Primeira parte chegando... Espero que gostem, boa leitura!


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Correndo Atrás

Por Graziela Leon

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Sabe quando te acontece algo tão incrível que não tem como guardar isso só pra você? Quando você sabe, sente até os seus ossos, que suas experiências precisam ser compartilhadas. Que elas podem ajudar aos outros...

Eu preciso contar-lhes, contar as coisas que eu testemunhei. Uma história da qual, de um jeito ou de outro, eu faço parte. Digamos que, certa vez, foi preciso que déssemos uma ajudinha ao destino... Eu acredito que o futuro esteja determinado, mas apenas as coisas que não dependem da nossa escolha.

As oportunidades não dependem de nós, mas temos a decisão de se vamos aproveitá-las ou não.

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Sábado

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Tudo começou com um telefonema, numa linda manhã de sábado, ensolarada e primaveril. O trinado alto da campainha do telefone quase estremecia as paredes do nosso simpático sobrado, numa das ladeiras mais altas de San Francisco.

Os passos descalços de minha prima e melhor amiga no assoalho de madeira, esses sim, fizeram a construção estremecer, e eu olhava, abobada, o jeito de menina que Rin tinha, enquanto ela corria para atender ao telefone.

- Torre das princesas encantadas, Cinderela falando! – o sorriso dela era largo e fácil – Não, não... A Bela Adormecida está tomando café da manhã... Só um instantinho.

Ela caminhou de volta a pequena mesa da nossa cozinha, agora já sem tanta pressa, sua camisola rosa de seda dançando em volta do corpo, ao sabor de seus passos leves. Como ela era... Suave!?Parecia-se mesmo com uma princesa.

- Toma... É o príncipe azul! – ela riu, me estendendo o aparelho, e voltou a comer sua grande fatia de mamão.

- Bom dia, meu lindo! – eu ainda ria das besteiras de Rin.

- Bom dia, Princesa! – A voz bem-humorada de Inu Yasha enfatizou a última palavra, entrando na brincadeira da minha prima. Os dois juntos eram insuportáveis! – Olha só, eu recebi uma notícia surpreendente ontem à noite... Façam as malas, vocês duas. – eu ergui minhas sobrancelhas. Malas?! – Sesshoumaru se casa em uma semana, e nós três vamos viajar a Gracetown pra ajudar nos preparativos!

A única razão para o meu queixo não ter tombado no chão da cozinha foi que eu engasguei com meu suco de laranja e comecei a tossir descontroladamente, meu peito balançando em convulsões frenéticas. Rin levantou, dando tapas nas minhas costas, e dizendo coisas como "calma" e "respira", enquanto eu ouvia a voz de Inu Yasha chamando o meu nome diversas e diversas vezes pelo telefone.

Quando eu, finalmente, consegui ficar "normal" e parar de tossir, Rin começou a rir da minha expressão atônita. Se ela soubesse, estaria tão ou mais espantada do que eu.

- Como assim o Sesshoumaru?! – Minha voz saiu ainda falha. Pude ver o interesse surgir no rosto da minha prima, mesmo que ela tentasse dissimulá-lo – Está falando da mesma pessoa que eu? Quer dizer, o Sesshoumaru, o nosso Sesshoumaru? Tem certeza?

Eu olhei de soslaio para Rin, que cutucava o mamão com aveia usando uma colher, sem nenhum interesse. Seus olhos estavam perdidos na mesa, e o sorriso havia desaparecido completamente do seu rosto.

Inu Yasha estranhou a minha incredulidade. Creio até que tenha se irritado um pouco. Aliás, o meu chatinho favorito se irrita com facilidade.

- É Kagome... Eu acho que sei muito bem do que estou falando O meu irmão vai se casar. Quer que desenhe?

Eu ouvi ele bufando do outro lado da linha. Ok, ok... Não era hora de brigar com o meu namorado

- Desculpa, amor...É claro que você sabe – Super acostumada a ceder ao gênio dele... – Eu fiquei surpresa, só isso... – "Como é que eu vou contar isso pra Rin?" pensei – Não esperava uma notícia dessas. – "E a Rin menos ainda..."

