Destino Traçado
Capítulo 1
Lembranças
Kagome Higurashi passou os olhos pelo palco vazio, observando as longas cortinas de veludo azul-marinho que caíam majestosamente por toda a extensão do palco, escondendo o corredor do backstage atrás dele.
Apertando a mochila que carregava nas mãos, Kagome se dirigiu ao palco lentamente, tentando fazer com que as lembranças que aquele lugar lhe trazia não afetassem seu estado emocional...De novo.
Subiu os degraus e sentou-se no banco do piano, que também compunha a decoração do palco, apoiando a mochila em seu colo. Seus dedos finos apertando a mochila com tamanha força, que os nós em seus dedos tomaram uma cor pálida.
Aquele lugar fizera parte da sua vida por sete longos anos, expressando os sonhos e desejos que possuía desde criança. Era o seu pequeno refúgio e paraíso na Terra, até que aquele acidente fatídico acabara com seus sonhos e com o que sobrara de sua família.
----------- FLASHBACK ------------
Kagome pendeu o corpo para frente, ajoelhando-se no chão, as mãos delicadas na frente dos olhos tentando aplacar o choro compulsivo.
Nunca imaginara estar naquele lugar, naquela situação. Jamais sentira essa sensação de perda apertar-lhe o coração como se o quisesse rasgá-lo dentro do peito.
- Você tem que ser forte, K-chan! - Sango murmurou pesarosa, ajoelhando-se ao lado da amiga e puxando-a para um abraço na tentativa de confortá-la.
Kagome soluçou e enterrou ainda mais o rosto entre as palmas das mãos, fechando os olhos na inútil tentativa de fazer com que as lágrimas não escorressem mais.
- Eu sei Sango - Ela murmurou de volta a amiga - Mas é tão cruel - Kagome suspirou antes de continuar -Tudo o que eu queria era poder ser uma bailarina, mostrar meu talento, ser alguém.
Sango fitou-a com pena, enquanto Kagome pegava as sapatilhas de ponta delicadas nas mãos tremulas.
Há anos Kagome vinha treinando para ser a primeira bailarina, para um dia poder fazer parte de uma companhia de dança na qual ela tivesse seu talento reconhecido. Sua mão, Kyoko, sempre esteve ao seu lado, apoiando as decisões e confortando quando preciso. Mas agora ela não estava ali, e tudo porque quis atender um dos caprichos de Kagome: estar presente no dia da tão esperada audição.
Kyoko havia saído mais cedo do trabalho, mas não cedo o suficiente. Sua filha iria se apresentar em menos de 15 minutos, e ela precisava estar lá, ela queria estar lá. Entrou dentro do carro e acelerou, a chuva que caia desde de manhã apertou ainda mais, nublando a visão do carro.
Kyoko se esforçava para ver o caminho debaixo da chuva torrencial, mas tudo o que via eram poças enormes de água e as gotas escorrendo pelo vidro frontal do carro. De repente tudo apagou. Um enorme caminhão havia perdido o controle e acabara acertando o carro de Kyoko. Um acidente.
Kagome apertou as sapatilhas com força, lançando-lhe um olhar de ódio.
- A única coisa que eu queria era que ela estivesse aqui - Ela sussurrou antes de jogar as sapatilhas longe - Se eu não tivesse ousado sonhar tão alto, talvez mamãe estivesse aqui comigo... Viva! - Kagome abaixou a cabeça desistindo de lutar contra as lágrimas.
Sango suspirou e levantou a cabeça dela.
- K-chan - Ela começou - Nada disso é sua culpa, Kyoko-chan não iria gostar de saber que se sente assim.
- Eu não tenho tanta certeza, Sango - Ela sussurrou abraçando a si própria - A única coisa que sei é que não posso mais continuar, não consigo mais.
Kagome olhou ao redor do palco, um suspiro pesaroso escapando-lhe.
- Estou deixando a dança para sempre.
Sango arregalou os olhos, aturdida com a súbita decisão da amiga.
- Mas, Kagome voc...
- Nunca mais! - Kagome continuou, ignorando a interrupção da garota.
