Capítulo 5 - My First Love

"Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida... — Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo.
Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe a noiva. Era uma forma puríssima.. Meus sonhos nunca me tinham evocado uma estatua tão perfeita. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela.Àquele calor de meu peito, a febre de meus lábios, a convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados. — Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa — , apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!

A moça revivia a pouco e pouco..."

(Solfieri - Alvares de Azevedo)

O corpo todo doía. Sentia-se mole, fraco, parecia que um caminhão tinha tombado sobre seu corpo. Vomitava agora, toda a água que seus pulmões acumularam. Aos poucos começou a ouvir lentamente o barulho das ondas e forçou-se a abrir os olhos. Acima de sua cabeça pairava uma lua enorme, cheia, dando um ar prateado a toda extensão de areia que seus olhos podiam enxergar; sentiu-os pesados, quase se fechando... os ombros agora doíam bastante, olhou para um deles e viu a grossa farpa de madeira. Sem muito hesitar arrancou-a de vez, soltando um grito gutural que ecoou por toda ilha, desmaiando logo em seguida.

Não tardou pro dia amanhecer; com ele os primeiros raios de sol surgiam, assim como os sons naturais da ilha. O sol agora atingia House diretamente, assim como as ondas que iam e viam molhando o seu rosto. House sentia o gosto salgado do mar e uma leve ardência no ombro. Abriu os olhos mais uma vez e por fim soergueu-se com dificuldade, olhando aos poucos aquela imagem borrada que se definia lentamente. Parecia que estava no paraíso. Finalmente levantou-se, observando a poça de sangue marcada na areia e que agora o mar levava. Observava minuciosamente o lugar no qual estava, o quebra-mar, as pequenas piscinas que o mar formava com as pedras, enquanto enfaixava os ombros com um pedaço da camisa. Ouviu um som de água despencando, talvez houvesse algum rio lá por dentro, viu alguns cocos caídos, um pé de bananeira. Subiu em uma pedra no meio da ilha e sentiu o vento úmido bater em seu rosto, respirando profundamente quando avistou algo azul se mexendo entre as pedras. Parecia que um tecido azul nadava sozinho em direção à areia, acompanhado pelas ondas. Apertou mais um pouco a vista pra vê se enxergava melhor;
" um moletom azul?? Mas... droga!"
Correu mais do que suas pernas podiam suportar; a última vez que tinha visto Cuddy, ela usava um conjunto de moletom azul, como aquele. Era aquele! Enquanto corria seu coração disparava dentro do peito, parecia que ia explodir.

A distância era pequena, mas quanto mais corria, mas longe ficava. Finalmente chegou às pedras. O rosto de Cuddy estava virado para baixo; com um pouco de dificuldade, por causa do musgo, House a colocou em seus braços levando-a ate a areia da praia. Andou mais um pouco e a deitou, a roupa estava colada em seu corpo, os cabelos grudados em seu rosto. House respirou fundo e tentou sentir seu pulso. Seu coração parou por um minuto. O pulso estava fraco, mas ainda assim o podia sentir...rapidamente ele começou a fazer uma massagem e logo após respiração boca-a-boca.

- Vamos...respire!...

Continuou a massagear fortemente, enviando aos pulmões todo o ar que eles podiam receber.

- Não me deixe outra vez...Lisa...não posso te perder duas vezes..! - conversava com ela carinhosamente.

Flexionou seus joelhos e ajoelhou-se do lado dela, baixando a cabeça. Inesperadamente, ouviu um ganido, levantou a cabeça e a viu tentando tossir.

- Calma. Calma! Respire devagar – disse rapidamente.

Cuddy tossia um pouco engasgada. A água saiu de seus pulmões queimando o seu peito. Abriu os olhos lentamente e viu House debruçado na sua frente.
- Você??

- Ora.. um obrigado já seria bom... então... de nada por salvar sua vida - retomou House, voltando ao seu jeito de sempre..
Cuddy sentou-se lentamente na areia, olhando o ambiente , confusa.

- E então? - perguntou House preocupado, mas mantendo a frieza depois de ser recebido daquela maneira por ela.

