Pedro era o Grande Rei de Nárnia, ele era o irmão mais velho, aquele que com responsabilidade, aquele que se importa, que cuida de tudo e de todos. Pelo menos ele deveria ser. Mas havia fracassado em todos os sentidos. Não havia avaliado direito os planos de batalha e consequentemente enviado seu irmão mais novo para uma guerra. Uma Guerra para qual nem ele nem Edmundo estavam preparados. E agora ele estava cavalgando para onde Phillip jazia e, claramente, onde estava a verdade, onde descobriria o que acontecera, onde seu fracasso seria revelado. Já passara por uma situação parecida na Batalha de Beruna, não poderia enfrentar isso de novo, não queria.
Ao contrário do Rei Magnífico, Lúcia mal podia esperar para encontrar Phillip e descobrir a verdade. Ela sempre fora a mais curiosa dos quatro, sempre procurando novas aventuras, conhecer pesoas, lugares...Agora cada segundo parecia séculos e o caminho até o cavalo parecia infinito. Ela queria saber o que acontecera, principalmente quando se tratava de um de seus irmãos. Apenas rezava para Aslam que não fosse o que tanto temia.
Isso não é real!
- Lu, o cordial! - Nem precisavam tê-la lembrado. A jovem rainha desmontou e no segundo seguinte já estava ajoelhada perto de Phillip.
Pedro não demorou a chegar a seu lado e segurar-lhe a mão. Bem no fundo não sabia se estava tentando confortá-la ou se era ele que buscava conforto com a irmã.
Lúcia pingou umas poucas gotas na boca do cavalo e virou-se para o outro. O Grande Rei não gostava de esperar. Não que ele fosse impaciente, apenas não podia fazer nada para ajudar. Diante deles Phillip jazia desacordado. Phillip, não qualquer outro. Era o bravo cavalo que lutara com eles diversas vezes mesmo sem esperança de vitória, a leal companhia de Edmundo. Edmundo. Sentiu um gosto amargo na boca.
Ele não era o único a sofrer com a espera. A Rainha Destemida de repente não se sentia mais merecedora de seu título. Estava com medo. A última vez que precisara tanto de seu cordial fora na Batalha de Beruna e essa não havia sido uma boa experiência.
Os olhos de Phillip se abriram vagarosamente e o coração dos dois monarcas deu um grande salto. Mal sabiam eles que o que estava por vir era pior do que a espera em si.
- Relaxe, você está entre amigos. - Pedro tentou acalmá-lo.
- Vossa Majestada.
- Não temos tempo para formalidades. - Lúcia os cortou. - Precisamos saber.
- Conte-nos!
Durante toda a joranda até o acampamento, Phillip tentara encontrar uma boa maneira de contar-lhes toda a história mas não conseguiu. Não havia um jeito fácil de falar, finalmente entendeu isso ao ficar cara a cara com os monarcas, ambos com os olhos vermelhos. Ele suspirou fundo e começou.
Nenhum do dois ousou interromper a narração e tampouco falar qualquer coisa quando ele acabou.
Isso não é real.
Atrás deles Oreius e Nell procuraram se livrar da multidão de narnianos curiosos que se aglomeraram em volta de cena chocados.
- Atacados? Você ouviu? Atacados!
- Estamos perdidos!
- O cavalo o abandonou a própria sorte!
- Ele era um bom Rei...
A última frase fez Lúcia levantar-se em um salto. Agora ela não fazia o menor esforço para conter as lágrimas que jorravam incessantemente e deslizavam da bochecha até o pescoço, terminando a "corrida" na gola de seu vestido.
- EDMUNDO É UM BOM REI! - Ela gritou fazendo o máximo possível para não soluçar. - ELE É! NÃO ESTÁ MORTO!
Todos fizeram silêncio por um momento mas a situação era demais para eles. Em um único dia receberam a notícia da provável morte de Rei Edmundo o Justo e agora a Rainha Lúcia, a alegre e amável Rainha havia acabado de explodir. Era demais. Irromperam a falar.
Isso não é real.
- Calem a boca!! - A caçula implorou, já não achando mais forças para gritar. - Ele não está morto, não está morto, não...
- CALEM-SE! - A voz foi grave, dura e pertencia a Pedro. Todos obedeceram prontamente ao vê-lo de pé com a espada em punho. - Eu...mandei...- Assim como a irmã, sua voz foi falhando.
-VÃO! - Oreius ordenou empurrando os narnianos de volta ao acampamento, junto com Nell. Dessa vez não houve nenhuma resistência. Ao vê-los se distanciarem, o General voltou-se para o Grande Rei.
- Vão. - Pedro apenas repetiu.
- Vossa Majestade....- Nell começou mas Oreius a interrompeu. A maneira como Pedro lhe respondera não havia sido dura, pelo contrário, era quase como se ele estivesse cansado demais para discutir, como se estivesse pedindo um favor. E não era o centauro que ia negar-lhe. - Vamos. - Se dirigiram para o acampamento.
- Por quê? - O Rei perguntou.
Ele não precisou terminar a frase. O cavalo sabia muito bem o que o outro queria saber.
Isso não é real.
- Ele me pediu.
