"Quando
dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus
raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro
círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça.
Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela,
naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal
apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traços todos me
lembraram uma idéia perdida... — Era o anjo do cemitério? Cerrei
as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o
cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como
chumbo.
Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela
era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela
como o noivo as despe a noiva. Era uma forma puríssima.. Meus sonhos
nunca me tinham evocado uma estatua tão perfeita. Era mesmo uma
estátua: tão branca era ela.Àquele calor de meu peito, a febre de
meus lábios, a convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia
reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados. — Luz sombria
alumiou-os como a de uma estrela entre névoa — , apertou-me em
seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços
ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que
gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que
sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas
alheias sem poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco..."
(Solfieri - Alvares de Azevedo)
O corpo todo doía. Sentia-se mole, fraco, parecia que um caminhão tinha tombado sobre seu corpo. Vomitava agora, toda a água que seus pulmões acumularam. Aos poucos começou a ouvir lentamente o barulho das ondas e forçou-se a abrir os olhos. Acima de sua cabeça pairava uma lua enorme, cheia, dando um ar prateado a toda extensão de areia que seus olhos podiam enxergar; sentiu-os pesados, quase se fechando... os ombros agora doíam bastante, olhou para um deles e viu a grossa farpa de madeira. Sem muito hesitar arrancou-a de vez, soltando um grito gutural que ecoou por toda ilha, desmaiando logo em seguida.
Não
tardou pro dia amanhecer; com ele os primeiros raios de sol surgiam,
assim como os sons naturais da ilha. O sol agora atingia House
diretamente, assim como as ondas que iam e viam molhando o seu rosto.
House sentia o gosto salgado do mar e uma leve ardência no ombro.
Abriu os olhos mais uma vez e por fim soergueu-se com dificuldade,
olhando aos poucos aquela imagem borrada que se definia lentamente.
Parecia que estava no paraíso. Finalmente levantou-se, observando a
poça de sangue marcada na areia e que agora o mar levava. Observava
minuciosamente o lugar no qual estava, o quebra-mar, as pequenas
piscinas que o mar formava com as pedras, enquanto enfaixava os
ombros com um pedaço da camisa. Ouviu um som de água despencando,
talvez houvesse algum rio lá por dentro, viu alguns cocos caídos,
um pé de bananeira. Subiu em uma pedra no meio da ilha e sentiu o
vento úmido bater em seu rosto, respirando profundamente quando
avistou algo azul se mexendo entre as pedras. Parecia que um tecido
azul nadava sozinho em direção à areia, acompanhado pelas ondas.
Apertou mais um pouco a vista pra vê se enxergava melhor;
"
um moletom azul?? Mas... droga!"
Correu
mais do que suas pernas podiam suportar; a última vez que tinha
visto Cuddy, ela usava um conjunto de moletom azul, como aquele. Era
aquele! Enquanto corria seu coração disparava dentro do peito,
parecia que ia explodir.
A distância era pequena, mas quanto mais corria, mas longe ficava. Finalmente chegou às pedras. O rosto de Cuddy estava virado para baixo; com um pouco de dificuldade, por causa do musgo, House a colocou em seus braços levando-a ate a areia da praia. Andou mais um pouco e a deitou, a roupa estava colada em seu corpo, os cabelos grudados em seu rosto. House respirou fundo e tentou sentir seu pulso. Seu coração parou por um minuto. O pulso estava fraco, mas ainda assim o podia sentir...rapidamente ele começou a fazer uma massagem e logo após respiração boca-a-boca.
- Vamos...respire!...
Continuou a massagear fortemente, enviando aos pulmões todo o ar que eles podiam receber.
- Não me deixe outra vez...Lisa...não posso te perder duas vezes..! - conversava com ela carinhosamente.
Flexionou seus joelhos e ajoelhou-se do lado dela, baixando a cabeça. Inesperadamente, ouviu um ganido, levantou a cabeça e a viu tentando tossir.
- Calma. Calma! Respire devagar – disse rapidamente.
Cuddy
tossia um pouco engasgada. A água saiu de seus pulmões queimando o
seu peito. Abriu os olhos lentamente e viu House debruçado na sua
frente.
-
Você??