- Eu tenho cara de mapa ou algo parecido? – perguntou,com seu humor sarcástico.

Cuddy o olhou desconcertada, não queria ter falado com ele daquele jeito, mas se explicasse o motivo ele não entenderia. House parou por um momento e observou e arrependido de tê-la tratado daquele jeito, tentou se desculpar da sua maneira.

- Você esta bem?
- Sim – respondeu Cuddy secamente
- Ta com sede?
- Não.
- Fome?

Ela olhou-o sem entender o motivo de tanta grosseria e depois as tantas perguntas. Não entendia como ele podia ser tão estranho..a ponto de uma hora esta bem e outra mal-humorado, sem que ninguém tivesse dado algum motivo.

- Não..- respondeu em alto e bom som, irritada.

House gostou de vê-la assim, quase brava.
-Vai me responder só sim ou não é?

- É..- disse sem nenhuma intenção de fazer graça.

- Entãooo..você vai me tratar assim..? – perguntou petulantemente.
Os nervos de Lisa já estavam fervendo, não queria ser grossa, mas estava começando a achar que era aquilo que ele estava querendo, se controlou mais um pouco, respirou fundo e contou ate 10.

- Vou..se você quer saber – falou calmamente.

- Porque?

- Ahhh House ! Que saco!!! Você sabe o porquê de eu estar tratando você assim..mas se quer realmente saber... ai vai! eu não vou te perdoar pelo o que me fez..nunca eu vou te perdoar, não importa que você tenha me salvado ou não! Por mim eu preferia morrer do que ter que te ver novamente!! – falou de uma vez só, parando um breve momento para respirar e ver a reação dele – satisfeito? Era o que você queria? Pois bem! Você é um tolo mesmo - terminou por dizer quase chorando.

- Não sou tolo nada! Você é que... – continuou a falar abruptamente, visivelmente irritado

Lisa ouviu essa frase e alguma coisa no seu subconsciente despertou, já tinha ouvido isso, como um dejà vu, só não conseguia se lembrar. De repente começou a se lembrar da infância, uma fase que foi difícil de esquecer, ficou tentando se lembrar ate que ouviu uma voz.

Cuddy! Você esta me ouvindo? – falou House aborrecido

- Hãn?

Lisa tinha voltado e via House na sua frente. Balançou a cabeça negativamente "não pode ser" – pensou " ele podia ser um menino qualquer".

- Eii.. eu to falando com você! –falou grosseiramente

- Ahh House vai à merda vai! – disse levantando-se irritada

House a olhou sem graça, nunca imaginou que uma discussãozinha tola como aquela podia terminar assim, mas também, ele pensou... "Eu a provoquei..."
Lisa, no entanto ficou com raiva de ter lembrado daquilo que acontecera há tantos anos. Seus nomes podiam ser iguais, mas esse House não era aquele Greg que ela tinha conhecido quando pequena, não podia ser aquele que tinha mexido com seu coração pela primeira vez!.
O observou andando calmamente pela praia, se afastando. O viu ainda olhando em sua direção para depois se embrenhar pela mata adentro. Cuddy levantou-se e seguiu-o com os olhos, se perguntando para onde ele iria. Observou-o mais um pouco e decidiu tomar a direção contraria indo para a praia. Andou um pouco molhando os pés na água geladinha enquanto pensava na sua infância.

[...]

- O que é que você quer comigo heim? Papai já disse que eu não posso ficar com você! Vai pra la vai...- disse uma menininha de grandes olhos azuis inquisidores.
Os cabelos encaracolados estavam preso em um rabo de cavalo bem feito, trajava uma camisa branca , uma calça bege e botas de montaria pretas. Devia ter uns 11 anos. Olhou mais uma vez para trás e viu que seu fiel amigo ainda a seguia.
- Você é mesmo teimoso não é? Vai brincar com o William. Ele é menino e papai disse que ele pode montar em você! - disse imitando a voz do pai e rindo logo em seguida.
Andou mais um pouco e chegou em sua arvore preferida. Era primavera , o ar estava úmido e as plantas logo logo começariam a dar suas primeiras flores. No imenso jardim que a rodeava, havia ipês roxos e amarelos que davam à sua casa um ar romântico de um daqueles poemas idílicos que detestava ler.