Relanceando um último olhar para as sapatilhas jogadas longe, Kagome pegou seus pertences e se dirigiu a saída, deixando um passado de sonhos e tristeza atrás daquelas cortinas.
----------- FLASHBACK ------------
Uma lágrima escorreu pelo rosto da garota. Fugia daquele sentimento de perda por sete longos anos, mas parada ali, agora, percebia que não havia lugar para fugir. Aquela sensação estaria sempre com ela. Atormentando-a, culpando-a.
Por que Sango ligara e pedira para ela voltar? E Por que ela voltara afinal?
- Cansada de fugir? – A voz feminina e suave perguntou atrás dela.
Limpando a lágrima rapidamente, Kagome virou-se e pela primeira vez desde que chegara ali, sorriu. Uma garota alta e com cabelos castanho escuro fitava-a com um sorriso brilhante no rosto, os olhos expressando saudades.
- Sango! - Kagome falou levantando para abraçá-la.
- Vejo que ouviu minha mensagem, afinal - Sango continuou assim que se separaram.
Kagome assentiu sem falar nada, os olhos magoados e curiosos. Sango suspirou.
Sabia que seria assim, os fantasmas ainda assombravam o passado de Kagome, mas ela realmente precisava dela.
- Por que me fez voltar, Sango? - Kagome perguntou quebrando o silêncio que permaneceu entre as duas.
- Preciso de ajuda - Foi tudo o que a garota respondeu.
- Que tipo de ajuda? - Kagome continuou.
- Preciso que me ajude com as aulas de balé - Ela respondeu observando cada reação de Kagome - Mamãe está com alguns problemas, e terei que ir a Kyoto para ajudá-la.
Kagome fechou os olhos e suspirou.
- Sabe muito bem que eu não danço mais - Ela falou reabrindo os olhos castanhos, deixando Sango entrever em seu olhar a decisão de nunca mais calçar uma sapatilha na vida.
- Sei disso, K-chan! - Sango protestou - Mas, você mais do que ninguém sabe o quanto eu lutei para ter este emprego.
Sango esperou que ela falasse alguma coisa, mas tudo o que Kagome fez foi colocar a mochila que estava em suas mão na cadeira e cruzar os braços.
Continuou.
- Eu tentei melhorar, tentei ser como você - Sango falou - Me surpreendi quando fui escolhida para dar aulas em Tendai.
Kagome observou a amiga cuidadosamente. Sabia o quanto Sango se desdobrara para fazer parte daquela faculdade, daquele mundo. Ela mesma já sonhara em fazer parte do famoso grupo de dança Tendai, mas isso foi antes.
Seria injusto fazer aquilo com Sango, aquele sempre fora o sonho dela, mas por mais que quisesse ajudar a amiga, não sabia se podia lutar contra o seu passado.
- Não posso fazer isso, Sango – Kagome murmurou, as mãos instintivamente indo a direção do próprio peito, como que para defender-se.
Sango apertou os lábios numa linha fina, sem saber o que falar para fazê-la mudar de idéia. Precisava de Kagome, ela era a única à altura para substituí-la, e Sango queria mais do que tudo que a amiga pudesse superar o peso invisível que carregava consigo por todos esses anos.
Kagome sentou-se novamente no banco do piano, abraçando a mochila que carregava fortemente.
Sango suspirou e agachou-se para poder fitar os olhos da amiga, aqueles belos olhos azuis hipnóticos que eram capazes de transparecer toda a alma de Kagome.
- Eu sempre estive ao seu lado, Kagome – Sango começou, as mãos percorrendo os longos cabelos negros da amiga – Eu lembro de como você era espetacular dançando, fazendo aqueles movimentos únicos e mostrando a todos que você era um talento a crescer.
Sango parou por um momento, observando Kagome fechar os olhos, como que não querendo lembrar do passado. Aquilo lhe doía ainda, talvez mais do que antes. Suspirando, ela continuou.
- Eu sempre tentei ter metade do talento que tinha, Kagome, mas quando vi que por mais que eu fosse boa jamais superaria você decidi te apoiar e te ajudar a alcançar aquilo que eu sei que eu não conseguiria.
Kagome abriu os olhos e gemeu baixinho, em sinal claro de incomodo.