- Tá, tá... Ah, é melhor avisá-las... – Eu gelei. Tinha mais?! – Como a noiva não tem irmãs, e Kanna se recusou definitivamente, minha mãe ofereceu vocês duas pra organizarem a despedida de solteira... Ela disse que isso é bem a cara de vocês.

Ok, agora era oficial: Kagome Higurashi – ou seja, EU – estava muito enrascada e super, hiper, ultra, mega apavorada.

Nem lembro direito o que disse a seguir, mas sei que alguns segundos depois eu estava segurando o telefone desligado, passando-o de uma mão para a outra, sem saber como falar.

- O que aconteceu? – Rin perguntou, com ar de desinteresse.

Ela não me encarava, então eu olhei para o prato a frente dela. Rin cutucava a pasta alaranjada, que há alguns minutos atrás ainda era uma fatia de mamão. Ela não parecia realmente interessada no seu ex-café-da-manhã. Aliás, seus olhos estavam vazios.

- Bem... Ele ligou pra... – eu larguei o maldito telefone na mesa, estava me pondo ainda mais nervosa – ... Contar que nós três teremos que viajar – Se eu abrisse um pouco mais a boca, era possível que meu coração pulasse pra fora - ... Pra assistir o...o casamento... do Sesshoumaru.

Senti como se o nome dele tivesse ecoado, centenas de vezes, entre as paredes da nossa cozinha.

- Uhn... Então eu acho que devo assinar um cartão de felicidades ou coisa parecida pra você levar... Será a minha representante!

Ela ergueu o rosto pra me olhar. Mas, embora mostrasse aquele sorriso radiante de sempre, eu via que seus olhos continuavam vazios.

- Izayoi faz questão da sua presença, Rin. Ela até já nos atribuiu algumas tarefas... Nos preparativos... – Minha voz quase sumia no final das sentenças.

Ela comprimiu o guardanapo sobre os lábios, apenas por força do hábito, e se levantou, apoiando ambas as mãos na mesa.

- Sinto muito, Kagome, mas eu tenho uma edição pra fechar essa semana... Não vai dar.

Eu me levantei também, a seguindo para fora da cozinha.

- Rin, você não tira férias há mais de dois anos! Tenho certeza que o Phill não vai se importar se você sair por uma semaninha... A revista sobrevive!

Ela já estava no pé da escada, a essa altura. Então parou, rindo pra mim com aquele seu sorriso vazio.

- Kagome, você mal conhece o Phillip... Por trás daquela pose toda de Editor-chefe, ele é só um garotinho. Gruda na barra da minha saia toda a vez que aparece um problema, como se eu fosse a mãe dele – Ela voltou a subir os degraus, com toda a calma de seus passos de princesa – Pode crer... Ele precisa de mim. Não dá.

Só havia uma coisa que a faria mudar de idéia, embora também pudesse fazê-la me odiar. Eu me vi forçada a apelar.

- Não acredito nisso...Você se rendendo? É isso o que vai fazer? Entregar os pontos e fugir? – Rin virou em câmera lenta para mim, a cabeça meio inclinada para o lado. Seu olhar assassino me fulminou, mas pelo menos não estava mais vazio. – Isso mesmo, priminha, eu estou tocando no seu "assunto proibido"... Vai deixar assim, sem nem lutar?

Ela voltou a ficar serena, e por um momento isso me assustou.

- Eu não sei do que está falando – Voz macia, rosto angelical.... E o Oscar vai para...!

- Pois então eu explico. Estou falando do Sesshoumaru – enfatizei cada sílaba daquele nome – Do casamento dele, e do que você ainda sente por ele – Ela não me olhava, e eu sabia que estava mexendo com coisas muito delicadas. – Nós ainda temos uma semana... Uma semana inteirinha.

Ela enfim me olhou, seu rosto iluminado pelas milhares de idéias que eu sabia que já estavam nascendo, e um sorriso brincando nos lábios. O sorriso de uma criança que se prepara para aprontar.

- O que está pretendendo, Kagome?

- Eu? Nada... – estreitei os meus olhos para ela, significativamente – Apenas te ajudar, no que quer que você pretenda fazer...