Lisa era a mais nova de 3 irmãos e os pais a tratavam como a princesinha da casa, o pai principalmente. A mãe ainda a deixava brincar com os irmãos e os meninos da redondeza, mas o pai era diferente, queria que ela se tornasse uma dama na sociedade, soubesse costurar, cozinhar e depois se casar e dar muitos netos para ele.
- William!! – a mãe reclamava – Nós não estamos mais na década de 20! Pelo amor de Deus! Deixe Lisa escolher o que ela quer fazer! Eu não vou fazer a mesma coisa que minha mãe fez comigo! Se ela quiser montar ela vai! Se quiser ir pro exercito ou qualquer outro lugar que quiser ir eu vou deixar..e você não vai impedir.! – ouvia mãe brigar com o pai toda vez que ele a proibia de fazer algo.
Amava muito o pai, mas não aceitava aquelas regras que so ela, de todos os irmãos era obrigada a fazer. No fim os pais acabariam se separando, mas ela era muito pequena para entender esse mundo estranho dos adultos.
Sentou-se à sombra da jabuticabeira e aspirou aquele perfume que a arvore soltava ao ser balançada pelo vento. Estava no limite da propriedade, seus antigos vizinhos não gostavam de ser incomodados, por isso os irmãos mais velhos sempre inventavam historias, mesmo que os vizinhos não fossem os de antigamente. Ouviu o barulho vindo da alta cerca feita de plantas, o que assustou o pônei.
- Homens..sempre medrosos . – disse olhando para o pônei assustado.
Parou um momento, levantando-se para observar de onde vinha aquele barulho. Seus olhos azuis piscavam perspicazes, à procura de algum movimento. Olhou para a sua casa e como não tinha ninguém a observando , decidiu entrar rapidinho pelas brechas da planta. Foi afastando o matinho à sua frente quando parou de repente. Um outro par de olhos azuis a fitava.

- Oi.. – falou curiosa.
O menino nada respondeu, apenas a observava.

- Oiii – falou mais alto pensando que não havia sido ouvida.
" que menina bonita"

-Heiii..você é surdo? Eu to falando com você! – parou um momento para analisá-lo – ou então é mudo? – disse mexendo as mãos imitando a linguagem dos sinais, sem sucesso.
Olhou para o menino parado à sua frente. Devia ter a mesma idade de seu irmão mais velho, John de 15 anos. Deu uma volta pelo menino tentando decifrar o porquê dele não falar.

- De repente você é tímido – especulava – ou então é mal educado mesmo – falou com o olhar brilhando.
O menino nada respondia! Lisa já estava cansada daquela brincadeira muda.

- Você é um tolo! – falou virando as costas.

- Não sou nada! Você é que..- respondeu o garoto sendo logo interrompido por ela.

- Ahh! Você fala! É um milagre- falou zombeteira erguendo as mãos para o céu e rindo bastante.
O menino gostou de vê-la rir, apesar de ter sido ofendido.

- E então? Você mora aqui? Eu nunca te vi... qual o seu nome? Você tem irmã? Essa fazenda é de seus pais..ou seus avos? Porque o casal que mora ai é bem velhinho para ser os seus pais...Vai ficar aqui por muito tempo ou vai logo embora? hein? Heim?

O menino olhava assustado para aquela criatura na sua frente, ela parecia uma matraca ambulante, olhou-a como se estivesse à procura de alguma coisa.

- O que você ta procurando em mim? – perguntou curiosa.

- Um botão para te desligar! Você fala demais! Minha nossa!!!– disse por fim dando-lhe as costas e voltando para casa.

Lisa ficou sem jeito, tentara ser o mais agradável possível com aquele menino e ele a destratava daquele jeito??
- Ahh..ele vai ver so – disse saindo fazendo beicinho.

