Pedro olhou os outros. Sentia-se como se estivesse espiando na cochia os bastidores da mais velha e gasta peça de teatro do mundo. Porque era isso que era: uma peça de teatro imutável. Examinou os companheiros ao redor, todos discutindo e gesticulando fervorosamente. Ele quase podia adivinhar a fala de cada um deles. Tem sempre um energúmeno para sugerir a coisa mais idiota possível. Seu argumento seria recebido com impaciência e rebatido por outro personagem buscando encrenca. Um pouco antes desses dois se matarem, seria a vez do Grande Rei interferir, desempenhando seu nobre papel: acalmar os ânimos, lembrar que somos todos companheiros narnianos, que não há razão para brigar e sugerir um meio termo entre os dois extremos. Logo depois, ele tinha que fingir estar interessado em ouvir ambos argumentos e por fim, expressar a sua opinião, que acabava por não mudar nada, tendo em vista que era Oreius quem sempre ponderava sobre o melhor a se fazer. E o centauro estava sempre certo.

A peça começara:

- Eu digo que não é preciso o uso de armas!! Deixa-la-emos aqui no acampamento enquanto procuramos por pistas! - O Sir Conan desempenhara com destreza o papel do energúmeno.

Risos e sussurros repletos de ironia e desprezo preencheram a sala.

- Se é assim, por que não convidamos nossos inimigos para tomar um cházinho? - Sir Duncan provocou o outro e foi recebido com indignação.

- Não estamos em tempo para piadas. Se o senhor não é capaz de portar-se de maneira civilizada, sugiro que se retire.

Pedro fechou os olhos. Não, não queria ouvir mais nada, não queria sequer estar ali. Ainda mais depois de ter passado a noite inteira em claro! Amaldiçoou lentamente todos os presentes por estarem roubando-lhe a paz.

- Você está bem, Vossa Majestade?- Oreius perguntou, atraindo toda a atenção para o Grande Rei.

O silêncio então reinou na sala. Pedro não foi capaz de dizer se era uma coisa boa ou ruim. Normalmente responderia algo como: Perfeitamente, não há motivo para preocupação. Vocês podem continuar como desejam.". Mas hoje não estava sendo um dia normal, ele não estava se sentindo normal. Foi então que ele fez a coisa que julgaria ser totalmente incocebível e impossível de acontecer. Ele se levantou e falou:

- Senhores, é do conhecimento de todos aqui presentes o rumo que essa reunião vai tomar: vocês vão discutir por horas, num tom nada educado, até chegar a minha hora de expressar uma opinião. Esta será, como sempre, descartada por Oreius, que dará a palavra final como ele sempre faz. Então, por que não poupamos tempo e a minha sanidade mental e perguntamos diretamente para ele? - Pedro podia ver o queixo caído de todos. - Então...Escutem o que nosso general tem a dizer porque ele está certo. Eu realmente não tenho nada contra ficar e discutir mas não me sinto bem hoje. Acho que preciso ir tomar um ar fresco. - Ele se retirou da tenda.

As pessoas explodiram a falar, muitos tinham surpresa na voz, outros, indignação, preocupação...mas com todos falando ao mesmo tempo ficou dificil decifrar qual era a opinião da maioria. A voz grave de Oreius os fez calar.

- Como Vossa Majestade colocou, eu tenho um ponto a dizer sobre esse assunto, e acho que todos deveriam ouvir-me.

E o assunto voltou a ser o mesmo de antes.

O coração de Pedro batia forte ao caminhar na floresta. Isso tudo era tão...irreal. Como ele, o grande rei, o irmão mais velho, o responsável, fizera uma coisa dessas? Na mesma hora que sentia-se aliviado por deixá-los resolver o problema, uma vozinha fina e irritante ressoava dentro de sua cabeça. Ele se admirou como sua consciência soava muito parecida com Susana.

- VOCÊ ENLOUQUECEU? - Ele podia imaginar a irmã com as mãos na cintura e vermelha de raiva ao seu lado.

- Talvez...eu só...precisava ficar sozinho um pouco.

A imagem de Susana imediatamente se transformou em Lúcia.

- Você não podiar ter feito isso!

AH NÃO! Agora ele tinha sua irmã menor contra ele? Totalmente injusto.

- Mas Lu... - Antes que ele pudesse se justificar, ela já tinha sumido e agora era Edmundo quem estava em sua frente.

- Quem é você e o que você fez com o meu irmão? - Apesar de parecer uma pouco chocado, ele trazia um tom divertido na voz.

- Olha só quem está falando!?

Edmundo riu.

- O mundo definitivamente vai acabar.

- Dá pra vocês dois se focarem no assunto principal?? Eu não acredito que você fez isso!! - Susana reapareceu junto com Lúcia.

- Pedro, como você pôde?

- É só que eu...

- É melhor que você tenha uma bela desculpa para isso senão...

- Você sempre diz que essas reuniões são importantes...

