conte o que você e o Troll andam fazendo – ele ficou tão vermelho quanto os cabelos. Ela sentou de imediato e riu. - Sério? Então você é gay agora, Baywatch?
-Não! Não sei! Acho que não! Merda!
-Você não estava ficando duro, tem noção disso? - ela apontou para sua virilha.
-Podemos evitar falar sobre isso?
-E perder um tópico de gozação eterna? Jamais! Então, agora o Wall-man é Wall-into-man(NA: Algo como Wall gosta de caras)?
-Eu não gosto de caras, só do Dick (NA: Dick em inglês quer dizer pênis, dentre outras traduções como 'babaca'. Além de ser apelido comum para Richard.)... ESQUECE! ESQUECE O QUE EU DISSE AGORA! - ela gargalhava alto e puxou o telefone. - NÃO FAÇA ISSO COMIGO ARTEMIS, POR TUDO QUE VIVEMOS JUNTOS NÃO MATE MINHA VIDA SOCIAL – e enterrou o rosto nas mãos.
-Megan, você não vai acreditar no que eu acabei de ouvir! - ele soltou um muxoxo se enterrando no sofá querendo desaparecer.
-/-/-/-/-/-/-
Megan e Conner apareceram logo depois. Artemis lhe fizera o favor de chamar seus amigos, quase todos, e dar uma pequena festa. Ele queria voltar para casa o mais cedo possível, já que não podia confiar em Dick para lhe ligar caso estivesse com problemas de lidar com a distância. Mas então ela ligou para o garoto e mandou que viesse. Bart falara que não precisava sair que ele mesmo traria o amigo, estava mais que acostumado com isso, o que rendeu resmungos enciumados dele e de Jaime. Agora estava num canto com uma bebida, que deveria ser alcoólica, mas tanto fazia para ele, em um segundo o álcool era metabolizado em seu sistema. Conner se aproximou olhando enviesado para Megan e Artemis.
-Que-quente aqui, não? - perguntou franzindo as sobrancelhas. Wally podia gargalhar e mandar parar e avisar que as garotas estavam tentando rir de sua cara... mas seria muito mais engraçado ver aonde isso ia parar.
-É mesmo, acho que até para você deve estar quente – sorriu, o garoto, ele ainda aparentava dezesseis, franziu mais a sobrancelha. - Quer um gole? Está gelado – ofereceu a bebida.
Conner recusou e olhou para as garotas que fizeram um movimento com as mãos indicando para ele seguir em frente. Elas nem tentavam disfarçar o plano delas. Ele virou-se irritado, Wally queria muito gargalhar agora.
-Algum... algum problema se eu tirar a camisa? Está mesmo... quente... - ele estava corando e ficando furioso, era uma visão hilária.
-Vá em frente – soltou alguns risos que não conseguiu segurar e Conner o olhou como se implorasse para ele o impedir. - Sem problemas por mim.
E o riso morreu na garganta. Sim, Conner era muito bonito com todos aqueles músculos bem trabalhados e tal, mas não havia sido isso que o calara. Dick entrou no recinto, ainda mancando com a perna quebrada, mas ele compensava com a graça natural com a qual se movia. Ele estava vestido com uma calça jeans meio desbotada, um tanto quanto justa, uma camisa de botão vinho por dentro da calça, com as mangas enroladas e alguns botões abertos, e um colete negro sobre ela. Mas o que matou Wallace fora sua aparente falta de pânico. Além que parecia ser o único secando o rapaz, algumas verificadas ao redor depois lhe garantiram que não era o único, apenas o que sabia menos disfarçar.
Ele olhou para onde Wally estava, ergueu uma sobrancelha para o descamisado Kent ao seu lado. Conner olhou para ele, fundo em seus olhos, e tentou explicar a situação. Uma virada para as garotas e era óbvio o que estava acontecendo.