X

- Vamos mocinha..levante-se..
- Humm...mainha..deixa eu ficar mais um pouquinho..deixa..eu to de férias - falou bocejando, quase caindo no sono outra vez.
- Nada mocinha...vamos.. – falou a mãe puxando seu lençol lentamente.
Lisa levantou-se fazendo o maior esforço. Olhou pela janela a casa vizinha e se lembrou imediatamente do menino dos olhos bonitos, suas bochechas ficaram vermelhas e ela sorriu timidamente, levantou-se rapidamente.
- Eitha...que furacão - disse a mãe observando a mudança as bochechas e o sorriso " ai tem alguma coisa" –pensou enquanto olhava na mesma direção que a filha outrora tinha visto.
- Ahh mãe.. eu quero aproveitar meus últimos dias de férias - mentiu.
O verdadeiro motivo com certeza não era esse. Tomou um rápido café da manha e saiu correndo ate chegar na jabuticabeira. Sentou-se de frente para a casa do vizinho e ficou esperando. O sol já estava a pino, avançando entre alguns galhos da arvore e atingindo bem nela, que cochilava. Sentiu alguns gravetos secos bater em seu rosto e abriu os olhos lentamente. A visão ainda estava borrando, mas conseguiu definir a imagem que se formava diante de seus olhos.
- Acorda Lees...mamãe ta chamando para almoçar!
- Humm..é você...
- Não...vamos! – disse enquanto corria
Os irmãos corriam, numa disputa louca de quedas e tropeços na terra para ver quem chegava em casa primeiro. Chegaram sujos e emaranhados de terra e gravetos e se assustaram ao ver uma senhora de cabelos alvos conversando com a mãe.

- ... é urgente e eu não tenho ninguém com quem deixá-lo.. A mãe sofreu um acidente, nada grave mas eu preciso ir vê-la e o pai..bem você entende né...
- Claro Sra Emily não se preocupe, ele estará em boas mãos..e vai se divertir bastante com os meninos.
Nesse momento Lisa e o irmão,se aproximam curiosos. Estavam dos pés à cabeça sujos de barro, gravetos pelos cabelos..um desastre.
- Ahhh.. creio que a Sra não conheceu ainda os gêmeos..Lisa e William Jr.... Vamos.. não sejam tímidos cumprimentem a Sra Emily..

Cumprimentaram timidamente e saíram correndo para se lavarem, sob o olhar atento da mãe
- Meu neto já deve estar chegando. Ele é um pouco fechado..tímido, eu diria mas garanto que ele não vai lhe dar nenhum trabalho...
Poucos minutos depois aparece Gregory. Vinha desconfiado, não gostava muito de estranhos.
- Gregory querido...deixe-me apresentar a Sra Elizabeth, ela vai ficar com você ate eu voltar... - falou avó carinhosamente.
- Oi Gregory..tudo bem querido? - perguntava a mãe de Lisa.
O menino nada respondia. A avó queixou-se um pouco e ele finalmente respondeu um breve e seco Oi..
- Não ligue.. depois ele se solta - falou a avó.
A avó começou a se despedir do menino, quando Lisa entra na sala.
- Ah...o tolo.. - falou sem nenhuma vergonha.
- Não sou nada...
Lisa provocativamente começou imitar o " não sou nada " dele
- Lisa!!! O que é isso!! Isso é jeito de se comportar? o Greg vai ficar aqui por um tempo e ai de você se ficar assim..eu não te digo nada! - disse a mãe visivelmente sem graça - ela não é assim...
- Ahh..ótimo mais um menino nessa casa! - disse enquanto saía sossegadamente ante o olhar furioso da mãe.

Passado alguns dias, Greg foi se acostumando. Se antes não falava nada, agora até falava demais. Era esperto e comandava as brincadeiras entre os irmãos de Lisa. Sempre a via sentada no pé na jabuticabeira, sozinha ou com o seu pônei. Desde que chegara,não tinha coragem de falar com ela, alguma coisa em seu jeito o impedia. Ela no entanto sempre o via a observando, mas não ligava ou fingia não ligar. Na hora do café, almoço ou jantar sempre sentavam frente a frente e quando viam que ninguém os observava, trocavam olhares cheios de confidências. Nascia ali um amor puro e inocente. Nesses quase 15 dias, não haviam trocado se quer uma única palavra, mas bastava um olhar para todas as letras do alfabetos se juntarem e formar aquilo que queriam dizer. A mãe de Lisa começava a ficar preocupada nunca tinha visto a filha tão calada.