-
Ora.. um obrigado já seria bom... então... de nada por salvar sua
vida - retomou House, voltando ao seu jeito de sempre..
Cuddy
sentou-se lentamente na areia, olhando o ambiente , confusa.
- E então? - perguntou House preocupado, mas mantendo a frieza depois de ser recebido daquela maneira por ela.
- Eu tenho cara de mapa ou algo parecido? – perguntou,com seu humor sarcástico.
Cuddy o olhou desconcertada, não queria ter falado com ele daquele jeito, mas se explicasse o motivo ele não entenderia. House parou por um momento e observou e arrependido de tê-la tratado daquele jeito, tentou se desculpar da sua maneira.
-
Você esta bem?
-
Sim – respondeu Cuddy secamente
-
Ta com sede?
-
Não.
-
Fome?
Ela olhou-o sem entender o motivo de tanta grosseria e depois as tantas perguntas. Não entendia como ele podia ser tão estranho..a ponto de uma hora esta bem e outra mal-humorado, sem que ninguém tivesse dado algum motivo.
- Não..- respondeu em alto e bom som, irritada.
House
gostou de vê-la assim, quase brava.
-Vai
me responder só sim ou não é?
- É..- disse sem nenhuma intenção de fazer graça.
-
Entãooo..você vai me tratar assim..? – perguntou
petulantemente.
Os
nervos de Lisa já estavam fervendo, não queria ser grossa, mas
estava começando a achar que era aquilo que ele estava querendo, se
controlou mais um pouco, respirou fundo e contou ate 10.
- Vou..se você quer saber – falou calmamente.
- Porque?
- Ahhh House ! Que saco!!! Você sabe o porquê de eu estar tratando você assim..mas se quer realmente saber... ai vai! eu não vou te perdoar pelo o que me fez..nunca eu vou te perdoar, não importa que você tenha me salvado ou não! Por mim eu preferia morrer do que ter que te ver novamente!! – falou de uma vez só, parando um breve momento para respirar e ver a reação dele – satisfeito? Era o que você queria? Pois bem! Você é um tolo mesmo - terminou por dizer quase chorando.
- Não sou tolo nada! Você é que... – continuou a falar abruptamente, visivelmente irritado
Lisa ouviu essa frase e alguma coisa no seu subconsciente despertou, já tinha ouvido isso, como um dejà vu, só não conseguia se lembrar. De repente começou a se lembrar da infância, uma fase que foi difícil de esquecer, ficou tentando se lembrar ate que ouviu uma voz.
Cuddy! Você esta me ouvindo? – falou House aborrecido
- Hãn?
Lisa tinha voltado e via House na sua frente. Balançou a cabeça negativamente "não pode ser" – pensou " ele podia ser um menino qualquer".
- Eii.. eu to falando com você! –falou grosseiramente
- Ahh House vai à merda vai! – disse levantando-se irritada
House
a olhou sem graça, nunca imaginou que uma discussãozinha tola como
aquela podia terminar assim, mas também, ele pensou... "Eu a
provoquei..."
Lisa,
no entanto ficou com raiva de ter lembrado daquilo que acontecera há
tantos anos. Seus nomes podiam ser iguais, mas esse House não era
aquele Greg que ela tinha conhecido quando pequena, não podia ser
aquele que tinha mexido com seu coração pela primeira vez!.
O
observou andando calmamente pela praia, se afastando. O viu ainda
olhando em sua direção para depois se embrenhar pela mata adentro.
Cuddy levantou-se e seguiu-o com os olhos, se perguntando para onde
ele iria. Observou-o mais um pouco e decidiu tomar a direção
contraria indo para a praia. Andou um pouco molhando os pés na água
geladinha enquanto pensava na sua infância.
[...]
-
O que é que você quer comigo heim? Papai já disse que eu não
posso ficar com você! Vai pra la vai...- disse uma menininha de
grandes olhos azuis inquisidores.
Os
cabelos encaracolados estavam preso em um rabo de cavalo bem feito,
trajava uma camisa branca , uma calça bege e botas de montaria
pretas. Devia ter uns 11 anos. Olhou mais uma vez para trás e viu
que seu fiel amigo ainda a seguia.
-
Você é mesmo teimoso não é? Vai brincar com o William. Ele é
menino e papai disse que ele pode montar em você! - disse imitando a
voz do pai e rindo logo em seguida.
