Edmundo afastou-se do acampamento, sentou-se na grama e suspirou. Risadas e música vinham de trás dele. A missão havia sucedido. Estavam escondidos nas montanhas, entre um pequeno e simpático vilarejo e um denso bosque. Ele havia mandado seus soldados investigarem o vilarejo enquanto ele mesmo se aventurara entre as árvores com Phillp mas mesmo assim...nada. Não que ele esperasse alguma coisa. Ele sabia desde o princípio que quem acabaria encrencado era Pedro e não ele, porém estava tudo normal demais, calmo demais...
- Não vai curtir a festa? - Phillip se aproximou devagar. - Já que iremos para o acampamento do seu irmão amanhã?
Edmundo balançou a cabeça.
- O que há de errado?
- Nada.
- O senhor pode ser um ótimo rei, mas nunca foi um bom mentiroso.
Edmundo sorriu.
- Não tem nada de errado. Quero dizer...a comemoração é perfeitamente plausível. Mas é que...não sei como explicar...tem algo de muito errado nisso.
- Acha que seremos atacados?
- Não. E isso seria impossível.. Quer dizer, aqui só tem esse vilarejo e mesmo que eu não tenha ido lá, me disseram que o povo não poderia ser mais amável.
- Você não acredita nisso?
- Não...não! Ahh, eu não sei...talvez eu esteja sendo racional demais e deva ir lá tentar me divertir.
- Quer ir cavalgar?
Edmundo sentiu-se feliz por ser Phillip e não um de seus irmãos quem estava ao seu lado. Pedro riria da encucação dele ( já provavelmente meio bêbado ), mandaria tirar a sua bunda preguiçosa do chão e ir para a festa. Susana o olharia como quem diz: Por que de todas as pessoas eu fui ter um irmão tão anti-social assim? e Lúcia, com aquele sorriso enorme e olhos pedintes o convenceria a ir com ela na comemoração. Mas Phillip não. Ele saberia e soube respeitar como ele estava se sentindo, terminando por sugerir a única coisa que o faria se sentir melhor.
- Por que não?
XXXX
- Eu amo Nárnia. - Edmundo falou do nada.
- Na posição de rei, se não amasse, seria estranho, não?
- Não foi isso que eu quis dizer. É que...tudo começou do nada. Na batalha de Beruna, eu mal havia chegado e já estava disposto a me sacrificar por tudo isso.
- Ainda não vejo o que há de tão ruim.
- Não tem nada ruim. Se eu estou feliz com os meus irmãos e comigo mesmo, é por causa desse país. Aqui eu tive a oportunidade de me redimir, não só pelo que houve com a Feiticeira mas pelo moleque idiota e irritante que eu era antes.
- Você continua um moleque idiota e irritante, com o perdão da palavra.
Edmundo caiu na gargalhada.
- É, talvez. Mas mesmo assim, tudo que aconteceu...eu sinto que era pra acontecer. Não que eu não me arrependa de ter ido atrás da feiticeira. Mas é que se eu não fosse, Pedro e Susana teriam convencido a Lúcia a voltar pra casa e eu não teria tido a chance de aprender com os meus erros e de me reparar, talvez nós nem tivéssemos sido coroados.
- E um moleque falante também. Muito falante.
- Você está ouvindo o que eu estou dizendo pelo menos?
- Cada palavra, apenas não existe necessidade para que eu comente. Pois se você não tivesse sido estúpido o bastante para nos trair, talvez não se tornasse um rei tão bom quanto é hoje. E isso é um elogio, meu senhor.
- Eu sei, meu amigo, eu sei.
Eles deitaram-se na grama e Edmundo ficou a olhar o céu.
- Por que você me escolheu?
- Huh?
- Por que você escolheu ser o meu cavalo?
- Eu não escolhi. Apenas aconteceu de no primeiro dia a gente se encontrar. E depois no segundo, terceiro, quarto...Depois de algum tempo não consegui pensar em mais nenhum outro companheiro com as qualificações necessárias para sê-lo.
- Está certo...nenhum outro cavalo é convencido o bastante. - Ele riu mas calou-se de repente ao som de um grito estridente que emergia ao longe.
Rapidamente procurou a espada com a mão mas não a encontrou. A deixara na tenda. Droga!
- Suba. - Phillip fez um aceno com a cabeça, entendendo imediatamente a preocupação dele. - Vamos voltar.
XXXX
Não fazia muito tempo desde que eles se afastaram e agora que voltaram, tudo tinha mudado. Algumas tendas pegavam fogo enquanto os soldados que não morriam queimados, acabavam decapitados por aqueles "amáveis" moradores da vila. Edmundo rangeu os dentes. Ele se inclinou e pegou no chão uma enorme lança enquanto Phillip corria em direção a batalha sem hesitação. O invasores estavam felizes demais com a provável vitória que nem notaram a aproximação deles. Phillip empurrou dois deles com força enquanto Edmundo habilidosamente manejava a lança eliminando um por um. Ele já não conseguia ver mais nenhum de seus aliados e imagem de Lúcia chorando voltou-lhe a cabeça. Eu tenho um mal pressentimento, Ed.
- Cuidado! - Phillip gritara tarde demais.
Uma espada o atingira com força no ombro direito e ele caiu uivando de dor, enquanto seu companheiro jogara longe o agressor.