- Lees..você tem ficado tão quieta ultimamente.. tem alguma coisa que você queira me dizer?

- Eu...eu..não mãe..

- Tem alguma coisa a ver com o Greg? - soltou a mãe delicadamente

Lisa olhou assustada para ela, como ela podia ter adivinhado? Deu uma risada nervosa.

- Oxi mamis..ta viajando é? - disse enquanto saía rapidamente do encalço da mãe.

Chegou na varando e viu que os meninos jogavam bola. Olhou para Greg e balançou a cabeça negativamente indo ate a sua arvore.
Sentou-se e pouco e viu que havia algo escrito na terra. " você é a menina mais linda que eu já vi! G." Seu estomago doía, sentiu algo estranho. Suas mãos suavam, o coração batia, a boca repentinamente tinha ficado seca e a respiração começou a ficar ofegante. Não sabia o que era, nem pensava que isso eram os sintomas de uma primeira paixã timidamente. Apagou o que estava escrito, pegou um graveto e escreveu.

Depois de terminado o jogo, Greg encaminhou-se ate a arvore, duas vezes tinha levado uma bolada no estomago e o último foi tão forte que achou que iria desmaiar, tudo isso porque a tinha vista na jabuticabeira lendo o que ele tinha escrito. Com o estomago ainda doendo, foi ate la e leu o que ela tinha escrito. " você é mesmo um tolo! Porque não fala isso para mim?!?" Sentiu raiva no primeiro instante, como ela podia lhe dizer aquilo!! Mas depois de ter lido mais uma vez, percebeu que ela deveria ter gostado, senão porque teria tido o trabalho de escrever?!?! Olhou para a casa e viu uma sombra sair furtivamente da janela, sorriu mais uma vez e saiu sem escrever nada.

Mal havia amanhecido e Lisa levantou-se correndo, temia que o vento tivesse apagado o que ele tinha escrito. Vestiu uma roupa e foi ate a arvore. Ficou decepcionada ao ver que sua frase ainda estava ali. Nesse dia ficou mal-humorada, qualquer um que falasse com ela ou tocasse era praticamente agredido com palavras e beliscões. Greg adorou vê-la assim, pôs a mão na base do estomago sentindo mais uma vez uma dor lacerante.

Depois do almoço, enquanto os irmãos de Lisa corriam, Greg decidiu ficar sentado. Estava muito pálido e gemendo de dor, porem escondia isso de todos.
- Mãe...
- Humm
- Tem alguma coisa acontecendo com o Greg - disse apontando para ele da janela da cozinha.
A mãe parou de fazer as coisas e o observou segurando o estomago e indo para frente e para trás, decidiu abrir a janela e falar com ele
- Greg querido...você esta bem?
Lisa já estava la fora, ao mesmo tempo que ele caía no chão, desmaiado.

XXX

- Então é apendicite?
- Isso...o apêndice já estava inflamado,ele deve ter levado algum empurrão...ter batido em algum lugar...Você tem que levá-lo para algum hospital o mais rápido possível!

- Meu Deus! O hospital é muito longe daqui...vamos levar umas 3 horas para chegar...

- Ele não tem 3 horas.. a infecção pode chegar muito rápido na corrente sangüínea e ai..será muito tarde...

- E agora?? o que eu faço - perguntava a mãe de Lisa desesperadamente.
O medico a olhou e sugeriu.

- Bom...você pode levá-lo ate a minha clinica, eu tenho lá dois enfermeiros e..

- Quantos desse você já fez?- olhou a mãe desconfiada e com receio da resposta.

- Bom..- respondeu o jovem medico - esse seria meu primeiro...mas eu já treinei em cadáveres e em alguns pacientes..Sra Cuddy creio que eu sou sua única solução...se levar o menino ao hospital ele pode morrer...aqui...pelo menos ele tem uma chance...