Andou
mais um pouco e chegou em sua arvore preferida. Era primavera , o ar
estava úmido e as plantas logo logo começariam a dar suas primeiras
flores. No imenso jardim que a rodeava, havia ipês roxos e amarelos
que davam à sua casa um ar romântico de um daqueles poemas idílicos
que detestava ler.
Lisa
era a mais nova de 3 irmãos e os pais a tratavam como a princesinha
da casa, o pai principalmente. A mãe ainda a deixava brincar com os
irmãos e os meninos da redondeza, mas o pai era diferente, queria
que ela se tornasse uma dama na sociedade, soubesse costurar,
cozinhar e depois se casar e dar muitos netos para ele.
-
William!! – a mãe reclamava – Nós não estamos mais na década
de 20! Pelo amor de Deus! Deixe Lisa escolher o que ela quer fazer!
Eu não vou fazer a mesma coisa que minha mãe fez comigo! Se ela
quiser montar ela vai! Se quiser ir pro exercito ou qualquer outro
lugar que quiser ir eu vou deixar..e você não vai impedir.! –
ouvia mãe brigar com o pai toda vez que ele a proibia de fazer
algo.
Amava
muito o pai, mas não aceitava aquelas regras que so ela, de todos os
irmãos era obrigada a fazer. No fim os pais acabariam se separando,
mas ela era muito pequena para entender esse mundo estranho dos
adultos.
Sentou-se
à sombra da jabuticabeira e aspirou aquele perfume que a arvore
soltava ao ser balançada pelo vento. Estava no limite da
propriedade, seus antigos vizinhos não gostavam de ser incomodados,
por isso os irmãos mais velhos sempre inventavam historias, mesmo
que os vizinhos não fossem os de antigamente. Ouviu o barulho vindo
da alta cerca feita de plantas, o que assustou o pônei.
-
Homens..sempre medrosos . – disse olhando para o pônei
assustado.
Parou
um momento, levantando-se para observar de onde vinha aquele barulho.
Seus olhos azuis piscavam perspicazes, à procura de algum movimento.
Olhou para a sua casa e como não tinha ninguém a observando ,
decidiu entrar rapidinho pelas brechas da planta. Foi afastando o
matinho à sua frente quando parou de repente. Um outro par de olhos
azuis a fitava.
-
Oi.. – falou curiosa.
O
menino nada respondeu, apenas a observava.
-
Oiii – falou mais alto pensando que não havia sido ouvida.
"
que menina bonita"
-Heiii..você
é surdo? Eu to falando com você! – parou um momento para
analisá-lo – ou então é mudo? – disse mexendo as mãos
imitando a linguagem dos sinais, sem sucesso.
Olhou
para o menino parado à sua frente. Devia ter a mesma idade de seu
irmão mais velho, John de 15 anos. Deu uma volta pelo menino
tentando decifrar o porquê dele não falar.
-
De repente você é tímido – especulava – ou então é mal
educado mesmo – falou com o olhar brilhando.
O
menino nada respondia! Lisa já estava cansada daquela brincadeira
muda.
- Você é um tolo! – falou virando as costas.
- Não sou nada! Você é que..- respondeu o garoto sendo logo interrompido por ela.
-
Ahh! Você fala! É um milagre- falou zombeteira erguendo as mãos
para o céu e rindo bastante.
O
menino gostou de vê-la rir, apesar de ter sido ofendido.
- E então? Você mora aqui? Eu nunca te vi... qual o seu nome? Você tem irmã? Essa fazenda é de seus pais..ou seus avos? Porque o casal que mora ai é bem velhinho para ser os seus pais...Vai ficar aqui por muito tempo ou vai logo embora? hein? Heim?
O menino olhava assustado para aquela criatura na sua frente, ela parecia uma matraca ambulante, olhou-a como se estivesse à procura de alguma coisa.
- O que você ta procurando em mim? – perguntou curiosa.
- Um botão para te desligar! Você fala demais! Minha nossa!!!– disse por fim dando-lhe as costas e voltando para casa.
Lisa
ficou sem jeito, tentara ser o mais agradável possível com aquele
menino e ele a destratava daquele jeito??