- Eu vou atrás de você arrebentar a sua...

- E agora faz isso? Como você espera...

- Cara eu mesma. Você pode escrever issso. Pela...

- Que nós sigamos seus conselhos agora...honestamente...

- CALEM-SE! - Ele esbravejou já nervoso.

Todos se entreolharam hesitantes. Então Pedro caiu na gargalhada.

- Droga! Agora eu sei como você se sente. - Virou-se para o irmão mais novo.

- Já que sabe, é melhor pegar mais leve na próxima bronca! - Edmundo riu.

- Podemos voltar a discutir sobre a merda que você acabou de fazer? - Susana balançou a cabeça.

- É só que...isso é tão...estranho. Não é do seu estilo fazer uma coisa dessas. - Lúcia se explicou.

Pedro olhou a Rainha Valente com muito carinho. Ela tinha crescido tanto, mudara muito. Se não fosse pela sua personalidade e agora, por um sarcasmo e um ímpeto por buscar aventuras, que ela provavelmente herdou de Edmundo, ela era quase um clone da irmã mais velha. Chegava a ser engraçado. Estranho, claro. Mas engraçado.

- Se vocês me deixarem falar, talvez eu possa explicar. Eu explodi, não tava aguentando mais de tédio, de saudade de vocês. Sei que o que eu fiz não foi certo e vou me lembrar disso por toda eternidade...

- Sabia que você estava sendo legal demais pra ser verdade! -Edmundo exclamou

- ED! - Lúcia o repreendeu, fazendo um esforço sobrehumano para não rir. Mas foi tudo em vão.

- Aiii! - Ele recebera um beliscão da irmã mais velha. - Só estava tentando suavizar o clima. Além do mais: ele é o culpado, eu não.

- Traidor. - Pedro sussurrou.

- Pedro, o fato de você se arrepender não muda o que já passou não tem como voltar atrás.

- Você pode parar, Su? As coisas são tão mais simples quando você só precisa se preocupar com vestidos e coisas assim...

- Você não levou em conta que EU é que tenho que cuidar de tudo, já que você não passa de um sem-juízo!

- Ei, ei, ei!! - Lúcia berrou. - Melhor vocês pararem com isso.

- Melhor mesmo, odiaria ouvir os narnianos comentando que seus reis mais velhos mataram um ao outro. - Edmundo interferiu. - Agora, sério. Sei que no fundo você está se remoendo por ter feito isso, Pedro. Eu te conheço. Mas não há nada que se possa fazer. O máximo que vocês vão conseguir gritando é uma bela de uma dor de cabeça. O melhor agora é você se desculpar com todos, especialmente com o Oreius.

Todos olhavam-no chocados.

- O quê?

- Ed...isso foi... - Lúcia começou.

- A coisa mais sensata que você disse na sua vida toda! - Susana desatou a rir e Pedro não conseguiu mais controlar-se.

- Vocês todos são tão engraçados...- Ele fez uma careta.

- Nós também te amamos, Ed! - Lúcia brincou.

- Todos vocês, vão acabar me enlouquecendo, sabiam? - Pedro sorriu.

- Você já está maluco, Pedro. - Lúcia falou calmamente, fazendo o mais velho erguer a sobrancelha.

- Afinal, você é o único... - Susana esplicou.

- Que fica falando sozinho durante todo esse tempo. - Edmundo completou com uma gargalhada.

- Vossa Majestade? - Uma voz surgiu por trás do Grande Rei, fazendo- o pular de susto.

- O-oreius! É você! - Ele virou para o lado onde a segundos atrás estavam os seus irmãos e não viu nada além.

- Você está bem, meu senhor?

- É...é só que...ah, esquece! Talvez eu esteja ficando mesmo louco. Acho que eu devo-lhe umas explicações e um pedido de desculpas, general.

- Não é necessário. 7 anos reinando em Nárnia e participando dessas mesmas reuniões chatas. É perfeitamente compreensível.

- Mesmo assim...

- É compreensível, mas não apropriado. Não pegaria bem para a sua reputação.

- Eu sei, meu amigo. Você está certo, como sempre.

Continua...

N/A: Muito tempo depois...por culpa da escola, unicamente...aqui estou de volta! haushaushaushu

Capítulo em homenagem a Isabela porque o Pedro é a cabeça-oca mais linda que ela já viu. ;)

Essa idéia me veio a cabeça totalmente do nada...espero que estejam gostando e que não tenha ficado ooc. E podem ficar tranquilos, o Pedro não vai ficar maluco não! Aliás, essa coisa de imaginar uma conversa com outros irmãos foi uma coisa tão divertida de se fazer, que eu vou usá-la novamente mais pra frente. Próximo capítulo vai ser uma continuação direta desse, a Lúcia chega e tcham tcham tcham: o phillip também. algo me diz que aí sim é que o Pedro vai enlouquecer!

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Agradeço a todos que me mandaram review e me encheram o saco pra postar mais"

Até o próximo capítulooo!