- Estou bem, estou bem. - Ele se levantou com dificultade e pegou uma espada com a outra mão. Sua vista começou a falhar e ele quase caiu pra trás, mas mais uma vez Phillip o ajudara.
- Você prometeu a sua irmã que a encontraria no acampamento de Pedro. Não desista.
Edmundo não estava ouvindo ao certo. Só via mais e mais vultos virando-se para eles, atraídos pelos gritos. Ele apertou a espada com força e correu para o ataque. Era melhor pegar o inimigo o mais desprevenido possível.
Tudo estava mais dicícil naquele momento. Não só por ser vários combatentes. Mas estava ficando mas difícil de lutar, correr, manter os olhos abertos e até respirar.
- Suba! - Phillip gritou pra ele, que obedeceu prontamente. - Não há mais nada que possamos fazer aqui. Não sobrou ninguém. - Ele saiu cavalgando na direção do bosque.
XXXX
É um sonho. - Edmundo pensava pra si mesmo. - Tem que ser um sonho!!
Apenas a dor que sentia sem cessar fazia-o acreditar que era real. Tudo dera errado, absolutamente tudo! Por quê? Ele se sentia péssimo por estar abandonando batalha. Mas não havia jeito, não haveria esperanças pra ele e Phillip se continuassem lá. Com muito esforço virou-se para trás e viu que não estavam sendo seguidos. Como? Se bem...de que isso adiantava agora?
- Você está ferido.- Falou num sussurro.
- Você também. - Phillip respondeu com esforço sem parar de correr um minuto sequer.
- Nós não vamos conseguir...
- Cala a boca!
- É muito peso...
- Cala a boca!
- Você tem que me deixar aqui, Phillip.
- É exatamente por esse motivo que eu te mandei calar-se!!
Edmundo reuniu toda a força que ainda lhe restara e rolou, caindo no chão.
- Não! - O cavalo voltou-se para ele.
Ele sorriu enfraquecido.
- Estamos ambos feridos, você não conseguirá...
- Eu estava ciente desse fato quando saímos da batalha. Suba!
- Sinto muito, amigo. Nos separamos aqui.
- Você não vai me fazer mudar de idéia.
- Nem você a mim.
- Esse não é o fim da linha.
Talvez seja pra mim...
- Será pra nós dois se continuássemos! Você não entende? Olhe o seu estado!
- A decisão de continuar ou não é minha. E não farei isso enquanto você não estiver nas minhas costas.
- Quando você se tornou tão egoísta? Se se recusar, não poderemos avisar Pedro e os outros. Eles podem ser atacados também!! Diga-me, Phillip. Você conseguiria viver, sabendo que foi o responsável pela morte de dois de meu irmãos e de outros soldados completamente inocentes?
- Talvez. Eu só não conseguiria viver sabendo que abandonei meu rei e meu amigo a morte.
Um longo silêncio instalou-se entre eles.
- Vá embora. - Edmundo sussurou
- Realmente espero que me perdoe por desobedecer essa ordem, meu rei.
- Não te ordeno que vá como um rei! Mas te peço com todo o meu coração como amigo!! - Sem perceber inúmeras lágrimas escorreriam pela sua face.
- Eu, eu não posso.
- Faça isso por mim, Phillip. É a única coisa que te peço...
- Mas não será a última. Prometa-me que não será a última.
- Você tem a minha palavra. - Fechou os olhos devagar e uma onda de cansaço o dominou.
- Eu voltarei. E Aslam o proteja se você não estiver exatamente aqui.
Edmundo deu um sorriso fraco e mais lágrimas se uniram as primeiras.
- Phillip, eu...
- Isso não é uma despedida! - Ele deu a volta e começou a correr sem olhar pra trás, o que fez Edmundo se sentir um pouco melhor. Desde que fugiram da batalha eles evitaram ao máximo fazer contato visual. Imaginava como doería ver os olhos do amigo cheios de lágrimas ( embora ele se esforçava ao máximo para parecer inabalável ) e como seria doloroso para o outro vê-lo numa situação tão patética.
O barulho do galope foi ficando longe até que ficar inaudível. Estou sozinho. Talvez não por muito tempo... - Ele olhou para o rastro de sangue que deixara. A ferida parecia feia e a dor não lhe dava um minuto de trégua. Urgh.
Tudo a sua volta foi perdendo a nitidez e ele tossiu. Estou perdendo sangue rápido demais. Ele se apavorou. Não era o fato de estar perto da morte o problema, mas sim morrer sozinho. Com muito esforço olhou ao redor. Tinha esperanças de que Aslam apareceria do nada para salvá-lo mas nada aconteceu. Que infantil, Ed! Isso foi seu erro, arque com ele! No fim vai dar tudo certo...aquela não terá sido a última vez que você os viu. - Pensou em seus irmãos e em seus amigos. - Não pode ter sido.
Então tudo escureceu.
Continua...
N/A: Nossa, penei pra escrever esse capítulo. haha
De qualquer forma, espero que tenham gostado.
Tcham tcham tcham. O que vocês acham que vai acontecer agora?? Será que eu matei o Edmundo?? :O
Oscar, cala a boca que você não pode contar o que você já sabe! :X
Obrigada pelo apoio com as reviews! É muito, muito importante pra mim tudo isso! E claro, me falam também como vocês acham que a história vai continuar...
Mil beijoos!