-
Ahh..ele vai ver so – disse saindo fazendo beicinho.
X
-
Vamos mocinha..levante-se..
-
Humm...mainha..deixa eu ficar mais um pouquinho..deixa..eu to de
férias - falou bocejando, quase caindo no sono outra vez.
-
Nada mocinha...vamos.. – falou a mãe puxando seu lençol
lentamente.
Lisa
levantou-se fazendo o maior esforço. Olhou pela janela a casa
vizinha e se lembrou imediatamente do menino dos olhos bonitos, suas
bochechas ficaram vermelhas e ela sorriu timidamente, levantou-se
rapidamente.
-
Eitha...que furacão - disse a mãe observando a mudança as
bochechas e o sorriso " ai tem alguma coisa" –pensou enquanto
olhava na mesma direção que a filha outrora tinha visto.
-
Ahh mãe.. eu quero aproveitar meus últimos dias de férias -
mentiu.
O
verdadeiro motivo com certeza não era esse. Tomou um rápido café
da manha e saiu correndo ate chegar na jabuticabeira. Sentou-se de
frente para a casa do vizinho e ficou esperando. O sol já estava a
pino, avançando entre alguns galhos da arvore e atingindo bem nela,
que cochilava. Sentiu alguns gravetos secos bater em seu rosto e
abriu os olhos lentamente. A visão ainda estava borrando, mas
conseguiu definir a imagem que se formava diante de seus olhos.
-
Acorda Lees...mamãe ta chamando para almoçar!
-
Humm..é você...
-
Não...vamos! – disse enquanto corria
Os
irmãos corriam, numa disputa louca de quedas e tropeços na terra
para ver quem chegava em casa primeiro. Chegaram sujos e emaranhados
de terra e gravetos e se assustaram ao ver uma senhora de cabelos
alvos conversando com a mãe.
-
... é urgente e eu não tenho ninguém com quem deixá-lo.. A mãe
sofreu um acidente, nada grave mas eu preciso ir vê-la e o pai..bem
você entende né...
-
Claro Sra Emily não se preocupe, ele estará em boas mãos..e vai se
divertir bastante com os meninos.
Nesse
momento Lisa e o irmão,se aproximam curiosos. Estavam dos pés à
cabeça sujos de barro, gravetos pelos cabelos..um desastre.
-
Ahhh.. creio que a Sra não conheceu ainda os gêmeos..Lisa e William
Jr.... Vamos.. não sejam tímidos cumprimentem a Sra Emily..
Cumprimentaram
timidamente e saíram correndo para se lavarem, sob o olhar atento da
mãe
-
Meu neto já deve estar chegando. Ele é um pouco fechado..tímido,
eu diria mas garanto que ele não vai lhe dar nenhum
trabalho...
Poucos
minutos depois aparece Gregory. Vinha desconfiado, não gostava muito
de estranhos.
-
Gregory querido...deixe-me apresentar a Sra Elizabeth, ela vai ficar
com você ate eu voltar... - falou avó carinhosamente.
-
Oi Gregory..tudo bem querido? - perguntava a mãe de Lisa.
O
menino nada respondia. A avó queixou-se um pouco e ele finalmente
respondeu um breve e seco Oi..
-
Não ligue.. depois ele se solta - falou a avó.
A
avó começou a se despedir do menino, quando Lisa entra na sala.
-
Ah...o tolo.. - falou sem nenhuma vergonha.
-
Não sou nada...
Lisa
provocativamente começou imitar o " não sou nada " dele
-
Lisa!!! O que é isso!! Isso é jeito de se comportar? o Greg vai
ficar aqui por um tempo e ai de você se ficar assim..eu não te digo
nada! - disse a mãe visivelmente sem graça - ela não é assim...
-
Ahh..ótimo mais um menino nessa casa! - disse enquanto saía
sossegadamente ante o olhar furioso da mãe.
