Kate despertou com o barulho estridente do celular. O som fez seu coração dar um pulo e ela tentou sentar-se de imediato na cama. Porém não conseguiu, pois um corpo quente enroscado no seu a impedia. O quarto estava completamente escuro e Kate tentou se situar. Suas mãos acariciaram o braço forte que a prendia, tentando inutilmente constatar que quem estava com ela não era quem estava pensando.

Ao sentir o toque dela, Jack murmurou com voz de sono:

- Kate...

- Ai meu Deus!- Kate exclamou em pensamento. – Não, não posso acreditar! O que eu fiz? O celular tinha parado a pouco, mas logo voltou a tocar novamente, ainda mais alto.

- Isso é um celular?- questionou Jack, acordando. – È o meu ou o seu?

- Acho que é o meu.- Kate tentou responder com naturalidade.

- Não vai atender?- ele indagou. – Pra estarem ligando de madrugada pode ser algo importante.

- Yeah, vou!- ela disse, enquanto ele a soltava.

Estava sem graça por caminhar nua pelo quarto, mas não fazia a menor idéia de onde tinham ido parar suas roupas. Jack ligou o abajur somente para vislumbrá-la.

- Jack, desligue isso!- ela pediu, aflita ao pegar o celular e ler "Meu amor" no visor.

Jack sorriu:

- Mas por que? Eu quero olhar você!

Ela avistou uma toalha sobre a cadeira da escrivaninha e aproveitou para cobrir-se. Fechou os olhos e mordeu os lábios numa clara expressão de receio. Jack notou, e perguntou:

- Kate, o que está acontecendo? Por que não atende logo o celular? È alguém com quem você não quer falar? Se for assim, me dê aqui que eu atendo.

- Não!- ela disse, quase gritando. Jack franziu o cenho, e ela tentou consertar: - Não, quero dizer, é a minha mãe, eu vou atender, está ligando esse horário por causa do fuso, você sabe. – Alô?- Kate finalmente atendeu.

- Amor!- exclamou Boone do outro lado da linha. – Que bom escutar sua voz.

- È...como estão as coisas aí em Sidney?

- Eu não sei porque estou em Los Angeles.

- O quê? Você está em Los Angeles?- ela bradou, o coração acelerando.

Jack não estava entendendo nada, Kate estava visivelmente nervosa.

- Onde você está?

- A alguns passos do rancho onde você está.- Boone respondeu alegre. – Só não consigo encontrá-lo. Estou parado aqui na estrada, com o carro atolado na neve e ainda tendo que escutar os resmungos da Shannon. Querida, dessa vez você é quem vai ter de resgatar o Capitão América.

- Oh!- foi a única coisa que Kate conseguiu dizer.

- Kate? Você está tão estranha!- falou Boone, começando a preocupar-se. – Está tudo bem?

- Está sim.- ela respondeu retomando o controle. – Onde vocês estão?

- Bom, a última placa pela qual passei dizia quilômetro 23.

- Então não estão muito longe, o rancho fica no quilômetro 42. Esperem só um pouco, eu já estou indo pra aí.

Ela desligou o celular e olhou para Jack. Ele disse:

- Seus pais estão perdidos no km 23? Vamos buscá-los então.

Kate respirou fundo e sentou na cama de frente para ele:

- Jack ,antes de eu te contar isso, queria te dizer que esses dois dias aqui no rancho da sua família foram maravilhosos, me trouxeram tantas lembranças. Passar a noite com você foi melhor ainda, e eu queria que as coisas fossem diferentes, juro...

- Kate, por que está me dizendo essas coisas?

Ela parou de enrolar:

- Jack ,eu estou noiva, de um cara com que vivo em Sidney há dois anos, e vou me casar no dia primeiro de janeiro.

- Como é?

Jack passou as mãos pela cabeça, não estava acreditando no que Kate acabara de dizer. De duvidoso, seu olhar passou a ser enraivecido.

- Sinto muito Jack...

- Então por que raios transou comigo?- ele bradou.

- Eu estava um pouco "alta" Jack, e você sabe que mexe comigo, desde a época em que namoramos, não vamos ficar fazendo joguinhos.

Ele deu uma risada sarcástica:

- Quem é que está fazendo joguinhos aqui, mesmo?

- Ouça, sei que você está zangado agora e eu entendo perfeitamente isso, mas volto a dizer que foi muito bom estar com você outra vez, nunca vou me esquecer.

Ela tentou tocá-lo, mas Jack se afastou, magoado. Mesmo assim, ela continuou:

- Jack, o principal motivo pra eu ter vindo até aqui além de rever todos foi pedir a você que fosse o meu padrinho de casamento, porque você é e sempre foi o meu melhor amigo. A cerimônia será no dia 1°, pela manhã. Eu vou deixar os convites com a sua mãe, lá tem o endereço e outros detalhes. Se você aceitar, saiba que vai ser muito importante pra mim, mas se não aceitar eu vou entender.

Jack estava mudo naquele momento, amaldiçoando-se por ter sucumbido aos encantos de Kate, deveria ter sido menos impulsivo, mais sensato como costumava ser. Mesmo assim, como seu ego masculino estava ferido, ele não hesitou em dizer, na tentativa de fazê-la se sentir tão magoada quanto ele próprio estava:

- Tudo bem, eu aceito ser seu padrinho, afinal já dormi com você não é? Matei a minha vontade.

Kate tinha uma expressão triste no rosto ao ouvir aquelas palavras tão duras, mas sabia que a culpa era sua por não ter dito a verdade a ele desde o começo. Levantou-se da cama e procurou pelas roupas, indo vestir-se no banheiro. Jack também se vestiu. Quando ela saiu do banheiro, trocaram um último olhar, e ele disse:

- Peça ao Sawyer que vá com você até a estrada buscar o seu noivo e eu sei lá quem mais.

Kate assentiu, e antes de sair deu-lhe um beijo na face, porém Jack não demonstrou emoção alguma frente ao gesto dela. Vendo que nada consertaria a situação, pelo menos não naquele momento, ela deixou o quarto dele e foi bater na porta de Sawyer, para pedir-lhe que a acompanhasse até o Km 23.

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Ao ouvir o pedido de Kate, Sawyer prontamente assentiu, sem fazer nenhuma pergunta, embora tivesse ficado bastante surpreso quando ela dissera que queria que ele fosse consigo buscar seu noivo que estava perdido na estrada. Estava pensando nisso, calçando suas botas, quando Ana-Lucia despertou, e com a voz sonolenta indagou ao marido:

- Querido, aonde você vai?

- Eu vou até o Km 23, com a Kate, buscar o noivo dela que está com o carro atolado pela neve, na estrada.

Ana-Lucia arregalou os olhos:

- Noivo? Que papo é esse?

Sawyer deu de ombros: - Eu não sei benzinho. Já vou indo.- ele disse fechando o zíper do casaco. – Volto logo, amor, dorme bem.

Mas Ana-Lucia não conseguiu dormir, ficou pensando nos sons que tinha escutado quando descera mais cedo para tomar água, imaginou que Kate estivesse se entendendo com Jack. No entanto, com essa história de noivado agora ficava tudo muito complicado.

- Então era isso que a Kate queria me dizer.- concluiu.

Continua...