-Wally, pare de ajudar as garotas. Vista-se, Conner, e da próxima não concorde em zoar com alguém – tocou no peito do garoto descamisado, acariciando um pouco os músculos e deslizando a mão pelo peito dele antes de se afastar para o lado do ruivo. O meio-kryptoniano ergueu uma sobrancelha confuso, enquanto vestia rapidamente a camisa. Wally olhou para Dick enciumado.
-O que foi isso? - silvou entre os dentes.
-O que?
-Isso. Você aqui, sua arrumação, isso!
-Eu vim pois me chamaram, eu disse que não queria interferir em suas reuniões, então achei que vir era a melhor solução, eu não ia vir desarrumado e isso, até a última vez que verifiquei, é chamado de flerte – murmurou a última parte contra seu ouvido, arrastando as sílabas e tocando levemente os lábios no lóbulo da orelha, para então se afastar.
Aquele Dick Grayson que estava em sua frente não era o mesmo que encontrara quando acordou naquela manhã. Ele adorava o Dick dependente e choroso, mas esse que estava na festa. Ah, esse parecia perigoso. De uma maneira boa, muito boa e deliciosa.
Dick achou uma maneira de flertar com quase todos na festa, exceto por Tim, obviamente, e Wally. Cada vez que procurava o amigo eles estaria no canto com alguém, conversando muito, muito perto. Ou dançando com alguém, como seu pé estava quebrado ele pedia que a pessoa compreendesse que ele só poderia dançar lento. Quando Barbara Gordon apareceu, lhe lançando um sorriso estranho, que a coisa piorou. Dick e ela ficaram juntos o resto da noite, ela o puxou para seu colo em um momento, e eles dançaram juntos sobre a cadeira de rodas, arrancando 'Awn's de todos na festa.
Wally bebeu tudo que conseguiu colocar a mão, amaldiçoando quem resolveu que metabolismo rápido era um de seus poderes. Quando se irritou ao pegar Dick acariciando nada inocente o torso de La'gaan, enquanto pegava algo para ele e Barbara beberem, finalmente desistiu de se segurar. Caminhou até o moreno e o segurou pelo braço, o puxando a força até o banheiro. Quando ia gritar ou qualquer coisa, fora beijado. Furiosa e deliciosamente. Antes que pudesse lembrar que estava com raiva se viu sentando sobre o vaso e sua camisa sendo arrancada, Dick travou a porta do banheiro e sentou sobre seu colo.
-Céus, eu achei que ia precisar realmente beijar alguém para que você fizesse algo – mordeu o lábio inferior do ruivo o puxando.
-Você estava esperando que eu fizesse algo?
-Oh, céus, Wally. Eu chego na festa e você está num canto com Conner Descamisado Kent. Achei que você estava me desafiando – e sorriu sedutor lambendo os lábios e desabotoando a camisa. - Então achei que precisava te provar um ponto.
-Qual ponto? - perguntou passando suas mãos pelo torso do outro, o puxando sobre si, tentando fazer alguma fricção entre eles.
-Que você ainda está anos-luz de conseguir me superar nesse tipo de joguinho, e que eu sou infernalmente sexy – sorriu mordendo seu pescoço. Wally soltou um urro. Esperava que a música os abafasse eficientemente, porque eles iriam fazer barulho.
-Ponto provado, podemos mover adiante?
-/-
Quando saíram do banheiro, desalinhados, corados e ofegantes, a festa estava muito mais calma agora. Mal e Karen já estavam indo, ela tinha muito trabalho acumulado, ainda. Bart e Jaime estavam no canto protagonizando uma das cenas mais fofas, Bart descansava com o rosto enterrado no pescoço do namorado que o embalava suavemente murmurando coisas para ele em espanhol. Megan e Conner estavam sumidos, assim como Kaldur e Artemis. Tim e Barbara falavam secretamente num canto, e algo lhe dizia que esses dois não estavam sendo românticos, pelo ar de urgência que os rodeava provavelmente discutiam algo relacionado ao trabalho de salvar o mundo.