- Você era tão boa quanto eu, Sango-chan – Ela murmurou.
Sango sorriu, continuando a acalentar as madeixas da amiga.
- Sim, eu sei – Sango olhou-a carinhosamente – Mas você tinha algo que eu não possuía.
Kagome olhou para a amiga confusa. Não havia nada que ela tivesse que Sango não possuía.
- Amor, Kagome – Sango falou docemente – Quando você dançava, você exibia em seus olhos o amor pela dança, e por mais que eu gostasse de dançar, eu não amava a dança.
- Mas – Kagome murmurou, visivelmente confusa com aquilo tudo – Você dá aulas na Tendai, lutou tanto para estar aqui! Como pode não amar a dança?
Sango soltou um riso doce e divertido.
- Eu amo a dança agora, Kagome, mas não a amava antes – Ela suspirou – Quando você desistiu de dançar, quando largou os seus sonhos pelo sentimento da perda, e eu vi em seus olhos a dor por fazer aquilo, eu finalmente compreendi. Finalmente consegui entender em mim a grandiosidade que a dança significava para mim, e eu a amei desde então. E tudo por que você me mostrou isso.
Sango abraçou a amiga, fazendo Kagome ficar sem reação diante do ato inesperado.
- Nada do que aconteceu foi sua culpa, Kagome, precisa entender isso. Precisa abraçar toda a dor que lhe consome e livrar-se dela. Eu posso ajudá-la a voltar a ser a Kagome que conheci, mas não posso fazer isso se você não quiser.
- Me de uma razão para eu concordar com isso - Kagome pediu, apertando a amiga ainda mais entre os braços.
- Porque você sente falta disso - Ela falou esperançosamente – E porque somos amigas.
Kagome suspirou sabendo que teria que enfrentar seu passado se decidisse aceitar. Fugira disso por longos anos, e agora se encontrava no mesmo lugar de sete anos atrás enfrentando aquilo que mais temia. Todos os seus sonhos tinham morrido naquele lugar. Será que valia a pena voltar?
Olhou para Sango que permanecia calada a sua frente observando-a.
Talvez Sango tivesse razão, talvez fosse hora de parar de fugir do inevitável. E só iria descobrir se valia à pena se tentasse.
- Espero estar fazendo a coisa certa - Ela disse sorrindo, por fim.
Sango sorriu mais intensamente e a abraçou.
- Você vai ver - Ela falou ainda abraçada a amiga - Tudo vai se ajeitar, e eu estarei ao seu lado para tudo, K-chan!
Kagome suspirou. Tamara que ela esteja certa disso.
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Kagome ajeitou o laço da saia de seda preta e se olhou no espelho.
O cabelo estava preso firmemente em um coque no alto da cabeça, e vestia o antigo colant preto que usava para dançar. Não havia meias e nem sapatilhas. Depois que jogara fora às sapatilhas favoritas, nunca mais comprara outra.
Enquanto as meias, ela nunca as usava nos treinos. As achava pinicantes e incomodas, só as usando quando fazia uma apresentação.
- Está linda! - Sango falou sorrindo atrás dela.
- Preciso comprar sapatilhas de ponta - Kagome falou suspirando, observando os pés descalços.
- Creio que não vai ser necessário - Sango falou.
Kagome virou-se confusa. Sango simplesmente sorrira ainda mais e entregou-lhe um embrulho enfeitado por um delicado laço de cetim branco.
- Guardei isso por sete anos - Ela disse enquanto Kagome abria o embrulho - Esperei que estivesse pronta para usá-las novamente... Eram suas favoritas!
Kagome desfez o laço bem feito e abriu a caixa, sorrindo ao ver o que tinha dentro.
As delicadas sapatilhas brancas estavam lá dentro com um pequeno envelope dentro. Suas sapatilhas de ponta favoritas.
Colocando a caixa com cuidado sobre a cadeira ao seu lado abriu o envelope, deixando cair em suas mãos uma gargantilha delicada com um pingente em forma de trevo de quatro folhas.
Sango sorriu e pegou a gargantilha de sua mão e colocou-a no pescoço de Kagome.