Passado alguns dias, Greg foi se acostumando. Se antes não falava nada, agora até falava demais. Era esperto e comandava as brincadeiras entre os irmãos de Lisa. Sempre a via sentada no pé na jabuticabeira, sozinha ou com o seu pônei. Desde que chegara,não tinha coragem de falar com ela, alguma coisa em seu jeito o impedia. Ela no entanto sempre o via a observando, mas não ligava ou fingia não ligar. Na hora do café, almoço ou jantar sempre sentavam frente a frente e quando viam que ninguém os observava, trocavam olhares cheios de confidências. Nascia ali um amor puro e inocente. Nesses quase 15 dias, não haviam trocado se quer uma única palavra, mas bastava um olhar para todas as letras do alfabetos se juntarem e formar aquilo que queriam dizer. A mãe de Lisa começava a ficar preocupada nunca tinha visto a filha tão calada.
- Lees..você tem ficado tão quieta ultimamente.. tem alguma coisa que você queira me dizer?
- Eu...eu..não mãe..
- Tem alguma coisa a ver com o Greg? - soltou a mãe delicadamente
Lisa olhou assustada para ela, como ela podia ter adivinhado? Deu uma risada nervosa.
- Oxi mamis..ta viajando é? - disse enquanto saía rapidamente do encalço da mãe.
Chegou
na varando e viu que os meninos jogavam bola. Olhou para Greg e
balançou a cabeça negativamente indo ate a sua arvore.
Sentou-se
e pouco e viu que havia algo escrito na terra. " você
é a menina mais linda que eu já vi! G."
Seu estomago doía, sentiu algo estranho. Suas mãos suavam, o
coração batia, a boca repentinamente tinha ficado seca e a
respiração começou a ficar ofegante. Não sabia o que era, nem
pensava que isso eram os sintomas de uma primeira paixã
timidamente. Apagou o que estava escrito, pegou um graveto e
escreveu.
Depois de terminado o jogo, Greg encaminhou-se ate a arvore, duas vezes tinha levado uma bolada no estomago e o último foi tão forte que achou que iria desmaiar, tudo isso porque a tinha vista na jabuticabeira lendo o que ele tinha escrito. Com o estomago ainda doendo, foi ate la e leu o que ela tinha escrito. " você é mesmo um tolo! Porque não fala isso para mim?!?" Sentiu raiva no primeiro instante, como ela podia lhe dizer aquilo!! Mas depois de ter lido mais uma vez, percebeu que ela deveria ter gostado, senão porque teria tido o trabalho de escrever?!?! Olhou para a casa e viu uma sombra sair furtivamente da janela, sorriu mais uma vez e saiu sem escrever nada.
Mal havia amanhecido e Lisa levantou-se correndo, temia que o vento tivesse apagado o que ele tinha escrito. Vestiu uma roupa e foi ate a arvore. Ficou decepcionada ao ver que sua frase ainda estava ali. Nesse dia ficou mal-humorada, qualquer um que falasse com ela ou tocasse era praticamente agredido com palavras e beliscões. Greg adorou vê-la assim, pôs a mão na base do estomago sentindo mais uma vez uma dor lacerante.
Depois
do almoço, enquanto os irmãos de Lisa corriam, Greg decidiu ficar
sentado. Estava muito pálido e gemendo de dor, porem escondia isso
de todos.
-
Mãe...
-
Humm
-
Tem alguma coisa acontecendo com o Greg - disse apontando para ele da
janela da cozinha.
A
mãe parou de fazer as coisas e o observou segurando o estomago e
indo para frente e para trás, decidiu abrir a janela e falar com
ele
-
Greg querido...você esta bem?
Lisa
já estava la fora, ao mesmo tempo que ele caía no chão,
desmaiado.
XXX
-
Então é apendicite?
-
Isso...o apêndice já estava inflamado,ele deve ter levado algum
empurrão...ter batido em algum lugar...Você tem que levá-lo para
algum hospital o mais rápido possível!
- Meu Deus! O hospital é muito longe daqui...vamos levar umas 3 horas para chegar...
- Ele não tem 3 horas.. a infecção pode chegar muito rápido na corrente sangüínea e ai..será muito tarde...
-
E agora?? o que eu faço - perguntava a mãe de Lisa
desesperadamente.
O
medico a olhou e sugeriu.
- Bom...você pode levá-lo ate a minha clinica, eu tenho lá dois enfermeiros e..
- Quantos desse você já fez?- olhou a mãe desconfiada e com receio da resposta.
- Bom..- respondeu o jovem medico - esse seria meu primeiro...mas eu já treinei em cadáveres e em alguns pacientes..Sra Cuddy creio que eu sou sua única solução...se levar o menino ao hospital ele pode morrer...aqui...pelo menos ele tem uma chance...