-Quanto tempo ficamos no banheiro? - Dick perguntou, rindo.
-Aparentemente tempo suficiente para eu começar a me gabar de minha resistência – e riu.
Algumas das pessoas com quem Dick flertou pareciam um pouco tímidas na presença dele, mas outras pareciam mais que acostumadas com essa atitude do rapaz. Zatanna se aproximou, passando os braços ao redor do pescoço dele e pedindo outra dança, ele sorriu para ela, mas antes que respondesse Wally passou a mão ao redor de sua cintura.
-Ele ainda me deve uma dança, Zee. Depois, quem sabe?
-Hm, interessante, pois eu achei que vocês estavam dançando no banheiro – e piscou para eles se afastando.
Quando a festa finalmente terminou, no meio da madrugada. Haviam pouquíssimas pessoas no apartamento. Artemis e Megan voltaram ainda, embora os garotos tivessem tido que resolver alguma missão da Liga, fizeram Wally repetir a mesma história de como fora resgatado. Quando todas as atenções voltaram para o rapaz que voltara do mundo dos mortos ele se afastou e observou a interação do ruivo. Barbara se aproximou e murmurou em código que o Batman estava chegando para levá-los e que Red Robin e ela tinham trabalho. Wally se despediu dos amigos, brevemente e prometeu que voltaria no dia seguinte para ajudar com a arrumação. Jaime acordou Bart, que caminhou até Dick e pediu a chave do apartamento dele, era mais perto para eles dormirem. A chave do apartamento era o mesmo que o código para desativar as defesas e permitir a entrada de Blue Beetle sem ser atacado. Coisa que ele entregou ao garoto sem pestanejar.
Chegaram a mansão rapidamente, Alfred os esperava com um banho pronto para ambos, e sorriu misteriosamente para Dick.
-Vejo que está melhor, Patrão Richard.
-Se você diz, seu mordomo velho – riu baixo. - Você estava certo. Feliz? Você está sempre tão certo que dá raiva.
-Ótimo, agora os senhores vão tomar o banho de vocês antes que a água esfrie. E cada um em um banheiro distinto – e acompanhou os rapazes mansão adentro.
-/-/-/-/-/-
Wally levantou com a cama vazia. Ele pulou assustado procurando por Dick ao redor, entrou no banheiro e percebeu que ele estava tomando um banho, se tranquilizando ele recostou contra a porta do banheiro, observando o homem no chuveiro.
-Acordou? Achei que você dormiria a manhã toda, Kidiota.
-O que você faz acordado tão cedo?
-Eu sempre acordo cedo, lembra? Treinamento – saiu do chuveiro, pingando e pegou a toalha para se secar. Ele com certeza estava se movendo daquele jeito lânguido de propósito.
-Você está com a perna quebrada.
-Existem vários exercícios que não precisam usar a perna, por exemplo, hoje eu fiz barra – e apontou para uma barra presa no umbral da porta.
-Hm, algum outro que você possa pensar – se aproximou insinuante.
-Alguns, sim. Por que? - respondeu usando um tom inocente.
-Porque eu tenho uns em mente – deslizou a mão pela cintura do rapaz.
-Nós estamos engajando demais nessas atividades – comentou.
-Isso é uma reclamação?
-Nem de longe – e se deixou levar de volta para o box.
-/-
-Ok, eu preciso saber o que fez essa mudança toda? - Wally perguntou, sobre o café-da-manhã. Dick sorriu para ele.
-Eu recebi uma bronca bem dada.
-Jason? Achei que ele tivesse ido embora porque me odeia.
-Alfred.
-Oh.
E ambos ficaram em silêncio. Haviam algumas respostas que não precisavam de explicação, duas delas eram Batman e Alfred. Batman é capaz de inspirar medo e coragem nas pessoas, qualquer inimigo treme diante de seu nome e qualquer herói se sente mais impelido a ganhar quando sabe que o morcego está vindo. Qualquer de suas ações são consideradas calculadas e, mesmo que pareçam loucas no momento, bem pensadas. Então o que pensar do homem que criou o primeiro?
