"Nada tem que mudar" e "Minha vida está perfeita" foram as frases que Kate ficou repetindo ao longo do resto do dia, tentando encontrar uma forma de contar a Jack o real motivo de sua visita. Quando se despediu de Boone no aeroporto em Sidney, imaginou que seria tarefa fácil revê-lo e pedir-lhe que fosse seu padrinho de casamento. No entanto, uma vez diante dele, Kate esquecia todas as palavras, todo o discurso que preparara para fazer o convite. Olhava para Jack e simplesmente não conseguia dizer coisa alguma diante da presença tão devastadora dele. Lembranças, milhares delas, vinham à tona e por várias vezes Kate pegou-se desejando aquele corpo atraente junto de si, para aquecê-la do intenso frio que fazia. Numa dessas mancadas, Ana-Lucia gracejou, baixinho, de forma que só Kate pudesse ouvir:

- Hey, se eu fosse você já tinha o agarrado!

- O quê?- engasgou Kate, quase cuspindo o chocolate quente que estava tomando.

Era por volta de seis da tarde, e alguns membros da família estavam reunidos na sala. Jack e Sawyer jogavam banco imobiliário com as crianças enquanto tomavam chocolate quente com biscoitos. Charlie e seu irmão tocavam violão num canto, ensaiando uma nova música de sua banda. Kate e Ana-Lucia estavam sentadas no sofá perto da lareira.

- Desculpe, Lu, eu não entendi!- disfarçou Kate, corando com o comentário de Ana-Lucia.

- Não mudou nada!- disse Ana-Lucia.

- Quem?- indagou Kate.

- Você, sardenta! Os anos passaram e você continua a mesma dissimulada de sempre.- debochou Ana-Lucia. – Ora, vamos, somos amigas desde crianças, pode se abrir comigo! Sei que ainda é louca pelo Jack!

- Ai meu Deus!- exclamou Kate. – Está dando pra perceber?

Ana-Lucia deu uma risada.

- Amiga, o que você andou aprontando esses anos todos por aí? Está na cara que você quer o Jack, e que ele também te quer, só que parece que tem uma coisa que está fazendo você hesitar, estou certa?

As duas conversavam aos cochichos, Sawyer pigarreou, notando isso:

- De repente comecei a me sentir como a dez anos atrás, olha só mano, as duas já estão até cochichando.

Jack riu:

- Falando de nós, meninas?

- E tem assunto melhor, rapazes?- brincou Ana-Lucia.

- Tio Jack, o papai está te dando o golpe!- avisou Antonio. – Desse jeito você vai ficar sem a companhia elétrica e sem o aeroporto!

- Sawyer, isso não vale! Você não muda mesmo, não sabe jogar honestamente?- disse Jack, fingindo estar zangado.

- Ei, não sou eu não.- falou Sawyer, ofendido. – Estou jogando honestamente, pelo menos dessa vez...

Enrique começou a dar risadas. As atenções se voltaram para ele.

- Por que está rindo?- perguntou Antonio.

- Porque não é o papai que está roubando o tio Jack, é a Elena.

A menina ergueu uma sobrancelha, quando fazia esse gesto parecia-se absurdamente com sua mãe.

- Elena, por que fez isso?- indagou Jack, surpreso.

- Porque você tem que prestar atenção aos detalhes tio Jack, a sua companhia elétrica agora me pertence, e o aeroporto está hipotecado. Eu blefei e você caiu direitinho.

- Essa é a minha garota!- disse Sawyer, orgulhoso, enquanto Jack balançava a cabeça, perplexo. Elena Shephard poderia ser o espelho de sua mãe fisicamente, mas na personalidade com certeza puxara ao pai.

Ana-Lucia e Kate tinham parado de conversar para prestar atenção à discussão no jogo imobiliário, porém assim que o jogo recomeçou, voltaram a falar sobre o assunto que estava deixando Kate sem saber o que fazer.