Elizabeth
olhou para o menino ali sofrendo e depois olhou para o jovem medico
que parecia inexperiente, mas que pelo menos era uma chance e decidiu
optar por fazer a cirurgia.
-
Ok...pode fazer...se essa é a única chance dele - falava
nervosamente.
-
Não se preocupe Greg...você vai ficar bom - sussurrava Lisa.
Dois
dias já tinham se passado desde a pequena cirurgia, uma pequena
infecção tinha surgido no local do corte, formando uma pequena
cicatriz. Greg já estava de pé, naquela época,detestava ficar sem
fazer nada.
-
Para onde você vai? - perguntou Lisa saindo da escuridão.
Aqui é que eu não vou ficar - disse levando um pequeno susto ao pensar que estava sozinho no quarto.
- Você não pode sair! Tem que ficar descansando ainda...
- ...nãooo.. eu não quero ficar preso aqui...
- ...mas..
- nem mas nem menos.. eu vou sair.. - disse passando por ela.
- Você é um tolo mesmo - provocou Lisa.
House
deu uma guinada no corpo, se aproximando dela e ficando frente a
frente.
-
Aff... - suspirou - você não se cansa mesmo ne? Não é só porque
eu te acho... - procurou uma palavra, pensou em bonita - diferente..é
que eu vou ter que suportar você me xingando! Ainda bem que eu já
vou embora daqui!! - disse indo em direção à porta e batendo
ruidosamente.
Lisa ficou muda, não entendia porque ela fazia isso com ele, não queria mas alguma coisa dentro dela a fazia dizer aquelas tais palavras.
A avó de Greg já tinha telefonado avisando que chegaria nos próximos dois dias. Nesse meio tempo, nem Greg nem Lisa tinha trocado uma única palavra, nem trocado "idéias" na terra. Os olhares continuavam, mas não como antes; quando ele a olhava disfarçava, quando ela o olhava fingia que estava olhando para outro lugar.
Greg porem ainda tentou falar com ela, através da jabuticabeira, mas quando voltava percebia que o lugar estava sua ultima noite na casa, Greg foi mais uma vez na jabuticabeira e olhou para o lugar que a tinha visto pela primeira vez. Demorou-se um tempo e depois deu as costas saindo dali o mais rápido possível, sem perceber que alguém o observava. Na manhã seguinte, ao descer para o café, Lisa descobriu que ele tinha partido. Seus olhos se encheram de lágrimas mas se controlou; a mãe entretanto percebeu a abraçou, Lisa assim deixou que algumas lágrimas caíssem. Passou um bom tempo no colo da mãe, ate que ela se pronunciou:
- Vai lá na sua arvore preferida vai...
Lisa olhou para a mãe e saiu correndo. Ao chegar mais perto, começou a diminuir os passos, com o coração uma folha branca ao meio daquela terra escura, sentou-se e leu a pequena frase que ele deixava: " Eu sou tolo, porque a primeira vez que eu te vi eu não conseguir dizer nada... eu sou tolo porque em vez de te dizer o que eu sentia de verdade eu escrevi na terra uma declaração bobinha...eu sou tolo porque em vez de eu ficar naquele quarto com você eu saí...e eu fui mas tolo ainda porque em vez de te esperar e me despedir eu fugi...mas eu não o serei mais porque quando eu voltar eu te encontrarei novamente e falarei tudo o que este tolo aqui não teve coragem de dizer." Lisa sorria docemente, olhou para o local onde estava o papel e viu dois grandes G. e L. no chão dentro de um coração, alem de uma corrente fininha de prata com uma cruz na ponta, onde logo abaixo estava escrito. " quando for a hora eu vou querer de volta viu!? " Lisa pegou a corrente e a colocou no pescoço com um sorriso agridoce no rosto.
[...]
Cuddy
voltou do seu pensamento " seus nomes podem ser iguais...mas
existem tantos Gregorys no mundo...tinha que ser esse?? " -
pensava aflita, quando ouviu um barulho vindo das pedras, algo se
chocando contra elas.