-Me lembre de agradecer a ele depois. Eu podia até gostar da dependência, mas eu prefiro o meu melhor amigo de volta – e socou o ombro do outro.
Dick sorriu, genuinamente feliz. Não havia sido o processo mais fácil do mundo juntar sua coragem de volta. E seu eu. Porém ele conseguiu fazer. Dick Grayson lembrou que nunca antes ele havia sido conquistado, ele era quem conquistava primeiro. Ele não esperava, assim como não esperou ser velho suficiente para caçar vilões e loucos em Gotham. Ele não esperou a reunião acabar para ir até o Cadmus resgatar Conner. E não ia esperar Wally se decidir, se ele o queria então iria conquistá-lo. Quando o telefone tocou ele sorriu diante da oportunidade. Quando chegou na festa sua convicção fraquejou, entretanto. E ele se arrependeu por um momento de não ser do tipo que esperava, principalmente quando ele resolveu ir até o Cadmus resgatar, bem, Conner Descamisado Kent. Mas não durou depois de notar as garotas rindo, e gesticulando para a massa de músculos. Percebeu que ele provavelmente estava sendo obrigado, e depois notou o olhar de Wally sobre si e que todo mundo também notara. Resolveu que não choraria, não entraria em depressão, juntou toda sua força de vontade, e por um momento repetiu o juramento dos Lanternas Verdes apenas para juntar inspiração, e caminhou até o ruivo, tentando flertar com qualquer criatura viva no apartamento.
Durante aquela noite quase desmoronou por duas vezes, mas Bart e Babs seguraram suas pontas. Bart estava mais do que acostumado em pegar suas pequenas pontas e princípios de ataques, desconversar e deixar o clima ameno. E Babs, ela era a mulher da sua vida. Nenhuma outra pessoa além dela e Wally conseguiam pegar suas nuances tão fácil, nenhuma outra pessoa era tão cúmplice dele quanto eles dois. Ele a amava do fundo do coração, e isso não ia mudar nunca. A chegada do Oráculo à festa o salvou, pois ele estava crente que Wallace nem se importava para seu joguete. Apenas a chegada da ruiva que o acalmou e consolou, além de ter feito ele parecer uma garotinha por dançar em seu colo. Ela lhe apontou para todos os olhares e rosnados que o ruivo estava dando. Ela quem lhe disse para ir atrás de La'gaan, que tinha um certo histórico de ficar com ex de heróis.
Acordou mais leve naquela manhã. Sem desespero observou o ruivo que dormia ao seu lado, usando uma terrível cueca do Flash e uma camisa do Kid Flash. Controlou a respiração sem problemas, sentindo-se com energia pela primeira vez em dias resolveu se exercitar por conta própria. Durante todo o exercício tentou não olhar pro ruivo. O manteve o mais longe de sua visão possível. Queria o máximo de afastamento, para conseguir o máximo de confiança possível. Depois foi tomar um banho, exausto de colocar sua mente em linha. Mandou uma mensagem para Red Hood, um simples: "Você estava certo. E eu vou me arrepender de ter dito isso".
-Dick?
-Desculpe, eu estava distraído.
-Eu perguntei o que nós somos agora, exatamente – ótimo, agora ele ia voltar ao estado mental de catorze anos.
-Eu não sei, eu disse que você quem decidiria.
-Eu estou confuso aqui, cara. Podemos fingir que a pessoa que eu estou confuso sobre é qualquer um diferente e conversar só com o meu bro um instante?
-Vá em frente.
-Então, cara, é o seguinte. Tem esse cara, tipo, eu gosto bastante dele e tals, e acho que sempre gostei, mas ele é um cara, e se Conner sem camisa não fez nada nas minhas partes baixas eu provavelmente não sou gay – Dick gargalhou.