Elizabeth olhou para o menino ali sofrendo e depois olhou para o jovem medico que parecia inexperiente, mas que pelo menos era uma chance e decidiu optar por fazer a cirurgia.
- Ok...pode fazer...se essa é a única chance dele - falava nervosamente.
- Não se preocupe Greg...você vai ficar bom - sussurrava Lisa.

Dois dias já tinham se passado desde a pequena cirurgia, uma pequena infecção tinha surgido no local do corte, formando uma pequena cicatriz. Greg já estava de pé, naquela época,detestava ficar sem fazer nada.
- Para onde você vai? - perguntou Lisa saindo da escuridão.

Aqui é que eu não vou ficar - disse levando um pequeno susto ao pensar que estava sozinho no quarto.

- Você não pode sair! Tem que ficar descansando ainda...

- ...nãooo.. eu não quero ficar preso aqui...

- ...mas..

- nem mas nem menos.. eu vou sair.. - disse passando por ela.

- Você é um tolo mesmo - provocou Lisa.

House deu uma guinada no corpo, se aproximando dela e ficando frente a frente.
- Aff... - suspirou - você não se cansa mesmo ne? Não é só porque eu te acho... - procurou uma palavra, pensou em bonita - diferente..é que eu vou ter que suportar você me xingando! Ainda bem que eu já vou embora daqui!! - disse indo em direção à porta e batendo ruidosamente.

Lisa ficou muda, não entendia porque ela fazia isso com ele, não queria mas alguma coisa dentro dela a fazia dizer aquelas tais palavras.

A avó de Greg já tinha telefonado avisando que chegaria nos próximos dois dias. Nesse meio tempo, nem Greg nem Lisa tinha trocado uma única palavra, nem trocado "idéias" na terra. Os olhares continuavam, mas não como antes; quando ele a olhava disfarçava, quando ela o olhava fingia que estava olhando para outro lugar.

Greg porem ainda tentou falar com ela, através da jabuticabeira, mas quando voltava percebia que o lugar estava sua ultima noite na casa, Greg foi mais uma vez na jabuticabeira e olhou para o lugar que a tinha visto pela primeira vez. Demorou-se um tempo e depois deu as costas saindo dali o mais rápido possível, sem perceber que alguém o observava. Na manhã seguinte, ao descer para o café, Lisa descobriu que ele tinha partido. Seus olhos se encheram de lágrimas mas se controlou; a mãe entretanto percebeu a abraçou, Lisa assim deixou que algumas lágrimas caíssem. Passou um bom tempo no colo da mãe, ate que ela se pronunciou:

- Vai lá na sua arvore preferida vai...

Lisa olhou para a mãe e saiu correndo. Ao chegar mais perto, começou a diminuir os passos, com o coração uma folha branca ao meio daquela terra escura, sentou-se e leu a pequena frase que ele deixava: " Eu sou tolo, porque a primeira vez que eu te vi eu não conseguir dizer nada... eu sou tolo porque em vez de te dizer o que eu sentia de verdade eu escrevi na terra uma declaração bobinha...eu sou tolo porque em vez de eu ficar naquele quarto com você eu saí...e eu fui mas tolo ainda porque em vez de te esperar e me despedir eu fugi...mas eu não o serei mais porque quando eu voltar eu te encontrarei novamente e falarei tudo o que este tolo aqui não teve coragem de dizer." Lisa sorria docemente, olhou para o local onde estava o papel e viu dois grandes G. e L. no chão dentro de um coração, alem de uma corrente fininha de prata com uma cruz na ponta, onde logo abaixo estava escrito. " quando for a hora eu vou querer de volta viu!? " Lisa pegou a corrente e a colocou no pescoço com um sorriso agridoce no rosto.

[...]