Ela gargalhou e começou a subir as escadas novamente.

- Vou arrumar as malas! – Gritou lá de cima.

Eu ri e me joguei no sofá, com um suspiro profundo. Aquela seria uma longa semana. Mas eu sabia, ia ser muito divertido...

...

O relógio marcava umas quatro da tarde quando as buzinadas insistentes de Inu Yasha me fizeram derrubar uma das minhas lentes de contato sobre a penteadeira, quase enfiando no meu olho o dedo que a estivera segurando. Rin levantou da cama, aonde sentara pra me observar, e foi calmamente até a nossa janela. Ela pôs a cabeça pra fora, e gritou para que Inu Yasha entrasse, pois já iríamos descer.

Eu olhei para ela com uma repreensão tatuada na testa por causa daquela mentira. Eu não estava nem vestida, ainda! Rin simplesmente deu de ombros, voltando a se sentar na minha cama, com suas pernas cruzadas.

- Se ele vai ser seu marido, vai ter que se acostumar a esperar...

Ela fazia piada porque já estava pronta! Há um bom tempo, aliás, e perfeitamente linda, como sempre. Ficar linda não era uma tarefa difícil para Rin, ela é naturalmente encantadora. Na verdade, todas as coisas pareciam mais fáceis para ela. Rin era minha heroína: Bonita, forte, delicada, inteligente, elegante, bem-sucedida, divertida... Tudo o que eu me esforçava para ser, também.

Era irônico perceber que justo eu, a mais desajeitada, desastrada e – devo admitir – sem-graça de nós duas, tenha tido sorte no amor, enquanto que ela... Bem, ela não.

Eu corri para vestir a roupa que já havia escolhido, assim que ouvi a voz de Inu Yasha vinda lá de baixo. Qualquer frase resmungada, que terminou com um "vamos logo", enfático.

Rin tornou a se levantar, rindo do meu nervosismo que ia me deixando ainda mais desajeitada. Eu já estava quase arrebentando o zíper da minha calça!

- Eu vou levar a sua mala lá pra baixo e tentar distrair o Inu, enquanto você termina aí, ta?

Dei a ela um sorriso agradecido e, no instante seguinte, eu já estava sozinha no quarto. Terminei de "enfiar" as roupas no meu corpo e peguei a minha bolsa favorita. Joguei lá dentro as coisas essenciais e o perfume que o Inu Yasha mais gostava, além do meu estojo de maquiagem. Tranquei a janela do meu quarto, com total certeza de que minha prima já devia ter feito o mesmo em toda a casa.

Ao passar pelo espelho, amaldiçoei o fato de não ter tido tempo suficiente para me maquiar. Naquele dia eu estava especialmente pálida e sem-graça. Amaldiçoei também o fato do meu namorado – não me levem a mal, eu o amo, mas não vou esconder a verdade – ser tão chato e não compreender que uma garota precisa de tempo pra ficar bonita. E que eu precisava de mais tempo ainda...

Eu olhei lá pra baixo e vi o Inu Yasha tentando furar o chão da nossa sala. Suas mãos estavam enfiadas bem fundo nos bolsos da calça, e ele caminhava impacientemente de um lado para o outro. Rin, por sua vez, estava sentada no sofá com as pernas cruzadas, e fingia folhear o último número da Vogue – acho que poucos além de mim sabem o quanto ela detesta a Vogue – enquanto ria do comportamento do meu namorado.

Quando eu finalmente apareci no topo da escada... Bem, esqueçam tudo o que eu disse sobre ser sem-graça e amaldiçoar meu namorado. A forma como Inu Yasha me olhou, como os lábios dele se abriram instantânea e involuntariamente, suas mão saíram dos bolsos e ficaram pendendo, inertes, ao lado do corpo... Era como se ele estivesse deslumbrado, perdido na contemplação da oitava maravilha do mundo. Só Deus sabe o quanto eu me senti terrivelmente linda, naquele instante.

Rin tossiu, inventando qualquer desculpa para ir até a cozinha, e nos deixando sozinhos em um dos nossos "momentos românticos".