- Ai Ana, seu eu pudesse te contar!- suspirou Kate, pousando a caneca de chocolate vazia sobre uma mesinha, e cruzando os braços sobre o peito.

- E por que não me conta? Seja lá o que for, quem sabe eu não possa te ajudar, amiga?

Nesse momento, Mônica entrou na sala pulando como um cabritinho, vinha segurando uma escova de cabelos e se jogou no sofá onde Kate e Ana-Lucia estavam sentadas.

- Eu sou uma cabelerera!- disse a menina, penteando os cabelos de Kate com a escova antes que ela pudesse protestar.

Ana-Lucia riu: - Mon, querida, não é "cabelerera", é cabeleireira.

- Que seja!- respondeu a menina, tão ríspida quanto sua mãe.

Kate sorriu e deixou-se ser penteada, até que não estava tão mal, Mônica tinha mãozinhas leves. Depois de penteá-la por dois minutos, Mônica anunciou:

- Eu terminei tia Kate, agora o tio Jack vai te achar mais bonita!

Todos começaram a rir com o comentário da menina, e Kate mais uma vez ficou corada.

- Tem razão, Mônica. Não sei como, mas você conseguiu deixar a tia Kate ainda mais linda.- comentou Jack, todo galante, deixando Kate ainda mais vermelha.

- Ihhhhhhhhhhhh!- fizeram todos, inclusive Charlie e Liam, que estavam ensaiando, mas prestavam atenção à conversa.

Kate tentou sair da "saia-justa": - Ah que nada, linda é você Mônica, a coisa mais fofa desse mundo. Acho até que vou levar você comigo pra Sidney.

- Pode levar.- disse Sawyer, enquanto jogava os dados no tabuleiro. – Aproveita e escolhe mais um ou dois, temos crianças de sobra.

- Sawyer!- ralhou Ana-Lucia.

- Também te amo, benzinho.- ele respondeu, cínico.

Ana-Lucia atirou uma almofada nele.

- Ai, cansei desse jogo!- disse Enrique.

- Eu também.- concordou Elena.

Jack levantou-se do tapete e olhou o tempo lá fora, ficou pensando por alguns segundos. Não estava nevando muito, o clima estava mais ameno e ele queria dar um passeio com Kate. Porém, notou que ela se mostrara arredia à presença dele o dia inteiro, e imaginou que se ele a convidasse para sair com ele sozinho, ela inventaria uma desculpa qualquer para não ir. Por isso, teve uma brilhante idéia.

- Hey, crianças, que tal dar uma volta com o tio Jack!

- Obaaaaaaaaaaa!- gritaram as crianças, em unísssono.

- Você vai ter coragem?- indagou Sawyer, erguendo uma sobrancelha.

- Claro que sim, porque a Kate vai vir comigo para me ajudar.

- Eu?- disse Kate, suspresa.

- Daí mano, você e a Analulu podem ficar um pouco juntos, hã? Assistir um filme no aconchego do quarto de vocês?

Sawyer e Ana-Lucia se olharam felizes, tinham adorado a idéia, há quanto tempo não ficavam realmente sozinhos? Logo o bebê iria nascer e eles teriam menos tempo ainda, por que não aproveitar?

- Pode ir.- disse Ana-Lucia tentando se levantar do sofá, Kate ajudou-a. – Peguem a chave da picape e divirtam-se!

- È isso mesmo!- disse Sawyer, indo até a mulher. – E não se preocupem em voltar logo.

Kate sorriu, e disse:

- Ótimo, eu vou buscar meu casaco.- pensava consigo mesma, que mal haveria em sair sozinha com Jack se teriam a companhia de quatro crianças? Seria divertido e ela ainda teria a oportunidade de conversar com ele sobre o seu casamento.

Entretanto, o que ela não sabia, era que Jack tinha muitos planos para a noite, e sair com as crianças era apenas uma forma de se aproximar dela e ganhar espaço. Jack não queria perder tempo, precisava recuperar os dez anos que fora privado de sua companhia.

Continua...