Caminhou
mais um pouco, sempre observando o caminho que ele tinha ido. Olhou
mais uma vez e subiu nas pedras tomando cuidado para não escorregar.
Chegou na ponta e viu uma mala, possivelmente de um dos passageiros
do navio. Enquanto tentava puxá-la para cima lembrou-se do desespero
da noite anterior...a ultima coisa que se lembrava era do momento em
que ele a xingava do lado de fora, ate que sentiu seu corpo ser
arremessado de encontro à cômoda. Depois disso tudo se apagou. Não
viu mais nada até que sentiu um par de mãos lhe segurar. Não
conseguia se mexer,ou falar, seu corpo não obedecia a sua mente.
Sentiu a boca dele sobre a dela, o ar entrando em seus pulmões, a
dor que isso fazia...queria que isso parasse..ela conseguia respirar,
mas o seu corpo não lhe obedecia.
uviu
um som de vidro se quebrando, mas era impossível falar. Já tinha
ouvido casos em que por um erro médico a pessoa era dada por morta,
mas continuava viva, só não conseguia se manifestar enterrado em
seu próprio corpo. O pânico tomou conta de sua mente que funcionava
a mil, tentava mexer a cabeça. o braço um dedo talvez! Mas nada
adiantava. Sentiu um corpo quente a carregando ao mesmo tempo em que
sentia uma corrente de água fria lhe invadindo. Uma mão pousou em
seu rosto delicadamente e como num choque seus olhos se abriram ao
mesmo tempo em que via House a olhando carinhosamente, lhe dando um
sorriso que parecia uma despedida e depois viu o seu corpo se
convulsionar freneticamente à medida que a água lhe entrava no
pulmão. Nadou rapidamente até ele e o viu lhe sorrindo ao mesmo
tempo que ele fechava os olhos. Puxou-o ate a superfície enquanto
via o navio se afastar deles e do outro lado uma tempestade se
aproximar cada vez mais violenta. Uma sensação de desespero a
atingiu quando percebeu que não conseguiria segurar por muito tempo
o corpo dele. A chuva caía, agora mais grossa e as ondas eram
enormes, Cuddy não conseguia enxergar um palmo à sua frente, sentia
seus músculos se contraírem, retesarem, não tinha mais forças,
tentou segurá-lo pelas pernas numa tentativa inútil se salva-lo.
Uma onda porem avançou contra eles fazendo Cuddy se separar de
House. Podia ainda ouvir sua voz gritar por ele ecoando naquele mar
sem fim, achou que ali o tinha perdido de vez e grande foi a sua
surpresa ao encontrá-lo debruçado sobre si na manhã
seguinte.
Finalmente
puxou a mala e andou firmemente ate a areia. Sentou-se e começou
abrir a mala com um pouco de receio. A mala era de algum homem,
apesar de na haver identificação, mas com certeza era de homem.
Dentro dela havia duas camisas, uma aparelho de barbear, alguns
chocolates de cama e uma garrafa de vodka, outra de whisky , todas
com o nome ' MS Freedon' –
Freedon'
– " ótimo..de todas as malas , eu tinha que achar a de um
biriteiro...e ainda por cima ladrão! – pensou enquanto lia a
embalagem. Olhou para o relógio em seu pulso '22h43s' a hora que
todo aquele desastre tinha acontecido. Sentia-se só, por mais que
gostasse de um lugar calmo, a sensação de isolamento constituía
numa solidão agonizante – "onde ele se meteu?" - falava
sozinha ao mesmo tempo que ouviu um ronco alto vir de seu estomago.
Olhou para os chocolates e sentiu-se tentada a comê-los mais decidiu
guardá-los, eles poderiam ser úteis em uma emergência...melhor era
guardá-los, olhou para as bebidas... " bom...um golinho não faz
mal..." House demorava para aparecer, o sol já estava se pondo,
quando finalmente ele deu às caras.
-
Ahhhh ai está você ! – disse com a voz meio enrolada
House
se aproximou lentamente observando a mala e as garrafas ao redor dela
e a outra meia garrafa em suas mãos.
-
Porque me deixou aqui sozinha? Se um tubarão pulasse do mar e me
pagasse heim? – disse meio sorrindo, meio séria.
-
Ta bom... já chega - disse pegando as garrafas e suspendendo a outra
que estavam em suas mãos.