Ele me ergueu pela cintura quando ainda faltavam dois degraus para que eu descesse toda a escada. Senti seus braços me puxarem de encontro ao corpo dele e, de repente, eu fui girada em 180º e depositada no chão, sem que o abraço sequer se afrouxasse.

Inu Yasha não é muito fã de elogios, mas eu aprendi, há muito tempo, a entender seus gestos. A maneira como ele me olhou nos olhos, como acariciou o meu rosto, indo do queixo a bochecha, para, em seguida, colocar uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e, principalmente, o beijo calmo e terno que ele me deu,não poderiam ser comparados a nenhuma palavra lisonjeira. Nos braços dele eu não era mais uma Relações Públicas baixinha, magrela e com cara de criança. Eu me tornava uma mulher; linda e desejável.

...

Viajar de carro sempre me pareceu terrivelmente maçante, mas não posso negar que foi extremamente agradável ter algumas horas para conversar com as duas pessoas mais importantes da minha vida, sem celulares tocando, ou a TV ligada... E principalmente, sem outras pessoas por perto.

Rin estava tão animada quanto uma criança que comeu açúcar demais, e Inu Yasha desconfiou disso a princípio, dado o motivo da nossa viagem, mas acho que depois ele acabou esquecendo. Nada de muito memorável aconteceu no caminho.

Eu tirei uns dois cochilos, ouvi muitas piadas – Rin provocava Inu Yasha com suas gracinhas sobre publicitários, ele dava o troco falando mal dos jornalistas, mas nenhum dos dois ousou fazer piadas de RP's - , Inu Yasha conectou seu MP3 no rádio do carro, e nós escutamos um repertório incrível de jazz, blues, soul e gospel, indo de Aretha a Kirk Franklin, além do novo CD da Joss Stone, que, por sinal, foi um presente meu, no último aniversário dele. Discutimos sobre comunicação social, área de trabalho dos três e paramos pra comer, num café de beira-de-estrada. Apenas um assunto foi evitado: aquele maldito casamento.

Quando finalmente chegamos, eu estava com a bunda dolorida, e bastante tonta por causa da viagem. Já era noite, então Rin resolveu que era melhor nós duas irmos direto para a casa dos meus pais, enquanto Inu Yasha iria para a dos pais dele, distante dois quarteirões.

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Não importa o quão longe você for morar; sempre guarde a chave da casa dos seus pais! Eu sabia que eles não estariam lá, já que planejaram o tal cruzeiro pela América do Sul há um ano. O casamento relâmpago do ex-namorado de Rin e filho de seus melhores amigos não os faria retornar – não mesmo.

Que bom que nunca foi preciso trocar as fechaduras, nesses seis anos desde que eu saí de casa, ou eu e Rin estaríamos na rua, agora. Ao invés disso, estávamos confortavelmente jogadas no sofá da minha mãe, enfiadas nos nossos pijamas, comendo pizza e vendo TV. Quer dizer... eu estava vendo TV, mas Rin, eu podia perceber, tinha a cabeça em outras coisas, possivelmente planejando as "traquinagens" da semana.

Eu acabei pegando no sono antes que o filme terminasse, e acordei com o sorriso zombeteiro de Rin, novamente me chamando de "Bela Adormecida", como de manhã. Ela guiou omeu corpo sonolento até o meu antigo quarto, decorado com dezenas de bichinhos de pelúcia e pôsteres do DiCaprio, me cobriu como se fosse minha mãe, me deu um beijo na testa e foi para o seu próprio quarto.

Naquela noite de sábado – tecnicamente, já era manhã de domingo, mas quem se importa? – eu adormeci relembrando as coisas que nos haviam levado a essa situação, adormeci de um sono pesado, sem sonhos...E assim terminou o sábado, primeiro dia da nossa "operação" – sendo que eu ainda desconhecia o plano. Estávamos em contagem regressiva, o casamento seria na manhã do sábado seguinte. Só nos restavam seis dias.

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Continua...

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A primeira parte está aí, lembrando que são, ao todo, seis partes.

Espero Reviews, com críticas e sugestões, além de absolutamente TUDO o que acharam dessa fic... Sejam detalhistas ^^

Até mais!