- E você simplesmente aceitou? Resolveu simplesmente abandoná-lo a morte??
- Edmundo é, acima de tudo, MEU Rei e ninguém poderia saber o quão difícil foi para mim cumprir a ordem recebida. Com o perdão da palavra, senhor, não espero que você entenda.
É difícil descrever o impacto que as palavras "Meu Rei" causaram em Pedro. Geralmente seus súditos se referem a um monarca por "Vossa Majestade", " Nosso Rei" ou simplesmente usam o título. Mas Edmundo era o Rei de Phillip assim como este era o seu cavalo. Era assim que as coisas eram e sempre seriam.
A Rainha olhava do irmão para o outro repetidas vezes sem saber o que fazer, dizer ou pensar.
- Pedro... - Ela começou mas logo foi cortada.
- Descansem hoje. Iniciaremos uma busca amanhã.
- Vossa Majestade, se me permite discordar...
- Não, Phillip, não permito. Você ficará aqui essa noite. Essa é uma ordem e meus guardas se certificarão de que será cumprida.
- Pedro...
- O mesmo serve para você, Lúcia. - O Grande Rei deu as costas e começou a andar de volta para o acampamento.
Isso não é real. Não pode ser real. Por favor, Aslam, não deixe que seja real.
XXX
- Você ainda está acordado. - Lúcia quebrou o silêncio.
- Sim. - Phillip respondeu mesmo sabendo que a Rainha não lhe fizera uma pergunta.
- Não consegue dormir?
- Não quero. Cavalos só deitam para descansar ou quando estão feridos. Eu só deitarei quando tiver a certeza de que Meu Rei está salvo.
- Leve-me com você. - Lúcia falou de maneira tão simples que o assustou.
- Não estou indo a lugar nenhum. Não hoje.
- Não sem mim. - Ela sorriu.
- Rei Pedro ordenou...
- E eu estou ordenando o contrário. A diferença entre mim e ele é que eu posso acabar com o seu plano agora mesmo.
Ambos se olharam por um grande período de tempo como se estivessem se enfrentando. Nenhum dos dois ousou desviar o olhar. Por fim Phillip riu.
- Você é igualzinha a ele.
Isso fez as pernas da caçula tremerem e ela sentiu as lágrimas voltarem a escorrer pelas bochechas.
- Você acha?
- Ele tem certeza. - Uma voz misteriosa os assustou. - E eu também. - Pedro saiu de trás de uma árvore.
Todos ficaram em silêncio durante bastante tempo sem saber o que dizer. Lúcia e Phillip entendiam o porquê da proibição de sair essa noite. Não era seguro, havia várias coisas a se debater mas mesmo assim...não podiam ficar. E mesmo não querendo, o mais velho dos Pevensie compreendia-os muito bem. Foi exatamente ele que deu o pimeiro passo.
- Os guardas estão jantando.
- Eles nunca deixam seu posto ao mesmo tempo.
- Hoje eles deixaram.
- Oh, Pedro! - A Rainha Destemida se jogou em cima do irmão soluçando. - Eu te amo!
- Eu também te amo, Lu. Mas, pela juba do leão, tome cuidado. Eu não conseguiria passar por isso novamente.
- Eu prometo. Também prometo contar ao Edmundo que você irá socá-lo por ter nos dado esse susto!
O Grande Rei assentiu com a cabeça já não conseguindo prender o choro.
Phillip assistia a tudo calado. Precisava muita coragem partir em uma missão cujo futuro é incerto, porém era necessário muito mais coragem para deixar alguém querido partir.
- Vai, vai, vai! Antes que eu mude de idéia! - Pedro empurrou a irmã para o lado do cavalo. - Em dois dias, no mais tardar, me juntarei a vocês.
- Vossa Majestade. - Phillip começou. - gostaria de me desculpar.
- Proteja minha irmã e lhe serei eternamente grato. É tudo o que peço.
- Sim, senhor.
Lúcia abraçou o irmão pela última vez antes de montar em Phillip e ambos saírem em disparada.
Pedro ficou olhando-os diminuir com a distância até serem engolidos pela escuridão mas desta vez ele não sentiu medo. Aslam estava olhando por eles.
- O senhor está bem? - Oreius, que presenciara toda a conversa, se aproximou.
- Só saberei daqui a dois dias, general. - O Grande Rei engoliu em seco mas logo depois riu de nervoso. - Se eu não acabar morto por esses traidores, Susana mesma acaba comigo.
Continua...
N/A: Só pra mostrar pra vocês que eu não morri! haushauhsuahusha
Bom, eu gosto muito desse capítulo. Ele teve um ar mais dark porque, cá pra nós, não tinha como não ter. Ah, não tenho muito o que falar. Só espero que vocês gostem. :]
Também quero avisar que ficarei um bom tempo sem postar essa fic por causa do vestibular. Quem quiser, pode dar uma olhada nas minhas outras de Nárnia. Garanto que elas também são boas (Y)
Agradecimentos a todos que me mandaram review me incentivando a continuar. É sempre bom saber que seu trabalho é apreciado.
Manda review é fácil, rápido e não precisa estar cadastrado no fanfiction.
Está esperando o que para fazer sua boa ação do dia? Dá um clique no retângulo aí embaixo.