-
Eiiii isso é meu! Pega lá uma para você e me dá essa ai –
reclamava fazendo beicinho.
Ficaram
um bom tempo se encarando. House parou um momento olhando para ela
que olhava assustada para algo atrás dele. House sentiu o medo dela
fluir e lentamente olhou para trás. Não havia nada. Porem era tarde
demais, sentiu a garrafa sendo tomada de suas mãos e passos se
afastando dele.
-
Cuddy!! Volta aqui! Já chega de beber - falava inutilmente enquanto
a via correr e virar o conteúdo pelo gargalo.
Cuddy
corria que nem prestava atenção nas pedras e caiu. A garrafa porem
ficou intacta – " ahh criança! Te salvei! Vem para a mamã..."
-
Chega! - disse House puxando a garrafa da mão dela.
Voltou
em direção à mala e colocou-a la dentro, trancando-a com um
segredo. Olhou para ela e a viu deitada na areia olhando para as
primeiras estrelas que surgiam no céu.
-
Elas são lindas... tão diferentes das da cidade..não é? -
perguntou com um assomo de lucidez.
House
olhou para o céu. Tinha escurecido rapidamente e o sol já tinha
ido, dando lugar à escuridão. Observou as estrelas mais uma vez e
virou-se para Cuddy, apreciando o brilho em seus olhos. Ficou
absorvido por aquela cena. Os cabelos dela espalhados pela areia
branca e os braços que subiam e desciam, brincando de nadar com a
areia fofa.
-
Vamos... –disse quase sem fôlego – eu achei uma cabana próximo
daqui – falou por fim estendendo as mãos para ela.
Cuddy
no entanto, continuou olhando para o céu aos poucos seus olhos foram
descendo ate encontrar os deles. House sentiu um arrepio de vê-los
assim o fitando tão intensamente. Cuddy olhou para as mãos dele e
segurou-se arqueando o corpo lentamente ate ficar de pé. Finalmente
levantou-se. House podia sentir o calor que o corpo dela emanava
junto ao seu; suas respirações se fundiam e se confundiam,
delicadamente Cuddy cerrou as pálpebras e aproximou-se dos lábios
dele.
-
Vamos antes que escureça – conseguiu dizer com muito
esforço.
Cuddy
o olhava boquiaberta, enquanto o via se afastar a passos longos e
apressados, parando um instante para que ela pudesse
acompanhá-lo.
Andaram
mais um pouco ate que chegaram a cabana. La dentro não havia nada,
exceto uma esteira embolorada e alguns vasos de argila...alem disse
era só palha. Algumas partes do teto haviam sido remendadas
recentemente como novas folhas verdes, o que denunciava o sumiço de
House.
-
Eu não vou entrar ai... – falou Cuddy convicta
-
É claro que não vai...eu vou dormir ai...já você...vai dormir
aqui fora! – falou House com veemência.
-
Ahh..mais é muito desafora seu! Agora eu entro! –exclamava
aborrecida.
-
Eu sei... – murmurou House , deixando que ela vencesse o seu
jogo.
Enquanto
a observava entrar na cabana, House ia jogando alguns gravetos na
fogueira que já crepitava. Encostou-se lentamente à entrada da
cabana enquanto sentia as pálpebras pesadas.
-
Você vai ficar ai fora? – disse uma voz abafada
-
Por quê ? Precisa de companhia para dormir ? – respondia
petulante.
Cuddy
sorria sobriamente.
-
Hummm... talvez um espantador de mosquito já seria bom...
House
meteu a cabeça dentro da cabana e olhou confusamente.
-
Ai já tem um...não preciso entrar...
-
Idiota!
Foi
a exclamação que ele ouviu do lado de fora, enquanto ria dela e
fechava o seus olhos lentamente. O cansaço do dia ia tomando conta
de seu corpo até que relaxou e dormiu instantaneamente.
-
E então – murmurou Lisa - você vai mesmo ficar ai fora?
House
fingia que dormia profundamente, sentiu o corpo dela se aproximando
do dele e deitando-se ao seu poucos viu que ela se rendia ao
cansaço ao pender lentamente a cabeça ao seu ombro. House relaxou
um pouco e deixou que ela se apoiasse nele, dormindo logo em seguida.