-Conner sem camisa não fez nada nas partes baixas? Não é gay, definitivamente. Eu acho difícil respirar quando ele perde a camisa por qualquer razão.
-Ok, melhor amigo gay – resmungou exasperado.
-Não fique triste. Você tem o par de pernas que deixa todos nós delirando.
-Eu não quero saber que 'todos nós' é esse e nota mental: Comprar calças justas pra vir ver você.
-O Universo agradece – eles gargalharam.
-Voltando, sim? Bom, eu não sou gay, mas esse cara me deixa louco. Tão louco que eu estava com Artemis no meu colo e... nada... eu nem fiquei meio nada. Foi apenas nada. Eu fui até ela só porque esse cara me deixou irritado, ainda por cima.
-Como assim? - seu coração estava acelerado.
-O idiota me rejeitou. Eu fui beijar ele, depois que já tínhamos ido bem longe, diga-se de passagem – Dick ergueu a mão e murmurou 'hi-five', Wally bateu em sua mão sem interromper a narrativa. - E ele disse que não queria. Eu nem sei o que eu queria. Quero dizer, eu devia ter o direito de o beijar se eu quero, não devia?
-Acho que você precisa de um relacionamento pra isso.
-Esse é o problema, eu não sei o que fazer. Eu achei que nós já tínhamos um, mas ele parecia não achar. Quero dizer, até o irmão dele disse que estávamos namorando.
-Você disse para ele?
-Eu não achei que precisava. E eu ainda estou confuso, eu devia ter nojo da ideia de dormir com um cara, mas ele... Cara, você não tem ideia das coisas que passam na minha cabeça quando eu olho pra ele – e lhe lançou um longo olhar, ele ficou um tempo calado. - Bom, eu estava confuso se era só desejo. Mas eu sempre gostei dele, sabe. Tipo, nunca de uma maneira romântica, mas eu não sabia viver minha vida sem ele nela. E o tempo que nós passamos afastados, antes da minha morte e tal, foi um inferninho. Quando eu fiquei preso na speedforce eu só pensava em comer, dormir e conversar com ele. Eu nem pensava em Artemis. Quando eu acumulava muita, er, energia, eu pensava nela, mas agora eu acho que não vai ser ela quem vai vir a minha cabeça.
-Sei lá, parece que você quer um relacionamento com ele.
-Eu sei, tipo, seria perfeito, não? Quero dizer, eu não precisaria ter que escolher entre uma foda e um tempo com meu amigo. Imagina o cenário, eu tou jogando videogame com ele, então a gente começa a se agarrar, fazemos umas coisinhas, depois eu ganho dele...
-Ok, vamos parar com isso, eu não vou deixar você deliberadamente fingir que consegue ganhar de mim em nenhum jogo.
-Eu ganho.
-Nem ferrando. E agora que eu sei que consigo manter o seu foco... desconcentrado... eu duvido que você ganhe de mim de novo.
-Eu jogo sem as calças – ele desafiou.
-Eu treinei com o Batman – e fim de argumentos. Eles riram, Wally quase caiu da cadeira rindo.
-Então? O que nós somos? - Wally perguntou se aproximando e o abraçando.
-Namorados?
-É, seria bom, não seria? - e esfregou o nariz contra o cabelo negro.
-Muito – ronronou de volta. - Só que eu não vou aceitar amantes, eu retiro um monte de coisa que eu disse quando estava surtado.
-Tudo bem, eu consigo compreender. Eu também falei muita coisa só para elevar meu ego, no fim das contas. Eu não quero mais ninguém além de você – eles se beijaram longamente.
-Você cheira a café da manhã, sabia? - e Wally gargalhou.
-/-/-/-
Nota da Autora: Tem um epílogo e continuação. Essa fanfic não teve a profundidade que eu queria, mas eu corrigi na próxima