- É para dar sorte no amor, não na dança - Ela falou gentilmente - Você dança como um anjo!
Kagome sorriu e abraçou a amiga agradecendo.
- Agora ponha essa sapatilha e mostre para mim o que você sabe fazer! - Sango falou saindo do corredor atrás da cortina e se dirigindo ao auditório.
Kagome tomou as sapatilhas na mão e colocou-as delicadamente, apreciando a sensação de estar completa novamente preencher-lhe a alma.
Levantou-se e apoiada com uma das mãos na parede, fez um pequeno movimento de subir e descer de ponta, sorrindo.
Sentira tanta falta daquilo. Finalmente seu mundo parecia voltar a fazer sentido.
Dando uma última ajeitada na saia, saiu de trás do corredor e ligou o som.
A música alta tomou o auditório e se infiltrou em seus músculos, fazendo-os repuxarem-se de saudade.
Kagome percebeu que relaxava à medida que a música tocava.
Adotando os velhos padrões, quase sentiu como se nada houvesse acontecido, como se sua mãe estivesse ali, naquele momento, sorrindo para ela e dizendo-lhe para continuar.
Retornou, em lembrança, àquela velha academia onde tinha costume de ensaiar sete anos atrás quando o auditório estava sendo usado, com seu salão de cheiro característico, a caixa de som ligada.
Vários rapazes a atormentá-la, esperando que o espaço estivesse livre para que pudessem praticar esportes.
Ela dando as costas para eles, e, então, dançando, até que aqueles punks boquiabertos estivessem babando de admiração.
E se pôs a dançar.
Aquilo lhe veio naturalmente, tão vital quanto respirar.
Permitiu-se esquecer de tudo o que ocorrera no passado, nada mais a atormentava. E de olhos fechados, Kagome deixou-se levar pela música, permitiu que ela inclinasse e movesse seu corpo com suas notas e seu ritmo, arqueando os braços em gestos graciosos.
Dançar era seu mais doce alívio; seu refúgio, onde nenhum mal podia entrar.
Entregou-se por completo à música, à dança, esquecendo-se da presença de Sango, que assistia a tudo encantada.
Esquecendo-se do acidente que a afastara daquele lugar.
Esquecendo-se de tudo, Kagome dançou.
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Sango observava cada movimento que Kagome fazia, sorrindo encantada e admirada.
Mesmo passando-se sete anos, Kagome continuava esbanjando beleza e graça em sua dança, como se tivesse dançado e treinado por todos estes anos.
Ela nascera pra isso, o talento natural da garota estava incrustado em cada rodopiar que ela dava no palco vazio. Ele era inegável.
Estava tão atenta em Kagome, que não percebeu uma presença atrás de si.
- Quem é a garota, Sango? - a voz masculina soou atrás dela, com um leve tom entre tédio e curiosidade.
Sango virou-se e sorriu ao ver a figura masculina.
- Kagome Higurashi - Sango falou voltando sua atenção novamente para a garota no palco, que agora se lançava em piruetas graciosas.
- Tem certeza disso, Sango? - Ele perguntou incerto - Posso muito bem parar as aulas por um mês até que você volte.
- Ela é perfeita! - Sango falou sem tirar os olhos dela - Eu tenho certeza absoluta do que estou fazendo.
Ele suspirou.
- Você que sabe.
Sango sorriu, voltando a se concentrar na amiga dançando no palco.
Kagome precisava relembrar como era estar ali, sentir novamente o que era dançar. E Sango iria ajudá-la, custasse o que custasse.
- Confie em mim, Inuyasha - Ela disse por fim - Kagome vai ser um sucesso com os alunos.
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Queria retornar a escrever, mas apesar de sentir essa súbita vontade, a inspiração para histórias novas me falta. Sendo assim, optei por continuar uma de minhas histórias antigas que estava parada.
Aos leitores que acompanham "Magia Às Avessas" ai segue uma boa noticia, tenho alguns capítulos sendo feitos e provavelmente postarei a continuação. Mas não garanto nada.
PS: Qualquer erro ou frase sem sentido, culpem o , aparentemente ele não gosta de manter as fics belas e formatadas.
Já ne Minna!
Loba