Cuddy voltou do seu pensamento " seus nomes podem ser iguais...mas existem tantos Gregorys no mundo...tinha que ser esse?? " - pensava aflita, quando ouviu um barulho vindo das pedras, algo se chocando contra elas.
Caminhou mais um pouco, sempre observando o caminho que ele tinha ido. Olhou mais uma vez e subiu nas pedras tomando cuidado para não escorregar. Chegou na ponta e viu uma mala, possivelmente de um dos passageiros do navio. Enquanto tentava puxá-la para cima lembrou-se do desespero da noite anterior...a ultima coisa que se lembrava era do momento em que ele a xingava do lado de fora, ate que sentiu seu corpo ser arremessado de encontro à cômoda. Depois disso tudo se apagou. Não viu mais nada até que sentiu um par de mãos lhe segurar. Não conseguia se mexer,ou falar, seu corpo não obedecia a sua mente. Sentiu a boca dele sobre a dela, o ar entrando em seus pulmões, a dor que isso fazia...queria que isso parasse..ela conseguia respirar, mas o seu corpo não lhe obedecia.

uviu um som de vidro se quebrando, mas era impossível falar. Já tinha ouvido casos em que por um erro médico a pessoa era dada por morta, mas continuava viva, só não conseguia se manifestar enterrado em seu próprio corpo. O pânico tomou conta de sua mente que funcionava a mil, tentava mexer a cabeça. o braço um dedo talvez! Mas nada adiantava. Sentiu um corpo quente a carregando ao mesmo tempo em que sentia uma corrente de água fria lhe invadindo. Uma mão pousou em seu rosto delicadamente e como num choque seus olhos se abriram ao mesmo tempo em que via House a olhando carinhosamente, lhe dando um sorriso que parecia uma despedida e depois viu o seu corpo se convulsionar freneticamente à medida que a água lhe entrava no pulmão. Nadou rapidamente até ele e o viu lhe sorrindo ao mesmo tempo que ele fechava os olhos. Puxou-o ate a superfície enquanto via o navio se afastar deles e do outro lado uma tempestade se aproximar cada vez mais violenta. Uma sensação de desespero a atingiu quando percebeu que não conseguiria segurar por muito tempo o corpo dele. A chuva caía, agora mais grossa e as ondas eram enormes, Cuddy não conseguia enxergar um palmo à sua frente, sentia seus músculos se contraírem, retesarem, não tinha mais forças, tentou segurá-lo pelas pernas numa tentativa inútil se salva-lo. Uma onda porem avançou contra eles fazendo Cuddy se separar de House. Podia ainda ouvir sua voz gritar por ele ecoando naquele mar sem fim, achou que ali o tinha perdido de vez e grande foi a sua surpresa ao encontrá-lo debruçado sobre si na manhã seguinte.
Finalmente puxou a mala e andou firmemente ate a areia. Sentou-se e começou abrir a mala com um pouco de receio. A mala era de algum homem, apesar de na haver identificação, mas com certeza era de homem. Dentro dela havia duas camisas, uma aparelho de barbear, alguns chocolates de cama e uma garrafa de vodka, outra de whisky , todas com o nome ' MS Freedon' –

Freedon' – " ótimo..de todas as malas , eu tinha que achar a de um biriteiro...e ainda por cima ladrão! – pensou enquanto lia a embalagem. Olhou para o relógio em seu pulso '22h43s' a hora que todo aquele desastre tinha acontecido. Sentia-se só, por mais que gostasse de um lugar calmo, a sensação de isolamento constituía numa solidão agonizante – "onde ele se meteu?" - falava sozinha ao mesmo tempo que ouviu um ronco alto vir de seu estomago. Olhou para os chocolates e sentiu-se tentada a comê-los mais decidiu guardá-los, eles poderiam ser úteis em uma emergência...melhor era guardá-los, olhou para as bebidas... " bom...um golinho não faz mal..." House demorava para aparecer, o sol já estava se pondo, quando finalmente ele deu às caras.
- Ahhhh ai está você ! – disse com a voz meio enrolada
House se aproximou lentamente observando a mala e as garrafas ao redor dela e a outra meia garrafa em suas mãos.
- Porque me deixou aqui sozinha? Se um tubarão pulasse do mar e me pagasse heim? – disse meio sorrindo, meio séria.
- Ta bom... já chega - disse pegando as garrafas e suspendendo a outra que estavam em suas mãos.
- Eiiii isso é meu! Pega lá uma para você e me dá essa ai – reclamava fazendo beicinho.
Ficaram um bom tempo se encarando. House parou um momento olhando para ela que olhava assustada para algo atrás dele. House sentiu o medo dela fluir e lentamente olhou para trás. Não havia nada. Porem era tarde demais, sentiu a garrafa sendo tomada de suas mãos e passos se afastando dele.
- Cuddy!! Volta aqui! Já chega de beber - falava inutilmente enquanto a via correr e virar o conteúdo pelo gargalo.
Cuddy corria que nem prestava atenção nas pedras e caiu. A garrafa porem ficou intacta – " ahh criança! Te salvei! Vem para a mamã..."
- Chega! - disse House puxando a garrafa da mão dela.
Voltou em direção à mala e colocou-a la dentro, trancando-a com um segredo. Olhou para ela e a viu deitada na areia olhando para as primeiras estrelas que surgiam no céu.

- Elas são lindas... tão diferentes das da cidade..não é? - perguntou com um assomo de lucidez.
House olhou para o céu. Tinha escurecido rapidamente e o sol já tinha ido, dando lugar à escuridão. Observou as estrelas mais uma vez e virou-se para Cuddy, apreciando o brilho em seus olhos. Ficou absorvido por aquela cena. Os cabelos dela espalhados pela areia branca e os braços que subiam e desciam, brincando de nadar com a areia fofa.
- Vamos... –disse quase sem fôlego – eu achei uma cabana próximo daqui – falou por fim estendendo as mãos para ela.
Cuddy no entanto, continuou olhando para o céu aos poucos seus olhos foram descendo ate encontrar os deles. House sentiu um arrepio de vê-los assim o fitando tão intensamente. Cuddy olhou para as mãos dele e segurou-se arqueando o corpo lentamente ate ficar de pé. Finalmente levantou-se. House podia sentir o calor que o corpo dela emanava junto ao seu; suas respirações se fundiam e se confundiam, delicadamente Cuddy cerrou as pálpebras e aproximou-se dos lábios dele.
- Vamos antes que escureça – conseguiu dizer com muito esforço.
Cuddy o olhava boquiaberta, enquanto o via se afastar a passos longos e apressados, parando um instante para que ela pudesse acompanhá-lo.
Andaram mais um pouco ate que chegaram a cabana. La dentro não havia nada, exceto uma esteira embolorada e alguns vasos de argila...alem disse era só palha. Algumas partes do teto haviam sido remendadas recentemente como novas folhas verdes, o que denunciava o sumiço de House.
- Eu não vou entrar ai... – falou Cuddy convicta
- É claro que não vai...eu vou dormir ai...já você...vai dormir aqui fora! – falou House com veemência.
- Ahh..mais é muito desafora seu! Agora eu entro! –exclamava aborrecida.
- Eu sei... – murmurou House , deixando que ela vencesse o seu jogo.
Enquanto a observava entrar na cabana, House ia jogando alguns gravetos na fogueira que já crepitava. Encostou-se lentamente à entrada da cabana enquanto sentia as pálpebras pesadas.

- Você vai ficar ai fora? – disse uma voz abafada
- Por quê ? Precisa de companhia para dormir ? – respondia petulante.
Cuddy sorria sobriamente.
- Hummm... talvez um espantador de mosquito já seria bom...
House meteu a cabeça dentro da cabana e olhou confusamente.
- Ai já tem um...não preciso entrar...
- Idiota!
Foi a exclamação que ele ouviu do lado de fora, enquanto ria dela e fechava o seus olhos lentamente. O cansaço do dia ia tomando conta de seu corpo até que relaxou e dormiu instantaneamente.
- E então – murmurou Lisa - você vai mesmo ficar ai fora?
House fingia que dormia profundamente, sentiu o corpo dela se aproximando do dele e deitando-se ao seu poucos viu que ela se rendia ao cansaço ao pender lentamente a cabeça ao seu ombro. House relaxou um pouco e deixou que ela se apoiasse nele, dormindo logo em seguida.